O último Evangelho David Gibbins



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CAPÍTULO 13
Durante alguns momentos, permaneceram no chão da câmara, em completa escuridão. Seus intercomunicadores eram praticamente inaudíveis com o alto-falante externo desativado, embora instintivamente falassem em voz baixa. - Jack, eu achei que você tinha dito que nada mais estaria vivo aqui dentro. - Costas se deslocou até a extremidade da câmara e olhou atentamente ao longo da linha do dromos, que era um corredor sagrado, em direção à gruta na outra extremidade. Jack arrastou-se atrás dele. Suas headlamps ainda estavam apagadas, mas tinham ativado os óculos para visão noturna dentro dos capacetes. Havia luz natural apenas suficiente para os sensores trabalharem, não suficiente para ser percebida a olho nu, mas bastava para que Jack percebesse a forma de Costas a sua frente, como uma mancha verde. Fazia sentido que houvesse luz vinda das fendas e fissuras que conduziam para fora, onde a sonda dos arqueólogos tinha penetrado dentro da gruta em algum lugar à frente deles.

- Você tem certeza de que era uma tocha?

- Positivo. Eu estava olhando na direção oposta enquanto você estava comungando com a morta. Uma olhadela para aquela coisa bastou para mim. Então eu vi o feixe de luz. Ele brilhou saindo de algum lugar do lado esquerdo da gruta.

- Ali é onde o outro túnel, aquele da casa das vestais, deveria entrar - disse Jack. - Mas só Deus sabe como eles entraram ali.

- Se nós pudemos fazê-lo, outra pessoa também pode.

- O mapa de Massimo mostrava entradas dentro da Cloaca no Fórum de Nerva e debaixo do Coliseu - disse Jack. - Seus rapazes foram trazidos de volta por uma galeria de escoamento alagada, não tinham o equipamento adequado. Alguém com o equipamento correto poderia ter encontrado um caminho, mas não um de seus rapazes. Ele teria nos contado.

- Isto é uma coincidência?

- Você se lembra de Elizabeth em Herculano, a oficial superintendente? Minha antiga amiga?

- O que ela tem a ver com isso?

- Elizabeth tentou me agarrar logo antes de deixarmos Herculano, tentou falar comigo, eu acho que ela estava assumindo algum tipo de risco, ao fazer isso tão publicamente, fora da entrada da Vila, com todos os trabalhadores por perto, mas isso foi um aviso. Eu não pensei muito sobre o assunto naquele momento. Não era nada que não soubéssemos, mas um aviso.

- Você acha que estamos sendo seguidos?

- Se for quem eu acho que são, eles terão tentáculos por toda parte. E se sabem que estamos aqui dentro, devem supor que estamos atrás de alguma coisa. E se, de alguma maneira, têm alguma idéia de atrás do que estamos, é um prêmio pelo qual morreriam.

- E matar em nome disso.

Jack ergueu-se atrás de Costas e olhou por cima de seu capacete. Tudo o que pôde discernir estava manchado de verde, com manchas mais escuras na extremidade. - A única coisa que podemos fazer é agir com desembaraço. É provável que seja só um sujeito. As entradas do Fórum e do Coliseu são bastante públicas. Poderia ser muito arriscado entrar mais de um sujeito, sem serem vistos.

- Talvez as autoridades fechem os olhos diante disso.

- Roma não é Nápoles - disse Jack. - Mas você pode estar certo. No momento, todos os que estão naquela gruta vão acabar se aborrecendo consigo mesmos por manter a tocha acesa quando saírem do túnel. Imagino que eles fizeram um passeio bastante perigoso, a menos que tenham o tipo de equipamento que nós temos. E quanto mais tempo ficarmos com nossas luzes apagadas, provavelmente mais eles irão supor que nós os descobrimos.

- Você quer dizer que devemos continuar como se não tivéssemos visto nada?

- Eles podem pensar que entramos por uma passagem lateral, um beco sem saída, e voltamos novamente. Acendemos nossas luzes, vamos adiante, encontrar o que estamos buscando. Vamos ter que acender as luzes de todo jeito, para subir naquela gruta e encontrar o lugar debaixo do santuário. Eles não vão iniciar qualquer ação contra nós até que encontremos algo.

- De acordo. Acenda as luzes, vire-as para cima por detrás como se estivéssemos acabando de chegar de algum lugar.

- Eu não estou armado, Jack.

- Eu tenho o martelo de rocha em minha mão direita - murmurou Jack. -Lição aprendida. Se eu não tivesse forçado Ben a sair de férias, ele teria insistido para que trouxéssemos a Beretta. Há até um bolso para ela no macacão. Fica para a próxima vez.

- Próxima vez?

Acenderam suas headlamps - depois ficaram em pé no corredor e começaram a andar para frente, passando pela borda da piscina através da qual tinham subido. Depois de cerca de dez metros, alcançaram o final do túnel e a extremidade da gruta. Giraram seus feixes de luz ao redor, e puderam ver que se tratava de uma grande caverna natural, que se estendia pelo menos vinte metros para cima. À direita havia uma antiga escada talhada na rocha, alargando os contornos naturais da caverna, os degraus de tufo calcário tinham sofrido erosão de maneira tão violenta que estavam inclinados. À meio caminho, subindo a caverna, havia uma série de fendas muito grandes e deslocamentos na rocha, e podiam ver a continuação das escadas que prosseguiam muito acima dali, perto do teto, acima de um precipício recortado. Diretamente abaixo de uma ponta aguçada no chão da caverna, puderam ver uma abertura idêntica ao canal do aqueduto pelo qual tinham passado anteriormente, com pequenos regatos fluindo dentro dele. - Este é o outro canal - murmurou Jack, examinando cuidadosamente o que envolvia a rocha ao redor da entrada. - Você pode ver alguma coisa?

- Ainda não.

- Mas agradecemos Massimo e à corda que nos deu. Ele tinha razão. Parece que vamos ter que escalar a rocha.

- Você vai. Eu vou ficar escalando ao redor da base da caverna, explorando em busca do tesouro perdido, certo? Posso apagar minha luz, para ter um melhor contraste de luz, você sabe, para ver aquelas câmaras secretas. Algumas vezes, você pode me perder de vista.

- Tenha cuidado. É provável que este cara esteja armado.

- Ele não atirará até que encontremos o tesouro.

- Esta é a teoria.

- Então não o encontre.

- Eu lhe direi quando o encontrar - disse Jack. - Em voz bem alta.

Jack tirou o rolo de corda do ombro com presteza e começou a subir as escadas. Logo perdeu Costas de vista em meio às saliências do rochedo, e seu feixe de luz desapareceu. Jack odiava a sensação de vulnerabilidade, sabendo que havia olhos espreitando cada um de seus movimentos. Costas não era assassino, e não era uma figura das mais imperceptíveis. Jack parou e olhou para cima ostensivamente. Se jogassem as cartas direito, havia uma chance. Mas algum tipo de prova final era inevitável. Ele se enrijeceu e continuou a subir, concentrando-se apenas na subida. Depois de trinta passos, alcançou o final, o lugar onde o terremoto arrancara uma grande seção da rocha, criando uma face íngreme com pelo menos dez metros de altura. Ele inspecionou o rochedo, avaliando cuidadosamente os pontos onde podia apoiar-se. O rochedo podia ser escalado. Ele amarrou a corda na sua correia, depois soltou o equipamento do rebreather das costas, colocando-o no degrau atrás dele, soltou as mangueiras do seu capacete e ergueu o visor. Pela primeira vez desde que sentiu o bafo fétido do dreno uma hora antes, ele saboreou o ar. Estava úmido e quente, e Jack podia ouvir água gotejando ao seu redor. O temporal que Massimo havia predito devia ter começado. Ele se impulsionou para a face da rocha. O tufo calcário parecia que podia facilmente se reduzir a pó, mas ele sabia que era forte, pedra vulcânica boa, onde podia se agarrar. Ergueu-se, com as pernas e os braços abertos sobre a rocha, usando seus longos membros para encontrar apoios. Cerca de cinco metros acima, bateu o primeiro prego grande com o som reverberando através da caverna. Bateu um outro prego três metros acima. Depois de mais dois metros, ele se encontrou acima do precipício principal, com uma saliência à sua frente e depois havia escadas para cima, que continuavam dentro da face do rochedo. À direita, vislumbrou uma fissura larga com decoração de mosaicos, conchas incrustadas. Devia ser a fissura que os arqueólogos tinham encontrado debaixo da Casa de Augusto. Agora sabia com certeza absoluta que as escadas conduziam para debaixo do perdido Santuário de Vesta no Palatino, para a câmara secreta que eles estavam procurando, e que estava apenas a alguns metros à frente.

Ele se virou, martelou um último prego grande, logo acima da borda do rochedo íngreme, depois amarrou a corda em sua correia e por debaixo das costas, descendo pela corda os primeiros poucos metros. O regato abaixo do túnel que conduzia para o fórum havia aumentado muito, era agora uma torrente. A água da chuva devia ter feito com que a água do reservatório da fonte transbordasse, e o túnel estava agora cumprindo a tarefa que Cláudio havia designado para ele. Jack fez uma pausa, respirou profundamente. - Está aqui. - Gritou, tão alto quanto podia.

- Costas, eu o encontrei. Estou descendo.

Ele desceu pulando mais dois metros. De repente, alguém agarrou seu tornozelo esquerdo como se fosse um torno, e ele começou a girar descontroladamente. Ele olhou para baixo, ainda segurando a corda com a mão direita. Uma figura vestindo um macacão de mergulho estava olhando para ele, usando uma máscara de mergulho bem ajustada, as pernas em volta da corda logo acima da escada. Uma mão segurava o tornozelo de Jack, a outra uma pistola com silenciador, dirigida para a cabeça de Jack. - Dê o que encontrou para mim - disse o homem friamente, com um sotaque italiano pesado. Jack olhou para baixo e não disse nada. Uma bala passou perto de seu rosto, em seguida o som abafado do silenciador. Um tiro de advertência. Jack percebeu algo com o canto de seu olho, uma forma. Ele girou, como se tivesse perdido o equilíbrio, e mirou a cabeça do homem, uma pancada assassina. Mas o braço que segurava seu tornozelo estava mais próximo, e ele atingiu o pulso do homem, fazendo com que a pistola caísse girando dentro da caverna. Simultaneamente, Costas atirou-se sobre as pernas do homem, trazendo-o abaixo com um enorme estrondo. O homem tentou erguer-se, tropeçou, caiu e bateu no canal abaixo com um estalido repugnante, e desapareceu, e foi levado de roldão pela torrente. Jack se deixou cair para ajudar Costas, que também tinha retirado seu respirador e o visor. - Você está bem?

- Ótimo - arquejou Costas. - Eu só queria que você acertasse aquele martelo na testa do pequeno bastardo.

- Não acho que ele vai nos perturbar mais - disse Jack.

Costas limpou um pouco de sangue de sua boca e olhou para baixo. - Ele foi verdadeira e completamente expulso. - Ergueu o olhar novamente, para a face do rochedo íngreme. - Certo. Puxe-me. Isto você pode fazer por mim. Quanto antes pegarmos o que viemos procurar e sairmos daqui, melhor.


Vinte minutos mais tarde, estavam em um espaço estreito acima do lance final de degraus talhados na rocha. Jack se espremeu em direção à fenda até onde conseguiu ir, os braços erguidos acima dele dentro da cavidade da câmara. Ele não pôde perceber nada. Insinuou-se um pouco mais, mas não adiantou. Sua cabeça estava apertada na lateral contra o topo da fenda, e tudo que conseguiu ver foi a lateral da fissura entalhada a alguns centímetros de seu rosto. Tateou cegamente com as mãos, mas havia somente um espaço vazio. Arqueou as costas, empurrando fortemente, e sentiu que se movia insignificantemente à frente, um ou dois centímetros. Subitamente, seus dedos encontraram uma resistência. Rocha molhada, alisada, diferente da rocha irregular da fissura. Separou as mãos e tateou ao redor. Era uma câmara circular, com cerca de sessenta centímetros de largura, escavada na rocha viva. Ele a percorreu com os dedos até onde conseguiu alcançar, e tocou a base da câmara. Passou lentamente os dedos ao redor da borda. Nada.

Ela estava vazia.

Jack escorregou ligeiramente, e olhou atentamente para a face apenas visível debaixo de seus pés. - Posso tatear a câmara. - Sua voz soou peculiar, ressoando na câmara, mas depois morrendo na fissura. - É um buraco cilíndrico furado dentro da rocha. Posso tatear tudo ao redor da base. Não há nada dentro.

- Tente no meio. - A voz de Costas soava distante, abafada. - Talvez haja uma outra câmara menor escavada abaixo dela.

Jack virou até onde pôde para a direita, um ou dois centímetros novamente. Lentamente, estendeu a mão esquerda até o outro lado, o fundo da câmara. Ela estava molhada, com pequenas saliências estreitas e compridas e sulcos, como se tivesse sido terminada de maneira tosca. Ele alcançou o outro lado, Subitamente, puxou a mão para trás novamente. Havia uma regularidade nos sulcos.

Ele tateou ao redor, os olhos fechados, seguindo as marcas, tentando descobrir o que estava tateando. Não havia dúvida acerca daquilo. - Você tem razão - ele disse excitado. - Posso sentir o contorno de um outro círculo, um círculo interior no chão da câmara. Acho que é uma tampa, uma tampa de pedra. Posso sentir marcações nela.

- Uma alça? - perguntou Costas.

- Não. Ela é completamente plana em cima. Não faço idéia de como vamos abri-la.

- E aquelas marcações?

- Eu pude contar vinte por enquanto - disse Jack. - Espere. - Ele recuou com dor quando apertou o capacete contra a fenda, tentando sentir cada parte da superfície da tampa. Percorreu tudo ao redor com a mão. - Não, vinte e três. Elas estão em círculo, ao redor da tampa. São letras, letras salientes talhadas em pequenos blocos, colocados levemente dentro da superfície da pedra. É curioso. De fato, eu posso pressioná-los ligeiramente.

- Você consegue lê-las?

Jack passou os dedos ao redor das letras. Subitamente, ele percebeu. - É o alfabeto latino, o alfabeto do final da República Romana e do início do Império. Vinte e três letras. De alfa a zeta.

- Jack, eu acho que o que você conseguiu aí é uma combinação de fechadura. Estilo romano.

- Hein?

- Se não há uma alça, a tampa deve ter algum tipo de abertura por meio de mola, colocada por baixo para empurrar a tampa para cima. Eu acho que é uma mola de bronze, colocada ao redor da borda da câmara interior. As letras devem formar uma combinação para abrir a fechadura, provavelmente está ligada a pinos de pedra ou de metal que seguram a tampa dentro da rocha. A combinação pode ser ajustável, permitindo que a pessoa a use para modificá-la a cada vez com um novo código. Pressione a combinação correta, e pronto, a tampa salta fora.



- Vinte e três letras - Jack murmurou. - E não há jeito de saber quantas é necessário pressionar. Nem quero começar a calcular o número de possibilidades.

- Vamos começar com o óbvio - disse Costas. - Foi Plínio, o Velho, quem colocou o manuscrito aqui, certo? Qual era seu nome completo?

Jack pensou por um momento. - Caius Plinius Secundus.

- Muito bem. Pressione as iniciais.

Jack visualizou o alfabeto latino em sua mente, e passou o dedo ao redor do círculo até chegar em cada letra. C, P, S. Ele as pressionou na ordem correta, e elas abaixaram muito ligeiramente, mas não mais. Tentou de novo, depois em uma ordem diferente. Ainda nada.

- Não serve - disse Jack.

- Então, seu palpite é tão bom quanto o meu - disse Costas. - Você também pode tentar combinações ao acaso. Nós não devemos ficar aqui mais do que uma semana.

- Não. Espere. - A mente de Jack estava acelerando. - É possível ter o palpite certo. Vamos pensar sobre isto. Plínio recebeu o documento de Cláudio. Ele prometeu escondê-lo fora da casa de Cláudio. Plínio mantém a sua promessa, e nunca adia nada do que precisa fazer. Ele tinha muito mais coisas a fazer, dirigir a base naval, escrever seus livros. Ele leva sua veloz galera direto para Roma, subindo o Tibre direto, vem direto para cá, para o cofre de depósito de segurança do Almirantado, retorna no mesmo dia para Misenum na baía de Nápoles, justo a tempo de pegar a erupção. O nome de quem está fresco em sua memória?

- Você quer dizer o nazareno?

- Não. Não é o suficiente para um código, e ele pode ser muito óbvio. Eu penso no próprio Cláudio. Tibério Cláudio Nero Germânico. - Jack fechou os olhos novamente, movimentou sua mão sobre as letras e pressionou-as. T, C, N, G. Nada. Ele repetiu. Novamente nada. Ele exalou de maneira impetuosa. - Não serve.

- Talvez você tenha esquecido uma letra. Imperador?

- Imperador. - Jack encontrou a letra, depois a pressionou. Ainda nada. Ele pressionou de novo, depois de repente respirou rapidamente. - Não. Não Imperador. Cláudio não era mais imperador. Ele precisou se esforçar para dizer isto a Plínio. Não um imperador. Ele tinha se tornado uma outra coisa. Algo que devia ter divertido a ambos.

- Cláudio, o Deus - murmurou Costas.

- Divus. - Jack procurou de novo ao redor e encontrou a letra D. Pressionou-a tão fortemente quanto podia. Algo cedeu, e a letra abaixou pelo menos dois centímetros. De repente, a tampa pulou para cima, e Jack rapidamente retirou a mão para impedi-la de ficar presa. - Acertamos - ele disse excitado. Colocou a mão onde tinha estado a tampa. Pôde sentir a espiral de uma pesada mola de bronze, agora segurando a tampa por cerca de trinta centímetros ou mais acima da abertura que ela tinha fechado. Ele inseriu a mão. Sentiu uma forma cilíndrica, estava solta no buraco. Seu coração começou a bater fortemente. Retirou-a, desembaraçando-a das espirais de metal da mola. O cilindro era pesado para seu tamanho, feito de pedra, cerca de vinte e cinco centímetros de comprimento por quinze centímetros de largura. - Eu o peguei - ele disse, puxando o cilindro para fora da câmara e para dentro da fissura, depois o segurou sob sua headlamp. - Isto é egípcio, um vaso de pedra egípcio feito à mão. Nós fizemos uma descoberta valiosa, Costas. Este vaso é idêntico, em sua manufatura, àqueles jarros grandes na biblioteca de Cláudio onde se encontravam os manuscritos em papiro. A tampa ainda está selada com resina. Parece que Plínio não tocou nela depois. Nós podemos estar com sorte. - Passou o cilindro para baixo, para Costas, que se estirou do túnel embaixo para alcançá-lo. Jack desembaraçou-se da fissura, e os dois se agacharam, curvando-se sobre o cilindro no escuro, seus feixes de luz iluminavam a superfície de mármore mosqueado enquanto Costas virava o objeto nas mãos.

- O fazemos agora? - ele perguntou.

- Nós o abrimos.

- Estas não são condições laboratoriais controladas - disse Costas.

- Minha chamada à ordem. - Jack pegou o cilindro, pegou a tampa com uma mão e o corpo do jarro com a outra, e girou. Ele abriu facilmente, a antiga resina ao redor do lacre se rompeu e caiu no chão do túnel. Jack retirou a tampa e a depositou no chão, depois olhou atentamente dentro. - Não há papiro - ele disse, com a voz arrasada. Mas havia outra coisa, apertada lá dentro. Jack enfiou a outra mão, e retirou um objeto de pedra de superfície plana de cerca de quinze centímetros de comprimento e dez de largura, mais ou menos do tamanho de um pequeno espelho utilizado para passar cosméticos. Ele era constituído por duas folhas unidas, com uma dobradiça de um lado e um fecho de metal do outro. Jack o revirou em suas mãos e depois colocou o polegar contra o fecho. - É uma tabuleta de escrita - ele disse excitado. - Um díptico, duas folhas que se abrem como um livro. A superfície interior deve estar coberta com cera.

- Há alguma chance de que o que está aí dentro possa ter sobrevivido? - Perguntou Costas.

- Este pode ser um outro momento Agamenon - disse Jack. - O que está escrito pode ainda estar aí, mas a exposição ao oxigênio pode degradá-lo instantaneamente. Eu vou abrir. Não podemos nos arriscar a esperar.

- Estou de acordo com você. - Costas pegou um caderno de apontamentos à prova d’água e ajoelhou-se ao lado de Jack, pronto para escrever. Jack pressionou o fecho e sentiu as folhas de pedra se mexerem. - Aqui vai - sussurrou. Ele abriu a tabuleta. As superfícies internas eram sólidas, vítreas. Era de cera, lisa e perfeitamente preservada, mas ficando escura a cada segundo. Havia algo escrito nela. - Rápido - disse Jack. Passou a tabuleta para Costas, e agarrou o caderno de anotações, escrevendo febrilmente tudo o que via. - Feito - ele disse depois de menos de um minuto. A cera ainda estava lá, mas o que estava escrito na superfície tinha virtualmente desaparecido, tinha ido embora como um fantasma. Costas fechou a tabuleta e imediatamente envolveu-a em uma folha de papel bolha e um saquinho à prova d’água, depois a enfiou no bolso do peito. Ele olhou atento para Jack, que olhava fixamente para o caderno de apontamentos. - E então?

- Está em latim. - Jack fez uma pausa, pondo em ordem seus pensamentos. - Seja quem for que escreveu isto, não era um nazareno da Galiléia. O nazareno só poderia ter escrito em aramaico, grego talvez.

- Então, isto não é de Cláudio, o documento precioso.

- Ele pode ter sido escrito por Cláudio, ou pode ter sido escrito por Narciso - Jack murmurou. - É impossível dizer por esta escrita em uma tabuleta de cera se ela é a mesma encontrada no estúdio de Cláudio e escrita por Narciso. Especialmente quando ela desaparece diante de seus próprios olhos. - Deu uma olhadela para Costas. - Não, este não é o documento que estamos procurando. Também não é o fim de nossa pista. - Ele arrancou a página do caderno de apontamentos e transcreveu suas palavras rabiscadas de maneira legível numa nova folha, depois a segurou sob seu feixe de luz de modo que ambos pudessem ler:


Dies irae

Dies illa solvet saeclum infavilla

Teste David cum Sibylla
Inter monte duorum

Qua respiciatam Andraste regia

Uri vinciri verbari

Ferroque necari
- Poesia? - perguntou Costas. - Virgílio? Ele escreveu sobre a Sibila não foi?

- Seu velho demônio astuto - murmurou Jack.

- Quem?

- Eu acho que Cláudio estava mantendo a sua palavra, mas ele também estava disputando um jogo, e acho que a Sibila também disputava jogos com ele.



- Continue.

- Bem, o primeiro verso é bastante fácil. Trata-se da primeira estrofe do Dies Irae, o Dia da Ira, o hino que costumava ser fundamental na Missa de Réquiem da Igreja Católica Romana. Este é um achado incrível, porque a primeira versão dessas linhas data do século XIII. Muitas pessoas pensam que era uma criação medieval, especialmente com aquelas palavras em rima que não são encontradas em versos latinos antigos, em Virgílio por exemplo. - Jack escreveu às pressas um texto em inglês ao lado do que estava em latim. - Eis como ele é comumente traduzido, mantendo a métrica e a rima:


Dia da ira e do terror surgindo!

Céu e Terra em cinzas se consumindo.

A palavra de David e a destruição prevista pela Sibila se realizando!
Costas assobiou. - Isto soa como uma premonição da erupção do Vesúvio.

Jack fez um aceno de cabeça concordando. - Eu acho que o que temos aqui é uma profecia da Sibila, dada para Cláudio em Cumas. Ela deve ter dado estas primeiras linhas para outros, que se lembraram delas e as preservaram secreta¬mente até elas ressurgirem na liturgia medieval católica.

- Quem é David? - perguntou Costas.

- O fato de descobrir que estes versos são tão antigos é que é a coisa fascinante, eles são do primeiro período cristão. Habitualmente, pensa-se em David como uma referência a Jesus, que se supunha ser um descendente do rei David dos judeus. Se isto é verdade, então confirma que a Sibila sabia sobre Jesus, que a associação da Sibila com o início do cristianismo, de repente, está baseada em um fato sólido.

- E a segunda estrofe?

- Esta é a nossa pista. Ela tem toda a qualidade típica de uma forma de expressão da Sibila, um enigma escrito em folhas diante da gruta em Cumas. Eis como eu a traduzo:


Entre duas colinas

Onde a rainha Andraste jaz,

Para ser queimada pelo fogo, para ser aprisionada por correntes,

Para ser açoitada, para morrer pela espada.
- O que significa? - perguntou Costas.

- A segunda parte é fácil. Extraordinária, mas fácil. Ela é o sacramentum gladiatorum, o juramento dos gladiadores. Uri, vinciri, verberari, ferroque necari. Juro ser queimado pelo fogo, ser aprisionado por correntes, ser açoitado para morrer pela espada.

- De acordo - disse Costas baixinho. - Você não pode soltar nada de novo em cima de mim. Gladiadores. Estou familiarizado com isto. E a primeira parte?

- Andraste era uma deusa britânica, de antes de Roma. Sabemos sobre ela por intermédio do historiador romano Dio Cássio, que diz que Andraste foi invocada por Boudica antes de uma batalha. Você já ouviu falar dela?

- Boadiceia, como era chamada antigamente? É claro. A temperamental rainha ruiva.

- Ela conduziu a revolta contra a ocupação romana em 60 d.C. A mais sangrenta batalha na história britânica. - Jack olhou novamente para a palavra, depois subitamente experimentou um momento de total clareza, como se estivesse acabando de acordar. - É claro - ele disse com voz rouca. - Isto é o que a Sibila quer dizer. A rainha sacerdotisa. Boudica era Andraste. - Rapidamente, examinou de novo as linhas finais. - O juramento dos gladiadores. Ad gladium, pela espada. Nós estamos sendo orientados para uma arena de gladiadores, um anfiteatro.

- O Coliseu? Aqui em Roma?

- Há muitos outros. - Jack olhou de novo. - Um lugar construído entre duas colinas, um lugar onde jaz uma grande rainha. - Subitamente, ele olhou atentamente para Costas, sorrindo amplamente.

- Conheço este olhar - disse Costas.

- E eu sei exatamente para onde estamos indo - disse Jack triunfante. -Venha. Provavelmente você não vai querer ouvir o que tenho a dizer antes de alcançarmos a luz do sol.

Costas estreitou os olhos e olhou desconfiado para Jack. - Recebido e entendido. - Ele tomou fôlego, e ambos se agacharam e ambos desceram novamente as escadas, degrau por degrau, em direção à face do rochedo íngreme, segurando na corda e colocando seus rebreathers na parte mais baixa da escada. Ambos vigiaram o túnel que havia ali, por onde seu assaltante desaparecera, mas o fluxo de água aumentara mais ainda e claramente não havia chance de alguém entrar novamente vindo daquela direção. Desceram pesadamente os degraus que restavam para atingir o chão da caverna e a beirada da água, e começaram a verificar os seus equipamentos de respiração antes de colocar e prender seus capacetes. Costas evitou cuidadosamente olhar no corredor para a macabra figura sentada na gruta sagrada, mas Jack ficou paralisado olhando para ela, subitamente consciente da monumental descoberta que haviam feito. A piscina de água escura que conduzia de volta para a Cloaca Máxima parecia menos medonha agora, um caminho para fora do subterrâneo em lugar de um portal para o desconhecido. Costas ergueu as duas mãos, pronto para prender seu visor, depois olhou para Jack. - Nós vamos acabar conhecendo o velho Cláudio bastante bem, não vamos?

- Ele se tornou um amigo - disse Jack, sorrindo. - Lá dentro eu realmente senti que ele estava conosco, incitando-nos a continuar.

- Então, ele não confiava em Plínio, afinal de contas.

- Eu acho que confiava nele como amigo, mas ele sabia que a curiosidade poderia tomar conta dele. Se Plínio tivesse sobrevivido à erupção do Vesúvio, eu desconfio um pouco de que teria voltado aqui algum dia e aberto o cilindro. Assim, ele lhe deu uma charada. Uma profecia da Sibila. O que nenhum deles sabia era que o Vesúvio acabaria com aquela história abruptamente. Aquela tabuleta de cera ficou sem ser lida desde o dia em que Plínio a depositou quase dois mil anos atrás.

- Para nós a descobrirmos.

- Acho que era o que Cláudio queria. Não que Plínio descobrisse a pista, não algum outro romano, mas alguém em um futuro distante, alguém que seguisse os indícios e revelasse seu tesouro quando o perigo tivesse passado e ele pudesse ser revelado com segurança.

- O que ele não tinha previsto era que a ameaça nunca terminaria - murmurou Costas. - Então, aonde vamos agora?

Jack não disse nada, mas olhou para Costas com uma expressão de pesar.

- Eu sei - disse Costas com resignação. - Eu sei. Um outro buraco no chão.

- Precisamos encontrar uma tumba perdida há muito tempo.





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