O livro Negro do Cristianismo


Começa a caça aos hereges



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Começa a caça aos hereges

Talvez o primeiro caso de controvérsia religiosa dirimida por intermédio da lei tenha sido o de Paulo de Samósata, bispo de Antióquia (260-272). Ele era um monarquianista, ou seja, seguidor das doutrinas que não reconheciam a trindade de Deus.

Um sínodo de bispos convocado em 268 condenou suas doutrinas e o depôs. Em seguida, os bispos pediram ao imperador Aureliano que executasse suas decisões, estabelecendo, assim, o perigoso precedente da intervenção do poder temporal nas questões eclesiásticas. Tudo isso acontecia em uma época em que os cristãos ainda eram periodicamente perseguidos.

O imperador decretou a deposição de Paulo, que continuou em seu posto graças aos favores de Zenóbia, rainha de Palmira, sob cuja influência se encontrava a diocese de Antióquia, que impusera uma política anti-romana. '

Só em 272, quando o exército de Zenóbia foi derrotado pelo do imperador Aureliano, Paulo precisou abandonar sua cadeira.8

O arianismo depois de Constantino

O Concilio de Sárdica (Sofia), em 343, que se encerrou com a reiteração do que foi deliberado em Nicéia, foi abandonado pelos bispos orientais, que organizaram um contraconcílio em Filipópolis.

Em Constantinopla, durante o episcopado de João Crisóstomo (345-407), irromperam-se violentos conflitos entre arianos e niceianos9 que deixaram um saldo de vários mortos.

Em 353, Constâncio II, único imperador, impôs as doutrinas filo-arianas em todo o território do Império. Os arianos, então, passaram a defender a tese de que a Igreja deveria se submeter ao Estado, enquanto os niceianos lutavam por autonomia.

Em 357, o bispo ortodoxo Ósio, já centenário, foi obrigado, por meio de tortura, a subscrever as teses arianas do Concilio de Sírmio.

Em 361, com a ascensão ao trono de Juliano, o Apóstata, que tentou restaurar o paganismo, foi dada anistia geral a todos os cristãos perseguidos acusados de heresia, provavelmente emitida com o objetivo de enfraquecer o cristianismo.

O imperador Teodósio I, que subiu ao trono em 378, logo condenou as doutrinas arianas nos territórios do Oriente. No Ocidente, entretanto, onde de fato reinava a ariana Justina, a tolerância foi garantida.

Em 386, o bispo de Milão, Ambrósio, após negar a Justina a cessão de uma igreja para realizar o culto ariano, organizou uma vigília em sua própria basílica para defendê-la dos ataques dos emissários imperiais.

Os próprios arianos, por sua vez, estavam divididos em várias correntes. Em 362, em Antióquia, havia cinco comunidades cristãs separadas, cada qual com seu próprio bispo e hostil às demais. Quando Teodósio ampliou seus domínios aos territórios ocidentais, o arianismo foi banido por completo do território do Império, e o cristianismo niceiano se tornou a religião oficial do mundo romano.

Naturalmente, o decreto não significou a extinção automática da heresia ariana, que sofreria, mais de um século depois, perseguições por parte de Justino e, depois, de Justiniano.10

O cristianismo, em sua versão ariana, foi difundido entre os povos "bárbaros" do norte graças às preleções de Áudio, bispo de vida exemplar, e, sobretudo, de Wulfila (345-407), o bispo que, por volta de 375, traduziu para o godo o Antigo e o Novo Testamentos.

Foi graças a essa tradução que a crença ariana conseguiu se difundir entre os visigodos, os ostrogodos, os suevos, os vândalos, os burgúndios e os lombardos.

"Ao contrário dos povos que viviam na Itália e que praticamente não se expressavam em latim, os bárbaros tinham a grande vantagem de aprender o Evangelho em sua língua falada. Os godos, assim, estavam mil anos à frente de Martinho Lutero."11

Em 525, o rei ostrogodo Teodorico interveio em defesa dos arianos de Constantinopla, oprimidos pelo imperador Justino. Para tanto, enviou à cidade um embaixador extraordinário, o papa João I, obrigado a apresentar ao imperador suas solicitações. Como o papa voltou a Roma no ano seguinte sem nada ter conseguido, Teodorico mandou prendê-lo, e João I morreu poucos dias depois.12

É óbvio que muitas vezes os soberanos arianos perseguiam os niceianos. Por exemplo, durante a dominação dos vândalos na África, estes sofreram vários tormentos. O auge foi no período entre 483 e 484, quando uma lei obrigou todos os católicos do reino vandálico a se converterem ao arianismo. Milhares de clérigos foram exilados no deserto junto com seus bispos. Muitos católicos foram condenados a torturas ou à pena de morte.'3

No entanto, até as populações bárbaras acabaram se convertendo ao catolicismo. No final do século VIII, o arianismo já havia desaparecido, e a crença niceiana triunfou como única Igreja verdadeira.



Os bispos pedem a cabeça dos hereges

É notório que os imperadores não eram muito sutis quando se tratava da eliminação dos dissidentes, mas, em determinado momento da história cristã, foram os próprios bispos que solicitaram a condenação à morte dos hereges.

O primeiro a sofrer as conseqüências do novo costume foi o bispo espanhol Prisciliano, em 385. Condenado e banido por dois concílios regionais, Prisciliano, que tinha um grande séquito popular, foi torturado e condenado pelo imperador Máximo, a pedido dos próprios bispos. Junto com ele, morreram seis de seus discípulos, dentre os quais uma mulher.

Na realidade, as acusações infundadas de heresia e a condenação à morte pareciam servir a propósitos essencialmente políticos.14 O episódio causou horror em vários prelados católicos que não concordavam com as heresias doutrinárias. O papa Sirício condenou as mortes.

O bispo Martino de Tours (321-401) excomungou todos os bispos que sujaram as mãos com aquele sangue. Só mais tarde aceitou se reconciliar com eles, a pedido do imperador, e apenas para salvar a vida de outros "priscilianistas" condenados à morte. Até mesmo o bispo Ambrósio, de Milão, recusou-se a ter contato com os bispos envolvidos na morte de Prisciliano.

Naquela época, "a consciência da Igreja ainda não estava acostumada a considerar o derramamento de sangue uma expressão do amor pregado por Jesus Cristo".15

O assassinato de Prisciliano não pôs fim ao movimento, pelo contrário. Seus seguidores passaram a venerá-lo como mártir, dando vida a um movimento "priscilianista" que duraria mais de um século.16

A heresia nestoriana e o concilio que terminou em rixa

O nestorianismo deve seu nome a Nestório, bispo de Constantinopla que, por volta de 428, contestou a qualidade de "Mãe de Deus" atribuída a Maria.17 Na época, o culto mariano já era muito difundido, e as teses de Nestório deram vida a verdadeiros tumultos. Contra ele se opôs com violência até mesmo Cirilo, bispo de Alexandria (diocese que lutava contra a de Constantinopla pelo controle do Oriente).

Em 431, o imperador Teodósio II convocou um concilio ecumênico em Éfeso para dirimir a questão.

Naquela época, viajar era muito difícil, e, por essa razão, os bispos chegaram em momentos diferentes. Primeiro, foram os adversários de Nestório, aproximadamente duzentos bispos liderados pelo de Alexandria, Cirilo. Decidiram dar logo início ao concilio, sem esperar os que apoiavam a parte contrária ou os enviados do papa. Nestório foi obrigado a se apresentar e, como se recusou a entrar antes que seus seguidores chegassem, teve de depor "in contumacia". O bispo de Éfeso, Mêmnon, chegou a incitar a multidão contra Nestório. Poucos dias depois, chegaram cerca de quarenta bispos nestorianos, guiados por João de Antióquia, que formaram um contraconcílio no qual declararam hereges e excomungaram Cirilo e Mêmnon.

Chegaram, então, os enviados do papa, que reabriram o concilio "oficial" e excomungaram João de Antióquia.

Os trabalhos do concilio se complicaram ainda mais com a intervenção de alguns funcionários imperiais, as tentativas de corrupção e os embates populares entre partidários das duas facções. No final, o imperador Teodósio II encerrou a assembléia criticando duramente os participantes e exilou tanto Nestório quanto Cirilo.18

Derrotado no território imperial, o cristianismo nestoriano difundiu-se na Ásia, chegando à China, à índia e à Mongólia. Em 486, os cristãos da Pérsia adotaram as teses nestorianas e empreenderam uma feroz perseguição contra os católicos. Para o rei da Pérsia, era muito cômodo apoiar uma "Igreja nacional" que não dependesse de autoridades religiosas de um país adversário, como o bispo de Constantinopla.19



A heresia monofisista e o "latrocínio de Éfeso"

A doutrina monofisista deve seu nome ao grego monos, único, ephisis, natureza, e nasce como uma reação ao nestorianismo. Os mononsistas afirmavam que Jesus Cristo possuía uma única natureza divina e nenhuma natureza humana.

O líder da doutrina foi Eutiques, monge de Constantinopla que, por suas idéias, sofreu violentos ataques, sendo proibido de realizar os ritos sacerdotais. Graças a seus conhecimentos na corte imperial do Oriente, no entanto, suas doutrinas ganharam o apoio do imperador Teodósio II, que, em 449, convocou um concilio ecumênico em Éfeso para discutir a questão.

A assembléia foi fortemente direcionada de modo a dar ganho de causa às teses mononsistas. As tropas imperiais se lançaram com força contra os adversários de Eutiques, que não tiveram permissão nem para tomar a palavra. Um documento enviado pelo papa nem foi lido, e até mesmo o remetente foi excomungado. O bispo de Alexandria, Flaviano, levou uma surra tão grande que morreu pouco tempo depois.

O papa Leão Magno deu ao evento o nome de "latrocínio de Éfeso".20

Naturalmente, foi apenas o início de uma longa história. Por várias vezes, em uma intrincada trama de complôs, homicídios, alianças entre facções, ascensões ao trono de imperadores anti ou pró-eutiquianos, os católicos e os monofisistas se revezaram nos papéis de perseguidores e perseguidos, de vítimas e carrascos.21

As perseguições não deteriam a propagação do monofisismo. Ao contrário, graças às preleções de Tiago ou Jacó Baradai, bispo de Edessa, em 542, e fundador da Igreja Jacobita, países como Egito e Síria deram vida a Igrejas nacionais próprias, em contraposição à autoridade imperial. Mas nem Tiago conseguiu impedir a cisão de sua própria Igreja. Por exemplo, em 556, a sede episcopal de Alexandria tinha cinco pretendentes: quatro monofisistas de diversas correntes e um católico.

A Igreja etíope é até hoje monofisista. No século XVI, a Igreja romana contou com os portugueses para levar a ortodoxia à Etiópia, mas a operação falhou em razão de uma forte reação nacionalista que causou a expulsão de todos os missionários e a ruptura das relações com Roma. Mais recentemente, a Itália fascista tentou impor o catolicismo às suas colônias, mas a Igreja etíope resistiu. Ainda hoje, no Egito, existem duas Igrejas monofisistas: a copta e a melquita. Na Síria e na Mesopotâmia, ainda existem jacobitas, e na Armênia se professa uma confissão monofisista.



Os paulicianos

Seita de provável origem maniqueísta ou agnóstica,22 que surgiu na Ásia Menor por volta do século VIL Tinha essa designação por causa da peculiar veneração aos escritos de São Paulo.2'

Sua doutrina diferenciava claramente um Deus criador do espírito e um Deus senhor e criador da matéria. Os paulicianos negavam a Encarnação e consideravam Cristo um anjo de Deus. Aceitavam como textos sagrados apenas os Evangelhos e as Cartas de Paulo e recusavam os sacramentos, as imagens sagradas, a hierarquia eclesiástica e a vida monástica. Em vez da missa, celebravam o ágape (festa do amor).24

Os paulicianos também formavam um movimento de protesto político, social e de revolta contra o despotismo bizantino e búlgaro.

Sofreram várias perseguições por parte do Império Bizantino, que os condenou oficialmente em 687. Eles, então, se organizaram como Estado independente e empunharam armas em sua defesa, até a derrota militar definitiva, em 752. Mas a derrocada não significou o fim do movimento. Há provas de que foram perseguidos pelo Império de Constantinopla ainda em 840. Alguns deles acabaram se mudando para as terras do emir de Melitene e lutando entre os árabes.

Outro ramo do movimento, sediado na Trácia, teria sobrevivido até o século XIII e inspirado o movimento herético búlgaro dos bogomilos.



Os bogomilos

Movimento dualístico que surgiu nas primeiras décadas do século X e que ganhou este nome graças às profecias do padre búlgaro Bogomil.

Para os bogomilos, havia uma clara antítese entre Deus, criador do espírito, e o demônio, criador da matéria. Eles acreditavam nas mesmas teorias que os paulicianos e pregavam a igualdade social e o afastamento dos pobres do domínio do clero e da nobreza. O bogomilismo se difundiu nos séculos seguintes nos Bálcãs e até as fronteiras de Bizâncio. Fortemente perseguidos pelos soberanos búlgaros e pelos imperadores bizantinos, os bogomilos se espalharam por toda a Europa Central e Ocidental, onde foram alvo de repressão das autoridades católicas.25

Em 1203, o rei da França, Roberto, o Pio, a pedido da Igreja, mandou queimar na fogueira, em Orleans, uma dezena de hereges "maniqueístas", provavelmente bogomilos mais avançados ou, talvez, os primeiros cátaros.26 Um episódio análogo ocorreu em Milão por volta de 1208.27



Na Bósnia, o bogomilismo chegou a se tornar religião de Estado. Em 1203, no entanto, o soberano Kulin só conseguiu se manter no poder ao concordar em trocar a doutrina bogomilista pela católica romana e acatar a tutela húngara.28



CAPÍTULO 4

Justiniano, os massacres em nome da fé
O imperador do Oriente, Justiniano (527-565),1 conseguira consolidar o próprio poder graças ao auxílio de um "esquadrão da morte" treinado por ele próprio. Na prática, tratava-se de um bando de sanguinários que assassinava todos os seus rivais na corrida pelo trono: o general Vitaliano, o eunuco Amázio e um número impreciso de aristocratas.2

Uma testemunha da época comentou: "Até mesmo a mão de Deus, guiada pelo Patriarca, protege suas iniciativas de erradicar os inimigos da fé".3 De seu longo reinado, ficaram o imenso Corpus iuris civilis, código que ordena em um único conjunto de leis orgânicas toda a jurisprudência romana, e a decidida política de reconquista militar dos territórios ocupados pelos bárbaros. Mas não se pode esquecer o massacre de Nika, em janeiro de 532. Durante a partida de uma corrida de bigas no imenso hipódromo de Constantinopla, o imperador Justiniano e sua mulher, Teodora, foram vaiados pela multidão que reclamava das excessivas obrigações fiscais. O protesto transformou-se em um verdadeiro tumulto, que teve como insólitos aliados líderes de facções de grupos populares e de aristocratas. Justiniano precisou se refugiar em seu palácio, tal foi o assédio dos revoltosos.

O imperador, então, ofereceu doações em dinheiro aos líderes e convocou o povo todo para uma assembléia pública no hipódromo, onde anunciaria importantes novidades.

Os revoltosos, dessa forma, se reuniram no estádio, onde, em vez do imperador, entraram soldados do general Narsete, que assassinaram os presentes. Calcula-se que trinta mil pessoas tenham sido mortas.

Outro episódio famoso foi a violenta repressão aos rebeldes samaritanos, quando foram mortas mais de cem mil pessoas.

Talvez menos conhecida seja a pragmática disposição de 554, que estendeu a legislação imperial à Itália "liberta" dos bárbaros e que impôs a restituição de todos os bens desapropriados pelos godos aos aristocratas e à Igreja.

Dentre as propriedades a serem restituídas, havia também escravos e servos da gleba que os "bárbaros" haviam alforriado e que, assim, perderiam seu status de homens livres.4

O programa de Justiniano pode ser resumido pelo seguinte lema: "Um só Estado, uma só lei, uma só Igreja".5

A legislação imperial regulamentava cada aspecto da vida do Império, inclusive o religioso. Os bispos eram, em todo e qualquer aspecto, funcionários do Estado, com deveres de funcionários públicos, "assistentes sociais" e magistrados.6 Uma série de leis regulava, de maneira minuciosa, praticamente cada detalhe da vida do clero e dos monges, incluídas aí as práticas litúrgicas, como a entoação dos três cânticos principais do dia nos mosteiros (matutino, laude e vespertino). Além disso, as penas previstas para os transgressores eram severas: por exemplo, uma diaconisa que se casasse poderia ser punida com a morte ao lado do marido, e um monge que abandonasse o hábito era convocado pelo exército.7

As repressões de Justiniano

Justiniano foi um tenaz defensor da ortodoxia (é claro que era ele quem decidia o que era "ortodoxo" e o que não era) e um implacável perseguidor dos hereges e pagãos.

Um edito de 529 obrigava os súditos ainda não convertidos a se batizarem e se "instruírem na verdadeira fé dos cristãos". Os desobedientes seriam punidos com o confisco de todos os bens e a perda de todos os direitos; os batizados que voltassem a ser pagãos seriam punidos com a morte.8 Contra os hereges maniqueístas,' eram previstas medidas ainda mais graves: a morte e o confisco dos bens. A pena de morte também era aplicada aos ex-maniqueístas que voltassem a professar sua velha religião, que se relacionassem com os antigos companheiros de fé sem denunciá-los ou que guardassem escritos daquela seita, em vez de entregá-los às autoridades.10

Quando as tropas bizantinas reconquistaram a África e a Itália, Justiniano confiscou os templos de donatistas e arianos e mandou seus clérigos para o exílio.

É atribuída a ele a frase: "Para eles, já basta viver!"11 A repressão provocou uma rebelião de militares arianos na África, mas que foi contida após poucos meses de luta.

Em uma época em que os cultos pagãos ainda sobreviviam e os cristãos estavam divididos em infinitas correntes doutrinárias, é óbvio que não era difícil encontrar um traço qualquer em algum adversário político que o tornasse "inimigo da fé". De fato, não poucos expoentes da alta nobreza, acusados de paganismo ou heresia, foram presos, torturados, mortos ou se suicidaram.12

Outras igrejas montanistas foram destruídas pelos missionários de Justiniano nas décadas que se seguiram. Os ossos dos fundadores da seita, guardados e venerados como relíquias, foram incinerados.13

Com os judeus, no entanto, Justiniano manifestou uma relativa tolerância. Deixou-os livres para praticar seu culto, ainda que eles fossem juridicamente inferiores aos cristãos. Por exemplo, um judeu não podia testemunhar contra um cristão nem possuir escravos cristãos.

Seus ritos também eram disciplinados pela lei: os judeus não podiam celebrar sua Páscoa se esta acontecesse antes da cristã, nem discutir ou interpretar as passagens da Bíblia. Por lei, deviam acreditar na ressurreição dos mortos, na existência dos anjos e no juízo universal.14

O imperador, por outro lado, foi impiedoso com os samaritanos, os "cismáticos" do judaísmo: privou-lhes do direito de testemunhar e de herdar, e mandou destruir suas sinagogas.

A perseguição fez eclodir uma verdadeira revolta na Palestina; em represália, muitos cristãos foram mortos, e igrejas, incendiadas. "Seguiu-se uma violentíssima repressão: vilarejo por vilarejo, colina por colina, o país foi reconquistado em 529 e 530. Mais de cem mil samaritanos foram mortos, muitos fugiram para a Pérsia, outros se converteram."15 Em 555, uma segunda revolta foi contida de forma igualmente dura.

Portanto, quando se tratava de defender a "fé verdadeira", Justiniano não olhava nos olhos de ninguém. Mas abriu uma exceção para os monofisistas, pois sua mulher também era monofisista. E, como ela, muitos outros súditos, sobretudo no Egito, um dos "celeiros" do império. Teve para com eles um comportamento que oscilava entre repressão e tentativas de reconciliação.

No período entre 527 e 544, alternaram-se concílios, manifestações em praças, exílios, reintegração de bispos e teólogos mononsistas, intervenções de tropas para tirar bispos e sacerdotes hereges de seu posto, editos dogmáticos (ou seja, decretos que impunham posições doutrinárias por lei).16

Em 544, Justiniano emanou um edito que acolhia, ao menos em parte, as teses monofisistas. O texto, conhecido como "A condenação dos três capítulos", declarava heréticas as doutrinas de Teodoro de Mopsuéstia (morto mais de um século antes); Teodoreto, teólogo; e Ibas de Edessa, acusado de nestorianismo.

Nas primeiras décadas do século XX, o lema de um político vienense que embarcara no carro do anti-semitismo era: "Decido eu quem é judeu ou não".17 O lema de Justiniano (mas também de muitos outros reis e imperadores cristãos antes dele) poderia ter sido: "Decido eu quem é herege ou não".



O papa preso

O papa Virgílio (537-555) se recusou a assinar o edito imperial. As tropas de Justiniano reagiram tirando-o de Roma para levá-lo à presença do soberano.18

A isso sobreveio um longo período de "toma-e-dá", de inflamadas conversações entre o imperador e o papa, que durou anos. Até que, em 551, Justiniano, impaciente, mandou prender o papa. "Uma tropa armada os cercou e arrancou o papa e os bispos que estavam com ele da igreja na qual haviam se refugiado. Virgílio, que os soldados tentaram pegar pela barba e pelos pés, agarrou-se a uma coluna do altar, que se quebrou, e a mesa do altar o teria esmagado, se seus clérigos não a tivessem segurado. Os gritos hostis da multidão fizeram a tropa bater em retirada, obrigando Justiniano a negociar. No dia seguinte, Virgílio, confiando na promessa solene do imperador de que não lhe seria feito nenhum mal, concordou em voltar ao palácio de Placídia, mas logo foi feito prisioneiro, ficando impossibilitado de receber seus clérigos e sendo submetido a várias vexações."19

Virgílio conseguiu fugir do palácio-prisão e se refugiou na basílica de Santa Eufêmia, na Calcedônia. Veio outro período de negociações e "acidentes de percurso" (as tropas imperiais entraram em Santa Eufêmia e prenderam os colaboradores do papa), ao final do qual o pontífice concordou em convocar um concilio ecumênico para dirimir a questão.

O concilio se reuniu em Constantinopla em 553. Virgílio não compareceu em protesto, pois os bispos ocidentais estavam sub-representados.

No final, os bispos presentes aprovaram as teses imperiais e censuraram os atos do papa.20

Teodoro de Mopsuéstia, morto 125 anos antes, foi declarado "ímpio", "herege" e excomungado post-mortem. Os clérigos romanos que apoiavam o pontífice foram exilados ou presos.21 As conclusões do concilio foram impostas por lei, e os hereges que voltassem atrás da retratação seriam condenados à morte.22 A validade do II Concilio de Constantinopla ainda é reconhecida pela Igreja Católica e pela ortodoxa. Virgílio aprovou, com relutância, a Condenação dos Três Capítulos e morreu, talvez envenenado, no caminho de volta.23

A nova confissão de fé, que deveria ter conciliado as várias almas da cristandade, acabou descontentando a todos. No Egito e na Síria, as Igrejas monofisistas prosseguiram em suas estradas. Muitos bispos, monges e clérigos católicos dissidentes foram presos e açoitados. O novo bispo de Roma, Pelágio, enfrentou a hostilidade geral dos cristãos de Roma e só pôde voltar à cidade com a ajuda das tropas imperiais.

Na Itália, chegou a haver um cisma: o bispo de Aquiléia se autoproclamou patriarca e deu vida, com outros bispos do norte da Itália e da Dalmácia, a uma Igreja autônoma que duraria mais de um século.24

A heresia monotelista

O imperador do Oriente, Eráclio (610-641), na tentativa de dar fim às disputas em torno da natureza de Cristo, que ainda dividiam e enfraqueciam a cristandade, enquanto a expansão árabe-islâmica já pressionava o Império, criou, junto com o patriarca de Constantinopla, Sérgio, uma nova doutrina, o monotelismo, imposto por lei.

De acordo com essa doutrina, Cristo tinha duas naturezas, divina e humana (fato sobre o qual não se insistia muito, para não desagradar os monofisistas), mas uma só vontade, a divina. O cerne da questão teológica estava em um campo capaz de encontrar adeptos tanto por parte dos monofisistas quanto de seus adversários.

A doutrina monotelista foi aceita pelo papa Onório I, mas rejeitada por seus sucessores. Para os bispos e teólogos da Igreja de Roma, atribuir a Cristo apenas uma natureza divina significava reduzir a humanidade e, portanto, diminuir o valor da Paixão.

Essa decisão custou ao papa Severino o saque do Palácio de Latrão pelas tropas bizantinas, além do banimento de toda a corte papal de Roma.25 Em 648, o imperador bizantino Constante II lançou um edito proibindo todas as contendas a respeito da vontade de Cristo.

O papa Martinho I reagiu condenando o edito imperial e excomungando o patriarca de Constantinopla, e também pagou por sua insubordinação: foi preso em 653 sob a acusação de conspirar contra o Império, levado a Constantinopla, arrastado pela cidade nu e acorrentado, preso e, finalmente, mandado para o exílio na Criméia, onde morreu em conseqüência das privações sofridas em 655.26

Outro adversário do monotelismo, o monge grego Máximo, o Confessor, foi preso, torturado, mutilado e depois exilado.27

Apenas em 681, com o VI Concilio Ecumênico de Constantinopla, encerraram-se as controvérsias sobre a posição do Filho na Trindade.



Os cristãos destroem imagens sacras

No século VII, os cristãos se dividem acerca da questão do culto das imagens e se inaugura um século de guerras, invasões militares, perseguições, revoltas populares.

De um lado, estão os mosteiros, donos de imensas riquezas, com grande apoio popular graças exatamente ao culto das imagens sacras. De outro, estão os iconoclastas, que condenam as imagens sagradas como ídolos e superstições.

Os imperadores do Oriente temem o poder e a influência dos mosteiros e, assim, se aliam aos iconoclastas. Quem se rebela contra a nova corrente é perseguido e morto. Nem os bispos de Roma, tão distante de Constantinopla, conseguem escapar. Enfrentam várias conjurações e até mesmo expedições militares.

Mas a frota mandada por Bizâncio para sujeitar o papa afunda em uma tempestade. Deus apóia o culto das imagens?28

Iconoclastia

A iconoclastia (do grego eikon, imagem, e klaein, quebrar) consiste em um amplo movimento que se desenvolveu nos territórios do Império Bizantino, após os sermões de Serantapico de Laodicéia (cerca de 723). Os iconoclastas se remetiam às Sagradas Escrituras e, em particular, ao segundo dos dez mandamentos: "Não farás para ti ídolos nem figura alguma do que existe em cima, nos céus, nem embaixo, na Terra, nem do que existe nas águas, debaixo da terra..."29

Os imperadores de Constantinopla, de imediato, apoiaram o movimento para ganhar a simpatia das comunidades orientais, próximas do invasor muçulmano, e para limitar o poder dos mosteiros.

No ano de 725, o imperador Leão III se declarou contrário à veneração das imagens e publicou algumas disposições que limitavam seu culto. Vários bispos orientais aderiram às diretivas imperiais, mas a oposição dos monges provocou, em Constantinopla e em outras cidades, revoltas populares reprimidas de maneira sanguinária.

A política iconoclasta dos imperadores de Constantinopla continuaria por mais de sessenta anos, período em que os adoradores das imagens seriam depostos, perseguidos, torturados e mortos sem piedade, e em que a questão das imagens teria servido de pretexto até para uma sangrenta guerra civil.

Em 786, a imperatriz Teodora convocou um concilio em Constantinopla, com a aprovação do papa, para restaurar o culto às imagens. A assembléia, no entanto, teve de ser dissolvida pela rebeldia de algumas tropas iconoclastas.

O concilio se reuniu depois em Nicéia, onde confirmou a validade do culto às imagens (787). Mas a iconoclastia seria recrudescida, primeiro durante o brevíssimo reinado de Constantino IV (deposto e cegado pela própria mãe, Irene), e depois, com maior estabilidade, sob o imperador Leão V, que subiu ao trono em 813, e seus sucessores. A adoração às imagens foi restaurada definitivamente em 843.

A iconoclastia deteriorou gravemente as relações entre o Império Bizantino e a Igreja de Roma. Os papas se opuseram orgulhosamente a essa doutrina e resistiram às reprovações de Constantinopla, que tentou em vão submeter a Igreja latina através de conjurações, ataques-surpresa e expedições militares. As divergências entre o papa e o imperador acabaram afastando total e definitivamente a cidade de Roma do controle da administração bizantina.



UMA PEQUENA CRONOLOGIA

723 - Por volta desse ano, com os sermões de Serantapico de Laodicéia, ganha espaço entre os árabes uma doutrina que condena a adoração às imagens sagradas: em breve, a iconoclastia irá se propagar até Constantinopla.

726 - O imperador Leão III se pronuncia contrariamente à adoração às imagens e manda retirar a imagem de Cristo de cima da porta de bronze do palácio imperial. A ordem dá ensejo a um protesto popular duramente reprimido. Em Roma, o papa Gregório II condena o edito de Leão III e convida os fiéis da Igreja de Roma a não segui-lo.

727 - Aproveitando as divergências que opõem Gregório III e o imperador Leão III, e as rebeliões populares que eclodem em várias cidades bizantinas, o rei lombardo Liutprando ocupa Sutri e Ravena, levando o exarco (o governador) Escolástico a fugir. Sutri, depois, é cedida ao papa. Essa doação é por muitos considerada a certidão de nascimento do Estado Pontifício.

Em Roma, exércitos fiéis a Bizâncio tentam matar Gregório II, mas são derrotados pelo povo romano; o exarco Paulo tenta capturar o papa, mas sua tentativa fracassa com a oposição das milícias romanas.

728 - O exarco Paulo se dirige a Roma, mas é derrotado e morto pelos antiiconoclastas. No mesmo ano, Roma se rebela contra o novo exarco Eutíquio, nomeado pelo imperador Leão III, separando-se definitivamente de Bizâncio. Os bizantinos, no entanto, conseguem reconquistar Ravena e tentam ocupar Bolonha, mas são derrotados pelos lombardos. Liutprando, rei dos lombardos, por sua vez, como defensor da fé ortodoxa e do papado, toma dos bizantinos a cidade de Classe e vários territórios na Emília.

729 - Acordo entre o exarco Eutíquio e o rei lombardo Liutprando. Eutíquio ajuda Liutprando a sujeitar os duques de Spoleto e Benevento, que, até então, gozavam de uma quase completa autonomia, em troca de auxílio para reconquistar Roma. Os dois exércitos, então, dirigiram-se a Roma, mas antes do ataque decisivo o papa Gregório II conseguiu convencer Liutprando a desistir da empreitada.

730 - Após o fracasso das tentativas com o clero contrário à iconoclastia, o imperador bizantino Leão III publica um edito em que ordena a destruição de todas as imagens cultuadas, depondo o patriarca Germano, que se recusa a aprová-lo. Para boicotar a igreja itálica antiiconoclasta, ele submete a Sicília e a Calábria à jurisdição do patriarcado de Constantinopla.

731 - O papa Gregório II se recusa a reconhecer Germano, o sucessor iconoclasta do patriarca de Constantinopla, mas pouco tempo depois falece. Sucedido por Gregório III, que de pronto condena a doutrina iconoclasta; mas os mensageiros encarregados de levar a decisão a Constantinopla são presos pelo comandante Sérgio na Sicília.

742 - O novo imperador Constantino V, em meio à campanha contra os árabes, é atacado e derrotado por seu cunhado Artavasde, que se proclama imperador, apresentando-se como o campeão da "adoração às imagens", e é coroado em Constantinopla. Enquanto o culto às imagens é restaurado na cidade, Constantino V foge e obtém o apoio incondicional de anatólicos e trácios.

743 - Constantino V retoma o poder pelas armas, manda cegar Artavasde e seus dois filhos, e se vinga de seus seguidores.

753 - O rei dos lombardos, Astolfo, impõe um tributo pessoal aos romanos, a título de protetorado. Sua recusa a suspender a aplicação do tributo leva o papa a solicitar o auxílio de Constantinopla para defender Roma, mas o imperador Constantino V se recusa a intervir. Com a ruptura da paz, os lombardos dirigem-se a Roma vindos de várias direções, para bloquear todas as vias de acesso à cidade. Diante do perigo lombardo, o papa envia um peregrino ao rei dos francos, Pepino, pedindo sua ajuda. Mas o rei Pepino não intervém, o papa deixa a Itália e, nos primeiros dias do ano seguinte, junta-se ao rei dos francos em Vetry.

754 - No palácio imperial de Hieria, na costa adriática do Bósforo, reúne-se um concilio de bispos favoráveis à iconoclastia ("sínodo acéfalo"), que condena a adoração das imagens. Após a assembléia, em toda parte as imagens sagradas são destruídas e substituídas por pinturas de temas profanos. Os dissidentes são perseguidos sem trégua.

756 - Astolfo mais uma vez cerca Roma. O papa manda outros embaixadores a Pepino, para pedir ajuda. Os francos descem até a península, derrotam o exército lombardo e impõem a Astolfo um novo tratado. O rei lombardo entrega o papa a Pentápolis e Comacchio e aceita pagar um tributo ao rei dos francos. Pepino dá ao pontífice os territórios, que se tornam oficialmente "patrimônio de São Pedro", recusando-se a aceitar o pedido dos embaixadores bizantinos que requeriam a restituição do exarcado de Ravena.

760 - Trezentos navios bizantinos chegam à Sicília para atacar a Península Itálica, enquanto a diplomacia de Constantinopla trabalha fervorosamente para isolar o papa.

767 - Em Constantinopla, a oposição à iconoclastia se reúne em torno do abade Estêvão de Auxentios, que, no entanto, é assassinado pelo povo, encorajado pelo imperador.

768 - Sérgio, filho de Cristóvão, no comando dos lombardos, monta acampamento na colina de Gianicolo. O papa Constantino é preso, e, para ocupar seu posto, é eleito o padre Felipe. Mas Cristóvão intervém e faz o povo romano expulsar Felipe, levando a uma nova eleição regular, na qual é escolhido Estêvão III. A eleição é acompanhada por novas desordens e uma série de vinganças.

775 - O imperador oriental Constantino V morre durante uma expedição contra os búlgaros. É sucedido pelo filho Leão IV, mais moderado e fortemente influenciado pela mulher, Irene, adepta do culto às imagens.

780 - A morte prematura de Leão IV leva ao trono seu filho, Constantino VI, de apenas 10 anos. A mãe, Irene assume a regência e se opõe vitoriosamente a uma tentativa de usurpação por parte dos tios paternos de Constantino, obrigando-os a se tornarem padres.

784 - Na igreja dos Santos Apóstolos em Constantinopla é aberto um concilio para restaurar a adoração às imagens, mas a intervenção dos soldados da guarda, em um primeiro momento, provoca a dispersão da assembléia. A imperatriz Irene afasta as tropas iconoclastas da capital com o pretexto de uma campanha contra os árabes e chama para Constantinopla tropas trácias, fiéis ao culto às imagens.

786 - Inicia-se, na igreja dos Santos Apóstolos, em Constantinopla, um concilio para retomar a adoração às imagens, mas a intervenção dos soldados da guarda, em um primeiro momento, dissolve a assembléia. A imperatriz Irene então afasta as tropas iconoclastas da capital, com o pretexto de uma campanha contra os árabes, e convoca tropas trácias, fiéis ao culto às imagens, para ocupar Constantinopla.

787 - Finalmente é realizado em Nicéia um concilio convocado pela imperatriz bizantina Irene, que retoma definitivamente — não sem oposição — o culto às imagens.

790 - Eclode, em Constantinopla, uma grande divergência entre o imperador Constantino VI e sua mãe, Irene, que gera uma rebelião de iconoclastas contra a imperatriz, que, no entanto, consegue sufocá-la. Irene, então, tenta legalizar o próprio poder absoluto, apoiada pelas tropas da capital, mas a decisiva intervenção do exército da Ásia Menor proclama Constantino IV o único monarca.

797 - O imperador bizantino Constantino VI, que nesse meio-tempo ganhou o apoio dos ortodoxos e dos iconoclastas, morre após ter sido cegado por ordem de sua mãe, Irene, que se torna a única governante do Império. Irene é a primeira imperadora de Bizâncio e, para conservar a simpatia da população, concede isenções fiscais, em especial aos mosteiros, levando o sistema financeiro do Estado ao caos.

802 - Para resolver o problema da coroação do imperador Carlos por parte de Bizâncio, são enviados a Constantinopla embaixadores do papa e do imperador do Ocidente, com a missão de pedir a mão da imperadora do Oriente, Irene, de forma a unificar os dois territórios. Contudo, pouco tempo depois da chegada dos embaixadores, uma revolta palaciana depõe Irene, que é deportada para Prinkipos e, posteriormente, para Lesbos, onde morre.

815 - Depois da Páscoa, tem inicio em Constantinopla um sínodo que anula o Segundo Concilio de Nicéia e volta à iconoclastia, retomando as perseguições contra os fiéis ao culto das imagens.

820 - O imperador de Bizâncio, Leão, o Armênio, é morto por seguidores de um antigo companheiro seu de armas, Miguel, o Armoriano, que ascende ao trono sob o nome de Miguel II. Durante seu reinado, as divergências religiosas têm um momento de trégua, já que ele proíbe qualquer discussão a respeito do culto às imagens.

829 - Sobe ao trono de Bizâncio o filho de Miguel II, Teófilo, último expoente da iconoclastia. Em seu reinado, a arte bizantina floresce notavelmente.

837 - João, o Gramático, tutor do imperador Teófilo e chefe dos iconoclastas, torna-se patriarca de Constantinopla e dá início a uma severa perseguição aos adoradores de imagens.

842 - Morre o imperador de Bizâncio, Teófilo, e a iconoclastia, já pouco popular, rui definitivamente.

843 - O patriarca João, o Gramático, é deposto em Constantinopla. Metódio é eleito para assumir seu lugar, e um sínodo realizado em março proclama solenemente a restauração do culto às imagens.

Nasce o Estado Pontifício

Pouco depois da morte de Justiniano, assentaram-se na Itália vizinhos inconvenientes para os bispos de Roma: os lombardos, que em várias ocasiões ocuparam boa parte da península.

Em 728, o rei dos lombardos, Liutprando, tentou tirar vantagem do conflito que opunha a Igreja de Roma e o Império Bizantino acerca da questão da iconoclastia e, sob o pretexto de defender o papa, invadiu os territórios bizantinos do exarcado de Ravena e da Pentápolis (composta por Rimini, Pesaro, Fano, Senigallia e Ancona).30 No mesmo ano, doou à Santa Sé os castelos de Sutri, Bomarzo, Orte e Amélia (o episódio é conhecido como a "Doação à Santa Sé"). Os territórios em si não tinham grande valor estratégico, mas foram o primeiro núcleo do que depois se tornaria o Estado da Igreja.

Nas décadas sucessivas, entretanto, o reino lombardo se tornou uma ameaça concreta à independência de Roma. Assim, os papas solicitaram a ajuda dos francos, um povo germânico que vivia há séculos na antiga Gália.31 No biênio 755-756, o rei dos francos, Pepino, desceu à Itália a pedido do papa Estêvão II, derrotou os lombardos que sitiavam Roma e presenteou a Igreja com Ravena, a Pentápolis e Comacchio. O ato do rei franco não foi uma doação desinteressada, e sim o pagamento de uma dívida. Alguns anos antes, na verdade, Pepirio era um simples ministro palaciano (o que hoje chamamos de "primeiro-ministro") do rei Quilderico III. Deu um verdadeiro golpe de Estado, com a aprovação prévia do papa. O próprio Estêvão II foi à Gália para coroá-lo rei, ungindo-o com óleo sagrado, em um rito tirado da Bíblia.32

Carlos Magno, filho de Pepino, ampliaria os territórios daquilo que, para todos os efeitos, era um Estado, dando-lhe a forma que manteria por mais de um milênio.

As "Doações de Constantino"

Todos Os territórios tão generosamente presenteados por Pepino eram, na verdade, propriedade do imperador de Bizâncio, que, furioso, protestou contra o furto. Providencialmente, tirou do nada um antigo documento, nada menos que o testamento assinado do imperador Constantino I. De acordo com o documento, Constantino, curado da lepra graças à ajuda do papa Silvestre, já havia doado à Igreja de Roma não só os territórios reconquistados por Pepino, mas toda a Península Itálica e o primado sobre as igrejas metropolitanas de Antióquia, Constantinopla, Alexandria e Jerusalém. Eis a razão por que, em dado momento, Constantino se mudou para Constantinopla: porque dera Roma ao papa.

O documento, conhecido como "Doação de Constantino" era falso, mas por dois séculos todos o acreditaram verdadeiro, inclusive os adversários do papa. A doação justificaria o poder temporal do pontífice durante toda a Idade Média. Nos séculos seguintes, entre altos e baixos, a Igreja incrementaria suas posses e sua influência sobre a vida política européia.

Os papas Gregório VII (1073-1085) e Inocêncio III (1198-1216) chegariam a teorizar a teocracia, ou seja, a supremacia do poder da Igreja sobre o dos reis e imperadores. Só em 1440, o humanista Lorenzo Valia conseguiria provar definitivamente que a doação era uma fraude, em seu tratado De falso credita et ementita Constantini Donatione.


CAPÍTULO 5

Carlos Magno, as conquistas e os crimes

Carlos Magno (cerca de 742-814) era o filho primogênito de Pepino, o Breve, ungido rei pelo papa Bonifácio, na presença dos bispos francos. Em 754, ajoelhou-se diante do papa para reconhecer por completo sua condição de súdito e autoridade. O papa, em troca do gesto de submissão, o ungiu rei e lhe conferiu o título de patrono dos romanos.

Com a morte de Pepino, em 768, o reino foi dividido entre os filhos Carlos e Carlomano, que morreu três anos depois. O irmão, então, apossou-se de todo o reino franco, expulsando seus sobrinhos, que se refugiaram, junto com a mãe, no reino dos lombardos, na Itália.1

Em 773, para socorrer o papado, tradicional aliado dos francos, Carlos desce à Itália para lutar contra os lombardos e toma toda a Planície Padana. Como causa direta da derrota militar, os súditos do duque lombardo de Spoleto e os habitantes de Ancona, Osimo, Fermo e Città di Castello se declararam súditos do papa.

Em 774, Carlos foi a Roma para a Páscoa, tendo sido triunfalmente recebido pelo papa e pelo povo. Nos anos seguintes, desceu mais duas vezes à Itália para conter a rebelião lombarda. Com as novas campanhas, apoderou-se do Friuli e sujeitou o duque de Benevento, destruindo, definitivamente, o domínio lombardo na Itália. Outra diretriz da expansão franca foi a Europa setentrional, dominada pelos saxões, contra quem Carlos se mostrou um conquistador impiedoso. Em 772, estabeleceu os primeiros antepostos em território saxão e mandou construir mosteiros para facilitar o trabalho dos missionários (os saxões eram pagãos). Era o primeiro passo de um conflito que duraria mais de vinte anos.

A guerra contra os saxões foi longa e cansativa: os exércitos francos penetravam os novos territórios, desmantelavam os acampamentos inimigos e construíam fortificações.

Os saxões, por,sua vez, reorganizavam-se e destruíam as fortalezas francas. Mas Carlos teimosamente reconquistava o terreno perdido, mandava reconstruir os antepostos e, quando podia, criava novos em posições mais avançadas. "Era um método extenuante de fazer guerra [e que custa caro em termos de vidas humanas] e que não trazia grandes sucessos; mas, com o tempo, os recursos humanos e econômicos do invasor, altamente superiores, estavam destinados a prevalecer." (Alessandra Barbero, 2000, p. 56.)

"A submissão da Saxônia foi, em última análise, resultado de seu lento estrangulamento, com a construção de uma rede de bases fortificadas capazes de dar apoio umas às outras, de bloquear todos os rios, de mandar companhias de soldados devastarem os territórios inimigos, espalhando o terror e submetendo os habitantes, enquanto os fortes erguidos pelo inimigo eram tomados de assalto e destruídos, um após o outro, lentamente, mas de maneira eficaz." (Alessandra Barbero, 2000, p. 57.)

Oficialmente, a guerra se deu por questões fronteiriças, mas Carlos acrescentou a elas também motivações religiosas, como a proteção dos missionários cristãos e a conversão dos pagãos. O batismo forçado era imposto aos saxões que se rendiam, e os que não aceitassem eram condenados à morte.2

Em 782, eclodiu uma repentina e violenta rebelião saxônica. Os revoltosos exterminaram uma expedição militar enviada para dominá-los, matando ainda alguns colaboradores próximos de Carlos. O rei dos francos, em represália, entrou na Saxônia com um novo exército, obrigou as tropas rebeldes a se renderem e entregarem as armas e mandou decapitar 4.500 rebeldes em um único dia.3 A partir de então, Carlos Magno conduziu uma verdadeira guerra de devastação, que só terminou em 785, com a rendição dos saxões, assolados pela fome, e o batismo dos últimos líderes rebeldes.

Na mesma época, foi publicado o Capitulare de partibus Saxoniae, uma lei que punia com a morte quem ofendesse a religião cristã e seus sacerdotes. Dentre as "ofensas" punidas com a morte, havia faltas menores, como a não-observância do jejum de sexta-feira.4

Em 793, eclodiu a última grande rebelião dos saxões. Carlos, dessa vez, ordenou a deportação em massa da população das províncias rebeldes, substituída por colonos francos e escravos. Então, amenizou as medidas repressivas antipagãs e se reconciliou com os nobres saxões sobreviventes.

A expansão franca também chegou à Espanha, que na época estava sob o domínio do emir árabe de Córdoba. Com a cumplicidade de alguns dignitários muçulmanos contrários ao emir, Carlos organizou duas expedições militares em 778 e 797. A primeira foi um fracasso, e, durante a retirada, a retaguarda das tropas imperiais foi massacrada pelos bascos. A segunda levou, em 799, à conquista de Vichy. Outras expedições de conquista ampliaram os domínios ibéricos dos francos, até que, em 810, o emir de Córdoba firmou um tratado de paz reconhecendo o domínio franco na Espanha setentrional.

Finalmente, falemos da expansão para o leste, na Panônia (atual Hungria). Aqui, Carlos lutou contra o povo pagão dos ávaros, contra quem lançou uma guerra de extermínio. Os historiadores da época falam de um número tão alto de vítimas que deixou a Panônia "deserta".5 Os territórios assim esvaziados teriam sido então ocupados por colonos francos e germânicos.



O papa agraciado com o milagre

Em 795, Leão III é eleito papa. Sacerdote de origem humilde e reputação duvidosa, era malvisto pela nobreza. O próprio Carlos duvidava de sua moralidade, tendo em vista que, em uma carta cumprimentando-o pela eleição, pedia que o novo bispo de Roma seguisse escrupulosamente os cânones e as Constituições dos Pais da Igreja; além disso, encarregava o abade Angilberto de garantir pessoalmente que o novo papa "vivesse honestamente".6 Em 799, Leão III fugiu durante uma revolta de nobres romanos e se refugiou na corte de Carlos. Nesse meio-tempo, espalhou-se o boato de que o pobre papa teve os olhos arrancados e a língua cortada. Essa era uma prática comum para os bizantinos, para tornar inofensivo um adversário político sem se manchar com o pecado do homicídio.

Na verdade, Leão III permaneceu incólume e contou que sua língua e seus olhos voltaram a crescer por milagre.7

Ao território de Carlos chegaram também os adversários do papa, que o acusaram de perjúrio e adultério. Carlos entregou a questão a uma espécie de comissão de eruditos que devia avaliar a veracidade das acusações contra o pontífice. Um dos integrantes, o bispo Arno de Salisburgo, personalidade de prestígio e acima das partes, enviou à corte um verdadeiro relatório, cujas conclusões não deviam ser muito favoráveis ao papa. Tanto que Alcuíno, conselheiro de Carlos, destruiu o documento e respondeu ao prelado usando o famoso lema evangélico: "Quem não tiver pecado, que atire a primeira pedra."8 No final, Carlos decidiu tomar partido do papa e o mandou de volta a Roma escoltado por um exército. Pouco depois, em 23 de novembro de 800, ele mesmo dirigiu-se a Roma e foi recebido triunfalmente pelo clero.

Em 1° de dezembro, "Carlos, agindo como um novo Constantino, inaugurou os trabalhos do concilio que, na basílica vaticana, deveria se pronunciar a respeito das acusações feitas ao papa. Àquele ponto, no entanto, todos sabiam que se tratava de um processo político e que Leão sairia dele ileso: a assembléia confirmou que, tecnicamente, ninguém poderia julgá-lo e permitiu que se desculpasse das acusações, jurando solenemente sobre os Evangelhos a própria inocência, o que o papa tratou logo de fazer" (Barbero, 2000, p. 101). Leão III até hoje é adorado pela Igreja Católica como santo.

Em 23 de dezembro, Leão prestou o juramento de purificação relativo às acusações que lhe foram impostas, e seus adversários foram exilados.

Dois dias depois, durante a missa da noite de Natal, Leão III coroou Carlos Magno imperador e "augusto" do Sacro Império Romano. O círculo se fechava: por um lado, o papa cortava qualquer relação com o Império Bizantino (que considerava Roma sua extensão) e criava para si um imperador sob medida, com quem seria muito mais fácil se entender e de quem seria ainda mais fácil obter ajuda. Por outro lado, Carlos se tornava o verdadeiro chefe da cristandade no Ocidente e via formalmente legitimado e justificado o poder que já detinha de fato. Carlos (como Constantino antes dele) entendeu perfeitamente a formidável função agregadora e de instrumento de domínio espiritual que o cristianismo tinha em uma Europa ainda desunida e com as fronteiras ainda ameaçadas pelas populações "bárbaras" pagãs. Por essa razão, antes de ser coroado imperador, adotara uma política decisiva de cristianização dos povos a ele submetidos.

"Em seus cabeçalhos, se intitulava 'por graças de Deus e por concessão de sua misericórdia, rei e reitor do reino dos francos e devoto defensor e humilde servo da Santa Igreja, mas não nos deixemos enganar por seu tom.

A ajuda que o rei dava à Igreja consistia em nomear os bispos e abades, em vigiar severamente seu comportamento e reuni-los em concilio quando julgasse oportuno, determinando pessoalmente a ordem do dia e promulgando as conclusões; todas as responsabilidades que acostumamos a ver ligadas ao papa." (Barbero, 2000, p. 107.)

Para administrar e controlar melhor o Império, Carlos dividiu seu amplo domínio em reinos, por sua vez fragmentados em uma série de pequenos distritos chamados condados. Cada condado era entregue a um conde, que centralizava os poderes militar, judiciário e econômico. Nas regiões de fronteira, por razões militares, os condados eram reagrupados em unidades maiores, os marquesados, sob o governo de marqueses ou duques, onde sobreviviam os títulos lombardos. Um grande número de funcionários imperiais, os missi dominici, em geral eclesiásticos, viajavam de um condado a outro levando as ordens do imperador e controlando o trabalho dos vassalos.9

Carlos morreu em 814. Seu império duraria menos de um século, esfacelado pelas guerras entre seus sobrinhos e pelas ambições dos grandes feudatários.

Os súditos de Carlos

Quem pagava a conta das campanhas de Carlos? Quando lemos a respeito de exércitos em marcha e campanhas de conquistas que duraram anos, temos que pensar que, na época, as tropas não levavam seus provimentos consigo, tomando das populações locais tudo aquilo que precisavam: comida, cavalos, bois, forragem para os animais, lenha para o fogo etc. A passagem de um exército tinha como conseqüência quase inevitável devastações e escassez.

Na Itália arrancada dos lombardos, por exemplo, a escassez tinha chegado a níveis tais que muitos venderam seus terrenos a preços ínfimos e chegaram a vender a si mesmos e as próprias famílias como escravos aos mercadores gregos, embarcando em seus navios. O fenômeno atingiu proporções tamanhas que alarmou o papa e o próprio Carlos. Tanto que, no final, o imperador decretou uma lei extraordinária anulando a redução à condição de escravo e as alienações realizadas em estado de necessidade.10

Mas também em tempos de paz, para os povos conquistados, tornar-se súdito dos francos não devia ser grande negócio. Todos os súditos, aos 12 anos, deviam fazer um juramento de fidelidade ao imperador, que dizia expressamente que o fiel devia servir a Deus, obedecer aos mandamentos da Igreja, prestar serviço militar e, dependendo de sua situação econômica, pagar os impostos. Além dos tribunais ordinários, existiam os episcopais, para os crimes de natureza religiosa.

Os funcionários e os exércitos que os vigiavam a mando do imperador tinham o direito de se hospedar onde quisessem e requisitar cavalos, animais, carros, forragem e comida. Teoricamente, tais obrigações recaíam sobre todos os súditos livres, mas, na verdade, os mais prejudicados eram os pobres.11 Muitas vezes, condes, duques e marqueses criavam, por iniciativa própria, impostos e serviços obrigatórios, ainda que a lei, teoricamente, proibisse isso.

Uma reclamação de alguns súditos istrianos, que antes se submetiam ao Império Bizantino, expressa bem a idéia do nível de vexações às quais eram submetidos: "Na época dos gregos, nunca pagamos pela forragem;12 nunca trabalhamos de graça nas empresas públicas; nunca alimentamos os cães; nunca coletamos impostos, como fazemos agora; nunca pagamos pela matéria-prima, como fazemos agora, entregando todos os anos ovelhas e carneiros; e ainda devemos prestar o serviço de transporte até Veneza, Ravena, na Dalmácia, e ao longo dos rios, o que nunca fizemos antes. Quando o duque precisa partir para a guerra do imperador, pega nossos cavalos e leva consigo a força de nossos filhos, fazendo-os guiar os carros e depois tomando-lhes tudo e mandando que voltem para casa a pé; e nossos cavalos ficam lá na França ou são entregues a seus homens. Na época dos gregos, entregávamos, por ano, se necessário para os ritos imperiais, uma ovelha a cada cem, quem as tivesse; agora, ao contrário, quem tem mais de três deve entregar uma por ano. E fazemos todas essas prestações e pagamentos à força, porque nossos pais nunca os fizeram; e nossos parentes e vizinhos riem de nós em Veneza e na Dalmácia, assim como os gregos, que nos governavam antes." (Barbero, 2000, p. 215.)

Mas os bravos súditos istrianos também reclamaram das autoridades eclesiásticas: "Primeiro, a Igreja pagava metade de todos os impostos recolhidos para o Império, agora não mais. No mar público, onde todo o povo pescava junto, não ousamos mais pescar, pois os homens da Igreja nos pegam a pauladas e cortam nossas redes." (Barbero, 2000.)




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