O último Evangelho David Gibbins



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CAPÍTULO 12

A tampa da boca de lobo, acima de Jack deslizou para o seu lugar com um tinido ressoante, e ele e Costas ficaram completamente separados do forte barulho de tráfego que havia em Roma do lado de fora. Tinham dado o sinal de aprovação final para Massimo e para os dois integrantes da equipe de trabalho da IMU alguns momentos antes, e Jack se sentiu tranqüilizado porque os outros ficariam do lado de fora da boca de lobo, esperando o retorno deles. Mas ele havia assumido um risco calculado, e agora que estavam enterrados na Cloaca Máxima ele se viu mais uma vez ponderando as probabilidades. Não havia assistência de segurança, nenhum mergulhador completamente em alerta pronto para auxiliar em um resgate. Era novamente um outro risco calculado, como o do mergulho deles no navio naufragado de são Paulo. Mas Jack sabia, pelas experiências difíceis por que havia passado, que a assistência de segurança era mais psicológica do que prática, que os problemas eram solucionados com maior freqüência no local ou então não eram, e sua habilidade para se sair bem de um mergulho perigoso dependia dele mesmo somente e de seu companheiro. E se eles utilizassem mais equipamento e pessoal isto tornaria sua operação mais visível, e gastaria um tempo precioso que quase não podiam se permitir. Olhou para Costas agachado atrás dele, depois dirigiu sua luz para a escuridão da escada em espiral. Era assim. Eles estavam sozinhos novamente.

- Irei primeiro - disse Costas pelo intercomunicador.

- Eu achei que esta não era exatamente a sua especialidade.

- Decisão tomada. Estou sempre pronto para experimentar uma nova bebida. Você está de acordo?

- Conduza.

Costas ergueu-se e desceu fazendo barulho pelas escadas na frente de Jack, o feixe halogênio de sua headlamp oscilando ao longo das antigas paredes de alvenaria. Estavam usando os mesmos macacões da IMU que usaram para mergulhar até o naufrágio, todo feito de Kevlar reforçado e impermeável que lhes serviram bem tanto no Ártico como no mar Morto, com poder de flutuação e sistemas de ar condicionado. Os capacetes amarelos com máscaras que cobriam completamente o rosto continham um mostrador digital de telefone que mostra os dados de apoio à vida, inclusive a composição da mistura de gás computadorizada alimentada pelos rebreathers compactos de circuito fechado em suas costas. A única concessão que se permitiram para estas circunstâncias fora do comum foram os equipamentos profissionais para escalada que Massimo insistiu a que eles levassem. Ajustados e testados antes que colocassem seus rebreathers alguns minutos antes.

- Isto me lembra de quando nós entramos naquele submarino afundado no mar Morto - disse Costas, ao andar com passos pesados ao redor das escadas. - Sinto como se pudesse cortar o ar com a faca.

Jack engoliu com força. Imediatamente antes de fechar seu capacete tinha aspirado uma lufada de ar fétido que vinha de baixo e ainda sentia o gosto nauseante na boca. A última coisa de que necessitava agora era que este ar entrasse dentro de seu capacete. Esta era uma realidade humana que os engenheiros da IMU falharam em considerar. Ele engoliu novamente. - Bem que os sujeitos que desenham o equipamento podiam ter feito uma sacola para vômito.

- Eu estava pensando na mesma coisa.

Depois de cerca de trinta degraus, a escada em espiral terminava em uma pequena plataforma diante de uma porta em forma de arco, escurecida e encharcada com uma substância viscosa. Jack aproximou-se e ficou atrás de Costas e ambos orientaram suas headlamps para a porta. - Aqui está - disse Jack, tentando soar animado. - O Grande Dreno. - Adiante deles, o lance direto de escadas conduzia para baixo, para dentro de um largo túnel, com pelo menos oito metros de diâmetro e cinco metros de altura, construído de pedra e tijolo, completamente coberto com alga. Enchendo o túnel pela metade havia uma massa de líquido negro que se movia, investindo na direção deles, vindo da escuridão à frente e fora de vista abaixo. Jack ligou o seu sensor auditivo externo, e sua cabeça encheu-se com o som quase ensurdecedor da torrente. Ele o desligou novamente e apontou para a corda fluorescente cor de laranja que começava onde as escadas desapareciam debaixo da água. - Esta deve ser a corda de que Massimo falou - ele disse. - Ela ficou amarrada, e nós podemos nos arrastar ao longo dela. Há uma saliência na rocha a cerca de um metro e meio abaixo dela que comumente fica acima da água, mas tenho a impressão de que iremos andar a vau. A entrada para o Velabrum fica a apenas vinte metros adiante de nós.

- Vai ser um inferno de um passeio por um parque aquático se cairmos dentro.

- O túnel desemboca no Tibre, mas Massimo diz que há uma grande grade de metal no caminho. Pode não ser um final feliz.

Costas andou com cuidado, dando o primeiro passo no túnel. Algo largo e escuro passou a grande velocidade ao longo de uma saliência estreita e comprida na frente dele. - Parece que Massimo deixou um de seus amigos aqui embaixo - disse Costas com desgosto.

- Pelo menos não deveremos ver nenhum destes lá onde estamos indo - dis¬se Jack, que estava atrás. - De acordo com Massimo, o conduto que conduz por baixo do Palatino é puro, não contém matéria suficiente para sustentar formas de vida mais superiores.

- Isto é tranqüilizador - disse Costas. Continuaram a descer lentamente, depois alcançaram a corda fluorescente. Costas movimentou sua headlamp sobre a torrente impetuosa logo abaixo deles. Ela se parece com o café expresso - ele murmurou. - Aquela espuma em cima.

- Schiuma, você quer dizer - disse Jack. - É exatamente como Massimo a chama.

Costas colocou um pé dentro da torrente, segurando fortemente a corda com as duas mãos. O seu pé criou um amplo rastro, com uma corrente de espuma passando dos dois lados. Ele o levantou, e o que parecia ser espuma marrom, saiu com ele, mas era uma massa viscosa de cor marrom. Ele empurrou o pé para trás e balançou-o violentamente. - Jack, esta foi quase a pior coisa que já me aconteceu - ele disse, ofegante. - Para que passar por isto? Na Sicília há águas claras e cristalinas. Eu poderia ter ficado deitado à beira de uma piscina, tirando longas férias e muito bem merecidas. Mas não, nós viemos mergulhar em um esgoto.

- É fascinante. - Jack estava se agachando no degrau atrás de Costas, olhando atentamente para uma pilha de detritos lavados logo acima da torrente. Costas deu uma virada, com o pé ainda na água. - Você já encontrou o que queria? Podemos ir embora agora?

Jack puxou para o lado alguns ossos de roedores, e segurou no alto um pedaço grosso e enlameado de cerâmica. - Um pedaço quebrado de uma ânfora romana. Tipo Dressel 2-4, a menos que eu esteja enganado. O mesmo tipo que encontramos no navio naufragado, e em Herculano. O vinho que Cláudio teria bebido. Este material está em toda parte. - Ele colocou a outra mão dentro da lama e resmungou. - Há mais aí dentro.

- Deixe aí, Jack.

Jack fez uma pausa, depois retirou a mão e se ergueu. - De acordo. Só estou sendo um arqueólogo.

- Guarde a sua força para a câmara secreta. Se chegarmos lá. - Costas pegou o rolo de corda de seu ombro e prendeu uma extremidade ao prego grande e forte que segurava a corda fluorescente, e a outra extremidade na correia do seu equipamento para escalada. - Acho que podemos sacrificar uma corda aqui por segurança - ele disse. - Eu me recuso a terminar os meus dias em uma torrente de merda. Fique firme atrás de mim. - Virou-se de novo e foi descendo até que o líquido ficasse quase na altura do peito, salpicando seu visor com espuma. - Eu estou no último degrau - ele disse. - Vamos em frente agora. - Jack o seguiu, sentindo a pressão da água empurrar com força suas pernas e seu peito. Começaram se movimentar para diante com muita dificuldade e lentamente, poucos centímetros de cada vez. A sensação era de que a água era pesada, estava saturada, e Jack podia ver correntes iridescentes de matéria oleosa na superfície, depois mudando para manchas grandes de marrom e cinza, uma cor camuflagem. Tentou concentrar nas paredes, no teto, no trabalho em pedra que tinha sido feito ali bem antes do Império Romano quando o Velabrum foi tampado pela primeira vez. Virou a cabeça para trás e percebeu que o túnel fizera uma ligeira curva para a direita. Os degraus que tinham descido, da escada em espiral, estavam agora fora do alcance da vista. Ele virou-se novamente para frente e retomou a caminhada difícil, começando a ofegar muito com o esforço. Olhou para baixo para verificar seu carabiner na corda e depois ergueu o olhar. Costas tinha desaparecido. Jack pestanejou muito e limpou sua máscara. Costas ainda permanecia desaparecido. Durante um instante horrível, Jack pensou que Costas devia ter caído dentro da torrente, e segurou-se com mais força na corda grossa e estriada enquanto estava se movendo. Depois, viu uma luz embaçada saindo da parede cerca de cinco metros a sua frente, e um capacete amarelo apareceu,

- Este é o túnel lateral - disse Costas. - Amarrei a outra extremidade da corda a um prego forte lá dentro. - Jack ergueu-se contra a corrente para dar os poucos passos finais, então Costas o segurou e o puxou para dentro. Os dois homens se sentaram por um momento apoiados contra a parede lateral do túnel, ofegando. Jack sugou a bebida energética hidratante armazenada dentro de seu macacão, lavando a boca e soltando-a em seguida para se livrar do gosto desagradável. Ele olhou em volta. Estavam em um túnel menor, mas assim mesmo com três metros de altura e três metros de diâmetro, com um teto arqueado em forma de abóbada semi-cilíndrica e a superfície inferior plana, um canal cheio de água fluindo para o centro. O fluxo estava saindo de dentro da Cloaca Máxima, e a água era clara.

- Está na hora de uma verificação final e real - disse Costas, olhando para o seu aferidor de pulso. - Aqui deve ser ele. O Velabrum. Ele está orientado direto na direção do monte Palatino, e posso ver a corda de Massimo passando adiante ao longo do lado direito até onde minha vista alcança, seja onde for que ela se detenha.

Jack colocou a mão na lateral do túnel. - Esta é uma peça de engenharia impressionante - ele disse. - A Cloaca Máxima, o Grande Dreno, mostra uma alvenaria e um trabalho em pedra de vários períodos diferentes desde que foi tampado no século VI a.C. Mas este túnel é diferente, é uma construção de um só período. Blocos de pedra retilíneos e regulares na entrada. Não conheço construção melhor do que esta. Eu tinha dito que estávamos andando na direção de um dos maiores canais aquedutos feitos pelos imperadores.

Costas olhou para Jack através de seu visor. - A respeito deste lugar, Lupercal, Jack. A caverna de Rômulo e Remo. Não tenho nenhum indício sobre o que você pretende.

- Perdão por apresentar isso de repente para você. Massimo e eu falamos sobre esse assunto na conferência em Londres, logo depois que a descoberta da Casa de Augusto foi anunciada. Eu lhe disse que gostaria de vir e dar uma olhada, de me juntar ao seu grupo de espeleologia urbana. Quando percebi ontem que estávamos vindo para Roma, foi o pretexto perfeito. Assim que me dei conta de que Plínio havia escondido o manuscrito debaixo do Santuário de Vesta em Palatino, vizinho à Casa de Augusto e do local onde o Lupercal foi encontrado. Odeio manter Massimo no escuro, mas talvez ele nos perdoe assim que lhe contarmos o papel que ele desempenhou.

Costas resmungou, ergueu-se e começou a ir novamente para frente, o regato de águas claras que saía da escuridão adiante se erguia sobre seus tornozelos.

- Odeio dizer isto, Costas, mas você está arrastando alguma coisa.

Costas se virou, olhou fixamente, e fez um barulho estrangulado. Uma mistura de filamentos pegajosos de gavinhas marrons se estendia de seu pé esquerdo até a Cloaca, e aprisionada no meio delas havia uma forma com um longo rabo preto se retorcendo. Costas sacudiu o pé freneticamente, e a massa toda escorregou dentro do dreno e para fora da vista. - Nunca mais, Jack - ele disse. - Juro por Deus que você nunca mais vai fazer isso comigo novamente.

- Prometo que vou recompensá-lo. O próximo mergulho será puro deleite.

- Primeiro temos que sair da versão do inferno. - Costas retomou sua difícil caminhada subindo o túnel, e Jack o seguiu de perto. Ele ainda se sentia conectado com o mundo de fora, que estava a somente uma rápida volta para a base da escada em espiral, mas, agora, a cada passo que dava, o subterrâneo parecia estar se fechando sobre ele, havia escuridão adiante e atrás e apenas as paredes imediatas do túnel ficavam visíveis sob a luz de sua headlamp. Ele se obrigou a se concentrar, contando os passos, estimando quão próximos estavam da base do monte Palatino. Depois de trinta passos, sentiu que o ângulo havia mudado e que estavam descendo. As paredes se tornaram repentinamente salientes, rachadas. A corda fluorescente terminava abruptamente em um prego forte diante de uma piscina escura, e ele podia ver onde o teto se inclinava dentro da água cerca de cinco metros adiante.

- Isto não é natural - murmurou Costas. - Quero dizer que o túnel não foi desenhado desta maneira. Parece que houve um abalo sísmico, como algumas daquelas linhas de fratura em Herculano.

- Eles também tiveram terremotos aqui - disse Jack.

- Um bastante grande, mas há algum tempo atrás. E aqui pode ser um beco sem saída para nós, embora ainda haja bastante fluxo passando.

- É hora de nadar - disse Jack.

Costas entrou na poça e espirrou água para os lados, depois desapareceu em uma grande quantidade de bolhas. Jack o seguiu de perto, caindo sobre os joelhos e movendo-se pesadamente adiante, ouvindo o ar em seu macacão sair quando o seu sistema computadorizado automaticamente se ajustou para uma flutuabilidade neutra. A água estava extraordinariamente clara, como no cenote em que tinham mergulhado no Yucatán, e mesmo aqui Jack se sentiu alegre como sempre que estava debaixo d’água, a excitação do desconhecido. Pegou as nadadeiras que estavam enroladas atrás da barriga das pernas e enfiou-as, e saiu com velocidade atrás de Costas. Seu aferidor de profundidade mostrava três metros, depois seis. O terremoto havia criado uma fossa no túnel e eles estavam voltando para cima novamente. Viu a sua frente que Costas tinha voltado à superfície, e que o chão do túnel se elevara para menos de um metro de profundidade. Nadou para cima tão distante quanto podia, tirou suas nadadeiras de novo e saiu da água ao lado de Costas, que estava olhando adiante no túnel.

- Eu tive aquele sentimento outra vez - disse Costas.

- Qual sentimento?

- O sentimento de andar para o passado. Eu o experimentei em Herculano, mesmo no navio naufragado. Ele é estranho, como um déjà vu.

- Então, você também teve - murmurou Jack.

- Talvez ele seja a força do impulso.

- Uma vez me explicaram isso - disse Jack. - Não se trata do fato de que de alguma maneira você já esteve aqui antes, trata-se de que você já teve este senti¬mento emocional antes, em circunstâncias muito similares. Seu cérebro está lhe pregando peças. É um curto-circuito.

- Não, Jack. Já vi isto em você. É a força do impulso.

- De acordo. É esta força. Você tem razão. Talvez você possa usar um pouco dela para nos fazer passar pelo obstáculo seguinte. - Jack apontou para outra depressão no túnel, mais rachada e com a alvenaria fragmentada, uma outra piscina. Jack sabia que agora eles deveriam estar na verdadeira extremidade do monte Palatino, debaixo de pelo menos oitenta metros de tufo calcário quebrado. Costas entrou novamente na piscina esparramando líquido e Jack o seguiu. Desta vez, o túnel recuperou sua forma original e continuou debaixo da água, mas cerca de dez metros adiante ele ficou mais apertado. Quando Jack se aproximou nadando, percebeu que o ponto de constrição era provocado por duas colunas de cada lado. Além delas, o túnel se estreitava em uma galeria de escoamento, como um canal de aqueduto, mais alta do que larga, com um teto em forma de abóbada semi-cilíndrica. As dimensões permitiam que ficassem em pé eretos e andassem pelo túnel, em fila simples. Ele estendeu a mão e tocou a coluna com a mão direita. Ela era de granito cinzento, com manchas pretas e brancas, uma pedra vista em todas as ruínas de Roma, nas colunas do Panteão, na basílica de Trajano perto do antigo fórum. Jack sabia que o granito vinha do Mons Claudianus no Egito, a grande pedreira aberta pela primeira vez sob o imperador Cláudio, um outro de seus feitos inconfundíveis na cidade eterna.

- Maurice teria amado isso - murmurou Jack. - Seu projeto de doutoramento era sobre as pedreiras de Cláudio no Egito, e é de lá que vem esta pedra.

- Jack, dê uma olhada nisto. - Jack girou e olhou para cima, e percebeu que Costas tinha ido para a superfície cerca de três metros acima dele, movendo-se para cima e para baixo num oscilante reflexo de água, sua lanterna de cabeça formando padrões mutáveis cor de prata. Jack subiu lentamente, pressionando o seu controle de flutuabilidade para injetar ar, lembrando de exalar à medida que a pressão ambiente diminuía. Sua cabeça emergiu fora da água, e ele respirou com dificuldade, atônito. O feixe de luz de Costas estava iluminando a face de um rochedo que se erguia diretamente acima das colunas e da entrada do conduto. Ela se estendia bem alto acima deles, com pelo menos quatro metros de altura e cinco metros de largura, escavada na rocha viva. Acima deles, Jack podia ver o ornamento triangular de um frontão triangular, projetando-se meio metro para fora da rocha. Olhou para a água outra vez e viu as colunas. Era uma via de acesso monumental. Jack olhava para ela, atemorizado. Era como as fachadas desbastadas na rocha em Petra no Jordão, no entanto escondida debaixo do Palatino, uma curiosa mistura de ostentação e sigilo, a criação de alguém que se preocupava com sua própria realização, mas não com o que outras pessoas pensavam delas.

- Examine isto - disse Costas. - Dê uma olhada na face da pedra debaixo daquele ornamento triangular. - Jack ergueu a cabeça novamente acima da superfície. Um efeito de redemoinho provocado pela corrente abaixo os tinha empurrado para mais perto da face da rocha, e ela estava agora ao alcance da mão. Ele estendeu a mão e a colocou sobre a rocha. O que parecia ser bolor e muco era rocha dura, e ele percebeu que era um crescimento por justaposição de calcita, um vazamento do lençol de água sobre o qual Massimo falara. Viu regatos de água muito pequenos correndo pela rocha, evidentemente vindos da água da chuva muito acima. Depois, notou incisões regulares na rocha. Jack deu um impulso e orientou sua headlamp para cima. É claro. Devia haver uma inscrição monumental. A calcita estava sobre a inscrição como uma cobertura de açúcar, mas, em vez de manchá-la, parecia clarificá-la, cristalizá-la. Havia quatro registros, com letras de apenas sete centímetros e meio de altura, apenas suficientemente grandes para serem vistas do chão da câmara. Ele tinha estado certo. Quem quer que fizera esta dedicatória, a fizera para sua própria satisfação particular e para santificar o lugar, não para impressionar as massas. Jack a leu:
TI.CLAVDIVS.DRVSI.F.CAISAR.AVGVSTVS.GERMANICS

PONTIF.MAXIM.TRIBVNICIA.POTESTATE.XII.COS.V IMPERATOR.XXVII.PATER.PATRIAE.AQVAS.VESTIAM. SACRA.SUA.IMPENSA.IN.URBEM.PERDVCENDAS.CVRAVIT


- Isto é autêntico, não há dúvida a respeito - murmurou Jack. - Apresenta a ortografia caracteristicamente arcaica da palavra César, que se refere aos dias de glória de Julius, aos dias da República. A parede também mostra isso, ela é esculpida em forma de blocos, em estilo rústico, as superfícies são deixadas toscas, quase uma falta exagerada de acabamento. Absolutamente característico de Cláudio, de construções em que ele tinha um envolvimento pessoal. E é típico de Cláudio fazer os detalhes das epígrafes retos.

- Você está falando do nosso Cláudio? Isto foi algo que ele fez? Jack traduziu a inscrição:


Tibério Cláudio, filho de Druso, César, Augusto, Germânico, Sacerdote Chefe, com Poder Tribunício pela décima segunda vez, Cônsul por cinco vezes, Imperador vinte e sete vezes, Pai de seu País, acompanhou a construção à sua custa das Águas Sagradas das Vestais.
- Isto vai deixar Massimo contente - disse Costas. - É tudo que precisamos contar para ele. Os seus ratos de túnel podem organizar uma festa aqui embaixo. Seu herói.

- A fórmula é similar à inscrição de Cláudio no Aqua Claudia, na Porta Maggiore, onde o aqueduto entrava em Roma - disse Jack. - Mas a coisa fascinante aqui, a coisa única, encontra-se naquelas três palavras. Aqua Vestiam Sacra. As águas sagradas das vestais. O que significa que Massimo também pode estar certo acerca disso. Uma conexão com a Casa das Vestais do outro lado do Palatino, o canal que se junta ao outro que sai da Cloaca Máxima que ele explorou sob o antigo fórum.

- A coisa que parece estranha é que este não é um dreno da Cloaca - murmurou Costas. - Ele é exatamente o oposto. O fato de que a água é clara, como cristal deste lado sugere que ela deve ser assim também do outro lado, fluindo de volta em direção ao fórum. Deve haver um indício de uma grande fonte no meio disso tudo, bem debaixo do Palatino.

- Uma espécie de fonte sagrada - murmurou Jack. - Talvez as vestais fossem as guardiãs.

Costas olhou de novo para o seu computador de navegação. - Considerando a direção deste túnel e a angulação provável do outro túnel debaixo do fórum, o ponto de confluência deve ser quase exatamente debaixo de onde estávamos sentados ao lado da Casa de Augusto hoje de manhã. Talvez aquela gruta, o Lupercal, fosse de fato uma via de acesso em declive para a fonte, uma passagem secreta que saía do palácio. Talvez toda aquela tolice daquele mito, de Rômulo e Remo pudesse ser o que você diz dele.

- Acréscimo por justaposição - murmurou Jack. - Acréscimo histórico.

- Correto. Acréscimo por justaposição - disse Costas. - O acréscimo, o mito, podiam até ter realçado a importância da fonte. O primeiro assentamento de Roma ocorreu no monte Palatino, correto? Bem, o controle de uma fonte podia ter sido crucial para o seu sucesso. Talvez estejamos a ponto de descobrir a razão pela qual Roma se tornou grande.

- Você nunca cessa de me surpreender - disse Jack. - E faz sentido o fato de que as vestais estivessem envolvidas, um antigo sacerdócio que data da fundação de Roma, provavelmente de um costume anterior. Ao santificar este lugar, ao mantê-lo secreto e puro, eles também estavam salvaguardando Roma, que era o seu principal propósito.

- Está na hora de descobrir. - Costas saiu de perto da rocha e soltou ar de seu sistema de flutuabilidade, dirigindo-se para debaixo da face da rocha entre as duas colunas. Jack tardou por um instante, olhando para a inscrição, sentindo-se em estado de limbo, sua excitação repelindo uma apreensão que ainda não o invadira completamente, mas que estava ali. Ele mergulhou e seguiu Costas dentro do túnel, que agora estava completamente submerso de novo, com a abóbada de tufo calcário acima dele.

- Concreto à prova de água - disse Costas. Jack podia ver o cone de luz de sua headlamp alguns metros à frente, direcionado para uma seção da parede do canal que tinha rachado parcialmente e desmoronado.

- Uma outra especialidade de Cláudio - disse Jack, se aproximando por trás de Costas. - Foi como ele construiu os diques debaixo d’água do seu grande ancoradouro em Óstia, e o concreto é o que eles costumavam usar para alinhar os aquedutos. Aqui dentro, era provavelmente usado para impedir o lençol de água de se despejar dentro do canal, contaminando a água da fonte. O ingrediente indispensável do concreto hidráulico era um pó chamado pozolana, da antiga Pozzuoli. Que se chama Puteoli na baía de Nápoles, ao lado dos Campi Flegrei.

- Um mundo pequeno - murmurou Costas, enquanto se impulsionava à frente. Jack passou pela seção danificada e depois chegou debaixo das pernas de Costas, onde este havia parado, cerca de quinze metros além das colunas que tinham marcado a entrada para o conduto.

- Está tudo atravancado aqui - disse Costas. - Parece que houve um desmoronamento.

- Um beco sem saída? - perguntou Jack.

Costas curvou-se e procurou dentro do bolso de ferramentas em seu macacão. Retirou um dispositivo do tamanho aproximado de uma colher, ativou-o e o manteve ao seu lado. Jack observou a luz vermelha cintilante tornar-se verde. - O medidor de corrente mostra que ainda recebemos fluxo. Qualquer que seja a localização da fonte, ela ainda está a nossa frente. - Costas colocou o medidor no bolso e olhou para o aferidor em seu pulso. - E ainda estamos subindo com uma ligeira angulação, cerca de dez graus. Com esta velocidade chegaremos à superfície vinte metros à frente, se o túnel continuar com a mesma angulação depois deste entulho.

Jack moveu-se debaixo de Costas, e olhou atentamente para a mixórdia de fragmentos de tufo calcário no chão do túnel. Estendeu a mão e deslocou um fragmento, depois deslocou mais alguns. - Dê uma olhada nisto - ele disse. - Há uma fenda abaixo de nós, uma fissura na base do túnel. Ela deve ter se aberto quando o tremor trouxe abaixo o teto. Nós podemos ser capazes de passar por ela.

Costas desceu até onde Jack estava, e olhou dentro do buraco, posicionando a cabeça de maneira que o feixe de luz iluminasse dentro da fenda. - Você pode ter razão - ele disse. - Ela se alarga a nossa frente, talvez tenha a largura de um corpo, e continua até onde consigo ver. O entulho parece ter ficado compactado no topo da fissura, e não caiu dentro dela. Se pudermos remover mais ou menos dois metros, poderemos alcançar o ponto em que a fissura se alarga o suficiente para passar por ela nadando.

- É a minha vez de ir na frente - disse Jack. Costas moveu-se de costas e olhou atentamente para ele, seu visor quase tocando o de Jack e fez o sinal de aprovação. Os dois homens se conheciam muito bem e as palavras não eram necessárias. Era sempre a segunda etapa que cabia para Jack, a realização de que a evasão não era simples e fácil, que ele necessitaria voltar através de vários espaços submersos antes de alcançar a passagem final para a liberdade. Sua experiência de quase-morte quando menino num poço de mina submerso nunca o abandonara, e surgia novamente todas as vezes em que era confrontado com circunstâncias similares, todas as vezes em que sua mente começava a travar dentro da sensação de déjà vu. Ele já tinha experimentado o aperto gelado da claustrofobia antes que visse a inscrição, e agora necessitava de todas as suas reservas de energia para lutar contra ela, sua própria batalha secreta que apenas Costas conhecia. Tomar a dianteira ajudava-o a focalizar-se, a concentrar-se, a encarar o objetivo adiante como sua própria busca pessoal, a sentir responsabilidade por aquele que agora vinha atrás dele.

- Nós ainda estamos a cerca de seis metros de profundidade - disse Costas.

- Pelos meus cálculos, estamos a cerca de trinta metros do ponto diretamente abaixo da Casa de Augusto e daquele templo onde estávamos sentados no topo do Palatino.

- Muito bem. Lá vamos nós - murmurou Jack. Inclinou-se para baixo e deu um impulso para passar pela abertura. Moveu as nadadeiras com empenho, mas não foi a lugar algum. Ele estava começando a hiper-ventilar. Jack fechou os olhos, depois sentiu Costas colidir com ele por detrás. - O seu rolo de corda ficou preso numa rocha. - Ele sentiu um empurrão forte, e depois estava flutuando livremente dentro da fissura, que rapidamente se alargou para cerca de dois metros. Percebeu que estava descendo, e descendo rapidamente. Olhou para seu aferidor. Já descera quinze metros. Devia ter desativado o controle automatizado de flutuabilidade ao se comprimir para passar pela fissura, e se atrapalhou com os controles na lateral de seu capacete. Houve um assobio de gás dentro do macacão e ele reduziu a velocidade, alcançando uma flutuabilidade neutra aos dezoito metros. Pela primeira vez olhou ao longo da extensão da fissura a sua frente. A água ainda estava clara, e horizontalmente ele podia ver pelo menos até trinta metros, até um ponto em que as paredes toscas de tufo calcário pareciam juntar-se novamente. Olhou para baixo, uma escuridão absorvedora, um abismo como ele nunca tinha visto antes, profundamente abaixo do coração de uma das cidades mais antigas do mundo.

Ouviu resmungos e imprecações através do seu intercomunicador, e ergueu o olhar para ver Costas entalado na fissura. Começou a nadar de volta para ajudá-lo, e depois Costas passou, descendo até que ambos ficaram no mesmo nível a doze metros de profundidade. - Este lugar é fenomenal. - Costas ainda ofegava por causa do esforço, mas estava olhando com atenção para baixo. - A fenda da destruição.

- Eu não consigo ver o fundo - disse Jack. - Ele deve estar pelo menos cinqüenta metros abaixo de nós, até mesmo um bocado mais.

- Não me preparei com o necessário para um mergulho de descompressão debaixo de Roma - disse Costas. - Não temos gás para isso. - Ambos verificaram o registro de informação do computador dentro de seus capacetes, que mostrou que a mistura para os seus rebreathers estava se adaptando para a profundidade.

- Eu diria meia hora, não mais que isso, com vinte e cinco metros de profundidade no máximo. Qualquer outra profundidade além desta é um mergulho fanfarrão, então estamos fora disso.

- Podemos ter sorte - disse Jack. - Olhe ao longo do topo da fissura. - Ele movimentou o feixe de sua headlamp ao longo dela, e Costas o seguiu. Podiam ver o reflexo brilhante da superfície da água no seu ponto de entrada, depois nada além de rocha por cerca de dez metros, depois uma outra mancha oscilante de prateado, esta com cerca de três metros de comprimento. - É como se encontrasse a superfície novamente - disse Jack. - Vamos subir.

Começaram a subir na direção apontada pelo feixe de luz de Jack. Costas girou de costas olhando para cima e para baixo da fissura, depois olhando com atenção para a rocha diretamente acima deles. - Geologicamente, isto é muito interessante - ele murmurou, um pouco para si mesmo. - A fissura é claramente uma fenda sísmica, com dezenas, talvez centenas de milhares de anos de idade. Parece que ela sempre esteve cheia de água, suprida pela fonte. Depois, direto acima dela, há aquele túnel construído por Cláudio, desmoronado por um terremoto mais recente. Você pode perceber partes do teto cortado na rocha do túnel acima de nós. Meu palpite é que nunca se pretendeu que o túnel fosse dar dentro da fissura, mas que ele se estendesse acima dela em direção àquela piscina para a qual estamos nos dirigindo. Isto é exatamente o que eu acho. O túnel deve ser uma espécie de saída, um conduto para prevenir alagamento quando a água aqui fica muito alta.

- Olhe para aquilo - exclamou Jack, apontando para a lateral da fissura. - Há um lance de quatro, cinco degraus talhados na rocha, conduzindo para a piscina.

- Parece ser uma nascente - disse Costas. - Talvez tenha sido aqui que eles tiveram acesso à fonte. Estamos chegando quase diretamente debaixo do lugar onde aquelas cabanas pré-históricas foram erguidas, a casa de Rômulo, cerca de sessenta metros acima de nós.

Jack chegou à superfície, primeiro, depois cautelosamente subiu as escadas, estendendo o pescoço ao redor para ter certeza de que havia bastante espaço para a cabeça. Olhou para trás para se certificar de que Costas estava atrás dele, depois prendeu as nadadeiras atrás das barrigas das pernas antes de sair da água e ir para uma superfície de rocha plana. Estava dentro de outro túnel, mas espetacularmente diferente daquele pelo qual tinham vindo. Jack se virou ao redor, olhando. Na extremidade norte, cerca de dez metros a sua frente, o túnel chegava ao fim e se tornava uma pequena câmara, ligeiramente mais larga que as dimensões do túnel. Na outra extremidade, a mais ou menos a mesma distância, o túnel se abria em uma caverna rochosa, obscurecida em sombras. O próprio túnel era escavado na rocha viva, com cerca de três metros de largura e cinco de altura, com um corte transversal trapezoidal como uma pirâmide truncada. Jack girou ao redor e examinou cuidadosamente toda a extensão novamente, depois olhou de perto para uma parede, inspecionando as antigas marcas de picareta. A parede era antiga, muito mais antiga do que qualquer outra coisa que eles tinham visto. Olhou de novo. E subitamente ele compreendeu. - Meu Deus - ele sussurrou.

- Um outro túnel? - perguntou Costas, com seu físico gotejante aparecendo ao lado de Jack.

- Não somente um outro túnel - murmurou Jack. - Um dromos.

- Um quê?

- Onde você viu esta forma antes?

Costas lançou um olhar ao longo do túnel, o perfil retilíneo das paredes emoldurado por seu feixe de luz. - Na Idade do Bronze - disse ele, soando triunfante. - Na Idade do Bronze grega. Aquelas tumbas que você me mostrou em Micenas, na Grécia. Um dromos era um corredor sagrado. Do tempo da Guerra de Tróia, Enéias, tudo aquilo.

- E isto pode finalmente fixar a origem de Roma, uma vez por todas - disse Jack, com a voz baixa. - Nós nos encontramos na idade do mito novamente, Costas, exatamente como na Atlântida, o mito tornado real. Mas estou pensando em algo mais perto de casa. Isto é quase idêntico ao dromos na Gruta da Sibila em Cumas.

- A Sibila - murmurou Costas. - Então ela também tinha um apartamento em Roma.

- Tudo isto está começando a fazer sentido - murmurou Jack. - O Lupercal, a gruta sagrada da origem de Roma. Aposto que é o que está a nossa frente, aquela caverna. E acabamos de emergir da fonte, vital para a sobrevivência de Roma. Um lugar sagrado, santificado e protegido. Sabemos que o ritual de Cumas envolvia águas lustrais, ritos de purificação. E depois, há o lado negro.

- O da dissolução de todas as coisas no dia do juízo final - disse Costas.

- A entrada para o mundo subterrâneo.

- Exatamente como em Cumas, os Campi Flegrei - disse Costas.

- E no topo de tudo isto fica sentada a Sibila.

- Gostaria de saber se ela já estava aqui quando eles chegaram, os primeiros romanos, ou se eles a trouxeram consigo - refletiu Costas. - E também estou curioso em saber como as vestais virgens participam de tudo isto.

- Talvez existam respostas aqui. Precisamos chegar à caverna. Venha.

- Antes de fazer isso, você pode querer dar uma olhada na outra extremidade deste túnel. Há algo no meio daquela câmara. - Jack se virou para seguir o olhar de Costas. Com os seus dois feixes de luz concentrados, a câmara ficou mais iluminada. Caminharam ao longo da via de acesso em direção a ela. As antigas paredes estavam listradas com os depósitos de calcita que cobriam o tufo calcário como uma fina camada de gelo. Alcançaram a entrada da câmara. Ela era um domo perfeito. Com cerca de oito metros de circunferência, com pequenas aberturas retangulares no teto que antigamente poderiam ter sido respiradouros de ar, evidentemente entupidos agora. No lado mais distante havia o que pareciam ser os restos deteriorados de uma estátua, sobre um pedestal. Na frente dela havia uma depressão circular no solo com cerca de três metros de largura, rodeada por borda recortada na rocha, e preenchida com uma massa preta que se parecia com um material resinoso preto selado debaixo de um depósito de calcita. Jack olhou para aquilo, e depois para a figura deteriorada atrás dele. - É claro - ele sussurrou.

- O que é?

- Aquela estátua, parece que ela pode ter sido antigamente de uma mulher - ele disse. - Uma mulher sentada. Uma estátua de culto. E isto é um piso, um piso sagrado. - De repente, Jack ficou muito alegre e excitado. - É por isso que os santuários de Vesta no fórum e no Palatino nunca foram inaugurados, nunca se tornaram templos. É porque eles não eram os locais onde se exerciam as atividades principais, eles eram apenas a face pública do culto. Esta câmara era o verdadeiro Templo de Vesta.

- Jack, a estátua. Ela tem uma inscrição.

Jack deu a volta ao redor do piso e seguiu o feixe de luz de Costas. Na base da estátua havia uma fina placa de mármore embutido, com cerca de trinta centí¬metros de lado a lado. Jack agachou-se e olhou atentamente para ela. – Estranho - ele disse. - Esta não é uma inscrição dedicatória, nem uma parte do pedestal. Ela estava desprendida e colocada aqui como uma escora, ou ao menos estava até que a calcita colou-a no lugar. - Ele se curvou o mais possível, depois se encostou ao chão. O latim tornou-se claro sob seu feixe de luz, e ele leu em voz alta:
COELIA CONCÓRDIA

VESTALIS MÁXIMA

ANNO DOMINI CCCXCIV
- Bem, eu serei condenado ao inferno - ele disse. - Coelia Concórdia, Principal Vestal, 394 d. C. Ela foi a última vestal, e naquele ano o culto foi abandonado. Quem sabe ela fez esta placa e a trouxe para cá ela mesma, no final. É estranho, no entanto que tenham usado Anno Domini. Ano de Nosso Senhor. O império já era cristão por quase um século naquela data, mas se pensava que as vestais tinham resistido ao cristianismo até o final. Elas não participavam dele.

Costas estava silencioso, e Jack olhou para ele. - Você ainda está me ouvindo?

- Jack, isto não é uma estátua.

- O que você quer dizer? - Jack fez um esforço para ficar em pé, depois escorregou e caiu por cima da estátua, segurando-a perto de si. Ele estremeceu e recuou, inclinando-se por um momento enquanto flexionava o joelho que tinha batido no chão, olhando com cuidado para a forma deteriorada que estava a alguns centímetros de seu rosto. Repentinamente, ele gelou. Ela não era absolutamente de pedra calcária. Era um crescimento por justaposição de calcita, uma estalagmite estranha e sem forma que se erguia mais de um metro acima do solo, envolvendo um assento de pedra. Ele olhou outra vez para o que o assustou. Era uma serpente esculpida em pedra, verde, subindo contorcida pela parte de trás da cadeira, olhando para ele através de uma máscara translúcida de crescimento por justaposição.

- Não ali, Jack. Por aqui. Dentro.

Jack se movimentou dando um passo à esquerda e seguiu o feixe de luz de Costas. Então ele o viu, preso dentro do cálcio, encostado indolentemente de um lado.



Um crânio humano.

Ele respirou com dificuldade, deu um passo atrás, depois olhou novamente. Havia mais coisas. Um esterno, costelas, omoplatas. A estátua não era de jeito nenhum uma estátua. Costas tinha razão. Era um esqueleto, um esqueleto humano. Pequeno, quase como o de uma criança, mas com a maxila de alguém velho, muito velho, todos os dentes estavam faltando. Então, Jack viu algo mais. O esqueleto ostentava um colar, um colar de ouro antigo como os usados pelos gauleses, ouro maciço, uma visão extraordinária no coração de Roma, alguma antiga pilhagem, talvez do mundo celta. E acima do crânio, presos no acréscimo por justaposição havia fragmentos cintilantes de folhas de ouro e de jóias de um penteado elaborado, o penteado de uma mulher romana rica, uma matrona.

Então Jack percebeu. Ela tinha vindo aqui para morrer. Coelia Concórdia, a última das vestais. Mas uma vestal envolta em serpentes. Não apenas uma vestal. Uma Sibila.

A mente de Jack estava tumultuada. Então a Sibila não morrera com a erupção do Vesúvio. Ela tinha voltado para cá, voltado para sua gruta debaixo de Roma, para um outro lugar na entrada para o Hades. E o oráculo tinha sobrevivido, vivera por mais de três séculos depois que Cláudio encontrara a morte, depois que o antigo mundo da Sibila de Cumas havia sido consumido pelo fogo. Esta Sibila tinha visto Roma até o fim, visto Roma elevar-se e cair no final, visto além do mundo pagão e a introdução em uma nova ordem, uma cujos inícios ela tinha observado todos aqueles anos antes, entre os proscritos que ficavam perto de sua gruta ao lado dos Campos de Fogo.

- Jack, dê uma olhada na mão dela.

Jack olhou para baixo, quase incapaz de respirar. Ele olhou de novo. Então foi isso o que aconteceu com as sibilas. Elas se tornaram o que tinham previsto. Elas realizaram sua própria profecia. Ela estava segurando uma cruz.

Repentinamente ele viu um clarão de luz, uma oscilação momentânea. Por um segundo, Jack pensou que podia estar alucinando. Depois, foi violentamente arrastado para um lado, para um canto da câmara, empurrado para o chão. Uma mão bateu com força na lateral do seu capacete e sua luz se apagou. Ele ficou totalmente no escuro. A pressão sobre ele relaxou, e a voz de Costas chegou pelo intercomunicador, ela estava tensa. - Sinto muito por isso, Jack. Mas há mais alguém aqui embaixo.




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