O incenso e o enxofre



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O INCENSO E O ENXOFRE




Luiz Antônio Barreto

O INCENSO E O ENXOFRE

(Notas prévias para uma Teoria da Cultura Brasileira – 3ª Série)

2006


© by Luiz Antonio Barreto

Direitos reservados à Sociedade

Editorial de Sergipe

Av. Ivo do Prado, 160

ARACAJU – SERGIPE

Tel/Fax (0xx79) 32137323

e-mail: institutotobiasbarreto@infonet.com.br

Outros livros do autor,

editados pela Sociedade

Editorial de Sergipe:

Tobias Barreto, 1994

Um Novo Entendimento do Folclore, 2º edição, 1997

Cultura: Um Roteiro de Alusões, 1994

Apologia de Deus e outros Escritos Sergipanos, 1994


Sem Fé, Sem Lei, Sem Rei, 1996

Os Vassalos do Rei, 1998

Folclore – Invenção e Comunicação, 2005
BARRETO, Luiz Antonio – 1944

O INCENSO E O ENXOFRE. Sociedade

Editorial de Sergipe,

Páginas. Aracaju, 1999


I. Literatura Brasileira. Ensaio

II. Título


CDD 869.9

CDD869.0 (81)




Nota Prévia



O Incenso e o Enxofre dá continuidade ao esforço ensaístico de revelar, aos olhos da atualidade, a cultura brasileira, decodificando-a e colocando-a ao alcance de qualquer ouvido, como a água, no dizer metafórico de José Sampaio, poeta de Sergipe.

O livro representa a terceira série dos pequenos ensaios sobre temas da história e da cultura do Brasil, destinados à elaboração de uma teoria, como Sem fé, Sem Lei, Sem Rei e Os Vassalos do Rei, respectivamente primeira e segunda série.

Os temas tratados convergem, neste pequeno volume, para a questão antiga do bem e do mal, nas suas múltiplas faces, desdobramentos e implicações na vida social dos brasileiros. Há, também, uma reflexão sobre a cultura popular, com seus arquétipos, variantes e invariantes, valores, sentidos, que fazem da experiência um capítulo essencial da história humana.

O Incenso e o Enxofre refaz, a partir de episódios, repertórios, situações polarizadas, o itinerário de um povo que teve a terra como o Paraíso, e a vida como a oportunidade de redimir-se do pecado, na utopia cristianizadora ou, no mínimo, catolicizante. A gente pura, expurgada dos delitos do corpo e da alma, muitas vezes manteve próxima a imagem opositora do Diabo, viajante das naus descobridoras, personagem simbólica nos desafios dos embates da fé.

É, portanto, no contraditório que se poderá compreender o presente, contextualizando, como um pêndulo ou uma gangorra, cujo sentido de alteração é mais que uma decisão dominante, é um processo, sem heroísmo.

Preparado em 1999, este livro propõe a formação de uma consciência pedagógica em torno da cultura brasileira.
LAB

Sumário


Literatura Oral: Um mundo de Cultura

Natureza e Cultura no Brasil


Teoria do Reisado
Relações Culturais do Poder
CANUDOS: A Cocanha Sertaneja
O Encontro de Lampeão com o Padre

Literatura Oral: Um Mundo de Cultura



A Danielle Rodrigues

O vasto repertório brasileiro de cultura popular ou folclórica pode ser também percorrido pela intenção catequética, conservadora, redutora, adotada pelos colonizadores e mantida intocada pelo tempo até os dias atuais. A cultura popular é um documento. Um complemento, original e permanente documento, que funciona como armadura coletiva, a proteger os feitos e as ações populares, no contexto das sociedades.



LITERATURA ORAL: UM MUNDO DE CULTURA *

*Texto de conferência na Bienal do Livro Infanto-Juvenil de São Paulo.


A oralidade tem sido, em todo o mundo, grande parceira da história. Uma completa a outra. A história, como a ciência do homem, condutora do destino humano, produzindo uma experiência, nutre a cultura. Cícero nomina a história como “Luz da Verdade, Testemunho dos Tempos, Mestra da Vida, Mensageira da Antigüidade”.

Cada povo soube guardar, na memória do tempo, os seus fatos históricos, nas versões emocionadas do heroísmo, dos feitos gloriosos, nos embates pela vitória, ou nas derrotas tristes das guerras. Cada fato estará revestido, então, de um sentimento profundo, tão íntimo quanto social, na relação da pessoa com o grupo, da personagem com a cena da vida.

Foi comum, a todos os povos, catalogar as suas aventuras para que servissem à educação dos mais novos, e de exortação aos governantes, pela clareza dos exemplos. As grandes coleções de estórias, como o Panchatranta, ou de poemas, como Os Vedas, O Mahabharata, O Ramaiana, parecem confirmar o uso das Purunas ou antigüidades como princípios pedagógicos, realimentando a sobrevivência, das castas inferiores.

Talvez mesmo por isso Splengler tenha feito da cultura, e não dos homens e nem dos povos, a protagonista da história, como se bastasse dizer: Era uma vez...

A oralidade tem, assim, um vínculo completo com o passado dos povos e funciona para manter a tradição. Foi com ela que os povos criaram ou prolongaram a vida das orações e dos cantos, para a exaltação das forças divinas, como com ela glorificaram as façanhas famosas do passado.

É certo que a escrita alargou o campo da memória, mas ainda hoje a oralidade e a escritura cumprem papéis essenciais, com os quais alimentam e realimentam as bases da sobrevivência dos povos e das sociedades. Considerada como fundamento da civilização superior, a escritura tem sido a arte civilizatória por excelência, dinamizando nos presentes os repertórios dos passados, como meio visual de comunicação.

Na longa trajetória humana em busca das expressões de linguagem, as figuras e as cores dos pictogramas, os signos dos ideogramas, os sinais cuneiformes, os sons dos fonogramas, que levaram aos alfabetos cumpriram uma espécie de rito de passagem, valorizando o oral, em todas as suas manifestações, fixando as coleções que a escritura trouxe aos dias atuais.

Não é tarefa fácil separar, pela medida da importância, o oral e o escrito na história dos povos, nem de suas culturas. O domínio da escrita não impõe, e nem significa, uma ruptura definitiva e completa com o passado da pessoa, a tradição herdada, o contexto social, nem com o conhecimento oral. As duas formas: A Oral e a Escrita, se compõem como um conjunto interativo, que alonga a vigência de toda a produção cultural do povo.

Em algumas sociedades africanas era comum ouvir-se, quando morria um velho, que morria uma biblioteca. Porque o conhecimento, tanto o de natureza histórica, como o das relações jurídicas, sobrevivia acomodado na cabeça das pessoas, como referência à qual era possível recorrer, sempre que necessário. A oralidade possui, então, a força da herança, que não se altera com a simples troca da vigência moral dos fatos. A oralidade conserva, como reforço à Pedagogia da Exemplaridade, os valores, nos quais e com os quais os grupos sociais moldam e mantém as suas relações de interesses.

A escritura estabeleceu um conjunto de formas novas de ação preservadora dos repertórios, guiando-os mais objetivamente para os fins aos quais deveriam estar destinados. Assim, a Igreja Católica, que se valia da oralidade, fez a impressão da Bíblia e ampliou o domínio doutrinário da fé, ampliando o poder do seu magistério moral. E fez mais: reelaborou, para uso catequético, a herança oral dos povos antigos.

A cultura dos povos pode, sem maiores prejuízos, ter um marco divisor na Idade Média, aquele longo período do Século IXº ao Século XV, e que cobre desde a Monarquia de Carlos Magno, Rei de França, até, praticamente, as novas descobertas dos caminhos do grande mar oceano, as Navegações de Espanha e de Portugal, dilatando as fronteiras do mundo.

Para o cotejo dos repertórios e de suas influências no Brasil e na cultura brasileira, como pura ilustração, se pode tomar duas datas: a da morte de Carlos Magno – 814, e a da aparição da Obra “Coquêtes Du Grand Charlemagne”, popularizada como “Carlos Magno e os Doze Pares de França”, — 1485. Com tais datas se poderá compreender os limites e as projeções da Idade Média. A primeira, como a síntese da expansão dos domínios da Cristandade. A morte do Rei faz viver, na memória do povo, os 46 anos, as 53 Expedições Militares, as vitórias que deram ao seu Reino cerca de um milhão de quilômetros quadrados. Chamado de “Pai da Europa”, “Cabeça do Mundo”, Carlos Magno sobreviveu à frente do seu grupo mais leal, os Doze Pares, na memória dos povos novos, revelados e formados a partir do Feitos dos Mareantes de Espanha e de Portugal.

Sem precisar recorrer a outra qualquer referência, que não a de Carlos Magno, se pode identificar o entranhamento, nas culturas dos povos novos, de toda a atmosfera medieval, que inspirou o Império Carolíngio, nas suas Cruzadas em favor do Cristianismo.

Porque a essencialidade dos repertórios literários da Idade Média podia ser resumida na persistência dos temas históricos, lendários e heróicos, na exaltação dos valores morais, sociais e religiosos, e na profunda inspiração cristã.

Os repertórios, coligidos, codificados, na Idade Média não procediam apenas dela, mas incorporavam, para o mesmo uso, os legados antigos, dos diversos povos. A sobrevivência de tantos poemas, cantigas, estórias, fábulas, que pertenceram a povos mortos da história, deveu-se a influência do Império Carolíngio.

De igual modo, a Idade Média projetou seu engenho cultural no Renascimento, tingindo com as cores dos Estandartes Cristãos toda a arte e toda a cultura dos povos descobertos e conquistados. Neste sentido a Idade Média não cobre apenas os seis séculos da cronologia histórica que a destaca, mas recua a tempos imemoriais, para colher a memória do passado, como avança no tempo futuro, legando uma herança que ainda hoje vive, pela boca do povo.

Não bastasse o exemplo do livro “Carlos Magno e os Doze Pares de França”, que chegou ao Brasil em 1728, em primeira edição portuguesa, traduzida do espanhol por Jerônimo Moreira de Carvalho, e que na opinião de Luiz da Câmara Cascudo, se tornou um dos livros mais lidos do Brasil e um dos cinco livros do povo, e se teria Roldão, forma espanholada e abrasileirada de Roland, personagem principal de uma canção de Gesta, do ano 1070, sobre a emboscada sofrida pelo Rei Franco, no desfiladeiro de Roncesvales, em 778, pelos Bascos. Roldão está em dezenas de folhetos de cordel, nos versos das Cavalhadas, na iconografia dos xilógrafos, na boca do mundo.

Também está na boca do povo, na literatura de cordel, nas estórias e romances, Roberto da Normandia, personagem da primeira das Cruzadas, ainda no século XI. Muitos outros heróis da utopia de Carlos Magno, de estabelecer um estado Teocrático na França, unificando a Europa pelo Cristianismo. Idéia muito próxima do projeto Cristianizador Ibérico, do Renascimento, posto em prática no novo mundo pelas Coroas de Espanha e de Portugal, com o concurso qualificado da Companhia de Jesus.

Mais que os personagens da literatura oral sobreviveram os gêneros, depositários de todo o espectro repertorial da humanidade antiga. São os adágios, os aforismos, os apólogos, as apotegmas, os axiomas, os dísticos, os enigmas, epigramas, as epopéias, as fábulas, as cantigas, as coplas, as canções de Gestas, as lendas, os provérbios, as saetas, as sagas, as sentenças, os romances, as xácaras, as estórias que troveiros, jograis, goliardos, clérigos, cultuaram no curso da vida e da história, como manifestação estética e moral de suas próprias realidades.

A Idade Média fez circular e ainda teve tempo para fazer recircular os repertórios, alinhados na mesma intencionalidade. Sílvio Romero, na segunda metade do século passado, coletou em Sergipe uma estória que intitulou de “O Cágado e a Festa no Céu”. Conta-se, ainda hoje, outra versão, onde o cágado vai a festa na viola do urubu. Descoberto é jogado à terra, rebentando-se. Nossa Senhora desce do céu, salva o animal e é por isso que o cágado tem a carapaça toda remendada.

Sem querer cotejar as variantes ou invariantes, desde a coleta de Sílvio Romero, publicada nos “Estudos sobre a Poesia Popular no Brasil”, em 1888, até as versões que são repetidas hoje, nas escolas e nas conversas das ruas, é possível distinguir, com clareza, o sentido catequético da estória, pela força de Deus, conforme a versão romeriana, e de Nossa Senhora, pela versão popular, na salvação e na vida do animal.

Longe de ser uma estória criada pelos colonizadores brancos, portugueses ou espanhóis, pelos índios ou pelos escravos negros, “A Festa no Céu” é uma ambientação de uma das estórias do Panchatantra, livro da Índia, reunido em língua sânscrita, entre os séculos IV e VI. É a história da tartaruga Kambugriva, que saiu do seu tanque a dar uma volta com dois amigos cisnes e que rompendo com o trato do silêncio, terminou caindo e sendo destroçada e morta pelas pessoas. A sentença moral estava lá, bem diferente do conto do cágado. A mesma temática está em Esopo, fabulista grego, nascido nos meados do século VI antes de Cristo, nas fábulas A Águia, o Coelho e a Tartaruga e A Águia e a Tartaruga, a primeira delas reescrita por Saramiego.

O Panchatantra é apenas um dos grandes tesouros literários cujas estórias vararam o tempo, espalhando-se no mundo, mescladas com o moralismo Cristão. O Fabulário Universal, igualmente remanesce na oralidade, circulando velhos exemplos, aplicados com função didática pela Igreja Católica. Os primeiros Fabliaux apareceram no ano de 1170 e os últimos em 1340. As pequenas fábulas medievais, que provocavam riso, continuam circulando até hoje, como documentário precioso de várias expressões do viver daquele tempo.

Vários autores, como Esopo, Fedro La Fontaine, deram à fábula uma sobrevida, no imenso caldeirão de cultura que tem regado a história dos povos. Assim também os autores que coletaram cantigas, romances, contos, durante a Idade Média e depois, dando consistência sistêmica a uma literatura oral que venceu as barreiras da língua, adaptando-se às condições históricas, e servindo de material quase exclusivo de exemplos.

Diferentemente dos Católicos, os Protestantes preferiram difundir a Bíblia, na esteira da invenção da imprensa, com os tipos móveis de João Gutemberg. Para eles o que importava era colocar o conhecimento da Bíblia no centro do seu credo, fazendo o ensino da leitura uma ponte para o contato com o Livro Sagrado.

A descoberta do Brasil coincide com essa travessia entre o oral e o escrito, o códice e o livro. Além da palavra dos predicantes, com todo o repertório tornado um arsenal de combate — A Guerra Santa — O Brasil contou, na sua colonização, com diversos outros instrumentos de cultura, notadamente literários e artísticos, como as Coleções de Contos, a começar pela de Gonçalo Fernandes Trancoso, “Contos e Estórias de Proveito e Exemplo”, editada em Lisboa, em 1575, as Coplas Pastorís, os autos como a Chegança, que reproduz a luta de Cristãos e Mouros, dentre tantos outros livros que moldaram a vida Brasileira nos primeiros tempos da Colônia.

Um livro do Século XVIII — Roteiro do Peregrino da América — de Nuno Marques Pereira, reflete o sentido ordenador dado pelos colonizadores à vida no Brasil, tornando-se um tipo especial de manual, que sem a força repressora das confissões inquisitoriais, e sem o primarismo dos catecismos, conduzia as pessoas, de todas as condições, a comportamentos pessoais, privados e públicos, e sociais, de acordo com as regras do projeto cristianizador adotado.

Durante os séculos de dependência formal a Portugal o Brasil conviveu com a fantasia dos repertórios antigos, medievais, que transplantavam reinos e cortes, fidalgos e vassalos, como uma lúdica a aplacar o fadário da ocupação e da colonização da terra. A diversidade dos repertórios fez de cada brasileiro um ser do mundo, de cada palavra uma chave universal de contato, de cada estória, de cada verso ou cantiga, de cada dito ou romance, uma senha de entrada ou de regresso ao mundo velho da história humana.

Nem mesmo a presença imensa de gente indígena, nas praias e florestas, com seus ritos, seus deuses, seus meios próprios de distinguir, nas plantas, o remédio que cura, o veneno que mata, alterou o plano colonizador, com seu mundo de cultura. Aos poucos, pelas fazendas, foram mescladas e incorporadas ao imaginário, as contribuições das diversas nações autóctones, aumentando muito mais o volume das coisas intangíveis, ao lado da produção material, dos artefatos e de hábitos que distinguiam o viver local.

A sobrevivência dos índios, em vários pontos do Brasil, não garantiu a sobrevivência de sua cultura, íntegra como a registra Gabriel Soares de Souza, no primeiro século do contato branco, no seu Tratado Descritivo da Terra do Brasil. Os índios do norte não guardam maiores semelhanças com as nações que sobreviveram no nordeste, como os Xocó, da Ilha de São Pedro, no Rio São Francisco, em Sergipe.

O imenso universo de crenças, de mitos, de saberes e de fazeres indígenas, de música e de dança, não compõem ainda hoje, como nunca compuseram, um repertório ordenado, que atestasse a existência histórica e moral de milhões de pessoas da natureza e da cultura, dos primeiros tempos do Brasil.

A presença dos negros africanos, arrancados à força como bestas de carga, para o trabalho escravo, também foi ignorada, no plano plural da cultura. Não que faltasse ao convívio colonial a contribuição negra, clara e permitida, ou oculta e proibida. O que faltou foi a visão geral da criação negra, a ancestralidade antiga, os mitos e ritos, as produções materiais, a herança mítica da terra berço, onde parece que a humanidade deu os seus primeiros passos.

Os negros foram reduzidos, pela força e pela catequese, ao estado jurídico e cultural de coisas, reconhecido pelo preço que custava ao seu dono, ou pelos sinais anatômicos da raça. Portadores de expressões culturais proibidas, simularam, no sincretismo possível, a sobrevivência. De modo que é possível hoje, em muitas partes do País, identificar fragmentos da Cultura Negra, embutidos no mosaico da Cultura Nacional.

O Brasil foi, num certo sentido, um laboratório de raças e de culturas. Produziu o mestiço, dando-lhe uma feição universal, mas não conseguiu consagrar a igualdade social, nem mesmo eliminar as discriminações da cidadania desigual. Tomado o exemplo biológico, da resposta genética, o próprio País tornou-se injusto e frio com seu produto — O mestiço, para atrair novos brancos, oriundos da Europa, na recolonização do século passado.

O mestiço sobrou, muitas vezes como pária, desempregado, excluído dos processos do desenvolvimento. É nítida, nas áreas rurais do Norte e do Nordeste, do Sul e do Centro-Oeste, ou nas zonas urbanas de alta concentração humana, a desigualdade social. Não há o Brasileiro, personagem real da história, como sujeito na construção da realidade. Há uma variedade de brasileiros, povoando os vários Brasís, como não há uma cultura universalizada ou universalizante, que premie toda a contribuição das partes humanas que formaram o País, valendo-se da língua mestra, dominante sobre as demais.

Evidentemente que personagens vencidos, nas insurgências da história, deixaram nome e fama na memória do povo. Antonio Mendes Maciel, o bom Jesus Conselheiro, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampeão, rasgaram com suas alparcatas as trilhas espinhosas das caatingas sertanejas, com seus seguidores, perdidos do tempo e da marcha do País. O belo Monte Santo, no sertão da Bahia, tornou-se um cenário das mais emocionadas refregas, onde homens e mulheres simples, tomados de uma ira santa, enfrentaram armas e poder, com o pensamento fixo no paraíso.

Poucas vezes, na história humana, um pedaço do povo sonhou tão alto a utopia da felicidade, da fartura, da salvação, quase como a repetir o gesto audaz do jovem Rei Dom Sebastião, que tombou sem vida no Marrocos, emprestando na sua espada a coragem da luta pela vitória do cristianismo, contra os infiéis Africanos.

Poucas vezes um pedaço do corpo social Brasileiro sofreu tanto a adversidade da história, sob o terror dos dominadores. A página de Canudos se insere na história do Brasil, como um retrato da tragédia dos fracos, como a saga dos cangaceiros reflete a ousada rebeldia do sem-terra, constituídos em força ilegal, no desafio provocador ao poder.

Mortos, com as cabeças decepadas, os homens e as mulheres do cangaço deram entrada, no panteão da história, pelas estórias, cantigas, rezas e fatos que passaram a ser, nas noites solidárias do Nordeste, os assuntos preferenciais do povo. O tempo não injuriou, ainda, Conselheiro, nem trapaceou com Lampeão. Mas, ao contrário, tanto mais passa, mais o tempo deixa um rastro antigo dessas pessoas, na memória social do Brasil.

Não se formou, portanto, um imaginário próprio, que fosse a expressão legítima do povo Brasileiro, como mostruário de cultura. Predomina, como um bem depositado nas lembranças do mais fiel dos depositários, o repertório universal, como um bem elaborado pacote da Idade Média, destinado a nutrir com a seiva do mais antigo passado, a formação da sociedade brasileira. Diversa e complexa, como são os códigos, a herança medieval no Brasil não pode ser lida na linearidade fácil. É preciso, e será preciso sempre, buscar-se na emblemática, no símbolo, os modos múltiplos de decifração dos repertórios.

A identificação dos arquétipos, a compreensão dos contextos históricos, étnicos, religiosos, políticos, a interpretação das mentalidades, tudo se justifica para elucidar a trama do tecido cultural brasileiro. Enquanto não há pesquisa, tudo continuará funcionando aos ouvidos atentos, pelo toque mágico do “Era Uma Vez...”

A decodificação da cultura é um processo que tem duas fases distintas e igualmente importantes: a da identificação do Fato Cultural, com toda a complexidade de sua procedência, e do valor que a ele corresponde, como agregado moral, que tanto a pessoa, como os grupos sociais, acrescentam. Deste modo, o Fato Cultural é, em si mesmo, um evento da história, mas é, também, uma representação moral do seu convívio.

Ao adotar certos e determinados provérbios, por exemplo, o ser ou o grupo atribui uma preferência, que tanto refaz o itinerário da vigência dos fatos, como o regenera e o nutre com o valor da escolha. Tomando a literatura oral como fonte de exemplo se poderá encontrar, na “Festa no Céu”, tanto o fato — A tartaruga do Panchatantra, ou o cágado, na memória brasileira — como o valor a ele atribuído, em tempos, lugares e situações diversas.

Na estória Indiana, a tartaruga tem nome, tem dois cisnes amigos, igualmente nominados, tem um ambiente próprio à sua sobrevivência e tem um grupo de cidadãos, que interferem no fato. E tem, também, o fundo moral, laico e certamente ajustado à vida social do lugar. No conto Sergipano, o cágado, é o animal semelhante, não tem nome, nem tem amigos e sua morte é determinada por outros animais: a garça, na versão de Sílvio Romero, o urubu, na versão em uso comum.

A moral religiosa impôs, ao final do conto, que somente a onipotência de Deus, ou a intercessão de Nossa Senhora, que é mãe de Deus, seriam capazes de preservar a vida animal, justificando-lhe a feição, para assim ser mais simples à compreensão de todos.

Não há nada, no horizonte da cultura, que não carregue a conotação do valor que o usuário, criador ou intérprete, agrega. Essa axiologia é da mais alta relevância que seja vinculada aos fatos da cultura, como molde complementar da leitura interpretativa. É uma relação constante, que o tempo não altera, e que não descende, tão somente, da herança tradicional que a oralidade e a escritura lograram trazer para o povo Brasileiro.

Ou seja: a cultura não está nunca isenta dos valores, como nunca estará alheia aos sentimentos e as emoções que comanda a vida, especialmente no trânsito do ser perante os fatos que fazem rir e os fatos que fazem chorar, ou, ainda, os fatos que causam espanto e os que despertam admiração, os que provocam o repúdio e os que alimentam e exaltam a coragem da aceitação consciente.

A cultura tem cheiro, tem gosto, tem tudo o que é próprio da vida e do ser no mundo. Por isto mesmo a sua representação, seja pela via elaborada dos textos, seja pelos improvisos dos cantadores de viola, emboladores de coco, seja pelas evoluções das danças e dos folguedos, ou nas representações dos autos, será sempre pulsante, dinâmica, atraente, sedutora.

E por mais que variarem os meios de difusão, haverá sempre uma base, servindo de fonte, a fornecer as matrizes, onde os fatos e os valores serão inseparáveis, como fundamentos de uma mesma verdade, sem a qual nenhum povo constrói seu dia seguinte. Nas escolas, como nas bibliotecas, nas feiras de livros, nos ambientes de criação e de reprodução literária, a cultura é o espelho revelador das identidades, como na história ela é a experiência.

Não importa, por um lado, que as bibliotecas, as livrarias, as feiras de livros, estejam cheias de antigas coleções, onde reis piedosos, belas e castas princesas, aguardam tranqüilos a chegada de um príncipe valente, belo e bem vestido, para casar e ser feliz. Com certeza existirão, no fundo negros das páginas, os ambientes enfumados, onde velhas e vilões ajudam a compor os cenários, valorando a realeza. Não importa que as religiões tenham mudado a geografia do mundo antigo e que já nem prevaleçam, com retrato histórico do povo, as coleções dos fatos vencidos pelo tempo, pois o que importa mesmo é saber que tais livros, tais estórias, carregam as suas próprias memórias.

Importa reconhecer que é dessa forma que se traça o arco do passado, com seus contornos, cartográficos e humanos, donde vem a voz dos portadores de vozes, vem as formas visuais da comunicação possível, como vem, todas as noites, a luz velha das estrelas e constelações, na toalha de um céu que sempre achamos novo.

A sala de aula é um espaço mágico, onde a cultura pode ser servida como gênero de primeira necessidade, fundamental à sobrevivência humana. Nela, aluno e professor, cada um a seu modo, realizam o processo ensino-aprendizagem, que longe de ser um empréstimo de informações, é uma troca de conhecimentos, uma reflexão para o saber.

O aluno, usuário da língua e dos conhecimentos que ela faz transitar, leva para a escola a sua realidade, impregnada dos valores que a herança histórica faz supor. O aluno é ele, é a sua realidade, é o seu grupo e seu contexto. É enfim, como disse Ortega, ele e suas circunstâncias.

O professor, que também faz uso da língua, e acumula maior carga de conhecimento e de experiência, decodifica os repertórios universais do seu domínio, pondo frente a frente os dois meridianos da cultura: o particular, de cada aluno, e o público, acumulado pela humanidade, trafegando nas diversas línguas e linguagens.

Por muitos anos, décadas, séculos, a escola repetiu o modelo hegemônico cultural, impondo línguas, repertórios, expressões de arte, tudo alheio aos alunos. Por isso mesmo sabe-se mais dos fenícios, dos assírios, dos babilônios, com seus reis e heróis, suas histórias e lendas, do que se sabe sobre os mareantes portugueses que descobriram, colonizaram e inventaram o Brasil. Pouco ou quase nada a escola trata dos espanhóis, que de 1580 a 1640 dividiram com Portugal a ocupação e colonização da terra brasileira. Nenhuma palavra sobre a África, nem sobre os africanos e africanizados. Os índios, estes têm um dia, no qual são lembrados pela imitação iconográfica, nas visitação da República dos Curumins, como queriam os Padres Jesuítas.

Uma escola que não reconhece a sua própria tez, a sua própria voz, ignora a história e passa ao largo da realidade cotidiana, certamente não tem como operar o processo ensino-aprendizagem, de forma a ser uma agência de cultura. Uma escola sem vida, sem o murmúrio das insatisfações e sem o burburinho das lutas, é tudo, menos uma escola. E se houver, como considero que há, uma saída para redimir a escola do fracasso cultural, indico a sala de aula, este espaço alquímico, onde se pode unir o mágico e o lógico, onde certamente se construirá a consciência lúcida, para prover o ser da sua própria noção e condição.

É com a criança que a vida torna a começar. Será com ela, com os jovens de todo o Brasil, que a escola resgatará a sua relevância, como centro transformador da realidade. A realidade que entronizou privilégios, requer a ação conseqüente, que é a afirmação do direito. Logo, o câmbio de uma sociedade para outra, pressupõe que os princípios pedagógicos da escola estejam afinados com esse anseio do povo brasileiro. A escola, portanto, tem como princípios de sua pedagogia a liberdade, a democracia, a solidariedade, a prosperidade e a justiça. A liberdade, para escolher seu destino, a democracia para partilhar a escolha, a solidariedade para quebrar com o ciclo individualista do sucesso pessoal, a prosperidade porque nenhum povo sobrevive na pobreza e na miséria, a justiça porque é preciso sempre dividir, com todos, o produto de esforço humano.

O passo seguinte é abrir a escola a todos, em todos os lugares, sem discriminações. Uma escola universal, que não esteja contida pelos limites da lei, mas que proclame a responsabilidade de abrigar, na escolarização necessária, as crianças do pré, do ensino fundamental, os jovens do ensino médio e os adultos do supletivo, sem faltar aquele grupo portador de dificuldades em relação as obrigações da escola, ou será a escola que tem dificuldades, em relação a eles?

A gestão da escola deve ser democratizada, tanto para vencer o autoritarismo rançoso de tantos séculos, como para permitir que os diversos agentes do cotidiano escolar — alunos, professores, funcionários, pais de alunos, comunidade — possam assumir seus papéis, na definição e na administração das prioridades. Será bom, na escola pública, que o provimento da função de diretor ocorra por mérito de Concurso Público.

O leito da reforma administrativa que a escola brasileira requer é o mesmo da reforma pedagógica: o Regimento. Neste País, as leis maiores mudaram, mas os regimentos das escolas permaneceram vigorantes, como entulhos da pedagogia do silêncio. O Regimento da escola deve banir de seu texto toda a parte penal e disciplinar, transferindo-a para o campo próprio, que é o da lei e da justiça.

Assim preparada, e com os retoques físicos de nem ser pequena que passe desapercebida, nem grande que chame a atenção, a escola deve ter o tamanho ideal do seu bom fazer cultural. Na experiência de Sergipe adotou-se quatro salas como o mínimo, doze salas como o máximo, como conjunto pedagógico, acrescido de salas de vídeo, de leitura e laboratório de informática, como conjunto pedagógico complementar, refeitório, campo de areia e quadra de esportes, quiosques, bancos de namorar e outros equipamentos de uso social.

Pronta, a escola pode realizar, na sala de aula, o processo ensino-aprendizagem, que começa com uma pesquisa, pela qual o aluno fala (ou escreve) sobre si mesmo, seu ambiente social, seus informes, crenças, tabus, superstições, seu modo de brincar, os gestos, os repertórios, enfim um apanhado sincero do perfil de cultura daquele pequeno portador de conhecimentos. É com esse sinalizador prático, de simples aplicação, que a escola trava o contato mais próximo com seu alunado. O mais, é com o professor, na sala de aula, nos procedimentos próprios do ensino, da fixação e da verificação da aprendizagem, da reflexão crítica com a qual é construído o saber.

Será sempre conveniente, que o cálculo do jogo de marraio, ou bola de gude, com suas trincadas estratégicas de força, direção, toque, fuga, seja incorporado como prática, que o aluno domina, independentemente de saber das fórmulas que vão julgar, mais adiante, sua capacidade de aprender. Será sempre da maior conveniência que o conhecimento das calçadas e das ruas, apanhados da mais livre relação social, passe a freqüentar a escola e a sala de aula.

As rodas, com sua forma simples e perfeita, seus cantos, movimentos, as demais brincadeiras e os demais jogos, de domínio público, são elementos lúdicos insubstituíveis no campo do trabalho intelectual entre alunos e professores. Com esse material, recolhido diretamente na fonte viva, antes que a criança e que o jovem se convertam em alunos, e com os demais materiais provindos das comunidades, onde vicejam, como novos, os velhos temas do mundo, refeitos a cada representação de autos, ou cada movimento de dança e de folguedo, como vicejam as estórias, as poesias e os ditos sintéticos e moralizantes, coisas mais que da vida, da alma das pessoas e dos grupos sociais que elas representam, a escola terá como colocar-se face a face com a história e com a cultura universal da humanidade.

E terá sido feita a síntese: quem sabe ensina.

No mais são os livros, os discos, as fitas de vídeo, todo os materiais didáticos, para didáticos e referenciais, produzidos no contato com o povo, posto ao dispor de alunos e de professores, para a produção do conhecimento e para a construção do saber.




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