O feitiço do Cálice de Pedra



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Encontro18.09.2019
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* * *

Estava deitada em sua cama, exausta, mas não conseguia dormir. A cabeça doía. Um passo em falso, uma palavra pro­nunciada no tom errado, uma sentença que seus espiões desmentissem, e estaria perdida. Mas conseguira conter o medo. E ele não a impedira de partir quando desejara.

Falar a verdade um ao outro. Havia dito a verdade e mentido em cada palavra... Assim como ele tinha feito des­de que se casaram.

O amanhecer ia penetrando preguiçoso pelas janelas. As portas de seu guarda-roupa estavam abertas. Em torno da cama estava a seda cortada e desordenada. Ulfin as reti­rara de seus lugares, provavelmente para examinar embai­xo da cama. Bruxaria. Era o que ele estava procurando. Não tocara na túnica negra, ainda em seu cabide, como um fan­tasma sem cabeça. Isso era o suficiente.

A porta da ante-sala se abriu, e os passos de um homem soaram fora do quarto. De repente, o silêncio retornou. O homem estava parado, ouvindo... Devia anunciar que esta­va acordada, e assim afugentá-lo? Talvez fosse pior. E se ele entrasse para insistir no interrogatório? Indecisa, ela per­maneceu onde estava, quieta. Ele se movimentava pela ante-sala, movendo objetos, olhando atrás das cortinas, aprovei­tando a luz do dia para tentar encontrar algum sinal que não vira na noite anterior.

Talvez tentasse falar com o sacerdote pálido. O que di­ria o monstro?

Muito tempo depois, ela ouviu a porta se fechar nova­mente.

Mais tarde, Hera entrou com uma refeição à base de fru­tas e pão. Phaedra comeu pouco, dando instruções à criada e orientando-a para repassá-las a todos os habitantes do cas­telo. O senhor de Tarceny e do reino estava em casa. En­quanto falava, ela estudava atentamente o rosto de Hera, que se mantinha sentada e com os olhos baixos, respondendo por monossílabos. Parecia miserável e esquisita. Phaedra estava a ponto de perguntar o que a incomodava, quando deduziu o que era.

Hera havia sido interrogada, e sem nenhuma delicade­za. Devia ter sido sobre Ambrose e os sinais de bruxaria, certamente. E sobre as circunstâncias em que foram feitas cativas nos bosques além de Baer. Devia ter sido informada de que sua senhora cometera um terrível erro. Talvez hou­vesse sido ameaçada para não dizer a Phaedra que pergun­tas tivera de responder e estava apavorada pensando que agora, novamente, poderia ser castigada por sua senhora, que desejaria conhecer o teor do interrogatório.

Phaedra não disse nada. Assim que foi possível, dispen­sou Hera para que cuidasse de suas tarefas. Seria muito me­lhor deixar que ela fosse encontrar algo para fazer do que tê-la ali a seus pés, tremendo o dia inteiro. Felizmente, Martin ainda não havia retornado.

A tarde foi longa. Phaedra passou horas sentada à jane­la do quarto, olhando para o norte, para a paliçada que se estendia como sentinela por toda a terra. Nada se movia naquela região. E ali ela ficou até a luz ganhar uma tonali­dade acinzentada, até as cores se apagarem. Os detalhes se perderam na paisagem, e as encostas das montanhas se transformaram em sombras com a chegada da noite. Quan­do Hera entrou para acender as lamparinas, Phaedra sorriu para ela e pediu que duplicasse as luzes, e depois a man­dou à capela, para preparar, em suas palavras, uma vigília que ela realizaria naquela noite pela alma de seu pai.

Sozinha novamente, Phaedra pegou as duas lampari­nas e colocou-as lado a lado sobre o parapeito da janela. Ela esperou, contando. Quando chegou ao número cem, reti­rou-as de lá e contou novamente. Então as devolveu ao pa­rapeito pela segunda vez, e pela terceira. Finalmente, parou e esperou.

Os minutos passavam.

Ela suspirou e olhou para a paliçada escura. Por que...

Uma luz brilhou entre as árvores. Estava muito mais próxima do que ela esperava. A luz desapareceu, e voltou a aparecer, e novamente. E cada vez ela se movia um pouco, como se alguém caminhasse por entre as árvores com uma fonte de luz, movendo-se paralelamente à muralha do cas­telo e colina acima. Nada que alarmasse um vigia, mas o suficiente para mantê-lo olhando naquela direção, perguntando-se quando a luz voltaria a surgir.

Phaedra tocou a gola da túnica. Dois anos de trabalho, e ela ainda não estava terminada; a seda era fria como metal sob seus dedos. Ela encontrou a costura, segurou a gola pe­los dois lados dela, e rasgou a túnica da gola até a cintura. Ali, bem enrolados, estavam os quinze metros de corda que haviam sido enviados de Baer no interior da seda. Ela subiu em um banco e amarrou uma das pontas em uma viga, prendendo-a com toda a força que tinha. Depois, jogou o restante pela janela, onde ela ficou pendurada ao lado da escada, escondida de qualquer observador no posto da tor­re noroeste.

Era uma noite escura. A lua não surgiria por algumas horas. Phaedra preparou-se para esperar novamente. O que significavam mais algumas horas de espera, depois de tanto tempo? Devia tentar desfrutar da quietude e da escuridão enquanto ainda podia. Logo, as coisas entrariam em movi­mento, e a velocidade dos acontecimentos seria maior do que poderia desejar. Era como se estivesse se aproximando de uma esquina na passagem de sua vida, sem saber o que en­contraria do outro lado. O destino a esperava bem perto. Não sabia qual seria. Em uma das possibilidades, via Ambrose crescer e atingir a maturidade em Chatterfall, com Evalia con­tando a ele que tipo de mulher sua mãe havia sido. Não seria de todo mau. Evalia sempre havia sido generosa.

Não, Phaedra! Ainda havia milhares de chances. De uma forma ou de outra, essa vida intolerável estava chegando ao fim.

Uma porta se abriu. Era a ante-sala de seus aposentos!

Ouvia passos do lado de fora do quarto. Ulfin!

Remover a corda? Não havia tempo. Fechar a porta do quarto com os ferrolhos? Ele desconfiaria de alguma coisa.

Levando uma lamparina, Phaedra foi encontrá-lo.

— Senhor?

Ele estava em suas roupas de dormir, com seu fino robe de seda negra e listras douradas, a espada pendendo de seu quadril.



  • Esperei por você à mesa do jantar, milady.

  • Estava cansada.

  • Pena, já que se esforçou tanto para trazer-me para casa. Partirei ao amanhecer.

Ela se sentou em um banco para encará-lo, perplexa.

  • Não vai fazer nada com relação aos homens que me ameaçaram, senhor?

  • Caw cuidará deles. Acho que são mais espiões do que saqueadores e não creio que tenham sido a razão para a senhora ter feito o que fez.

Ela baixou os olhos.

— Ninguém gosta de ter uma espada em sua garganta, senhor. E nenhuma esposa espera ser ignorada quando pede proteção ao marido.

Ele se acomodou numa cadeira diante dela.

— Onde está Ambrose?

Atrás dela, no quarto, alguma coisa estalou. Ela não ousava se virar. Não conseguia lembrar nem se havia fecha­do a porta.

Ulfin a observava e esperava por uma resposta.

— Quer jogar, meu lorde? Se vencer, talvez eu diga o que deseja saber.


  • Eu vou vencer.

  • Vai descobrir que meu jogo mudou, senhor. Deixe-me jogar com as brancas.

  • As brancas? Bem, se prefere... Para mim não faz di­ferença.

Arrumaram as peças num tabuleiro entre eles. Phaedra batia com as peças brancas na madeira, fazendo grande ba­rulho. Ulfin era silencioso. Ela deixou um peão no centro do tabuleiro. Ulfin fizera seu movimento antes mesmo de ela terminar de arrumar suas peças. Um cavalo no meio do bis­po e da rainha. Inesperado, no mínimo. Ela teve de parar para pensar.

No silêncio, a corda rangeu novamente. Phaedra pen­sou poder ouvir o fantasma de uma sola de couro sobre pedras. Ulfin levantou a cabeça. Ela levou o cavalo à frente, e os olhos dele voltaram a estudar o tabuleiro.

Ulfin jogava depressa, e ela o seguia. Teria preferido pensar com mais calma, mas devia mantê-lo concentrado na partida. E já estava num grande dilema. De alguma for­ma, com o mesmo número de movimentos, ele havia conse­guido avançar mais do que ela. Agora, tinha de adiantar sua rainha, algo que Aun sempre a aconselhara a não fazer.

Tip, tip... As peças se moviam. Grunt, a corda rangia de tempos em tempos.

Ele já devia ter escutado o barulho. E ela tinha de executar outro movimento rápido. Sua rainha estava sendo atacada.



  • Vai perdê-la — ele disse.

  • Mas ainda não sabe o que estou fazendo. — Sua mão hesitou. Os olhos dele acompanhavam cada movimento. E, ignorando o perigo, ela usou um cavalo para penetrar a defesa adversária.

Foi um movimento ousado. Uma farsa. Podia ver a con­trariedade no rosto dele. E então sua expressão mudou. Seus olhos buscaram a porta do quarto. Lá dentro, soava o farfalhar de tecidos e o ranger de botas sobre pedras. Um corpo caiu pesado no chão. Um homem gemeu. Um passo. A ma­çaneta girou.

Aun surgiu na soleira, ofegante.

Ulfin levantou-se sem emitir um som. A mesa balançou e caiu no chão. Phaedra caiu e tentou escapar sobre as mãos e os joelhos. Quando alcançou a porta externa, ela a trancou com os ferrolhos. Depois se virou.

Os homens se encaravam sobre a mobília caída. Ambos empunhavam suas espadas. Os olhos de Ulfin brilhavam na direção dela. Ela estava ao alcance de sua lâmina. Aun estava do outro lado, a um segundo de um ataque preciso. Ela se encostou à porta, furiosa, exibindo os dentes.

Mas Ulfin olhava para Aun.

— Muito bem, vamos lá.

No quarto, a corda rangeu novamente.

Aun atacou, acertando Ulfin na região das costelas, mas ele usava uma malha metálica sob o robe de seda.

— Aqui! — gritou. — Preciso de ajuda! Aqui!

Aun atacou novamente. Ulfin bloqueou o ataque. Não tinham espaço para grandes movimentos. Aun tentava co­locar-se entre Ulfin e a porta, mas foi repelido mais uma vez. Ulfin também olhou para a porta, mas ela estava aferrolhada, e teria de abri-la enquanto mantinha Aun afas­tado com a outra mão. E teria de cortá-la, antes de mais nada. Phaedra olhou em volta procurando por uma cadeira ou um banco que pudesse colocar entre ela e a espada.

— Guardas, ajudem!

A corda rangeu. Um segundo homem pulava a janela.

Ulfin atacou, mirando a cabeça de Aun, e depois, sua coxa, mas ele se esquivou, gemendo ao sentir a lâmina atin­gir seu cotovelo e as costas. Phaedra encolheu-se e gritou quando a espada curta de Trant atingiu o rosto de Ulfin. Ele caiu sem emitir um só grito.

Aun se manteve sobre ele por um momento; então sa­cou uma faca que levava na cintura.

— Não o mate! — Phaedra pediu.
Ele a encarou.

Outro homem esperava na porta do quarto. Além dele, a corta rangeu novamente.

— Está ferido? — perguntou o recém-chegado.

— Sim e não — respondeu Aun —, mas vou ficar bem. Eles ouviram?

Phaedra colou o ouvido à porta. Podia ouvir sons dis­tantes.


  • Não sei.

  • Quantos na porta do fundo?

  • Dois, eu acho. Desça a escada e vire à direita, depois novamente à direita na passagem para os depósitos. Eles devem estar na saleta no final do corredor, à esquerda da porta. Não quero que os mate.

Um terceiro homem pulava a janela.

  • Vamos, então. Mantenha os outros em estado de aler­ta. Não podemos esperar.

  • Chawlin está na corda.

  • Então, acene para afastar os outros. Chawlin pode vigiá-lo — Aun decidiu, apontando para Ulfin, no chão. — Vamos.

Passaram pela porta com suas armas em punho. Phaedra viu o sangue de seu marido na lâmina de Aun. Abriu a boca para dizer alguma coisa sobre não matar, mas calou-se, sa­bendo que o pensamento era inútil.

Os ferrolhos foram removidos. A porta se abriu para a escuridão do corredor. Ninguém os deteve. Os homens saí­ram silenciosos.

Estava sozinha.

Ela pegou a espada de Ulfin e a colocou fora do alcance das mãos dele. Era pesada e fria. Supunha que, se os solda­dos viessem agora, poderia ameaçá-los com ela, mas seria melhor trancar a porta novamente. De fato, era o que faria imediatamente. Mas...

Ulfin estava caído no chão do quarto. Seu rosto estava voltado para baixo, mas ele tentava levantar a cabeça. Ha­via sangue. Muito sangue. E ele gemia.

Devagar, ela se levantou e foi para o quarto, onde a cor­da balançava solitária. Ela rasgou uma tira bem larga de sua preciosa seda preta e, quando empurrava o fardo para perto da cama, viu um par de mãos surgindo na corda além da janela. E uma cabeça. Era o jovem que a defendera na floresta. Ele enfrentava dificuldades.



  • Aqui — Phaedra chamou-o, ajudando-o a pular a ja­nela. O rapaz caiu exausto no interior do quarto.

  • Onde eles estão?

—Desceram. E você deve ficar aqui. Venha e ajude-me.

Ela levou a seda para a ante-sala e, ajoelhando-se ao lado de Ulfin, segurou sua cabeça. Seu rosto estava banha­do em sangue, e havia uma poça impressionante no chão. Ele parecia fluir abundante da face e da testa. Phaedra usou o tecido para pressionar o ferimento, tentando estancar o sangue. Era inútil. O rapaz se aproximou para sustentar a cabeça de Ulfin, enquanto ela a envolvia com a seda e a amarrava com força. Então, eles ergueram os ombros de Ulfin e o arrastaram para o quarto, onde o colocaram na cama. Os dois se entreolharam. Estavam sujos de sangue, e havia uma longa trilha no chão.



  • Precisamos de mais bandagens — o rapaz decidiu. — E água.

  • Pegue tudo que for necessário — disse Phaedra, apon­tando para os fardos de seda. — Vou procurar um jarro. Fico... feliz por ser você, Chawlin.

Era o máximo que se aproximaria de agradecer por sua interferência no acampamento.

Hera havia deixado um jarro com água potável sobre uma das mesas da ante-sala. Mas a mesa fora derrubada durante a contenda. O jarro estava quebrado e seu conteú­do ensopava o tapete. Phaedra hesitou, olhando em volta. Podia ouvir gritos não muito longe dali. Alguém fazia soar uma trombeta; um alarme. Não se lembrava de quando o som havia começado. Passos ecoavam no corredor, aproxi­mando-se rapidamente.

A porta permanecia aberta! Não tivera tempo de trancá-la.

Uma figura surgiu na soleira, armada, olhando para dentro. Era Tancrem. Seu rosto tornou-se mais duro ao re­conhecê-la, mas ele não entrou.

— Como chegamos ao salão?

Ele devia estar vindo dos depósitos. Havia mais três homens com ele.



  • Sigam em frente pelo corredor. Antes de alcançarem a porta da torre, verão uma escada que desce, à direita. Ela os levará à galeria. O que está acontecendo?

  • A guarita interna é nossa. Mas eles ainda defendem o salão, e existem mais na muralha. Fique aqui.

Ele se virou e correu na direção indicada, seguido de perto pelos outros homens. Em algum lugar, alguém grita­va. O som era abafado pelo de uma trombeta, mas voltava a ecoar pelas paredes do castelo. Quem estava no salão? Ho­mens como Caw e Albernay, sem armadura, lutando mal armados por um senhor que não sabiam ter caído? E ela precisava de água. Phaedra olhou pela porta e constatou que o corredor estava vazio.

Os gritos soavam mais altos à medida que ela prosse­guia atrás de Tancrem. Podia ouvir o choque de metal con­tra metal, e alguém gritava de dor. Na porta da torre ela parou e ouviu, mas não havia nenhum som além dela. Ou os guardas abandonaram seus postos lá em cima, ou estavam muito quietos.

Do salão vinha o estrondo de um combate feroz. Ho­mens exigiam rendição, outros gritavam em desafio. Ela desceu a escada cambaleando. A galeria estava vazia.

O salão era a imagem do caos. Mesas viradas, comida espalhada pelo chão, homens caídos aqui e ali como bêba­dos num cenário de orgia. Tancrem e seus homens estavam reunidos na porta, por onde outros entravam numa verda­deira torrente, todos seguidores de Septimus. Eles removi­am uma mesa da porta, um móvel que devia ter sido usado como barricada pelos defensores até Tancrem atacá-los pela escada da galeria. Do outro lado do salão, meia dúzia de homens de Tarceny seguravam uma mesa tombada e se es­condiam atrás dela, encolhidos num canto. Estavam em nú­mero muito menor do que seus atacantes. E haviam notado sua presença.

A trombeta já não soava. Por um momento, ela conse­guiu pensar. Identificava a cabeça grisalha de Caw entre os defensores.

— Baixem suas armas! — ela gritou. — Baixem-nas agora!

Por um momento, todos olharam em sua direção. De­pois gritaram. Eram ameaças, pragas, maldições. Um braço se ergueu, lançado à frente. Alguma coisa cortou o ar voan­do em sua direção. Uma faca! Ela se chocou contra uma parede à sua esquerda. Os homens na porta gritaram e se lançaram para dentro do salão, atirando-se sobre as mesas. Aço e sangue se misturavam numa dança macabra, e da galeria uma mulher de dezenove anos assistia estupefata à matança que desencadeara em sua própria casa.

XXII

Os Poderes da Sombra

Havia um homem encolhido entre os vasos de menta no pátio da corte. Era Vermian, e estava morto. Os braços e a cabeça eram um emaranhado de cortes de espa­da, e seu último gesto havia sido erguer os braços para pro­teger o rosto. A luz da lamparina de Phaedra, seus olhos abertos brilhavam de forma sinistra.

Estava acabado. Os homens sem líder na muralha ex­terna se haviam rendido. Diante da guarita do portão, o príncipe Septimus se ajoelhara e, grato e feliz, beijara a bar­ra de seu vestido ensangüentado. Ela providenciou para que os feridos, Caw entre eles, fossem levados para um hospital improvisado em um dormitório. Vira os prisioneiros serem levados para um sólido depósito de onde não poderiam es­capar. Vira os olhares que lhes eram lançados. Um homem havia sido chutado e amarrado pelos guardas por ter grita­do algo que ela não ouvira.

E agora eles reuniam os mortos.

Alguém atravessava o pátio em sua direção. Ela ergueu a lamparina. Martin emergiu da escuridão e olhou para o homem aos pés de sua senhora.



  • Ele planejava se casar — explicou Phaedra.

  • É necessário que haja sangue para deter uma guerra, milady. E se ela não for detida, haverá sangue mesmo assim. Com sorte, esta poderá agora ser encerrada.

Phaedra virou a cabeça. Queria apagar da mente as hor­ríveis imagens. Queria chorar, mas não conseguia; estava enjoada e exausta.

  • Quando chegou?

  • Há meia hora. O portão do fundo estava aberto, e não havia ninguém lá para guardá-lo.

Ela olhou em volta.

  • Viu Hera?

  • Na capela. A porta está trancada. Devo voltar e dizer a ela que pode sair de seu abrigo. Mas, antes, quis encontrá-la. Está ferida?

  • Não. O sangue que vê em minhas vestes não é meu, mas de Ulfin.

  • Dizem que ele a está chamando.

  • Não quero vê-lo. Ambrose...?

  • Estava bem quando o deixei. Quando compreendeu que eu vinha para cá, ele me deu algo para você. — O sacer­dote retirou algo de sua bolsa e entregou o objeto a Phaedra. — Dê para mamãe, ele me disse.

Era uma das pedras brancas. Ela cerrou os dedos em torno do objeto.

Martin parou ao ver o corpo de Vermian.



  • Vou levá-lo para dentro.

  • Precisa da luz?

  • Não.

  • Não se esqueça de Hera.

Ele resmungou alguma coisa, e Phaedra deduziu que ele já havia esquecido, apesar de tê-la mencionado um mo­mento antes. E lembrou-se de que ela havia saído de seu quarto para ir procurar água para limpar o rosto de Ulfin. Isso havia sido horas atrás.

O pátio estava escuro e quieto. A bacia de pedra da fon­te brilhou sob a luz da lamparina quando passou por ela; o lugar em que ela e Ulfin haviam trocado um beijo em seu primeiro dia em Tarceny. A bacia estava vazia. Suas águas estavam silenciosas agora.

Chawlin levantou-se quando ela entrou na ante-sala de seus aposentos. A porta para o quarto estava aberta. Podia ver luz além dela, e a forma de um homem sobre a cama.


  • Como ele está?

  • Consciente. E com dores, é claro. Creio que o sangramento foi detido.

  • Sente-se, por favor.

Alguém, Chawlin, presumivelmente, tinha levantado as mesas derrubadas na luta. O lugar havia sido arrumado. O sangue fora removido do chão... Não. Não podia ser. Mas ele arrastara o tapete para cobrir as manchas. O quarto exi­bia uma aparência serena e inofensiva. Além do próprio Chawlin, um rapaz de ar calmo com uma espada sobre os joelhos, não havia mais ninguém nem qualquer sinal de que alguma coisa tivesse acontecido ali.

Phaedra hesitou. Pela janela podia ver a silhueta da pa­liçada se estendendo ao norte do castelo. A noite estava mais clara do que antes. Em algum lugar além das torres e nu­vens, a lua se erguera novamente, espalhando pelo céu um brilho desprovido de cor. Ela sentia um súbito desejo de estar lá, movendo-se pelo vasto piso da noite, longe das pe­dras onde espadas haviam cortado carnes e todos os seus males eram lembrados.

Lá fora, na suave escuridão. Mas a noite nunca fora sua amiga. Havia pedras sob seus pés e uma lamparina em sua mão, e além da porta jazia o homem que ela traíra.

Phaedra entrou no quarto e deixou a chama da luz so­bre uma mesa. Chawlin, ou alguém, também havia traba­lhado ali. Os tapetes e lençóis sujos de sangue tinham sido empilhados em um canto, e as sedas, foram empurradas para debaixo da cama. A túnica desaparecera. Ulfin estava deitado, com a cabeça envolta por tecido, de forma que só um olho era visível. Ele a encarava.



  • Aqui estou — ela disse.

  • O que aconteceu? — Falar parecia causar dor ainda maior.

  • O castelo foi tomado. Septimus está aqui. Você é seu prisioneiro.

  • Por que...?

  • Por que eu...? Então não sabe?

  • Não.

Ele não parecia ressentido, acusador ou contrariado. Ape­nas confuso. Perplexo. E isso era ainda pior. Por um mo­mento ela não foi capaz de encará-lo. Não o mate! Podia ter deixado os invasores cortarem sua garganta e encerrar o assunto. Porque eles deviam matá-lo. Não podiam permitir que vivesse. Não depois do que ele fizera. Em alguma pra­ça de mercado, diante de uma multidão...

  • Por que... por que devo justificar-me diante de você, Ulfin? Teria me deixado para morrer nas rochas. Você...

  • Mas você não corria... perigo.

  • Não? Não? Agora perdeu a memória? Ou está se es­condendo até de si mesmo? — Ela se virou.

  • Phaedra!

  • Não tenha medo. Não vou embora. — Ela se dirigiu à porta para a ante-sala. Chawlin ergueu os olhos. Devia ter escutado cada palavra do que fora dito ali.

  • Por favor, mande avisar irmão Martin — Phaedra pediu ao rapaz, que hesitou. — Ele é o capelão do castelo. Creio que o encontrará na capela, lá embaixo.

Chawlin saiu. Ela fechou a porta e retornou ao quarto.

— Martin me encontrou — disse. — Não sabia que ele havia estado naquele lugar, não é? Ele poderá relatar o que aconteceu comigo depois de sua partida. E depois, creio que ele deverá ouvir o que você tem a dizer.



  • Quer uma confissão? Penitência? Eu não. E nem que­ro um sacerdote.

  • Para mim, então.

  • Se quiser...

E eles esperaram.

Depois de um tempo, ele a encarou novamente.

— Meus homens?
Phaedra pigarreou.


  • Sei que nove estão mortos. Pode haver mais. Albernay estava entre eles. Caw e Hob foram feridos. Es­tão no hospital improvisado com alguns outros. O restan­te foi feito prisioneiro. — Não diria que alguns poderiam estar, e provavelmente estavam, escondidos dos homens de Aun em recantos obscuros do castelo.

  • Diga a Septimus para matá-los.

  • O quê?

  • Não desejo o mal para meus homens. Mas os que sobreviverem a perseguirão. E Orcrim. Precisa pegá-lo. E...

— Não quero derramar mais sangue, Ulfin.
Ele sorriu com amargura.

— Mais sangue será derramado. Esses homens... seguem Septimus. Mas lutarão. Quando eu estiver acabado, lutarão entre eles mesmos.

Então ele sabia que não havia esperança.

— Septimus os conterá.



  • Septimus também lutará. Mais do que todos. E Lackmere. Lutarão por você.

  • Não!

Não haveria disputa. Era hora de parar. E quando tudo acabasse...

Septimus pedira sua mão. Talvez ele repetisse o pedido. O que Aun faria? E havia a Fronteira. Tarceny seria dela se Ulfin desaparecesse. E as propriedades de Trant. Tarceny e Trant: chaves para o reino. Alguém desejaria tomá-las, por meio dela. Podia antecipar o jogo que se abria diante de seus olhos. Algo em seu coração ficou gelado.



  • Pensei em pedir clemência para você — ela revelou, tentando entender por que alimentava uma esperança que, sabia, era vã.

  • Eles não vão me enforcar. Fui rei. E uma mosca na teia. As duas coisas ao mesmo tempo. Agora acabou. Não é Septimus...

  • O que está dizendo?

  • Ambrose ainda tem as pedras?

Ela apertou aquela que ainda estava em sua mão.

  • Sim — respondeu.

  • Estou acabado. Mas feliz, Phaedra. E melhor. E pode­rei encarar meus irmãos quando os encontrar.

Novo silêncio. Além da janela, a chuva se aproximava. A escuridão era completa.

  • Calyn sabia — ele continuou. — Pegamos as pedras juntos, mas, mesmo então, ele já sabia mais do que eu. Ten­tou prevenir-me. E seu último ato foi enviar-me as pedras brancas que ele havia retirado dos dentes de Capuu no pego. Nem mesmo o amor e a ira da Mãe do Mundo pode passar por elas. Talvez, se Calyn não houvesse... Mas eu já havia começado. Conversamos. Eu havia recebido o Cálice. E a vi à beira do pego. Sim, fiz meu pacto.

  • Pacto? Que pacto?

A porta do quarto se abriu.

— O capelão, milady — anunciou Chawlin.

Martin vestia uma batina simples e mantinha a cabeça coberta por um capuz. Ele entrou com passos silenciosos e parou ao lado de Phaedra.


  • Que pacto, Ulfin?

Ele olhava para o teto.

  • Um acordo que deixei de cumprir.

  • E os termos?

  • Irão... comigo.

  • Talvez eu possa ajudá-lo — ela insistiu, estranhando a voz calma e seca, que poderia pertencer a outra pessoa. — Queria poder, é claro. O Cálice lhe dava esse poder. A capa­cidade de ver longe, de andar em sonhos e atravessar o mundo movendo-se por lugares sombrios. Muitos truques dessa natureza. Creio que os escreveu em um livro, que pode estar perto daqui. Eu dei a você o poder de amar e ser ama­do por alguém com quem você escolheu beber desse Cálice. Enfeitiçou-me, Ulfin. Pensou que eu jamais descobriria so­bre o que roubou de mim?

A voz dela tremia. Ulfin permanecia deitado, e Martin sentou-se. Todos eram como estátuas enquanto ela falava. Phaedra respirou fundo. O preço...

— Mas antes de tudo foi pela vida de seu pai, para vingar o irmão com quem você se havia ligado pela água. Sabe que em dois anos nesta casa eu nunca me perguntei como você havia conseguido pôr fim à vida de seu pai? E estava bem aqui, diante dos meus olhos. Caw apagou rapidamente as marcas que vimos na escada. Tão depressa que eu pensei... talvez... que aquelas coisas já houvessem sido encontradas na casa antes. Diante da lareira do salão, onde o padrão do piso foi modificado, trocado por már­more negro, porque você não conseguiu obter o branco.

A chuva batia forte contra a janela.

— De que outra forma, diga-me, um jovem sem amiza­des poderia ter vencido um senhor tão cruel e bem armado? E você seguiu adiante. Quando Trant caiu, vítima de sua arte oculta, embora tenha permitido que eu e todo mundo pensássemos que a culpa era minha, você investiu contra a vida do rei. E o rei morreu...



  • Você mentiu!

Ela o encarou.

  • Disse... que não havia falado com ele.

  • Se houvesse mentido para você, Ulfin, não teria sido a primeira a enganar nesse matrimônio. E eu não menti. Não falei com ele. Ele falou comigo, no pego, quando me deu a água que finalmente rompeu o elo entre nós. Essa é a verdade. E é o tipo de verdade que você me tem dito há dois anos. E eu? Por que me enfeitiçou, usando um encan­tamento para manter-nos unidos por todos esses anos? Foi por Trant: o caminho que percorreria para o coração do rei­no. Ou foi porque... porque somente por mim você poderia pagar seu preço? Como poderia viver comigo, Ulfin? Como poderia ter permanecido casado comigo, olhando em meus olhos, sabendo que o preço a ser pago era a vida do nosso filho?

  • Não!

  • Para um pai, a vida de um filho, ele disse. Para um rei, a vida de um rei, Ambrose Umbriel, o rei que um dia seria. Preferiu me deixar morrer a fazer essa revelação. E por isso fiz o que fiz!

  • Eu... não o conhecia! Phaedra! — Ulfin levantou-se, apoiado em um cotovelo. Seu rosto se contorceu na dor. Ela viu a abertura na gola de sua camisa e uma pequena chave preta pendurada em uma corrente em seu pescoço. Ele se esforçou para não perder o controle, para manter-se calmo. — O que diz é verdade...

  • Verdade! — Phaedra gargalhou histérica. — Nunca pensei que um dia ouviria essa palavra de sua boca! Dizer a verdade um ao outro! Que maldição foi aquela! Cumprir suas promessas, incluindo a promessa que fez a ele. Qual foi a outra? Que suas vidas sejam espelhos uma para a ou­tra! Nós dois levamos nossos pais à morte. Você fez um pacto para ser rei e ofereceu seu filho. Eu fiz um pacto com o rei, para salvar seu filho. E meu preço foi você. Pelos Anjos!

  • Phaedra... pense o que quiser. Mas não pense que eu poderia dar um filho que conhecesse pelo poder, ou me casar com você por qualquer outro motivo que não fosse você mesma. Quando fiz esse pacto... não sabia qual seria o pre­ço. Ele só disse que o revelaria quando chegasse o momen­to. Eu era jovem, estava sofrendo, odiando tudo e todos... Teria dado qualquer coisa que tivesse ou que acreditasse que um dia teria para me vingar de meu pai. Depois disso... apenas usei o que ele me deu. Nunca houve uma só palavra sobre preço. Presumi que ele me favorecia por ser eu o últi­mo da linhagem de seu pai. E ele me mostrou você à beira do pego. Lembra-se disso? Estava perto de entregar-se à morte quando falei com você. No entanto, se soubesse qual seria o preço, jamais teria pedido para desposá-la. Acredite nisso. Só quando falei com ele depois de tomar Trant pude compreender o que ele pretendia. E então já estava comprometido com a guerra contra o rei... uma guerra que eu não poderia vencer sem a ajuda dele. Então, retornei, quando pude, para você. Pretendia levar Ambrose naquela ocasião. Mas, quando o vi, quando ouvi o nome que havia escolhido para ele, quando me dei conta de quanto a amava... Não pude desistir dele.

Orcrim e Caw o haviam prevenido, apontando uma se­melhança imaginária com o irmão que ele tanto amara. Haviam deduzido, esses homens que agora ele a queria con­vencer a matar. Salvaram seu filho enquanto ela ainda igno­rava o perigo. Phaedra respirou fundo para falar, mas agora era inútil.

— Então, rejeitei o Príncipe Sob o Céu. Entreguei a Ambrose as pedras que mantinha para minha proteção. Cerquei-me de homens armados, sabendo que ele e os dele podem ser feridos pelo aço. Não usaria mais o poder por ele oferecido, embora meus homens pagassem caro por isso. E fui para as montanhas, onde você me encontrou, para informá-lo de que não poderia ter aquilo que desejava, e para fazer outro pacto.



  • Descobriu que precisava dele mais do que ele preci­sava de você.

  • Se eu pudesse impedir tudo isso... sim...

  • Confiou a uma criada e a uma ama-de-leite segredos que não confiou a mim.

  • Elas entendiam o que você não podia entender.

  • Quer dizer que elas não fariam perguntas que eu teria feito! E nos deixou aqui. Saiu para usar o poder que, sabia, só poderia ser retribuído de uma maneira. Deixou que ele o li­bertasse do amor que havia criado entre nós, porque assim teria forças para pagar seu preço. A vida de Ambrose!

  • Há outra interpretação.

Ela parou. Ulfin se deixara coroar em seu retorno das montanhas. Por quê? Para um rei, a vida de um rei. Ele se tornara rei, de fato, enquanto Ambrose...

  • Está dizendo que teria oferecido sua vida...?

  • Não se eu pudesse... evitar. Esperava que o tempo me trouxesse uma terceira opção. Mas, se não...

Ele havia exigido saber onde estava Ambrose. Mas tam­bém a prevenira sobre a necessidade de manter o menino longe dele, escondido. Se havia realmente sido pego nessa rede ainda na juventude... Se havia colocado a própria vida em risco duas vezes pela segurança do filho... Pela primeira vez desde que passara pela porta, Phaedra sentiu sua con­vicção fraquejar. A nitidez amargurada que conduzira seu discurso se dispersava.

Ulfin olhou para o sacerdote para ver se ele também o entendia.

E ficou paralisado.

Então, como uma serpente, seu braço se distendeu, e a mão agarrou a batina do religioso. O capuz caiu.

Não era o rosto de Martin sob o tecido.

Uma cabeça pequena, quase sem cabelos, ostentando um fino círculo de ouro. A pele de um tom amarelo meio acinzentado que se cobria os ossos, rígida. Olhos fundos em órbitas profundas como pegos entre rochas escuras. O sacerdote pálido fitava impassível o homem diante dele.

— Mais uma vez distorce a verdade, filho de Talifer — ele disse. — Recusa-se a me entregar o menino. No entanto, presumiu que se, apesar de seu empenho, eu pudesse pas­sar pelo círculo de pedras brancas e tomá-lo, você se encon­traria sem dívida ou culpa, e toda a responsabilidade recai­ria sobre as três mulheres fracas encarregadas de guardá-lo. Terei minha retribuição. Não há uma terceira alternativa. Não há uma segunda chance. Se um homem tenta enganar-me, cobro o preço dobrado. Sua vida é minha, filho de seu pai e rei autoproclamado. E mesmo assim, não salvará seu filho. O menino não poderá ficar dentro do círculo para sem­pre. Um dia eu também o terei, e então nosso pacto se cum­prirá. A não ser que o seguinte aconteça — ele continuou, virando-se para Phaedra. — Faço uma oferta somente a você. Vinte anos de vida, por seu marido ou por seu filho. Um deles será meu imediatamente, ou assim que um mensagei­ro puder atravessar o lago. Escolha depressa.

Phaedra não conseguia responder. Como ele chegara até ali? Onde estava Martin? A voz do religioso soava do outro lado da porta, conversando com Chawlin; confuso, porém despreocupado. Dez passos distante de onde ela conversa­va com o sacerdote pálido.

— Pensa contra mim, filha de lavradores? Não pode! Sua vida é minha três vezes. Mandei o sacerdote tolo ir resgatá-la entre as pedras. E a despertei antes que morresse de fome por um amor que já a havia traído. Você é minha. Não pode escapar. Escolha. Vinte anos é um bom tempo de vida. Muitas crianças que nascerão amanhã morrerão antes disso. Ou cinqüenta anos para o homem, e talvez ainda te­nha mais filhos.

Ele poderia livrar Ulfin da execução? Faria tal coisa? Mas não podia oferecer a vida de seu filho. Ele devia saber disso. Devia saber, e Ulfin também sabia que escolha ela faria. Se a poupara fora para usá-la como peça em seu jogo. Todos es­peravam por sua decisão.

Ela apertou a pedra branca em sua mão.

Ele a poupara para levar Ulfin à derrota. Poupara sua vida apenas para esse momento. Queria que Ulfin a ouvis­se condenando-o. E, ainda assim, ela estaria fazendo um pacto com o sacerdote pálido.

— Eu o rejeito.

—Não pode. Terei um ou outro, ou os dois. Escolha.


Nada era real ali, exceto a pedra branca que lhe fora en­viada por seu filho.

  • Não.

  • Vinte e cinco anos!

De repente, ela riu. Não conseguia imaginar que propó­sito movia o sacerdote. Mas ele demonstrava fraqueza, e embora ainda sentisse medo Phaedra sabia que podia e de­via resistir. E Ulfin se esforçava para levantar-se, o olho des­coberto fixo na aparição, sua sombra distorcida erguendo-se como um anjo na parede atrás dele.

  • Velho! Verme rastejante e mentiroso! O que signifi­cam seus pactos e promessas senão a ruína daqueles que o presenteiam? Não fez nada em trezentos anos além de le­var a desgraça e a destruição à casa de cada um de seus irmãos? Porque eles o deixaram sem nenhuma terra a não ser aquela que não conseguiu sustentar e manter. Invejoso, infeliz, enganado! Ouça-me! Eu pagarei seu preço... nosso preço... com meu corpo. Mas depois você partirá, porque minha casa não terá mais nenhuma dívida com você.

  • Você é meu, e sua casa será minha, e só então tere­mos cumprido nosso pacto.

Mas Ulfin respondeu, Ulfin e alguém atrás dele, porque havia uma nova luminosidade em seu olho e um poder em suas palavras que vinha de longe, de algum lugar muito além das fronteiras do mundo.

  • Escute essas palavras, Paigan filho de Wulfram. Es­cute-as bem, Último dos filhos de seu pai. Pelo último dos filhos...

  • Chega! — O sacerdote abriu os braços. O quarto se enchia de formas e sombras. O ambiente foi invadido pelo cheiro de pedras úmidas. Estranhos sussurros e lamentos chegavam aos ouvidos daqueles que ali estavam. A voz de Ulfin erguia-se acima de todos os sons, sofrida e entrecortada, mas com o peso de muitas estrelas cintilantes.

Pelo último dos filhos de seu pai você será vencido!
E então eles o pegaram.

Formas pequeninas e encapuzadas se ergueram em volta da cama. Tábuas do piso se quebraram. Ela viu a cabeça de Ulfin ser puxada para trás, suas pernas se debaterem. Al­guma coisa com olhos e um bico voava por cima dela, empurrando-a para longe com a força de uma rajada de vento. Ela sentia. Ouvia o grito de Ulfin.

— Chawlin! — chamou. — Chawlin!

O quarto estava lotado. A porta explodiu ao ser aberta. Chawlin estava ali, empunhando a espada. Martin o seguia. Ela viu Chawlin agarrar um membro de sombra, e viu a criatura grasnar no rosto de seu oponente. Chawlin enco­lheu-se com um grito.

Martin gritava os nomes dos anjos. Phaedra se arrasta­va sobre as mãos e os joelhos, e bateu com a pedra branca contra uma perna de pedra. Ela se moveu, arrastando Phaedra pelo chão de tábuas partidas. A espada sibilava sobre sua cabeça. Houve um estrondo e um grito. Pés cor­riam do lado de fora do quarto. Havia homens na ante-sala. Todos gritavam.

Eles tinham a espada. Duas, três mãos com garras agar­ravam a lâmina, negro contra o metal cintilante. Chawlin a puxava pelo cabo. Phaedra viu o sacerdote pálido observando-a do outro lado do quarto, atrás do mar de sombras e criaturas. Então, ele se virou para a parede e sumiu. O quarto estava vazio.

— Por Miguel! — Chawlin exclamou, encostando-se à parede mais próxima.

O mau cheiro era insuportável. As tábuas do piso esta­vam marcadas, quebradas. A cama também se partira. Ulfin jazia numa poça de sangue ao lado dela. Phaedra se arras­tou até ele e parou ao ver os ferimentos. O peito, os braços, as pernas e o rosto exibiam ranhuras profundas e sangren­tas. Martin o segurou pelos ombros para virá-lo.

Mesmo agora, ele ainda não estava morto. O olho se abriu. Os lábios se moveram.


  • Erga... a pedra do rei. Homens das colinas... ajudem... Erga... — Ele tentou tossir, mas não conseguiu.

  • Ulfin?

Não houve resposta.

Alguém se ajoelhava ao lado dela. Era Septimus. Phaedra o encarou e percebeu que o quarto abrigava muitos de seus seguidores.



  • São os mesmos ferimentos que vimos no corpo de meu pai — ele contou. — E no de meu irmão.

  • E no antigo senhor de Tarceny — alguém acrescen­tou. — A justiça tem um rosto duro. Ele está morto?

  • Sim — confirmou Septimus. Depois ele se levantou. — Senhora, muitas coisas aqui podem causar estranheza. E muitas, bem sei, jamais serão esclarecidas ou conhecidas. Mas, se conhece a causa do que aconteceu aqui, tem o dever de me dizer.

  • Conheço. — Trêmula, ela removeu a corrente com a chave do pescoço de Ulfin e levantou-se. Pensava em como o coração dele havia batido contra a chave de seus sombrios segredos, e o dela batera contra o anel que Ulfin lhe dera. O coração dele agora havia parado. O dela também...

Phaedra olhou em volta. Aun estava ali, e Tancrem, Chawlin, Septimus e meia dúzia de outros homens, todos olhando para ela como se de repente se transformasse em uma criatura com chifres e rabo.

— Venham comigo.

Ela os levou à Sala de Guerra. A arca negra estava sobre a mesa, trancada. Ela usou a chave para abri-la.

A arca não estava mais vazia, como antes. Dentro dela havia uma vasilha de pedra, com uma haste e uma base larga, como um cálice. Ao lado havia um livro. Septimus pegou a taça e examinou-a curioso. Havia uma espécie de serpente entalhada na borda.



  • Um trabalho grosseiro — comentou alguém.

  • Não. O entalhe foi feito pelas mãos de um príncipe — disse Phaedra.

  • Ele explicou a você o propósito dessas coisas?

  • Não. Só tinha visto o Cálice em meus sonhos. Havia água nele, e por ela ele enxergava longe, derrotando assim seus inimigos. —Aun assentia. — Ele podia atravessar gran­des distâncias rapidamente e passar por portas que esta­vam trancadas. Isso o ajudava. E... havia outros usos. — Lembrava-se do sabor da água em seus sonhos, morna e doce como o mais suave mel. — O livro eu nunca havia visto antes, embora suspeitasse de sua existência. Não sei se há alguma bruxaria neles. Creio que os feitiços vinham por intermédio desses objetos, mas de muito longe. — Usa­va a palavra bruxaria para se fazer entender pelos presen­tes, mas o som era estranho mesmo aos seus ouvidos.

Septimus pegou o livro e virou algumas páginas. Era evidente que nem ele nem os que se aglomeravam atrás dele sabiam ler bem.

  • Seria melhor destruí-los — sugeriu um homem.

  • Ainda não — respondeu Septimus. — Talvez possa­mos usá-los para saber mais sobre esse mal que nos ameaçou. O Cálice permanecerá aqui, guardado e em segredo. E, lorde Lackmere, leve o livro para o sul. Mantenha-o em sua casa e não permita que ninguém se aproxime dele sem mi­nha autorização.

Aun não apreciou a missão, e Phaedra podia ver a con­trariedade estampada em seu rosto. Não era apenas o livro. Ele não queria ir para o sul, voltar para a família e viver em sua casa. E Septimus sabia disso, mas insistia em mandá-lo para longe. Se Septimus não revelera o que planejava para Trant ou Tarceny, era claro que seus planos não incluíam Aun.

Ulfin estava certo. Eles já começavam a se mover uns con­tra os outros. Quem quer que fosse designado para ocupar Tarceny seria privilegiado. Uma viúva que desejava afirmar sua pessoa como senhora de muitas terras em Tarceny e Trant precisaria de poderosos seguidores, aliados e, prova­velmente, um novo marido. Todos sabiam disso. E se Septimus pretendia realmente colocá-la a seu lado no trono em Tuscolo, se pudesse encontrar os homens certos para manter Tarceny e Trant em seu nome, seria mais forte do que qualquer outro rei de que se tinha notícia na história.

Estava muito cansada. E sentia-se furiosa. Essas meias pessoas! Matadores competentes! Eram corajosos e falavam de justiça, mas no final compartilhavam em todos os senti­dos as faltas de Ulfin sem terem sequer um grama de sua sabedoria ou visão. E eles decidiriam seu futuro. Seria uma peça no tabuleiro, amada e odiada apenas pelas vantagens que pudesse proporcionar. Quanto tempo até que um deles lembrasse quem era o pai de Ambrose? Septimus cumpriria sua promessa, mas quantos barões ou condes poderiam de­sejar o trono? Não permitiria que isso acontecesse.

Queria partir, encontrar um lugar naquela casa, sua casa, onde pudesse descansar. Mas ainda havia algo a ser feito.

— Posso ver o livro, por favor? Não vou demorar.

Aun atendeu ao pedido sem esperar pelo sinal de apro­vação de Septimus.

Ela virou as páginas, algumas vazias, outras cobertas pela caligrafia de Ulfin. Não era um livro de encantamentos, mas de relatos. Na primeira página o título era "PRÍNCIPE PAIGAN", e o texto se estendia por muitas folhas, dividido entre longos capítulos em que narrava cada encontro. Algumas palavras chamavam sua atenção, como "pedra do rei", mas nada ali revelava mais do que havia imaginado.

O título seguinte falava sobre ela.

Estava demorando demais. Os homens iam ficando im­pacientes. Um trecho atraiu seu olhar. Ulfin descrevia suas impressões de uma menina de nove anos parada à beira de um pego, uma fonte, e ia relatando como ela se assustara ao ouvir sua voz.

... formularei meu pedido para a água e juntos a beberemos. Porque já chorei demais, e é hora de amar novamente.

O relato seguia enaltecendo suas qualidades, páginas e páginas de um relato terno, às vezes apaixonado, sempre muito sincero.

— Obrigada — ela disse, fechando o livro para devol­vê-lo. — Alteza, peço licença para me retirar. É tarde, e o dia foi difícil.

Septimus assentiu.

— Havia algo mais aqui — um cavaleiro comentou apon­tando para a caixa. — Vejam, o tecido do forro está marca­do. — Ele apontava para a marca deixada pela caixa das pedras brancas e olhava para Phaedra, esperando uma ex­plicação.

— Não sei o que poderia ser — ela respondeu.
Não era difícil mentir diante dessa tropa.

XXIII

Vento Sul

Mais uma vez, ela esperava pelo amanhecer. A velha lua pendia baixa sobre o horizonte, uma estreita fai­xa de prata trazendo a lua nova em seus braços. Olhava pela janela da sala da sra. Massey em Aclete. Levantara-se e vestira-se com a ajuda de Hera, em silêncio e com o mínimo de iluminação necessária. Agora, Hera se fora. Estava sozinha, visitando antigas recordações.

O que o Anjo escreveria: não só na página de Ulfin, mas na dela? Não seria vingança. Entre os cavaleiros, vingança era justiça. Não se sentia vingada ou justiçada com a lem­brança dos cadáveres mutilados ou dos outros que haviam morrido ao longo da noite; nem com as viúvas e com os filhos sem pai, gente que ela conhecia bem.

A lua se erguia, plena; e o que ela sentia era perda.

Então, algo sobrevivera nela, quando o sacerdote fétido lhe passara o Cálice que a libertara. Teria amado Ulfin de verdade, mesmo sob o efeito do encanto? Ou teria mudado tanto durante os anos de amor enfeitiçado que nenhuma bebida mágica poderia restaurá-la inteiramente? O segredo é não ter medo, ele dizia. Talvez a água houvesse simples­mente suprimido os temores que poderiam tê-la mantido afastada dele: pense em seu pai, pense no poder de seus preten­dentes; pense em você mesma. E sem medo, o amor poderia ter florescido facilmente na menina solitária durante os longos anos com sua melhor companhia, a voz dele, falando dos recantos sombrios nas passagens de Trant.

Ninguém poderia lhe dizer agora. O Príncipe Sob o Céu era seu inimigo. Ulfin estava morto, e seu livro fora levado para longe, fora de seu alcance. As palavras que vira nas pá­ginas haviam acrescentado dados ao seu conhecimento, mas não aumentaram sua compreensão. Era inútil perguntar se o amara tanto quanto era vão tentar descobrir se ele a amara.

Ele traíra Ambrose. Mas a própria recusa em admitir essa traição e as tentativas desesperadas para escondê-la demonstravam que ele se envergonhara, afinal. Sentira al­guma necessidade de proteger o filho, mesmo expondo-se a riscos. Havia afirmado que, como último recurso, ofereceria a própria vida. E daí? Tais coisas eram fáceis de falar, antes de ele saber quem o estava ouvindo. Ela não as aceita­va. Mas não podia acreditar que os motivos relatados pelo Príncipe Sob o Céu haviam sido a única motivação de Ulfin. Como um jogador de xadrez, ele se posicionara de forma a poder fazer o sacrifício, caso as circunstâncias exigissem. E ele o teria feito, se fosse necessário? Provavelmente nem mesmo Ulfin saberia responder.

Phaedra viu a noite se tingir de cinza, com as terras mais altas além de Aclete começando a parecer mais distantes. Finalmente, ela sorriu.

Passos. Alguém bateu na porta. Era Hera. Phaedra le­vantou-se. Juntas, elas percorreram o corredor na ponta dos pés, passando pelo quarto em que Chawlin dormia com a cabeça ainda atordoada pelo vinho consumido naquela noi­te. Martin as esperava ao pé da escada, a cabeça inclinada para a cozinha, onde alguém, uma das criadas da casa, con­versava com o homem que devia estar na vigília. Ele devia ter sido atraído para dentro pela promessa de um desjejum quente. O pobre infeliz teria problemas por isso. Phaedra pensou em deixar algum dinheiro na bolsa do vigia. Mas isso só tornaria sua situação ainda pior, caso ele fosse des­coberto. Ela sorriu ao passar pela porta e ser envolvida pelo vento frio. No mundo do aço, nada podia ser feito sem cau­sar dor a alguém.

Sua escolta não teria dificuldades. Eles a guardariam no caminho para Trant e também a acompanhariam para se unir a Septimus em Tuscolo quando o momento chegasse. Haviam recebido garantias de que o barco não partiria an­tes do meio-dia. Mas Chawlin sabia que o príncipe e seus conselheiros esperavam que lady de Tarceny chegasse em segurança para a coroação. E, uma vez em Tuscolo, ela não teria nenhuma liberdade até que a organização do reino e seu papel nela fossem decididos.

Fugiria agora e desapareceria sobre a face tranqüila de Derewater.

Martin caminhava a seu lado, silencioso. Estavam a alguns momentos de uma separação que se estenderia por muitos anos. Depois disso, ele desapareceria em alguma região ao sul do país, porque somente ele no grupo conhe­cia o destino de Phaedra. Fora um duro golpe para o religioso. Ele havia se esforçado muito pela oportunidade de trabalhar nos limites das montanhas da Fronteira. Mas essa parte do reino teria uma longa lembrança daqueles envol­vidos no desaparecimento da senhora. E se o vissem nos vales, poderiam começar a imaginar se ela também havia ido para lá. Seria melhor para ambos se ele estivesse bem longe quando Septimus, de Tuscolo, e Tancrem, de Tarceny, começassem a procurá-la.

Não a encontrariam. Nem os seguidores de Ulfin (para quem ela obtivera de Septimus uma garantia de vida, se não a garantia da preservação de suas terras) quando che­gassem buscando vingança. Ficaria por pouco tempo den­tro dos limites do reino, somente para resgatar Ambrose e reunir provisões. Eridi e Orani poderiam ir com ela, se qui­sessem. Depois, voltaria para as montanhas. Tinha um de­ver a cumprir.



  • Aquelas são criaturas caídas — Martin murmurou finalmente. — Não podem ser feridas pelo aço nem por minhas palavras. Vai tomar cuidado?

  • É claro que sim. Mas há uma resposta simples. Não tema por mim. E quanto ao milagre...

  • Milagre, senhora?

  • Quando foi despertado no acampamento para ir me salvar... Sabe quem o acordou?

  • Eu o vi entre aquelas coisas fétidas há quinze dias, em Tarceny. E... não foi a primeira vez.

  • Em Chatterfall?

  • Sim.

  • O que aconteceu?

  • Foi um momento difícil. Não lembro bem. Ele apare­ceu e exigiu que removêssemos as pedras, mas diManey ouviu sua esposa, e eles não nos importunaram mais. Dei­xou seu filho em boas mãos, senhora. E eu também.

Então, o sacerdote encontrara o esconderijo. Ela tremeu. Desejara acreditar que Ambrose poderia permanecer escon­dido, mesmo dele. Não queria pensar que o filho viveria todos os seus dias tão próximo de ser capturado. Mas as defesas de Ambrose, seus defensores, protegeram-no. O círculo não se quebrara. Os amigos não a desapontaram.

  • Graças aos Anjos — ela murmurou.

  • Sim, graças a Eles. Ouviu como seu marido falou an­tes de morrer? Aquilo foi pura profecia! Juro, enquanto lu­távamos contra aquelas coisas, ouvimos a voz de Umbriel anunciando qual seria o fim. Não duvido que tenha sido assim. E acho que aquele que falou também sabia.

  • Sim, ele sabia. — Porque, apesar de todo seu poder, o sacerdote sentira medo. Podia começar a acreditar na vitó­ria, agora.

Havia um barco no cais. Homens esperavam silenciosos dentro da embarcação negra, quase invisível sobre a água es­cura do lago. A sra. Massey os aguardava no final do deque.

— O mestre só sabe que deve seguir para o norte — ela disse. — Assim que estiverem mais afastados, você poderá revelar seu destino com maior precisão. E, depois disso, meus negócios o levarão a Jent. Ele não voltará a aportar na Fronteira antes de três semanas, ou mais.

Phaedra olhou em volta, preocupada com os outros barcos.

— Talvez não saiba — Elanor Massey continuou —, mas algum velhaco esteve aqui esta noite e cortou todas as cor­das dos meus outros barcos. Os remos foram escondidos, e não poderemos encontrá-los a não ser amanhã. E pensar que eu teria de passar por isso!

Phaedra sorriu. Quase toda a prata que restava em Tarceny estava na bolsa da sra. Massey; um preço justo pe­los problemas que ela e seu pessoal enfrentariam. Aclete também se beneficiaria da paz. Essa mulher demonstrava ser uma boa amiga, alguém que Phaedra lamentava não ter conhecido melhor.

Ela se despediu de todos. Elanor, Hera, Martin... Queria partir. Tudo que havia acontecido ali eram apenas lembran­ças a partir de agora. Um novo ciclo de vida começava.

Seus olhos se voltaram para o Outeiro de Talifer, ainda envolto pelas sombras da noite. Procurou por sinais de uma silhueta escura olhando para o porto. Não havia ninguém.

Sei que você sabe, Paigan, meu inimigo. Sei o que quis dizer quando falou em verdades e espelhos aí em cima. Sei que tipo de criaturas caminhavam em sua companhia quan­do nos deixou no outeiro. Durante toda sua vida, trabalhou para arruinar os herdeiros de seus irmãos e colocá-los à mercê de seu poder; todos envergonhados, corrompidos, condenados, todos destruídos e rebaixados, a ponto de um pai matar o próprio filho. Sei como encurralou Ulfin; como trabalhou para encurralar-me. Como tentou fazer de Martin, Adam e Evalia peças de seu jogo. Agora, nós, que ainda estamos vivos, escapamos de você. E eu estou a um passo de acabar com seu jogo.

Era simples, embora não fosse fácil. A pedra do rei era a chave. Ela estava onde os irmãos haviam removido seus fragmentos, na entrada do vale à beira do pego do sacerdo­te. Levante-a, e o anel que os irmãos haviam rompido, o círculo das pedras brancas, estaria completo. Isso manteria na fonte obscura as coisas que a ela pertenciam, como as pedras brancas que Calyn removera dos monólitos as man­tivera fora do círculo. Não sabia como as pedras chegaram lá, ou quando. Talvez, o último dos Grandes Reis houvesse conhecido a origem do mal que devastava seu reino e des­cobrira como confiná-lo por algum tempo. Talvez fossem muito antigas, os dentes do próprio Capuu, e tivessem sido erguidas e baixadas muitas vezes pelas mãos dos homens.

O povo da montanha a ajudaria. Ia precisar de muitos deles, o que exigiria mais presentes e cabras, e os meios para levá-los onde tinham de estar. Precisaria da ajuda de Chatterfall. Eles prenderiam Paigan e suas criaturas atrás da pedra do rei. Viveria na casa em ruínas, longe do alcance de nobres e príncipes, cuidando do anel. E Ambrose correria livre pela encosta da montanha, até que um dia, ela, ou tal­vez ele (se era esse o sentido das palavras pronunciadas por aquela voz que fizera uso do corpo de Ulfin), encontrasse o meio para destruir o príncipe monstruoso dentro dele.

O sol se erguia. Havia pouco movimento na cidade. Os marinheiros ocupavam seus postos e empunhavam remos. A faixa de água entre o barco e o cais já era maior do que ela poderia saltar.

Um dos tripulantes começou a tocar sua flauta. Era a canção do marinheiro do lago, usada para chamar os ventos que os levariam para casa. Phaedra acenou para as três figuras que iam se tornando e mais distantes no porto, de­pois se virou para o lago dourado pelo sol.

Água brilhante, montanha escura. Os contrastes em Tarceny eram como duas faces da lua. Houve um dia, dois anos atrás, em que ela passara de uma face para a outra. Com ela, levara no peito o amor corrompido pelo príncipe imortal. Talvez, tudo que havia acontecido depois disso fosse inevitável.

Mas ela saíra do lago em um amanhecer e se deixara guiar pela mão do homem amado. Havia algo perfeito nis­so, mesmo agora. Lembrava o sentimento de fascínio e in­credulidade, depois, e por algum tempo, como sentira que tudo que havia desejado sem sequer saber lhe era entregue hora a hora. Sentia-se mais viva do que antes, ou do que jamais voltaria a sentir. Aquele tempo fazia parte de sua vida. E brilhava claro como a lua nova.

Com ele, levaria na memória outros tempos de Ulfin, livre da guerra ou de coisas sombrias, seguindo em frente pelo disco pleno de suas vidas. Talvez houvessem brilhado menos... a face da lua tinha muitas marcas e mares, como muitos casamentos. Deviam ter estado lá. E talvez estives­sem de alguma forma, como a lua estava ali, sob a sombra de sua outra face. A sombra era terrível; escura, corruptora. Mas nas ruínas de seus sonhos não conseguia imaginar outra vida que pudesse ter tido algum sentido para ela.

Bem, as preferências colorem os fatos, mais ainda quan­do se tenta justificar aquilo que já foi feito. E estava feito. Tanto a luz quanto a escuridão eram parte dela agora. Os meses e anos que ainda tinha para viver mostrariam novas perspectivas.



Mas o pôr-do-sol a levaria a Chatterfall, a Evalia... e a Ambrose, que mais uma vez teria em seus braços.




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