O livro Negro do Cristianismo



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Martinho Lutero

Lutero (1483-1546) foi ordenado sacerdote em 1507, após ter concluído brilhantes estudos universitários. Atormentado com o sentido do pecado, sua ânsia o levou a elaborar uma nova doutrina da Salvação, em contraposição à católica. Para Lutero, a absolvição do pecado derivava de uma relação direta entre Deus e o fiel, que poderia ser obtida apenas através da própria fé, não por meio de obras e, muito menos, com a compra de indulgências ou a intervenção de um confessor.4

Lutero defendeu o direito que cada fiel tem de ler e interpretar as Escrituras, negou a autoridade jurisdicional do papa, dando início a uma vigorosa polêmica contra a corrupção da Igreja de Roma, e contestou o poder temporal do clero. Negou também a validade de alguns sacramentos e o valor do celibato eclesiástico.

Em 31 de outubro de 1517, afixou na porta de uma igreja as "95 teses para esclarecer a eficácia das indulgências", que suscitaram grandes polêmicas e tiveram ampla difusão em toda a Alemanha.

Em 15 de junho de 1520, uma bula papal condenou algumas proposições luteranas, ordenando que fossem queimadas. Lutero, em compensação, queimou, diante de uma multidão que o aplaudia, o que ele mesmo chamava de "execrável bula anticristo".

Em 1521, apresentou-se à Dieta de Worms com o salvo-conduto do imperador Carlos V. Ao final de uma acirrada discussão teológica, Lutero declarou que não podia se remeter à autoridade do papa e dos concílios, até porque estes muitas vezes se contradiziam, mas apenas à das Sagradas Escrituras.

Excomungado pela Igreja e banido pelo imperador, continuou suas atividades ou, ao menos, deu início a um projeto ambicioso: a tradução das Escrituras para o alemão. Lutero, com grande probabilidade, salvou-se da fogueira por um conjunto de fatores deliciosamente políticos: o favor de alguns príncipes alemães, dentre os quais estava o eleitor da Saxônia, que o escondeu no castelo de Wartburg encenando um falso rompimento; a desconfiança do papa com relação a Carlos V, cuja influência se tornara preponderante na Itália; o fato de que o próprio Carlos V, nos anos seguintes, estivesse ocupado demais com guerras contra turcos, franceses, venezianos e o próprio Estado Pontifício.

As teses luteranas eram populares entre os príncipes alemães, que desejavam se apoderar dos bens dos grandes eclesiásticos: latifúndios enormes com vários servos da gleba e que gozavam de amplos privilégios fiscais, quase Estados dentro dos Estados.

Lutero também gozava de grande admiração entre o povo, que reconhecia em algumas de suas declarações as próprias aspirações de justiça social. Mas as expectativas de muitos, sob esse ponto de vista, não foram atingidas.

Em 1524, eclodiu nos territórios do Império uma gigantesca rebelião camponesa. Bandos armados compostos de cerca de trezentos mil camponeses saquearam igrejas, castelos e cidades. Lutero, depois de tentar inutilmente uma mediação, escreveu o tratado Contra os bandos arruaceiros e assassinos dos camponeses, uma espécie de carta aberta aos príncipes alemães pedindo para conter os rebeldes. "Esta é a época da ira e da espada, não a da graça [...] Por isso, caros senhores [...] matem, esganem, estrangulem quem puderem [...] e se alguém julgar tudo isso duro demais, pense que a sedição é insuportável e que a cada momento é preciso esperar a catástrofe do mundo."5

Os príncipes católicos e protestantes acolheram o convite e massacraram os rebeldes. Uma das características da Igreja Luterana foi o direito de envolvimento dos príncipes na gestão eclesiástica. O soberano de um Estado se tornava o chefe da Igreja nacional.

Os escritos de Lutero tiveram ampla difusão na Europa, com exceção, talvez, apenas da Itália, onde desencadearam uma severa repressão. Os sermões luteranos se difundiram em muitos países europeus, em alguns casos fornecendo combustível para as fogueiras, em outros, com sucesso, transformando a Reforma em religião de Estado (que perseguiu, por sua vez, os católicos).

A Dinamarca se tornou protestante com o reinado de Cristiano III (1534-1559). Os bispos católicos foram presos e substituídos pelos luteranos, as propriedades eclesiásticas foram confiscadas e utilizadas para manter o Estado e financiar a cultura. O rei era o chefe da Igreja. A Bíblia foi traduzida para o dinamarquês.

Posteriormente, Cristiano III estendeu a própria soberania também sobre a Noruega e a Suécia. Na Noruega, os soldados luteranos demoliram algumas igrejas católicas, e todos os bispos foram expulsos, com exceção de dois que se converteram ao luteranismo. Na Suécia, as doutrinas reformadas penetraram de maneira mais suave e "em diálogo" com Roma. A ruptura só aconteceu em 1523, quando o papa se recusou a ratificar a nomeação de quatro bispos suecos enquanto não se pagassem as anonas (um dos tantos tributos que os reinos cristãos deviam à Santa Sé). O rei da Suécia respondeu que o país era pobre demais para pagar e nomeou ele próprio os bispos.

Dos países escandinavos, o luteranismo se propagou pelas regiões bálticas. Na Finlândia, tornou-se religião de Estado. A Islândia, no século XVI, estava subordinada à Dinamarca, e o luteranismo chegou com os mercadores e doutos que tinham estudado no continente (a Universidade de Wittemberg tornara-se um importante centro de difusão cultural), mas sobretudo pela influência de Cristiano III, contestada em vão por um bispo local e seus dois filhos. Os prelados católicos foram depostos, e seus bens, confiscados. Contudo, a Igreja Reformada manteve várias práticas católicas, como a da confissão e a adoração a alguns santos locais.

Na Boêmia, a Reforma se difundiu graças aos estudantes hussitas formados em Wittemberg. Os alemães da Boêmia se tornaram luteranos; os eslavos, calvinistas, mas depois as duas correntes elaboraram uma confissão de fé unitária para enfrentar melhor os soberanos católicos, o que deu ensejo a uma violenta reação dos católicos em geral e dos jesuítas em particular. Até o final do século XVI, calcula-se que 90% dos boêmios fossem protestantes.

Na Hungria, a Reforma também se difundiu através de diretrizes "étnicas": alemães e eslavos se voltavam preferivelmente ao luteranismo; os magiares, com algumas exceções, ao calvinismo. Vários fatores ajudaram a obra dos reformadores.

Em primeiro lugar, a corrupção que se espalhou entre o clero e os leigos católicos. Os hussitas e (provavelmente) os valdenses abriram o caminho.

A invasão turca à Hungria, em 1541, auxiliou na instituição da Reforma tanto indireta (muitos líderes católicos foram mortos em combate contra os turcos) quando diretamente: as forças de ocupação turcas favoreceram os protestantes em detrimento dos católicos, mais temidos por sua propensão às Cruzadas e sua ligação com o imperador.6

Na Transilvânia, alguns decretos de 1568 e 1571 garantiram direitos iguais a católicos, calvinistas, luteranos e unitaristas.



João Calvino

Calvino (1509-1564), francês, foi o fundador da Igreja Calvinista, outro grande culto reformado que se espalhou pela Europa talvez com um sucesso ainda maior que o luterano. Para Calvino, o pecado original transmitido por Adão a toda a humanidade tornou os homens incapazes de redenção. Apenas os eleitos, que haviam recebido uma graça especial de Deus, poderiam se salvar; todos os outros estavam predestinados à danação.7

Com base nessa afirmação, ninguém além de Deus podia saber com certeza quem eram os eleitos, embora a profissão de fé, uma vida correta e a observância dos sacramentos fossem provas evidentes do favor divino. Existem, assim, duas Igrejas: uma invisível, formada pelos eleitos vivos e mortos e conhecida apenas por Deus; e uma visível, composta também de homens indignos, imperfeita, mas passível de melhoras, e os cristãos deveriam respeitar sua autoridade.8 Obviamente, quando falava de "Igreja visível", Calvino se referia àquela fundada por ele próprio. A Igreja e o Estado eram partes integrantes da mesma comunidade sagrada. Entre os deveres do Estado, havia o de defender a religião e evitar as ofensas contra ela. A pena capital e, dadas as condições, a guerra eram consideradas práticas legítimas e admissíveis para um cristão.

Graças à sua influência, a República de Genebra se transformou em um regime teocrático, o que lhe conferiu um incrível impulso para o comércio, os investimentos e a educação. Um conselho eclesiástico cuidava da moralidade dos cidadãos, cominando penas severas até mesmo para pequenas infrações, e se ocupava dos crimes de heresia.9

Considerado herege e banido da Igreja de Roma, Calvino, por sua vez, teve um comportamento muito duro com os dissidentes de sua doutrina.10

O calvinismo se difundiu em vários países, às vezes em detrimento do luteranismo, como em Estrasburgo, onde muitos reformados aderiram à nova crença, incentivados pela intransigência dos luteranos mais radicais. No Palatinado, tornou-se religião de Estado, e o governo perseguiu católicos e luteranos.11



Os huguenotes

Na França, a Reforma se difundiu sobretudo no sul do país, onde três séculos antes pregavam os cátaros e os valdenses. Os calvinistas franceses eram apelidados de "huguenotes". A disciplina e a moral rígida que os caracterizavam lhes permitiram exercer grande influência na vida pública francesa, embora representassem uma pequena minoria dentro de um país quase totalmente católico.

As autoridades francesas adotaram uma política que se alternava entre tolerância e repressão aos calvinistas e outras minorias religiosas. A repressão não poupou nem os seguidores do bispo católico reformista de Meaux, Guillaume Briçonnet (1492-1549), confessor de Margarida, irmã do rei, que foram lançados à fogueira. A Sorbonne proibiu livros de reformistas, o Parlamento os baniu e decretou a destruição de muitas cidades habitadas por comunidades hereges.

Em 1535, para vingar uma suposta profanação da hóstia sagrada, foram queimados seis hereges, um por cada uma das estações que compunham a solene procissão do Corpus Domini.12

O ano de 1572 pareceu presenciar um período de paz na luta entre católicos e huguenotes. As núpcias entre a católica Margarida, irmã do rei da França, e o protestante Henrique, rei de Navarra, estavam previstas para o dia 28 de agosto. Mas na noite de São Bartolomeu (24 de agosto), em Paris, os soldados do rei da França entraram nas casas dos huguenotes e os mataram em emboscadas. Poucos encontraram abrigo, todas as ruas haviam sido bloqueadas. Nos dias que se seguiram, o massacre se estendeu também a outras cidades francesas e aos campos. Calcula-se que, em Paris e arredores, foram mortos entre 25 mil e 35 mil huguenotes.

O papa Gregório XIII (1572-1585), assim que foi informado do massacre, ordenou que o acontecimento fosse comemorado com festas solenes e celebrou um jubileu "no qual os fiéis deveriam agradecer a Deus pela destruição dos huguenotes e pedir que absolvesse, por completo a França católica".13 Finalmente, encarregou Vasari de imortalizar o feito em um afresco na Sala Regia do Vaticano.

As contendas religiosas, que se misturaram às dinásticas pelo trono da França, só tiveram fim em 1594, quando Henrique IV se tornou rei dos franceses, um protestante convertido ao catolicismo. "Paris vale uma missa", frase que lhe foi atribuída, diz tudo sobre as relações entre política e religião.

Em 1598, foi promulgado o Edito de Nantes, que garantia aos huguenotes a liberdade de culto e o controle, a título de garantia, de algumas cidades fortificadas. Apesar disso, as perseguições não cessaram.

Em 1621, os huguenotes assinaram, na cidade fortificada de La Rochelle, uma verdadeira declaração de independência. A cidade foi tomada em 1628, após um longo sítio. Os reformistas perderam, assim, sua cidade e foram obrigados a pagar pesadas taxas, sendo excluídos por lei do exercício de algumas profissões.

Em 1680, novas perseguições se iniciaram (Luís XIV, o Rei Sol, não tolerava nenhuma forma de autonomia no próprio reino). Alguns protestantes emigraram, outros se converteram à força, por meio de missionários escoltados por bandeiras de dragões (as forças francesas mais ferozes). Dizem que, em três dias do ano de 1684, foram convertidos sessenta mil huguenotes.

Em 1685, o Edito de Nantes foi ab-rogado, provocando um novo êxodo de protestantes. Nas montanhas de Cevennes, um grupo de três mil reformistas guiados, ao que parece, por alguns "profetas-meninos", desafiou um contingente de seis mil soldados do exército francês.

Henrique VIII e a Reforma inglesa

A Igreja Anglicana nasce graças a Henrique VIII"(1509-1547), conhecido por ter tido seis mulheres (duas repudiadas, duas decapitadas e uma morta no parto). Henrique iniciara seu reinado com o marco da ortodoxia católica: seguidores das teses luteranas, como o estudioso Thomas Bilney e o sacerdote William Tyndale, que traduziu para o inglês o Novo e grande parte do Antigo Testamento, acabaram na fogueira. Ele próprio escreveu (ou mandou escrever) um libelo antiprotestante e foi nomeado Defensor Fidei (defensor da fé) pelo papa. Em 1509, casou-se com Catarina de Aragão, viúva de seu irmão mais velho, Artur, após ter obtido uma dispensa especial do papa (as leis da época proibiam casamento entre cunhados).

Por volta de 1527, não havendo tido nenhum filho homem de sua união e desejoso de um herdeiro para sua dinastia, Henrique tentou obter do papa a anulação do casamento, para poder se casar com Ana Bolena. O papa indeferiu o pedido, provavelmente porque temia ofender o imperador Carlos V, sobrinho de Catarina, que já havia saqueado Roma com suas tropas.

Henrique entrou em controvérsia com a Igreja Católica. Em 1531, a assembléia geral do clero o nomeou "chefe supremo da Igreja na Inglaterra" e doou uma notável quantia em dinheiro à Coroa. Em seguida, o Parlamento decretou que os impostos religiosos não fossem mais pagos ao papa, mas ao rei, e que a Igreja Anglicana podia deliberar sobre as próprias questões internas, sem recorrer a Roma.

Quando o papa excomungou Henrique, o parlamento inglês ab-rogou o chamado "Óbolo de Pedro", uma taxa papal imposta a todas as famílias pela Igreja de São Pedro, e proclamou o rei o "único chefe supremo em Terra da Igreja na Inglaterra". Qualquer referência ao papa foi tirada das missas.

Forest, um frei praticante, defensor da autoridade absoluta do papa nas questões de fé, foi acusado de heresia e queimado na fogueira junto com um ídolo de madeira venerado em Gales. Thomas Moore e o bispo Fisher também foram decapitados por sua fidelidade a Roma.

Em todas as igrejas, apareceram uma Bíblia em latim e uma em inglês, para que os leigos lessem diretamente as Escrituras e verificassem como muitas doutrinas e costumes católicos não correspondiam aos textos sagrados. Os mosteiros foram saqueados e destruídos, e seus bens foram confiscados e vendidos.

A ruptura com Roma não significou a automática adesão às doutrinas luteranas, muito pelo contrário. Henrique VIII em pessoa, junto com seus bispos, julgou o caso do luterano John Nicholson, que foi condenado e mandado à fogueira apesar de seu pedido de perdão.

Sob o reinado de Henrique e o breve governo de Eduardo VI, os artigos da fé da Igreja Anglicana foram reescritos várias vezes, alternando posições reformistas e "católicas", às vezes com resultados tragicômicos. Em 1539, foram promulgados os Seis Artigos, que reformulavam vários aspectos da doutrina católica, como o celibato eclesiástico. As infrações seriam punidas com a fogueira ou com o enforcamento. O arcebispo Cranmer, que se casara, teve de esconder a mulher. Em 1543, seis pessoas foram executadas num único dia: três queimadas por heresia e três enforcadas por negarem a supremacia religiosa do rei.

Maria, a Sanguinária, e Elisabete I

Em 1553, a reação católica levou ao poder Maria I (chamada também de Maria, a Católica; ou Maria, a Sanguinária), filha de Henrique VIII e de Catarina de Aragão.

Durante seu breve reinado, ela ab-rogou todos os provimentos de Henrique VIII e Eduardo e retomou as leis contra os hereges. Muitos protestantes fugiram do país e os bispos católicos retomaram a posse de suas sedes. Foram instituídas comissões especiais com a tarefa de encontrar e processar os hereges em todo o território do reino. Em cinco anos, 282 pessoas foram mortas por heresia.

Elisabete I (1558-1603) escolheu o meio-termo, criando uma igreja autônoma cujos artigos de fé representavam um compromisso entre instâncias católicas, luteranas e calvinistas e contentaram grande parte dos cristãos da Inglaterra. Ela conservou a oposição ao extremismo: de um lado, aos jesuítas, que ordenaram vários complôs contra a rainha; de outro, aos puritanos.

Em 1570, Elisabete foi oficialmente excomungada por Roma (lembremos que esse ato, que excluía os súditos da obrigação de fidelidade, representava um grave perigo para a autoridade e a própria vida do monarca), ao que respondeu perseguindo, sem hesitar, os católicos. Das 187 pessoas mortas durante seu reinado, 123 eram sacerdotes católicos ou jesuítas.

Puritanos e anglicanos

A Igreja da Inglaterra fora dividida em duas: de um lado, os puritanos, integralistas da religião, que rejeitavam liturgias e hierarquias eclesiásticas, mas eram impiedosos com os "pecadores"; de outro, os anglicanos, partidários do poder, mais tolerantes com o pecado, mas impiedosos com os puritanos.

Os puritanos (rótulo que na verdade englobava uma constelação de movimentos muito diferentes entre si) professavam o sacerdócio universal, defendiam a igualdade de todos os ministros do culto contra a hierarquia dos bispos e condenavam como "idolatras" a missa e outros rituais anglicanos adaptados dos católicos. Seu programa "político-social" previa punições severas contra blasfemos, caluniadores, perjuros, fornicadores e alcoólatras, além da pena de morte "sem salvação" para os adúlteros. O Parlamento inglês apoiou seus pedidos. Seus adversários eram a monarquia e o clero institucional. A luta entre uma Igreja Alta, aliada ao poder real, e uma Igreja Baixa, muito influente no Parlamento, duraria quase um século, intercalando-se com os vários fatos históricos da época.14

Os anglicanos emanaram leis muito severas contra os puritanos: quem não participasse da missa seria punido com o exílio. Quem fazia "reuniões religiosas particulares" era condenado a penas graves (o pregador John Bunyan foi preso por 12 anos). Os escritores e pregadores puritanos corriam o risco de ser colocados na berlinda, açoitados, marcados com fogo ou ter o nariz e as orelhas arrancados.

A guerra civil e o período do Commonwealth (1649-1659) marcaram um breve triunfo dos puritanos, que conseguiram abolir a instituição dos bispos. Mas a sucessiva restauração voltou a fazer a balança pender para o lado dos anglicanos, que reinstauraram à força a hierarquia eclesiástica. Só os católicos nunca tiveram seu instante de triunfo e foram cuidadosamente perseguidos durante todo o século XVII, acusados de conjuras verdadeiras (como a dos pós) ou inventadas, e excluídos dos cargos públicos. Em 1689, um Ato de Tolerância garantiu liberdade de culto a batistas, presbiterianos, congregacionalistas e quacres, mas não aos católicos e unitaristas.

Na Irlanda, os católicos se rebelam

Apesar do cisma de Henrique VIII, os irlandeses continuaram tenazmente ancorados pela Igreja Católica. O arcebispo de Amagh declarou que "esta ilha não pertence a ninguém além do bispo de Roma, que a entregou aos antepassados do soberano". Em todas as dioceses, enfrentaram-se dois bispos rivais, nomeados respectivamente pelo papa e pelo rei.

A destruição dos mosteiros revelou-se uma verdadeira catástrofe para o povo irlandês, já que eram os únicos centros de difusão da cultura e da assistência. A destruição das imagens sagradas gerou o horror dos fiéis. Bispos e eclesiásticos anglicanos comportaram-se com grande arrogância em relação aos irlandeses, não se preocupando nem em convertê-los. Os habitantes da ilha, apoiados pelos jesuítas a partir de 1542, reagiram criando a Liga Católica, para se defender da obrigação de freqüentar as igrejas protestantes e para difundir a instrução. A existência de uma oposição católica organizada representaria um obstáculo durante todo o reinado da rainha Elisabete.
CAPÍTULO 12

A Guerra dos Trinta Anos

A Reforma Protestante havia dividido a Europa em duas: de um lado, os Estados católicos; de outro, os protestantes.

A divisão percorria o próprio Sacro Império Romano: a maior parte dos Estados alemães setentrionais tornou-se luterana ou calvinista, enquanto os meridionais continuaram com Roma.

Os príncipes católicos queriam que fosse garantida liberdade de fé a seus correligionários mesmo nos territórios dominados pelos reformistas, mas não tinham nenhuma intenção de conceder a mesma liberdade aos seus súditos protestantes.

Nasceram, assim, duas coalizões contrárias de Estados: a Liga de Ratisbona (católica), em 1524, e, dois anos depois, a Aliança de Torgau (protestante). Por vários anos, os dois partidos se enfrentaram, alternando intransigência e tentativas de conciliação, até que, em 1530, o imperador Carlos V ordenou que os príncipes luteranos se submetessem à religião católica. Estes responderam criando a Liga de Smalcalda, uma aliança político-militar que estabeleceu acordos também com a França e outras potências hostis ao imperador.

Sucederam-se trinta anos de guerras e tréguas alternadas, até que, em 1555, Carlos V, derrotado por uma aliança que reunia a França católica e os Estados reformados, foi obrigado a fazer um acordo com seus adversários.

Em 1555, Carlos V e os príncipes reformados firmaram a Paz de Augusta. Pela primeira vez, desde seu nascimento, tomou forma a idéia de que duas religiões cristãs diferentes poderiam coexistir no Sacro Império Romano.

O tratado continha, no entanto, dois princípios restritivos:

1) il cuius regio eius religio: os súditos de um Estado deviam se adequar à religião de seu príncipe, fosse ele católico ou protestante, ou, caso contrário, emigrar; e

2) il reservatum ecclesiasticum: a Igreja Católica renunciaria a reivindicar os bens eclesiásticos confiscados antes de 1552; em compensação, deveria receber de volta aqueles subtraídos após essa data (os príncipes trataram de honrar esse compromisso).

Além disso, os prelados católicos que se convertessem ao luteranismo teriam de renunciar- a todos os benefícios e bens que possuíam em virtude de seu cargo, devolvendo-os à Igreja Católica.

Pouco tempo depois, Carlos V abdicou, dividindo em dois seu imenso território. O irmão Fernando I ficou com o Império e a Boêmia; seu filho Filipe II ganhou a Espanha, os Países Baixos, grande parte da Itália e os territórios do Novo Mundo.



A caminho da guerra

A paz durou pouco. Muitos elementos contribuíram para demolir o edifício do Império e revolucionar a ordem européia:

1) a verve expansionista dos turcos otomanos, que ameaçavam diretamente os domínios de família dos Habsburgo e que, no auge de sua expansão, chegaram a sitiar Viena;

2) a revolta dos nobres dos Países Baixos, que levou, no início do século XVII, ao nascimento de uma república protestante holandesa independente da Espanha;

(3) as novas rotas comerciais através do Atlântico em direção às Américas e à Ásia, que favoreciam nações como a Inglaterra, a Holanda e a França, em detrimento das Repúblicas Marinaras, deslocadas no Mediterrâneo, que se tornara um mar quase periférico;

4) o aparecimento, no cenário europeu, de novas monarquias agressivas, como a sueca, que impôs seu predomínio sobre o Báltico (controlar os mares significava deter as rotas comerciais e o transporte de matérias-primas);

5) a grave crise econômica e política da Espanha;

6) o fato de que a Contra-Reforma, de um lado, e a propagação da Reforma calvinista (sob muitos aspectos, mais rígida, intransigente e autoritária), de outro, tinham dividido a Europa em dois blocos contrários. É claro que se tratava de dois grupos internamente bem diferentes (por exemplo, nanistas), mas isso não impediu que a tendência geral tenha sido a de procurar alianças, acordos dinásticos, apoios e interesses comuns, em especial com Estados em que vigoravam crenças religiosas afins; e

7) uma decisiva ofensiva diplomática e militar por parte da França para redimensionar o poder do rival império dos Habsburgo. O cardeal Richelieu e seu colaborador, o frei José, franciscano bastante ortodoxo, fizeram tudo que estava a seu alcance para aumentar a duração e a destrutividade do conflito.1

Nem os soberanos protestantes nem a fé católica na França não hesitariam em se aliar até mesmo com "o infiel" por definição: o Império Turco Otomano.

A divisão entre católicos e protestantes corria o risco de criar uma crise na própria sucessão dinástica dos Habsburgo no governo do Império. Na época, o título de imperador não passava automaticamente de pai para filho; era conferido por um colégio de Grandes Eleitores, composto por bispos e grandes senhores feudais católicos, como o rei da Boêmia, ou protestantes, como o duque da Saxônia e o conde de Palatinato.

Em 1608, os Estados do Império se agruparam em duas coalizões opostas: a Liga Católica, guiada por Maximiliano da Baviera (que, na verdade, defendia mais os interesses da Santa Sé do que os do imperador), e a União Evangélica, liderada pelo Eleitor Palatino (que, sendo calvinista, teria sido boicotado pelos príncipes luteranos)-

As divergências religiosas dariam vida a um conflito assustador com milhões de mortos, comparável às duas Guerras Mundiais.

A guerra (1618-1648)

O pretexto para iniciar o conflito foi dado pela Boêmia, onde a maioria da população, protestante, era oprimida por um monarca católico.

Em 1618, os boêmios se rebelaram, jogando pela janela do Castelo de Praga os lugares-tenentes do imperador e chamando em seu socorro o príncipe Palatino.

Entender todos os interesses econômicos e geopolíticos em jogo e todas as alianças, mudanças de frente, intrigas e rivalidades internas entre as coalizões opostas em um conflito que durou trinta anos e que envolveu, de uma maneira ou de outra, toda a Europa, é algo que vai bem além do objetivo deste livro.2

Aqui só nos cabe sublinhar o fato de que praticamente não houve país europeu que não tenha sido atingido pela guerra durante uma fase ou outra do conflito, direta ou indiretamente. Além de que o elemento do fanatismo religioso desempenhou um papel fundamental na longa duração e na dureza do conflito.

Provavelmente, uma guerra normal para redefinir fronteiras e áreas de influência teria terminado antes de levar à repetida aniquilação de exércitos inteiros, ao pesado endividamento de príncipes e reis, à total e deliberada destruição de países invadidos, quando, pelo contrário, um conquistador teria todo o interesse de que seus novos domínios fossem ricos e prósperos.

As conseqüências sobre a população foram quase inimagináveis. Por décadas, exércitos de dimensões imensas atravessaram os territórios da Europa central, arrasando tudo que era possível, impondo com a força a própria fé, católica ou protestante, e queimando tudo para impedir que os exércitos inimigos tivessem provisões. Às vezes, junto com os saques, eram levados embora também homens e mulheres como escravos.3 O mais imponente desses exércitos era o de Wallenstein, que por anos foi capitão a serviço da causa católica. Contando, além dos soldados, com o séquito de vivandeiros, comerciantes ambulantes, prostitutas e trabalhadores, calcula-se que seu exército fosse composto de centenas de milhares de pessoas.

"Seu exército [...] era o maior e mais bem organizado empreendimento particular já visto na Europa antes do século XX. Todos os oficiais tinham participação financeira e obtinham um grande proveito de seu investimento (proveito esse que derivava de saques); as tropas reunidas em qualquer parte da Europa e incapazes de mostrar solidariedade eram pagas de maneira irregular, o que levava a uma rápida substituição da força de trabalho."4

Durante a Dieta Imperial em Ratisbona, em 1630, os súditos da Pomerânia se apresentaram com uma petição para o fim da guerra.

"No ano anterior, os exércitos de Wallenstein espoliaram de tal modo o país que desde então as pessoas começaram a morrer de fome. Muitos, na verdade, morreram, e os sobreviventes comiam ervas e raízes, bem como as crianças e doentes, além de cadáveres há pouco enterrados [...] O imperador e os eleitores ouviram comovidos os pomerânios, mostraram seu profundo interesse e deixaram as coisas como estavam. Dado o sistema político em que viviam e exerciam suas funções, dada a mentalidade e o sentimento então vigentes nos círculos principescos, não se podia esperar mais deles. Além disso, durante a Guerra dos Trinta Anos, nenhum senhor alemão passou fome fosse por um dia [...] A gente comum podia morrer de fome ou se alimentar, de forma obscena, de carne humana, mas nas salas de banquete do imperador, dos eleitores e dos bispos o antigo costume alemão de se empanturrar e de beber nunca foi abandonado. Cheios de bifes e vinho, os príncipes podiam suportar os sofrimentos dos súditos com grande força." (Huxley, 1966, p. 242-3.)

A Pomerânia era apenas o início. Outras regiões do Império, nos anos sucessivos, sofreram uma "[...] escassez que fez morrer dezenas de milhares de pessoas e transformou em canibais muitos dos sobreviventes. Os cadáveres, ainda pendurados, dos malfeitores eram tirados das forcas para que servissem de alimento nas mesas, e quem houvesse perdido algum familiar recentemente era obrigado a montar guarda nos cemitérios, para impedir a atividade dos ladrões de cadáveres" (Huxley, 1966, p. 279).

Muitas vezes, quando um exército era derrotado, os soldados debandados vagavam a esmo como animais, procurando desesperadamente algo para comer, e se não encontravam o que pilhar, morriam às centenas.

A Paz de Westfália (1648) marcou o fim da guerra. Suécia, França e Brandemburgo obtiveram importantes cessões territoriais. A Espanha reconheceu a independência da Holanda. Os príncipes alemães, católicos e protestantes, obtiveram a independência de fato, enquanto a autoridade imperial se tornava pouco mais que uma formalidade.

Teoricamente, foi reconhecido a todos os súditos dos vários principados o direito de professar em particular a religião que preferissem, mas esta cláusula, por muito tempo, seria apenas letra morta.

Do ponto de vista econômico, social e humano, as conseqüências foram desastrosas.

Em 1618, a Alemanha possuía cerca de 21 milhões de habitantes. Em 1648, a população caíra para 13 milhões.

"Em um período em que os índices da população em toda a Europa mostravam um ritmo ascendente, as terras a oriente do Reno perderam mais de um terço de sua população em conseqüência dos massacres, da escassez, das privações e das doenças." (Huxley, 1966, p. 301.)

Algumas das áreas mais atingidas, como a Boêmia, tinham perdido até 50% da população.

Segundo Polisensky, levando em conta a alta mortalidade infantil e a baixa expectativa de vida na época, envolveram-se no conflito não menos de cem milhões de pessoas! Os pobres sofreram as conseqüências da guerra muitos anos depois que ela acabou.

O escritor Aldous Huxley nos dá um vivido retrato daquele período: "No século XVII, não havia produção em massa de explosivos, e estes não eram muito eficazes [...] Só se destruiu o que podia ser queimado com facilidade, ou seja, as casas e principalmente as cabanas dos pobres. Cidades e campos sofriam de modo quase igual em decorrência da guerra: os habitantes foram espoliados de seu dinheiro e perderam seu comércio; os camponeses foram espoliados de seus produtos e perderam suas casas, ferramentas, sementes e animais. A perda de bovinos, ovinos e suínos foi especialmente grave [...] um patrimônio zootécnico depauperado requer um tempo bem longo para ser reconstruído. Duas ou três gerações se passaram antes que naturalmente se preenchessem os vazios deixados pelas depredações..."

Os exércitos debandados também representavam um problema. Os "[...] anos de guerra [...] tinham criado em toda a Europa uma classe de aventureiros das armas, sem terra, sem casa, sem família, sem nenhum sentimento natural de piedade, sem religião ou escrúpulo, sem saber nenhum ofício além do da guerra e só capazes de destruir [...] A desmobilização foi gradual e se estendeu por um dado período de anos; mas nem assim faltaram confusões, e muitos mercenários nunca mais voltaram à vida em sociedade, mantendo, como bandidos, rufiões e assassinos profissionais, o caráter de parasitas adquirido durante os longos anos de guerra". (Huxley, 1966, p. 270.)

As cidades e os Estados estavam grandemente endividados com os banqueiros, e essas dívidas atingiram as populações ainda por muitos anos, sob forma de tributos e confiscos.


CAPÍTULO 13

Colonialismo e escravidão

Antes de 1492, os Estados cristãos do Ocidente lutavam entre si dentro de uma bacia bem restrita: a Europa, a África do Norte e as terras banhadas pelo Mediterrâneo. Após a façanha de Colombo, essas lutas se espalharam pelo mundo todo, com a bênção das várias Igrejas. O próprio Cristóvão Colombo (que, não nos esqueçamos, inaugurou a descoberta do novo continente com a captura de alguns escravos) sonhava que, com o ouro das índias, o reis da Espanha poderiam realizar uma Cruzada para libertar a Terra Santa.1 Foi um pontífice, Alessandro VI Bórgia (1492-1503), que dividiu, com a bula Inter Caetera, o globo terrestre entre as nascentes potências coloniais católicas. Uma linha de alto a baixo dividia em dois o mapa: metade era reservada à Espanha, outra, a Portugal.

Quando Colombo desembarcou em Cuba, a população da ilha somava cerca de oito milhões de habitantes. Quatro anos depois, estava mais do que dizimada. Depois que os cubanos em parte foram exterminados, os espanhóis começaram a importar escravos de outras ilhas do Caribe. Assim, "milhões de autóctones da região caribenha foram efetivamente liquidados em menos de um quarto de século".2

O trabalho de conquista, exploração e sujeição das populações do continente americano foi levado adiante pelos conquistadores, comandantes de exércitos a serviço dos reis da Espanha e da fé católica. Estes tinham ao seu lado corajosos sacerdotes. Hernán Cortês, Francisco Pizarro, Hernando De Soto, Pedro de Alvarado e centenas de outros, aproveitando-se da superioridade tecnológica e militar de que gozavam, destruíram florescentes civilizações como a inca, a maia e a asteca. As conseqüências das conquistas foram milhões de mortos e um estado de dependência evidente até hoje.



As Américas

Desde o início, o massacre dos nativos americanos foi "abençoado por Deus". Nos "Contos Astecas sobre a Conquista",3 colhidos pelo clero franciscano, lê-se que Cortês era apoiado pelo Estado Pontifício: "Esta era a vontade do papa, que dera seu consentimento à vinda deles". Além disso, sabemos que o famoso conquistador andava sempre com um sacerdote do lado.

Mas quantos mortos a conquista auspiciada por Deus e conduzida pelas mãos dos conquistadores deixou? No México, só a título de exemplo, a população passou de 12 milhões, em 1519, a menos de 1,3 milhão na metade de 1600. Noventa por cento da população local havia sido exterminada.4, No início do século XVI, a população nativa do continente centro e sul-americano girava em torno de setenta milhões de pessoas. Na metade do século XVII, havia sido reduzida a sete milhões.5 E em países como o Brasil, a Guatemala ou a região mexicana do Chiapas a dizimação dos índios acontece até hoje.

Os conquistadores não eram muito sutis. Se um povoado resistia, avançavam matando todos os habitantes que encontravam no caminho. As crônicas da época falam de "incontáveis cadáveres" espalhados por toda parte e de seu fedor "penetrante e pestilento".6 Muitos relatos acerca das atrocidades vieram dos próprios missionários e dos funcionários imperiais ou mesmo dos conquistadores.

Para entender quem eram, basta citar alguns episódios. Cortês, para coibir uma rebelião popular, convocou sessenta caciques (dignitários astecas) e ordenou que cada um levasse consigo o próprio herdeiro. Então, mandou queimá-los vivos na presença de seus parentes e advertiu os herdeiros para que conhecessem a inconveniência de desobedecer os espanhóis.

Um povo nativo, guiado pelo chefe indígena Hatuey, tentou se rebelar contra a escravidão. Tentaram uma fuga em massa, mas foram novamente capturados pelos espanhóis. Hatuey foi queimado vivo. "Quando o amarraram ao patíbulo, um frade franciscano implorou insistentemente para que abrisse seu coração a Jesus, de modo que sua alma pudesse subir aos céus, em vez de se precipitar na perdição. Hatuey respondeu dizendo que se o Céu era o lugar reservado aos cristãos, ele preferia de longe ir para o Inferno."7

Seu povo também teve uma sorte parecida: "Os espanhóis gostavam de imaginar todo tipo de atrocidade ainda não cometida [...] Chegaram a construir forcas enormes em que os pés mal tocavam o chão (para evitar o sufocamento) e penduraram em cada uma — em honra do redentor e dos 12 apóstolos — grupos de 13 indígenas, colocando embaixo lenha e brasas e queimando-os vivos."

Em ocasiões parecidas, inventaram outras gracinhas: "Os espanhóis arrancavam o braço de um, a perna ou a coxa de outro, para arrancar de um só golpe a cabeça de alguém, de modo não muito diferente de como faz um açougueiro, que esquarteja as ovelhas para o mercado. Seiscentas pessoas, incluindo caciques, foram esquartejadas como animais ferozes... Vasco de Balboa fez quarenta delas serem devoradas pelos cães." (Standard, 2001.)

Às vezes, as mortes não tinham nenhuma finalidade prática, mas eram um simples ato arbitrário. Por exemplo, em 1517, nas ilhas caribenhas, "alguns cristãos encontraram uma índia que segurava uma criança em um braço, dando-lhe de mamar. Como os cães que os acompanhavam estavam famintos, tiraram o menino dos braços da mãe e o jogaram vivo como alimento para os cães, que o fizeram em pedaços diante dos olhos da mulher [...] quando havia mulheres que haviam parido há pouco entre os prisioneiros, se os recém-nascidos começassem a chorar, pegavam-nos pelas pernas e os batiam contra as pedras ou os jogavam em plantas espinhosas para que acabassem de morrer" (Todorov, 1997, p. 169).

Outro grave episódio foi o massacre de Caonao, em Cuba, presenciado pelo mesmo Las Casas. Uma centena de espanhóis armados, para verificar se suas espadas estavam bem afiadas, "começaram a estripar, perfurar e massacrar ovelhas e cordeiros, homens e mulheres, idosos e crianças que estavam tranqüilamente sentados ali perto, observando maravilhados os cavalos e os espanhóis". Não contentes com o massacre ao ar livre, entraram em uma casa grande e "começaram a assassinar, cortando e furando todos aqueles que ali se encontravam: o sangue escorria por toda parte, como se um rebanho de vacas tivesse sido morto... A visão das feridas que cobriam os corpos dos mortos e dos moribundos era um espetáculo horrível e assustador... os golpes sobre os corpos completamente nus e sobre aquelas carnes delicadas haviam partido ao meio um homem com um único golpe" (Todorov, 1997, p. 172).

O viajante Pietro Martire assim descreve a expedição de Vasco Nunez de Balboa: "Assim como os açougueiros cortam em pedaços a carne dos bois e das ovelhas para vendê-la pendurada em ganchos, os espanhóis arrancavam com um só golpe o traseiro de um, a coxa de outro, as costas de outro ainda. Consideravam-nos animais isentos de razão... Vasco mandou os cães esquartejarem quarenta deles".8

Ainda em 1550, o monge Jerônimo de San Miguel denunciou que os espanhóis "queimaram vivos alguns índios, arrancaram mãos, nariz, língua e membros de outros; outros foram jogados aos cães; mulheres tiveram os seios cortados..." O bispo de Yucatán, Diego de Landa, disse ter visto "uma grande árvore com galhos onde um capitão havia enforcando várias índias; e em seus tornozelos pendurara, pela garganta, seus filhos. [...] E se durante o transporte os indígenas, arrastados com a corda no pescoço, não andassem animados como seus companheiros, os espanhóis cortavam sua cabeça, para não precisar parar para desamarrá-lo".9

Um cronista de 1570 fala de um "oidor" (juiz) "que afirmava em público, de cima de seu tablado e em voz alta, que se faltasse água para irrigar as fazendas dos espanhóis, seria utilizado o sangue dos indígenas".

Uma conquista "legal"

A base "legal" da conquista era o Requerimiento, um documento que os funcionários espanhóis liam, obviamente em espanhol, aos povos que pretendiam submeter antes de dar início aos combates. O documento começava com uma breve história da humanidade, na qual surgia uma figura central, Cristo, definido como o "chefe da estirpe humana". Cristo transmitiu seu poder a São Pedro, e este, aos papas, seus sucessores. Um desses papas deu o continente americano aos espanhóis, que eram seus legítimos governantes. Se os "índios" se submetessem aos espanhóis "de boa vontade", manteriam o status de homens livres, do contrário seriam capturados como escravos. "Com isso, garanto e juro que, com a ajuda de Deus e com a nossa força, penetraremos em suas terras e faremos guerra contra vocês [...] para submetê-los ao jogo e ao poder da Santa Igreja [...], causando-lhes todo prejuízo possível e de que somos capazes, como convém a vassalos obstinados e rebeldes que não reconhecem seu senhor e não querem obedecer, mas se opor a ele." (Standard, 2001, p. 66.)

Em 1550, o conquistador Pedro de Valdívia enviou uma relação sobre a guerra contra os arauaques, nativos do Chile, ao rei da Espanha. Nela se lê, entre outras coisas: "Mandei cortar o nariz e as mãos de duzentos deles, para puni-los por sua insubordinação".10 O conquistador Oviedo chegará a afirmar: "Quem irá negar que usar a pólvora contra os pagãos é como oferecer incenso a Nosso Senhor?"11

As guerras de conquista, além de assassinatos, provocavam a morte de vários índios em decorrência da escassez que se sobreveio a elas. Durante a guerra para a conquista da Cidade do México, os espanhóis destruíram as colheitas e se viram a ponto de ter eles próprios problemas com as provisões de milho.

Grande parte da população nativa foi reduzida à escravidão diretamente, capturada pelos espanhóis, ou indiretamente, não conseguindo pagar os pesados tributos impostos pelos novos dominadores. Eis o que escreve um cronista da época: "Os impostos que recaíam sobre os índios eram tão altos que muitas cidades, não conseguindo pagá-los, vendiam aos usurários as terras e os filhos dos pobres; mas como os empréstimos eram freqüentes demais, e os índios não podiam se livrar nem vendendo tudo que tinham, algumas cidades se esvaziaram completamente e outras perderam parte da população."12

O governador da Cidade do México, Nino de Guzmàn, escravizou dez mil nativos em uma população total de 25 mil. Os sobreviventes abandonaram os vilarejos por medo de ter a mesma sorte. Muitas vezes, aqueles que não conseguiam pagar os impostos eram punidos com a tortura ou o cárcere.

Os índios escravizados, em especial nos primeiros anos da Conquista, eram tratados como animais de matadouro. Las Casas denunciou episódios de espanhóis que davam a carne de índios trucidados aos animais no pasto e aos cães; nativos eram abertos para que se extraísse sua gordura (à qual se atribuíam qualidades medicinais) ou tinham as extremidades horrendamente mutiladas (nariz, mãos, seios, língua, órgãos genitais).13

Outro episódio também denunciado por Las Casas mostra que os nativos eram em todos os aspectos tratados como animais: um "homem indigno se vangloriou e se jactanciou — sem mostrar nenhuma vergonha —, diante de um religioso, de ter feito de tudo para engravidar muitas mulheres índias, a fim de conseguir um preço melhor ao vendê-las como escravas grávidas".14

Os nativos não pereciam só pela espada ou pela pólvora, mas também pelas condições de vida desumanas impostas pelos conquistadores. Turnos de trabalho massacrantes, desnutrição, doenças trazidas pelos conquistadores, às quais seu organismo não estava acostumado. Todas essas causas fizeram mais vítimas do que guerras ou massacres juntos.

Também foi grande o número de indígenas mortos durante o trabalho de construção da Cidade do México e de demolição dos "templos do Diabo", ou seja, templos de sua religião tradicional. Houve quem caísse dos andaimes, quem fosse esmagado por traves ou quem ficasse embaixo de prédios demolidos. Os índios empregados no trabalho de demolição não só não eram remunerados, como tinham que procurar sozinhos seus materiais.

A expectativa de vida para quem era obrigado a trabalhar nas minas de ouro era de 25 anos. Os serviços de aprovisionamento nas minas também era de um cansaço extenuante. Os índios encarregados do trabalho percorriam a pé, sobrecarregados de peso, distâncias de quase 100 quilômetros. Muitas vezes, suas próprias provisões terminavam antes de chegarem ao destino, e, quando chegavam, podiam ser pegos para trabalhar nas minas por vários dias sem receber nenhuma alimentação suplementar. Muitos morriam de fome e de cansaço nas minas ou na estrada de volta.

"Os corpos dos índios e dos escravos mortos nas minas produziam uma exalação tão fétida que deles nasceu uma pestilência, sobretudo nas minas de Guaxaca. Até um raio de meia légua de distância, e por grande parte da estrada, não se fazia nada além de caminhar sobre cadáveres ou montes de ossos, e os bandos de pássaros e corvos que chegavam para devorá-los eram tão grandes que tapavam o sol. Assim, muitos povoados se esvaziaram ao longo da estrada e nos arredores."15

As transferências de mão-de-obra por navio de um local de trabalho extenuante a outro também não eram livres de vítimas. "Toda vez que os índios eram transferidos, tantos morriam de fome durante a travessia que o rastro deixado pelos corpos seria suficiente — acreditamos — para guiar outra embarcação até o porto. [...] Depois que mais de oitocentos índios eram transferidos a um porto daquela ilha chamado Porto de Plata, esperavam-se dois dias antes de fazê-los descer da caravela. Deles, seiscentos morriam e eram jogados no mar: boiavam como grandes tábuas de madeira." (Todorov, 1997, p. 166.)

Obviamente, entre os abusos daqueles que os vigiavam estavam os sexuais. Falando da condição dos operários em uma mina, um cronista notou que cada capataz "tinha adquirido o hábito de ir para a cama com as índias que dependiam dele, se o agradassem, fossem elas virgens ou casadas. Enquanto o capataz estava com uma índia na cabana, o marido era enviado para extrair ouro nas minas; de noite; quando o pobre voltava para casa, não só o capataz o enchia de pauladas ou chicotadas por não ter pego bastante ouro, como muitas vezes amarrava suas mãos e pés e o jogava debaixo da cama como um cão, enquanto se deitava em cima, com a mulher".16



Os missionários e o assassinato da alma

Com a conquista e a cristianização forçada, os índios não foram mortos apenas fisicamente, mas também moralmente. Sob esse aspecto, é exemplar o caso do povo dos lucaianos, deportados em massa pelos espanhóis com seu engodo. Os conquistadores, com a cumplicidade dos padres, conseguiram convencê-los de que os estavam levando para uma Terra Prometida, onde encontrariam todos seus parentes já mortos.

"Como os padres os encheram de falsas crenças e os espanhóis as confirmaram, abandonaram sua pátria para correr atrás daquela vã esperança. Tão logo entenderam que tinham sido enganados, já que não encontraram nem seus pais, nem outras pessoas que queriam reencontrar, enquanto eram obrigados a aturar condições extenuantes e trabalhos pesados com os quais não estavam acostumados, se desesperaram. Ou se suicidavam, ou decidiam se deixar morrer de fome e faziam jejum, recusando-se a comer a qualquer custo." (Todorov, 1997, p. 166.)

O bispo de Zumarraga escreveu ao rei da Espanha que os nativos "não procuram mais as mulheres para não gerar escravos". Las Casas denunciava que "marido e mulher não ficavam juntos nem se viam por oito ou dez meses ou por um ano inteiro; quando no final se encontravam, estavam tão cansados e prostrados de fome e dos trabalhos, tão acabados e enfraquecidos, que mal se importavam em ter relações conjugais. Assim, pararam de procriar. Os recém-nascidos morriam logo, pois as mães — cansadas e famintas — não tinham leite para alimentá-los. Quando estive em Cuba, sete mil crianças morreram em três meses por esse motivo. Algumas mães afogavam os filhos por desespero; outras, ao perceber que estavam grávidas, abortavam com o auxílio de algumas ervas que fazem parir filhos natimortos. Trata-se... de um assassinato econômico, e os colonizadores têm toda a responsabilidade" (Todorov, 1997, p. 166).

Missionários abençoaram os massacres e as tragédias, e os reis da Espanha instituíram na América, além das missões, tribunais de Inquisição destinados a punir todos os indígenas que insistissem em seguir seus próprios cultos tradicionais. Filipe II chegou ao ponto de instituir uma inquisição "de galeras", um tribunal itinerante com o objetivo de descobrir e punir os hereges nos navios durante as longas travessias oceânicas.17

Por outro lado, não faltavam sacerdotes que se interessavam genuinamente pelas condições de vida dos indígenas e denunciaram com força os abusos, as atrocidades e os massacres. O caso mais famoso foi provavelmente o do bispo Bartolomé De Las Casas, que escreveu vários livros sobre as condições de vida dos nativos americanos e defendeu sua causa junto aos reis da Espanha.

Sabendo com quem estava lidando, Las Casas e os outros sacerdotes apelaram não só aos seus sentimentos, mas também à utilidade econômica de uma política de clemência. Las Casas, em um relatório, afirmou que a realização de suas propostas seria "de grande proveito para Sua Alteza, cujos rendimentos aumentariam proporcionalmente". E o eclesiástico Motolinia escreveu: "Os espanhóis não percebem que, se não fossem os frades, não teriam mais empregados em suas casas e em suas terras, pois teriam matado todos, como aconteceu em Santo Domingo e em outras ilhas, onde os índios foram exterminados." Mas se os nativos não podiam mais ser utilizados em funções pesadas, quem trabalharia nas plantações e nas minas, quem construiria as casas dos novos dominadores?

Os conquistadores encontraram uma solução pior que o mal: importar da África escravos negros.

Os sacerdotes "bons" também se preocuparam em aprender a língua e os costumes dos nativos, para tornar mais eficaz sua obra de conversão e transformar os indígenas em perfeitos cristãos.

O franciscano Bernardino de Sahagün, docente de um colégio de Tlatelolco destinado aos descendentes da antiga nobreza asteca, obtém resultados extraordinários no ensino do latim. De início, como ele mesmo conta, os espanhóis e os monges das outras ordens caçoaram de seus esforços, pois os índios eram considerados animais, "obtusos como asnos". Mas quando perceberam que o grupo de estudantes tinha feito grandes progressos, alarmaram-se: "Para que lhes ensinar a gramática? Não corriam o risco de se tornar hereges? Diziam também que lendo as Sagradas Escrituras constatariam que os antigos patriarcas tinham muitas mulheres, exatamente como eles".18 Um funcionário de Carlos V escreveu: "É bom que eles sejam catequizados, mas saber ler e escrever é tão perigoso quanto se aproximar do Diabo".

Em suma, instruir os índios era positivo, mas até certo ponto. Por um lado, os nativos não tinham direito de seguir as próprias tradições e a própria cultura, por outro, não lhes era permitida nem a possibilidade de se integrarem à nova sociedade e se tornarem "pares" dos espanhóis.

Em 1579, em uma petição à Inquisição, os superiores das ordens agostiniana, dominicana e franciscana pediram que fosse proibida a tradução da Bíblia nas línguas indígenas.19



América do Norte

O script se repete, com poucas variações, na conquista inglesa da América do Norte. Lá também os colonos justificaram a invasão com a necessidade de levar o Evangelho e de "edificar um bastião contra o reino do anticristo".20 Os brancos logo começaram a expulsar os nativos de suas terras, e isso apesar de os primeiros colonizadores terem conseguido sobreviver ao inverno rigoroso graças à ajuda dos "índios". Também lá, as guerras, massacres, prepotência e epidemias exterminaram grande parte dos povos indígenas. De 10 a 12 milhões de nativos que povoavam o atual território norte-americano antes da colonização, só restaram 250 mil.21

A epidemia de varíola, que exterminou cerca de dois terços da população indígena, foi vista pelos colonizadores como um dom divino. Eis o que escreve, em 1634, o governador de Massachusetts: "Quanto aos indígenas, quase todos morreram de varíola, e assim o Senhor confirmou nosso direito de continuar o que fazemos".22

Para os nativos da América do Norte, a guerra não era um fenômeno desconhecido, mas os combates entre as tribos de peles-vermelhas nunca assumiram a crueldade dos embates entre ocidentais. Os padres peregrinos (os primeiros colonizadores que deram origem aos Estados Unidos da América) notavam com estupor que "suas guerras não são nem de longe tão cruéis" quanto as européias, e acontecia até "de guerrearem por sete anos sem que sete homens perdessem a vida". Além disso, os índios, no combate, poupavam mulheres e crianças do adversário.

Bem diferentes eram os costumes dos "civilizadores" cristãos: "Quando um índio era acusado por um inglês de roubar uma xícara e não a devolvia, a reação inglesa era logo violenta: atacavam os índios ateando fogo ao povoado todo".23 Citemos, por exemplo, dentre as inúmeras guerras índias que ocorreram entre 1600 e 1800, a dos pequots, antigos habitantes do atual Massachusetts.

De início, os colonos entraram em guerra com outro povo, o dos narragansett, responsáveis, talvez, pela morte de um inglês. Mas, com o tempo, encontraram a tribo dos pequots, que também eram inimigos dos narragansett, e em vez de reunir forças contra um inimigo em comum, os cristãos os atacaram e destruíram seus povoados. Talvez tenham pensado que um índio valia por outro. O comandante dos puritanos, John Mason, assim descreveu um dos massacres: "O Onipotente incutiu tanto terror a suas almas, que fugiram diante de nós se jogando nas chamas, onde muitos pereceram... Deus abria as asas sobre eles e escarnecia de seus inimigos, os inimigos de seu povo, tornando-os estacas ardentes... Assim o Senhor castigou os pagãos, alinhando seus corpos: homens, mulheres e crianças. Assim o Senhor quis dar um chute no traseiro de nossos inimigos, dando-nos, em compensação, suas terras."24

Outro puritano,25 Underhill, conta que "o espetáculo sanguinário foi impressionante para os jovens soldados", mas logo lembra: "Às vezes a Santíssima Trindade ordena que as crianças pereçam com seus pais".

O massacre continuou até que os pequot foram exterminados quase por completo. Muitas outras tribos sofreram a mesma sorte. Vários nativos caíram vítimas de campanhas de envenenamento, algo terrivelmente parecido com as "desratizações" atuais. Os colonos chegaram a adestrar cães para farejar os índios, arrancando os pequenos dos braços das mães e destroçando-os. Para usar suas próprias palavras: "Cães ferozes para caçá-los e cães policiais ingleses para o ataque".

Quando as mulheres e crianças eram poupadas, era apenas para serem vendidas como escravas nos mercados das Antilhas ou da África do Norte, de onde nunca ninguém voltou. A utilização de jovens indígenas como escravas era um verdadeiro símbolo de status. Se alguma desgraçada tentava fugir, era marcada com fogo.

O pastor Roger Williams, por ter ousado declarar que aos olhos de Deus a fé dos nativos valia tanto quanto aquela dos brancos e por ter comprado a terra, em vez de tomar posse dela, foi expulso de sua colônia junto com uma dúzia de seguidores.

Uma inscrição no túmulo de um puritano do século XVII resume bem o clima da época: "Em memória de Lynn S. Love, que, durante sua vida, matou 98 índios que o Senhor lhe destinara. Ele pretendia elevar o número a 100 [...] quando dormiu nos braços de Jesus".26




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