O livro Negro do Cristianismo



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A Inquisição espanhola

A Inquisição espanhola foi retomada por volta de 1482, por iniciativa do rei Ferdinando. Sua principal característica era a criação de um organismo central chamado "Conselho da Suprema e Geral Inquisição", que tinha a tarefa de organizar e coordenar os vários tribunais distritais, rever os processos presididos pelas cortes locais, julgar pessoalmente os casos mais graves e investigar os próprios inquisidores.

Os membros da "Suprema" eram nomeados formalmente pelo papa, mas quem os escolhia e dirigia era o rei da Espanha. O próprio nome de "Conselho", dado ao novo organismo, já o caracteriza: na época, os conselhos eram órgãos do governo que equivaliam aos nossos ministérios (existia um Conselho de Estado, um da Economia etc.). O primeiro presidente da "Suprema", Diego Espinoza, também era presidente do Conselho de Castela.20 E ainda mais políticas do que religiosas eram as finalidades da nova Inquisição: "O motivo (aparente) de defesa da fé nos reinos espanhóis do século XVI estava perfeitamente conectado à questão (real e verdadeira) da reconstrução da unidade política e social do território, dividido em dois reinos (Castela e Aragão), perturbado pela presença invasora muçulmana (que irá se encerrar com a retomada de Granada), transtornado com as guerras civis financiadas pelos nobres e falido, por causa de tudo isso, sob o ponto de vista econômico."21 A contaminação mútua entre Igreja e Estado e o uso da religião como instrumentum regni se tornaram cada vez mais evidentes.

O mais famoso inquisidor espanhol foi, sem dúvida, o dominicano Tomás de Torquemada (1420-1498), filho de judeus convertidos, homem de vida exemplar e irrepreensível cujo nome parecia já assinalar um destino (em espanhol, torque significa "enforcado", e quemada, "queimada"). O rei Ferdinando queria a Inquisição, mas foi Torquemada que a organizou materialmente, instituindo um a um os tribunais das várias províncias do reino e redigindo um verdadeiro código para disciplinas à ação.

O dominicano, no entanto, encontrou oposições violentas à sua obra. Muitas vezes, nas cidades por que passava, autoridades e cidadãos se recusavam a acolhê-lo, e a população o insultava durante seus sermões públicos. Foi, por exemplo, expulso pela população de Barcelona e rejeitado das Cortes (conselhos municipais) de Valência e Aragão.

Apesar desses incidentes de percurso, Torquemada mandou mais de dez mil hereges à fogueira, a Inquisição se ramificou por toda a Espanha e as "cortes" de itinerantes se tornaram estáveis: tribunais em todos os sentidos.

Como já foi dito, ninguém estava a salvo das investigações da Inquisição. Com certeza não os nobres, para os quais estavam previstas punições específicas, como a proibição de se vestir com elegância, andar a cavalo e portar armas. Nem os próprios inquisidores, contra os quais até pessoas por eles mesmos condenadas podiam testemunhar. Qualquer um poderia utilizar a estrutura da Inquisição para atingir eventuais rivais, mas também podia ser vítima, em uma espécie de vingança sem fim. O inquisidor de Córdoba, Luis de Capones, por exemplo, viu-se acusado de 106 delitos. Essa situação criou um clima de medo e suspeitas gerais, em que um desconfiava do outro, dando vantagem ao poder do rei, único árbitro de qualquer processo.

Ao contrário do que se poderia pensar, a Inquisição espanhola tratou muito pouco das ditas "bruxas". O episódio mais significativo de perseguição antifeminista dizia respeito às "ilusas", clarividentes itinerantes que "se faziam passar por santas" e que eram punidas com o açoite nas cidades em que pregavam.

Os processos por bruxaria muitas vezes se concluíam com o que hoje chamamos de declaração de doença mental. Talvez tanta "benevolência" escondesse uma subestimação da mulher, tão desprezada pela sociedade espanhola da época que não era considerada um perigo real. "Assim, o Santo Ofício espanhol fez da bruxa uma variedade de 'ilusa', não mais temida e poderosa, mas louca e burra [...] e contribui habilmente para fazer que as mulheres sofram de afasia histórica." (Benassar, 2005, p. 209.) Ou talvez existissem na sociedade espanhola da época outras categorias de pessoas que já desempenhavam muito bem o papel de bode expiatório no lugar das bruxas, como judeus convertidos e mouriscos, os muçulmanos convertidos.

Os judeus convertidos e os mouriscos

Grande parte do território espanhol fora ocupada por muito tempo pelos emirados muçulmanos, e apenas em 1492 o domínio cristão se estendeu por toda a Península Ibérica. Dentro dos limites dos reinos cristãos, havia não só uma quantidade significativa de muçulmanos, mas também uma grande comunidade judaica, muito florescente do ponto de vista econômico e cultural. Na verdade, os regimes islâmicos da época tinham por hábito dar aos judeus condições melhores do que as dos cristãos. O sucesso econômico, o espírito empreendedor e o prestígio de muitos expoentes da comunidade judaica (que se tornaram conselheiros tanto nas cortes cristãs quanto nas muçulmanas) acabaram atraindo contra eles o ódio da povo e a inveja da nobreza.22

Por volta do final de século XIV, a hostilidade popular contra os judeus (chamados pejorativamente de "marranos", "porcos") se manifestou através de verdadeiros pogrom (massacres indiscriminados). Muitos se salvaram fugindo, outros se convertendo e praticando sua verdadeira religião às escondidas. Os que ousavam fazê-lo viviam em um estado de ameaça constante, assim como os cristãos, que rejeitavam publicamente a própria religião, mas continuavam a celebrar seus ritos em segredo: eram acusados de crime de apostasia e muitas vezes eram punidos com a morte.

Em 1391, em Sevilha, quatro mil judeus foram mortos em uma única noite. Em 1412, houve vários casos de expulsão, alguns executados por "convertidos" condenados pelo pontífice Nicolau V. Em 1477, dois judeus convertidos foram queimados na fogueira em Llerena. Uma investigação conduzida à época por um dominicano apurou que quase todos os judeus continuavam praticando sua religião escondidos. Essa descoberta foi o pretexto para novas perseguições anti-semitas e para a volta da Inquisição a Castela.

Em 1481, foi celebrado o primeiro auto-de-fé, no qual morreram seis conhecidos convertidos. O auto-de-fé era uma condenação à fogueira executada em público e o rito jurídico mais impressionante e solene usado pela Inquisição espanhola. O condenado era arrastado por entre a multidão com os cabelos raspados e vestido com sacos, era feita uma oração por ele e a sentença era cumprida. As imagens nas vestes espelhavam a pena: uma cruz de Santo André, se o réu houvesse se arrependido a tempo de evitar o suplício; meia cruz, se também tivesse recebido uma multa; chamas se, arrependido in extremis, devesse ser estrangulado e depois queimado; e diabos e dragões entre chamas se não tivesse renegado a própria posição. Quem confessava recebia penas inferiores, como peregrinações, penas pecuniárias, açoite em público ou a obrigação de costurar cruzes em suas roupas. Os falsos acusadores eram obrigados a costurar nas roupas duas línguas em tecido vermelho.

Em 1482, Xisto IV posicionou-se contra alguns excessos da Inquisição espanhola, mas seus protestos permaneceram como palavras ao vento. Os dominicanos haviam se tornado conselheiros da corte, conquistando um papel muito parecido com o desempenhado pelos judeus em seu tempo. Em 1485, alguns judeus convertidos assassinaram o inquisidor Pedro Arbués, o que causou um recrudescimento da repressão. Em Saragoza, no período entre 1486 e 1490, 307 pessoas morreram na fogueira. Em Maiorca, nos anos entre 1488 e 1499, foram executadas 129 sentenças de morte. Em Barcelona, em 1491, foram cominadas 129 sentenças, das quais 126 em contumácia.

Em 31 de dezembro de 1492, um edito real submeteu os judeus a uma escolha drástica: o exílio ou a conversão. O provimento atingiu também um dos patrocinadores da expedição de Cristóvão Colombo.

Tratamento similar foi reservado aos mouriscos, os muçulmanos convertidos. Em 1492, um tratado firmado entre o reino cristão e o último soberano muçulmano de Granada previa, em troca de sua retirada, a garantia de liberdade de culto para os islâmicos. Dez anos depois, no entanto, a rainha Isabel de Castela submeteu os muçulmanos ao mesmo dilema dos judeus: ou se converte ou vai embora. Naturalmente, muitos árabes resolveram se converter e sempre foram suspeitos de falsa conversão.

Em Granada, entre 1550 e 1580,780 mouriscos foram condenados a várias penas. Em Hornachos (povoado de sete mil habitantes), no biênio 1590-1592, foram julgados 133 processos. Em geral, os muçulmanos convertidos foram condenados a penas relativamente mais leves do que os judeus. Eram na maioria confiscos, multas ou decretos de expulsão. No geral, foi uma guerra étnica ferrenha que expropriou bens de árabes e judeus abastados.

A Inquisição romana

Em 1542, o papa Paulo III (1534-1549), com a demonstração de eficácia da Inquisição espanhola, decidiu imitá-la para impedir a difusão das doutrinas protestantes.

Foram instituídos tribunais territoriais com jurisdição exclusiva para todos os casos de heresia. Acima deles, foi fundado um organismo central com sede em Roma composto de sete cardeais e sob o controle direto do pontífice, que participava de todas as sessões. O organismo podia investigar também outros prelados e tinha jurisdição em todo o território cristão, mas na verdade tratou principalmente das questões italianas.

O papa Júlio III (1550-1555) mandou queimar as cópias do Talmude (um dos textos sagrados do judaísmo. Ao contrário da Tora, o Talmude só é reconhecido pelos judeus e consiste em uma coletânea de discussões ocorridas entre sábios e mestres — rabinos — sobre os significados e as aplicações dos passos da Tora) em mãos dos judeus de Roma23 e incluiu a blasfêmia entre os crimes investigados pela Inquisição. Os plebeus blasfemos eram punidos com a perfuração da língua, o açoite e os remos por três anos. Os blasfemos nobres, ao contrário, recebiam uma multa, perdiam o título, dignidade e benefícios; eram proibidos de fazer testamento e receber herança; eram considerados incapazes de testemunhar; e exilados de Roma por três anos.

Paulo IV (1555-1559) tornou a propor o crime de "heresia simoníaca", que consistia também em ordenar menores de idade em troca de dinheiro, e utilizou a inquisição para mandar prender cardeais adversários seus. Pio IV (1559-1565) mandou absolver os cardeais presos por seu antecessor por decreto inquisitorial e ordenou a prisão de cardeais da facção contrária, junto com seus colaboradores e familiares. Em seguida, os novos prelados presos foram condenados à morte, naturalmente, após um processo.2'

Paulo IV, Pio IV e seu sucessor, Pio V (1565-1572), formaram o que os historiadores chamam de "trindade do terror, não porque eram especialmente 'maus', mas porque utilizaram com muito zelo todos os expedientes necessários para lutar sua batalha sem que nenhum golpe fosse excluído. De Pio V, será dito que o zelo o fez ser proclamado santo [...] A santidade faz fronteira com os métodos policiais, que se torna um mérito" (Mereu, 2000, p. 84).

Gregório XIII (1572-1585), ao contrário, conquistou junto aos biógrafos a fama de pontífice "moderado", por ter permitido que os condenados à fogueira usassem uma roupa comum, no lugar daquela com as chamas que eram obrigados a usar.

Xisto V (1585-1590) dividiu a administração pontifícia em 15 congregações, cuja principal era a da Santa Inquisição da Herética Pravidade, diretamente presidida por ele.



Homossexualidade

O papa Júlio III (1550-1555), amante dos banquetes, das festas, da caça e das apresentações teatrais, ordenou cardeal um rapaz de 17 anos, que os escritos da época definiam pudicamente como "desviado". A coisa provocou protestos veementes de alguns altos prelados.25

O gesto de Júlio III certamente foi a gota d’água, principalmente por ter ocorrido durante o Concilio de Trento, que tornou ainda mais rígida a moral sexual da Igreja, mas é fato que, acerca da homossexualidade, havia, se não doutrinas, ao menos práticas diferentes.

É preciso rever a cronologia do pecado da sodomia. Os conceitos do que era "natural" ou "contra a natureza" sempre mudou de acordo com a época e o lugar. O que parecia "natural" em uma civilização era condenado por outra e vice-versa.

Segundo o mito grego exposto por Platão no Simpósio, em sua origem, a humanidade era formada por três tipos de seres completos: o primeiro era composto por dois homens fundidos em um só; o segundo, por duas mulheres; e o terceiro, por um casal de homem e mulher. Para castigá-los, os deuses dividiram esses seres superiores, dando vida à humanidade atual, formada por homens e mulheres que vagam por aí incompletos em uma eterna busca pela "cara-metade". De acordo com essa visão da natureza humana, portanto, tanto as escolhas heterossexuais quanto as homossexuais são completamente legítimas e "naturais". A rigor, o único comportamento que vai "contra a natureza" é o celibato.

O cristianismo tirou seu desprezo pela homossexualidade do judaísmo. A cultura judaica (assim como a grega e a romana) também era resultado de uma sociedade patriarcal e guerreira, hostil às mulheres, consideradas inferiores, e à feminilidade.

O homossexual, que se comportava "como uma mulher", era digno de profundo desprezo e atentava contra a ordem do Universo desejada pelo próprio Deus ("Deus criou o homem à sua imagem [...] criou-os macho e fêmea.")26 Além disso, desperdiçar o sêmen para fins diferentes ao reprodutivo era considerado um grave pecado, como mostra o episódio de Onan.

São Paulo, que considerava superadas as rigorosas proibições alimentares judaicas, levou para o cristianismo os preceitos contra as mulheres e os "sodomitas". Quando, no final do século IV, o cristianismo se tornou a única religião de Estado do Império Romano, um dos primeiros efeitos da nova época foi uma lei de 390 que previa a morte na fogueira para quem praticasse o homossexualismo.27

O imperador do Oriente, Justiniano, mandou executar publicamente dois bispos homossexuais. Mas a perseguição aos "sodomitas" só se acirrou quando a Igreja Católica, após o século XI, reafirmou com vigor o princípio do celibato eclesiástico. Era uma tentativa de assexualizar as relações entre os homens de Deus em uma sociedade (a Igreja) totalmente masculina. Mas se a Igreja tivesse imposto o celibato sem punir a sodomia, os fiéis teriam entendido esse ato como a demonstração de que a instituição era composta de misóginos homossexuais. De todo modo, por séculos, diferentes orientações conviveram juntas dentro da Igreja.

Por outro lado, o penitencial de Gregório III (século VIII) impunha uma penitência de 160 dias para o lesbianismo, de um ano para a sodomia e de três anos para o padre que fosse à caça.28 No século XI, duas tendências opostas se confrontam sobre esse argumento. De um lado, São Pedro Damião criticou os clérigos que se entregavam às práticas homossexuais e lutou (inutilmente) para que fossem banidos da Igreja. O abade Aelred de Rievaux, por outro lado, tentou defender o amor entre os homens (ainda que, no final, tenha recomendado a castidade).

A moral sexual da Igreja tomou uma direção mais clara com o Concilio de Latrão de 1179, que determinou que os religiosos homossexuais fossem reduzidos ao estado leigo ou à reclusão no mosteiro, para os clérigos, e à excomunhão, para os leigos. De todo modo, nunca houve uma Cruzada contra os homossexuais nem uma perseguição sistemática por parte da Inquisição, como aconteceu com as heresias. A Igreja, na verdade, nunca reconheceu os homossexuais como um grupo, limitando-se a condenar os comportamentos, mas pedindo aos governos "leigos" que os punissem.

A partir do século XIII, vários países europeus adotaram legislações muito severas contra as práticas homossexuais. Por exemplo, na França, um código previa a fogueira para quem reincidisse no crime de sodomia, pena que atingia também as mulheres. E parece que o termo "finocchio", que em italiano significa funcho e é usado pejorativamente para designar homossexuais, deriva do costume de queimar plantas aromáticas nas fogueiras, para encobrir o fedor da carne. O confisco de bens em favor do soberano era uma das penas acessórias, o que, em algumas épocas, encorajava os monarcas a fazer de tudo para combater o homossexualismo.

Muitas vezes, o crime de sodomia era colocado no mesmo caldeirão que os de heresia e bruxaria. Por essa razão, não é simples quantificar o número exato de vítimas.

Um estudo recente29 sobre processos por sodomia julgados em Bolonha no século XVI, revelou dados muito interessantes. De oito processos de sodomia contra 11 acusados, cinco eram eclesiásticos. Dos oito acusados leigos, três foram condenados à morte (por enforcamento ou decapitação), cinco foram banidos pelo resto da vida. Dos cinco eclesiásticos, apenas um foi confinado no convento por três anos. Para os outros quatro, o processo não seguiu em frente ou foi encerrado sem condenação. Não se podia admitir que no interior do clero, tão rígido na hora de regulamentar os costumes sexuais dos outros, houvesse "sodomitas". Além disso, se o poder sagrado do clero se baseava na castidade, colocá-la em questão ameaçava sua legitimidade.


CAPÍTULO 10

A caça às bruxas

Dor sem conselho, saco sem fundo, febre contínua que nunca termina, besta insaciável, folha levada pelo vento, bastão vazio, louca desvairada, mal sem nenhum bem, em casa um demônio, na cama uma vadia, na horta uma cabra, imagem do Diabo.

Em geral, falar de caça às bruxas significa voltar à época medieval. A perseguição em massa e os massacres, no entanto, continuaram muito depois desse período. As grandes ondas repressivas contra as bruxas e os hereges aconteceram, na verdade, de 1480 a 1520, período ao qual sucederam uma relativa pausa e uma nova onda de perseguições de 1580 a 1670.

Aquela que na Idade Média fora uma guerra aberta contra populações inteiras que haviam escolhido uma vida comunitária (como os cátaros e dulcinistas) se transformou em uma perseguição de estilo policial em larga escala destinada a extirpar a erva daninha da desobediência,

A legislação cristã logo passou a cuidar da bruxaria, associando-a ao paganismo e considerando-a uma forma de heresia. "A motivação era tipicamente teológica: quem usa as artes da magia rejeita o poder livre e libertador do Deus de Jesus, enquanto tenta estabelecer uma espécie de domínio sobre realidades terrenas [e] sobre a vida humana em si." (Benazzi, D'Amico, 1998, p. 258-9.)

Os primeiros mandantes do fenômeno eram muito céticos acerca da real existência dos poderes sobrenaturais das bruxas e magos. O Cânone Episcopal, um documento eclesiástico do século XIX, diz: "Não nos esqueçamos das mulheres desventuradas que se ofereceram a Satanás, sessões de encantamento e fantasmas de origem diabólica, afirmaram terem montado animais durante a noite junto à deusa paga Diana e fizeram isso com várias outras mulheres... Muitas se deixaram enganar por essas coisas e acham que tudo é verdade, afastando-se da verdadeira fé [...] Mas quem pode ser tão tolo a ponto de crer que tudo isso acontece [...] e corporalmente?"2

Enfim, quem praticava bruxaria cometia um pegado grave, mas as artes mágicas em si não representavam um perigo.

A partir do século XI e até a metade do XIII, a atenção da Igreja se concentrava mais nas heresias, como as dos cátaros e valdenses, e o mundo do ocultismo foi, em parte, ignorado.



Bruxaria e heresia

As coisas começaram a mudar depois do nascimento da Inquisição. O deslocamento da perspectiva entre as primeiras e brandas perseguições e as sucessivas, mais sistemáticas, é fundamental. Segundo essa nova visão, na verdade, o Demônio se torna um ser físico, que pode possuir e ter aliados na Terra, que tem um exército próprio e uma Igreja. A batalha entre o bem e o mal se concretiza transformando-se em uma guerra em sentido físico, além do metafísico.

Em 1258, Alexandre IV condenou as práticas mágicas. Em 1320, João XXII encarregou os inquisidores de Toulouse de intervir contra os bruxos. Em 1436, o juiz Claude Tholosan declarou que os magos e bruxas não tinham direito a indulgências da Igreja e considerou suspeitas até práticas populares aparentemente inócuas, como a colheita das plantas durante a festa de Santo Antônio. Em 1451, Nicolau V exortou os inquisidores a punir os adivinhos mesmo quando não houvesse uma condição evidente de heresia: a Inquisição podia, assim, atingir também a superstição popular.3 Por volta do final do século XV, o bispo de Paris determinou a excomunhão a qualquer um que lesse as mãos.

Durante todos os séculos XIV e XV, sucederam-se, com preocupante aumento, vários tratados sobre bruxaria e intervenções de juristas sobre o assunto. Será dito que, no instante em que aceitam ter relações com o Demônio, as bruxas se mancham com o crime de heresia. Ou melhor, elas chegam a constituir uma verdadeira seita que luta pela destruição da Igreja.

Aos hereges também são atribuídos malefícios e pactos diabólicos. Os Templários foram acusados de heresia, bruxaria e de adoração a um ídolo chamado Bafometo. Os valdenses de Arras, processados durante o século XV, confessaram, sob tortura, a filiação a uma seita de adoradores do diabo. Eles iam voando aos sabás, onde abjuravam a religião cristã e blasfemavam contra Deus, a Trindade e Nossa Senhora.4

Os cátaros foram acusados de ter o nome derivado de Cato, demônio que adoravam.

O objetivo de tais comparações é claro: se as bruxas eram por definição hereges, então hereges também eram os magos. Assim, bruxas e hereges constituíam um único grande inimigo comum do poder espiritual e do civil. Sem contar que o rótulo de "mago" contribuía para queimar a terra em volta dos pregadores heréticos e tornava mais fácil atiçar o ódio do povo contra eles.

A bula papal Summis desiderante affectibus, promulgada por Inocêncio VIII, em 5 de dezembro de 1484, marcou a data de início daquilo que se tornou um verdadeiro extermínio em massa de mulheres e homens acusados de bruxaria. Nesse documento, o papa, alarmado pelas notícias provenientes do norte da Alemanha, onde parecia que os cultos satânicos e a bruxaria tinham muitos adeptos, dava aos inquisidores plenos poderes para extirpar o fenômeno.5

Dois anos depois, foi o poder leigo que interveio. O imperador Maximiliano da Áustria emanou uma ordem na qual convidava todos os bons católicos a ajudar os inquisidores em sua obra.

O Martelo das feiticeiras

No mesmo ano, saiu o Malleus Maleficarum (Martelo das feiticeiras), um verdadeiro tratado reproduzido através da nova técnica da prensa inventada por Gutenberg, que descrevia por completo o mundo das bruxas, seus malefícios, como reconhecê-las e como conduzir os interrogatórios. A tese do Malleus era que a bruxaria existia e que era uma forma de heresia, assim como negar sua existência era um comportamento herético. Seus autores, Krämer (vulgo Institoris) e Spengler, são dois teólogos dominicanos. Krämer, em especial, era um conhecido e incansável inquisidor internacional, famoso por perseguir os valdenses, hussitas e as bruxas. Sua conduta na Alemanha meridional atraiu para si o desprezo dos eclesiásticos locais e o ódio da população, que chegou a um passo da revolta. Ele atuou também na diocese de Bressanone, mas o bispo Georg Golser o afastou em razão de sua crueldade e arbitrariedade, que mais uma vez contribuíram para atrair a ira do povo. O Martelo das feiticeiras, que foi impresso até 1669, tornou-se um verdadeiro best-seller na época.

Muitos outros "caçadores de bruxas" escreveram dissertações sobre o assunto, dentre os quais Jean Bodin, obstinado inquisidor e perseguidor que, por sua vez, foi acusado de heresia, e Henry Boguet, inquisidor suíço que entrou para a história por pedir a condenação à morte de algumas crianças acusadas de bruxaria.6

As áreas mais atingidas pela caça às bruxas foram Artois, Flandres, Hinaut, Cambrésis, Brabante, Luxemburgo, Lorena, Renânia, as regiões do sul da Alemanha, a Borgonha, os Países Bascos e o Piemonte.7

De certo ponto de vista, a caça às bruxas tornou-se uma gigantesca guerra do poder masculino contra as mulheres e contra as últimas formas de matriarcado.

Por exemplo, foi tirado do gênero feminino o "poder" de curar os males e assistir no parto, entregando-os ao monopólio da casta masculina dos médicos. O Malleus Maleficarum afirma claramente que "ninguém prejudicou mais a Igreja do que as parreiras". Não é preciso se esforçar muito para encontrar na literatura, na teologia, mas também nos tratados de medicina da época, afirmações de forte desprezo, se não de ódio, às mulheres. Um exemplo de Laurent Joubert, médico do século XVI, afirma: "Por si mesmo indiferente é o sêmen... este muitas vezes degenera na fêmea por causa da frieza e da umidade... e pela abundante presença de sangue menstrual cru e indigesto."8 Por outro lado, Tommaso Campanella escreveu: "As mulherzinhas, que consomem um péssimo alimento, ou pelo sangue menstrual, ou pelos excrementos retidos no útero tomado de vapores da concepção, acabam perturbadas e realizando atos para receberem os demônios."9

Homens e personalidades de alta estirpe também foram condenados à fogueira, mas isso não impede que a grande maioria das vítimas fosse de mulheres pobres, muitas vezes à margem da sociedade. Às vezes, a figura da bruxa parteira/curandeira se confundia com a da prostituta. Então, reaparecia um personagem social de grande poder que ainda possuía a linfa das sacerdotisas dos cultos matriarcais. Não sabemos quanto disso era real e quanto era uma fantasia dos inquisidores. É verdade, no entanto, que, em algumas localidades (por exemplo, nos territórios eslavos), os cultos matriarcais que remontavam a quatro, cinco mil anos antes de Cristo sobreviveram por muito tempo, até depois do século XVII, às vezes camuflados de ritos cristãos, às vezes praticados pelo povo às escondidas — como aconteceu por muito tempo com os ritos matriarcais dos escravos negros nas Américas.

A louca engrenagem da Inquisição

No final do século XV, a Inquisição já era uma máquina bem lubrificada e rodada para eliminar os hereges. O sucesso e a carreira dos inquisidores dependiam do número de processos julgados e das condenações executadas. Também se acreditava que o povo devia se sentir constantemente ameaçado pela visão dos castigos exemplares, para não ousar sair do recinto da verdadeira fé. As fogueiras e as mortes em praça pública serviam de exemplo.

Por sorte, não faltaram pessoas que se opuseram ao clima da época, como o filósofo e matemático Nicolau de Cusa. Em 1457, ele julgou, na qualidade de bispo de Bressanone, o caso de duas mulheres que haviam confessado ter sido transportadas a um sabá por uma misteriosa mulher chamada Richella, após terem abandonado a fé cristã e terem visto homens devorando crianças não batizadas.

De Cusa encerrou o caso como se fosse um sonho e condenou as mulheres a uma simples penitência. A crença na bruxaria, de acordo com o raciocínio do bispo, alimentava nas pessoas o medo do diabo, a ponto de fazê-las acreditar que este fosse mais poderoso que o próprio Deus.10

Em 1489, Urlich Müller declarou que as bruxas não eram nada além de mulheres pobres dominadas por uma ilusão diabólica. No início do século XVI, o frei Samuel De Cassinis chegou a acusar os inquisidores de heresia, pois acreditavam nos sabás, e lutou para que os tribunais devolvessem aos parentes das bruxas executadas os bens que haviam confiscado. O humanista Andréa Alciato, em 1544, afirmou a inutilidade da perseguição às bruxas. Em 1553, o médico Johann Weyer afirmou que as bruxas eram apenas pobres mulheres vítimas de alucinações. Por causa dessa teoria, foi atacado violentamente pelos teólogos católicos e protestantes.11 Em 1594, Reginald Scot publicou um livro contra os excessos cometidos durante a caça às bruxas. As cópias do volume foram queimadas por ordem do rei da Escócia.

No início do século XVII, o renano Cornelius Loos tentou inutilmente mandar imprimir uma obra em que acabava com a fantasia dos sabás, das cavalgadas noturnas e das negociações som o demônio. Ele foi o primeiro a identificar nas bruxas uma cultura alternativa à dominante e muito arraigada entre os pobres. Por suas idéias, foi condenado à fogueira, mas morreu de peste na prisão antes da execução.

Em 1631, o jesuíta alemão Friedrich von Spee, em seu tratado Cautio Criminalis, seu de processibus contra sagas, afirmou: "Envergonho-me de confessar que, principalmente na Alemanha, entre católicos e o povo, estão presentes superstições inacreditáveis [...] que [...] recaem mais sobre as pobres mulheres. [...] Com a tortura, um inquisidor conseguiria fazer até o papa confessar-se bruxo."12 Todavia, até a metade do século XVII, esses tipos de manifestações eram sempre isolados.

O processo

O processo por bruxaria acontecia paralelamente ao de heresia e podia ser instruído com base em uma mera suspeita (ou simplesmente "aparecer no sonho" de outra pessoa). As delações anônimas também valiam. Nas igrejas, chegou a ser colocada uma urna para as denúncias, parecida com a das ofertas.

Assim que a audiência começava, a suposta bruxa era convidada a confessar e abjurar o demônio; se não o fizesse, era torturada. Entre as provas da possessão diabólica estava a presença de sinais específicos no corpo da bruxa. Podia ser uma mancha na pele, uma verruga, um calo ou qualquer "imperfeição". Aquela era a marca deixada pelo Diabo. Outro elemento de avaliação era o Ordálio. No caso de suspeita, ver a ré chorando ou lacrimejando já bastava para os juízes (acreditava-se que as bruxas não podiam chorar, mas que o Diabo podia simular as lágrimas). Nos casos mais graves, recorria-se à prova da água: a acusada (muitas vezes amarrada a uma grande pedra) era jogada na água. Se afundasse, era inocente. Se, ao contrário, boiasse, queria dizer que era culpada, sendo protegida por um sortilégio do demônio. Os interrogatórios eram realizados em meio a perguntas e armadilhas criadas especialmente para confundir o imputado. Por exemplo, diante da pergunta "Você acredita em bruxas?", responder "não" significava negar a própria existência do Diabo e, assim, assumir o crime de heresia. Responder "sim" ocasionava outras perguntas dos juízes, como: "Quantas bruxas você conhece?" e assim por diante.

As bruxas, por sua vez, espontaneamente ou sob tortura, muitas vezes acusavam outras pessoas que supostamente teriam participado com elas dos sabás e que acabaram processadas. Às vezes, as acusadas, por vingança, davam os nomes dos próprios acusadores, criando, assim, uma lúgubre reação em cadeia que podia durar anos e envolver centenas de pessoas.

Mas o processo por bruxaria tinha uma diferença muito importante em relação àquele por heresia. O herege que confessasse e abjurasse imediatamente diante dos juízes podia ser absolvido logo ou, no máximo, receber uma leve punição (constando dos autos que, se fosse novamente processado, a morte seria certa). A bruxa que confessasse "espontaneamente" seria absolvida da acusação de heresia, mas os juízes mandariam seu caso ao tribunal "leigo" para que sofresse os efeitos "civis" de suas ações.13

As penas por bruxaria variavam de castigos corporais e períodos de exílio a, nos casos mais graves, prisão perpétua ou a fogueira. Às vezes, como gesto de clemência, a bruxa era estrangulada antes de ser queimada. Às vezes, eram queimados junto com a bruxa os autos do processo, como ato de purificação. Por isso, também, não há como documentar o número exato de bruxas executadas, apenas aproximadamente.

As estimativas mais prudentes dão, para o período entre o final do século XIV e o final do século XVII, um balanço que oscila entre 70 e 320 mil vítimas. Mas há quem fale de milhões de mortos.14 A estes, acrescentem-se as pessoas mortas, talvez anos depois, em conseqüência das torturas sofridas; as mortas de fome por causa do exílio ou por terem sido isoladas da sociedade após serem "marcadas" como bruxas; e os familiares dos "hereges bruxos", condenados à miséria em conseqüência do confisco dos bens. E sabe-se lá em quantos povoados pequenos e isolados, após uma colheita ruim ou a morte de animais, os próprios habitantes processaram e mataram "com as próprias mãos" uma suposta bruxa, sem que tenhamos qualquer testemunho por escrito.

A tortura

A primeira tortura era psicológica: a suposta bruxa era levada à sala de interrogatório, onde eram expostos todos os instrumentos de suplício. Em seguida, era despida diante do magistrado, depilada e coberta com um lençol.

A tortura mais branda eram as chibatadas. Depois havia a "corda": os braços eram amarrados atrás por uma corda presa à polé; a vítima era içada, provocando o deslocamento do ombro. Ainda mais cruel que a polé era o cavalo de estiramento, um pedaço de madeira triangular com a ponta virada para cima: "O corpo da torturada era deitado e amarrado apertado à ponta, que lhe penetrava na carne, do pescoço aos glúteos. Então em suas mãos e pernas eram amarrados pesos cada vez mais pesados; ou cordas ligadas a uma roda que girava com a ajuda de uma manivela. Puxando as cordas, todo o corpo era esticado, e os membros, após algumas horas, soltavam-se do corpo."'5 Outra prática era a de acender uma fogueira sob os pés da vítima. E havia as tenazes, cujo uso deixamos a cargo da sua imaginação, e muitos outros instrumentos.

Teoricamente, a tortura deveria durar um tempo limitado, e um médico supervisionava as operações para garantir que o imputado não corresse risco de vida ou sofresse danos graves à saúde. Mas, na verdade, o suplício continuava ao sabor do inquisidor, e não eram raros os casos de mulheres mortas ou estropiadas de forma irreversível em razão das sevícias sofridas.



UMA BREVE LISTA

Fazemos aqui uma lista de alguns dos maiores processos por bruxaria que talvez possam dar uma idéia de como devia ser o dia-a-dia na época da caça às bruxas.

Como, 1416: ao longo do ano, trezentas bruxas foram queimadas na fogueira.

Sion, 1420: setecentos supostos adeptos de uma seita que adorava o diabo, em forma de urso ou bode, foram processados. Deles, cem confessaram sob tortura e foram queimados vivos.

Rouen, 1430: Joana d'Arc morre na fogueira por heresia e bruxaria. No seu caso, são evidentes as motivações políticas da sentença.

Como, 1484: sessenta bruxas são queimadas na fogueira.

Mirandola, 1522-1523: o processo "de Mirandola" atinge com firmeza centenas de cidadãos, a ponto de ser lembrado como o "pogrom de Mirandola". A violência com que os acusados foram tratados foi tal que fez os cidadãos que assistiam à execução exclamarem: "Não é justo que esses homens sejam mortos de maneira tão cruel."

Genebra, 1513: em três meses, quinhentas bruxas foram queimadas.

Como, 1514: trezentas bruxas foram justiçadas como "reincidentes ou impenitentes". Fontes da época falam de uma média de cem bruxas executadas por ano também nos anos sucessivos, a ponto de o inquisidor ser repreendido pelo excesso de zelo.

Noruega, 1544: na luterana Dinamarca, os católicos foram equiparados às bruxas. Só neste ano, 52 pessoas foram executadas.

Languedoc (França), 1557: o parlamento local mandou queimar quatrocentas pessoas.

Paris, 1565-1640:1.119 pessoas foram julgadas em 75 anos. Foram executadas cem sentenças de morte, quase sempre de pessoas abastadas.

Genf, 1571: 21 mulheres foram queimadas em maio.

Lorena, 1576-1606: o juiz Nicolas Remy se vangloriou de ter mandado à fogueira entre duas mil e três mil bruxas no período (uma média de cerca de duas por semana).

Bordeaux, 1577: quatrocentas bruxas são mandadas à morte pela corte soberana de Bordeaux.

Alemanha, 1560 (aproximadamente): os príncipes protestantes processaram, torturaram e condenaram à fogueira algumas centenas de bruxas.

Inglaterra, 1560-1600: sob o reinado de Elisabete I, 314 vítimas foram queimadas na fogueira, na maioria mulheres.

Treviri, 1587-1593: sob as ordens do arcebispo-eleitor Johann Von Schöneburg, ligado aos jesuítas, foram queimadas vivas 368 bruxas em 22 povoados. Em dois deles, apenas uma mulher foi deixada viva. Dentre as vítimas do arcebispo, havia também protestantes e judeus, além do ultracatólico reitor da universidade e magistrado Dietrich Flade. Este, acusado de ter sido clemente demais para com as bruxas, foi preso, torturado, estrangulado e queimado.

Nesses mesmos anos, a caça às bruxas provocaria a destruição de povoados inteiros na Suíça e a execução de 311 bruxas na região francesa do Vaud.

Triora (Ligúria), 1588: a responsabilidade de uma pesada escassez foi atribuída às bruxas. Na verdade, como se descobriria depois, não houve nenhuma escassez, os influentes locais é que se apoderaram do fruto das colheitas para vendê-los a preços altos. Enquanto isso, a intervenção da Inquisição mandou prender e torturar dezenas de mulheres e um suposto bruxo, todos acusados também de se relacionar com protestantes. Treze mulheres morreram torturadas, seis foram condenadas à morte e uma se suicidou na prisão para escapar das sevícias.

Val Mesolcina, 1593: o cardeal Carlos Borromeu (santificado em 1610) favorece a condenação de várias mulheres. Oito bruxas foram amarradas de cabeça para baixo e jogadas no alto na fogueira.

Ao longo de todo o século XVI, somam-se ao menos mil execuções na Dinamarca, quantidade análoga na Escócia, e quase duzentas fogueiras erguidas na Noruega.

Alemanha, 1600, (aproximadamente): o caçador de bruxas Balthasar Ross deu início a uma atividade própria. Ele chegava de surpresa nos povoados com um tribunal itinerante. As bruxas eram presas, processadas, torturadas com novos instrumentos inventados por ele, condenadas e queimadas. Em três anos de trabalho, ele conseguiria matar 250 mulheres e seria amplamente recompensado pelo príncipe e pelas autoridades locais.

Inglaterra, 1600 (aproximadamente): o arcebispo de Saint Andrew, acamado por uma grave doença, manda chamar a curandeira Alison Peirsoun. Esta o cura e ele, em compensação, manda que seja presa, torturada e, finalmente, condenada à morte.

Mântua, 1603: o duque de Mântua mandou afixar um decreto no qual previa uma recompensa de 50 escudos para quem denunciasse uma bruxa.

Zagarramurdi (Países Bascos), 1614: após um processo que durou quatro anos e um interrogatório de 300 testemunhas, foram condenadas 12 bruxas. Sete foram queimadas vivas, as outras cinco morreram durante o processo e foram queimadas "em efígie" (ou seja, um retrato seu foi jogado nas chamas).

Würtzburg, 1623-1631: o príncipe católico Filipe von Ehrenburg mandou novecentas pessoas à fogueira, dentre as quais o sobrinho, 19 cardeais católicos condenados por sodomia e algumas crianças de 5 a 7 anos acusadas de ter tido relações sexuais com o Demônio.

Oppenau, 1631-1632: um processo mandou à fogueira 8% da população.

Inglaterra, 1645-1647: o caçador de bruxas Matthew Hopkins viajava pelas cidades e povoados cobrando uma libra esterlina por cada bruxa que conseguisse fazer condenar. Só na província de Suffolk, ele conseguiu fazer enforcar 98 mulheres. O próprio Hopkins conduzia os interrogatórios e se voltava principalmente contra mulheres jovens, que torturava após violentar repetidas vezes.

Polônia, 650-1700 (aproximadamente): calcula-se que o número de vítimas da caça às bruxas seja em torno de dez mil pessoas.

Salem (Massachusetts), 1692: uma escrava negra confessou ter induzido as moças da cidade a participar de uma dança noturna com práticas de magia e dá o nome de alguns membros importantes do local. Tem início uma espécie de histeria coletiva que levaria à morte várias pessoas. Um total de 155 meninas, moças e jovens mulheres seriam processadas, e 20 delas acabariam na fogueira.

Suíça, 1782: a última bruxa é queimada na fogueira.

Polônia, 1793: a última bruxa é queimada na fogueira.

Ordálio

O termo "ordálio" deriva do anglo-saxão "ordeal", "juízo". Sua definição técnico-jurídica é: procedimento em que "forças sobrenaturais se manifestam dando seu próprio juízo sobre uma questão que provoca uma conseqüência jurídica."16

Alguns estudiosos afirmam que o "juízo de Deus" já era mencionado na Bíblia.17 Entretanto, até hoje, é difícil saber se a Igreja aprovava os ordálios, uma vez que o Quarto Concilio de Latrão (1215) os vetou explicitamente.

Na verdade, o "juízo de Deus" não foi vetado de fato. Por vezes, foi utilizado até por eremitas e monges na tentativa de tornar Deus testemunha de suas próprias razões, passando por cima das instituições eclesiásticas.

Nos primeiros séculos do cristianismo, muitos eremitas e missionários cristãos utilizaram de várias formas a prova do fogo para testemunhar a própria fé ou ser absolvidos de acusações infames.

O missionário Bonifácio, diante dos exércitos russo e alemão, submeteu-se à prova do fogo em nome de Deus. Conta-se que os espectadores, ao ver que seu corpo não queimava, converteram-se ao cristianismo.

A Igreja Católica do século XIII, já estatizada e hierarquizada, não podia permitir que houvesse outras fontes de legitimação espiritual e de santificação além das bulas provenientes da Santa Sé.18 Mas o instituto do ordálio sobreviveu de fato ainda por séculos e foi reintroduzido durante os processos por bruxaria.

O primeiro ordálio, surgido na Alemanha, foi a prova da fogueira, que consistia em fazer uma pessoa vestida com uma camisola coberta de cera passar por entre duas fileiras de galhos em chamas. Em 1098, um camponês da região da Provença, Pierre Barthélemy, submeteu-se espontaneamente à prova, conseguindo passar incólume através das duas fileiras de oliveiras em chamas colocadas a uma distância de pouco mais de um pé umas das outras.

Outro ordálio era a prova do ferro de marcar, que devia ser segurado na mão como se fosse um buquê de flores. O manuscrito Saxo Gramaticus fala de Poppus, que se submeteu à prova para demonstrar a verdade do cristianismo.

Ordálio semelhante é o da água fervente: a pessoa submetida à prova devia pegar um objeto dentro de um caldeirão cheio de água ou óleo fervente. Dizem que uma escrava teutoa acusou a ama de infidelidade, e ambas passaram pela prova.

A ama enfiou a mão e conseguiu pegar o objeto, enquanto a escrava se queimou e foi morta com um banho de água fervente.

Outro ordálio, ainda, era o da água fria (usada não por acaso contra as bruxas). O examinado era submerso em uma banheira de água fria com o polegar da mão e o indicador do pé amarrados. Se afundasse, era inocente; se boiasse (por ao menos cinco minutos) era culpado.

O último ordálio de que falaremos é a prova da Bíblia. O acusado subia sobre o prato de uma balança, enquanto do outro lado era colocada uma Bíblia. Se seu peso fosse inferior ao do livro, era condenado. As Bíblias da época pesavam cerca de 25kg.

Os bem-andantes, os bruxos "bons"

Por volta do final do século XVI, os inquisidores do Friuli viram-se diante de casos de bruxaria que não se encaixavam nos esquemas conhecidos.

Alguns camponeses eram conhecidos nas redondezas por sua capacidade de curar as pessoas atingidas por males. Um deles, como disse um pároco ao inquisidor da diocese de Aquiléia em 1575, declarara ser um "bem-andante" e se vangloriara de "vagar pela noite com bruxos e gnomos".19

O inquérito, de início, avançou lentamente (foi interrompido em 1575 e retomado apenas em 1580), mas no final chegou a confirmar a presença de um fenômeno muito difundido. Segundo a lenda, os "bem-andantes", homens e mulheres, durante o sono entravam em uma espécie de transe durante o qual a alma saía do corpo em forma de "fumaça", ratos ou outros pequenos animais. Como as bruxas, eles chegavam ao lugar de encontro (os campos do Vêneto ou do Friuli, mas também o vale bíblico de Josafá) voando, sozinhos ou cavalgando sobre pequenos animais, e, como as bruxas, reuniam-se com seus semelhantes para realizar feitos mágicos. Ao contrário das bruxas, no entanto, os bem-andantes não utilizavam ungüentos para voar, não participavam de orgias, não abjuravam a fé católica e não adoravam o diabo. Ao contrário, eles afirmavam que lutavam 'em nome da religião e de Cristo' contra as bruxas e magos maus, e para defender a colheita.

Ninguém se dizia bem-andante, mas nascia assim. Todas as crianças que viessem ao mundo de "camisa", ou seja, cobertas por uma película placentária, como se fosse uma roupa, eram potenciais bem-andantes, desde que guardassem a membrana e a levassem sempre consigo. Em geral, os futuros xamãs eram avisados do futuro que lhes esperava por suas mães ou por um bem-andante "ancião", que o visitava pessoalmente ou em sonho. Por volta dos 20 anos, nas noites de quinta-feira da quarta têmpora,20 eles eram chamados em sonho por um "capitão" ou anjo. Quando chamados, seu espírito abandonava o corpo e voava com o capitão. O destino era um campo onde lhe esperava uma luta contra bruxas e magos malvados. Os bruxos bons lutavam com ramos de funcho, os maus, com galhos de sorgo. Caso os primeiros vencessem, a colheita daquele ano seria boa; se fossem os segundos, o ano seria péssimo.

Os bem-andantes eram vinculados com o máximo segredo a suas ações e aos nomes de seus companheiros e dos bruxos adversários, sob pena de receberem pauladas "em sonho" durante a noite. Na verdade, muitas vezes falavam de suas atividades, por orgulho ingênuo ou para tirar alguma vantagem. A eles era atribuída a capacidade de curar pessoas atingidas por encantamentos e de reconhecer uma bruxa à primeira vista. As mulheres nascidas com a "camisa" podiam falar com os mortos. Todos esses eram dons que podiam trazer alguma vantagem econômica.21

Os inquisidores, durante os interrogatórios, tentavam insinuar habilmente a suspeita de que "o anjo" visto pelos bem-andantes era ninguém menos que o Demônio disfarçado e incluir nos relatos dos malfadados xamãs elementos típicos do "sabá" das feiticeiras, como a presença de "belas cadeiras", utilizadas pelo Diabo como trono, e de danças e "diversões".

Os camponeses continuaram repetindo que apenas as bruxas se entregavam a "diversões", enquanto eles se reuniam para promover o bem. Mas, no final, cederam à pressão psicológica e às armadilhas das perguntas capciosas e admitiram, ainda que renegando a própria fé, terem sido vítimas do Maligno.

Os autos dos processos contra os que nasceram com a "camisa" registraram uma evolução ao longo dos anos. O retrato do bem-andante se afastou cada vez mais daquele do "bruxo bom" para assumir o aspecto de bruxo malvado, apóstata da fé e adorador de Satanás. O que impressiona é o fato de muitos inquisidores investigarem cuidadosamente as pessoas que os bem-andantes afirmavam ter visto em sonho. De qualquer modo, nenhum foi condenado pelo simples "chamado em sonho".

As condenações da Inquisição contra os bem-andantes entre 1581 e 1705 foram, somando tudo, leves: muitos foram repreendidos ou tiveram de abjurar publicamente, alguns foram detidos por poucos meses ou banidos temporariamente. Apenas dois de 16 condenados foram exilados para sempre.22 O bem-andante Michele Soppe morreu na prisão antes da sentença, talvez pelas péssimas condições da detenção.23

Muitos processos foram interrompidos, muitos supostos bem-andantes considerados inencontráveis não foram procurados. É provável que a Inquisição estivesse mais preocupada com a infiltração das teses luteranas, cujos adeptos foram identificados e perseguidos com eficiência e rapidez.

Além disso, entre o final do século XVI e a metade do século XVII, o interesse dos inquisidores pelos sabás diminuiu, enquanto aumentou seu ceticismo. Mas ainda que não tenha sido uma tragédia material, o fim dos bem-andantes representou um crime cultural e significou a destruição da vida para muitos acusados, obrigados a viver à margem da sociedade.



Xamãs europeus

Os bem-andantes não eram os únicos "bruxos bons" presentes na Europa. Em 1692, na Letônia, Thiess, um homem de mais de 80 anos, declarou aos juízes que era um lobisomem e que três noites por ano (Santa Lúcia, Pentecostes e São João) os licantropos se transformavam em lobos e se dirigiam ao Inferno para pegar dos diabos e dos bruxos maus os grãos da colheita que estes haviam roubado. Os licantropos batiam nos bruxos com açoites de ferro, enquanto estes, por sua vez, os expulsavam com cabos de vassoura.24

Thiess, irritado com as perguntas dos inquisidores, repetiu várias vezes que os lobisomens eram "cães de Deus", que expulsavam o Diabo com todas as suas forças e que, sem eles, este roubaria todos os frutos da Terra. Os lobisomens russos e alemães faziam o mesmo. Thiess, que não voltava atrás de suas declarações, foi, por fim, condenado a dez chibatadas.

As semelhanças com os bem-andantes do Friuli são evidentes. Talvez os "nascidos com a camisa" e os licantropos letões representassem os últimos remanescentes de um culto xamanista pré-cristão antes difundido em várias áreas da Europa e que sobrevivera em algumas zonas marginais, como os campos do Friuli e o extremo norte. Até hoje, na Istria ou na Dalmácia, há terapeutas e "antibruxos" nascidos com a "camisa".25

No caso específico dos bem-andantes, talvez haja um elemento a mais de originalidade. Segundo dom Gilberto Pressacco (1945-1997), seus ritos reuniriam também elementos da tradição estática dos Terapeutas de Alexandria, veiculada no Friuli através dos sermões de Ermagora, discípulo de São Marcos (de origem alexandrina) e fundador da Igreja de Aquiléia.26 Assim como os lobisomens, originalmente bons, foram transformados pela tradição cristã em seres negativos, os bem-andantes acabaram sendo identificados com os próprios demônios que combatiam.
CAPÍTULO 11

A salvação de Lutero e a Reforma Protestante

A venda de indulgências

No que consistia a doutrina das indulgências? "Acreditava-se que Cristo em pessoa, a Virgem Maria e muitos santos tivessem ganhado, durante sua vida, um surplus de mérito que poderia ser distribuído entre os cristãos menos praticantes da fé e que haviam, ao contrário deles, acumulado um déficit em razão dos pecados cometidos, e, para expiá-los, deveriam passar um longo período de tempo no Purgatório. Os papas, depositários, através de Pedro, das chaves da Igreja, tinham acesso a esse tesouro e podiam estendê-lo aos pecadores que precisassem de uma diminuição na pena. Estes podiam, assim, privar-se de parte das riquezas acumuladas durante a vida terrena e receber em troca a riqueza espiritual dos santos. Mesmo não sendo possível comprar a salvação, podia-se, no entanto, pagar pela remissão (mesmo total) da pena." (David Christie-Murray, 1998, p. 169.)

O auge dessa prática se deu durante o pontificado de João de Mediei, o Leão X (1513-1521), que lançou uma aberta política de venda de indulgências. Verdadeiros mascates percorreram a Europa vendendo "cartas de indulgência", quase bônus-Paraíso, que podiam ser comprados sem maiores formalidades, mas desconcertando muitos crentes genuínos.

Em 1517, foi divulgada a Taxa Camarae, uma lista das indulgências previstas para os vários pecados, com um tarifário a elas referentes, reportado a seguir:

1. O eclesiástico que incorrer em pecado carnal, seja com freiras, primas, sobrinhas, afilhadas ou, enfim, com outra mulher qualquer, será absolvido mediante o pagamento de 67 libras e 12 soldos.

2. Se o eclesiástico, além do pecado de fornicação, pedir para ser absolvido do pecado contra a natureza ou de bestialidade, deverá pagar 219 libras e 15 soldos. Mas se tiver cometido pecado contra a natureza com crianças ou animais, e não com uma mulher, pagará apenas 131 libras e 15 soldos.

3. O sacerdote que deflorar uma virgem pagará 2 libras e 8 soldos.

4. A religiosa que quiser ser abadessa após ter se entregado a um ou mais homens simultânea ou sucessivamente, dentro ou fora do convento, pagará 131 libras e 15 soldos.

5. Os sacerdotes que quiserem viver em concubinato com seus parentes pagarão 76 libras e 1 soldo.

6. Para cada pecado de luxúria cometido por um leigo, a absolvição custará 27 libras e 1 soldo.

7. A mulher adúltera que pedir a absolvição para se ver livre de qualquer processo e ser dispensada para continuar com a relação ilícita pagará ao papa 87 libras e 3 soldos. Em um caso análogo, o marido pagará o mesmo montante; se tiverem cometido incesto com o próprio filho, acrescentar-se-ão 6 libras pela consciência.

8. A absolvição e a certeza de não ser perseguido por crime de roubo, furto ou incêndio custarão ao culpado 131 libras e 7 soldos.

9. A absolvição de homicídio simples cometido contra a pessoa de um leigo custará 15 libras, 4 soldos e 3 denários.

10. Se o assassino tiver matado dois ou mais homens em um único dia, pagará como se tivesse assassinado um só.

11. O marido que infligir maus-tratos à mulher pagará às caixas da chancelaria 3 libras e 4 soldos; se a mulher for morta, pagará 17 libras e 15 soldos; e se a tiver matado para se casar com outra, pagará mais 32 libras e 9 soldos. Quem tiver ajudado o marido a perpetrar o crime será absolvido mediante o pagamento de 2 libras por cabeça.

12. Quem afogar o próprio filho pagará 17 libras e 15 soldos (ou seja, 2 libras a mais que aquele que matar um desconhecido), e se pai e mãe o tiverem matado de comum acordo, pagarão 27 libras e 1 soldo pela absolvição.

13. A mulher que destruir o filho que carrega no ventre e o pai que contribuir para a realização do crime pagarão 17 libras e 15 soldos cada. Aquele que facilitar o aborto de uma criatura que não for seu filho pagará 1 libra a menos.

14. Pelo assassinato de um irmão, uma irmã, mãe ou pai, pagar-se-ão 17 libras e 5 soldos.

15. Aquele que matar um bispo ou prelado de hierarquia superior pagará 131 libras, 14 soldos e 6 denários.

16. Se o assassino tiver matado mais sacerdotes em várias ocasiões pagará 137 libras e 6 soldos pelo primeiro homicídio e a metade pelos seguintes.

17. O bispo ou abade que cometer homicídio por emboscada, acidente ou estado de necessidade pagará, para conseguir a absolvição, 179 libras e 14 soldos.

18. Aquele que quiser comprar antecipadamente a absolvição por qualquer homicídio acidental que possa vir a cometer no futuro pagará 168 libras e 15 soldos.



19. O herege que se converter pagará, pela absolvição, 269 libras. O filho do herege que tiver sido queimado, enforcado ou executado de qualquer outra forma poderá ser readmitido apenas mediante o pagamento de 218 libras, 16 soldos e 9 denários.

20. O eclesiástico que, não podendo pagar os próprios débitos, quiser se livrar de ser processado pelos credores entregará ao pontífice 17 libras, 8 soldos e 6 denários, e a dívida lhe será perdoada.

21. Será concedida a licença para a instalação de postos de venda de vários gêneros sob os pórticos das igrejas mediante o pagamento de 45 libras, 19 soldos e 3 denários.

22. O delito de contrabando e fraude aos direitos do príncipe custará 87 libras e 3 denários.

23. A cidade que quiser que seus habitantes ou sacerdotes, freis ou monjas obtenham licença para comer carne e laticínio em épocas em que é proibido pagará 781 libras e 10 soldos.

24. O mosteiro que quiser variar a regra e viver com menos abstinência do que a prescrita pagará 146 libras e 5 soldos.

25. O frade que, por conveniência própria ou gosto, quiser passar a vida em um ermitério com uma mulher dará ao tesouro pontifício 45 libras e 19 soldos.

26. O apóstata vagabundo que quiser viver sem obstáculos pagará igual quantia pela absolvição.

27. Igual montante pagarão os religiosos, sejam eles seculares ou regulares, que queiram viajar em trajes de leigo.

28. O filho bastardo de um sacerdote que queira preferência para suceder o pai na cúria pagará 27 libras e 1 soldo.

29. O bastardo que queira receber ordens sagradas e gozar de seus benefícios pagará 15 libras, 18 soldos e 6 denários.

30. O filho de pais desconhecidos que queira entrar para as ordens pagará ao tesouro pontifício 27 libras e 1 soldo.

31. Os leigos feios ou deformados que queiram receber ordenamentos sagrados e ter benefícios pagarão à chancelaria apostólica 58 libras e 2 soldos.

32. Igual quantia pagará o vesgo do olho direito, enquanto o vesgo do olho esquerdo pagará ao papa 10 libras e 7 soldos. Os estrábicos bilaterais pagarão 45 libras e 3 soldos.

33. Os eunucos que queiram entrar para as ordens pagarão a quantia de 310 libras e 15 soldos.

34. Aquele que, por simonia, queira comprar um ou muitos benefícios se dirigirá aos tesoureiros do papa, que lhe venderão os direitos a preços módicos.

35. Aquele que, tendo descumprido um juramento, queira evitar qualquer perseguição e se livrar de qualquer tipo de infâmia pagará ao papa 131 libras e 15 soldos. Além disso, dará 3 libras para cada um que ouviu o juramento.1

Não havia crime, nem o mais cruel, que não pudesse ser perdoado mediante pagamento.

Naqueles anos, o dominicano Tetzel percorreu a Alemanha vendendo cartas de indulgência. Mais tarde, Lutero descreveria sua obra da seguinte forma: "Seus poderes e graça foram ampliados de tal forma pelo papa que, se alguém violasse ou engravidasse a Virgem Maria, ele teria perdoado aquele pecado assim que uma quantia de dinheiro suficiente fosse colocada em sua bolsa... Ele redimiu mais almas com as indulgências do que São Pedro com seus sermões; quando era colocado em sua bolsa um dinheiro pelo Purgatório... a alma se elevava imediatamente para o Paraíso; não havia necessidade de comprovar dor ou arrependimento por um pecado se era possível comprar indulgências ou cartas de indulgência. Tetzel vendia até o direito de poder pecar no futuro... qualquer coisa era garantida em troca de dinheiro."2

A venda de indulgências era apenas a ponta do iceberg de um fenômeno geral de corrupção na Igreja da época. Os altos prelados acumulavam mais encargos e as relativas prebendas. Os bispos não residiam nas sedes a eles designadas: por exemplo, um nobre de Ferrara podia ser nomeado arcebispo na Hungria e nunca sair de sua casa, limitando-se a receber o dízimo dos fiéis de cujas almas devia cuidar.

O título de cardeal (que era o "príncipe", também em sentido terreno) muitas vezes não era resultado de um longo percurso espiritual, mas da venda ou concessão do papa a parentes e amigos. Quem podia se permitir o comprava para o filho caçula ou ilegítimo, por vezes adolescente, como uma renda vitalícia. O próprio Leão X (1513-1521) se tornara cardeal aos 13 anos.

Os pontífices eram, em todos os aspectos, soberanos renascentistas. Como os reis, eliminavam os adversários e se cercavam de homens de confiança. Como os reis, usavam a intriga e o homicídio político, como o papa Alexandre VI Bórgia (1492-1503), por exemplo, e seu filho César. Como os reis, declaravam guerra contra seus inimigos e conduziam as tropas na batalha; o papa Júlio II (1503-1513) foi retratado em armadura.3 Como os reis, tinham concubinas e filhos bastardos. E, como os reis, amavam as artes e protegiam os artistas. Mas os cuidados com as almas nada tinham a ver com tudo isso.





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