O livro Negro do Cristianismo



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HECATOMBE

Em New Hampshire e em Vermont, antes da chegada dos ingleses, a população de abenakis somava 12 mil pessoas. Menos de cinqüenta anos depois, restavam apenas 250.

O povo dos pocumtuck chegava a 18 mil. Duas gerações depois, seu número havia caído para 920.

Os quiripi-unquachog eram pelo menos trinta mil antes da chegada dos ingleses. Eles também foram exterminados no intervalo de duas gerações: os sobreviventes não somavam mais de 1.500.

A população nativa de Massachusetts, inicialmente composta de pelo menos 44 mil pessoas, cinqüenta anos depois estava reduzida a apenas seis mil componentes.

E a horrível lista poderia continuar... Tenhamos em mente que a colonização americana estava apenas começando. A grande epidemia de varíola do biênio 1677/78 ainda não tinha chegado, nem a epopéia do Faroeste. Calcula-se que entre 1500 e 1900, nas duas Américas, 150 milhões de pessoas perderam a vida. Destas, dois terços por causa de epidemias (a partir de 1750, muitas vezes provocadas intencionalmente, através de presentes infectados), e cinqüenta milhões diretamente por atos de violência dos conquistadores, em decorrência da escravidão ou de tratamentos desumanos.

Os exterminadores partilhavam seus relatórios sobre os massacres com entusiásticos boletins de guerra e citando as Escrituras: "É a vontade de Deus, que, no final das contas, nos dá motivos para exclamar: 'Como é grandiosa sua bondade! E como é esplêndida sua glória!'" E ainda: "Até que nosso Senhor Jesus o mandou inclinar-se diante dele e lamber a pólvora!"

Em 1703, o pastor Salomão Stoddard, uma das mais influentes autoridades religiosas na Nova Inglaterra, fez um pedido formal ao governador de Massachusetts para que se estendessem aos colonizadores as contribuições econômicas para "adquirir grandes matilhas de cães e para adestrá-los para caçarem índios como o fazem com os ursos".27

Em 1860, o religioso Rufus Anderson comentou a respeito do banho de sangue, que até então havia exterminado pelo menos 90% da população autóctone das ilhas do Havaí, definindo-o como um fato natural, comparável à "amputação das membranas doentes de um organismo".

Os peles-vermelhas eram considerados menos do que humanos e ninguém tinha obrigação de respeitar a palavra dada a eles. Os tratados de paz eram estipulados já com a intenção de serem violados. Por exemplo, o Conselho de Estado da Virgínia declarou que, se os nativos "ficam mais calmos depois que um tratado é firmado, temos não só a vantagem de pegá-los de surpresa, como de roubar seu milho".28

Em 1851, foram instituídas as "Reservas Indígenas", que eram verdadeiros campos de concentração onde os povos nativos eram presos.

Desde então, passaram-se 150 anos, mas ainda hoje, nas Reservas, as condições de vida são terríveis. No final dos anos 1990, algumas registravam uma mortalidade neonatal de 10%, enquanto entre os brancos a taxa era de 8,1 por mil nascimentos. Ainda nas Reservas, uma criança a cada três morria até os seis meses. E a expectativa de vida de um nativo era claramente inferior à de um branco (63 anos contra 76). O percentual de suicídios entre os nativos era o dobro daquele da população branca, além de 75% deles sofrerem de problemas de desnutrição.25



África, Ásia e Oceania

A primeira conquista colonial do território africano ocorreu em 1344, quando o almirante de la Cerda conquistou as Ilhas Canárias. O feito foi ordenado pelo papa Clemente VI. Depois, por volta de 1400, os portugueses começaram a penetrar nas costas de Angola e da Guiné. Conseguiram o feito graças a "tratados" com as populações locais, ludibriadas pelos missionários.

Todas as interiorizações seguintes se iniciaram assim, com os missionários inaugurando as conquistas européias. Se os africanos não cedessem, os próprios religiosos informariam aos conquistadores que chegara o momento de recorrer às armas. Foi o que aconteceu, por exemplo, em Kilwa, em 1505. Os habitantes das cidades não permitiram a criação de missões nos arredores, pois sabiam muito bem que eram um pretexto para o estabelecimento de antepostos militares. Então, os missionários franciscanos informaram os portugueses, que destruíram totalmente a cidade. Os missionários abençoavam os massacres, mas logo perceberam que não havia comparação entres as riquezas que os portugueses conseguiam acumular na África e as migalhas que mandavam à Santa Sé. Assim, eles arregaçaram as mangas e trataram de conseguir, no início do século XVI, seus próprios escravos. O papa tentou até a conquista militar da África (por exemplo, em 1540, o exército de Deus atacou o então reino etíope), mas considerou mais conveniente ser o intermediário da conquista, ganhando, com isso, escravos e latifúndios.

Logo o tráfico de escravos da Santa Sé se intensificou. Em 1650, a Companhia de Jesus possuía tal quantidade de escravos, que impressionava até os portugueses, e utilizava sua própria frota, adaptada ao seu transporte.

Os nativos fizeram eclodir verdadeiras revoltas antimissionárias, e os sacerdotes se viram "obrigados" a demonstrar determinação. Quando os escravos ousavam se rebelar, eram torturados publicamente. Em 1707, estourou uma revolta de escravos em Madagascar. Os missionários, no caso calvinistas, torturaram os rebeldes em praça pública e estrangularam uma escrava.

Na África do Sul, a Igreja também se colocou sempre ao lado dos bôeres (colonizadores brancos de origem holandesa). Tanto que, quando em 1837 os zulus se insurgiram contra o roubo de suas terras, os missionários ajudaram os brancos a chegar perto de seus povoados. Foram massacrados quatrocentos africanos, sobretudo mulheres, idosos e crianças.

Em compensação pela atividade e preciosa participação missionária na conquista da África, as potências coloniais doaram à Igreja enormes latifúndios e entregaram às missões o monopólio da educação e da saúde.

A África, antes da chegada dos brancos, possuía um sistema amplo de assistência sanitária. Não havia povoado em que um terapeuta tradicional não pudesse curar, com misturas de ervas e minérios moídos, quem quer que pedisse. Todas essas práticas e remédios foram tornados ilegais, para garantir o monopólio sanitário das missões. Mas como estas não estavam amplamente difundidas no território, a maior parte dos vilarejos africanos ficou sem possibilidade de tratamento. Foi um massacre. No que diz respeito à educação, foram apagados milênios de história africana para educar os negros à superioridade branca. As missões ensinavam a história da Europa e a palavra de Deus. Com o bastão e o chicote, extinguiu-se a cultura de um continente.



As etapas da opressão

Em 1341, uma expedição ítalo-portuguesa fundou um povoado nas Ilhas Canárias. Estas eram habitadas por um povo de origem africana, os guanchos. Seu número, antes do desembarque dos europeus, fora calculado em cerca de oitenta mil indivíduos. Em 1344, o papa Clemente VI ordenou que o almirante francês de origem espanhola Louis de la Cerda conquistasse as Canárias.

Foi o primeiro ato consciente de colonialismo europeu após as Cruzadas, e os guanchos foram o primeiro povo a ser totalmente exterminado. Em 1496, um indígena fez sinal para os soldados cristãos se aproximarem, e suas palavras entraram para a história: "Não há ninguém mais para combater: estão todos mortos".

Em 1441, Antônio Gonçalves, de volta do Rio de Oro, ofereceu dez escravos africanos a Henrique, infante de Portugal. Este os ofereceu ao papa Martinho V, que, por sua vez, concedeu a Portugal a "soberania" sobre a África ao sul do Cabo Branco. A aceitação dos escravos por parte do pontífice e sua sucessiva concessão deram a Henrique a prova do consentimento do papa quanto ao tráfico de escravos.

Em 1460, os jesuítas convenceram Ngola, rei angolano-congolês do povo quimbundo, a conceder a Diaz de Novais, o navegador, a permissão para capturar escravos e levá-los para Lisboa. Os reinos de Angola e do Congo começaram a se separar por causa do tratado. Entre 1480-1500, os portugueses entraram na Guiné graças a tratados do gênero, feitos através de logros entre os missionários e os chefes tribais da Guiné e de Angola.

Em 1490, um certo Uoulof levou o chefe tribal a expulsar todos os missionários. Os soldados portugueses o mataram por isso, mas a resistência continuou a agir e impediu o estabelecimento de outros missionários.

Em 1505, a cidade de Kilwa resistiu aos missionários e à conquista. Foi saqueada e destruída enquanto os missionários abençoavam o massacre. Em 1508, os missionários enviados ao Congo criaram um comércio próprio de escravos. Em 1529, os portugueses incendiaram e pilharam Mombaça, em represália às revoltas populares contra invasores e missionários. O tráfico de escravos esvaziou as regiões do Congo.

Em 1534, São Tomé, sede principal do comércio, foi declarada cidade e arcebispado submisso aos missionários brancos. Em 1540, o Estado da Igreja tentou uma colonização militar do então reino etíope de Ambara-Galla-Harar.

Em 1553, uma nova missão jesuíta chegou a Mbanza, no Congo, onde se ocupou também do tráfico de escravos. Em 1600, Francisco de Almeida, os jesuítas e os colonos eram os donos absolutos das costas de Angola, mas não ainda do interior. Em 1628, os missionários ampliaram a própria influência e ganharam da resistência africana. Foram conquistados novos territórios na África oriental.

Em 1633, o cardeal Richelieu concedeu à Companhia Senegalesa de Dieppe e Rouen o monopólio do comércio de escravos por dez anos. Em 1650, os missionários da Zambésia foram desmoralizados pela prolongada resistência africana. Os dominicanos dispunham de enormes propriedades imobiliárias e da mão-de-obra escrava. Os jesuítas intensificaram sua participação no comércio de escravos em Angola e se tornaram latifundiários, como em Moçambique. A Companhia de Jesus possuía uma frota de navios particulares para o transporte dos escravos.

Em 1660, os capuchinhos estabelecidos nas colônias portuguesas falaram de uma ampla hostilidade dos africanos para com eles. Só em Goréé, nos duzentos anos seguintes, foram "exportados" vinte milhões de escravos.

Em 1676, as revoltas contra os missionários latifundiários e escravocratas obrigaram os bispos portugueses a abandonar São Salvador, na Angola setentrional. Em 1694, a maior parte das igrejas do país havia sido demolida pela resistência antiescravista africana.

Em 1700, os escravistas e os missionários retomaram Angola, mas a parte setentrional do país e São Salvador eram praticamente desertas e despovoadas, por causa do comércio de escravos. Calcula-se que, desde o início do tráfico, foram massacrados 25 milhões de africanos. Os missionários, com notável precisão, atribuíram o declínio moral e material do continente negro à resistência africana.

Em 1707, na África do Sul, um escravo iniciou uma revolta. Os missionários holandeses, a título de demonstração, torturaram quatro rebeldes com a roda e estrangularam uma escrava com as mãos.

Em 1721, na África do Sul, os missionários holandeses obrigaram as crianças nativas a serem batizadas, mas proibiram que os escravos, pais das crianças, presenciassem a cerimônia.

Em 1781, os bantos xhosas e os khoi-khoin, guiados pela rainha Hoho, rebelaram-se contra o roubo de seus animais e de suas terras. Resistiram por alguns anos, mas, no final, o exército branco, de grandes dimensões, os derrotou. Os sobreviventes, em 1792, foram conduzidos à missão de Baviaanskloof, a partir de onde foram distribuídos como escravos aos camponeses brancos.

Em 1800, o missionário Van der Kemp fundou a missão de Bethelsdorp, que serviu de base militar para os ingleses.

Em 1805, os irmãos Albrecht, missionários alemães anglicanos, deram início à conquista alemã, fundando uma missão em Warmbad, no sudoeste da África.

Em 1815, o missionário alemão Schnelen, com a concordância da Igreja e de seu governo, fundou a missão de Betânia, no território dos namas, destinada a desenvolver um papel fundamental no período das conquistas.

Em 1818, com o auxílio dos missionários, os ingleses do Cabo atacaram Makanda, general dos ndlambes.

Em 1819, na Cidade do Cabo, o missionário segregacionista John Philip propôs a formação de uma "cadeia de Estados". Seu governo teria como base as missões. O povo se rebelou, mas os missionários entraram em um acordo com o governo e os militares aplacaram as revoltas com o sangue. Os canhões ingleses abateram três mil xhosas que lutavam para defender a própria terra.

Em 1823, os missionários ocuparam os territórios baralong e criaram chefes fantoches para comandar a guerra contra Moshesh e os rebeldes.

Em 1828, os relatórios do missionário John Philip revelavam os planos dos missionários anglicanos, que pretendiam adotar critérios segregacionistas para escolas, locais públicos e reservas e utilizar um "sistema de tratados" para conquistar e sujeitar os africanos.

Em 1829, a missão de Philipton era a base militar britânica, juntamente com a missão de Glasgow em Balfour. O missionário metodista Shaw armou e sitiou grupos de brancos em Albany e na zona oriental do Cabo. Os colonos de Albany atacaram os negros para ampliar seus latifúndios.

Em 1834, o missionário Philip aconselhou o governador a anexar o Xhosaland e a recorrer ao governo indireto criando chefes fantoches. Mas os xhosas resistiram ao ataque combinado de uma força de vinte mil homens composta de ingleses, bôeres e missionários católicos, wesleyanos e anglicanos.

Em janeiro de 1835, os xhosas foram derrotados pelas tropas do missionário Philip. Os outros missionários seguiram seu exemplo.

Em 1837, graças ao apoio dos missionários católicos e wesleyanos, os bôeres massacraram, em Mosega, quatrocentos zulus, exclusivamente mulheres, velhos e crianças.

Em 1844, os missionários franceses "Pais do Espírito Santo" fundaram a missão de Santa Maria do Gabão e extorquiram "tratados" dos chefes das tribos, que permitiram que os franceses sitiassem o estuário do Gabão.

Em 1853, David Livingstone atravessou a África e chegou às margens do lago Niassa, onde fundou uma missão que transformou uma base contra os nativos, preparando o terreno para os colonos ingleses.

Em 1868, o chanceler alemão Bismarck pediu à Inglaterra para proteger os missionários do sudoeste da África. O governador do Cabo, Sir Philip Wodehouse, respondeu ao apelo do império prussiano, auxiliado pela missão do doutor Hahn, e atacou o povo dos namas. Estes resistiram enquanto puderam, mas, no final, foram exterminados quase por completo. Seu chefe foi punido pelos missionários.

Em 1894, no dia 6 de janeiro, na Drill Hall da Cidade do Cabo, Rhodes agradeceu publicamente às missões anglicanas e católicas, ao Exército da Salvação, ao Movimento dos Jovens Exploradores de Baden Powell e à Sociedade Abolicionista por terem contribuído para a "libertação" da Rodésia dos rebeldes africanos.

Em 1914, a maior parte do território africano pertencia às potências coloniais européias, que confiaram o controle da educação aos missionários cristãos.

Em 1920, a Aliança das Sociedades Missionárias no Quênia pediu à Comissão da África Oriental para não permitir as contratações livres entre empregados e patrões.

Em 1921, no Congo Belga, Kimbangu liderou o movimento anticolonialista. Seguidor de Gandhi, ele pregava a não-violência. Outro movimento de resistência foi liderado por Simon N'Tualani. Os missionários católicos pediram ao governo belga para perseguir os dois líderes e seus grupos, pois se recusavam a trabalhar e pagar impostos aos colonizadores. Kimbangu foi preso, torturado e morto. N'Tualani, por sua vez, conseguiu fugir, mas os missionários conspiraram com o governo colonial para prendê-lo. N’Tualani foi então capturado, junto com 38 mil pessoas, torturado e mantido em cárcere até sua morte.

Em 1926, a Conferência Missionária Internacional condenou as Igrejas africanas "etíopes" separatistas.

Em 1940, em maio, foi firmada uma concordata entre Portugal e o Vaticano que incluiu uma "orientação" missionária católica nas colônias portuguesas.

Em 1946, em Uganda, foi fundado o partido Bataka, cujo programa englobava a requisição de terras para os camponeses e os direitos de cidadania para os negros. Os missionários proibiram os membros do partido de entrar nas igrejas.

Em 1950, nasce o movimento nacionalista ugandense, cujo programa antimissionário previa a redistribuição da terra e um governo próprio.

Em 1953, no Quênia, os missionários, guiados por Crey lançaram uma campanha racista contra as populações kikuyu e mau mau (os guerreiros quenianos independentistas). Foi estipulada a pena de morte para quem prestasse o juramento mau-mau.

Em 1955, graças ao monopólio educacional das missões, o Congo não formou um só engenheiro ou advogado africano.

Em 1960, nas colônias portuguesas, havia mais de cem missões católicas. As atividades "didáticas e educacionais", controladas por essas missões e por outros quinhentos missionários protestantes, eram do tipo segregacionista: não existiam universidades para os negros, e grande parte das crianças em idade escolar não freqüentava as aulas. A assistência sanitária, também controlada pelos missionários, era só para os brancos. Em Angola, a mortalidade infantil era de 50%, havia um médico para cada dez mil habitantes, e quase todos a serviço dos grupos europeus. Quando a população da África do Sul se insurgiu contra a segregação, ateou fogo a muitas igrejas católicas.

Em 1964, depois da independência e do fim do monopólio das missões no campo educacional, a taxa de analfabetismo em Gana caiu de 85% para 25%.

Em 1977, na África do Sul, pela primeira vez no século, as escolas "brancas" católicas, anglicanas e metodistas admitiram não-europeus, através de critérios seletivos e limitados e com o consentimento tácito do governo, objetivando "desintrincar" a situação pós-Soweto.


A Idade Contemporânea

EPÍLOGO

Silêncio, omissão, segredos, mentiras...

Falar das posições (e ações) da Igreja durante o século XX é uma tarefa árdua, pois os fatos ainda são recentes e estão encobertos por muitos mistérios, silêncios omissões.

Por exemplo, existe um envolvimento da Igreja nos crimes perpetrados durante a ditadura nazista, mas seu papel no extermínio de judeus e homossexuais ainda precisa ser reconstruído com precisão.

Deixando de lado seu papel ativo, a falta de condenação já diz bastante sobre a posição ideológica da Santa Sé. No que diz respeito às mais sanguinárias ditaduras sul-americanas, a Igreja sempre optou por adotar posições instrumentais e oportunistas.

Todos se lembram do abraço entre Pinochet e o papa Woityla, bem como da oposição à Teologia da Libertação. A aprovação ou participação ativa de religiosos nos massacres mereceria ser tratada em um livro inteiro, com trechos dedicados às causas e reviravoltas geopolíticas em parte ainda não questionadas.

Ainda não conhecemos (ao menos não oficialmente) qual foi a verdadeira causa da morte de Albino Luciani, João Paulo I, morto com apenas 33 dias de pontificado.

E ainda há a grande e controversa história das questões econômicas e financeiras do Vaticano: o Instituto de Obras Religiosas, o caso do Banco Ambrosiano, a história de Roberto Calvi, mas também a de Michele Sindona e, principalmente, de Paul Marcinkus, então presidente do Banco do Papa. Uma história de mortes, furtos e lavagem de dinheiro.

Até hoje não se conhecem os verdadeiros mandantes e o verdadeiro motivo do atentado contra o papa e suas conseqüências internacionais, do desaparecimento de Emanuela Orlandi e Mirella Gregori, e da morte dos guardas suíços, passando por aspectos obscuros de instituições como a Opus Dei.

Nos últimos trinta anos, o Vaticano acumulou uma infinidade de segredos e mistérios dificilmente decifráveis.

Neste epílogo, que não se pretende em absoluto exaustivo, tentaremos narrar alguns dos mais controversos episódios, deixando os aprofundamentos para um próximo livro totalmente dedicado aos últimos cem anos de história.

Pequeno Estado, grande Império

O Vaticano é hoje um Estado minúsculo, de apenas 0,44 quilômetros quadrados, inserido no coração de Roma e com pelo menos oitocentos habitantes. Estamos bem longe da expansão territorial de poucos séculos atrás, mas o pequeno Estado, hoje, tem mais poder do que nunca, pois controla um bilhão de fiéis em todo o mundo. Na cabeça deste Império está o papa, um verdadeiro monarca ladeado pela Cúria composta de 2.300 pessoas que cuidam de todos os interesses da Santa Sé no mundo. Uma teocracia absoluta.

O Vaticano possui ramificações e emissários em toda parte. Está envolvido não só na história espiritual do planeta, mas também nas decisões políticas e nas escolhas operacionais, ora apoiando, ora obstruindo os vários poderes que se alternam. Seus objetivos se mostram pontualmente utilitaristas.

A Igreja e o nazismo

Nos últimos tempos surgiu uma nova discussão sobre a figura do papa Pio XII (1939-1958) e de seu possível envolvimento no nazismo e no extermínio de judeus.

No final de novembro de 2005, uma comissão católico-judaica internacional, criada em outubro de 1999 e composta por seis historiadores (três judeus e três católicos), não foi capaz de dar uma resposta satisfatória, formulando, ao contrário, 47 perguntas sobre o pontificado do papa Pacelli. Dentre elas: por que o Vaticano não condenou o pogrom nazista de 1938 contra os judeus? O papa tinha conhecimento do extermínio de judeus? Como os fundos colocados à disposição por uma organização judaica americana acabaram sendo usados pela Igreja para salvar judeus convertidos, e não todos os perseguidos? E quanto aos ciganos, negros e homossexuais? A falta de desculpas da Igreja a estas minorias é uma aprovação ao massacre.

É verdade que o papa deu sua aprovação ao anti-semitismo de Pétain em Vichy? Por que durante o famoso discurso do Natal de 1942 o papa condenou as violências nazistas, mas sem fazer menção aos judeus? Por que a Santa Sé se opôs à transferência dos judeus para a Palestina?

Segundo um relatório secreto redigido pelo então embaixador americano junto à Santa Sé, Harold Tittmann, sobre sua audiência com o papa em 30 de dezembro de 1942, Pacelli lhe revelou que considerava exageradas as notícias sobre as atrocidades nazistas contra os judeus.

No encontro de 40 minutos, o papa disse não estar disposto a denunciar explicitamente os nazistas. Ele demonstrou "temer" que as notícias sobre as atrocidades pudessem ter fundamento, mas "também me deixou entender que estava convencido de que os Aliados haviam exagerado por razões de propaganda", o diplomata americano contou no relatório de quatro páginas, carimbado como top secret e apenas recentemente revelado pelos arquivos públicos americanos.1 A Igreja ainda hoje responde a essas perguntas com o silêncio, chegando a permitir, ironicamente, que a comissão só consulte os arquivos vaticanos até 1922. Outra resposta significativa a essas perguntas foi a canonização do papa Pio XII por parte de João Paulo II.



A Igreja e as ditaduras

Uma constante na orientação política da Igreja Católica, e de muitas outras crenças cristãs no século XX, foi a grande aversão ao marxismo e às doutrinas socialistas de maneira geral. Aversão essa que muitas vezes levou a hierarquia eclesiástica a apoiar regimes conservadores e ditaduras de direita, embora tivesse conhecimento dos crimes por elas perpetrados.

Por exemplo, em 1933, na Alemanha, o Partido Católico de Zentrum votou a favor de leis especiais que conferissem plenos poderes a Hitler. Em troca, o novo governo nazista, poucos meses depois, assinou uma concordata com a Santa Sé.

Muitos outros prelados aderiram ideologicamente a doutrinas de tipo nazifascista ou consideraram este tipo de regime um mal menor.

As ditaduras de direita foram consideradas um "fenômeno transitório" diante dos totalitarismos comunistas, que, ao contrário, tendiam a se autoperpetuar e a subtrair o "cuidado com as almas" do controle da instituição eclesiástica.

Dois exemplos recentes desse comportamento condescendente da Igreja com as ditaduras de direita são a Argentina e o Chile.

A Argentina

A ditadura argentina de Videla (1976-1983) foi uma das mais cruéis da história recente do continente sul-americano, ligada a um fenômeno tristemente famoso, os desaparecidos.

Calcula-se que, nos poucos anos de ditadura, com a desculpa da luta contra o terrorismo, na verdade um fenômeno marginal na época, pelo menos trinta mil pessoas desapareceram. As vítimas eram opositores políticos, intelectuais, estudantes, sindicalistas, trabalhadores, religiosos e até crianças. Todas essas pessoas foram ilegalmente seqüestradas, torturadas, mortas ou sumiram do nada.

A repressão foi parte de um plano ilegal, predeterminado e sistemático realizado pelos militares.

A tragédia dentro da tragédia foram os filhos das desaparecidas, nascidos nas prisões e nos campos de concentração, por vezes concebidos em atos de violência sexual dos militares. Subtraídos dos pais, foram dados em adoção aos torturadores, materialmente responsáveis pela morte dos pais.

Pelo menos nove mil presos políticos sofreram torturas, e calcula-se que 15 mil tenham sido mortos pelas ruas, incluindo aí padres e religiosas.

Desde o início, o regime militar argentino, que também perseguiu muitos católicos, foi moralmente acobertado pelos expoentes da Igreja do país.2 O núncio apostólico (embaixador do Estado Vaticano), monsenhor Pio Laghi, em 27 de junho de 1976, apenas três meses antes do golpe, deu o seguinte pronunciamento: "O país tem uma ideologia tradicional, e quando alguém pretende importar idéias diferentes ou estranhas, a Nação reage como um organismo, com anticorpos, contra os germes, e assim nasce a violência. Os soldados cumprem seu dever primeiro de amar Deus e a Pátria, que está em perigo. Pode-se falar não só de invasão de estrangeiros, como de invasão de idéias que colocam em risco valores fundamentais. Isso provoca uma situação de emergência, e, nessas circunstâncias, podem-se aplicar as idéias de São Tomás de Aquino, que ensina que, em casos do gênero, o amor pela Pátria se equipara ao amor por Deus."

Pio Laghi, que em seguida se tornou cardeal, tinha uma relação cordial com o alto oficialato golpista. Por exemplo, jogava tênis com o almirante Emilio Massera, um dos componentes da junta militar que deu o golpe, tendo celebrado o casamento de seu filho e batizado um neto seu.

A colaboração entre a Igreja Católica e a ditadura se tornou operacional por intermédio de capelães militares nas prisões políticas, que deviam não só confortar espiritualmente os autores dos genocídios e os torturadores, como também, por meio da confissão, colaborar com o Exército extraindo informações dos detentos.

Muitas vezes, os capelães, obrigados ao segredo acerca de todas as atrocidades das quais eram testemunhas, presenciavam também as sessões de tortura, tornando-se cúmplices da tortura psicológica. Por exemplo, aos presos que reclamassem dos maus-tratos sofridos, a resposta dos capelães era pedir que colaborassem para acabar com o sofrimento a eles imposto (essa prática lembra os métodos da Inquisição). Além disso, usavam as informações recebidas no confessionário para favorecer a captura dos "subversivos".

Um deles foi o sacerdote Christian von Wernich, atualmente preso e processado por crimes cometidos durante a ditadura. Ele foi um ativo repressor que participou de sessões de tortura e de execuções nos centros de detenção clandestinos (aproximadamente 340 em todo o país, escondidos da mídia internacional e das organizações humanitárias e geridos pela junta militar). A um preso que implorou que não o deixasse morrer, respondeu: "A vida dos homens depende de Deus e da sua colaboração."

Ele ainda batizava os recém-nascidos que vinham ao mundo nos centros de detenção e ajudou na captura de subversivos revelando segredos de confissão.

Em maio de 1997, a Associação das Mães da Praça de Maio apresentou à magistratura italiana uma denúncia contra Pio Laghi — que havia voltado ao Vaticano e se tornara Prefeito da Congregação para a Educação Católica — por cumplicidade com o regime militar argentino.

Segundo as Mães, o núncio "colaborou ativamente com membros sanguinários da ditadura militar e conduziu pessoalmente uma campanha cujo objetivo era ocultar tanto dentro quanto fora do país o horror, a morte e a destruição. O monsenhor Pio Laghi trabalhou ativamente para desmentir as incontáveis denúncias dos familiares das vítimas do terrorismo de Estado e os relatórios de organizações nacionais e internacionais de direitos humanos."3

Ele também é acusado de "ter calado as denúncias internacionais sobre o desaparecimento de mais de trinta sacerdotes e a morte de bispos católicos. Pio Laghi providenciou, com a ajuda de membros do episcopado argentino, a nomeação de capelães militares, da polícia e das prisões que garantissem o silêncio a respeito das execuções, torturas e estupro a que assistissem. Tais capelães deviam não só confortar espiritualmente os autores dos genocídios e os torturadores, como também, por meio da confissão, colaborar com o exército extraindo informações dos detentos".

A denúncia era acompanhada de um grande dossiê com testemunhos de antigos presos políticos e de parentes dos desaparecidos. Os depoimentos falam do empenho pessoal do monsenhor Laghi para obter a soltura e a expatriação de vários presos políticos, mas também demonstram que o núncio estava totalmente a par das torturas e mortes, e que até visitou alguns dos campos de concentração.

O dossiê também trazia os testemunhos constantes dos autos de um processo realizado em 1985 na Argentina, que se encerrara com a condenação à prisão perpétua dos ditadores Videla e Missera (mais tarde soltos graças ao indulto concedido pelo presidente Menem).

Outro documento relevante é a confissão do capitão-de-corveta Adolfo Scilingo, segundo a qual [...] a decisão que determinou que os presos desaparecidos deveriam ser jogados vivos no mar do alto de aviões da Marinha foi comunicada pelo ex-comandante de Operações Navais, o vice-almirante Luis Maria Mendía, em uma grande reunião de oficiais da Marinha na base naval de Puerto Belgrano. Scilingo afirma que as autoridades eclesiásticas foram consultadas e aprovaram o método como 'uma forma de morte cristã'. “Isso aconteceu sob o comando do ex-comandante-em-chefe Emilio Massera, amigo íntimo de Pio Laghi e seu companheiro das partidas de tênis matinais”.4

O dossiê ainda reunia uma extensa lista de pessoas cujos depoimentos poderiam ser úteis em um eventual processo contra Pio Laghi.

Hebe de Bonafini, ativista da Associação das Mães, declarou em uma entrevista: "Nós, mães, sofremos o desprezo da Igreja, cujas autoridades chegaram à decisão, que talvez também dependesse de Laghi, de que não poderíamos receber a comunhão, 'pois estávamos cheias de ódio'. Na Argentina e em toda a América Latina, existem duas Igrejas: a que luta junto ao povo e aos setores mais pobres, e aquela aristocrática, dirigida pela Opus Deu que estabelece alianças criminosas com os ditadores da vez."

É óbvio que, na Itália, nunca houve um processo para apurar a verdade sobre essas acusações, até porque Laghi foi protegido pela cidadania vaticana e por seu status de diplomata. O ex-núncio se defendeu das acusações com um pequeno comunicado tornado público pela assessoria de imprensa do Vaticano.

"As afirmações desse grupo de mulheres argentinas são apenas difamatórias e destituídas de qualquer conteúdo e fundamento, seja no que diz respeito aos fatos, seja do ponto de vista ético e jurídico. Meu trabalho como núncio apostólico na Argentina, de julho de 1974 até o final de dezembro de 1980, está todo documentado tanto junto ao "bispado argentino quanto na Secretaria de "Estado. Os documentos estão todos nas mãos deles. Naquele período, recebi dos bispos da Argentina, dos líderes da comunidade judaica, de sacerdotes, religiosos e fiéis uma infinidade de declarações escritas de solidariedade e de reconhecimento pelo que pude fazer na época para defender — como eles mesmos dizem — com grande responsabilidade e dedicação todos os sofredores que encontrei em minha longa missão a serviço da Santa Sé em vários países do mundo."

O documento contradiz a si próprio, já que, no primeiro parágrafo, o ex-núncio apostólico nega saber de qualquer coisa, ao passo que, no último, menciona seu trabalho em defesa dos "sofredores", ou seja, as vítimas da ditadura, o que implica, ao menos em linhas gerais, o conhecimento da repressão.

A parte central do comunicado é particularmente interessante, pois Pio Laghi basicamente afirma não ter agido a título pessoal, com seu trabalho tendo sido aprovado pela Santa Sé. O caso Laghi exemplifica bem o papel da Santa Sé na história recente de torturas e massacres na Argentina. E é emblemática também em razão da dificuldade de análise dos fatos recentes.



O Chile

Mais ou menos na mesma época, uma relação igualmente cordial ligava o núncio apostólico no Chile, monsenhor Ângelo Sodano, nomeado em 1977, e o ditador Augusto Pinochet, alçado ao poder no golpe militar de 1973, que, aliás, sempre ostentou seu catolicismo.

Sodano, futuro cardeal e secretário de Estado do Vaticano, chegou a declarar a respeito do regime chileno: "Até as obras-primas têm algumas máculas. Convido vocês a não se deterem nelas e a observarem o conjunto, que é maravilhoso."5

Menos cordiais eram as relações entre a nunciatura e o arcebispo de Santiago, Raul Silva Henriquez, decidido opositor ao regime, cujos posicionamentos públicos antiditadura por várias vezes irritaram os ambientes diplomáticos vaticanos.6

Em abril de 1987, o papa João Paulo II, durante viagem à América Latina, visitou o Chile e encontrou o ditador Pinochet. A visita foi fruto do empenho conjunto de Sodano e da Opus Dei, organização à qual pertenciam tanto o atual porta-voz do Vaticano, Joaquín Navarro Valls, quanto ministros do governo chileno, como Francisco Javier Cuadra.

O pontífice visitou o palácio presidencial (uma foto que ficou na história retrata Woityla e Pinochet cumprimentando a multidão lado a lado, na sacada do La Moneda), mas não a sede da Vicaria de Ia Solidaridad, estrutura da diocese de Santiago utilizada para assistir às vítimas da repressão, limitando-se a cumprimentar seus dirigentes do lado de fora.

A chegada do papa reuniu uma multidão de dezenas de milhares de pessoas. Mas muitos eram católicos vindos para protestar contra o que parecia um aval da Igreja à ditadura chilena e para denunciar publicamente os crimes do regime. Na mesma noite da visita ao palácio, os confrontos entre policiais e manifestantes levaram à morte de um destes.

João Paulo II visitou vários lugares no Chile; encontrou-se com representantes da oposição, inclusive presos políticos que ainda traziam no corpo as marcas dos maus-tratos sofridos; e fez vários discursos públicos. O papa, por um lado, convidou Pinochet a respeitar os direitos humanos e declarou que a ditadura era "um evento transitório". Por outro, condenou a ingerência da comunidade internacional nos assuntos internos de um Estado soberano e pediu que os opositores ao regime não recorressem nunca, por nenhuma razão, à luta armada.

Se o comportamento da Igreja em relação ao regime militar chileno, de algum modo, podia ser entendido como "razão de Estado", menos compreensíveis são outras demonstrações de apoio à pessoa de Augusto Pinochet, mesmo depois da queda da ditadura.

"Vinte anos depois do golpe", escreve Gianni Perrelli no L'Espresso de 10 de dezembro de 1998, "a legitimação mais calorosa ao ditador Augusto Pinochet chegou das salas do Vaticano. Em 18 de fevereiro de 1993: a muito particular ocasião de suas bodas de ouro foi comemorada com duas cartas em espanhol, escritas de próprio punho, que expressavam amizade e estima e traziam na parte de baixo a assinatura do papa Woityla e do secretário de Estado Ângelo Sodano. Ao general Augusto Pinochet Ugarte e à sua digníssima esposa, senhora Lúcia Hiriarde Pinochet, por ocasião de suas bodas de ouro e em sinal das abundantes graças divinas', escreve o pontífice, sem constrangimento. 'É com grande prazer que concedo, também a seus filhos e netos, uma bênção apostólica especial. João Paulo II?' Ainda mais calorosa foi a mensagem de Sodano. "O cardeal escreve que recebeu do pontífice 'a tarefa de enviar à Sua Excelência e à sua digníssima esposa o autógrafo pontifício, aqui incluído, em sinal de especial benevolência. E acrescenta: 'Sua Santidade guarda a comovida lembrança de seu encontro com os membros de sua família por ocasião da extraordinária visita pastoral ao Chile.' E conclui afirmando ao senhor general a expressão de minha mais alta e distinta consideração?'

Ainda em 1998, quando a magistratura espanhola pediu a extradição de Pinochet, acusado do homicídio de cidadãos espanhóis, a Secretaria de Estado vaticana se opôs à extradição por "razões humanitárias", provocando protestos nos círculos católicos progressistas.

A Teologia da Libertação

Nem toda a Igreja Católica concordava com as ditaduras sul-americanas. Ao contrário. Em 1968, durante uma conferência episcopal na América do Sul, nasceu uma corrente de pensamento denominada "Teologia da Libertação". Alguns altos expoentes da hierarquia eclesiástica assumiram uma posição decidida a favor dos extratos mais desfavorecidos da sociedade latino-americana e de sua luta. No Brasil, a Teologia teve o apoio do cardeal de São Paulo, Paulo Evaristo Arns, e do bispo Helder P. Câmara.

Na Nicarágua, vários sacerdotes e leigos católicos participaram da luta armada contra a ditadura de Somoza, e, em seguida, sacerdotes como Ernesto Cardenal e Miguel D'Escoto chegaram a fazer parte do governo sandinista. Mas a terceira reunião da conferência episcopal, que aconteceu em Puebla, no México, em 1979, presenciou a emergência de uma forte oposição às teses da Teologia da Libertação, levada adiante pelos setores conservadores. Essa oposição foi reforçada nos anos 1980, graças ao apoio do pontífice João Paulo II. Os principais artífices da Teologia da Libertação foram progressivamente afastados das camadas hierárquicas superiores e seu campo de ação, aos poucos, foi sendo reduzido.

O papa Bento XVI também se pronunciou várias vezes contra a Teologia da Libertação, em especial no confronto com um de seus mais acirrados defensores, o padre franciscano Leonardo Boff.

Em 6 de agosto de 1984, o então cardeal Ratzinger escreveu o primeiro documento vaticano "Sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação".

Poucos dias depois, em 7 de setembro, teve seu primeiro encontro com Leonardo Boff, convocado pelo Vaticano para uma "reunião" no gabinete da Congregação para a Defesa da Fé. Durante a "conversa", o cardeal Ratzinger e o frei Boff falaram de "alguns problemas surgidos da leitura do livro Igreja: carisma e poder", para "dar ao frei Boff a oportunidade de esclarecer alguns aspectos do livro que suscitaram dificuldade". Mas no ano seguinte, em 20 de março de 1985, uma "notificação" da mesma Congregação, assinada pelo cardeal Joseph Ratzinger e aprovada pelo papa Woityla, afirmou que o livro continha "opções que colocavam em perigo a real doutrina da fé". Foi imposto ao teólogo franciscano um ano de silêncio.

Alguns dias depois, Ratzinger, referindo-se a Boff para alguns jornalistas, afirmou combater sua tese. Boff largaria a batina.7



A Igreja e os negócios

A Santa Sé tornou-se uma potência financeira que administra fortunas tão colossais quanto discretas na economia mundial.

Com os Pactos de Latrão de 1929, entre o governo do Duce e a Santa Sé, resolveu-se o contencioso com o Estado italiano pela anexação dos territórios antes sujeitos ao Estado Pontifício.

O acordo financeiro liquidava as pendências econômicas entre as duas partes mediante um conspícuo pagamento feito pelo governo italiano e a cessão de uma boa quantidade de ações, a título de indenização pelos danos causados à Santa Sé com a anexação dos antigos Estados Pontifícios à Itália e a conseqüente liquidação de grande parte dos bens patrimoniais eclesiásticos.

Na ocasião, o Estado garantiu ao Vaticano um subsídio anual de 3.250.000 liras.

Pouco depois, o Estado italiano reconheceu ao Estado Vaticano uma ulterior indenização una tantum de um bilhão e 750 milhões de liras da época, entre dinheiro e títulos.

Para administrar esse imenso patrimônio, a Santa Sé confiou em um leigo, Bernardino Nogara, ex-vice-presidente do Banco Comercial Italiano, que aceitou sob a condição de ter total liberdade para investir em todos os lugares do mundo e de todas as maneiras que considerasse oportunas, de forma "completamente livre de qualquer consideração religiosa ou doutrinária".8

Atualmente, a Cidade do Vaticano tem três instituições financeiras: a "Apsa", que funciona como banco central; o "Ministério da Economia"; e o "Ior".

O Ior (Instituto de Obras Religiosas) é o banco do papa (o papa é seu único acionista) e é completamente independente, pois não tem responsabilidade para com os outros dois institutos. Tem três conselhos administrativos: o primeiro é constituído por cardeais de alto nível; o segundo, por banqueiros internacionais que colaboram com funcionários do banco vaticano; e o terceiro e último é formado por um conselho de administração que cuida dos negócios do dia-a-dia.

Desde seu nascimento, o Ior esteve no centro de grandes polêmicas alimentadas também pela excessiva confidencialidade de seus negócios. Existem documentos, tanto na Alemanha quando nos Estados Unidos, que parecem demonstrar as transferências de fundos nazistas do Reichsbank e de bancos suíços controlados pelos nazistas para o Ior.

O Ior poderia ser um dos maiores cúmplices do desaparecimento do tesouro da Croácia independente (um Estado-fantoche alemão), avaliado em cerca de 200 milhões de dólares em 1945. Os nazistas croatas, os ustasas, eram nacionalistas ferrenhos com um ódio incalculável pelos servos cristãos ortodoxos, a ponto de matar mais de quinhentos mil deles junto com dezenas de milhares de judeus e ciganos.

Quando, em 1945, o ditador Ante Pavelic fugiu, junto com seu gabinete e quinhentos religiosos católicos, encontrou refúgio em Roma, onde viveu por três anos escondido no Collegio di San Girolamo degli Illirici. Levou consigo o ouro, as jóias e os títulos roubados das vítimas. O Vaticano, então, ajudou-o a fugir para a Argentina, em 1949, vestido com roupas de padre e munido de um passaporte válido.

Com a mesma, mobilidade, a Santa Sé ajudou na fuga de duzentas ustasas e cinco mil criminosos nazistas, a aristocracia do crime, dentre os quais estava o Dr. Mengele, Walter Rauff, Adolf Eichmann, Erick Priebke e Franz Stangl.

No comando da organização de socorro do Vaticano, que os aliados chamaram de "rat line", caminho dos ratos, estavam Draganovic, monsenhor e ex-coronel ustasa; e o bispo Alois Hudal, titular da igreja de Santa Maria das Almas em Roma e homem de confiança do papa Pacelli. As memórias de Hudal, publicadas em alemão após sua morte, representam a mais detalhada documentação do caminho dos ratos: "Trabalho realizado pelo Vaticano", como ele afirma.

Em 1998, o Departamento de Estado americano indicou, no relatório conhecido como "O destino do tesouro dos ustasas", o Vaticano como possível local onde procurar as respostas. A Secretaria de Estado vaticana, então dirigida pelo cardeal Sodano, opôs-se veementemente a tornar públicos os arquivos relativos à Segunda Guerra Mundial e enviou ao governo americano uma nota diplomática em que lhe pedia para pressionar a Justiça para arquivar o caso. O Departamento de Estado se recusou, e a questão ainda espera uma decisão.

Em 1968, dez anos depois da morte do engenheiro Bernardino Nogara, nomeado pelo papa como administrador especial da Santa Sé, e quarenta anos depois dos Pactos de Latrão, as várias participações do Vaticano na indústria, nas finanças e nos serviços foram estimadas em oito bilhões de dólares.

Depois de Nogara, o Vaticano recorreu aos serviços de Sindona, e, quando este não foi mais confiável, aos de Roberto Calvi. Seria preciso esperar a falência do Banco Ambrosiano, após a morte de Calvi, para descobrir o gigantesco envolvimento do Vaticano nos negócios ilícitos operados por Sindona e Calvi.

Roberto Calvi se tornara presidente do Banco Ambrosiano em 1975. Era apelidado de "Banqueiro de Deus", por sua proximidade com o Ior de Paul Marcinkus.

Calvi criou uma rede de estruturas ad hoc formada por filiais off-shore nas Bahamas, uma holding em Luxemburgo, empresas-pirata na América Central e cofres na Suíça. Ao longo dos anos, criou um império que se desenvolveu extraordinariamente e que se tornou ponto central não só de lavagem de dinheiro do crime organizado, como de operações internacionais de vários gêneros: do tráfico de armas para a Guerra das Malvinas e apoio à ditadura de Somoza ao financiamento do sindicato católico polonês Solidariedade. Quando a posição do "Banqueiro de Deus" ficou insustentável, o Ior e a Opus Dei se retiraram, tirando-lhe qualquer apoio. Calvi foi preso e, após a soltura, fugiu para Londres em busca de amparo internacional e ameaçou divulgar documentos bombásticos em seu poder.

Em 17 de junho de 1982, foi encontrado morto enforcado sob a ponte de Black Friars, em Londres. A polícia inglesa arquivou o caso como "suicídio". Apenas em 1988, durante um processo civil, o tribunal italiano declarou sua morte como homicídio, após as analises radiográficas do cadáver terem mostrado ausência das lesões ósseas na região cervical muito prováveis em caso de morte por enforcamento, em razão do contragolpe dado quando a corda se estica. Além disso, o exame das unhas e das mãos de Calvi comprovaram que ele nunca encostou nos tijolos encontrados em seus bolsos ou na estrutura que sustenta a ponte de Black Friars. Portanto, o banqueiro foi assassinado (ao que tudo indica, a 100 metros da ponte, em um canteiro de obras), e depois foi encenado seu "suicídio".

O processo penal ainda não terminou.

A secretária pessoal de Calvi morreu 12 horas depois dele, "jogando-se" da janela de seu escritório no Banco Ambrosiano. Michele Sindona (mentor de Calvi), após encenar o próprio seqüestro, foi preso e morreu na cadeia em 1986, após tomar um café com arsênico. Sindona, em um inacreditável dossiê de 27 volumes redigido pelo FBI, aparece repetidas vezes ligado ao Vaticano.

O bispo Paulo Hnilica, que também pertencia ao Ior, foi preso após tentar comprar o conteúdo da maleta desaparecida de Calvi.

Marcinkus invocou com sucesso a imunidade diplomática e acabou se tornando chefe da segurança e braço-direito de João Paulo II após a morte prematura de João Paulo I. Ele atualmente é pároco em Phoenix, no Arizona.

O escritor investigativo David Yallop, em seu livro In Gods Name (Em nome de Deus), formulou a hipótese de que João Paulo I tenha sido envenenado (a Santa Sé não autorizou a autópsia) também por seu empenho em fechar ou limpar o Banco do Vaticano.

O escândalo da pedofilia

O sistema secreto que protege os crimes sexuais dos eclesiásticos remonta pelo menos ao início do século XVII, quando o fundador da ordem dos Piaristas, padre Joseph Calasanz, proibiu que as violências sexuais praticadas por seus sacerdotes contra crianças fossem divulgadas ao público. E esse sistema, aprovado por séculos e valorizado por todos os papas, está desde então na base do escândalo das últimas décadas.

Só o medo, a arrogância e talvez o senso de impunidade da hierarquia vaticana podem explicar casos como o dó padre Michael Baker, que, em 1985, confessou espontaneamente ao então arcebispo Mahony que molestava crianças. A resposta foi calar a todos, afastá-lo de sua paróquia, proibir qualquer contato seu com crianças e submetê-lo a uma série de sessões com psiquiatras e psicólogos, o que não o impediu de continuar com seus hábitos.

Existem, pelo menos, dez casos documentados de crianças gravemente violentadas por ele após sua "reabilitação" e, com certeza, esse número é bem maior, tendo em vista o pudor e a vergonha que impediram muitas vítimas de seguir adiante. Foi preciso esperar até 2000, 15 anos após sua confissão, para que ele finalmente fosse destituído da condição de padre e expulso da Igreja.

E este é apenas um exemplo. Em muitos casos, a violência não se limita às crianças, atingindo também mulheres (menores ou maiores de idade) e freiras.

A Igreja sempre tentou impor o silêncio e abafar os escândalos, transferindo os padres incriminados para outras dioceses e, nos casos mais graves, oferecendo indenizações em dinheiro (parece que o primeiro caso data de 1935).

Com o fundo de compensação de 120 milhões de dólares anunciado pela diocese de Covington, no Kentucky, em junho de 2005, de 1950 até hoje, a Igreja Católica americana já pagou 1,06 bilhão de dólares a título de ressarcimento a mais de 11.500 vítimas de padres pedófilos.

Nos últimos três anos, as dioceses americanas pagaram pelos menos 378 milhões de dólares. E a quantia deve aumentar, haja vista as centenas de acusações ainda pendentes.

O instituto das indenizações aumenta continuamente, graças também ao destaque que os casos tiveram na imprensa. Por exemplo, em dezembro de 2004, a diocese californiana de Orange aceitou pagar 100 milhões de dólares a 87 vítimas de abusos. Um ano antes, a arquidiocese de Boston concordou em pagar 85 milhões a 552 vítimas. E o escândalo não diz respeito apenas ao Estados Unidos; Irlanda, Espanha, América Latina e Filipinas são alguns dos lugares de onde chegam denúncias quase diárias de violência sexual de padres contra menores.

Entretanto, as autoridades eclesiásticas parecem não aprender a lição. Em 2001, em carta enviada a todos os bispos católicos, o então cardeal Ratzinger, atual papa Bento XVI, ordenou que os bispos investigassem secretamente, sob pena de excomunhão, as acusações de abusos sexuais de menores. Os resultados das investigações continuariam em segredo até dez anos após a vítima ter atingido a maioridade.9



Opus Dei

A Opus Dei é uma organização católica com membros em todos os países do mundo. Ainda que hoje em dia tenha relativamente poucos adeptos (de sessenta a oitenta mil pessoas), sua influência é notável.

A Opus Dei nega ser uma organização secreta (o segredo seria teoricamente proibido pela Igreja), mas se recusa a fornecer a lista de seus membros. Tendo afinidade política com a extrema direita, foi fundada em 1928 por um sacerdote espanhol, monsenhor Josemaria Escrivá de Balaguer, e seus membros são, na maioria, leigos.

Seus adeptos são católicos integralistas que praticam a autoflagelação e usam um cilício. As mulheres nunca chegam a desempenhar papéis importantes na hierarquia, e a educação dos novos membros é muito rígida.

Segundo eles próprios se definem, "a Opus Dei tem por objetivo contribuir com a missão evangelizadora da Igreja, promovendo um estilo de vida plenamente coerente com a fé no dia-a-dia dos fiéis cristãos de qualquer condição, especialmente através da santificação do trabalho".10

De fato, a organização é formada por personalidades tão poderosas quanto escondidas que se infiltram sobretudo na mídia e propõem uma mudança na percepção e na opinião das pessoas. O objetivo final parece ser uma espécie de golpe que leve reviravoltas à própria Santa Sé, já que foram rejeitadas as decisões do Concilio Vaticano II.

Em 1982, a Opus Dei obteve de João Paulo II o status de prelazia pessoal, não estando mais sob a jurisdição da estrutura mundial do bispado. A organização pode agir como preferir, ignorar as contestações das dioceses e responder apenas a seu líder, que hoje é o madrileno Xavier Echevarria, e, através dele, ao papa. Monsenhor Josemaria Escrivá de Balaguer foi beatificado em 1992 e canonizado em outubro de 2002.

Para maiores informações sobre a atividade da Opus Dei, aconselhamos a leitura do livro Do lado de dentro: uma vida na Opus Dei,11 de Maria Carmen del Tapia, secretária particular de Escrivá por seis anos e orgulhosa opositora à sua canonização.



Hoje

Enquanto escrevemos, no trono de Pedro está o papa Joseph Ratzinger, que assumiu com o nome de Bento XVI. Sua eleição não foi bem-recebida pela ala progressista da Igreja Católica. Ratzinger foi, por muitos anos, prefeito da Congregação para a Defesa da Fé, o antigo Santo Ofício, antes conhecido como Santa Inquisição, e não é conhecido por suas idéias progressistas.

Podemos também prescindir de alguns aspectos não muito reconfortantes do passado do atual pontífice, mas atuais são suas reiteradas críticas à comunhão para casais católicos divorciados, ao casamento dos padres, ao sacerdócio das mulheres, bem como ao homossexualismo e à contracepção.

A grande luta da Igreja na Itália durante os referendos sobre o divórcio, em 1974, e o aborto, em 1981, é conhecida. Há pouco tempo, mais uma vez ela contestou incansavelmente o referendo sobre a fecundação assistida.

Tal comportamento levou e leva a Santa Sé para cada vez mais longe da vida cotidiana, seja leiga ou clerical, e esvazia as igrejas, embora a grande máquina midiática do Vaticano continue nos mostrando grandes multidões a cada viagem do papa pelo mundo.

APÊNDICES
APÊNDICE 1

Outros hereges

Guilhermina da Boêmia (cerca de 1269-1282)

Guilhermina, a Boêmia, por alguns considerada filha do rei boêmio Otocaro I Premysl (ainda que muitos historiadores contestem essa possibilidade), era uma mulher muito religiosa que, com seu carisma, atraiu vários seguidores, mais tardes chamados de "guilherminos" (não confundir com a ordem homônima dos eremitas seguidores de São Guilherme de Malavalle). Em 1260, tornou-se "oblata", ou seja, leiga que morava em convento, em Chiaravalle (Milão), onde passou a viver de acordo com os ditames do Evangelho e do amor cristão. Guilhermina passou a pregar a inutilidade dos sacramentos e a recusa ao sofrimento como via de salvação. Quando morreu, seu corpo foi sepultado no mosteiro de Chiaravalle, e em volta de sua figura surgiu um culto alimentado pelos próprios religiosos.

Dois de seus seguidores, Andréa Saramita e Manfreda de Pirovano, chegaram a afirmar que Guilhermina era o Espírito Santo em forma de mulher. Esse milagre correspondia, para eles, à profecia do místico calabrês Joaquim de Fiore, para quem uma mulher se tornaria papisa, reformaria a Igreja e, após sua morte, haveria uma apocatástase (reconciliação e salvação de toda a criação), que libertaria toda a humanidade, inclusive os judeus e muçulmanos.1

A adoração a Guilhermina passou a ser muito popular e começou-se a falar até de santificação. Manfreda sonhava em receber sua herança e tornar-se "papisa", mas se esqueceu da Inquisição. Em 1300, os inquisidores arrancaram a confissão de alguns seguidores, que testemunharam contra ela, acusada de celebrar uma missa solene no dia de Páscoa daquele ano. Os inquisidores ordenaram que Guilhermina fosse declarada herege post-mortem e que seus restos mortais e imagens fossem queimados. No mesmo ano em que seu corpo foi exumado e entregue às chamas, Andréa Saramita e Manfreda de Pirovano morreram na fogueira.





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