O livro Negro do Cristianismo


Os movimentos reformistas



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Os movimentos reformistas

Em reação contra a corrupção na Igreja, surgiram dois movimentos reformistas de origem diversa, um do tipo monástico, outro popular. O movimento monástico era o cluniacense, cujo nome provém do mosteiro francês de Cluny, fundado em 910, que envolveu as ordens regulares dos beneditinos, dos cistercienses, dos cartusianos, dos camáldulos, além de boa parte do clero e muitos leigos. Os cluniacenses lutavam pelo renascimento da moral da Igreja e pela sua volta à qualidade de guia espiritual. Acreditavam que poderiam obter o resultado desejado reforçando a autonomia e a autoridade do papado.

Além desse, havia um movimento político-religioso de origem popular que lutava contra o excesso de poderes dos feudatários eclesiásticos e por uma Igreja mais próxima dos pobres. Em Milão, ele criou o fenômeno da "pataria", do qual falaremos mais adiante. O termo "popular" não deve suscitar mal-entendidos: na época, o "povo" era formado pelos membros das classes que hoje podemos considerar burguesas. Podemos, portanto, imaginar que não lhes faltassem elementos dotados de iniciativa, cultura e meios econômicos.

O inimigo comum dos cluniacenses e patarinos eram os bispos-condes, independentes demais em relação ao papa e dependentes demais do imperador. E foi contra este último adversário que se criou uma aliança inédita. Em Milão, expoentes do clero (dentre eles o futuro pontífice Alexandre II) entraram na pataria. Em Florença, os monges reformistas instigaram uma rebelião contra o bispo simoníaco Pietro Mezzabarba. "Os cidadãos se transformaram de cordeiros em feras", observava, desconsolado, o bispo de Alba. Mas os monges reformistas não ignoravam os "planos elevados": muitos brilhantes membros do movimento se plantaram na corte papal.

O sonho dos cluniacenses foi coroado com a eleição de um deles para papa: Gregório VII (1073-1085). Gregório, que fora eleito graças também à pressão do povo de Roma, teorizou e tentou colocar em prática a autoridade absoluta do papa no corpo da Igreja, além da primazia do poder espiritual sobre o temporal.

A pataria e os movimentos afins foram um instrumento útil para subtrair o poder dos bispos-condes e reforçar a autoridade central da Igreja de Roma. Mas agora que o objetivo fora alcançado, a "ralé" não tinha mais utilidade e devia voltar ao seu lugar, por bem ou por mal. Após um primeiro momento de moralização e aproximação, a Igreja se afastou ainda mais dos pobres, que, em teoria, deveria ter defendido.

Em 1200, o papa já havia se tornado um soberano sob todos os aspectos, talvez um dos mais poderosos soberanos europeus, que, como todos os outros regentes, tinha pretensões territoriais, firmava tratados, fazia e desfazia alianças. Um soberano que, com as Cruzadas, podia mandar exércitos para a guerra e influenciar pesadamente os reis e imperadores católicos com a arma da excomunhão (que na época incluía, também, a perda de todos os direitos).

Os bispos-condes, ainda que nomeados em Roma, continuavam a deter nas próprias mãos a pastoral, símbolo do poder espiritual e o cetro do poder feudal, e possuíam em suas dependências exércitos, vassalos e servos da gleba. Os conventos eram proprietários de imensas riquezas e latifúndios, que geriam com ampla autonomia com relação ao poder estatal, verdadeiros Estados dentro dos Estados (algumas ordens, como a dos Cavaleiros de Malta, gozam ainda hoje da extraterritorialidade em seus palácios). Não era incomum que altos eclesiásticos assumissem funções de destaque nas dependências dos vários soberanos europeus.

Tudo isso só provocava uma crescente corrupção do clero, cada vez mais ocupado com a gestão dos próprios bens temporais e sempre menos atento à própria missão de guia espiritual, tornando a carreira eclesiástica atraente para as pessoas erradas e pelos motivos errados. A situação não era melhor no clero menor, formado não raro por pessoas rudes, ignorantes e corruptas, às vezes até analfabetas e certamente menos eloqüentes e menos fiéis às Escrituras do que muitos pregadores "hereges".1

Apenas para entender qual era o fermento da época contra o clero, eis o que escreve Pierre Cardenal, poeta do século XIII, sobre os eclesiásticos.


Sua pobreza não era de espírito:

guardam o que é seu e pegam o que é meu.

Para túnicas, usam tecidos de lã inglesa,

deixam o cilício muito áspero.

E não dividem suas vestes

como fazia São Martinho.

Mas as esmolas com as quais se mantém

a gente pobre, querem todas para eles.

Com roupas leves e largas, com a capa passada,

fina no verão, grossa no inverno,

com sapatos delicados — de solas francesas

quando faz frio — de couro marselhês,

sempre amarrados com maestria —

pois mal-amarrado é imperdoável —

vão pregando, com seu sutil saber,

que para servir a Deus devemos dar o coração e os bens.

Se fosse marido, eu teria medo

se um homem sem meias se sentasse próximo à minha mulher...2

As Cruzadas, que na época já provocavam o horror de muitos crentes, afetaram a cristandade com outro veneno poderoso: o conceito de Guerra Santa, a idéia de que matar um infiel era não só um ato lícito, como também abençoado por Deus. Qualquer um que pregasse o retorno a uma Igreja mais simples, mais pobre, não comprometida com o poder, corria o risco de se ver, apesar de tudo, declarado herege e inimigo da Igreja.

Por todos esses motivos, uma massa crescente de pessoas se afastou da instituição eclesiástica para se aproximar dos movimentos heréticos, cujos líderes eram os primeiros a colocar em prática os preceitos da pobreza e da caridade que pregavam. As heresias medievais, em muitos casos, eram verdadeiros movimentos populares que uniam, aos sermões religiosos, a prática de um estilo de vida solidário e igualitário.

Em alguns casos, os hereges professavam efetivamente uma doutrina diferente da "oficial", mas, em outros, a acusação de heresia tinha apenas finalidades políticas, como no conhecido caso de Joana d'Arc.



Os "pobres" hereges e os católicos

"O que inicialmente distinguia São Francisco de Pierre Valdo? Ambos queriam se desfazer dos próprios bens e devolver à Igreja sua simplicidade primitiva, mas um é venerado em todas as igrejas do mundo católico, enquanto o outro foi tachado de herege."3

Talvez o pontificado de Inocêncio III (1198-1216) tenha marcado o ápice do poder político do papado na Europa. Um papado que, no entanto, precisou enfrentar uma grave ameaça: os pregadores cátaros e valdenses que obtinham um sucesso crescente. Os cátaros (apoiados pelos nobres locais) chegaram a criar, no sul da França, uma Igreja alternativa, que corria o risco de superar a oficial. Para conter o perigo, Inocêncio III atuou em duas frentes: primeiro acolheu na Igreja movimentos como o dos franciscanos, que criaram sua própria regra de pobreza, desde que se submetessem à autoridade do pontífice; criou uma congregação de "pobres católicos" rival à dos valdenses. "Uma das maiores instituições de Inocêncio III foi a compreensão de que a capacidade de conseguir adeptos junto aos cátaros era exatamente a vida humilde, escondida, pobre. Quando o papa se viu diante dos fenômenos franciscano e dominicano, intuiu que o caminho da pobreza podia 'salvar a Igreja', enquanto tinha também o poder de destruí-la. Se o poder eclesiástico era acusado de não abraçar mais o mandamento da pobreza de Cristo [...] o aparecimento de homens fiéis às instituições e capazes de retomar a genuinidade das origens podia lhe devolver a credibilidade." (Benazzi D'Amico, 1998, p. 33.)

Ao mesmo tempo, ele puniu impiedosamente as heresias, encorajou Domingos de Gusmão (o futuro São Domingos) a pregar contra elas no sul da França e ordenou que os bispos procurassem os hereges e os reconduzissem ao seio da Igreja ou os punissem de forma exemplar. Inocêncio III foi o promotor da famosa Cruzada contra os cátaros.

Com o passar do tempo, os vértices da Igreja acabaram considerando perigoso o próprio conceito de "pobreza evangélica". Se Inocêncio III e Honório III reconheceram as Regras das Ordens mendicantes (franciscanos e dominicanos), um século depois, João XXII decretou herética a afirmação de que "Cristo e seus apóstolos nada possuíam".4

As cidades-Estado

Dentre as mudanças anunciadas da nova época, há uma que com certeza não é menos importante: um crescente número de camponeses deixava a condição de servos da gleba e incrementava a população e a disponibilidade de mão-de-obra das cidades, onde se afirmava uma nova classe de mercadores, artesãos, profissionais. Estes grupos, aliados a alguns expoentes da pequena nobreza, dariam vida, por volta do final do século XI, a uma nova civilização, a das cidades-Estado.

As cidades-Estado eram verdadeiras repúblicas autônomas que, aos poucos, se libertavam do domínio dos feudatários, leigos ou eclesiásticos, e impunham um ordenamento que podemos definir como democrático (ainda que os expoentes das classes mais humildes e as mulheres fossem excluídos da vida política). Sofrendo com a ingerência e as pretensões imperiais, logo surgiram cidades-Estado nos territórios papais. A cidade-Estado de Roma, que nasceu em 1145, chegou a expulsar o pontífice de seus domínios. O descontentamento popular se devia ao cansaço decorrente das contínuas guerras realizadas pelo Estado pontifício e pela opressão das classes nobiliárias.

A revolução das cidades-Estado não foi apenas política e social, mas também cultural. Se nos séculos anteriores a transmissão da cultura foi monopólio do clero, a nova época viu o nascimento das universidades, associações autônomas nascidas por iniciativa dos próprios estudantes e professores (só depois a Igreja tomaria o controle dessas novas instituições, através da infiltração em massa de docentes dominicanos e franciscanos).

Nas cidades nascia, em número cada vez maior, um novo grupo intelectual de funcionários e profissionais de formação "leiga". Nos atos públicos e comerciais, mas também na produção artística, o "vulgar" (ou seja, a língua do povo) era cada vez mais difundido, em detrimento do latim (língua escrita dos doutos, do clero e dos juristas).

A independência política, econômica e cultural das cidades-Estado permitiu também um grande grau de tolerância para com os movimentos e pregadores hereges (desde que não contestassem o poder das novas classes dirigentes) e uma maior liberdade de pensamento e de expressão. E no momento em que a ingerência papal era vista como um perigo, algumas adotaram sérias restrições contra a Igreja, chegando mesmo a proibir que seus cidadãos tivessem relações com o bispo.

O herege Arnaldo de Bréscia pregou ser incomodado na cidade-estado de Roma. O papa Honório III (1216-1227) definira Brescia como "a sede da heresia", e Milão era "um fosso cheio de hereges". A cidade de Gênova foi condenada pelo bispo de Toulouse por se recusar a introduzir no próprio ordenamento leis contra os hereges.

Um panorama das heresias medievais

Apresentaremos, a seguir, uma lista de alguns dos mais significativos personagens e movimentos hereges da Idade Média. A lista não pretende ser completa, mas permite reconstruir, graças também à bibliografia especializada e aos exemplos retratados no apêndice, o clima geral da época.

"Ou beije a cruz, ou se jogue no fogo": os hereges de Monforte

Os hereges de Monforte, para a Igreja, eram culpados de graves crimes: praticavam a castidade, sujeitavam-se ao jejum e eram vegetarianos. Mas a coisa mais escandalosa era que seus bens eram comuns a todos. Centenas deles foram queimados.

Por volta de 1028 (a data não é precisa), o arcebispo e feudatário de Milão, Ariberto, visitou a diocese de Turim, que na época era dependência sua. Lá, soube do surgimento de um movimento herético no castelo de Monforte, na diocese de Asti. Preocupado, chamou um homem da comunidade para ter informações a respeito de suas atividades. Apresentou-se, então, um tal Gerardo, que ilustrou a vida da comunidade: eles davam grande valor à castidade, havia pessoas casadas que faziam voto de virgindade perpétua; nunca se alimentavam de carne e realizavam ipium continuamente. Os maiores se revezavam nas rezas durante o dia "para que nunca houvesse um instante sem orações".5 Finalmente, seus bens eram todos comunitários.6

As declarações de Gerardo sobre a Trindade eram heterodoxas, mas o que chamou a atenção do arcebispo foi que, ao ser perguntado sobre a fé na Igreja de Roma, Gerardo respondeu que eles não acreditavam no bispo de Roma, mas em seu próprio pontífice, "que todos os dias visita os irmãos espalhados pelo mundo".7 No final do interrogatório, o arcebispo mandou seus soldados ao castelo de Monforte com a ordem de prender todas as pessoas que ali encontrassem. Dentre os prisioneiros, estava a condessa Berta, senhora do castelo, que demonstrara simpatia pelo movimento.

Os hereges de Monforte foram levados a Milão, onde o arcebispo pretendia vigiá-los de perto e tentar, com calma, fazê-los cair em si. Mas o tiro saiu pela culatra: os integrantes começaram a pregar também em Milão, e a cada dia atraíam multidões de pessoas da cidade e dos campos próximos.

Os nobres locais, então, decidiram recorrer à força. Em uma grande praça, foram instaladas uma cruz e uma fogueira, e todos os hereges de Monforte tiveram de escolher: ou abraçar os pés da cruz e voltar à Igreja Católica, ou se jogar no fogo. Alguns abraçaram a cruz e abjuraram, mas a maioria (algumas centenas) cobriu o rosto com as mãos e se jogou no fogo. Até poucos anos atrás, a praça onde a execução foi realizada se chamava Piazza Monforte.

De acordo com os cronistas da época, a decisão de matar os hereges foi tomada por leigos notáveis da cidade (feudatários dos campos milaneses e administradores dos bens da Igreja), impondo-se ao próprio arcebispo, que teria preferido continuar a obra de persuasão e conversão. O que assustava os senhores locais não era tanto a heresia doutrinária, mas a mensagem de igualdade que os "monfortenses" pregavam.

É provável que aquela tenha sido uma das primeiras comunidades cátaras, um movimento herege que, nos dois séculos seguintes, atingiu proporções gigantescas e ameaçou, em várias regiões da Europa, a própria hegemonia da Igreja de Roma.



Os patarinos

A pataria foi um movimento social e religioso que se desenvolveu em Milão por volta do início do século XI. Os patarinos lutavam contra os desmandos do arcebispo Guido, senhor de Milão e nomeado pelo imperador, e de seus vassalos e contra um clero profundamente corrupto (em Milão, por exemplo, existia um verdadeiro tarifário das prestações eclesiásticas). O nome "pataria" se deve ao mercado milanês de tecidos, e os seguidores do movimento foram pejorativamente chamados de "patarinos" ou "esfarrapados".

O líder da revolta foi o diácono Arialdo, ao lado de um padre, Anselmo de Baggio (o futuro papa Alexandre II, 1061 -1073), e de um clérigo, Landolfo. Arialdo e Landolfo, excomungados pelo arcebispo para não se apresentarem diante de um concilio convocado pelo próprio Guido, recorreram ao papa, ameaçando chegar, se necessário, a um cisma da Igreja milanesa. Roma interveio a favor dos patarinos e, em 1066, excomungou o arcebispo Guido.

Guido, que contava com apoio do imperador, rejeitou a excomunhão e acusou os patarinos de querer a autonomia da Igreja milanesa, sujeitando-a à romana. Eclodiram tumultos e embates entre os adeptos das duas facções. Arialdo, obrigado a fugir de Milão, foi capturado e morto pelos matadores dos nobres feudais.

Erlembaldo, irmão de Landolfo, assumiu, assim, a liderança do movimento, expulsando Guido da cidade e se vingando furiosamente em seus seguidores. Guido, considerado o mandante do homicídio de Arialdo, foi obrigado a se exonerar em 1067.

O conflito se reacendeu quando o imperador Henrique IV da Alemanha, atacou o subdiácono Godofredo, do arcebispado.

Em 1072, os patarinos elegeram um bispo alternativo, o clérigo Antão. O papa Alexandre II (de origem patarina) confirmou a nomeação, e o movimento conseguiu impedir a entrada do bispo imperial na cidade. O papa Gregório VII, que sucedeu Alexandre II em 1072, conseguiu entrar em acordo com Henrique para dar uma solução pacífica à questão. Mas um incêndio desastroso que aconteceu em Milão naquele ano, e que foi atribuído aos patarinos, fez eclodirem novos tumultos, nos quais foi morto Erlembaldo, marcando, assim, o declínio do movimento.

Marginalizada sob o ponto de vista político-social, a pataria foi derrotada também no âmbito doutrinário. Se os patarinos afirmavam que sacramentos dados por sacerdotes indignos não eram válidos, a Igreja de Roma adotou oficialmente uma posição conciliatória: confirmou a condenação dos comportamentos simoníacos, mas admitiu a validade dos sacramentos, ainda que celebrados por oficiantes corruptos.

Um século depois, os cátaros também acabaram por receber a denominação pejorativa de "patarinos", que se tornou, para todos os efeitos, sinônimo de "hereges"

Os petrobrusianos

O nome vem de Pedro de Bruys, pregador do início do século XII, que rejeitava o batismo de crianças (os adeptos de seu movimento eram rebatizados quando adultos), a eucaristia e as liturgias como a missa e a oração para os defuntos. Além disso, opunha-se fortemente à adoração da cruz: para ele, a partir do momento em que ela foi instrumento da morte de Jesus, os cristãos deveriam odiá-la, em vez de venerá-la.8 Ele e seus seguidores foram acusados de profanar igrejas e queimar cruzes. Morreu queimado vivo por volta de 1135.



Tanquelmo e Arnaldo de Bréscia

O holandês Tanquelmo afirmava que a autoridade do papa não era absoluta e que os sacramentos não eram válidos se celebrados por clérigos corruptos. Foi acusado (mas provavelmente era calúnia) de propagar o amor livre. Foi preso pelo arcebispo de Colônia e morto em 1115, durante uma tentativa de fuga.9

Arnaldo de Bréscia, sacerdote de vida exemplar, afirmava que nenhum membro do clero deveria possuir bens ou exercitar poder temporal. Ele também era contrário ao batismo de crianças e declarava inválidos os sacramentos celebrados por sacerdotes indignos.

Por causa de suas idéias, foi banido várias vezes e precisou vagar pela Europa. Em 1145, chegou a Roma e, graças a seu carisma e eloqüência, tornou-se um dos conselheiros políticos e espirituais da cidade-Estado de Roma, sorteado alguns anos antes para a função de antipapa. De acordo com um cronista da época, Arnaldo "criticava abertamente os cardeais, dizendo que suas assembléias [...] não eram a Igreja de Deus, mas um mercado e uma espelunca de ladrões [...] Nem o papa era o que dizia ser, homem apostólico e pastor de almas, mas um homem sanguinário cuja autoridade tinha por base incêndios e homicídios, torturador das igrejas, perseguidor da inocência, que no mundo só servia para envergonhar as pessoas, enchendo o próprio cofre e esvaziando os dos outros" (Merlo, 1989, p. 35).

Sua popularidade lhe permitiu atuar por anos em Roma sem ser perturbado, até que, em 1155, o papa Adriano IV conseguiu mandá-lo ao exílio com a ameaça de publicar um "interdito" contra a cidade, uma espécie de "embargo religioso" que suspendia as atividades eclesiásticas sobre seu território. O interdito ameaçava tirar da cidade o lucrativo mercado de peregrinos.

Enquanto fugia de Roma, Arnaldo foi capturado pelas tropas de Frederico Barba-Ruiva, que o entregou ao papa. Foi enforcado, e, por medo de que surgisse um culto popular em torno de seus restos mortais, seu corpo foi cremado, e as cinzas, jogadas no Tibre. Seus seguidores, os arnaldistas, continuaram, no entanto, a arrebanhar adeptos por anos, até se juntarem aos valdenses.



Os cátaros

Embora conhecidos por vários nomes — albigenses, patarinos, concorrenzzianos10 —, preferiam ser chamados de "cátaros", os "puros", do grego katharos. Eram ascetas e pacifistas, e seus sacerdotes não possuíam riquezas. Os cátaros tinham uma concepção dualista do mundo, herdada dos bogomilos:11 o espírito é o bem e a matéria é o mal. Rejeitavam a doutrina da encarnação (já que a matéria é má, Deus não podia ser Jesus encarnado), o matrimônio, a procriação, e observavam longos e rigorosos jejuns. Praticavam uma espécie de batismo espiritual com a imposição das mãos. Tinham um "clero" próprio formado por "maiores" (bispos), presbíteros (padres) e diáconos. Além disso, distinguiam entre "perfeitos" (os plenamente adeptos à seita, com todas as obrigações vinculadas) e "crentes" (uma espécie de "simpatizantes" a quem os cátaros permitiam a adesão formal aos ritos da Igreja Católica).

A heresia cátara era muito difundida na França meridional, a ponto de quase prevalecer sobre o catolicismo. Várias comunidades estavam presentes também na Itália e na Espanha setentrional, nos territórios eslavos e em Constantinopla. Os cátaros (como os primeiros cristãos) estavam presentes sobretudo nos centros urbanos. A população era conquistada por seu ascetismo e moralidade, muito maior do que a do clero ortodoxo. Aceitavam apenas uma parte das Sagradas Escrituras e consideravam a Igreja de Roma uma criatura do demônio. Assim, em 1167, fundaram uma verdadeira Igreja alternativa, com um concilio internacional numeroso no sul da França.12 Os cátaros gozavam do apoio dos nobres provençais, que sonhavam em se apoderar dos bens da Igreja e temiam seu poder.

Em 1179, o Terceiro Concilio de Latrão estendeu os benefícios previstos para os cruzados da Terra Santa a quem empunhasse armas contra os hereges do sudoeste da França. Era a primeira vez que se ordenava uma Cruzada contra os cristãos.13

Em 1208, o papa Inocêncio III, preocupado com o crescimento contínuo da influência dos cátaros, renovou o chamado à Cruzada, prometendo de novo as mesmas indulgências e os mesmos privilégios concedidos aos cruzados.14

Assim, dois anos depois, foi formado um exército de duzentos mil cruzados, na maioria nobres do norte da França ansiosos por conquistar terras e mercadorias às custas de seus colegas do sul. "Por vinte anos, a parte mais civilizada da Europa — e, segundo alguns, também mais feliz —, a terra dos trovadores, foi devastada por saques e destruições em larga escala." (Christie-Murray, 1998, p. 155.)

A Cruzada teve episódios de grande fúria, como o massacre de Béziers, em 1209. Quando os cruzados conquistaram a cidade e perguntaram ao representante do papa como poderiam diferenciar os católicos dos hereges, este respondeu: "Matem todos. Deus reconhecerá os seus." "A cidade de Béziers foi dominada, e como nossos homens não distinguiram dignidade, sexo ou idade, quase vinte mil homens morreram sob a espada... a cidade foi saqueada e queimada: assim a atingiu o admirável castigo divino." (Christie-Murray, 1998, p. 155.) Assim escreveram os representantes do pontífice, em um relatório oficial ao papa sobre os acontecimentos.

O massacre de Béziers causou o autêntico repúdio da opinião pública da época. Eis o que escreve o trovador provençal Guilhem Figueira, em seu "Sirvente contra Roma", composto por volta de 1227:

Roma...

Seria bom privá-la



De cérebro,

pela vergonha que carrega no chapéu,

você e seus Citeaux — que massacraram

Béziers, e assustadoramente!15

Após Béziers, sucedeu-se a conquista de Carcassone, Narbonne e Toulouse. A Cruzada se encerrou em 1229, com a tomada de Toulon e o tratado de Meaux, no qual o conde Raimundo VII, de Toulouse, reconheceu o domínio do rei da França, que lhe cedeu parte dos próprios territórios, e se reconciliou com a Igreja Católica. O tratado também equiparou o crime de heresia ao de lesa-majestade. Para provar sua boa vontade, em seguida, o conde mandou pessoalmente 80 hereges à fogueira em Agen, em 1249.

Os cátaros sobreviventes se refugiaram parte na Itália setentrional, parte nos Bálcãs, onde incrementaram as fileiras de uma Igreja dualista autônoma hegemônica na Bósnia-Herzegóvina, que foi destruída pela invasão turca do final do século XV.

Em 1244, o arcebispo de Narbonne, "seguindo as diretrizes apostólicas" (ou seja, as ordens do papa Inocêncio IV), mandou para a fogueira mais de duzentos hereges de ambos os sexos capturados após um ano de sítio à fortaleza de Montségur. Enquanto isso, a Igreja desenvolveu uma legislação para encorajar o "arrependimento". Em Milão, por exemplo, o período de noviciado para os ex-hereges que quisessem entrar para a ordem dos dominicanos foi reduzido. E houve ex-cátaros que se tornaram inquisidores e perseguidores de hereges, como o dominicano Ranier Sacconi. No início do século XIV, "a questão cátara já estava resolvida: os focos de resistência seriam facilmente debelados pelos inquisidores". (Merlo, 1989, p. 98.)

Os valdenses

Estes devem seu nome a Pierre Valdo (ou Valdense), rico mercador de Lyon, que abriu mão de seus bens, doando-os aos necessitados, e, em 1176, reuniu um grupo de paupérrimos pregadores errantes. Gostavam de ser chamados de "Pobres de Lyon" ou "Pobres no Espírito", e ao menos no início puderam contar com certa simpatia por parte dos meios eclesiásticos.

Os valdenses atacavam a corrupção na Igreja romana e atribuíam o sacerdócio a todos os fiéis, homens ou mulheres. Para eles, todo bom cristão tinha o direito de pregar, absolver dos pecados e ministrar os sacramentos. Rejeitavam a comunhão, as orações pelos mortos, as indulgências, a confissão, a penitência, os hinos cantados, a recita de ladainhas em latim e a adoração aos santos. Para eles, o homicídio e a mentira, qualquer que fosse, eram pecados mortais, portanto, eram pecadores também os promotores das Cruzadas.

Os pastores valdenses se consagravam ao celibato e à pobreza e se dedicavam aos sermões. Graças ao zelo missionário, sua crença se espalhou por vários países da Europa Ocidental. Seu sucesso preocupou os vértices da Igreja, que passaram da tolerância relativa à repressão. O próprio Valdo foi excomungado em 1184.

O papa Inocêncio III percebeu a popularidade dos "Pobres de Lyon" e, em 1208, tentou cruzar seu caminho, instituindo os "Pobres Católicos", que, sob o controle da Igreja, tinham permissão para observar todas as práticas valdenses julgadas ortodoxas.

A conduta dos valdenses era irrepreensível: eram trabalhadores operários e humildes, vestiam-se de forma simples, esquivavam-se dos ataques de raiva e evitavam as formas de prazer terreno, como a dança ou a reunião em tabernas. Mas sua vida pacífica e popularidade não conseguiram salvá-los. Alguns acabaram na fogueira em Estrasburgo, em 1212. O Concilio de Latrão os condenou definitivamente em 1215, e em seguida tiveram de enfrentar também os ataques da Inquisição, que prendeu centenas deles. Em 1393, foram queimados na fogueira 150 valdenses em um único dia. Dizimados, refugiaram-se nos Alpes, entre a França e a Savóia.

Em 1484, Carlos I de Savóia empreendeu uma verdadeira guerra contra eles, mas após as primeiras batalhas, vencidas pelos "hereges", entrou em acordo com eles. Três anos depois, o papa convocou uma Cruzada contra os valdenses.

O empreendimento teve grande sucesso, especialmente no lado francês: os povoados valdenses foram incendiados, as famílias que haviam se refugiado nas grutas foram retiradas e massacradas. Em uma caverna, dezenas de homens, mulheres e crianças foram queimados vivos.16 Mas a repressão não conseguiu acabar com eles.

Durante a Reforma Protestante, os valdenses tomaram partido dos calvinistas, chegando, com seus sermões, até a Suíça. Reanimados pelo novo clima, renovaram a verve missionária, atraindo para si outras perseguições.

Em 1545, o rei da França, Francisco I, organizou uma feroz repressão contra eles, na qual milhares de pessoas foram mortas e povoados inteiros foram destruídos. Entre 1560 e 1561, Manuel Filiberto de Savóia conduziu uma dura guerra contra os valdenses. Estes, como outros "hereges" antes deles, para defender suas idéias, sofreram uma transformação: de profetas desarmados a hábeis guerreiros. Os habitantes das planícies foram abatidos, mas aqueles que se encontravam nos vales conseguiram resistir e, em 1561, obtiveram o direito de exercitar o próprio culto, ao menos em locais isolados, distantes dos católicos.17 O novo clima gerado pela Contra-Reforma, no entanto, mais uma vez dificultará suas vidas.



As Páscoas Piemontesas

O período entre o fim do século XVI e a primeira metade do século XVII viu crescentes pressões e verdadeiras perseguições contra os valdenses. O ápice ocorreu em abril de 1653, com o massacre da Via Pellice, conhecido como "Páscoa Piemontesa".

Em 24 de abril daquele ano, um exército de mais de quatro mil soldados armados sob o comando do marquês de Pianezza ocupou os vales valdenses e saqueou os povoados de San Giovanni e Torre, sem encontrar qualquer resistência. Apesar dos atos de submissão dos "hereges" (que aceitaram alojar as tropas católicas em suas próprias casas), Pianezza pôs a ferro e fogo os povoados de Pra del Torno, Villar e Bobbio. As casas foram saqueadas, os habitantes que não conseguiram fugir a tempo foram torturados e mortos. Ao final dos massacres, em 3 de maio, Pianezza convocou uma cerimônia solene durante a qual, na presença de seus homens e da população sobrevivente, mandou fincar no chão uma cruz. Nos dias seguintes, o exército católico atacou outros povoados da região, apesar da resistência armada de alguns cidadãos.

Em 1655, os Savóia foram obrigados a devolver aos valdenses pelo menos uma parte dos direitos a eles subtraídos, sob pressão da opinião pública internacional e de uma guerra comandada pelo líder camponês Giosuè Gianavello (que em seguida escreverá um manual da guerrilha).



O exílio e o glorioso repatriamento

Após a revogação do Edito de Tolerância de Nantes (18 de outubro de 1685), que colocara fim à série de guerras religiosas na França e regularizara a posição dos huguenotes, os valdenses foram atacados conjuntamente por exércitos de franceses e piemonteses. Pelo menos dois mil morreram em campo. Outros 8.500 foram capturados e aglomerados nas prisões em condições desumanas, onde milhares morreram. Os sobreviventes estavam destinados a ser vendidos como escravos. Outros três mil abjuraram sua fé e foram deportados para o Vercellese. Apenas um núcleo isolado de irredutíveis resistia fortificado nos vales.

Graças à mediação dos suíços, os prisioneiros sobreviventes puderam ser expatriados, e os últimos bandos armados puderam se refugiar nos vales (mas os pastores foram mantidos presos). Centenas deles morreram ou se perderam ao longo do caminho para os Alpes.

Os exilados realizaram, em 1689, o Glorioso Repatriamento, que os levou de volta às suas montanhas. Em grande segredo, na noite entre 16 e 17 de agosto de 1689, um exército misto de milhares de soldados valdenses e huguenotes armados atravessou o lago de Genebra. Em 27 de agosto, atravessaram a fronteira saboiana e, com uma marcha rápida, em 9 dias chegaram a seu vale nas montanhas piemontesas, pegando de surpresa as tropas do duque de Savóia.

Durante os primeiros embates, os valdenses levaram a melhor, apesar da esmagadora superioridade numérica do adversário. Ao final, entre baixas em combate e derrotas, apenas um estandarte de trezentos homens conseguiu passar o inverno em seus vales. Um ano depois, estes mesmos combatentes conseguiram escapar dos tiros de canhão e dos ataques de um exército de quatro mil dragões.

O duque de Savóia, então, aliou-se à Inglaterra protestante, libertou os pastores presos e publicou um edito de tolerância. Os valdenses súditos de Savóia precisaram esperar, entretanto, até 1848 para ver reconhecida a igualdade total de direitos com seus conterrâneos católicos.

Já no início do século XIV, um núcleo de valdenses do Piemonte havia se transferido às montanhas da província de Cosenza. A comunidade não parou de crescer com as sucessivas chegadas. Outro núcleo de valdenses se estabeleceu na Puglia, em Capitanata, no início do século XVI.

Sua existência, até então pacífica e tolerada, tornou-se bruscamente mais difícil quando, após sua adesão à Reforma, decidiram dar novo impulso à pregação pública do Evangelho, chamando pregadores externos. Este ativismo renovado abriu os olhos da Inquisição. Dois pregadores foram presos e, após serem levados a Roma, queimados na fogueira.18 Todos os outros tiveram de abjurar.

Os valdenses de Guardiã e San Sisto, sem a intenção de abjurar, pediram para emigrar para terras mais hospitaleiras, mas não obtiveram o consentimento. Eles, então, pegaram em armas para se defender e, em abril de 1561, enfrentaram e levaram a melhor sobre as tropas do Reino de Nápoles. A reação não tardou: em 28 de maio, as tropas governamentais atacaram os vilarejos valdenses com permissão para matar impunemente homens, mulheres e crianças que resistissem à captura. Os povoados foram saqueados e queimados; grande parte dos prisioneiros foi morta no local, degolada ou jogada de uma torre. Os sobreviventes acabaram diante de um tribunal misto composto de juízes reais e eclesiásticos que culminou em 86 condenações à morte, logo executadas.

O balanço final da perseguição, redigido com meticulosidade pelo vice-rei Alcalà, fala de dois mil mortos e 1.600 presos. Destes, 150 foram condenados à morte. Além disso, as tropas rastrearam e justiçaram outros cem valdenses debandados nos campos. Os da Puglia, menos "militantes" e mais "acomodados", tiveram um destino melhor, talvez também por mérito dos senhores feudais do lugar, que não viam com bons olhos uma intervenção militar que os privaria de sua preciosa mão-de-obra. Mas, ao final, estes também foram obrigados a abjurar.



Os stendigs e os franciscanos

Os stendigs eram uma população germânica que vivia às margens do rio Weser. Recusaram-se a reconhecer a jurisdição temporal do arcebispo de Bremen e, por esta única rebelião, foram declarados hereges (na verdade, não consta que praticassem heresias doutrinárias). O papa Gregório IX (1227-1241) lançou contra eles uma Cruzada em 1234. Foram atacados pelas forças conjuntas do duque de Brabante e dos condes da Holanda e de Cleves, que investiram contra eles com uma frota de trezentos navios. De quatro mil a cinco mil stendigs foram mortos em combate. O restante da população em parte morreu afogada no Weser, em parte se dispersou. O balanço final gira em torno de 11 mil vítimas.

Nem as ordens reconhecidas pela Igreja escaparam da acusação de heresia. Antes mesmo da morte de seu santo fundador, os franciscanos se dividiam em duas correntes: os conventuais, favoráveis a uma flexibilização da regra de pobreza, e os espirituais, também chamados de zelosos, fiéis à regra original e fortemente críticos em relação à Igreja.

Após a morte de Francisco (1226), as posições entre as duas correntes acabaram se cristalizando, até produzirem um verdadeiro confronto. Em 1274, um grupo de freis da região de Marche, alarmados pela falsa notícia de que a regra franciscana seria modificada para permitir que a ordem possuísse bens, deu vida a uma rebelião. O movimento logo se espalhou por toda a Umbria e pela Toscana. Em seguida, alguns rebeldes foram condenados à prisão perpétua, tendo sido agraciados muitos anos depois.

Em 1294, o papa Celestino V concedeu aos extremistas a permissão de criar uma ordem separada. Bonifácio VIII (1294-1303) revogou a disposição e os perseguiu.

Dos espirituais franciscanos derivou também o movimento herético dos "fraticelli", difundido especialmente no centro e no sul da Itália.

Sua heresia consistia em pregar as profecias apocalípticas que circulavam no meio franciscano, mas principalmente na interpretação extrema da regra da pobreza. A afirmação de que "Cristo e os apóstolos não possuíam nenhum bem" custou a fogueira a nove deles durante o pontificado de Urbano IV (1261-1264).19

A partir de 1316, o papa João XXII (1316-1334), condenado pelos "fraticelli" como o anticristo, ordenou sua perseguição. Em 1322, a assembléia geral dos frades menores (os franciscanos espirituais) assumiu sua posição no debate teológico, declarando que "Cristo e os apóstolos haviam vivido em pobreza absoluta". No ano seguinte, o pontífice declarou heréticas as teses franciscanas e ordenou que a Inquisição perseguisse quem quer que as defendesse. Nos anos sucessivos, vários freis católicos acabaram na fogueira (David Christie-Murray, 1998, p. 160).



Jacopone de Todi

É um dos mais ilustres personagens da corrente espiritual, místico e poeta. Aliou-se, junto a outros expoentes espirituais franciscanos, à poderosa família Colonna, acirrada inimiga de Bonifácio VIII, e foi um dos signatários do Manifesto de Lunghezza (10 de maio de 1297), que declarava ilegítima a nomeação do papa e pedia a convocação de um concilio para nomear um novo pontífice. Excomungado junto a outros seguidores em 1298, foi encarcerado. As condições da detenção eram muito rígidas: acorrentado dia e noite nos frios e úmidos subterrâneos de um convento onde desembocava uma tubulação de esgoto, a pouca comida que recebia era por meio de uma cesta lançada do alto, e só conseguia se mexer o que os ferros permitiam.

Em vão, pediu ao papa que ao menos a excomunhão fosse revogada, mas o pontífice, apesar de ter concedido uma indulgência plenária por ocasião do primeiro Ano Santo (1300), furtou-se a perdoá-lo. Só depois da morte de Bonifácio VIII (1303), Jacopone, já com mais de 70 anos, viu-se livre da prisão e da excomunhão e voltou ao convento. Dizem que já não conseguia andar, pois seus joelhos haviam se calcificado em decorrência da posição em que foi obrigado a ficar por anos. Morreu em 1306.

Frei Dulcino

Talvez o mais famoso herege medieval italiano. Em 1300, Dulcino tornou-se líder carismático dos apostólicos, uma seita herética pauperista que contestava a corrupção da Igreja e cujos pregadores gozavam de grandes favores junto ao povo depois que seu fundador, Gherardo Segalello, foi morto queimado.

Este enviou aos seguidores um apelo de tons proféticos: a era do mal estava por acabar, em breve o imperador Frederico III de Aragão derrubaria o falso papa Bonifácio VIII e, com ele, todo o clero corrupto. Adviria, então, uma era de paz universal, com a eleição de um papa santo. Enquanto isso não acontecia, os apostólicos eram obrigados a viver na clandestinidade para fugir das perseguições da falsa Igreja, que perseguia e mordia, como cães, os verdadeiros fiéis.20

E foi por incentivo de Dulcino que os apostólicos se transformaram, de movimento anárquico e espontâneo, em uma organização "subversiva" clandestina que criou uma fervorosa propaganda anticlerical que se difundiu em grande parte da Itália. Os pregadores podiam contar com a hospitalidade e a cumplicidade de um grande número de pessoas de vários extratos sociais, admiradas com o comportamento desses "homens bons" e com o carisma profético de Dulcino. Todavia, como este previra, a Inquisição começava a perseguir os apostólicos: os vilarejos foram peneirados à procura de hereges e das famílias que os protegiam. Em 1303, Zaccaria de San'Agata, que afirmava que a Doação de Constantino fora a verdadeira causa da ruína da Igreja, foi queimado na fogueira.

Em Bolonha, foi a vez de Rolandino de Ollis, Pietro dal Pra, o eremita Bartolomeo Petri Rubey e Giovanni Gerardini (este salvo rocambolescamente várias vezes da captura) acabarem na fogueira ou pegarem prisão perpétua. Muitas outras pessoas, mesmo anos depois dos acontecimentos, foram alvo das atenções da Inquisição por terem hospedado os apostólicos. Algumas delas foram condenadas, outras escaparam abjurando ou declarando que agiram de boa-fé e foram enganadas; "pareciam homens bons" será a defesa de muitos. E o próprio Dulcino havia declarado que não era pecado prestar falso testemunho aos inquisidores para salvar a própria vida ou a de companheiros.

Em 1304, Dulcino se refugiou em Novara, estabelecendo-se, junto com seus seguidores, nas terras entre Serravalle e Gattinara. Lá, fundou uma comunidade cujas bases eram a igualdade evangélica e a comunhão de bens. A população recebeu, com alegria, a presença dos apostólicos, mas a intervenção das milícias estatais, conduzidas pelo inquisidor padre Emanuele, obrigou os dulcinistas a se refugiar, no verão de 1305, no monte Parete Calva, em Valsesia, uma espécie de fortaleza natural intransponível. No monte, Dulcino realizou a segunda transformação de seu movimento: de pregadores pacíficos a guerreiros, homens e mulheres dispostos a defender com as armas a própria independência. Para se manter, os dulcinistas empreenderam verdadeiras incursões armadas no vale, saqueando e roubando as despensas dos senhores feudais, fazendo ricos de reféns e trocando-os por comida. Os cruzados anti-hereges, por sua vez, atacavam todos os suspeitos de ajudar os rebeldes e emboscavam os dulcinistas que desciam a montanha. Além disso, onde os inquisidores não chegavam, chegavam o rigor do frio do inverno e uma tremenda escassez. O exército de Dulcino foi dizimado pela fome, pelo cansaço e pelos embates militares. Ao final, quando as condições de vida se tornaram proibitivas, os apostólicos sobreviventes (cerca de mil), na primavera de 1306, partiram em novo êxodo: através de passagens inacessíveis, chegaram à região do monte Rubello (ou seja, "rebelde", que ganhou este nome pela presença dos rebeldes dulcinistas), onde construíram uma verdadeira cidade fortificada. Lá, a luta contra eles foi conduzida diretamente pelo bispo e inquisidor Vercelli Raniero Avogardo, que reuniu tropas da Inquisição, milícias estatais, além das forças do arcebispo de Milão e do duque de Savóia, convocadas a pedido do próprio papa Clemente V. Todos os acessos ao monte foram bloqueados e, apesar de uma surtida dos revoltosos, o assédio venceu egregiamente. Debilitados pela fome (de acordo com os relatos da época, chegaram ao ponto de se alimentar dos corpos dos companheiros mortos), os dulcinistas não conseguiram opor resistência quando, em 23 de março de 1307, as tropas de coalizão do arcebispo fizeram o ataque final. Centenas de hereges morreram em combate ou afogados na torrente que nasce no monte. Deles, 140 (dentre os quais o próprio Dulcino e sua companheira, Margherita) foram capturados vivos e poupados intencionalmente, para que sua condenação servisse de exemplo.

A Inquisição e o tribunal eclesiástico lutaram pela honra de presidir o processo, que se encerrou rapidamente com uma sentença já executada. Na prisão, Dulcino e seus seguidores foram torturados longa e cruelmente para que abjurassem, mas sem êxito.

E, assim, em 1o de junho de 1307, foi queimado vivo em Vercelli, após sofrer um grande suplício. O carro que o levou ao patíbulo fez várias paradas, e cada uma correspondia a uma tortura do público: primeiro, sua carne foi arrancada (usque ad ossa, ou seja, até chegar ao osso, pelo que diz um cronista da época) com alicate quente, depois seu nariz foi quebrado, e finalmente lhe foram arrancados os genitais. Antes de subir na fogueira, viu o "espetáculo" de sua companheira, Margherita, sendo despida e queimada viva. Seus restos foram jogados no rio.21

Todos os combatentes que ajudaram a localizar Dulcino foram agraciados com o nome de "cruzados" e gozaram de benefícios especiais e indulgências.

O comportamento de Dulcino, que não se entregou a súplicas e gritos desesperados nem durante o suplício nem no fogo, suscitou comentários de admiração até mesmo dos cronistas e relatores católicos. A figura de Margherita, em uma época não muito gentil com as mulheres, também foi tratada com respeito pelos escritores eclesiásticos, que não hesitaram em difamar, de todas as formas, a memória de Dulcino e de seus seguidores.

Assim, o líder dos dulcinistas saiu da história para entrar no mito. Por um lado, a lenda negra: diziam que fora um bruxo poderoso e que só a magia podia explicar a excepcional resistência armada de um bando de rebeldes pobres diante das armaduras e máquinas de guerra do exército do arcebispo. Diziam que os espíritos dos rebeldes ainda vagavam pelos arredores do monte Rubello, e os boatos eram tão insistentes que convenceram as autoridades eclesiásticas a erguer, em 1308, um santuário dedicado a São Bernardo, para exorcizar a área da presença dos espíritos malignos e comemorar sua libertação da "peste herética". Ao mesmo tempo, nasce também uma lenda branca, que considerava Dulcino e Margherita quase dois santos. Ao herege foram atribuídos, após sua morte, verdadeiros milagres.

Jan Hus, o Lutero da Boêmia

Jan Hus (cerca de 1373-l415) foi o precursor da Reforma na Boêmia. Sacerdote de vida irrepreensível, tornou-se diretor da Faculdade de Filosofia e reitor da Universidade de Praga. Inspirado pelas teses de Wyclif, Hus era favorável à interpretação particular das Escrituras e defendia o direito de se rebelar contra a autoridade (civil ou religiosa) para agir de acordo com a consciência.22

Para tornar as Escrituras acessíveis ao homem comum, pregava em tcheco, além do latim, alimentando um sentimento crescente de nacionalismo boêmio.

Hus era popular entre as massas, na aristocracia (chegou a se tornar o confessor da rainha) e entre os estudantes da Universidade de Praga, onde, por um período, suas teses dominaram. Pregou contra a corrupção do clero em todos os níveis e negou a validade dos sacramentos ministrados por sacerdotes indignos. Fez vários ataques violentos contra a Igreja de Roma.23 Um de seus últimos atos foi a denúncia do comércio de indulgências por parte dos representantes do papa para financiar uma Cruzada contra o rei de Nápoles.24 E foi esta a última e fatal batalha: excomungado pelo papa e interditado por Praga, Hus continuou a pregar ao ar livre apoiado pelo público.25

Condenado pelo Concilio de Constanza, foi expulso do clero e, em 6 de julho de 1415, mandado para a fogueira. No ano seguinte, foi a vez de um discípulo seu, Jerônimo de Praga. Hus já tinha se tornado, aos olhos dos boêmios, um mártir e autêntico herói nacional. De seus sermões, nasce o movimento hussita, dividido em duas vertentes: uma moderada, composta prevalentemente por aristocratas, e outra extremista, mais difundida em meios populares.

Em 1418, a ala radical fez eclodir uma rebelião popular que envolveu tanto a cidade de Praga quando os campos vizinhos.26

O imperador Sigismundo percebeu que a guerra religiosa era também uma guerra de independência e, em 1420, invadiu a Boêmia. Mas seu exército foi esmagado pelos camponeses tchecos, que utilizaram técnicas de combate inovadoras. Os anos seguintes presenciaram a difusão das doutrinas hussitas na Áustria, Alemanha, França e Hungria. Por volta de 1430, a ala moderada e a extremista se confrontaram em uma verdadeira guerra civil, perdida pelos radicais. De todo modo, os hussitas conseguiram obter, pelo menos na Boêmia, liberdade de culto. Depois, a maior parte deles passou para a igreja calvinista.

Joana d'Arc, bruxa, herege e santa

Em 30 de maio de 1431, Joana d'Arc foi condenada por bruxaria e heresia, e mandada para a fogueira. Sob o ponto de vista doutrinário, sua "heresia" não era muito diferente da de Hus: ela colocara o juízo pessoal à frente do oficial da Igreja. Séculos depois, esta admitiu implicitamente seu erro e a proclamou santa em 9 de maio de 1920.



Jerônimo Savonarola

Jerônimo Savonarola (1452-1498) era um frei dominicano que condenava os pecados e a vaidade, e que denunciava os males da Igreja. Começou a pregar em Florença por volta de 1491, anunciando o iminente fim do mundo. Os acontecimentos de 1494, com a invasão de Florença por parte do rei da França e a expulsão da família Mediei, pareciam confirmar suas profecias. Dessa forma, conquistou o carisma de um profeta diante dos florentinos e exerceu grande influência sobre o nascente governo da cidade-estado. Por incentivo seu, a república florentina deu vida a uma legislação intransigente e intolerante não só contra a usura e a corrupção, mas também contra o luxo e a "imoralidade".

Um dos alvos dos sermões de Savonarola era o pontífice da época, Alexandre VI Bórgia, que, por sua vez, odiava o pregador e os florentinos, que atrapalhavam sua pretensa hegemonia sobre a Itália central.

Em maio de 1497, Savonarola foi excomungado. Ele, então, apelou a todos os Estados europeus para que convocassem um concilio ecumênico para depor Alexandre VI. Mas obedeceu às ordens de seus superiores dominicanos e interrompeu os sermões. Um franciscano o desafiou a se submeter a um ordálio (passar através do fogo, para demonstrar ser protegido por Deus), mas ele recusou a prova, que foi aceita por um seguidor seu. Talvez a recusa tenha diminuído seu prestígio, talvez o fim do apoio francês ao governo florentino tenha tornado seus adversários mais agressivos, talvez simplesmente os florentinos não tenham agüentado mais sua rigidez moralista, mas o fato é que, em 7 de abril de 1498, o dia previsto para o ordálio, o povo de Florença se revoltou contra Savonarola. O papa pôde, assim, capturá-lo e processá-lo. Sob tortura, confessou ser culpado de heresia e de vários outros crimes e, em maio de 1498, foi queimado na fogueira junto com dois seguidores.

Recentemente, foi beatificado.

TERCEIRA PARTE

Modernidade e repressão
CAPÍTULO 8

Os cristãos eram proibidos de ler a Bíblia

Inacreditável, mas verdadeiro. Em alguns períodos, traduzir a Bíblia para uma língua compreensível pelo povo era um crime que podia custar a vida. Ter o Evangelho em casa era proibido a quem não fosse sacerdote.

Judeus, cristãos e muçulmanos são chamados também de "povos do Livro", pois baseiam a própria fé, os próprios preceitos e hábitos em textos ditados (ou inspirados) por Deus. De acordo com essas religiões, o fiel não só tem o direito, como o "dever" de ler, estudar e entender as Escrituras. Por exemplo, no mundo protestante, a leitura e o conhecimento da Bíblia representam uma tradição. Já no mundo católico, apenas há algumas décadas os altos escalões da Igreja levantaram a questão de uma "alfabetização bíblica" dos fiéis. Essas diferenças culturais têm causas históricas precisas.

O problema das religiões baseadas em uma revelação escrita é a língua. O que acontece quando uma crença desse tipo se difunde entre outros povos ou quando, no próprio local em que nasce, a evolução natural no decorrer dos séculos faz a linguagem mudar? Acontece, de forma banal, que a Revelação corre o risco de não mais ser compreendida pela maior parte dos crentes.

A Bíblia dos Setenta e a Vulgata

Antes mesmo do nascimento de Cristo, os judeus, que tinham várias comunidades espalhadas por todo o oriente helênico, precisavam enfrentar esse exato problema. A Bíblia (biblia, que, em grego, significa "livros"), sendo na maior parte escrita em hebraico,1 não era de fácil compreensão para muitos judeus, principalmente os de segunda ou terceira geração, que não dominavam mais a língua de seus antepassados.

Além disso, havia muitos "gentios" (ou seja, "não-judeus") de língua grega que se aproximavam com curiosidade do culto judaico. Assim, no século III a.C, a comunidade judaica de Alexandria, no Egito, traduziu as Escrituras do hebraico para o grego, produzindo a versão conhecida como "Bíblia dos Setenta", pois setenta eruditos teriam trabalhado em sua tradução, pelo que diz a tradição.

Séculos depois, em Roma, quando o cristianismo já estava difundido no Ocidente e tinha se tornado religião de Estado, surgiu o mesmo problema. A Bíblia dos cristãos (ou pelo menos dos adeptos da Igreja "oficial") era composta pelo "Antigo Testamento" (ou seja, a velha Bíblia judaica, já traduzida para o grego) e o "Novo Testamento", uma coleção de vários textos (Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, Atos dos Apóstolos, Epístolas, Apocalipse de João) escritos em grego.

São Jerônimo (347-420) traduziu para o latim — a língua mais difundida nos territórios ocidentais do Império Romano — a Bíblia cristã. Ainda hoje, a versão por ele traduzida é conhecida com o nome de Vulgata (ou seja, "popular", "acessível", "divulgada").

São Jerônimo viu-se diante de questões complexas e perigosas de tipo filológico e teológico, como a adoção do cânone. De fato, os judeus completaram o cânone bíblico séculos após a tradução dos Setenta, excluindo vários livros já presentes na edição alexandrina (Tobias, Judite I e II, Macabeus, Baruc e Lamentações de Jeremias, Sabedoria, Eclesiástico, partes de Ester e de Daniel). No final, Jerônimo decidiu incluir em sua tradução os livros já presentes na tradução dos Setenta, embora não considerando todos eles canônicos.

A questão do cânone bíblico está em aberto até hoje. Os católicos (apenas do parecer contrário de Jerônimo) consideram sagrados todos os livros contidos na Vulgata. Os protestantes, por outro lado, consideram o Antigo Testamento como cânones bíblicos mais restritos, e, de acordo com as várias crenças, ou mantiveram livros não canônicos como "apócrifos" ou os arrancaram de suas Bíblias.

Mais ou menos nos mesmos anos, o bispo ariano Wulfila realizou um feito parecido, inventando um novo alfabeto para traduzir a Bíblia para o godo e torná-la, assim, acessível aos povos germânicos. Um século depois, São Patrício difundiu o Evangelho em língua celta, para cristianizar a Irlanda.2 Muito mais tarde, São Cirilo sistematizou o alfabeto glagolítico, antepassado do atual cirílico, para difundir sua fé entre os povos eslavos.

Com a queda do Império Romano do Ocidente, o latim foi caindo em desuso e, na Europa, nasceram as chamadas línguas "vulgares", das quais derivam nossas atuais línguas nacionais. No início do século XI, na Europa, o latim só era falado de fato por doutores e juristas, uma língua desconhecida pelas pessoas comuns.

Bíblia - heresia

Pareceria lógico, portanto, que a Igreja da época promovesse energicamente a tradução da Bíblia para as novas línguas nacionais, de modo que os fiéis pudessem, se não estudá-las (pouquíssimos sabiam ler e escrever), pelo menos ouvi-la em uma língua compreensível. Mas não. Pelo contrário, a partir do século XIII, todas as tentativas de tornar as Escrituras compreensíveis para o povo foram condenadas e seus artífices foram perseguidos. Por quê? Os hereges e aqueles que contestavam o poder da Igreja utilizavam as Sagradas Escrituras para demonstrar para o povo como a Igreja oficial havia se distanciado do mandamento evangélico originário de pobreza e humildade.

Em 1199, o papa Inocêncio III (o promotor da Cruzada contra os cátaros) lançou-se contra os leigos, homens e mulheres, que "em reuniões secretas chamaram para si o direito de expor os escritos e pregar uns aos outros".3 Em 1229, o Concilio de Toulouse, convocado no sul da França, onde haviam sido exterminadas dezenas de milhares de hereges, proibiu que os leigos possuíssem e lessem a Bíblia, especialmente aquela em língua vulgar, com exceção dos Salmos e dos passos contidos nos breviários autorizados.4

De fato, o estudo e a pregação da Bíblia eram atividades reservadas ao clero. Os que ousavam infringir o status quo corriam o risco de ser acusados de heresia e mandados para a fogueira. É possível até afirmar que, a partir dessa época, não houve mais processo contra hereges em que os réus não fossem acusados também de "tradução e leitura não autorizada dos Evangelhos".

A invenção da prensa e as novas proibições

Em meados do século XV, Gutenberg inventou a prensa de tipos móveis, e a primeira obra a ser produzida com o novo sistema foi exatamente a Bíblia. "A invenção da prensa e o uso do papel contribuíram para aumentar a difusão dos livros, tornando a heresia mais difícil de ser controlada. De fato, enquanto queimar um manuscrito herético produzido através de um cansativo trabalho de cópia que durava semanas ou meses podia significar a anulação completa daquela expressão de pensamento heterodoxo específico — especialmente se, junto com o manuscrito, seu dono também acabava na fogueira —, destruir todas as cópias de uma edição feita na prensa parecia quase impossível."5

Em 1492, os bastante cristãos reis da Espanha proibiram a tradução da Bíblia em língua vulgar. No início do século XVI, uma tradução francesa do Novo Testamento fez tanto sucesso que alarmou a Faculdade de Teologia de Paris e levou o Parlamento, em 1526, a ordenar, por força de lei, a apreensão de todas as traduções bíblicas e a proibir que os tipógrafos as imprimissem no futuro.6

Quando Lutero começou a traduzir a Bíblia em alemão (e outros, animados com seu exemplo, fizeram o mesmo nas várias línguas nacionais), o alto clero católico o acusou de golpe. Eis o que escreveu uma comissão de prelados sobre o assunto, em um relatório enviado ao papa em 1553:

É preciso fazer todos os esforços possíveis para que a leitura do Evangelho ' seja permitida o mínimo possível... O pouco que se lê na missa já basta, que ler mais do que aquilo não seja permitido a quem quer que seja. Enquanto os homens se contentaram com aquele pouco, os interesses de Vossa Santidade prosperaram, mas quando se quis ler mais, começaram a ficar prejudicados.

Em suma, aquele livro [o Evangelho] foi o que, mais que qualquer outro, suscitou contra nós aqueles turbilhões e tempestades em que por pouco não nos perdemos inteiramente.

E se alguém o examinar inteira e cuidadosamente e depois comparar as instruções da Bíblia com o que se faz nas nossas igrejas, perceberá logo as divergências e verá que nossa doutrina muitas vezes é diferente e, mais ainda, contrária ao texto: o que quer que o povo entendesse, não pararia de reclamar de nós até que tudo fosse divulgado, e então nos tornaríamos objeto de desprezo e de ódio de todo o mundo.

Por isso, é preciso tirar a Bíblia da vista do povo, mas com grande cautela, para não dar ensejo a tumultos.7

Estranhamente, a Itália da época estava em condições melhores do que outros países europeus. Lá, no final do século XV, já haviam se difundido várias divulgações dos livros sagrados, antecipando-se às traduções em alemão e francês, e outras foram lançadas nas décadas seguintes, encontrando um notável sucesso de público.8

Depois da explosão do cisma luterano, as autoridades eclesiásticas adotaram um comportamento ambivalente sobre as traduções italianas das Escrituras. De um lado, toleravam-nas com reserva, tendo em vista a grande requisição dos fiéis (até os analfabetos podiam conhecer seu conteúdo, pedindo que alguém o lesse). Do outro, a posse e a leitura de uma Bíblia em língua vulgar podiam levantar suspeitas de heresia. Foi, por exemplo, o caso do pintor Riccardo Perucolo, condenado pela Inquisição, que confessara calmamente ao juiz que lia o Novo Testamento para entender melhor os sermões do padre.

As traduções do Antigo e do Novo Testamento fizeram tanto sucesso entre o povo e as mulheres de todas as condições sociais que alarmaram as autoridades eclesiásticas. "Qualquer um de nós quer as condições, seja fêmea ou macho, idiota (analfabeto) ou letrado, para entender as mui profundas questões da teologia e da escritura divina", escreveu, escandalizado, uma testemunha da época. E outro intelectual lamenta que "aos impuros, soldados, vendedores de ferro-velho, açougueiros, tintureiros, batedores de lã, pedreiros e ferradores [conferissem, junto com as mulheres, o direito de] expor a Escritura, falar de algo tão importante e ler para os prelados da Igreja" (Fragnito, 1997, p. 73).

A Bíblia na fogueira

Em 1558, o inquisidor de Veneza proibiu que os tipógrafos da cidade imprimissem traduções da Bíblia em língua vulgar.

O Índex (lista de livros que os católicos eram proibidos de ler ou possuir, salvo com permissão especial da autoridade eclesiástica), de 1559, vedava de forma peremptória que qualquer pessoa imprimisse, lesse ou possuísse uma Bíblia traduzida em qualquer língua vulgar, salvo se permitido pela Santa Inquisição de Roma. Edições posteriores do Índex revogaram pelo menos parte da proibição, que foi mantida, no entanto, por prelados mais zelosos.

Em 1571, o bispo de Cagli e Pergola proibiu que as clarissas do mosteiro de Monteluce lessem a Bíblia em italiano.

O novo Índex, de 1596, revalidou a proibição. "A Igreja tentava, com uma operação sem precedentes, suprimir qualquer traço residual do texto sagrado em italiano." (Fragnito, 1997, p. 197.) Nas décadas que se sucederam, centenas de Bíblias e Evangelhos proibidos foram recolhidos em igrejas, conventos e residências privadas, e queimados. Tratava-se não só de obras escritas por hereges e protestantes, mas também de traduções aprovadas e comentadas por eclesiásticos católicos.

Em 1605, o embaixador veneziano Francesco Contarini, defendendo a causa da Sereníssima, ameaçada por um interdito papal, afirmou que os teólogos venezianos não atacavam a Santa Sé em seus sermões, mas se limitavam a expor passagens das Escrituras. O papa Paulo V então rebateu: "Não sabeis (como) a leitura da Escritura estraga a religião católica?" (Fragnito, 1997, p. 130.)

Seria preciso esperar até 1758 para rever na Itália traduções das Sagradas Escrituras em língua vulgar.

CAPITULO 9

A Inquisição

Entre os séculos XI e XII, as penas de morte para os hereges não eram mais um fato inédito, mas a maioria do corpo eclesiástico ainda relutava em aceitar a situação. Pier Damiani (1007-1072) afirmou orgulhosamente que os santos estão dispostos a sacrificar a própria vida pela fé, mas não matam hereges.

Em 1144, Wazo, bispo de Liège, salvou a vida de alguns cátaros que a multidão queria jogar na fogueira.1 O arcebispo de Milão também protestou contra a multidão que havia linchado alguns hereges. Bernardo de Chiaravalle, que contribuiu para prender vários hereges, declarou, no entanto, que estes deveriam ser conquistados com a razão, e não com a força. Em 1162, o papa Alexandre III (1159-1181), julgando o caso de alguns cátaros, declarou que "era melhor perdoar o culpado do que tirar a vida de um inocente". Em 1165, em Narbonne, um debate público pacífico explicou a diferença entre católicos e cátaros.2 Em suma, na Igreja, observavam-se várias tendências sobre como lidar com os hereges.

Na verdade, foi o próprio "clemente" Alexandre III que deu um passo muito importante para o nascimento da futura Inquisição. Usando as deliberações do Terceiro Concilio de Latrão, ele daria aos bispos ordens expressas para investigar sobre os hereges, mesmo com base em meras suspeitas. Ao poder leigo foi reservado o papel de subordinado do braço executivo da instituição eclesiástica.3 Inocêncio III (1198-1216), com os decretos Licetheli, de 1199, e Qualiter et quando, de 1206, estabeleceu que a acusação de heresia podia ser formalizada mesmo com base em "fama pública", ou seja, nos boatos que corriam sobre dada pessoa.4

Em 1229, um concilio reunido em Toulouse, em uma região que retomara a "verdadeira fé" com as armas e o extermínio, criou oficialmente o Tribunal da Santa Inquisição. Mais tarde, o papa Gregório IX (1227-1241) tirou dos bispos o controle dos processos contra os hereges e os confiou a comissários especiais escolhidos entre dominicanos e franciscanos.5 Justamente os membros das ordens mendicantes, que haviam sido acusadas de heresia, tornaram-se os mais ferrenhos perseguidores de quem professava idéias não ortodoxas. Muitos conventos franciscanos foram dotados de prisões para os hereges, mas também para os frades culpados de rebeliões.

A partir desse movimento, a Inquisição adquiriu uma estrutura autônoma, tornando-se uma verdadeira polícia da Igreja, com tarefas de investigação e repressão. Os inquisidores tinham plenos poderes, inclusive o de depor e mandar prender eclesiásticos que defendessem hereges.

O quadro foi completado por Inocêncio IV (1243-1254), que deliberou o recurso à tortura para "promover a obra de fé de maneira mais verdadeira".6 Esta deveria ser realizada por autoridade secular, mas depois, por questões práticas, os inquisidores e seus assistentes também receberam permissão para "sujar as mãos", com a possibilidade de darem a absolvição uns aos outros.7

Além da política de repressão, a Inquisição usou também a de "colaboração". Ainda Inocêncio IV, em 1426, autorizou que fosse reduzido o período de noviciado para os cátaros convertidos que quisessem entrar para a ordem dos dominicanos e se tornar inquisidores. Bonifácio VIII (1294-1303) permitiu "que no processo inquisitório contra a maldade herética se agisse de maneira simples e extrajudicial, longe da confusão dos advogados e do procedimento judiciário".8

Os territórios da cristandade foram divididos em distritos, correspondentes às Províncias das Ordens Mendicantes. Para cada distrito, era designado um inquisidor junto com um séquito de policiais, espiões e torturadores. Os tribunais da Inquisição eram itinerantes. O terreno era preparado por um pregador, que percorria as várias cidades e povoados alguns dias antes do inquisidor e concedia indulgências a todos que abjurassem a eventuais convicções heréticas e dessem o nome de outros pecadores.9 Contemporaneamente, o poder temporal também contribuiu para a luta contra as heresias. Além disso, um Estado cristão que tolerasse a heresia poderia receber excomunhão, interditos, além de correr o risco de ser alvo de uma Cruzada. Frederico Barba-Ruiva, em 1184, declarou os hereges ilegais. Em 1197, Pedro de Aragão os condenou à fogueira.

Como já lembramos, o Tratado de Meaux, de 1229, que sucedeu a Cruzada anticátaros, equiparava o crime de heresia ao de lesa-majestade, delito punível com a pena de morte. O imperador Frederico II emanou, entre 1220 e 1239, uma série de editos cada vez mais cruéis, com os quais condenou os hereges ao confisco dos bens, ao exílio, à prisão perpétua e, finalmente, à fogueira.10

Na França, a condenação à fogueira, já aplicada de fato, tornou-se lei para todos os efeitos em 1270. Na Inglaterra, só foi aprovada em 1401, com o estatuto que tinha o estranho nome de Da haeretico comburendo.11

A aliança entre trono e altar para frear um fenômeno que ameaçava tanto a autoridade civil quanto a religiosa se tornou um dos traços constitutivos da Inquisição também nos anos seguintes à sua criação. Os tribunais da Inquisição emitiam suas condenações, mas era o "braço secular" que as executava.

Portanto, uma denúncia anônima ou a suspeita de heresia já eram suficientes para ser investigado; suspeita essa que podia ser "leve", "veemente" ou "violenta", de acordo com o juiz.12 Até mesmo a prática assídua demais da oração e do jejum podia levantar suspeitas.

Diante dos tribunais da Inquisição, um suspeito era considerado culpado, a menos que conseguisse provar a própria inocência. "Para a Igreja, ser investigado equivale a ser legitimamente suspeito. O inquisidor poderá (ou melhor, deverá) investigar e julgar, partindo sempre da presunção de que o imputado — ou seja, o réu — [...] é culpado, e, conseqüentemente, deve confessar a própria culpa, o que significa que o inquisidor não deverá julgar com base no fato ou fatos provados, mas na suspeita; não no que retém dos atos, mas no que suspeita ser." (Mereu, 1200, p. 187.) Esse procedimento se contrastava bastante com o direito romano e com o germânico, de origem bárbara, ambos de tipo acusatório (ou seja, o acusador deve fornecer as provas do que afirma, e não o contrário) e baseados na presunção de inocência.

As provas e os depoimentos eram colhidos secretamente, sem o conhecimento do imputado. A construção da acusação não era nada sutil: podiam ser colhidos depoimentos de mulheres, crianças, hereges, excomungados, "arrependidos", inimigos pessoais, mentirosos declarados e criminosos. Os patrões podiam testemunhar contra os empregados, e os empregados contra os patrões. Naturalmente, também eram válidas as declarações conseguidas por meio de tortura.

O suspeito de heresia era convocado pelos inquisidores sem saber as motivações, e quando se apresentava, antes de tudo, era-lhe perguntado se tinha idéia da razão por que fora chamado. Então, as acusações eram lidas de forma sumária. O réu não tinha direito de saber quem o acusava nem de confrontar os acusadores ou ler todos os atos que lhe diziam respeito. Eventuais testemunhas de defesa corriam o risco de, por sua vez, serem acusadas de cumplicidade. Aqueles que colaboravam com os inquisidores, ajudando-os a pegar um suspeito, por exemplo, obtinham, em compensação, as mesmas indulgências que os peregrinos que iam à Terra Santa.

Os processos da Inquisição não acabavam nunca com a total absolvição. Mesmo quando não era condenado, o imputado devia abjurar a heresia da qual era acusado. Em todos os casos, a instrução contra ele podia ser aberta a qualquer momento. O mero fato de ser suspeito de heresia o transformava automaticamente em reincidente em caso de novo processo.

O Manual do inquisidor, de Eymerich, descreve uma série de "malícias" dos acusados nos processos: dar respostas elusivas, dizer que não sabe ou fingir-se de louco. Como diferenciar alguém verdadeiramente louco de quem finge sê-lo? Eymerich não tem dúvidas: "Para ter certeza, será preciso torturar o louco, seja ele falso ou real. Se não for louco, dificilmente continuará sua farsa se tomado de dor."13 Por lei, a tortura só podia ser infligida uma vez, mas na verdade era repetida enquanto o inquisidor achasse necessário, com a desculpa de se tratar de uma única sessão com vários "intervalos".

Se a instrução, a tortura e os debates aconteciam em segredo, a sentença e a subseqüente execução mereciam o máximo de publicidade. Como explica um eclesiástico do século XVI: "É preciso lembrar que o principal escopo do processo e da condenação à morte não é salvar a alma do réu, mas buscar o bem público e aterrorizar o povo... Não resta dúvida de que instruir e aterrorizar o povo com o proferimento das sentenças... seja uma boa ação."14

"As sentenças [...] eram executadas aos domingos, durante a grande missa na catedral, com a participação das autoridades civis. Os suspeitos confessavam seus erros e abjuravam publicamente antes de se submeter à penitência (nunca chamada de pena ou punição), que podia ir de tempo de reclusão à morte, passando pela flagelação ou a peregrinação sob coação.15 Aqueles que permanecessem obstinadamente fiéis a suas próprias posições ou que recaíssem na heresia eram conduzidos para fora da igreja e entregues aos magistrados com a recomendação de serem caridosos e não causarem derramamento de sangue. A suprema hipocrisia de tudo isso estava no fato de que, se o magistrado não mandasse as vítimas para a fogueira no dia seguinte, seria processado de co-autoria em heresia."16

Todavia, nem sempre as execuções públicas conseguiam concretizar sua intenção de intimidar o povo. Às vezes, obtinham até o efeito contrário. Em 1279, por exemplo, a multidão que assistia à execução da herege Olivia de Fridolfi, em Parma, ficou tão revoltada com a crueldade do espetáculo (parece que foi queimada "em fogo lento") que deu início a um tumulto. O convento dominicano vizinho, que também hospedava o Tribunal da Inquisição, foi invadido e saqueado. Os frades que lá se encontravam foram expulsos a pauladas.17

Nem os mortos escapavam da fogueira. Vários notáveis e eclesiásticos (mais adiante falaremos do caso de Wycliffe) foram declarados hereges após a morte, e seus corpos foram exumados e entregues às chamas. O primeiro ato da Inquisição espanhola medieval, por exemplo, foi a execução póstuma do conde Raymond de Forcalquier, em 1257. A prática da condenação póstuma não tinha apenas um valor simbólico: a excomunhão era retroativa e previa o confisco dos bens pertencentes aos condenados, prejudicando os herdeiros legítimos.

Em toda a história da Igreja, como já vimos, não faltaram contradições, crimes, perseguições e até guerras por motivos de fé. Mas, muitas vezes, eram decorrentes do fanatismo ou da ambição de soberanos ou pontífices, do clima histórico de outras épocas ou da histeria coletiva. Podia-se falar de "luzes e sombras" de um fenômeno complexo e articulado.

A organização da Inquisição determinou um verdadeiro salto de qualidade dentro dos aparatos burocráticos: a estrutura interna eclesiástica se moldou e adaptou para melhor realizar a obra dos que estavam encarregados de revelar e destruir os hereges. Os bispos foram superados em suas prerrogativas; a delação, a confissão extraída com tortura, o recurso a suplícios públicos e execuções capitais "para dar o exemplo" se tornaram práticas habituais e aceitas, se não abençoadas. E criticar ou obstar o trabalho dos inquisidores era considerado diabólico.

Mas, além disso, aos poucos caiu uma pesada capa sobre todas as práticas religiosas. Podia-se rezar em grupo, mas só nas formas e maneiras consentidas pela Igreja. Podia-se ler o Evangelho, mas só com uma autorização escrita. Podiam-se venerar os santos, mas apenas os "oficiais"; os mortos com "cheiro de santo", não reconhecidos pela Igreja, podiam ser exumados e queimados para evitar o nascimento de cultos populares incontroláveis.18

O sexo era pecado, mesmo no seio do matrimônio, mas o cristão casado que fizesse voto de castidade poderia ser suspeito de heresia. Em suma, tudo que não era proibido era obrigatório. Ou melhor, às vezes o proibido e o obrigatório coincidiam.

A Inquisição medieval chegou ao ápice de sua atividade na metade do século XIV, para chegar a uma lenta decadência nos 150 anos sucessivos, em especial na Itália.19 Os motivos do declínio residiam paradoxalmente no sucesso de sua obra, mas também na vulnerabilidade das nascentes monarquias nacionais a qualquer forma de interferência externa.

A história que causou o cisma de Lutero, por exemplo, é tratada por canais diferentes dos inquisitoriais. Só depois da difusão da Reforma em toda a Europa, a Cúria romana relançou a Inquisição, com a intenção de impedir a difusão das idéias protestantes em todos os territórios que ainda permaneciam sob o controle da Santa Sé.




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