O feitiço do Cálice de Pedra



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O FEITIÇO DO CÁLICE DE PEDRA

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JOHN DICKINSON
O FEITIÇO DO CÁLICE DE PEDRA
John Dickinson
Tradução

Débora da Silva Guimarães Isidoro


Título original: The cup of the world

© 2004 by John Dickinson

Todos os direitos reservados.

Diretora editorial: Janice Florido

Gerente editorial: Carla Fortino

Produtora editorial: Adriane Gozzo

Revisão: Beatriz Garcia e Vanessa Rodrigues

Projeto gráfico: Dany Editora Ltda.

Capa: Ana Dobón

Impressão: São Paulo, Brasil

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Dickinson, John

O feitiço do cálice de pedra / John Dickinson ; tradução Débora da Silva Guimarães Isidoro. — São Paulo : Arx, 2005.

Título original: The cup of the world ISBN: 85-7581-206-8

1. Ficção inglesa I. Título

05-7031 CDD-823



Índices para catálogo sistemático:

1. Ficção: Literatura inglesa 823

2005

Proibida a reprodução total ou parcial.



Os infratores serão processados na forma da lei.

Direitos exclusivos para o Brasil cedidos à Siciliano S.A.



Editora Arx

Av. Raimundo Pereira de Magalhães, 3305

CEP 05145-200 — São Paulo — Brasil

e-mail: edarx@edarx.com.br



Para Robin

Sumário

Parte I: O HOMEM NO SONHO 9

I As Cortes do Rei 11

II O Prisioneiro 37


  1. Pretendentes e Jogo de Xadrez 60

  2. Aço e Escuridão 82

V O Sacerdote no Outeiro 99

VI A Resposta do Guardião 121

VII As Janelas de Jent 142

VIII Um Rosto na Estrada 158

IX O Lago Traz Más Notícias 172

Parte II: O SACERDOTE PÁLIDO 185

X Dor 187

XI Anjos e Sombras 208

XII Na Escada 229



  1. Chatterfall 249

  2. O Homem nos Juncos 262

XV A Casa na Colina 273

XVI O Lugar das Pedras Brancas 284

XVII O Fundo do Cálice 297

Parte III: A TRAIDORA 309

XVIII Manhã Fria 311

XIX Tarefa 322

XX O Preço de Phaedra 337

XXI Os Poderes do Aço 346

XXII Os Poderes da Sombra 360

XXIII Vento Sul 377

Parte I

O HOMEM NO SONHO

I

As Cortes do Rei

Phaedra não conhecia o caminho pelos corredores escu­ros da casa do rei. Seguia as meninas mais velhas pelas passagens sombrias, guiando-se por seus sussurros, pelo ruído de seus pés e pelo som de euforia contida. Os baru­lhos a levaram à esquerda, e depois à direita, por depósitos e salas de ferramentas e aposentos cuja serventia ela não conseguia imaginar. Todas as persianas estavam fechadas. Ninguém havia pensado em levar uma fonte de luz porque era dia lá fora quando, juntas, urdiram o plano. Supunha que alguém à frente da fila as estivesse conduzindo.

Houve uma pausa. As meninas haviam se deparado com uma porta. Para além dela era possível ouvir uma grande comoção: o som de uma multidão reunida em um amplo salão.

Phaedra havia imaginado que a corte real fosse um lo­cal silencioso, como uma igreja abrigando um serviço reli­gioso, onde as pessoas falavam apenas quando necessário. Não esperava por aquele ruído desordenado. Talvez aquilo facilitasse a entrada na sala do trono sem que fossem nota­das. Não tinha idéia do que aconteceria depois disso. Nun­ca havia testemunhado o julgamento de uma bruxa antes.

Uma trombeta soou adiante. As meninas abriram a por­ta. Phaedra viu o contorno de suas cabeças e ombros contra a luz além da abertura, e todas, uma a uma, foram ultrapas­sando a soleira. Ela foi a última a passar para uma estreita galeria de madeira que se estendia por todo o comprimento da parede do salão abobadado. O ruído que escutaram an­tes estava diminuindo. Em algum lugar abaixo delas, uma voz começou a falar. Ela encontrou um lugar na balaustrada e respirou fundo. Sabia que não devia estar ali, olhando para a sala do trono do rei.

Era difícil enxergar.

O sol brilhava forte e penetrava pelas janelas altas, inun­dando o salão com seus raios. Tochas cintilavam tremulantes. Fios dourados brilhavam sobre flâmulas que balançavam nas colunas de aquecimento. Abaixo dela estava a multidão — cavaleiros, barões e nobres espremidos contra cada uma das paredes, de forma a deixar vazia a longa nave. Onde havia luz do sol, os homens pareciam banhados por prata brilhante. Cada detalhe era nítido, desde do brasão de uma casa ao piscar de um olho. Todos tinham expressões tensas e barbas, e todos se esforçavam para enxergar alguma coi­sa. Entre os raios de luz havia uma massa de formas e si­lhuetas mergulhadas em sombras mais e mais profundas que se estendiam pelo salão até o trono. O ar carregava o suor de duzentos homens em trajes pesados. Ruídos abafa­dos ecoavam entre as paredes; estalidos, pés que se mo­viam, o ranger do couro e sentenças pela metade murmu­radas no ouvido de um vizinho. Os homens falavam como caçadores, como se andassem pela floresta na ponta dos pés. E a besta à espreita entre as árvores era a iminência da Morte.

Ela procurou pelo pai pela primeira vez, tentando localizá-lo em meio à massa de homens desconhecidos. Ele devia es­tar ali. Mas já a vira? Se a vira, devia estar zangado por ela ter ido a um local em que não deveria estar. Se teria de enfrentar essa situação mais tarde, preferia saber desde já. Mas não conseguia encontrá-lo, porque era uma estranha na corte e não sabia em que parte do salão deveria procurá-lo. Não sa­bia qual seria o lugar dele entre todos aqueles nobres: um alto posto, certamente, mas a que distância do rei?

Podia ver o rei, um homem de barba branca sentado sobre o Alto Trono. Acima dele, o sol de sua casa pintava a parede de ouro. À sua direita, na sombra, sentava-se um homem mais jovem, príncipe Barius, que ocupava o Trono Ocre e mantinha-se bem ereto com uma espada sobre os joelhos. E o homem mais jovem à esquerda do rei devia ser o príncipe Septimus, que seria sagrado cavaleiro naquela noite, no mesmo banquete em que ela seria apresentada.

De um lado dos tronos havia um pequeno grupo de bis­pos, todos paramentados e com as cabeças cobertas de dou­rado, e seus sacerdotes tonsurados. Do outro lado estavam os oficiais escolhidos para a corte, rostos sérios e pescoços adornados por grossas correntes de ouro. Havia guardas na frente do palanque. Seus capacetes e machados estavam polidos e os protetores de ombros brilhavam, refletindo a luz das tochas.

Um barão ocupava o centro da nave e era banhado pelos últimos raios de sol que incidiam sobre aquela área na frente do trono. Sua barba negra e a roupa preta empalideciam sob a luz intensa, e a pele de seu rosto parecia branca como a morte, exceto pela pequena sombra escura embaixo da pon­ta do nariz. Ele estava de frente para a luz. Certamente, po­dia enxergar muito pouco, mas todos no salão podiam vê-lo; a testa imponente; o rosto forte. Ele devia ter se colocado deliberadamente sob o raio de sol no momento em que o som da trombeta silenciou. A voz que ela ouvira brotava de uma figura nas sombras ao lado do barão: um homem coberto por capa e túnica que, compenetrado, lia um pergaminho.



"... Associou-se a espíritos caídos... conspirou com re­beldes... tramou sorrateiramente promover violência pela magia, contra nós, um barão do reino... clamamos por justi­ça e por um fim ao mal... que deve, portanto, encontrar a morte sob a lei desta terra..."

Havia mais alguém na área de sombras e piso de pe­dras. Era uma mulher, e estava sozinha. Sua cabeça pendia. E Phaedra tinha a impressão de que nenhum rosto na mul­tidão se alterava com as acusações que eram despejadas con­tra a criatura. Todos, desde o trono do rei até as portas do salão, mantinham-se sérios.

Phaedra não sabia qual poderia ser a aparência de uma bruxa. Se esperava alguma coisa, era uma espécie de pesade­lo estridente, um ser que estaria enjaulado como uma besta em uma feira. Não imaginara uma mulher comum, apenas alguns poucos anos mais velha do que ela mesma. Então, era contra esse ser que o barão queria vingança. Essa era a mu­lher que seria enterrada numa cova rasa e sem identificação, sem cabeça e com uma estaca cravada em seu coração. Phaedra respirou fundo mais uma vez, tentando descobrir se sentia mesmo as pernas tremerem naquele ambiente pesado.

A leitura chegou ao fim. A mulher acusada respondia em voz baixa, tão baixa que os presentes mal podiam ouvi-la. Seu discurso foi breve. O intervalo que se seguiu foi ocu­pado por tosses e vozes abafadas de pessoas que moviam os pés sem sair de seus lugares.

O rei disse alguma coisa do alto de seu trono. Uma per­gunta. O barão assentia. O rei acenou. Seis retentores se adiantaram portando longas espadas. Eles as depuseram em uma fileira no chão entre o barão e a mulher, alternando cabo e lâmina de forma que três apontassem para cada lado. Um arauto se fez ouvir no salão.

— O rei concede julgamento aos olhos do Paraíso. Qual­quer um que se sentir com direito a esta causa adiante-se antes do terceiro toque de trombeta. Que se adiantem ape­nas aqueles que estejam dispostos a provar a verdade com o próprio corpo!

O rei ergueu a mão, e a trombeta soou pela primeira vez.

Todos se sobressaltaram. Súbita, imponente, a língua do bronze era mais poderosa do que as vozes que a prece­deram. Imediatamente, dois cavaleiros se adiantaram. Eles ocuparam seus lugares junto aos cabos das espadas diante do barão. Em algum lugar na galeria, alguém sussurrava seus nomes, como se fossem lutadores bastante conheci­dos. Um momento mais tarde, o próprio barão ocupou o lugar diante do cabo da terceira espada ao seu lado. Mais uma vez, ele se moveu com cuidado para que o sol o ba­nhasse da cabeça aos pés, possibilitando, assim, que todos o vissem.

Depois, nada aconteceu. Pessoas sussurravam umas para as outras no balcão e abaixo dele. Ninguém saía do lugar. Phaedra olhou para a mulher, que estava em pé e sozinha, de costas para a galeria.

Vamos. Vamos lá. Por que a trombeta não soava? O arau­to havia dormido em pé? Para lá do salão, o sol já havia mudado de lugar. Um caminho de sombra tornava-se mais e mais longo, rastejando para o pé do barão. Ele não havia notado.

Houve uma movimentação no salão. Alguém emergira da multidão no fundo da sala e colocava-se na nave vazia. Ele olhava em volta, olhava para trás, como um menino que havia recebido do pai a ordem para pôr-se em pé, mas es­quecendo-se imediatamente do que deveria fazer.

Ele começou a caminhar em direção do trono. Atraves­sou um raio de luz, e assim iluminado parecia ser um sim­ples cavaleiro em sua malha. A cabeça estava desnuda, mas o rosto ficou obscuro por mais alguns segundos até ele atra­vessar o último raio de luz e lançar sua sombra por um momento sobre os joelhos do barão. Uma face forte e viril surgiu brevemente sob cabelos lisos. Um sabujo vermelho dançava em sua sobrepeliz. Na penumbra, diante do trono, o homem se inclinou para o rei. Depois, virou-se para a di­reita e, sem sequer olhar diretamente para a mulher atrás dele, colocou-se na frente do cabo de uma das espadas vira­das para ela. Ele ainda não havia concluído o movimento quando a trombeta finalmente soou.

Os sussurros ganharam força e velocidade. A mudança era palpável. Sem um defensor a mulher teria sido uma bru­xa. Sua sentença teria sido anunciada e executada antes do cair da noite. Um homem reabrira a questão. Homens mor­reriam para encerrá-la.

O brilho da luz ia perdendo força; nuvens finas enco­briam o sol. Os contrastes fundiam-se em detalhes que eram mais nítidos ao olhar. O barão e seus cavaleiros olhavam para o oponente com dureza. O recém-chegado ostentava o equipamento de um senhor de terras pobre, um dos "cavaleiros-cães" do reino, que não seguiam nenhum amo senão o rei e não tinham seguidores além de um fiel sabujo. Ele olhava para os próprios pés, para o trono, para a mulher atrás dele. Talvez as implicações do que estava fazendo so­mente agora se tornassem claras. A mulher também já não olhava apenas para a fileira de homens armados diante dela, mas para seus pés e para a multidão, para as janelas e para as portas, até que, por fim, ela olhou para cima, para a galeria. Esguia, usava um vestido azul e simples. Seus cabelos longos eram de um castanho profundo e brilhante, e ape­nas algumas poucas pedras amarelas os adornavam. Por um momento, Phaedra olhou para o rosto pálido e triangu­lar com aqueles olhos enormes e o nariz pronunciado; a expressão sugeria perplexidade e solidão. Phaedra com­preendeu que ela sentia medo.

— Agora vão matar os dois — resmungou uma voz na galeria. — Primeiro ele, e depois, ela.

Era como um sonho. Pior que um sonho, porque neles Phaedra nunca se sentia tão impotente quanto ali. Queria virar-se, deixar o salão e não testemunhar o fim daquela situação horrível. Mas não saberia voltar sozinha pelos cor­redores escuros da casa do rei.

E, como em um sonho, de repente podia ver claramente o rosto de seu pai. Ele estava entre os nobres no corredor oposto. Não olhava para cima. Seu rosto largo e encoberto pela barba demonstrava seriedade e atenção para com a cena que ali se desenrolava. Ele não gostava do que via, isso era evidente. O que poderia fazer? Phaedra tinha certeza de que ele queria fazer alguma coisa. Em casa, estava sempre pre­parado para dizer o que julgava ser certo ou errado. Ele diria ao rei, diante de toda aquela gente, que esse julgamen­to era um erro? Certamente que não. O rei havia decidido que ele deveria acontecer.

Então, ele se adiantaria para ser um defensor?

Nesse caso, teria de lutar! Lutar contra homens que dese­jariam matá-lo, um depois do outro, e sem seus soldados para ajudá-lo! Ela não ousava pensar no que poderia acontecer.

Perto de onde estava seu pai, um jovem deixou seu lu­gar e começou a percorrer o corredor. Devia estar pensando que, se alguém mais assumisse a segunda espada pela bru­xa, ele ficaria com a terceira. O terceiro homem era o último a lutar e tinha sempre mais chances de sobrevivência. Mas ninguém mais se moveu, e a mão de um cavaleiro mais ve­lho o puxou de volta ao seu lugar. Os sibilos de palavras murmuradas em fúria subiram à galeria. E seu pai também não se movia.

Ela queria desviar os olhos. Encontraria, de alguma forma, o caminho de volta pelos corredores sombrios e sairia desse lugar assustador. Mas ela também não se mo­via. Nem os três cavaleiros, a mulher ou o homem do sabujo dançante.

Vamos. Vamos. Vamos.

Os cavaleiros olharam para o homem que segurava a trombeta, que olhava para o rei. O rei não fez o sinal para o último toque. Virado em seu trono, ele conversava com um arauto e um conselheiro. A ponta de seu dedo movi­mentava-se suavemente quando ele falava. Os príncipes estavam debruçados sobre seus tronos para ouvir a con­versa. Por um momento, todo o salão aguçou os ouvidos, tentando captar as palavras reais. O arauto e o conselheiro pareciam hesitantes. O rei falou novamente, mais duas vezes, depois se voltou para o barão. O arauto adiantava-se para colocar-se ao lado do trombeteiro, bem na beirada do palanque.

— Homens declararam-se dispostos a morrer pelo di­reito. Porém, antes que sangue seja derramado, o rei deseja considerar o assunto. O dia de justiça está encerrado. Os súditos do rei se dispersarão.

Imediatamente, a sala explodiu numa tremenda cacofonia. Todos estavam surpresos, alarmados, até. A ocasião não se completara. Se não fosse decidida de uma forma ou de outra, então...? A longa procissão para a saída começou, desorganizada, como se os trombeteiros houvessem sido surpreendidos pelo anúncio. Com o som estridente das trombetas, os guardas da porta entenderam que a audiência es­tava encerrada. As portas foram abertas. As intermináveis fileiras de cavaleiros e nobres uniam-se no centro do salão numa ruidosa massa móvel. Phaedra viu o barão parado no mesmo lugar, como se estivesse em choque. Não podia ver sua expressão, porque ele mantinha os olhos fixos no trono. O rei de barbas brancas sustentava seu olhar, impassível.

A mulher havia desaparecido para algum lugar, pre­sumivelmente sob custódia. Membros da corte discutiam com o cavaleiro do sabujo. Um chefe da guarda olhou para cima e viu que a galeria estava ocupada, e por quem. Ele as expulsou com um gesto, a testa franzida, como se hou­vesse ali algo de obsceno ou impróprio que jovens donzelas não devessem testemunhar. Um guarda juntou-se a ele, repetiu seus gestos e chamou um companheiro. As meni­nas correram.

Correndo, percorreram os corredores mal iluminados e as escadas traiçoeiras que teciam uma teia de alvenaria em torno das cozinhas e dos depósitos. Mãos manejavam ferrolhos que, emperrados, demoravam a ceder. Seus pés pro­vocavam grande ruído, e vozes chamavam seus nomes na escuridão. Havia nelas riso e medo, sentimentos que ga­nhavam força e tornavam-se mais barulhentos em sua ex­pressão à medida que se afastavam da sala da corte, des­cendo rapidamente para o pátio externo de onde haviam obtido acesso uma hora antes. A porta estava encostada, como a tinham deixado. Ela cedeu sob a mão firme da líder, e todas sentiram o calor do dia luminoso. O grupo voltou ao pátio rindo e respirando com dificuldade.

— Oh! — exclamou uma. — Algum deles era mais belo que Barius?

Havia meia dúzia de jovens damas no pátio. Phaedra, aos quinze anos, era a caçula do grupo. Nenhuma delas tinha mais do que vinte anos. Como Phaedra, eram filhas de homens importantes que tinham ido à casa do rei para o grande banquete que Sua Majestade ofereceria naquela noite, marcando assim a vitória definitiva sobre os barões rebeldes, o final do verão e a sagração de seu segundo fi­lho como cavaleiro. Com todas as batalhas que ocorriam no reino, fazia anos que não viviam uma ocasião como essa. Phaedra não era a única que nunca estivera na corte. Mui­tas dessas jovens somente se haviam conhecido no dia anterior.

Estavam vestidas informalmente, porque não teriam cerimônia nenhuma até o banquete daquela noite (e certa­mente não deveriam ter comparecido à corte do rei). Mes­mo assim, os longos vestidos de lã fina em suaves tons de azul, verde e amarelo faziam com que parecessem um alegre grupo festivo naquele pátio de piso de pedras com sua fonte refrescante e a bela oliveira atrofiada.



  • Acha que ele nos viu?

  • Quem?

  • Príncipe Barius, é claro...

  • Por que não lutaram? O que farão?

  • Juro que pensei que eles a arrastariam para fora e cortariam sua cabeça na escada... bem na nossa frente...

  • ... eu acenei para ele! Estou certa de que olhou para mim.

  • Alguém convenceu aquele cavaleiro-cão a assumir a defesa daquela mulher. Quem pode ter sido?

  • Talvez ele tenha se apaixonado por ela. Ali, à primei­ra vista!

  • Dibourche estava comendo como um glutão, não es­tava? Ele é horrível. E quase nos viu. Se me visse, ele falaria com meu pai e eu seria obrigada a passar o resto de nossa estadia trancafiada no convento da cidade.

  • Se tivesse sorte. Ele está procurando por uma esposa, sabe? Talvez pudesse pedir a seu pai...

  • Não, não! Amanthys, nem diga isso...

  • Esganado, esganado...

Mais gargalhadas. O sol iluminava o pátio com toda sua força naquele início de tarde. Duas ou três das meninas es­tavam sentadas na beirada da fonte, recuperando o fôlego à sombra da árvore.

  • Suponho que um príncipe não possa simplesmente descer de seu trono e defender uma mulher acusada. Mas estou certa de que era isso que queria fazer...

  • Talvez devêssemos todas cometer o crime da bruxaria...

  • Oh!

  • ... ou dizer tê-lo cometido esta noite. Então, seríamos julgadas uma a uma diante do trono, e ele teria de escolher uma de nós para resgatar!

O ar era quente no pátio bem iluminado, e parado. Nada se movia à sombra da oliveira. Nem as folhas secas nem as teias de aranha se movimentavam.

  • Essa é a idéia mais tola que já ouvi desde Hallows — opinou a jovem chamada Amanthys.

  • Você seria morta...

  • Ou poderia ser resgatada por algum cavaleiro-cão do fim do mundo, e ele a jogaria sobre sua carroça e a levaria para uma casa de dois cômodos infestada de moscas, onde você teria de passar o resto da vida descaroçando azeito­nas. E isso se tivesse muita sorte!

  • Sabe — disse a menina mais velha, cujo nome era Maria — que, graças à disposição de um cavaleiro-cão de lutar por ela, essa mulher pode ser inocentada? Mas, se nin­guém se houvesse oferecido para combater aqueles corta-gargantas que o barão Seguin tinha com ele, ela teria sido declarada culpada e morta? E agora o rei diz que precisa pensar. Por que não pensaram antes? Não podem simples­mente deixar o assunto inacabado assim...

  • Foi uma exibição — Phaedra falou pela primeira vez. — O rei havia combinado com o barão tudo o que acontece­ria ali. Toda justiça é um espetáculo, para dizer a verdade.

As outras a fitaram, meio espantadas.

— Suponho que tenha se dedicado a estudar essas ques­tões — disse Amanthys.

Phaedra era filha de uma casa solitária. Não estava acos­tumada a ter companhia desse tipo, de jovens tão bem-nas­cidas quanto ela e um pouco mais velhas.

— Toda corte de justiça é um espetáculo — insistiu. — Se um homem desempenha bem o seu papel e resolve a disputa de uma forma que ela não se repita nunca mais, as pessoas que ele julga ficam satisfeitas por serem comanda­das por homem tão sábio. E não lutam. Quando meu pai comanda a corte em Trant, ele tenta determinar ou combi­nar com antecedência o desfecho da situação. Depois, ele chama todos à corte e põe as chaves do castelo do rei sobre a mesa diante dele, só para lembrar o povo de que o rei o escolheu como seu guardião. Ele faz irmão David, nosso sacerdote, ficar em pé atrás de sua cadeira, o que demons­tra que a justiça vem do Céu. E, então, eles julgam o caso e decidem o que já havia sido decidido.



  • Trant?

  • Sim. Meu pai é Ambrose, guardião do Castelo de Trant. Nosso brasão é o Sol e a Folha de Carvalho...

Phaedra percebeu que estava sendo manipulada. As outras esperavam por... Amanthys franziu a testa, como se fizesse um esforço de memória.

— Trant...? Oh, sim! Gordo e barulhento! Aquele.

Alguém gritou e depois cobriu a boca com a mão. Ou­tras riram. Phaedra sentiu que corava.

Sim, seu pai certamente era grande (e ruidoso), e não se surpreenderia se as pessoas não gostassem muito dele. Mas... mas insultá-lo... e ao mesmo tempo fingir que mal sabiam quem era ele...

E barulhento era uma palavra que podia ser usada para descrever outras pessoas, além de seu pai.


  • Meu pai é gordo — disse Maria. — Ele diz que é me­lhor assim, porque pode suportar melhor um ataque.

  • Seu pai tem todos os burgos de Pemini prestando homenagem a ele — argumentou outra. — Diferentemente de outros por aqui. Guardião de Trant! Oh, querida meni­na. Se seu pai não possui sequer o próprio teto... quem vai querer desposá-la?

  • É só nisso que conseguem pensar? — Phaedra dispa­rou com o rosto ardendo e vermelho.

— Gordo como um porco — resmungou outra menina. — Todos os cavalos de Trant têm as patas arqueadas? Eu não gostaria de ser sua mãe.

A resposta para esse comentário era fácil.

— Minha mãe já morreu.

E foi mais fácil ainda ir embora.

O castelo do rei em Tuscolo era um complexo de pátios e áreas delimitadas por muros, algumas amplas, outras ape­nas pequenas construções de pedras, como o local em que as meninas conversavam sobre os príncipes. Subir por uma rampa pavimentada e passar por baixo de um arco foi o suficiente para que Phaedra chegasse ao principal pátio do pavimento superior. O lugar era uma confusão de palha e outros destroços e estava cheio de gente. À direita, a parede era tão alta que parecia tocar o céu. A esquerda ficava a capela real, com suas torres dos sinos e suas janelas compri­das. Figuras entalhadas ocupavam os nichos de pedra aci­ma e em torno das portas do templo. Um grupo de monges descia a escada de degraus largos no exato momento em que ela se aproximou. Eles usavam batinas marrons, com o distintivo da Lanterna que identificava sua ordem, e cami­nhavam silenciosos por entre a agitação da casa do rei.

Vira muitos monges durante sua breve estadia ali. Em casa havia apenas o irmão David para erguer suas mãos para o Céu e trazer bênçãos para o povo de Trant. Mas, ali, o castelo e a cidade que o cercava transbordavam monges de todas as ordens. De início ela presumira que Tuscolo fos­se um lugar muito sagrado. Agora achava que a capital real devia necessitar de tantos sacerdotes por abrigar muitos pecados. Era o que estava descobrindo.

As portas da capela estavam abertas. A luz azul, as es­tátuas nas janelas se debruçavam sobre o interior sagrado. Phaedra caminhou atrevida pelo longo corredor pavimentado. Ela se inclinou diante do altar sobre o qual ficava a Chama do Céu; o sinal de Deus, brilhante, sem forma e irreconhecível em um mundo de sombras.

Nesse altar, a Chama era uma enorme coisa de quatro braços, muito maior do que o simples candelabro dourado na capela de Trant. Cada um de seus braços tinha a forma de um dos Anjos que o Senhor havia enviado ao mundo para lutar por almas. E, acima do altar, os mesmos Anjos pairavam em janelas de vidro fosco que dominavam o tem­plo. Miguel o Guerreiro brandia sua grande espada e man­tinha uma careta furiosa, a boca apertada formando um desenho rígido, tenso. Ao lado dele, Gabriel o Mensageiro se inclinava do céu com o fogo sob suas asas. Rafael percor­ria uma estrada interminável com seu cajado na mão, e Umbriel olhava para baixo com sete olhos e anotava tudo no livro em que todas as coisas eram escritas. Eles eram maiores, mais vistosos e menos humanos do que nos qua­dros de sua casa; mas Phaedra os conhecia. Não sentia que devesse ter medo deles ou ficar constrangida em sua pre­sença, mesmo ali. Sob seus olhos, sentia a raiva perder força dentro dela, não a ponto de desaparecer, mas tornando-se mais profunda, instalando-se em lugares em que poderia ser lembrada sem interferir em sua capacidade de ação.

Phaedra escolheu um banco e sentou-se.

Pessoas entravam e saíam e olhavam em sua direção, mas ela as ignorava enquanto passavam. Vozes se ergue­ram atrás dela, aproximando-se. Homens falavam acalora­damente. Não foi nenhuma surpresa quando o príncipe Barius, moreno e muito zangado, passou pelo corredor com o irmão e meia dúzia de outros homens atrás dele. O grupo se deteve a dois metros dela, em uma porta que levava aos claustros do rei. Ninguém parecia notá-la.

— Nesse caso, milorde, meu pai estará renegado seja qual for seu procedimento — disse Barius. — Deve dizer isso a ele por mim. E diga que agora devemos escolher com sabedoria, ou escolher bem. Muitos, sem dúvida, vão preferir que ele escolha de maneira sábia. Eu prefiro que ele escolha bem!

Um chefe-de-gabinete inclinou-se, depois olhou para o príncipe Septimus como que para indagar se ele desejava acrescentar alguma coisa ao conselho do irmão. O príncipe limitou-se a assentir, e os homens se inclinaram mais uma vez antes de voltarem apressados pelo caminho que haviam percorrido ao entrar, perseguindo alguma questão de esta­do premente. Barius já havia desaparecido pela porta que levava ao claustro da capela. Septimus, um rapaz pouco mais velho que ela, hesitou por um momento. Ele a vira, uma menina desconhecida que devia ter escutado o que os ho­mens tinham dito ali pouco antes. Então ele sorriu, como se dividisse com ela o absurdo que estava acontecendo, e se­guiu o irmão, passando pela porta baixa.

Passos se afastaram, e a capela mergulhou no silêncio.

O que tinha sido aquilo? Phaedra formulou a pergunta à figura invisível ao seu lado no banco.

O cavaleiro se mexeu.



O rei vive um dilema. Ele deve escolher entre quebrar uma promessa para alguém que tem influência e fazer a mesma coisa para alguém menos influente, mas a quem, na opinião do prínci­pe, seria mais honrado manter-se fiel.

Houve um julgamento na corte esta manhã, Phaedra con­tou. Eles iam resolver a questão em combate. O rei impediu o confronto e disse que ia pensar

Sem dúvida é isso. Gostou da corte?

Não. Pensei ter encontrado amigas, mas, quando contei a elas o que você disse sobre a justiça, elas riram de mim.

Você só disse a verdade. Não deve se envergonhar disso. Como elas tratam a questão é um problema delas.

Phaedra sabia que estava acordada e que, portanto, se virasse o rosto para encará-lo, ele não estaria ali. Mas se olhasse para frente, para os Anjos, poderia sentir pelo canto do olho as dobras escuras do manto negro, seus cabelos pre­tos e sua pele pálida, e o grande cálice de pedra que ele segurava sobre os joelhos. Sabia que estava tudo ali, porque vira cada detalhe em seus sonhos.



Deve haver poder antes que haja lei, disse o cavaleiro. E todas as leis se rendem a ele.

— Quando o verei novamente?

O som da própria voz a assustou. Não tivera a intenção de falar alto. E não houve resposta, porque agora ele havia partido.

Naquela noite ela percorreu a sala do trono na qual a bruxa estivera em pé e sozinha algumas horas antes. Mais uma vez, o lugar estava repleto de pessoas encostadas nas paredes; os cavaleiros e nobres do reino. Mas, dessa vez, eles estavam acompanhados por suas mulheres, e dessa vez todos os olhos estavam fixos nela.

Seu pai caminhava a seu lado. Alto, barbado, imponen­te, ele percorria o corredor para o trono, e em seu pesado vestido brocado ela se movia protegida por sua sombra. Diante dela, Amanthys e o pai já se inclinavam diante do rei. Atrás dela, a voz do arauto anunciava o nome do cava­leiro seguinte e de sua filha, indicando que deviam se apre­sentar. A cerimônia estava acontecendo havia mais de uma hora, começando pela prolongada tagarelice da sagração de Septimus como cavaleiro, e depois da sagração de seus três jovens escudeiros. Mas agora, e por mais alguns momen­tos, era a vez dela. Todos a olhavam e sussurravam sobre ela, a filha de Trant conduzida pelo braço de seu pai, com as jóias do pai em seus cabelos. Sabia que todos apreciavam o que viam. E ela teria preferido que ninguém a apreciasse.

Aproximaram-se dos três tronos e dos degraus largos que levavam a eles. O rei estava vestido de dourado e ocu­pava seu lugar, como se não houvesse se movido dali des­de aquela manhã. Os príncipes, os mesmos cortesãos... também estavam ali. Mais alguns passos: os últimos centímetros também pareciam ser os mais lentos. Um leve mo­vimento do braço de seu pai a deteve um momento antes do esperado. Ele se inclinava. Ela também se encurvou len­tamente em sua mesura; longa e lentamente, seu pai a instruíra, e quanto mais dos dois melhor. Agora ele fala­va com o rei recitando as frases que compunham o ritual de apresentação tantas vezes ensaiado. Devia manter-se inclinada.

Teria a bruxa feito uma mesura naquela manhã, diante dos olhos que planejavam matá-la?

— Saudações, Trant — cumprimentou a voz suave que vinha do trono central. — Amamos sua casa por seu valor a nosso serviço. Agora devemos amá-la também por sua beleza.

E agora ela podia se levantar e olhar para o rosto do rei, que não era mais do que um rosto velho adornado por um manto dourado e uma pesada coroa. Os cabelos e a barba branca eram ralos. Podia ver a pele rosada sob os fios. Ao fitar seus olhos claros, ela notou que uma sobrancelha se erguia ligeiramente, como se ele tivesse se surpreendido com algo.

— E a beleza de Trant tem algumas palavras que gosta­ria de nos dizer? — o rei indagou depois de um momento.

Palavras? Ela?

Seu pai não a prevenira sobre isso!

Podia sentir a tensão no braço dele. Seu pai também havia sido pego desprevenido. E Amanthys não fora solici­tada a falar pouco antes.

Por que ela?

Só havia uma coisa que poderia dizer. E devia inclinar-se novamente.


  • Somente minha obediência, Vossa Majestade — mur­murou, mantendo os olhos baixos.

  • Obediência? — repetiu a voz suave e envelhecida. — Obediência é bom. Sabemos que podemos encontrá-la em Trant.

Ele devia ter feito algum sinal, porque, quando se le­vantou novamente, Phaedra foi puxada pelo pai, levada para longe dos tronos. Ela olhou para trás. Os olhos de Barius ainda a seguiam do alto do Trono Ocre. Septimus, com suas brilhantes esporas douradas, também a acompanhava com o olhar, assim como alguns dos conselheiros. Mas o rei já olhava para frente, esperando pela aproximação do próxi­mo casal de pai e filha. Depois vieram mais dois, e outros dois. Phaedra já não fazia parte de seus pensamentos.

Eles se juntaram a Amanthys e seu pai, um pouco afasta­dos da plataforma sobre a qual ficavam os tronos. Amanthys a ignorava, e Phaedra decidiu fazer o mesmo. Olhando em volta, examinou o imenso salão e respirou fundo para acal­mar os batimentos do coração, que havia disparado sem que ela percebesse.

As paredes eram iluminadas pelo brilho do sol poente, cujos raios se derramavam pelas janelas. A tarde devia estar linda e maravilhosa lá fora, longe de toda aquela multidão. Na galeria em que estivera horas antes, um grupo de menestréis se preparava para atuar. Um a um, todos iam ocu­pando seus lugares. No salão, a corte assistia à procissão de pais e filhas que, próximos do trono, eram anunciados e apresentados. Meninas que atravessavam a fronteira para a vida adulta. Phaedra observava atenta para verificar se o rei conversava com outra daquelas jovens. Ele não dizia nada. Por que falara com ela?

Septimus ainda a seguia com os olhos. Ela abaixou a cabeça rapidamente.

Os murmúrios da multidão iam ganhando volume, e ela percebeu que boa parte daquela conversa não se relacio­nava à procissão formal. Os rostos na primeira fileira, basi­camente femininos, acompanhavam as duplas com maior atenção, certamente buscando possíveis parceiras para seus filhos. Mas, atrás delas, os homens se agrupavam aos pares ou trios, cochichando entre eles. Alguns nem fingiam pres­tar atenção. Phaedra viu um homem gesticulando para o outro lado do corredor, para alguém que ela não podia ver, mas que devia estar em algum lugar não muito distante dela. Combinavam um encontro. Para discutir casamentos, já? O mais provável era que a conversa se relacionasse às audiências que aconteciam havia dias, e ainda se repeti­riam por dois ou três dias até que todos os rebeldes derrota­dos fossem julgados, e até que todos os homens leais rece­bessem suas recompensas. Conversariam sobre as resolu­ções a serem tomadas, talvez até tentando antecipá-las, como alguém havia tentado antecipar naquela manhã o desfecho do caso julgado pelo rei.

Podia sentir o pai ao seu lado, observando o salão como ela costumava fazer. Ele também parecia ter esquecido o que se desenrolava diante dos tronos. Queria se juntar aos companheiros para discutir a política vigente e outras ques­tões de seu interesse.

Agora o quinto e último casal se juntava a eles, e o can­tor do rei tomava seu lugar no centro do salão. As cordas dos menestréis começaram a verter suas notas melodiosas da galeria superior. Em voz alta, o cantor deu início às co­nhecidas frases de abertura de The Tale of Kings, que relata a chegada por mar de Wulfram e seus sete filhos para encon­trar o reino. Em torno dela, o grupo de pais e filhas começa­va a se dispersar. Seu pai já se inclinava para ouvir o que um barão sussurrava em seu ouvido. Ela não queria falar com ninguém. Não queria ficar ali, vendo a corte ferver com questões políticas, enquanto o rei agia como se a cerimônia fosse a única questão a ser tratada, como se a região estives­se em paz. Havia uma porta atrás dela. Estava apenas encostada, porque alguém já saíra por ali. Phaedra hesitou. Ninguém a observava.

Sabia que seria impróprio deixar o salão antes que che­gasse o momento de integrar a procissão para o banquete. Seu pai ficaria zangado se notasse sua ausência. Mas o can­tor escolhera uma versão mais longa de The Tale, recitando as façanhas de gerações e gerações de reis, porque o rei no trono queria lembrar todos da importância de seu reinado. Assim, seria prisioneira ali por uma hora ou mais antes que a procissão começasse. Outros já haviam se retirado discretamente. Ela também iria, porque tinha coragem para tanto.

Obediência!

Um corredor curto levava a uma arcada iluminada pelo sol de final de tarde. O som da cerimônia ia se distanciando atrás dela. Estava em um pequeno pátio pavimentado cer­cado por antigas colunas brancas. Árvores frutíferas cres­ciam nessa área delimitada por muros. Havia uma fonte ali, mas a água cintilava quieta no interior da bacia redonda e larga. Phaedra se debruçou sobre ela.

Lembrou-se de outra fonte, muito parecida com essa, no pátio em ruínas além dos muros de sua casa. Gostaria de nunca ter saído de Trant. Gostaria que fossem como algumas outras famílias, incluindo uma ou duas das maio­res, que ainda se mantinham distantes da corte. Por que ir até ali para inclinar-se diante do rei? Mas seu pai era um guardião nomeado pelo trono, e um homem do rei em seu coração.

Uma voz soou ao lado dela.

— Prefere as pedras de Wulfram às canções de Wulfram, Phaedra?

Era a mais velha das garotas que haviam estado com ela naquela manhã, durante o julgamento da bruxa. Dessa vez ela estava sozinha. Usava um vestido próprio para a corte, o que indicava que a seguira desde o salão.



  • O que quer dizer?

  • Vi quando deixou o salão do trono. Gostaria de saber por quê.

Phaedra lembrou-se do nome dela. Maria. Ela possuía um agradável rosto oval com olhos muito grandes e faces marcantes, tudo emoldurado por cabelos castanhos. Não tinha certeza, mas ficara com a impressão de que ela se afas­tara do grupo quando as outras a atacaram naquela manhã. Mas Phaedra era desconfiada e não queria correr o risco de ser motivo de riso novamente.

  • Gosto daqui — respondeu, como se visitasse a fonte há séculos.

  • Eu também. Escolhi este lugar como meu refúgio se­creto em Tuscolo. Mas é claro que todos sabem dele. Ouvi alguém dizer que aqui fica o centro do mundo.

  • Por quê?

  • Imagino que eles queiram dizer que é o centro de Tuscolo e, portanto, do reino. Se isso significa que aqui está o centro do mundo, bem... Suponho que existam terras além dos caminhos selvagens, mas nada vem de lá. Meu pai con­ta que existem reinos do outro lado do mar, mas apenas os marinheiros de Velis sabem como chegar lá, e não revelarão seus segredos. Seja qual for a verdade em tudo isso, é certo que o pátio em que estamos e sua fonte foram construídos pelos filhos de Wulfram. Então, são tão velhos quanto o mun­do que conhecemos, pelo menos.

Ela não debochava de Phaedra por ter deixado a ceri­mônia. De fato, parecia feliz por estar ali em sua companhia. Talvez também se houvesse entediado lá dentro. Mas Phaedra não queria se deixar conquistar com tanta facili­dade. Por isso manteve um silêncio sombrio, demonstran­do assim quanto havia sido magoada pelas outras naque­la manhã.

— E agora o mundo sabe que você é uma mulher — Maria continuou falando. — Ou, pelo menos, o mundo que importa. Foi apresentada diante do rei e dos príncipes. Nin­guém fez tanto por mim. Causou uma forte impressão lá dentro, sabe? O que foi que disseram quando estava diante do trono?

O silêncio não estava surtindo o efeito imaginado por ela.

— Eu... eu me lembrei daquela mulher que vimos hoje no julgamento — respondeu. — Devo ter franzido a testa, ou manifestado minha contrariedade perante o rei. Ele quis saber por quê.

Franzira a testa? Havia exibido uma expressão absolu­tamente furiosa, como só agora percebia; e para o rei, que devia ser a Fonte da Lei!

— Oh, pelos anjos! — Maria riu. — E o que disse a ele?


Phaedra encolheu os ombros. Sentia-se envergonhada do que havia dito.

  • As outras terão colapsos quando eu contar a elas...

  • Por favor, não — Phaedra a interrompeu com firmeza.

  • Oh, bem... Está bem, não direi nada a elas. E lamento muito se a perturbamos, Phaedra. Aquilo tudo foi uma gran­de tolice.

  • Elas insinuaram que não somos bons o bastante — Phaedra queixou-se, esperando ouvir imediatamente que Trant era elevado e nobre e que seus guardiões tinham o respeito de todo o reino (embora o avô de seu pai houvesse sido um cavaleiro-cão, é claro).

  • Bons o bastante para quê? Se estavam se referindo a desposar um príncipe, você não tem chance menor do que qualquer uma delas. Sua aparência é excelente. E.Trant é um grande nome: um dos sete, mesmo que seu pai não seja o senhor de direito. Não sei o que fez lá dentro, mas Septimus ficou muito impressionado com você. Ele a seguia com os olhos, e continuou observando tudo que fazia mesmo en­quanto as outras garotas eram apresentadas.

  • Eu não notei — mentiu Phaedra.

  • Mas eu notei, e duvido que tenha sido a única. Mas, na verdade, somente as famílias mais poderosas podem con­tar com a chance de estabelecer uma aliança com a coroa. Elas mantêm suas filhas, sobrinhas e primas bem escondidas sob muitas camadas de renda e atrás de portas trancadas contra todo e qualquer pretendente. Pobrezinhas... O prín­cipe Barius é um homem impressionante, mas não pensa muito em nada que não sejam suas devoções. Ele preferia ser monge, como deve saber...

Phaedra não sabia. Não sabia de nada que se referisse à corte e seus ocupantes.

  • E claro que se casar com um príncipe é um sonho, Phaedra. E temos de sonhar. Temos de pensar no futuro. Devia sentir pena de nós, não raiva. E devia lamentar por si mesma, também. Sabe o que, ou melhor, quem estará espe­rando por você quando voltar para casa?

  • Ninguém. Não vou me casar.

Maria suspirou com delicadeza e melancolia.

Os últimos raios de sol brincavam com a água no centro do mundo. Nos galhos das árvores frutíferas, pombos arru­lhavam embevecidos com a aproximação do entardecer.

— Tenho uma prima quase da sua idade — Maria co­meçou a relatar em tom sonhador, quase como se falasse sozinha. — Ela acabou de completar quinze anos. Era uma menina adorável e feliz, até este verão. Agora está tranca­fiada em um quarto de sua casa, alimentada de maneira frugal e surrada todos os dias, porque se recusa a desposar o homem que minha tia julga ser apropriado para ela. E ela vai se casar com esse homem, a menos que ele se canse de esperar pela domesticação de seu espírito e vá buscar outra noiva em outro lugar. Espero que meu pai não me use des­sa maneira, quando chegar a minha vez. Infelizmente, sei que ele tem ambições e espera por uma boa oportunidade. E quando ele decidir, minha fortuna, meus direitos e meus objetivos, tudo passará a pertencer a meu marido... Todas nos casaremos, Phaedra. Nada funciona se não nos casa­mos. Mas com quem? Amanthys já sabe a que casa perten­cerá. Se às vezes é ferina ou ressentida conosco, talvez te­nha motivos para isso. E o restante de nós... quem sabe? Podemos ser espalhadas pelo reino. Fiz boas amigas aqui, e sofro por pensar que talvez nunca mais as veja. Algumas outras prometeram escrever para mim. Espero que você tam­bém o faça.

Phaedra olhou para os próprios dedos e notou que eles agarravam a beirada da fonte. As articulações estavam bran­cas. Seu pai não a obrigaria a se casar, ela pensou. Ele não podia fazer tal coisa.



Maria a observava.

  • Quando disse aquilo sobre sua mãe... Foi no parto?

  • Sim — Phaedra confirmou com tom seco.

  • Entendo. — E entendia mesmo. — Sinto muito. Acon­teceu o mesmo com minha mãe.

Nenhuma delas disse nada por algum tempo. Maria rompeu o silêncio mais uma vez.

  • Descobri o que aconteceu depois do julgamento da bruxa. Não quer saber?

  • Sim, quero — Phaedra anunciou aliviada.

  • Não houve combate. Não haveria nenhuma luta, e eles sabiam disso. Você tinha razão. O rei só concordou com o julgamento para agradar ao barão Seguin, que queria pôr fim à vida daquela mulher para ficar com as terras dela.

Não era esperado que alguém interferisse, mas o cavaleiro-cão agiu seguindo seus instintos, contrariando todas as ex­pectativas. Assim, à tarde, o rei encontrou o barão Seguin e propôs um acordo. Lady Luguan continua viva, mas perde suas terras para o nobre. E diManey terá de cuidar para que ela não pratique mais sua magia.

  • Quem?

  • O cavaleiro com a insígnia do sabujo. Um brasão de sabujo para um cavaleiro-cão. Muito apropriado. E estra­nho. Ontem, todos estavam certos de que a mulher era uma bruxa. Agora parece que não sabem. Mas todos estão furio­sos com o cavaleiro-cão, e estão correndo por aí tentando descobrir se algum rival de Seguin o enviou. Estão dizendo que ele merece ser morto, e que teria sido, se o rei não hou­vesse interferido para salvá-lo. Lady Luguan e ele serão li­bertados dentro do reino, mas serão banidos, com o desgos­to do rei, de sua corte, de suas terras e estradas. E você sabe... O próprio Barius os casará! Suponho que os bispos e seus sacerdotes não queiram se envolver nessa história. Mas, como príncipe real, Barius tem o direito e a autoridade para realizar a missa.

  • Eles vão se casar?

  • Sim, por ordem do rei. Foi uma maneira de resolver o problema da mulher e, ao mesmo tempo, punir diManey. Pobre diManey! Imagine: um belo dia você acorda, como faz todos os dias, veste-se, vai à corte porque todos estão indo para lá e, algumas horas mais tarde, você está indo para sua cama em desgraça, com sorte por estar vivo, noivo de uma estranha. Uma completa desconhecida, Phaedra, al­guém de quem ele nunca ouvira falar antes, alguém que ele jamais havia visto anteriormente. E ela é uma rebelde. Pior, e uma bruxa, provavelmente! E todas as terras que ela pos­suía foram doadas, o que significa que o casamento não ser­virá para nada. Mesmo assim, ele tomou uma atitude muito nobre, quaisquer que tenham sido suas razões. Talvez nem ele mesmo as entenda. Estou feliz por Barius ter invo­cado seu direito de abençoá-los. Não é muito, mas é próprio dele, e é mais do que qualquer outro teria feito em seu lu­gar. Suponho... suponho que seja justo esperar, afinal, e até mesmo sonhar, se sabemos que ainda existem alguns pou­cos homens bons no mundo.

Phaedra ficou em silêncio. Tinha a impressão de que até mesmo Maria pensava mais no cavaleiro-cão, e em Barius, é claro, do que na bruxa. Podia bem se imaginar no lugar daquela bruxa. E tinha certeza de que teria preferido mor­rer a casar-se com o cavaleiro-cão.

II

O Prisioneiro

Ah, Trant! Ambrose, o guardião, ergueu-se sobre a sela no pátio do rei. O sol matinal brilhava em sua testa alta. Suas so­brancelhas estavam unidas. A cabeça virava de um lado para o outro de modo a buscar todos os seus seguidores. Seu batalhão estava pronto, os homens montados, verificando seus cavalos, olhando para ele de suas selas. Os arreios fo­ram ajustados, as malhas brilhavam, as espadas pendiam das bainhas de maneira casual. O Sol e a Folha de Carvalho cintilavam em uma dúzia de peitos protegidos por arma­duras. Os criados amarravam os últimos fardos na carroça. A liteira de sua filha estava preparada. Phaedra mantinha-se um pouco afastada, já em seu vestido de viagem, espe­rando que um lacaio terminasse de verificar os arreios do pônei que ela montaria quando quisesse.

Em torno deles, a grande área central da parte externa do castelo de Tuscolo era ocupada quase que inteiramente por carroças e homens montados em cavalos. Pessoas se moviam de um lado para o outro com sacos e fardos de suprimentos, praguejando quando atravessavam o caminho umas das outras. Cachorros latiam e crianças corriam entre os adultos ocupados. O castelo e a cidade além dele come­çavam finalmente a se ver livres dos hóspedes que ali haviam estado por dias, e que agora eram vomitados como a indigestão de uma grande besta.

Ambrose continuava carrancudo, procurando por entre aquelas pessoas alguém que pudesse ser sua vítima.

O grupo o observava. Todos esses homens e suas famí­lias comiam todos os dias porque haviam nascido ou sido escolhidos para estar entre aqueles que o serviam. Conhe­ciam suas lealdades e obsessões, bem como as milhares de pequeninas coisas que ele acreditava que podiam ser feitas de maneira melhor. Conheciam o grito que ele acalentava em suas entranhas, pronto para viajar pelo ar e atingir o homem que estivesse um momento atrás de seus compa­nheiros. Ambrose os estivera atormentando desde o dia anterior. O grande, musculoso e barbudo guardião de Trant não toleraria atrasos quando chegasse a hora de partir.

Mas, dessa vez, não havia ninguém com quem ele pu­desse gritar. Estavam todos prontos. Todos eles.

— Ah, bem! — Ambrose resmungou irritado. E depois, ao ver que a filha recebia ajuda para montar, disse: — Phaedra, minha querida. Vamos ver como está o nosso caro amigo reverendo.

Deixando o grupo esperando naquele mesmo local, ele pôs a montaria em movimento. Phaedra o seguiu em seu pônei. Pai e filha progrediam devagar, respeitando a segu­rança das pessoas ali reunidas.

Na metade do caminho inclinado que levava ao portão do pátio, a multidão se tornava ainda maior e mais atribula­da. Era ali que ainda se podiam ver as barracas montadas para abrigar o bispo de Jent e seu impressionante séqüito. Três estandartes, cada um deles com o brasão da Casa de Deus a que o bispo tinha direito, pendiam de estacas man­tidas pelas mãos firmes de seus criados uniformizados. Três carroças iam sendo carregadas por outros serviçais. O bispo estava em pé no meio da confusão, gritando para que todos se apressassem. Ele era um homem gordo, de rosto redon­do e todo enfeitado com o manto, a capa, o anel e o cajado que compunham a indumentária do cargo. Era evidente que pretendia viajar em liteira fechada para proteger suas finas vestes da poeira da estrada. Ao notar a aproximação de pai e filha, ergueu a cabeça para encará-los com óbvia contrariedade.

Phaedra sabia que seu pai não seria rude, porque Sua Excelência ocupava um posto muito mais elevado do que o de qualquer guardião. Mas Ambrose também não seria ca­paz de conter o impulso de recitar seu lema. Trant acorda cedo...


  • Vejo que está mais adiantado do que eu, guardião. É com alegria que descubro que não teremos de esperá-lo, pelo menos. Já comeu, senhor?

  • Ao amanhecer, Vossa Excelência. Trant acorda cedo, e sabemos o que devemos fazer.

  • Há uma bandeja com pães e cerveja perto da porta de meus aposentos, se quiser. Gostaria de poder oferecer mais, mas pretendo partir o quanto antes, assim que possível. Já estão prontos?

Prontos e preparados, Vossa Excelência. Trant não conhece atrasos...

  • Prontos e preparados, Vossa Excelência. Espero ape­nas por meu novo encargo.

  • Aquele patife? Está no portão, bem ali.

Encargo? Patife? Olhando em volta, Phaedra viu um gru­po de homens do rei ao lado do portão do pátio superior. Eles não pareciam fazer muita coisa e estavam todos a pé. Mas seu pai se inclinava para o bispo de cima da sela e, de­terminado, conduzia a montaria por entre a multidão. Ela o viu subir até a área mais elevada do pátio, acenando para que homens e animais de seu grupo de seguidores se juntas­sem a ele. Quando se aproximou do grupo de homens do rei, Ambrose inclinou-se mais uma vez, dessa vez para um indi­víduo baixo e claro que se mantinha no meio dos soldados. Ele retribuiu a cortesia. Um cavalo de Trant foi levado até lá. O homem montou, e os seguidores do rei recuaram.

— Agora sua companhia está completa — disse o bis­po, parado ao lado do pônei de Phaedra. — E meus tolos aqui ainda levarão pelo menos mais uma hora para con­cluir os preparativos. Trant é confiante, ou não viajaria com tão poucos.

De repente, Phaedra percebeu que havia sido abando­nada pelo pai na presença daquele imprevisível religioso, alguém que ela só conhecia por sua poderosa reputação.


  • Ele deve estar mesmo confiante, senhor — a jovem respondeu cautelosa. — Quando soube que viajaremos dois terços do caminho para casa em sua companhia.

  • Ah! São os homens dele que devem me proteger, não o contrário! Da próxima vez que vier a Tuscolo, também pensarei menos em minha honra e mais na velocidade. Esse ano não precisamos de exércitos nos cercando. Coma algu­ma coisa, menina. Ainda vamos demorar um pouco.

Phaedra inclinou a cabeça e conduziu seu pônei para longe dali. Estava grata por não ter de ficar mais. Ao seu lado, um criado exibia uma bandeja com pães, bolos e outros alimentos matinais, mas ela balançou a cabeça e foi se jun­tar ao grupo de Trant para esperar pelo momento de partir.

Era típico de seu pai, pensou irritada, não só tê-la dei­xado na companhia de um homem que acabara de alfine­tar como também ter promovido uma situação em que a espera era inevitável. Ele arrancara todos da cama antes do amanhecer e os atormentara enquanto empacotavam roupas e objetos pessoais, não apesar, mas por causa do tamanho do grupo do bispo, uma multidão que os retar­daria por muito tempo depois de o último fardo de Trant ter sido acomodado na carroça. Agora ficariam ali, talvez por horas, com tudo que podia oferecer algum conforto guardado nos baús e com o sol cada vez mais alto sobre a área empoeirada e quente do pátio. Por que não se havia preparado mais lentamente, por que não se aprontara de acordo com sua conveniência, em vez de acatar as ordens do pai? Podia até tê-lo feito de tolo diante de todos os outros que Ambrose havia apressado.

Podia ter feito isso. Agora que já ouvia o chamado do lar, ansiava por romper com aquela atitude de filha obe­diente que havia exibido ali. Queria voltar a viver como vi­via em sua casa. Seu pai sabia que não devia tentar castigá-la, caso não lhe obedecesse. Naquela manhã, em determinado momento, ele ficara parado na porta de seus aposen­tos enquanto ela e sua criada Dilly acomodavam suas coi­sas em um baú. Roupas, seus livros preciosos, jogos, velas e castiçais, bacia, sabão, jóias... Ele havia testemunhado sua boa vontade e sua diligência. E pudera ouvir o alívio na voz dele quando, satisfeito, cumprimentara um homem que pas­sava pelo corredor e o seguira para o pátio.

Mesmo assim, essa era uma vitória para Trant. Peque­nos em número, ainda podiam iniciar sua jornada de cabe­ça erguida entre os componentes do grande cortejo do bis­po, porque haviam demonstrado que Trant conhecia seus deveres. Era de Trant, não menos que o pai. E também sen­tia saudades de casa.

O ruído de cascos batendo contra o solo anunciou a apro­ximação de um cavalo. Seu pai parou a montaria ao lado do pônei, inclinando-se em sua direção. Ao lado dele estava o homem louro que vira pouco antes perto do portão, agora montado, estudando-a intensamente sob o sol. Ela usou um braço para proteger os olhos contra a forte luminosidade.

— Senhor, esta é minha filha, Phaedra, que será sua an­fitriã em Trant. Phaedra, este é o barão de Lackmere, Aun. Ele será nosso hóspede.

Um hóspede. E por que deveria aturar um desconhecido em Trant?

Esse barão era um homem carrancudo. Devia ser mais jovem que seu pai, teria entre trinta e quarenta anos, mas seu rosto marcado e desagradável, com sobrancelhas espes­sas e um queixo pontudo, fazia com que parecesse mais velho. Ele era mesmo baixo, uma cabeça menor que seu pai, agora que estavam montados, e não muito maior do que Phaedra, considerando a diferença de tamanho entre seu pônei e o animal que havia sido emprestado ao desconheci­do. Ele usava os cabelos longos, na altura dos ombros, e não tinha barba, adotando a moda das províncias. Sua sobrepeliz era branca e azul, e sua insígnia parecia ser um cajado cruzado diante da cabeça de um lobo. Phaedra ima­ginou que ele fosse um dos barões menores do sul. Afinal, o homem parecia não ter criados que o acompanhassem.



  • Que Miguel nos proteja, milady disse o homem, para quem a prece dos companheiros de viagem era ape­nas, ao que tudo indicava, uma formalidade vazia.

  • E que Rafael nos guie em nosso caminho, porque es­tamos muito longe de casa — ela respondeu. — Será nosso hóspede, então? Senhor, é com prazer que recebo essa in­formação. Por quanto tempo?

O olhar de seu pai demonstrava que havia dito algo er­rado.

— Por mais tempo do que você e eu poderíamos dese­jar, creio — o barão respondeu. — Não vamos guardar res­sentimentos por isso, sim?

Somente então ela percebeu que o barão não portava uma espada. A bainha que pendia de sua sela estava vazia. Dois homens de Trant o seguiam em seus cavalos, manten­do-se bem próximos dele.
* * *

Tinham percorrido a planície ensolarada da periferia de Tuscolo por cerca de uma hora antes que Phaedra finalmen­te conseguisse aproximar sua montaria da do pai.

—Lamento ter envergonhado nossa casa, senhor.

— Refere-se a Lackmere? Eu não me incomodaria com isso. Em outra ocasião, lembre-se de que uma boa anfitriã nunca pergunta a um hóspede quanto tempo ele pretende ficar.

— Em outra ocasião, prefiro ser informada com alguma antecedência, o que me deixará mais preparada para lidar com o hóspede — ela retorquiu com a ousadia habitual.

Ambrose refletiu sobre as palavras da filha, coisa que não faria por mais ninguém.



  • Ele me foi imposto nas últimas audiências de on­tem. Quando retornei aos nossos aposentos você já dor­mia, como era esperado. Ele permanecerá conosco até quan­do o rei assim o desejar. E teve sorte de escapar sem sofrer danos maiores.

  • O que ele fez?

  • Ele tem sido um velhaco e um encrenqueiro por anos. Mas, ao ser pego, era um rebelde e se aliara aos revolucio­nários. Bons homens foram perdidos até que ele fosse cap­turado. O barão podia estar cego e ter sido privado de suas terras. O rei se comoveu a ponto de tratá-lo com clemência, porque o acusado não a pediu. Temos de ensiná-lo a agir com civilidade, menina.

Phaedra olhou para frente, para onde o barão cavalgava com a cabeça descoberta e exposta ao sol. Então, esse ho­mem pequenino, de porte insolente e arrogante, esse des­conhecido que seguia na frente das flâmulas de sua casa era um dos inimigos sem rosto contra os quais seu pai havia lutado quatro vezes nos campos perdidos do reino. Ele não olhava para trás, para a longa procissão que o seguia. Não os reconhecia e avançava errante em meio à nuvem de poeira levantada pelos cascos das montarias dos homens que eram seus carcereiros. O que poderia fazer? Dois dos integrantes do exército de Trant o seguiam de perto.

—Ele vai tentar escapar? — perguntou a filha de Ambrose.

O sol cintilava sobre as malhas metálicas. Os cavaleiros que ocupavam as áreas mais externas das colunas progre­diam lentamente ao longo do alto de uma pequena colina para o sul de sua linha de marcha. Phaedra podia ver a nu­vem de poeira provocada por suas montarias contra o sóli­do azul do céu. O toque de suas trombetas anunciaria o perigo a tempo de evitá-lo.

— Quem sabe? Tenho a palavra desse renegado. Se ten­tar fugir, ele será capturado e perderá suas terras. Ele tem uma família que sofrerá as conseqüências de seus atos. Se cumprir a sentença imposta pelo rei, pelo menos poderá rever seu lar em paz.

Então, esse homem estava preso pela palavra, pelos guardas e pela ameaça de sangue. Mas o simples fato de tantas garantias serem necessárias comprovava quanto ele era perigoso. E seria alimentado em sua casa e se sentaria à sua mesa todos os dias, um inimigo e um rebelde.

Segura em Trant, Phaedra não tomara muito conheci­mento da rebelião dos barões do Litoral e de seus aliados do sul, uma batalha que havia coberto de sangue o solo do reino. Ainda entendia pouco a complexidade das disputas e rivalidades que os levaram a se aliar contra a coroa, ou como eles haviam conquistado as primeiras vitórias, con­trariando todas as possibilidades, e assim ameaçado a per­manência do rei em seu trono. Para ela, o principal efeito fora o vazio em Trant, uma desolação que se estendera por meses a fio, enquanto o pai e seus cavaleiros partiam para trazer de volta histórias de um inimigo cuja força não estava nos números, mas na capacidade de luta e na engenhosidade que pareciam superar a natureza humana. Durante as poucas semanas que havia passado na corte, ela ouvira ou­tros relatos de homens que tinham visto uma cidade inteira incendiada, combatentes que tiveram seus amigos mortos, enfim, gente que falava de coisas tão alteradas que nunca mais poderiam ser as mesmas.

Ambrose também observava o barão, e sua testa estava franzida. Também devia estar considerando o julgamento do rei. Somente o rei podia distribuir justiça entre os senho­res da mais alta nobreza, de forma que eles podiam repas­sar essa mesma justiça para seus cavaleiros e barões, que por sua vez comandavam os proprietários de terra e as pes­soas que ganhavam a vida trabalhando nela. Mas uma re­belião tinha de ser contida. Seu pai, como muitos outros, poderia ter sofrido grandes prejuízos caso a luta houvesse seguido pelo caminho errado. Ele devia estar receoso, certo de que o rei havia sido muito benevolente com esse rebelde; e, talvez, com base em outros julgamentos já realizados na corte, ele podia temer que Sua Majestade atuasse agora com cautela muito menor do que aquela exigida pelo momento.


  • Uma situação desanimadora — disse o bispo.

  • Sou da mesma opinião, Vossa Excelência. Estavam jantando juntos em uma hospedaria.

O barão Lackmere comia com eles na pequena mesa redonda enta­lhada com santos, uma peça que o bispo carregara com ele até Tuscolo e que agora levava de volta. Phaedra tinha o rosto brilhante do sol e as pernas doloridas depois de per­correr trinta e cinco quilômetros de estradas em péssimo estado. Parte do grupo que os acompanhava bebia e con­versava no salão comum, do outro lado do corredor.

— Mas por outra razão, Trant. É um leal homem do rei, uma característica que o tornou famoso, senhor. Por isso só se recorda de que o rei teve de voltar atrás na palavra dada a Seguin a fim de salvar um tolo cavaleiro que não sabia o que estava fazendo. Portanto, pensa, o julgamento não de­via ter acontecido. Se o homem não se houvesse apresenta­do, eles teriam golpeado aquela mulher na cabeça, dividido suas terras, e você não teria visto nenhum erro nisso. — Ele franziu a testa. — Não digo que quem tenta praticar um assassinato, seja por quais meios for, não mereça a morte. Mas a bruxaria é tão apropriada aos jogos dos humanos quanto o fogo é próprio para a brincadeira das crianças.

Sentado à mesa, o bispo não usava seu capuz. Havia sido um choque para Phaedra descobrir que o religioso era inteiramente careca. Seus dedos grossos e enfeitados por anéis e suas roupas finíssimas exibiam manchas de comida. Ele se espalhava na cadeira à ponta da mesa, inclinando-se para frente, os olhos salientes, a voz retumbante soando com petulância, como se adorasse uma boa discussão, mas gos­tasse ainda mais de vencer todas as disputas.


  • Não estamos tratando apenas de assassinato — ar­gumentou o pai dela. — Falamos aqui de uma rebelião.

  • Ah! Quanto a isso, não ouvi nenhuma acusação con­tra aquela mulher. Por que um homem se rebela contra seu senhor, Lackmere?

O barão não participava da conversa. Talvez estivesse surpreso por ser solicitado a opinar.

— Por que uma pedra cai no chão? — ele resmungou. — Devo aceitar como meu senhor alguém que me governe de longe e talvez ordene minha vida de forma a privilegiar meu vizinho, em detrimento dos meus interesses? E se meu vizinho paga algum tipo de suborno ao rei ou a seus corte­sãos para obter privilégios, sem que eu me dê conta disso?

O bispo sorriu com escárnio.

— E um mundo decaído esse em que Deus não pode ser mais do que o menor de dois grandes males. Não me interprete mal. Sou um homem da igreja, e nessa posição eu e meus companheiros abençoamos o rei e sua lei por qualquer medida de paz que possam trazer. Mas não suponho que sejam perfeitos. Nenhum dos dois. Especialmente quando os homens apregoam bruxaria. Não gosto desse assunto... Não, Trant, escute-me, senhor. Deixe o rei aplicar sua justiça na ponta de uma espada, se sua vontade não pode ser mais útil, mas a escritura me diz que nada é maior do que o Céu.

— E o que ela lhe diz a respeito de bruxaria? — Phaedra indagou repentinamente. — Vossa Excelência — acrescentou.

Imediatamente, ela percebeu que havia falado em um momento inoportuno. Talvez por isso o bispo a encarasse boquiaberto, com os olhos arregalados e uma coxa de gali­nha a meio caminho da boca.



  • Quero dizer... por que devemos ter tanto medo?

  • Phaedra... — o pai a censurou.

  • Não, Trant — o bispo o interrompeu. — Ela acha que o assunto é apropriado, então, devemos debatê-lo.

De repente, ela percebeu como os outros homens esta­vam rígidos, observando cada gesto do religioso.

— Acaba de proferir uma obscenidade, criança, como deve saber. A bruxaria é uma abominação. Não sugiro que um homem encharcado de poções ou outros artifícios malé­ficos seja mais prejudicado do que outro cuja cabeça foi aber­ta por uma espada. Nem simplesmente, como diriam al­guns de meus irmãos, que o ato da feitiçaria é prejudicial à alma. Se aquela mulher nem se arrepende de ter praticado sua bruxaria, então, que sua alma seja amaldiçoada e que ela vá para bem longe de nós, senhor... Mas veja o mundo como os Anjos o vêem. Veja o Homem, sentado à mesa, uma mesa redonda como esta. A sua direita — o bispo apontou para o guardião — estão as virtudes: justiça, lealdade, hon­ra, e assim por diante, cada uma mais e mais brilhante, até alcançarmos as cadeias da Coragem, da Compaixão, da Glória e da Verdade, por trás das quais estão os próprios Anjos. A sua esquerda...

O barão sufocou uma gargalhada sarcástica quando o religioso apontou em sua direção.

— ... a guerra, a crueldade, a falsidade e as pequenas mágicas, os filtros de amor, as poções, as criaturas que cor­rem como lebres ágeis nos prados, as palavras dos mori­bundos e dos mortos, as imagens de cera e o sangue das aves sacrificadas. Além deles, os lugares sombrios em que os demônios nascidos conosco sussurram promessas que levam a alma à podridão.

Ele se debruçou sobre a mesa, e seu dedo roliço apontou para o coração de Phaedra.

— E há um lugar em que a verdade e a bruxaria se to­cam. Lá precisamos da ajuda dos Anjos! Porque vivemos pela verdade. Nunca duvide disso. O que deveria ser a jus­tiça, senão o exercício da verdade? Mas a verdade que deli­mita esses lugares é distorcida. Lá, o ódio mais bem contido é aquele imediatamente destruído. Senão, ele conduz aquele que odeia à falsidade e à traição. E se espalha daquele que odeia para todos, até mesmos para aqueles que o levam à justiça. Coisas horríveis são praticadas todos os dias, meni­na, por homens em armaduras e considerados nobres. Mas nada pode ser pior do que o que eles são capazes de fazer quando há o cheiro de bruxaria no ar. — Ele parou por um instante. Depois, prosseguiu: — Menina, conhece alguém que pratique ou fale em praticar bruxaria?

Ela o encarou.


  • Não, Vossa Excelência.

  • E os Anjos são minhas testemunhas — acrescentou apressado o pai dela. — Ela diz a verdade como a conheço, Jent.

O bispo recostou-se na cadeira, olhando-os com interes­se. Não disse nada. Não podia estar duvidando de seu pai, podia? Phaedra e o guardião o estudavam como se ele fosse um urso prestes a atacá-los.

Finalmente, o religioso riu.

— Por acaso já conhecia aquela mulher, Lackmere? A que foi julgada na corte?

O barão olhou diretamente para o bispo.



  • Luguan? Não. Mas creio que ela esteve com Calyn da Rosa da Lua por algum tempo.

  • Ah! Então, podemos dizer que ela praticamente pe­diu para ser julgada ao escolher suas companhias!

  • Não posso opinar quanto a isso. Ele era um homem perspicaz, fiel aos amigos, apesar do que se diz de sua casa e de sua linhagem.

  • E eu já disse algumas palavras sobre a verdade há pouco. Com ou sem bruxaria, um homem que é fiel a rebel­des como esses pode ser ele mesmo o pior exemplo de falsi­dade. O que aconteceu com ele?

O fogo estalou, e o barão não respondeu. Talvez tam­bém se sentisse ameaçado.

  • O que aconteceu com ele, Lackmere?

  • Morreu de uma febre comum antes do Dia de Todos os Santos — resmungou o barão. — E sem nenhuma ajuda da bruxaria.

Os três homens continuaram ali sentados por algum tem­po depois de Phaedra ter se recolhido. De onde estava, em seu quarto, ela podia ouvir o rumor de vozes ecoando pela chaminé, misturando-se ao coro mais intenso e abafado do salão.

Vento sul, varrendo as águas, Balançando as velas ao redor...
A voz do bispo ecoava pelas paredes de pedra.

—Bela filha você tem, Trant. Congratulações.

Ambrose respondeu alguma coisa. Talvez já estivesse um pouco amolecido pela bebida. Talvez, afetado pelos es­forços do bispo de tratá-la com tato e delicadeza, ele esti­vesse pronto para admitir que a conversa sobre bruxaria havia sido culpa dela, afinal.

— Não! Pelas asas de Gabriel, Trant! Orgulhe-se! Ela pensa. Dará uma linda mulher.



Vento sul, varrendo as águas, Leve-me de volta para o meu amor.

— Pensando? — o bispo gritou novamente. — Quanto maior o mérito, maior a queda, seja para um homem ou para uma mulher. E maior a redenção. Mas um homem que procura por uma mulher estúpida é ele mesmo um tolo. Que dote oferece por ela?

"Três mansões e seiscentos marcos de prata", Phaedra pensou.


  • Pequeno! Ah, é um homem astuto, Trant...

  • A terra fica livre de reclamações — confirmou o pai dela. — E mesmo que eu não oferecesse uma folha de gra­ma, os tolos ainda estarão atrás de nós...

  • Teimosos como moscas! Eles sabem o que virá. E ela tem boa aparência. Metade do reino baterá em sua porta por causa dela. Maldito seja... Eu mesmo bateria, se não fosse um sacerdote. — Sua risada ecoou por entre as pedras. — E se minha outra conhecida permitisse!

Despediriam-se do bispo ao amanhecer e depois segui­riam caminhos distintos. (Haviam sido trinta e cinco quilô­metros hoje, e seriam quarenta e cinco no dia seguinte, e sob sol escaldante. Ela se sentia dolorida.) Estava feliz, tanto porque a despedida marcava um novo estágio na viagem de volta para casa, quanto por sua ânsia em afastar-se desse príncipe da Igreja e suas perguntas insolentes. Então, ele acreditava que podia insultar os homens que com ele se sentavam à mesa e depois reconquistar sua amizade? O que os Anjos deviam pensar de tal criatura a seu serviço!

Ela virou a cabeça sobre o travesseiro. Através das finas cortinas que cercavam sua cama, podia ver sua criada Dilly deitada perto da lareira, uma sombra adormecida iluminada pelo que restava das brasas. De baixo vinham os sons do sacerdote, do barão e do homem do rei, rindo e conversando apenas do adiantado da hora. Seu pai e o bispo deviam estar embriagados, pois falavam sobre os infortúnios dos grandes e tentavam sentir no vento o cheiro de bruxaria. E o barão... também estaria bêbado, embora silencioso, ou apenas plane­java? Do lado de fora, cavalos relinchavam e batiam seus cas­cos contra o chão, perturbados por alguma coisa na escuri­dão. A luz da lua brilhava e desaparecia com o movimento das nuvens. Malhas metálicas tilintavam sob sua janela, onde vigias armados andavam de um lado para o outro.



Leve-me de volta para o meu amor.

Phaedra sonhou.

Caminhava por uma paisagem carregada de intensos tons castanhos. A luminosidade era fraca. Em torno dela erguiam-se as colinas que, sabia, existiam do outro lado do lago de Trant. Sentia o impacto das botas contra as pedras secas. Tentava encontrar o caminho para casa.

Então, o bispo a desposaria se não fosse um bispo, disse o homem que seguia a seu lado. Devia estar satisfeita.

Não quero me casar com ele, ela respondeu.

Então, seja grata por ele ser um bispo, afinal.

Ele me amedronta. E a meu pai. E ele tem essa intenção.

Pode acabar descobrindo que ele é melhor do que muitos jo­vens com quem poderiam desejar casar com você.

Não!

Agora é uma mulher. Seu pai não a teria levado à corte, se fosse diferente.

Estou indo para casa, ela argumentou.

Caminhavam juntos, percorrendo caminhos que se­guiam por entre as pedras escuras. Longe, o horizonte en­contrava o céu, como se todo aquele lugar consistisse em um vasto círculo de montanhas. Duas grandes luzes, me­nores do que a lua, mas maiores do que qualquer estrela, pendiam juntas da beirada. O ar carregava o eco de algum som que era profundo demais para ser ouvido.

Já se haviam encontrado antes, muitas vezes.

Podia olhar para ele, porque estava sonhando. Ele era alto e caminhava com a cabeça inclinada. Podia ver nitida­mente seu rosto e os cabelos pretos e curtos, apesar da tê­nue luminosidade. Ele se vestia de negro e, enquanto anda­va, carregava o cálice de pedra diante dele com as duas mãos. Phaedra observou a linha de seu rosto contra o céu enquan­to andava a seu lado. Queria que ele falasse, mas ele perma­necia em silêncio. Em que estaria pensando?



Vamos beber novamente? finalmente, ela perguntou.

Ele parou, mas não respondeu de imediato. Depois de alguns instantes, ergueu a taça.



Se quiser...

Havia água no cálice, água escura como tinta, como a que fica retida num fosso muito profundo. E, no entanto, ao mesmo tempo, essa água era clara. Ela se movia ligeiramente diante de seus olhos. Phaedra tocou a borda do cálice. Eles o seguraram entre as mãos.



Você primeiro, ela disse.

Seus dedos repousavam sobre as luvas do homem.



O segredo é não ter medo, ele falou. Você será o que será se não tiver medo de nada.

Pedras se chocaram entre as rochas à esquerda de onde ela estava. Algo sem olhos se movia por ali, rosnando, tateando o caminho. Uma coisa com cabeça de sapo coberta por um capuz. Pequenas pedras se desmanchavam sob seus pés, e as longas garras de seus dedos deixavam marcas no chão. Pelo canto dos olhos, ela o viu virar a cabeça em sua direção, enquanto, determinada, tomava o cálice de seu acompanhante. Não o encarava. Não tinha medo de nada. Ela bebeu, virando a taça de forma que seus lábios to­cassem o mesmo lugar que os dele haviam tocado.

O pônei de Phaedra era castanho e tinha o nome de Collen. Ele era dócil e seguro, no mínimo muito esperto. Havia percorrido regiões desconhecidas e castigadas pelo sol inclemente e encontrado o melhor terreno nas estradas de solo acidentado, progredindo melhor do que muitos ani­mais de grande porte que integravam a parada. Agora, quan­do subiam a difícil encosta de Redes Hill no calor do final de tarde, ele parecia notar que se aproximava de casa. Olá, suas orelhas diziam ao se levantarem. Já não estive aqui antes? Vejamos...

Phaedra deixou que ele a levasse para a frente do gru­po, e para cima da encosta. A trilha descrevia uma curva para a direita, passando por entre oliveiras em que cabras pastavam sonolentas a relva abundante. Após um quilôme­tro, o caminho fazia uma espécie de retorno contornando o miolo da colina, e a paisagem mudava.

Ali, Collen parecia dizer, com suas orelhas em pé: Eu não disse?

Após dias de terras secas e aridez escaldante, o grande lago se estendia para a esquerda e para a direita até encon­trar o céu no horizonte. Sua superfície calma brilhava ainda mais azul sob a luz do entardecer. Lá embaixo, barcos de pesca cortavam a água, suas velas lembrando diamantes, encurvadas e pálidas sobre a superfície escura. Ela podia ver a margem mais distante com clareza. Podia distinguir as sombras dos pinheiros e o manto formado pela relva nas encostas das colinas. Mais longe ainda, as montanhas se erguiam, majestosas.

Era um alívio estar em casa, depois de dias em lugares desconhecidos em que tivera de conviver com novos ros­tos. Era agradável ver a água depois da aridez das paisa­gens da jornada e do frenesi da casa do rei. Paz, parecia sussurrar a brisa que soprava por entre os galhos das árvores. O ar era um pouco mais fresco ali, entre as oliveiras perfumadas, do que havia sido na estrada batida pelo sol. As árvores estavam carregadas com seus pequeninos fru­tos. Logo haveria uma colheita de olivas.

Cavalos se aproximavam. Para sua surpresa, era o ba­rão de Lackmere e seus dois guardas. O restante do grupo ainda se encontrava fora de seu campo de visão, abaixo da curva mais acentuada.



  • Este lugar é tão pacífico que você se aventura a se­guir sozinha na frente dos outros, sem nenhum cuidado? Não sou de grande valia para você, mas pensei que, se a alcançasse, esses dois soldados viriam comigo, e então esta­ríamos em melhor situação, caso algum mal ocorresse.

  • Reconheço a bondade de seu gesto, senhor, mas sua preocupação é desnecessária. Estamos em terras de meu pai. Veja — ela disse, apontando para o lago.

  • Sim, já vi. Que distância ainda temos de percorrer?

  • A estrada segue pela margem do lago. Veremos Trant depois da próxima subida. — Prossigamos, então. Aquilo é uma mansão?

Abaixo e à esquerda, era possível ver os limites do te­lhado familiar da Mansão Gowden.

  • Uma das casas de meu pai, senhor.

  • Falamos de riqueza, aqui?

  • Não sei se podemos dizer que o lugar é rico. Trata-se de uma casa ampla de madeira e pedra, cercada por cabanas e construções que servem ao trabalho agrícola, tudo em um terreno demarcado por estacas e localizado em uma área de campos férteis e pomares.

  • Muita terra?

  • Desde a margem do lago podemos contar meia hora de caminhada nas duas direções. Há um lugarejo de pesca na margem que fica dentro do terreno.

A trilha os conduziu para a direita, por entre as olivei­ras, numa suave descida pela encosta. O barão ergueu-se sobre a sela para olhar em volta, tentando ver além das ár­vores frondosas e perfumadas.

  • É tudo tão verde! — exclamou. — O que plantam aqui?

  • Ora, oliveiras, como pode ver, senhor. E videiras, fru­tas e grãos. Também temos carvalhos, de onde tiramos nos­so brasão. Nossos rebanhos são basicamente de carneiros e cabras. O que há em Lackmere?

  • O mesmo... onde é possível. Mas aquela é uma re­gião mais pobre. Um homem precisa de muita terra para ter uma vida confortável. Muito mais do que sua Gowden. E não existem grandes cidades das quais possamos retirar ri­queza ou bens.

  • É um lugar muito seco? Lackmere significa falta de água, ausência de mar...

  • Não temos nada parecido com isso — ele respondeu, apontando para o lago. — Nem um décimo ou um centési­mo do tamanho desse lago. Nossas fontes ficam quase se­cas no verão, e a relva é amarela como palha. Não é um deserto, mas uma floresta de espinhos. Muitos quilômetros dela. Uma terra boa para lobos. Uma terra difícil para pas­tores e criadores de cabras, que devem proteger seus reba­nhos usando, às vezes, não mais do que um cajado. — Ele tocou seu brasão.

  • Lobos? Eles são grandes e ferozes?

O barão a encarou. Seus olhos eram verdes.

— São pequenos, magros e ferozes. E estão sempre fa­mintos.



Saíram da região em que o bosque era mais denso, e a estrada voltou a subir a encosta, ainda com o lago à esquer­da. Perto do topo, detiveram-se. Olhando para trás, Phaedra viu o restante do grupo emergindo da região das árvores.

  • Trant fica logo depois dessa colina.

  • Acho que vou gostar de ver nosso destino.

  • Devemos esperar aqui. Meu pai pode desejar reunir todos os integrantes do grupo para a última escalada. Ele sempre faz soar sua trombeta.

  • Mesmo assim, vamos nos adiantar para olhar. Não sei por quanto tempo esse lugar será minha prisão. Creio que me sentirei melhor se o vir pela primeira vez em sua companhia.

O barão pôs sua montaria em movimento. Ela o seguiu relutante, porque não havia gostado do que acabara de ou­vir. Do topo da colina, avistaram a silhueta familiar de Trant na colina vizinha. Tudo continuava como sempre havia sido, mesmo depois da longa jornada. Além da propriedade, o lago se estendia para o norte até se perder de vista. Estava em casa.

  • Hmm... É forte — comentou o barão.

  • Não é tão grande quanto a casa do rei.

Trant era um pátio fechado e delimitado por cinco gran­des torres. Além dele, havia outras construções e uma área ampla cercada por um dique que se estendia até o lago.

  • Não, realmente. Mas seu pai não precisa abrigar mil combatentes em uma única noite nem alimentar e proteger uma cidade. Minhas paredes não são tão altas quanto es­sas, e o meu não é o lugar menos fortalecido ao sul. Que outros castelos existem perto daqui?

  • Não são muitos. Tower Bay deve ser o mais próximo, mas fica a mais de um dia de viagem.

  • De quem são aquelas terras, então? — ele apontou para o outro lado do lago.

  • As montanhas que vê ficam além dos limites do rei­no. O povo das montanhas de lá é pagão. Mas as terras desse lado de cá compõem as Fronteiras de Tarceny.

O barão balançou a cabeça.

  • A Lua Dúbia. Não posso dizer que tenha bons vizinhos.

  • É o que dizem, senhor. Mas também já ouvi dizer que o mal que foi feito, a opressão de seu povo e de seus vizinhos, foi obra do velho senhor de lá. Ele morreu há al­guns anos. Não conheço o novo responsável ou sua casa, e eles não foram a Tuscolo para o banquete do rei. Nossos navegantes mantêm alguns negócios com os deles. Caso contrário, nem tomaríamos conhecimento da existência des­se povo, porque não nos importunam. Meu pai sempre nos deixa protegidos por forte guarda quando está fora, como no caso dos recentes problemas que se abateram sobre o reino. Mas nunca tivemos de nos defender.

  • Hmmm... — Agora o barão olhava sério para o outro lado do lago.

Devia ter se lembrado de que ele era um daqueles a quem Tarceny poderia ter auxiliado por meio de um ataque pro­veniente da outra margem do lago. Talvez ele e seus ami­gos houvessem implorado a Tarceny por tal movimento, já que os homens do rei haviam fechado o cerco em torno de suas últimas fortalezas. Caso houvesse ocorrido esse ata­que, talvez agora ele não fosse prisioneiro. E toda essa terra que ele tanto admirava por sua exuberância verdejante agora seria negra, resultado dos rastros deixados pela guerra. E ele não se teria importado.

Phaedra teve de respirar fundo por um momento. Sen­tindo o sol na pele, ela se lembrou de que os abutres de Tarceny se haviam mantido em casa, enquanto Trant flores­cia num delicado jardim.



  • Então — disse o barão —, não recebe visitantes? Não tem pretendentes ainda?

  • Alguns poucos.

  • E o que faz aqui, enquanto espera que eles venham procurá-la?

  • Faço o que quero, senhor.

  • O quê? Não imaginei que fosse uma prisioneira, como eu!

  • Sou filha de meu pai, senhor!

  • É claro.

Ambrose aproximava-se com o restante de seu grupo. Podia simplesmente se virar sobre a sela e observar a che­gada dos outros, e esse teria sido o fim daquela aborrecida conversa. Mas sabia que teria de passar muitas horas na companhia desse homem. Desde que ele entendesse que o trataria como a um igual, ou não falaria com ele, não havia mais necessidade de lidar com sua presença inoportuna. De qualquer maneira, gostando ou não, em pouco tempo já se conheceriam bem melhor.

  • Às vezes, leio — contou resignada. — Normalmente caminho e penso.

  • Você lê?

  • Sim, e também aprendi aritmética.

  • Isso é raro. Minha esposa não sabe ler e não conhece os números. Nem eu.

Então, ele já possuía uma esposa. E claro... Ouvira seu pai falar sobre a família do barão. E agora ele já estava pró­ximo o bastante para deter sua montaria.

De repente, toda a colina se enchia de cavaleiros: o gru­po inteiro, diversos homens montados e o condutor do va­gão esperavam pelas ordens do guardião. Ele levantou um braço. Um cavaleiro aproximou-se, levando a grande flâmula do Sol e da Folha de Carvalho que, batida pelo vento do lago, tremulava orgulhosa. Sob a imagem era possível ler o lema do guardião: ATENÇÃO COM QUEM SE APROXIMA. O arau­to fez soar o toque de Trant, e o grupo começou a descer a colina. Outras trombetas, ainda fragmentadas e distantes, soaram das janelas do castelo na colina distante.

E assim Phaedra voltou para casa pela última vez sob a bandeira de seu pai.

III


Pretendentes e Jogo de Xadrez

Trant vivia a época de colheita. Pela manhã e ao entardecer, quando o clima era fresco o bastante e era possível trabalhar, as encostas das colinas ficavam cobertas por pessoas que se moviam por entre as videiras carregadas. As uvas ainda estavam sendo colhidas. Os grãos já haviam sido tirados da terra. De todos os celei­ros vinha o ruído constante da debulha com mangual. Os meses de escassez chegavam ao fim. A comida estava ali para ser recolhida, e cada dia era importante. Todos os ho­mens se apressavam para assegurar o próprio sustento an­tes de fazer o trabalho para a propriedade, e cada cavaleiro da propriedade queria tudo que lhe era devido antes de pen­sar no que devia a Trant. Ambrose estava em todos os luga­res, cavalgando por entre as propriedades para encorajar as pessoas e motivá-las a dar a ele o que era devido. Um dia ficou furioso no meio de uma audiência e condenou à pri­são três homens do mesmo vilarejo por não fazerem seu serviço como deviam. Por cinco dias, três mulheres e seus filhos, o menor com seis anos de idade, trabalharam sem a ajuda dos chefes de suas famílias na época mais importante do ano.

Isso ocorreu em Sevel, uma das propriedades. Ambrose presidia a corte ali com mais freqüência do que em qualquer outra de suas propriedades, porque um cavaleiro a ser­viço de Tower Bay certa vez tentara reclamar o lugar, e ain­da era importante garantir que Bay e Sevel compreendes­sem quem era o senhor de Sevel.

Phaedra havia cavalgado com o barão de Lackmere para assistir às audiências, mas não estivera presente quando o pai tivera aquela explosão temperamental, porque seu hós­pede se havia afastado com seus guardas para visitar o galpão em que as uvas eram processadas, cheirar o suco e a polpa delas extraídos e examinar todo o equipamento utili­zado no trabalho, para depois opinar sem modéstia sobre como as coisas eram feitas por ali. Meia hora ouvindo a jus­tiça do guardião havia sido mais do que suficiente para Lackmere. Não estava interessado em casos domésticos, mas na distante possibilidade de um confronto com Bay. Talvez imaginasse que o guardião pudesse dar a ele uma espada e deixá-lo enfrentar os inimigos de Trant como um cavaleiro, mesmo que somente por uma hora.

Ele estava sempre na companhia de Phaedra. Não era um homem fácil de entreter. Embora fosse tratado com res­peito e cercado de todo conforto, e apesar de ter permissão para ir a qualquer canto das terras de Trant, desde que sob supervisão, ele não tinha nada para fazer senão esperar pela ordem de libertação que nunca chegava. Phaedra fazia o que estava ao seu alcance. Cavalgava com ele por todas as casas e mansões do castelo e o acompanhava em longas caminhadas até as muralhas. Tentava ler para ele, mas o ba­rão não encontrava muita utilidade para The Lamentations of Tuchred, ou qualquer outro dos cinco ou seis volumes de meditações sagradas que compunham a biblioteca de Trant. Ela escrevera uma carta, ditada pelo barão, para sua senho­ra, uma mensagem cujas palavras e saudações eram tão ten­sas que traíam sua culpa por ter agora sua família protegida e suas terras resguardadas por aqueles que ele escolhera como inimigos.

Queria que ele visse Trant como ela via, um lugar acon­chegante e doméstico, mesmo para um exílio. Queria que ele enxergasse além dos pequenos sinais de riqueza que já havia notado, como o prato de prata com o qual era servi­do, o número de tapeçarias que adornavam as paredes e o fino artesanato dos conjuntos de mesas e bancos. Queria que ele demonstrasse compreender que tinha sorte por ter sido enviado para lá, não para outra casa qualquer do rei­no. Em Trant ele podia rir com James, o administrador, ou com Joliper, um dos empregados. Sappo, o caçador, podia levá-lo para uma expedição às margens do lago, e todo seu tempo poderia ser ocupado por atividades divertidas e prazerosas. Ficava aborrecida quando ele falava com des­dém dos pratos produzidos na cozinha ou quando reclama­va de algum detalhe. O barão falava pouco com irmão David, o sacerdote do castelo, e só comparecia ao serviço religioso quando o dever assim exigia.

Ela o levou para conhecer sua área preferida em Trant, o pequeno bosque de carvalhos perto da margem do lago abaixo do castelo, onde o pátio em ruínas se escondia entre as árvores com suas colunas tentando tocar o céu, sua fonte de água fresca e seu silêncio revigorante. Levou-o para co­nhecer o trabalho artesanal realizado naquelas pedras, pen­sando que ele poderia ficar impressionado com a profunda quietude dali. Contou como escapara do banquete do rei em Tuscolo e encontrara um pequeno pátio com uma fonte como aquela, um lugar que despertara lembranças de casa. Ele não se mostrou muito interessado.

E em um dia chuvoso, ela o acompanhou até a capela para mostrar a fileira de pedras contra uma parede, lápides nas quais se liam os nomes de sua mãe e de seus quatro irmãos e irmãs, dos quais apenas um vivera até os três anos de idade.

Ele olhou para as lápides, e seu rosto também parecia entalhado em pedra. Talvez se lembrasse dos filhos que tam­bém tivera de enterrar, como aqueles.



  • Você era a mais velha?

  • A segunda. Guy era o mais velho. Ele é o único de quem me lembro bem. Guy pereceu vítima de uma febre um ano antes de minha mãe morrer. Depois de mim, houve um intervalo, e então... — Ela apontou para a fileira de lápi­des que terminava no nome de sua mãe.

  • Por que seu pai não se casou novamente?

Por que as pessoas sempre pensavam e perguntavam a mesma coisa?

  • Ele não quer riqueza, senhor.

  • Mas quer filhos, não? Todo homem os deseja.

  • Ele jurou que nunca mais se casaria. Meu pai diz que os Anjos já deram a ele sua cota e que isso é o bastante para contentá-lo.

  • Entendo. E quando um desses belos pretendentes a levar embora daqui, o que terá restado de sua cota?

Odiava quando ele falava dessas coisas. Era como ouvir um bêbado cantando em voz alta suas canções obscenas dentro de uma catedral ou numa rua silenciosa. Mas, como um bêbado, ele não se deixaria calar. E tinha a impressão de que não havia muitos outros assuntos sobre os quais ele desejasse discutir. Não queria pensar em pretendentes, como também não queria pensar no que o pai faria no futuro.

— Ele jurou que não se casará.



Um estranho juramento, disse seu acompanhante. No sonho, estavam sentados numa encosta de solo marrom. Ele tocava com a ponta de um dedo a borda do cálice de pedra que segurava com a mão esquerda.

Lembra-se da primeira vez?

Ele assentiu. Lembro. Você era apenas uma criança e estava debruçada sobre a fonte. Eu a vi nitidamente. Por isso falei com você.

Pensei que você fosse meu irmão, ela respondeu.

Havia sido pouco depois da morte de sua mãe, naquele período vazio em que todos os dias ela acordava para des­cobrir que tudo tinha mudado, embora tudo continuasse igual. Certa noite, quando ocupava o lugar de sua mãe à mesa do jantar, seu pai começara a relacionar em voz alta todas as irmãs e filhas de senhores locais com quem ele po­deria formar uma aliança. Ele falava sem grande interesse, mas de maneira ininterrupta. E ela havia gritado com ele por cima da mesa, com sua voz infantil estridente e histéri­ca, acusando-o de ter matado sua mãe e prometendo que também morreria caso ele se casasse outra vez. Depois fora para o quarto e recusara o alimento. Recusara a comida por dias. A dor chegara como um luto. E quando ela se fora, Phaedra sentira o luto partindo com ela e começara a so­nhar sonhos maravilhosos e ensolarados nos quais via a mãe costurando vestes (Não se aproxime demais, criança), ou cami­nhando pela margem do lago com o sol iluminando sua pele e se refletindo na superfície da água. E acordava para descobrir que a mãe estava morta, que Guy estava morto e que seu pai estava furioso, implorando para que ela comes­se, e desejava adormecer novamente.

Mas o orgulho de Ambrose se dobrara no décimo se­gundo dia, e ele havia chorado e jurado que nunca mais desposaria nenhuma outra mulher e nem faria qualquer mu­dança em Trant enquanto Phaedra vivesse. Ela fechara os olhos, e um sonho diferente acontecera. Não era mais sua mãe, mas uma piscina natural formada entre as pedras no meio das montanhas, pedras cujas formas eram como pu­nhos cerrados apontados para o céu. Nesse sonho ela vira o homem que pensara ser seu irmão, um homem que se movera pelas sombras e falara enquanto ela olhava para a água e para a improvável profundidade sob a superfície.

Perdoara o pai. Abandonara o jejum para engolir o mingau salgado que haviam preparado para ela, um alimento que tivera em sua garganta oprimida o mesmo efeito de muitas lágrimas. Com as pernas ainda trêmulas de fraque­za, descera a escada para ir ocupar o lugar de sua mãe à mesa mais uma vez. E assim selara a promessa feita pelo pai. Nenhuma noiva cruzaria os portões de Trant para en­terrar o que havia sido perdido sob os alicerces de uma nova família. E durante o longo período de luto, Trant foi o lar de pai e filha.

Aprendera a gostar muito do último período de sua in­fância, época em que vagava sozinha de aposento em apo­sento, onde os criados estavam sempre ocupados, onde ela brincava com seus jogos e de onde via as estações sucede­rem umas às outras pelas janelas do castelo. Conhecia toda a rotina doméstica, estava feliz com ela, e seria capaz de comandar sem nenhuma dificuldade toda a criadagem da casa, graças ao poder que o pai colocava em suas mãos. Uma vez por ano, ela costurava uma veste ou uma faixa, como sua mãe sempre fizera, para o pai usar na Páscoa ou em outro dia santo, um gesto cuja utilidade era demonstrar que também estava sendo fiel. E nunca mais voltara a sentir medo da ira do pai.

Seu amigo a ouvira e não dissera mais nada naquela noite. Phaedra pensava ter sido tocada por ele no ombro ao final de seu relato, e a lembrança desse toque a acompa­nhou mesmo depois do despertar.

Pretendentes não faziam parte de seus planos. Suas vo­zes e seus passos eram um som novo em Trant, um som que ela não apreciava. Jovens e bem vestidos, eles chega­vam numa interminável procissão. Os cavaleiros vindos de mansões conhecidas apresentavam-se com mais freqüência com a aproximação do inverno. Nobres e seus filhos caval­gavam até sua casa dizendo estar de passagem, algo que jamais havia acontecido antes. Os comentários sobre sua aparência se espalhavam rapidamente. Os ricos e desprovi­dos de ambição poderiam procurá-la por esse motivo, por­que seu dote não era maior do que o de muitas filhas de sim­ples cavaleiros. Mas o que todos sabiam, mesmo sem nunca tê-la visto ou conhecido, era que seu pai era dono de quinze propriedades ao redor de Trant, enquanto o rei possuía nove, e nenhum outro cavaleiro possuía mais do que três. Quando Ambrose morresse, o marido de Phaedra seria a escolha do rei para o posto de guardião e teria o impressionante patri­mônio de vinte e quatro propriedades para sua esposa e a coroa, e com elas um dos maiores castelos da região. Sem perceber, Phaedra se tornara a mais cobiçada donzela da corte. Na primavera, por ocasião de seu décimo sexto aniversário, era impossível passar um único mês sem que al­gum novo pretendente se apresentasse pedindo sua mão.

Sabia que o casamento era a condição natural para uma mulher (a menos que ela fosse freira), e que muitas se casa­vam na sua idade. Mas também era capaz de pensar em outras mulheres que nunca se casaram, ou que ainda não eram casadas. Não se sentia preparada para deixar sua casa, onde o vento brincava entre os carvalhos e escurecia a água. E odiava todos os homens que tinham o poder de obrigá-la a isso.

Tratava-os com frieza. Recusava-os. Alguns, aqueles que ela considerava "bons", aceitavam seu pedido para que não insistissem em suas propostas. Outros não a escutavam, embora se retirassem apressados quando seu pai anuncia­va sua decisão de recusá-los por serem inadequados. Piores eram os poucos que acreditavam estar verdadeiramente apaixonados, sonhadores que pensavam que, por abrigarem no peito um amor genuíno e intenso, poderiam triun­far no final. Todas as baladas populares falavam de mulhe­res que recusavam e recusavam, testando seus pretenden­tes em extremos de combate e devoção, até finalmente ce­derem com graça. Era assim que eles a viam: e contavam cada rejeição como mais uma passagem de armas na longa batalha por sua alma.

— Certa vez, meu pai disse que você era inferior a mim, Phaedra — contou o filho de um barão, sorrindo, quando ela solicitara que não insistisse em sua proposta de aliança. — Mas, oh, como ele estava enganado! Você é tão superior a mim que mais parece uma cotovia cantando sem ser vista.

Ele não tinha o direito de pensar tal coisa!

Phaedra tentou explicar seu ponto de vista ao irmão David numa manhã, depois de terem visitado uma mulher que se encontrava enferma. O sacerdote assentira, como se a entendesse. Depois dissera alguma coisa sobre tudo ter seu tempo, o que demonstrava que ele não a compreendia. Ninguém a compreendia.

Mesmo nos momentos de grande desespero, quando chegava a relacionar dois ou três nomes com quem poderia aceitar um matrimônio caso não tivesse alternativa, não era capaz de imaginar que vida levaria com eles em suas casas, esperando e esperando para voltar a Trant, onde seu pai não estaria mais debulhando os grãos colhidos. Não conse­guia imaginar que sonhos teria. E tinha medo.

Anos se passaram desde que vira o último bebê em Trant. As crianças de que se lembrava haviam crescido e se trans­formado em pestes ruidosas que assolavam os aposentos de paredes de pedra. Mas ainda se lembrava claramente de como fora vê-los em seus berços e de como os segurara nos braços. E também recordava as vozes geladas que ecoavam em seu coração sempre que tocava uma daquelas frágeis criaturas. Não conseguia banir da mente a imagem dos pequeninos túmulos que os homens preparavam para seus filhos, como havia sido feito por seus irmãos e irmãs. Via-se enterrando os filhos que gerara em seu ventre e até mesmo morrendo depois de um parto, vendo com suas últimas for­ças o bebê sendo levado do quarto chorando, sem saber como ele seria tratado e se sobreviveria. Um dia, e isso era muito provável, teria de correr esses riscos, mas não sabia como. As possibilidades que se abriam diante dela pareciam todas muito erradas. Sabia como tudo terminaria.

Por isso ela recusava e recusava, sem nunca mudar de atitude.

— Isso tudo é tolice — seu pai opinou no final do verão. — Não vou solicitar que aceite companhia desagradável ou cruel, porque cabe a mim assegurar justamente o contrário. Mas você precisa se casar, e eu terei de perdê-la. Os homens que aqui se apresentam estão entre os melhores do reino. Então, escolha e acabe com isso de uma vez, ou vamos aca­bar tendo de nos conformar com o pior quando não houver mais possibilidade de escolha.

E, mesmo assim, ele não exigiria que se casasse, e os dois sabiam disso. Em seu íntimo, os pedidos de seus se­melhantes e dos filhos que os acompanhavam contrariavam seu desejo de manter a filha em sua casa por mais um ano e reforçavam, talvez, seu receio sobre a atitude que ela pode­ria tomar caso fosse obrigada a se casar. Mas, cada vez que era forçado a ofender o filho de um vizinho ou ultrajar um amigo, Ambrose também era ferido. Depois de concluída a colheita, quando as noites começaram a cair mais cedo, ele se sentava sozinho, bebendo vinho e alternando silên­cio e resmungos.

Devo me casar, ela disse ao cavaleiro em seu sonho.

É o que você deseja?

Não, ela respondeu. Mas meu pai está mudando. Isso não pode continuar.

Phaedra tinha a impressão de que estavam no pátio em ruínas, perto da fonte, à sombra dos frondosos carva­lhos. Havia uma brisa leve, e as árvores cantavam com ela. Diante dela, a bacia da fonte estava cheia de água escura e parada, e uma folha de carvalho havia caído ali levada pelo vento.



Não será Bay, ela anunciou. Se alguém de Bay tornar-se guardião após a morte de meu pai, eles teriam posse de quase toda a costa leste do lago. Na paz ou na guerra, nada poderia cruzar essa região, e pouco movimento poderia ser feito acima ou abaixo dela sem a permissão deles. O rei e meu pai jamais permitiriam tal coisa.

E também não será Tarceny?

Uma lebre se casa com um falcão? Meu pai mandou de volta seus arautos no momento em que eles chegaram.

O antigo senhor de Tarceny está morto, lembre-se.

Já me disse isso antes. Mas não faz diferença. Um a mais, um a menos... não faz diferença. Trant não pode mais ser como antes. Devo escolher um deles e deixar que me levem daqui. Se Baldwin insistir em sua proposta, talvez. Ele é jovem, pelo menos, e vai agradar a meu pai.

Estavam lado a lado, em silêncio. Ela imaginava o que aconteceria com ele quando deixasse Trant definitivamen­te. Ele a seguira até Tuscolo há um ano. Poderia fazer o mesmo quando se mudasse para Baldwin? Não conseguia imaginar a resposta. De todas as coisas em sua vida, ele era uma das poucas que nunca havia mudado. Perdê-lo pode­ria ser a mais dura de todas as perdas.

Ele suspirou, repousando as mãos sobre a fonte. Sob seus dedos, ela se transformou, como sempre parecera, no cálice de pedra, que ele erguia diante de seu rosto. Uma pequenina folha de carvalho ainda boiava formando um círculo len­to na superfície da água.

Ele disse:



Podemos beber agora? Sim.

Aquele era um dia terrível, a véspera de Todos os San­tos, quando Phaedra se sentava rígida em seu assento no salão de Trant, olhando com severidade para o belo e jovem nobre diante dela, um visitante que se cercava de um gran­de grupo de homens em trajes cinzentos e armaduras brilhantes, todos colocados atrás dele de maneira a demons­trar fidelidade. Sentia-se trêmula enquanto seu pai se le­vantava lentamente e dizia ao homem que, apesar de seu sangue ser da mais alta linhagem e sua verdade estar acima de qualquer dúvida, a filha de Trant não se dignava aceitá-lo. E Elward, primogênito de Tower Baldwin e considerado entre os mais preciosos dentre a nata da região, olhou para os dois com patente incredulidade. Depois, com o rosto ver­melho, ele se inclinou e saiu, levando em seu rastro os vinte cavaleiros que o protegiam.

O grupo passou pelos portões deixando o castelo mer­gulhado no mais profundo choque. Pessoas que haviam re­cebido com guirlandas os representantes de Baldwin, sem nunca imaginar ou crer que Phaedra e seu pai poderiam recusar tal aliança, agora a fitavam e cochichavam em suas costas. Uma mulher adulta devia se casar. Sem casamento não havia futuro. Phaedra sustentava todos os olhares e cada um deles, mas ninguém falava com ela. Irmão David se manteve quieto e contrito na capela. Naquela noite, seu pai comeu em silêncio e segurou seu manto de pele em torno do corpo como se fosse um urso furioso. Phaedra permane­ceu acordada em seu quarto com a cabeça tomada por mui­tos pensamentos e com o gosto da água na boca.

Havia chegado uma carta de Maria, a terceira desde que se despediram no pátio da fonte em Tuscolo. Ela expressava seu espanto com as histórias que chegavam na corte re­latando fatos de Trant, notícias que Maria ouvia também na casa de seu pai em Pemini. Ela ria do desconforto causado por tantos pretendentes obstinados. Sua prima estava casa­da com o homem escolhido pelos pais, mas Maria, ainda solteira, incentivava Phaedra a continuar resistindo até en­contrar um que fosse certo para ela, independentemente de sua posição ou das conveniências políticas. Ela escrevia bem e pelo próprio punho, dizendo tantas coisas que Phaedra desejava ouvir e que ninguém jamais dissera até então. De­pois de ler a carta à luz do amanhecer, Phaedra foi inunda­da pela sensação de que muitos pássaros cantavam para ela de algum lugar além da janela recortada na parede espessa. Naquela tarde, ela se sentou na biblioteca para escrever sua resposta. Olhando para uma tapeçaria que retratava santos, tentava encontrar palavras para explicar a Maria por que, até onde sabia, nenhum homem podia ser "certo", quando alguém entrou no aposento assobiando.



  • Bom dia, sir Aun.

  • Bom dia. Como soube que era eu?

  • Hoje em dia não são muitos na casa que cantam en­quanto sobem a escada. — E nenhum era tão desafinado. Ela olhou por cima do ombro. O barão usava a longa veste azul e branca de Lackmere e parecia mais alegre do que nos últimos tempos. Seus guardas se mantinham à porta numa espera discreta e atenta.

  • Tolos! Deviam se alegrar — ele opinou.

  • A culpa é minha.

  • Se acredita mesmo nisso, deve suportar o peso da culpa. Vim para perguntar se você joga xadrez.

  • Ah, não... E nem acredito que haja um tabuleiro em Trant. — Havia muitos tabuleiros de damas e outros pas­satempos, mas nenhum tabuleiro de xadrez. Não que ela soubesse.

— Não havia mesmo, até uma semana atrás. Quer ver o que consegui fazer com a madeira e as ferramentas conce­didas por seu pai?

Ele estava instalado em um quarto na torre noroeste, um andar acima dos aposentos de Phaedra. Sua cama era protegida por uma cortina, e o restante do aposento estava quase que inteiramente tomado por um amplo guarda-rou­pa e uma mesa de madeira colocada sob a janela. Sobre a mesa, havia uma fileira de ferramentas e algumas peças en­talhadas, algumas manchadas de tinta. No canto, um tabu­leiro de xadrez esperava para ser utilizado. O barão a convi­dou para sentar-se em um dos dois bancos próximos da mesa.

Phaedra pegou uma das peças e estudou-a com curiosi­dade. Era uma pequena estátua de um homem sobre um cavalo, e sua cabeça e a parte superior do corpo exibiam uma grotesca desproporção em relação ao pequenino cava­lo e às pernas finas traçadas em relevo nas laterais do ani­mal. O rosto tinha uma expressão contorcida, como se o ca­valeiro houvesse perdido o juízo sobre a sela.


  • Não sabia que era capaz de entalhar — ela comentou.

  • Nem eu. Na verdade, nunca tentei fazer nada com madeira, até os últimos meses. E derramei meu sangue para produzir essas peças. Mas sou um aprendiz persistente e talvez possa substituir as que ficaram malfeitas. Daqui a um tempo, quando minha habilidade for maior... Pelo me­nos elas ficam em pé. Agora, preste atenção. O jogo é para dois jogadores. Cada peça se move de um jeito diferente. O peão é o mais simples. Então...

Ela ouvia, e aos poucos percebeu que sua rispidez não era, como antes imaginara, por não desejar pedir por sua companhia ou por formas de entretenimento, mas por en­tender que ela precisava de companhia e não saber oferecê-la sem constrangimento. Estranho que um homem como ele desejasse confortá-la. Nunca o imaginara capaz de tais gen­tilezas. Com o passar do tempo, aprendia mais sobre as pessoas que julgava conhecer. Talvez essa descoberta fosse parte do amadurecimento de uma mulher.

O jogo era impessoal, e essa também era uma vanta­gem. Phaedra descobriu-se fascinada por como ele progre­dia de fileiras bem organizadas a uma rede de complexida­de mutante, retornando à simplicidade quando as últimas peças eram removidas do tabuleiro. Em outras circunstân­cias teria recusado o convite para uma segunda partida, porque havia perdido vergonhosamente, e não gostava de perder. Mas, depois daquela manhã em que fora apresenta­da às peças, jogava com ele diariamente, às vezes duas partidas por dia. A atividade era algo que ambos podiam controlar. Para Phaedra, a pressão crescente do ataque do barão às suas posições era uma representação em menor escala das pressões que vinha sofrendo do mundo, mas no jogo ela podia desenvolver defesas com peças que movi­mentava sem imprevistos. Sabia que estava melhorando no jogo e a cada dia conseguia prolongar a partida e adiar a derrota por mais tempo. E se ficava frustrada por continuar perdendo, podia provocar o barão quanto à qualidade de uma ou outra peça, deixando-o sozinho com suas ferramen­tas para realizar os necessários reparos.

Agora podiam falar sobre eles mesmos: falavam do re­ceio que ela sentia de deixar Trant, e do medo que ele tinha de nunca poder deixar esse mesmo lugar.

Pensei em ir a Jent e pedir a Sua Excelência que me deixe virar freira.

- Duvido que seu pai permita. E Sua Excelência não a aceitaria sem que ele autorizasse. É sua vez... Você mexe demais com essa peça, sabe.

- É a melhor que tenho. Por que não deveria movê-la? Você usa os cavalos sempre que pode.

— Porque os cavalos são apropriados para correr ris­cos... Ei, o que foi isso?

Uma trombeta soava em algum lugar do castelo.



  • É o vigia do portão — Phaedra respondeu com a rai­nha na mão. Quando se recuperou da surpresa, não conse­guiu lembrar o que ia fazer com ela.

  • Outro pretendente? — indagou Aun. — Pensei que todos se houvessem assustado depois do que aconteceu com o jovem Baldwin.

Phaedra olhou para o tabuleiro. Todos os espaços dispo­níveis e possíveis para aquela peça pareciam inadequados.

  • Vai perdê-la de qualquer jeito — avisou o barão. — Por que não vemos quem chegou?

  • Boa idéia.

Fora dos aposentos do barão, um lance de escada leva­va ao telhado plano da torre. O dia estava frio e ventava muito. A insígnia do Sol e da Folha de Carvalho tremulava violentamente no alto de um mastro. Do parapeito, podiam ter uma visão clara do portão no extremo do pátio central. Cerca de seis cavaleiros desmontavam ao lado da guarita do portão. Empregados dos estábulos e guardas da segu­rança os cercavam.

  • É uma insígnia real!

  • Sim, por Deus! — confirmou o barão, inclinando-se e apertando os olhos para ler o que estava escrito sob o brasão.

Phaedra sentia sua súbita agitação. Mensagens reais podiam estar relacionadas ao seu futuro.

  • Se não estou enganado, aquele é o Sol. Mas o fundo não é diferenciado?

  • É, senhor. A ponta da bandeira é verde.

  • Septimus. — Ele ficou em silêncio. Phaedra sentia a agitação do barão crescer. E sabia que ele não devia alimen­tar esperanças. Nada que viesse do filho mais novo do rei poderia trazer alívio para sua situação. Sabia que ele tam­bém tinha conhecimento disso; e, no entanto, Aun não con­seguia sufocar a esperança. Foi com grande esforço que ele se afastou do parapeito. — Septimus, ou seus enviados. A caminho de algum lugar vindo de algum lugar. Não creio que seja alguma coisa para um de nós dois. Venha, vamos descer e acabar aquela partida de xadrez. Ainda tenho de tomar sua rainha.

Ele jogou tão mal que Phaedra conseguiu se recuperar. Mas não sentiu nenhuma alegria nisso.

Era o chefe-de-gabinete do príncipe, que estava a cami­nho, conforme Aun previra, de algum lugar. Ele era um homem engraçado, gordo, careca e barbudo, que falava sem parar e parecia sibilar as palavras. O jantar foi animado. O chefe-de-gabinete se dirigia principalmente ao guardião e ao irmão David. Ele brincou com Phaedra algumas vezes, mas agia como se nem notasse a presença de Aun, que se limitou a observar o intercâmbio em silêncio.

Homem do príncipe ou não, ele vinha da corte, e tam­bém da corte viria a ordem de libertação do barão. Phaedra viu que ele percebia que estava sendo ignorado, viu que ele parecia se encolher dentro de si mesmo, comendo em silên­cio na ponta da mesa, bebendo e estudando o enviado da corte por cima da borda de sua taça. Pela primeira vez em quase um ano, ela se deu conta de que sentia realmente o sofrimento de outra pessoa além do de si mesma; sofria pelo homem feroz e feio que ostentava a insígnia do Lobo Atrás do Cajado. Ela se levantou da mesa tão logo foi possível e seguiu para seus aposentos. Passos soaram na escada atrás dela. Da porta do dormitório, viu o barão continuar escalando os degraus para seu quarto na torre, a cabeça inclinada e uma garrafa de vinho em uma das mãos. Sem dizer nada, Phaedra fechou a porta e sentou-se na cama. Depois de algum tem­po, ela se levantou.

Sabia que os guardas estariam na porta do dormitório de Aun, mas não a deteriam. Talvez julgassem sua presen­ça estranha, mas, se deixasse a porta entreaberta e não se demorasse muito... Com o coração disparado pela impropriedade do que estava fazendo, ela percorreu o corredor em direção à escada que a levaria ao quarto do barão. Ainda hesitava diante do primeiro degrau, quando outra porta se abriu dois andares abaixo dela. Vozes chegaram claras aos seus ouvidos.



  • Creio que pode ter esperança, senhor — dizia o chefe-de-gabinete. — Acho mesmo que deve ter. Nem Faul nem Develin ficarão contentes se Sua Alteza se casar com a outra candidata. Assim, estamos em compasso de espera. Sua Al­teza usa essa situação para resolver a questão de acordo com seu interesse. E ele está cansado das damas da corte e não se esqueceu dela. Direi a ele que os rumores não exage­ram sua beleza e nem a sua formação. Nada está acertado, é claro, mas não ficaria surpreso se Sua Alteza decidisse visitá-lo dentro de pouco tempo... De passagem, certamente.

  • Sua Alteza nos concede grande honra — disse Ambrose. — Uma honra muito maior do que minha filha merece.

  • Sua filha é o tipo de mulher que serve de musa para as mais belas baladas, guardião. E se Barius está mesmo determinado a permanecer solteiro, como parece...

  • Não falemos nisso agora. Quando ele virá?

  • Não posso prever com certeza. Se não estiver engana­do, haverá uma Jornada Real por essas terras no novo ano.

  • Ouvi alguma coisa sobre essa possibilidade, embora não haja nada certo.

  • Sua Alteza deve integrar o grupo. E é melhor garan­tir que ele seja bem recebido em Trant.

— Já estou pensando em tudo. Mais uma coisa... Acha que o rei trará notícias para meu hóspede?

  • Lackmere? Inchapter tem a proteção e o lucro de suas propriedades. Ele é um dos homens de Develin. O grupo não gostaria de vê-lo livre, e Sua Majestade tem poucas ra­zões para contrariá-los. Lackmere não deve esperar por uma mudança enquanto essa situação perdurar.

  • Isso não é nada bom. Ele está sempre agitado, ansio­so, como um falcão selvagem.

  • Lamento por ele, mas creio que o homem devia ter escolhido amigos melhores... ou queimado menos vilarejos.

Estavam subindo a escada em sua direção. O chefe-de-gabinete devia estar se retirando cedo depois de sua jorna­da. E seu pai também se recolhia. Phaedra correu.

Encolhida atrás da porta do quarto, ela ficou ouvindo os passos se afastarem. Portas se fecharam. Outros passos soaram na escada. James, o administrador da casa, e seus ajudantes. Eles apagavam as luzes, agora que o guardião havia ido para a cama. O brilho dourado desapareceu de sob sua porta. Apenas os raios do luar penetrando pelas frestas da janela reduziam a escuridão do quarto.

A porta estava fechada. Estava presa.

Não podia mais ir ao quarto de Aun, agora que a casa estava escura. Além do mais, o barão devia estar embriaga­do. E não saberia o que dizer a ele. Não sabia o que pensar. Preferia não ter ouvido aquela conversa. O chefe-de-gabinete devia estar bêbado também, porque havia falado de­mais. Ou a casa do príncipe passava todo seu tempo envol­vida em fofocas?

O príncipe!

Não conseguia se lembrar muito de Septimus; um rosto comum, um rapaz barrigudo, sem nenhum outro atrativo além do de ser o filho do rei. Para o restante do mundo, sem dúvida, ele era mais bom partido do que Baldwin teria sido. Para Phaedra, era o pior de todos. E vivia na corte do rei em Tuscolo, no centro de suas frivolidades, de suas intrigas e de sua justiça distorcida. Ele havia sorrido para um rosto desconhecido na capela real, e não havia nada de inusitado ou impróprio nessa atitude em sua opinião, porque sua casa estava sempre cheia de estranhos. Lá ele nunca seria o amo nem sua esposa seria a senhora.

Presa! Não podia fazer nada senão esperar até que eles fossem procurá-la, mesmo que levassem meses para tomar uma decisão. Havia aprendido o suficiente desde que dei­xara Tuscolo para saber que o mundo nunca a deixaria em paz. Não haveria um fim. Não esperava que fosse assim. Agora ela andava pelo quarto, muito zangada, dando vol­tas intermináveis. De vez em quando, uma palavra ou um som escapava de sua garganta. Phaedra bateu o pé com for­ça. Doía. Queria gritar. A cama encostada em uma parede estava coberta por lençóis amarrotados, resultado do pou­co tempo que passara sentada ali. Dormir? Como poderia dormir depois de tudo que ouvira? Em algum lugar em Tuscolo havia outra cama, maior, mais rica, uma cama que Septimus dividiria com sua esposa. Ouvira dizer que na noite de núpcias de um príncipe homens permaneciam ao lado da cama com velas acesas, porque deveria haver al­guém capaz de jurar que o herdeiro real era mesmo filho do príncipe.

Juramentos e Anjos!

Ela se aproximou da janela e abriu a cortina. Era uma noite fria de inverno, embora esse lado do castelo fosse abri­gado do vento que empurrava as nuvens no céu, fazendo a lua surgir e desaparecer como um lorde em uma caçada. Ela se apoiou no parapeito, e a pedra fria a acalmou um pouco. Muitos metros abaixo daquela janela, a encosta des­cia suave até a margem do lago. Podia ver o dique e as ár­vores que o contornavam, o desenho das velhas construções e o pequeno bosque que circundava o pátio em ruínas. Podia ver o luar refletido na superfície do lago, desenhando um caminho que o atravessava até o infinito, até onde os olhos podiam ver, um caminho para longe daquele lugar em que as paredes a sufocavam, mas um caminho fora de seu alcance, além de suas possibilidades.

Phaedra teve a impressão de adormecer debruçada na janela. Era como se as paredes que a cercavam houvessem desaparecido. Caminhava por entre rochas castanhas, e ha­via um som abafado e quase profundo demais para ser ou­vido. Conhecia tudo isso de antes.

A lua surgiu novamente. As pedras desapareceram, e sob as finas solas de seus sapatos ela sentiu a maciez da relva. Andava por entre árvores. Estava novamente no bos­que próximo da fonte, com o ar úmido da noite soprando seus ombros. Carvalhos sussurravam como se fossem seres vivos. As colunas eram muito altas. As ondas do lago iam e vinham perto dali. Aquele som profundo ainda persistia, e ela girou sobre os calcanhares e olhou para trás.

Onde está você?

Encontrara-o ali, naquele mesmo lugar, quando pensa­ra que devia aceitar Baldwin. Agora precisava dele mais do que nunca.



Onde está você?

Havia água na fonte, refletindo a lua. O reflexo oscilava. A sombra da cabeça dele surgiu ao lado da dela na superfí­cie da água.



Aqui, ele disse.

Você está aí? Não consigo vê-lo claramente.

Ele se ajoelhou diante dela e beijou-lhe a mão. Seus dedos sentiram o contato como uma carícia.



Estava me chamando, ele disse. Olhei, e aqui estava você. Qual é o problema?

Vão me casar com o príncipe Septimus. Devo partir, mas não conheço ninguém e não tenho para onde ir.

Ele ficou em silêncio por um tempo, como se estivesse pensando.



Quanto tempo temos?

Não sei, ela respondeu. Algumas semanas. Tenho de partir antes que ele me veja.

Escolha um número, então. Maior do que cinco.

Oito sempre havia sido seu favorito.



Muito bem. No oitavo dia do novo ano espere por mim neste lugar à oitava hora depois do meio-dia. Pode fazer isso?

Phaedra acreditava que sim.



Se eu vier a essa hora, darei toda a ajuda que puder. Se não vier, é porque não posso ajudá-la.

Espere!

Ele parou.



Você é... (Vivo? real? Conhecia-o havia sete anos. Agora ele parecia falar como se pudesse saltar para o mundo ex­terior.)

Ele sorriu. Por um momento, foi possível vê-lo nitida­mente, parado diante dela com as mãos na beirada da fon­te. Phaedra lembrou-se de como a fonte se transformara no cálice de pedra em suas mãos. Seus dedos tocaram a água e retiraram algo da superfície.



Meu nome é Ulfin, ele disse, entregando a ela o que aca­bara de retirar da água. Isso cresce sob minhas paredes.

A lua desapareceu novamente, levando com ela a visão. Phaedra abriu os olhos.

Estava acordada, parada diante da janela, tremendo. A pedra do parapeito era dura e fria sob suas mãos. O bosque do pátio da fonte, que no momento anterior a cercara com tanta nitidez, estava escondido na escuridão colina abaixo. Nada parecia se mover por lá. A luz tornou-se mais intensa quando a lua surgiu de trás de uma nuvem. Em sua mão esquerda, a que ele beijara, havia uma flor exótica, uma rosa branca de quatro pontas com uma única pétala negra. Ela a examinou bem de perto. Nunca vira nada parecido antes.

— Então, agora sou uma bruxa — ela murmurou. — Fez isso comigo?

O silêncio foi sua resposta. Talvez aquilo quisesse dizer que ele também havia mudado. Em algum lugar, ele anda­va à luz do dia, sob o mesmo sol que banhava Septimus e todo o mundo que vinha bater em sua porta. Podia ajudá-la. E seus lábios haviam tocado sua mão.

Sentia o coração bater acelerado como se houvesse cor­rido pela escada que levava ao topo da torre.



IV

Aço e Escuridão

O chefe-de-gabinete partiu. Janeiro chegou com seus dias escuros e com uma garoa que era carregada pelo ven­to. Cavaleiros reais apareceram na estrada do lago e pediram abrigo nos portões. Havia quatro deles, enviados se­manas antes da grande parada com instruções para cada uma das casas que os receberiam ao longo caminho. As pes­soas de Trant os observaram enquanto eles atravessaram os pátios, cochichando umas com as outras. Meninos da cozi­nha corriam pelos corredores que haviam percorrido sem pressa alguma no dia anterior. O chefe dos estábulos per­deu a paciência por conta de um detalhe qualquer e espan­cou duramente um dos empregados. Trant estava agitada e nervosa. O rei estava chegando.

Phaedra notou que a atmosfera no castelo havia muda­do com a chegada dos hóspedes, mas estava preocupada com seus próprios pensamentos. O tempo passara depres­sa. Seu pai nem mencionara a conversa que tivera com o chefe-de-gabinete do príncipe na escada do castelo. Era me­lhor assim, porque ela não saberia como reagir. Era difícil concentrar-se nos assuntos da casa, que se tornavam mais e mais irreais com o passar do tempo. Às vezes, quando as pessoas falavam com ela, Phaedra levava um momento para responder.

A flor ficara em um copo com água por uma semana, até murchar e ser jogada fora. A coisa mais real deixada no castelo fora um pequeno embrulho, uma bolsa e roupas de viagem, que ela havia escondido sob sua cama dias antes. Desde então, muitas vezes fora verificar e certificar-se de que tudo ainda estava lá. Os objetos permaneciam em sua mente como pedras na escuridão.

Na sétima noite do novo ano, Phaedra foi para a casa como fizera milhares de outras vezes. Não dormiu. Quan­do fechou os olhos e olhou para a escuridão, tentou imagi­nar onde repousaria a cabeça na noite seguinte.

Na manhã seguinte, ela compareceu ao debate do guar­dião com os homens do rei. Outros habitantes de Trant tam­bém estavam lá. Os visitantes falavam numa espécie de revezamento organizado. Um representante especificou o tamanho da tropa do rei e as acomodações que seriam ne­cessárias para recebê-la. Um escriba queria saber detalhes sobre as queixas que seriam levadas ao julgamento do rei enquanto ele estivesse em Trant. Um mordomo falou das necessidades pessoais e do conforto do rei, e um caçador especificou como ele passaria seus momentos de lazer.

Phaedra não disse nada. Enquanto escutava a conversa, ela percebia que Trant já começava a se tornar ruidosa e frenética. As exigências de tal alteração da rotina doméstica seriam enormes. Seriam cinqüenta cavaleiros, cinqüenta homens para alimentar e acomodar, sem mencionar os escribas, os criados pessoais, os ajudantes de cozinha e os chefes-de-gabinete, gente suficiente para devorar o equivalente a três meses de vida em provisões durante as três semanas que passariam ali. Os dois príncipes reais integrariam o grupo. Ainda não se sabia quais dos barões participariam da arada, embora fosse quase certo que, se Develin acompanhasse a comitiva, Seguin e Faul também estariam nela para vigiá-lo. Dois príncipes, três grandes lordes; e o rei não pagaria uma moeda de prata pela hospedagem e pela alimen­tação de toda essa gente. Sim, a coroa tinha bons motivos para realizar o desfile, e reforçar a autoridade do rei nas terras por que ele passasse era apenas um deles.

Não haveria mulheres no grupo. A rainha estava grávi­da novamente (seria o sétimo filho, se sobrevivesse). Ela não viajaria. As damas da corte permaneceriam em Tuscolo por respeito a ela.

— Bem, você deveria parecer satisfeita — o mordomo disse a Phaedra. Todos riram. Phaedra precisou de um mo­mento para compreender que seu trabalho seria duplica­do caso as damas da corte também viessem. Mais do que duplicado.

Haveria mais de cem cavalos para acomodar e alimen­tar, com arreios e selas para serem reparados e conserva­dos. Os estábulos de Trant transbordariam. Haveria ban­quetes à noite e caçadas durante o dia. Phaedra sabia que, sem a ocorrência de um milagre ainda naquela noite, pas­saria muitas semanas ocupando-se apenas das questões relativas à visita do rei. Pensar no milagre desviou sua aten­ção. Para a fonte, para a noite que se aproximava, para o homem de seu sonho. E as vozes na sala se distanciavam.


  • E quanto ao barão de Lackmere? — perguntou seu pai.

  • Essa é uma questão que toca à justiça do rei — disse o escriba real. — Mas, na minha opinião, é improvável que Sua Majestade faça qualquer julgamento relacionado ao barão durante esta jornada.

  • Portanto — acrescentou o mordomo —, seria melhor se o barão não encontrasse o rei em nenhum momento, não comesse à mesa principal, nem em nenhuma outra em que houvesse alguém do grupo real. O que vai fazer além disso é uma decisão sua.

Assim, Aun perdia suas esperanças de liberdade em um futuro próximo, como já temia. E não haveria outra chance tão boa quanto essa em muitos anos. Seu pai não protestava. E ele também não protestou quando o escriba começou a questionar sobre as idas e vindas dos cavaleiros de Bay pela posse da Mansão Sevel, tentando decidir como essa disputa entre as grandes casas transcorreria quando o rei os testasse. Se Bay tivesse de ter apenas migalhas, então migalhas seriam atiradas para Bay. Trant estava atrás de um prêmio muito maior. Ela fechou os olhos por um instante.

Devo partir, pensou. Eu o salvarei disso.

Mais tarde, quando a refeição do meio-dia chegou ao fim, ela procurou por Aun em todo o castelo, mas não o encontrou. Finalmente viu os guardas que o vigiavam. Os guardas estavam encolhidos no andar mais alto da torre no­roeste, fugindo do vento e da ameaça iminente de chuva. Eles indicaram onde o barão estava. Aun andava de um lado para o outro ao longo da muralha sobre o salão principal. Já devia saber o que os homens do rei haviam falado a seu respeito. Quando notou que ela se aproximava, virou-se de costas, como se temesse que ela viesse confortá-lo.

— Creio que não é um bom dia — Phaedra comentou.

Ele resmungou e se debruçou sobre a muralha, como se mirasse algum lugar específico. Phaedra juntou-se ao pri­sioneiro, olhando para a vastidão branca e cinzenta da mu­ralha norte. Havia doze metros da plataforma em que esta­vam até a base, e mais cinco do solo até o fundo do fosso. O fosso devia estar seco, mas existia sempre um pouco de água nele nessa época do ano.

— A parede se inclina para fora perto do fundo — ela revelou. — Não dá para notar, a menos que esteja aqui em cima e olhe para baixo.

Em outra ocasião, ele poderia ter oferecido explicações sobre técnicas de edificação, como a necessidade de uma base larga para garantir a estabilidade da parede ou alguma outra coisa parecida. Mas nesse momento apenas escutava em silêncio.


  • Fico pensando sobre a qualidade desse trabalho. A argamassa é boa nesse nível, sem dúvida, porque é fácil de aplicá-la. Mas não há rachaduras e fendas entre as pedras na superfície da parede?

  • Talvez esteja certo em sua suposição, senhor.

  • Espero que sim. Nesse caso, um dia as muralhas ruirão, e então estarei livre.

  • Existem outras possibilidades mais concretas de ser libertado, Aun.

  • Existem? — A pergunta soou ríspida. — Suponho que será uma princesa, desde que se case com esse seu prín­cipe, e se der a ele o número certo de filhos, talvez ele a escute. Então, se Sua generosa Majestade e Barius morre­rem sem muita demora, um dia você será a rainha consorte. E, então, poderá convencer alguém a me deixar sair daqui... se eu não morrer ou ficar louco, esperando.

Phaedra parou, lutando contra a ira que crescia em seu peito e despertava nela o desejo de deixá-lo ali sozinho. O que a fez ficar foi saber que ele não se importaria. E o ho­mem tinha bons motivos para estar perturbado. Tanto quan­to ela, certamente.

  • Supostamente, eu não deveria saber sobre essas coi­sas — disse.

  • Nem eu. Nem metade das pessoas que habitam o castelo. Acha que alguém me teria contado o que anda cir­culando pelos corredores desde ontem? Esses lordes tagarelas de Tuscolo!

  • Não quero...

  • Ainda é muito jovem, minha menina. Posso lhe dar um conselho?

  • Certamente.

— Não pense em fazer seu pai jogar o seu jogo. Ele não pode. Não dessa vez. E ele nem vai tentar. O que ele fez por você já foi além de todos os limites do razoável. Outro ho­mem teria esfolado viva uma filha que ousasse desafiá-lo. Se o príncipe quiser se casar com você, ele se casará com você... embora, se quer saber o que penso, tenha grandes chances de sofrer as conseqüências dessa escolha no reino. Mas ele pode desposá-la. Seu pai não seria guardião por muito tempo se interferisse. Não estou dizendo essas coisas por prazer ou para ter alguma alegria. Estou dizendo tudo isso porque as coisas são assim.

Podia ser reconfortante para um homem como ele saber que mais alguém estava sendo manipulado, governado e obrigado a agir contra sua vontade. A chuva começou a cair em pesados pingos sobre as pedras da muralha. Phaedra levou algum tempo para voltar a falar.

— Senhor, eu gostaria de esquecer o que disse. Porque muitos homens não passam de valentões protegidos por armaduras. E acredito que, quando se tomam as armas de um homem e se priva esse homem de sua valentia, e se descobre que ele não é mais nada, então ele, de fato, não é mais nada. E você, ele e o reino ficam mais pobres por isso.

Ele a encarou, e Phaedra sustentou seu olhar, como sem­pre fazia. Depois o deixou. Quando olhou para trás, viu que ele se debruçava novamente sobre a muralha, com a chuva caindo pesada sobre seus ombros. Phaedra passou o restante da tarde vagando pelo castelo, observando os homens e as mulheres que se dedicavam ao trabalho e explicando distraída aos serviçais o que achava que teria de ser feito quando o rei chegasse. Mais tarde ela foi à torre noroeste para apreciar a chegada da noite. A chuva havia cessado. Aun não estava mais ali. As muralhas lá embaixo estavam vazias. Nuvens cinzentas ainda paira no céu, afastando-se lentamente para o poente. O tempo estava mudando. O vento soprava do sul. O calor era estranho, inesperado. Ela olhou para baixo, para as olivei­ras que escondiam a fonte, e pensou: preciso ir. Mesmo que ele não venha esta noite, devo partir. Talvez consiga con­vencer os navegantes a me levarem pelo lago para Jent, onde pedirei ao bispo para me aceitar no convento.

A sexta hora daquela noite ela se sentou para jantar pela última vez em Trant, com as lamparinas iluminando a sala e todos os objetos nela contidos. Olhando de seu lugar para a mesa principal, à qual se sentava entre o caçador do rei e seu mordomo, podia ver todos os habitantes do castelo nas longas mesas secundárias abaixo dela. Aun havia sido co­locado naquela a sua direita, entre os cavaleiros e na cabe­ceira. Podia perceber que ele a observava, mas não conse­guia ler a expressão de seu rosto. Quando olhou novamente para aquela mesma mesa, no meio da refeição, ele havia desaparecido.

As mesas rangiam sob o peso de punhos e pratos, e Joliper, o artista, aproximou-se com seus instrumentos mu­sicais para entreter o grupo na mesa principal. A imagem e os sons enchiam seus olhos e seus ouvidos, mas só tocavam a fronteira mais externa de sua mente. O mordomo do rei conversava com irmão David, mas ela não ouvia o que di­ziam. A imagem do antigo pátio sob os carvalhos ocupava seus pensamentos como um lago escuro e quieto. O jantar prosseguiu ruidoso povoando as margens desse lago, mas a superfície da água ainda era calma, parada.

— ... Então, Wulfran veio pelo mar — Joliper estava di­zendo naquela voz melodiosa de contador de histórias. — Nos Três Navios ele trouxe Quatro Anjos, e com eles nosso povo para uma praia desconhecida. Lá ele incentivou seus Sete Filhos a tomarem terras para si mesmos, uma fração para cada um deles, e em suas mãos ele colocou Uma Coisa E a Coisa era Aço. Aço nas mãos dos Sete Filhos conquistou o reino, e Aço no coração de seus filhos fará com que ele nunca esteja em paz.

Joliper havia estado com o pai de Phaedra na longa opressão do Litoral quando os últimos rebeldes finalmente foram derrotados. Ele nunca enfrentaria Ambrose, ou ne­nhum outro homem em que Phaedra pudesse pensar. Mas o ódio contra tudo que vira temperava as linhas de suas baladas, mesmo diante dos homens do rei. (Ele também men­cionava piolhos e disenteria sempre que acreditava poder se safar sem uma reprimenda de Ambrose.)

Em algum momento depois da sétima hora, quando as taças foram enchidas pela segunda vez, Phaedra se levan­tou para deixar o salão. Ela beijou o pai desejando-lhe uma boa noite, como fazia todas as noites desde que era peque­na, e deixou os lábios se demorarem um segundo além do normal em sua face barbada. Se notou, ele não demonstrou nada. Mas sorriu para ela, e havia afeto em seu abraço, o que não acontecia com freqüência nos últimos meses. De­pois, ele se virou para o escriba real a seu lado e começou a testar o terreno de sua longa disputa com Falco de Bowerbridge, que afirmava ser um cavaleiro livre e que, por isso, não submetia sua casa ao guardião. O rei talvez não se dedicasse a julgar tal caso, mas podia apontar um homem adequado para a missão, não?

Seu pai não era um homem mau. Ele jogava o jogo como devia, como no xadrez, e essa era uma chance boa demais para ser desperdiçada. Um presente na hora certa, mesmo para um simples escriba, poderia trazer uma carta real que poria um fim na cansativa e velha alegação de Falco sobre ser um cavaleiro-cão, um desfecho tão certo quanto se seu pai queimasse a casa desse homem e pusesse fim à vida de todos que tentassem ajudá-lo. Seria uma propriedade para contrapor a Sevel, se ele perdesse a causa; uma troca justa para Trant, independentemente do que poderia vir por meio de um casamento. Phaedra deixou o salão sem olhar para trás.

Os corredores estavam escuros aos seus olhos depois de toda a luminosidade da sala de banquete. Manchas púrpuras pareciam dançar diante dela enquanto caminhava. Seus pés conheciam o caminho. No alto da escada, devia virar para a direita depois do décimo segundo degrau e con­tinuar subindo até a galeria de onde ouvira seu pai e o ho­mem do príncipe conversando semanas atrás. Um vazio crescia dentro dela enquanto caminhava.

Agora para a direita. Uma tocha pendia sobre sua por­ta, desenhando um caminho de luz na passagem. Ela en­trou e procurou pelas coisas que havia escondido sob a cama: um manto leve e a trouxa pequena o bastante para ser trans­portada embaixo dele. Estava deixando quase tudo que ti­nha. Até o jogo de bilboquê fora guardado no armário com as bonecas de pano empoeiradas com que não brincava fa­zia anos. Quando prendesse o manto ao pescoço, não have­ria nada que pudesse indicar que estava saindo para mais do que uma inocente caminhada dentro das muralhas do castelo antes de se recolher.

Estava pronta. Devia ser quase a oitava hora.

Phaedra ficou parada diante da janela por mais algum tempo, sozinha, olhando para o oeste, para o lago. Havia uma lua pairando sobre a água, cintilando em algum ponto do céu acima das nuvens finas. Os carvalhos que cercavam a fonte compunham uma massa negra, e o espelho do lago era uma extensa camada azul metálica na noite silenciosa. Ela julgou ter visto... o quê? Uma mancha branca que bem podia ser a vela de uma embarcação cruzando o lago suave­mente. Mas não podia ter certeza.

Ainda havia algo a fazer. Phaedra deixou o quarto e se­guiu pelo corredor até a torre noroeste, onde usou a escada para chegar a outro corredor, este menos iluminado que o anterior, e por ele caminhar confiante, deslizando os dedos pela parede identificando assim uma, duas, três portas. Quando os dedos tocaram a madeira pela quarta vez, ela parou e segurou o anel de metal preso à porta. As dobradiças rangeram como se gemessem de dor.

A capela estava vazia. A Chama do Céu ainda cintilava no altar, mas o teto e os corredores estavam mergulhados na escuridão. Ela se dirigiu lentamente ao corredor mais distante, inclinando-se diante da Chama como fazia todos os dias havia doze anos, e continuou caminhando até parar diante das pedras alinhadas contra uma parede.

Mal podia vê-las na escuridão, mas não precisava en­xergar. Sabia que estava diante delas. Depois de um mo­mento, abriu a boca para dizer alguma coisa, mas deteve-se. Em vez disso, estendeu a mão e tocou cada uma das pedras, sentindo na pele os nomes registrados nas superfícies frias. Adeus, Guy. Adeus, Ellen, Anfred, Ina. Adeus, mãe. Devo ir agora.

Enquanto retornava pelo corredor para a porta princi­pal, ela ia pensando que familiares deviam chorar nas des­pedidas. Mas, por sete anos, tivera apenas cinco lápides e o pai. Pedras não choravam, e ela também não choraria.

Na muralha oeste de Trant, sob o sotavento da torre noroeste, existia uma pequena porta. Ali não havia vigilân­cia. Grandes ferrolhos a mantinham fechada, mas suas mãos os retiraram sem grande dificuldade. As dobradiças range­ram quando ela abriu a porta. Phaedra saiu e voltou a fechá-la com o mínimo de ruído possível.

Imediatamente, soube que estava no lugar errado. Nunca antes estivera daquele lado da muralha depois do anoitecer. Ela desceu rapidamente para o fosso (a água dentro dele alcançava a altura de seus tornozelos) e subiu pelo outro lado. Ninguém a chamou de cima. Havia luzes nas muralhas mais elevadas, mas, em tempos de paz, Trant tinha o costume de deixar homens guardando a guarita do portão, enquanto as muralhas ficavam desertas.

Phaedra desceu a colina sentindo o solo macio sob os pés. Seu manto era escuro. Agora estava fora do alcance da luz das tochas. Não havia nenhum som além do sussurro constante do vento e o leve farfalhar de seus pés sobre a relva. Os primeiros troncos do bosque pareciam esperá-la na escuridão. Ela progredia mais devagar, tentando encon­trar algum sinal de alguém se movendo ou aguardando sob as árvores.

— Devia ter trazido uma lamparina — disse para si mesma.

Mas para quê? Transportar uma luz só serviria para delatá-la, caso houvesse alguém observando o pátio do alto do castelo. Conhecia o caminho. Pelo menos, julgava co­nhecê-lo à luz do dia. E não estava completamente escuro, mesmo ali, sob as árvores.

Seus pés tocaram um trecho de pedras. Alguns dos tron­cos em torno dela deviam ser pilares. A velha fonte estava bem a sua frente. Os dedos buscaram a borda seca. Ali esta­va. Tateando, ela encontrou o caminho para a plataforma sobre a qual se erguia a fonte e, aliviada, apoiou as costas nas velhas pedras. Por quanto tempo teria de esperar? Uma hora, ele havia dito. Seria capaz de julgar o tempo?

O vento cantava por entre os galhos. Entre eles, a sua esquerda, podia ver as luzes do castelo. Sons indistintos ecoavam entre as árvores. De vez em quando ela tinha a impressão de ouvir passos, mas, quando se virava na dire­ção do som, não via nada. Então, o vento soprava mais forte, fazendo balançar as folhas, e depois da rajada restava apenas o silêncio.

Estava frio. Seu manto era fino. Sentia os pés e os torno­zelos gelados. Havia peças mais quentes em sua reduzida bagagem, mas não queria abri-la e revirar seus pertences na escuridão. Se o fizesse, levaria uma eternidade para estar pronta novamente.

Por outro lado, seria bom poder sentir-se aquecida e ain­da ter algo com que ocupar seu tempo. Quando estendeu a mão para o fardo, Phaedra julgou ter ouvido novamente um ruído entre as árvores. Alguém se movendo? Mais de uma pessoa, porque os sons à direita eram seguidos rapi­damente por outros à esquerda. Ela se levantou e olhou em volta. Nada se movia. Ninguém se adiantava para apresen­tar-se ou cumprimentá-la.

E ela esperou. E o vento fazia tremer as folhas, o bosque estalava e rangia, e aos poucos as batidas aceleradas de seu coração foram se tranqüilizando, e ela se abaixou e abraçou os joelhos, olhou para as luzes na colina e imaginou se não havia adormecido e mergulhado num sonho.

As nuvens se tornaram ainda mais finas. A luminosida­de cresceu. Alguns passos atrás dela, uma voz chamou:

— Phaedra.

Seu coração pulou, e pulou novamente quando ela o viu. Em pé, ao lado da fonte, vestido com um manto bem grosso, com a lua brilhando em seus cabelos, ele sorria. E ela também sorriu, aliviada por vê-lo, afinal.


  • Você veio — disse.

  • Vim. Minha embarcação está no molhe à margem do lago. Quer vir comigo?

Havia outros homens com ele, observando das sombras das colunas e das árvores. Ela se levantou.

—Sim, eu quero — respondeu. — Ulfin.

— Não!

Um homem deixou a proteção das árvores atrás dela e aproximou-se cambaleante. Uma lâmina cintilou por um momento ao luar.



— Ela não é para você! — gritou Aun.

Phaedra tentou detê-lo com um grito desesperado, mas o cavaleiro se adiantava deixando o refúgio da fonte, sacan­do a espada com uma das mãos. Aun hesitou, contendo o impulso inicial. O aço ainda brilhava entre os dois. Outras mãos seguraram as de Phaedra e a puxaram quando ela olhou para trás. O cavaleiro disse alguma coisa e atacou, e voltou a atacar, rápido como uma serpente. Aun cambaleou.

— Não o mate! — ela gritou.

Vozes distantes chamaram do castelo. As lâminas tilin­tavam e os combatentes ofegavam. Aun se esforçava muito para escapar dos golpes e de repente tentou acertar a cabe­ça do inimigo. O cavaleiro saltou para trás.



  • Rá!

  • Isso é ridículo — disse o cavaleiro. — Tirem-no de perto de mim.

Homens cercaram Phaedra. Ela ouviu os gritos de Aun. Havia luzes e movimento no castelo.

A mão de seu companheiro tocou seu ombro.

— Devemos ir agora. Venha comigo.

Passos apressados secundavam o ruído dos golpes fe­rozes no bosque. Aun ainda gritava.

— Ei, Trant! Guardas! Guardas!

Um assobio soou bem perto de sua orelha direita. O ca­valeiro a levava colina abaixo, e eles corriam como se tives­sem asas nos pés, deixando a proteção das árvores e bus­cando a margem do lado. Havia mais dois homens com eles. Outros os seguiam.



  • Há alguém ferido? — ele perguntou ao mais próximo.

  • Como vou saber? — O homem levou um apito aos lábios e soprou com força. Sombras se moveram na colina. Homens corriam na direção deles.

  • Vamos!

Phaedra viu a longa linha do molhe com os barcos de Trant balançando presos por cordas. No extremo mais distante havia um navio imponente com seu mastro recolhido e a vela enrolada. Homens se movimentavam a bordo da embarcação. O cavaleiro levou Phaedra para bem perto dele e saltou para dentro da nau. Depois estendeu a mão, aju­dando-a a embarcar. Atrás deles, seus seguidores se reu­niam no molhe. O homem com o apito tentava contá-los.

Havia luzes, tochas de Trant que desciam a encosta para a margem do lago. Os homens embarcavam apressados. As tábuas de Trant rangiam sob os pés dos invasores.



  • Vamos zarpar.

  • Fique perto de mim, Phaedra — ele disse, assumin­do o comando do barco. Phaedra atravessou o mar de ho­mens e tábuas para se juntar a ele. Remos cortavam o ar e batiam com vigor na superfície escura do lago.

  • Juntos! — alguém gritou perto dela. — Comigo!

Já havia uma extensão de água entre eles e o molhe. Phaedra ainda podia saltar e voltar para a margem com al­gum esforço, se quisesse. E teria de pular agora, se fosse essa sua intenção. O tempo estava passando.

Ele estava a seu lado. Tocaram-se, e ela quase nem no­tou. Ele estava ali, onde podia tocá-lo novamente. O convés foi sacudido por um movimento mais brusco dos remos, e a decisão foi tomada por ela. Temendo cair, ela se agarrou ao cinturão do comandante, sentindo o calor de seu corpo atra­vés do tecido de sua túnica.

Homens se movimentavam em torno deles, e alguém olhou para os dois. Podiam adivinhar o que ela pensava? Os sentimentos transpareciam em seu rosto, mesmo àquela luz tênue? Talvez ele pudesse sentir sua pulsação nas pontas de seus dedos e pelo tecido de sua roupa, e se pudesse

seria maravilhoso, porque então ele já sabia o que ela temia jamais poder dizer. Ficaram ali juntos, e o sabor da água escura estava em sua boca.

Na colina acima dela estava a silhueta imponente do castelo, as luzes das tochas buscando o céu escuro. Naquela sombra plana estavam seu pai, os cavaleiros, os cachorros e toda a comunidade de Trant. Collen, inquieto em sua baia no estábulo. A capela com a luz cintilando no altar. Todos a viam partir.

De repente, a noite sibilou selvagem. Ela se assustou.

— Mantenha-se abaixada — ele disse com tom suave, ajoelhando-se e puxando-a para que fizesse o mesmo. Ha­via tochas e homens correndo pelo molhe. Alguém gritou da margem do lago.

O ar sibilou novamente, um som odioso.



  • Flechas — murmurou uma voz perto dela. — Vários arcos, imagino.

  • Içar velas.

Houve um sibilo, um baque e um grito de alguém. A vela subiu no mastro, balançando e dançando ao sabor da brisa noturna. Homens se reuniam em torno do mastro. De repente, ela tomou forma e se encheu, e o navio foi impeli­do pelo vento. Os remos foram recolhidos. A esteira deixa­da pelo progresso da embarcação tornou-se mais larga com o aumento da velocidade. O molhe ficou para trás. Luzes ainda se moviam ali.

  • Cuidou dos barcos? — ele perguntou ao homem do leme.

  • Jogamos os remos no mar e cortamos todas as cordas que encontramos.

  • Obrigado. Alguém se feriu com as flechas?

Houve uma pausa. Depois alguém gritou de volta.

  • Não! Só algumas farpas.

— Então, acho que conseguimos — ele declarou. Se fa­lava com ele mesmo ou com Phaedra, ninguém poderia di­zer. Ela olhava para as tochas no molhe e no castelo, sinais que iam se distanciando mais e mais a cada minuto, até que luzes da margem do lago desapareceram, e as do castelo, mais altas, fundiram-se numa única e fraca centelha que carecia segui-los, vigilante. A linha da praia desapareceu, ocul­ta pela noite, mas ainda era possível ver a luz do castelo.

Homens se moviam pelo convés, transportando fardos e soltando amarras, espalhando cobertores na proa e toman­do providências variadas. Phaedra recebeu um cobertor. Ele estava duro, e parecia ter sido ensopado em óleo. Alguém passou por ela para assumir o comando no lugar do mari­nheiro que estava no leme.

— Agora, durma, porque vamos acordar cedo — disse o cavaleiro. — Estaremos mais aquecidos assim.

Phaedra percebeu que estava tremendo. A luz que es­tivera observando finalmente havia desaparecido. A lua brilhava alta; quase cheia, mas não inteiramente. Uma fran­ja de sombra encobria uma pequena porção do disco. Seu cavaleiro e outros quatro homens se deitaram formando uma fileira na popa do barco. Ela se envolveu com o co­bertor e deitou-se com eles, uma mulher com menos de dezessete anos entre guerreiros desconhecidos. Não havia privacidade, mas estava feliz por se sentir aquecida. E não sentia sono. Nenhum sono. Olhava para a curva da gran­de vela sobre o convés e para a lua, tentando imaginar como seria o dia seguinte. O que descobriu foi que não conse­guia nem imaginar. Quando deixara o molhe, deixara para trás também o fim de seu mundo, o fim do mundo que conhecia.

O barulho da água era diferente quando ela repousou a cabeça no convés. Era mais profundo e mais estridente, e muito mais próximo do que antes. Além das tábuas, sob sua cabeça, estava Derewater, profundo, frio e escuro. Os homens respiravam e cochichavam ao seu lado, e ela se sentia mais aquecida. A lua os observava do alto, acompanhando o avanço da embarcação pela superfície do lago.

Não faça perguntas, não faça perguntas, cantava a estei­ra do barco.

Alguém passou por cima de sua cabeça. Mais uma vez, o homem no comando dava lugar a outro. Em algum lugar ela ouviu as notas baixas de um instrumento de sopro, uma flauta, talvez. Era um som sibilante, menos puro do que aquele a que se habituara, e a melodia era estranha. A lua se movera. Devia ter cochilado. O navio progredia com deter­minação, cortando a noite escura e imutável.

Não pergunte nada.

Não faça perguntas à noite.

V

SO Sacerdote no Outeiro

ou o guardião das Fronteiras de Tarceny.

Estavam abaixados perto da beirada do barco, vendo o sol nascer. O vento forte fazia balançar a embarca­ção e formava ondas que se chocavam contra suas laterais. Encolhida sob um manto emprestado, Phaedra estremecia constantemente. Seu corpo doía depois de uma noite intei­ra encolhida no chão. Ainda não havia, é claro, nenhuma esperança de privacidade. Mas a vela era banhada pelo sol e contrastava com a escuridão da superfície do lago, e uma grande bandeira preta-e-branca tremulava no mastro. O sol incendiava a porção mais distante do lago e tingia a crista das ondas de dourado. Nesse momento, ela não desejaria estar em nenhum outro lugar do mundo.

A margem oeste estava muito mais próxima agora, tan­to que já podia ver seus contornos à luz do dia. Diante deles, uma grande e imponente colina de cume achatado domina­va a paisagem. A proa do barco apontava diretamente para ela. Todo aquele território devia ser Tarceny. À popa, o lago se estendia interminável, misturando-se às formas cinzentas e azuladas da água até a margem desaparecer de vista. O leste era um banco de névoa. Trant, todo o território e a porção do lago que ela conhecia estavam perdidos em algum ponto atrás deles. E ao norte, sob a vela inflada, o lago também se estendia sem fim. Não havia outro barco até onde podia enxergar.

— Nosso desconforto está quase terminando. Aquela colina além da margem é o Outeiro de Talifer. Do lado de cá da colina fica meu porto em Aclete, onde poderemos ofere­cer maior hospitalidade...

Ele era o guardião da Fronteira. Os guardas que os acom­panhavam na viagem estavam a seu serviço; toda a tripula­ção devia obediência a esse homem. Todas aquelas pessoas ocupadas nas colinas, na terra, nos bosques, enfim, em to­das as dependências daquela região seguiam suas ordens. Ele era o topo da rede humana que se estendia sobre a mar­gem oeste de Derewater.

E de Tarceny! A Lua Dúbia!


  • Não... não se preocupe comigo — ela disse. — Na verdade, estou apreciando essa bela manhã.

  • Você é boa. Não sou um bom marinheiro. É claro que os barcos têm suas vantagens. E improvável que possamos ser enganados, por exemplo, o que é muito bom, porque sei que nenhum de nós dois deseja o mal de Trant. E até mes­mo eu posso perceber que a vista do porto é uma raridade a ser apreciada.

Phaedra o fitou de soslaio. Ele ainda era real; ainda esta­va ali. Até agora, só tinha visto seu rosto como uma ima­gem de sonho, uma imagem bela, inteira, mas nunca um objeto de estudo. Jamais vira detalhes como as linhas nos cantos de seus olhos e da boca, ou a sombra escura da barba em suas faces e no queixo.

Seu rosto era longo e, quando em repouso, solene. Nes­se momento, havia um sorriso pálido iluminando seus olhos voltados para o sol nascente, como se ele estivesse perdido em pensamentos. Ele usava o cabelo preto curto. Há três dias devia ter estado barbeado. Seus olhos eram castanhos, e as sobrancelhas eram fortes sem serem pesadas. Devia ter entre vinte e cinco e trinta anos. Suas roupas eram negras. Talvez as houvesse escolhido pensando naquela noite de aventura, ou porque essa era a cor de sua casa. De qualquer maneira, a escolha combinava com ele.

E ele estava ali, presente e real ao seu lado, tão real quanto o dia, embora antes houvesse sido apenas sombra. Era qua­se como se ela fosse a sombra agora; ela era a fumaça sem substância, um vulto num mundo de formas concretas. Não conseguia pensar em nada para dizer. A mão dele repousa­va sobre a balaustrada a alguns centímetros da dela. Pode­ria tocá-la, talvez?

De repente, ele a encarou.

—Estou certo? Acha que virão atrás de nós?
Assustada, compreendeu que ele ainda tratava das com­plicações da terra e da família. Phaedra

suspirou.

— Eles não sabem quem éramos ou para onde fomos — disse. — Mas, se meu pai chegar a pensar que fui raptada, certamente vasculhará até o fim do mundo com todos os cavaleiros e guardas que puder alistar.

E se ele soubesse que havia partido por vontade própria? Juntos, eles apreciaram o reflexo do sol sobre a água.

— Deixou sua casa para escapar de um casamento que não aceitaria — ele disse. — Um casamento que não pode­ria recusar, embora fosse esse seu desejo. Se ficasse, haveria dor e pesar duradouros. Poupou seu pai desse sofrimento. Sua decisão de recusar o matrimônio teria custado seu or­gulho de homem, pai e guardião. Para você, a decisão de partir custou seu lar.

Homens se moviam em torno deles no convés, ajeitando cordas ou cuidando de outras tarefas. Progrediam rapida­mente, e as pequenas cabanas na margem ganhavam contor-nos mais nítidos, como o molhe que ocupava uma boa parte da beira do lago sob a proteção de um pequeno promontório. Além dele, erguia-se a colina que ele apontara antes.

— Suponho que esteja certo — ela disse. — Não consigo imaginar o que teria acontecido se eu ficasse. Só sabia que tinha de partir.

O barco penetrou na área mais rasa da baía. Dali não se podia ver o lago ao norte. Os homens da tripulação baixa­ram a vela, amenizando a pressão do vento e reduzindo muito a velocidade.



  • Não temos de sair daqui? — Phaedra indagou preo­cupada.

  • Ainda não. Eles têm espaço para trabalhar.

O responsável pelo leme conduzia o barco ao longo do molhe. Os homens que manejavam as cordas do mastro mantinham os olhos fixos nele. Um movimento de cabeça, e eles terminaram de recolher a vela, que caiu numa pilha branca sobre o convés. O barco seguiu lentamente pelos úl­timos metros que o separavam da margem. Homens cami­nhavam pelo molhe para recebê-los. Alguém mais próximo da balaustrada saltou com agilidade para as pranchas de madeira do píer e, usando uma corda que havia levado en­tre as mãos, fez um laço em torno de um mastro em terra firme. Outros já desembarcavam para ajudá-lo. O barco ran­gia contra a madeira da construção. Derewater ficara para trás.

— Muito bom — ele disse.

Esperando que uma onda erguesse o barco, saltou para o píer. Depois se virou para estender a mão para Phaedra. Ela a aceitou... com a respiração ofegante, porque de repen­te recebia aquilo que não ousara tentar obter no barco. Ha­via força em seus dedos, e a pele era quente, apesar da noite no lago. Com a ajuda de uma onda que levantou a embar­cação, Phaedra saltou para a terra firme e pisou em um novo mundo.

Uma pequena multidão estava ali para recebê-los. Havia guardas e outros homens usando vestes em preto e branco. Havia gente das cabanas, crianças correndo, homens em pé nos barcos ancorados observando a movimentação: pessoas comuns, como aquelas que a teriam recebido na margem de Trant, perto dos vilarejos. Havia sorrisos, riso e conversa, como se alguma competição esportiva tivesse acabado de ser reali­zada. Homens se aproximavam para apertar as mãos da tri­pulação da embarcação e bater amistosamente em suas cos­tas. Em todos os lugares a bandeira de Tarceny tremulava orgulhosa: uma lua branca sobre um fundo negro.

Alguns olhavam para ela com curiosidade, e todos fala­vam sem parar. Quando ela retribuía um desses olhares, a pessoa em questão se inclinava ou baixava a cabeça numa cortesia respeitosa, sorrindo, talvez por constrangimento. Os mais próximos resmungavam algumas palavras enquan­to se inclinavam. Ela olhou em volta. Ele ainda estava no molhe, cercado por um punhado de homens. Parecia estar dando ordens. Não olhava em sua direção. Ela se mantinha no meio da multidão na praia, perguntando-se... e agora? O que ele pretendia? Porque não havia pensado no que acon­teceria depois da fuga.

Uma mulher se aproximou e cumprimentou-a com uma inclinação graciosa. Seu nome era Elanor Massey, ela con­tou. A senhora devia estar precisando repousar depois da longa viagem, e seria para ela um honra poder oferecer a hospitalidade de sua casa. O lugar era pobre, mas certamente seria o melhor que Aclete poderia lhe oferecer.

A mulher era de meia-idade, um pouco mais baixa que Phaedra, e sorridente. Vestia-se como a esposa de um mer­cador, embora tivesse a cabeça desnuda. Talvez houvesse vestido suas melhores roupas para aquela ocasião.

— Oh, muito obrigada — disse Phaedra. — É muito ge­nerosa... — E olhou para trás. Ele ainda continuava entre os homens, mas agora olhava em sua direção e assentia, embora não pudesse ter ouvido o que diziam. Em seguida, ele voltou a falar com seus seguidores, batendo com um punho cerrado na palma da mão para enfatizar o que estava dizen­do. Devia saber que seria recebido dessa maneira, Phaedra pensou. Talvez houvesse dado ordens nesse sentido. Não sabia por quê. Não sabia quando e nem mesmo se volta­riam a se encontrar. Não queria se afastar dele. Mas a mu­lher chamada Massey a esperava, e não havia nada que pu­desse fazer senão aceitar sua oferta.



  • Obrigada — repetiu. — Sua oferta é muito bem-vinda.

  • Uma noite em um pequeno barco cheio de homens não é nada divertido para uma mulher. Já vivi essa situação muitas vezes. Se quiser me acompanhar, milady, o caminho é curto.

O sol já ia alto. Podia sentir seu calor. Seria um dia claro para o mês de janeiro. Além da multidão, a praia estava deserta. Aclete era um lugar pequenino, não mais do que duas grandes casas, uma de madeira e outra de pedra, uma de cada lado do porto, e várias casinhas e cabanas espalha­das entre elas. Por entre as cabanas ela podia vislumbrar uma paliçada na porção mais continental do vilarejo.

Phaedra percebeu que devia dizer alguma coisa.



  • Aqueles barcos parecem ótimos vistos da praia — comentou. — Mas não passam de uns poucos metros de madeira quando se está dentro deles.

  • É verdade. Fui criada em Velis, no grande mar. Lá tínhamos navios de verdade, com deques e cabines e todas as acomodações. Mas não verá nada parecido por aqui.

  • Por causa das quedas em Watermane.

  • É isso mesmo, milady. E deve saber, porque viveu perto do lago durante toda sua vida. Muito mais tempo do que eu.

  • É uma navegante experiente, sra. Massey? — Phaedra nunca ouvira falar de uma mulher que tivesse seguido tal vocação.

—Não navego mais, a menos que seja indispensável. Sou a chefe do porto por aqui. Parece uma piada, não é? O posto era de meu pobre Ralph, até ele falecer, há dez anos. Então, descobrimos que não havia um local para realizar­mos as reuniões, exceto na sala da minha casa, e também não havia ninguém para ler ou manter os livros. Não havia mais ninguém para apaziguar as disputas. Somente eu. Ralph me deixou alguns barcos, e por isso eles tiveram de me ouvir. Há três anos, o meu senhor escreveu uma carta nomeando-me mestre do porto. Talvez tenha considerado a situação engraçada. Mas as coisas transcorreram nesses três últimos anos como nos sete anteriores, o que significa que devo ter sido mestre do porto desde então. Aqui estamos, milady.

Estavam diante de uma grande casa de madeira no lado norte do porto. Havia duas criadas na porta, jovens da ida­de de Phaedra, e elas sorriam e se inclinavam sob o peso da urgência do entusiasmo contido. Ela penetrou no frescor do hall de entrada, sentindo os cheiros estranhos de uma casa desconhecida. Havia uma grande sala à esquerda, além de uma porta aberta, onde se viam uma mesa de jantar e uma lareira; um pequeno aposento à direita abrigava uma escrivaninha; uma escada levava ao pavimento superior...

— Leve a senhora para cima, por favor — disse a sra. Massey. — Ela precisa descansar.

Degraus de madeira rangiam sob seus pés. A subida era íngreme. Uma das jovens a conduzia, a outra as seguia. Havia um quarto espaçoso com vista para o porto. Tudo havia sido preparado para ela. Aquele devia ser o aposento da sra. Massey, certamente. Uma das garotas indagou se ela gostaria de beber um copo de limonada. A outra mostrou-lhe as roupas que já haviam sido deixadas preparadas para quando ela se levantasse de seu descanso, presentes da sra. Massey. Como poderiam servir? Talvez ele houvesse conseguido descrevê-la com alguma precisão. Talvez houvesse pensado em todos os detalhes, antes de pôr seu plano em prática, e assim previra todas as necessidades de uma mulher chegando a um local desconhecido depois de uma noite em um barco. Ele parecia pensar em tudo.

— Obrigada — ela disse.

Phaedra acordou de um sonho no qual corria e corria e vozes chamavam seu nome.

O quarto estava quieto. O sol não iluminava mais as janelas fechadas. O ar tinha o frescor de uma bela tarde de janeiro, ainda morno o bastante para permitir que se ficasse ao ar livre, porém mais agradável do que as abrasadoras tardes de verão. Estava deitada em uma cama ampla e confortável. A casa ficava em um vilarejo no porto da Fronteira de Tarceny. A cama pertencia a uma mulher que era mestre do porto. Uma das ajudantes da sra. Massey, que devia ter sido designada para servi-la, dormia em uma cadeira. Toda a extensão de Derewater se interpunha entre ela e sua casa.

Devia ter dormido por horas. Não havia percebido que estava tão cansada. A aventura da noite parecia ter ficado num passado distante. Lembrava-se de ter corrido pela mar­gem do lago, das tochas e dos arcos que dispararam flechas que cruzaram o ar, provocando o som do ódio. Mas sua mente, ainda meio sonolenta, confundia essas imagens com outras do sonho que acabara de ter. Estivera correndo, não pela margem do lago, mas por um lugar escuro em meio a pedras castanhas. Uma voz chamava por ela; chamava com desespero, depois perdia a intensidade... Poderia ser a voz de seu pai.

Ela se sentou.

O quarto estava quieto. Não havia nenhum barulho além do da janela. Onde estavam todos? Onde estava... Ulfin?

Deixara-o conversando com seus homens no píer, tra­tando de um assunto aparentemente urgente. Teria ele par­tido para cuidar de outras questões, deixando-a aos cuida-dos de Aclete, considerando seu dever cumprido?

Devagar, tentando não despertar a criada adormecida, ela caminhou até a janela e olhou para fora. O porto era de um azul profundo, e mansas ondas brancas emprestavam um toque de delicadeza ao panorama. Em um extremo fica­va a casa de pedra, onde ele devia morar. Bandeiras em pre­to e branco pendiam de postes plantados na porta, tremu­lando ao vento. Podia ver uma dúzia de homens, alguns sentados, outros caminhando sem pressa. Havia linhas de cavalos perto da paliçada. Então, seu acompanhante ainda estava lá. Ele devia estar em Aclete.

Ela se afastou da janela e, com o coração batendo forte no peito, respirou fundo.

A pilha de roupas novas continuava no mesmo lugar, diante de um grande espelho. Ela se aproximou das peças sem fazer barulho. O vestido que escolheu era simples e branco, pois sabia que o tom combinava com a coloração de sua pele. O decote era alto, cobrindo toda a extensão do pescoço, e botões fechavam o corpete em sua porção fron­tal. O cinto dourado era o único adorno que usaria.

Seus dedos tremiam.

Não saberia dizer por que se vestia dessa maneira, sem nenhuma ajuda, quando só precisava chamar a jovem cria­da para ser vestida, como havia sido em todos os dias de sua vida. Não conhecia nenhuma razão para que ele hou-esse desaparecido de seu mundo real com a mesma rapi-dez com que nele penetrara. No entanto, o temor de que tal coisa houvesse ocorrido era real. Estava abalada; saber que ele não havia desaparecido era muito importante. Queria pensar nisso. Queria pensar em... Ulfin.

Ela o conhecia havia anos, mas dar um nome a ele o tornava um estranho. Agora ele era aquele Senhor de Tarceny, de cuja casa nenhum homem podia dizer boa coi­sa. Ele enviara mensageiros para pedir sua mão como qual­quer outro nobre no reino, e seus homens haviam sido en­caminhados aos portões em menos de uma hora. Ele nunca mencionara tal coisa em sua presença.

E depois de todos esses anos, pensou Phaedra, tentan­do acalmar-se, o que sabia? Seu rosto era belo, suas mãos eram longas, seus pensamentos, rápidos. Ele era o senhor das fronteiras. Sabia que o pai dele havia sido um invasor e um saqueador, alguém que expulsara os monges de suas terras e deixara o próprio povo fora de suas muralhas; mas ele morrera pelo próprio fogo há alguns anos, conforme ouvira dizer. Não tinha conhecimento de outros familiares. Que tipo de senhor era Ulfin, então, para Tarceny, esse lu­gar de horrível nome onde as pessoas sorriam e se inclina­vam e ofereciam hospitalidade?

Todas as coisas corriqueiras sobre esse homem eram estranhas ou desconhecidas. Apenas a lembrança de sua voz fazia com que se recordasse dos sonhos obscuros e familia­res nos quais falava com ele desde sua infância. Seu coração havia disparado quando o vira e batera forte novamente quando sua mão tocara a dele no barco, assegurando-se de sua presença real. E agora ele não a deixara. Esperava por ela do outro lado da baía. Ela estava ali, perto dele, e o veria novamente em breve, por certo. Esse homem a conhecia melhor do que qualquer outro no mundo.

Parecia impossível... Algo contra todas as leis da natu­reza que ela havia aprendido ou se habituara a esperar. Em sua opinião, tudo isso se assemelhava ao momento em que um redemoinho leva para a superfície de um rio uma folha que é arrastada até uma piscina natural, escapando da cor­renteza. O redemoinho deve parar, a folha deve afundar, e tudo será levado pela correnteza; e, no entanto, por um momento, uma força mágica sustenta todas essas coisas onde não devem estar e como não devem ser. Como uma folha, ela também vagava pela sala sem se dar conta disso. Suas mãos estavam unidas e crispadas, e a garganta ardia com a lembrança da água escura. Tentava imaginar o que ele podia pensar sobre ela, sem conseguir. O redemoinho a levou para a mesa diante do espelho. Havia ali uma escova de cabelo.

Ela a pegou e começou a escovar os longos cabelos ne­gros, virando a cabeça para olhar-se no espelho. Ensaiava diversas conversas enquanto se penteava, pronunciando as palavras com suavidade. E durante todo o tempo manteve a escova se movendo com tanta estabilidade quanto era pos­sível, buscando calma na repetição, enquanto pensava no rosto e nas mãos de Ulfin.

Um som atrás dela chamou sua atenção. A criada se movia na cadeira. Ainda não estava totalmente acordada, mas olhava para Phaedra boquiaberta.

— Por que não posso ter sua aparência? — ela per­guntou.

De repente, Phaedra se sentiu invadida por um súbito poder, e ela riu.

— Umbriel escreve o que foi dado, e por quê, e tudo o mais que foi dado com isso — respondeu. — Mas como lemos um livro no qual tais coisas estão escritas? — Ouvira tal colocação em um sermão de irmão David. Nesse mo­mento, teve certeza de que ele a teria abençoado, se estivesse presente. — Se já está acordada, vamos descer.

— Quem era aquele homem que saltou do bosque ontem à noite? — ele perguntou.

Estavam sentados juntos à mesa sob uma árvore frutífera do lado de fora do galpão de pedra. Anoitecia. O sol mergulhava atrás das montanhas a oeste. Do outro lado do por­to, a casa da sra. Massey e a colina atrás dela já haviam sido encobertas pelas sombras. O ar era frio e úmido.

Ele mandara perguntar se ela aceitaria tomar um refres­co em sua companhia. Quando chegara, conduzida pelo braço da sra. Massey, as mesas tinham sido postas sob as árvores frutíferas, e havia vinho nelas. Uma mesa menor acomodaria Phaedra e Ulfin, enquanto outra, mais longa e um pouco distante, receberia os homens de Ulfin e um grupo de conhecidos da cidade. A reunião era parecida com a que ela se acostumara a ver em casa; a mesma conversa, os mesmos sorrisos... e, no entanto, não eram os mesmos. Aqui e ali, entre os rostos, havia um que podia ser parcialmente descendente do povo das montanhas. Antes, dois músicos haviam executado melodias da colina usando flautas e um tambor. Essas coisas faziam com que ela lembrasse como se aproximara do limite do reino.

Phaedra tentava entender por que ele formulara a per­gunta. Não acreditava ser apenas por curiosidade. Ele de­via estar refletindo sobre o incidente. Talvez imaginasse se Phaedra havia sido seguida até o pátio da fonte, se sabia disso e, nesse caso, qual a importância de tudo isso.


  • Aquele era Aun, o barão de Lackmere. Ele é prisio­neiro em Trant desde o último levante.

  • Ah. Pensei mesmo que ele parecia me conhecer. Mas isso não explica o que ele fazia armado, e fora das muralhas de Trant.

  • Deve ter escapado. O barão ouviu dizer que sua liber­dade não seria concedida tão cedo, e isso o deixou zangado. Não sei como ele conseguiu sair do castelo, porque havia sempre dois homens guardando a porta depois do anoitecer. Também não tenho idéia sobre como ele obteve armas.

  • Era uma espada pequena. Não era a arma de um ca­valeiro. Mas julgo seu comportamento estranho para um prisioneiro. Primeiro, ele interrompe sua fuga para nos ata­car. Depois, mesmo estando em fuga, grita de forma a atrair a atenção do castelo.

— Ele é um homem impulsivo... — Phaedra sentiu que Ulfin a observava e hesitou. As perguntas dele invadiam sua mente com dúvidas repentinas. Por um momento, ela viu o mundo como ele deveria enxergá-lo, e o julgou com­plexo, perigoso...

Seria possível que Aun houvesse recebido ordens secre­tas para vigiá-la? Mas isso teria sido loucura. Sua prisão ha­via sido real. Sabia disso, embora Ulfin desconhecesse tal fato.



  • Talvez — ele disse finalmente. — Ele atacou sozinho um grande grupo de homens. Teve sorte por escapar com vida.

  • Fico feliz por não ter dado ordens para que o ma­tassem.

  • De certa forma, eu também. Mas ainda acho que ele me conhece. Portanto, se ele se rende a Trant, ou se é recap­turado, Trant e a coroa saberão onde você está e quem a ajudou a fugir. Isso torna nossa posição muito delicada.

  • Entendo.

Não estava inteiramente certa do significado desse co­mentário. Mas imaginava linhas de soldados, suas arma­duras brilhando ao sol, vindo buscá-la para levá-la de volta pela força, enquanto a fumaça ia se espalhando pela praia do lago.

Olhando em volta, sentiu o coração apertado. Na outra mesa as pessoas conversavam animadas, sem consciência de uma possível retaliação e, portanto, sem medo. Podia ouvir as gargalhadas de Elanor Massey. Pessoas sorriam, olhavam para ela e sorriam novamente. O flautista tocava instrumento em notas longas e doces que permeavam a conversa como águas profundas.

— Por que sonhávamos um com o outro? — pergun­tou ela.

Ulfin ficou em silêncio, olhando para a baía. Quando falou, sua voz era tão baixa que ela mal conseguiu decifrar as palavras.



  • O que você se lembra desses sonhos? Ela não respondeu, e então ele perguntou:

  • O que eu carregava?

  • Um cálice.

  • E um dom trazido pelo Cálice.

  • Um dom?

Por um momento, foi como se ele se houvesse calado para sempre, como se não pretendesse dizer mais nada.

— Está falando de bruxaria? — Phaedra insistiu.



Ele suspirou. Parecia estar desapontado, como se ela houvesse fracassado em algum teste de confiança.

  • Prefiro dizer que é uma espécie de arte oculta, um termo empregado aqui na Fronteira para tratar de conheci­mento, ou de manipulação — ele explicou. — A Arte Oculta Prevalece. Esse é o lema da minha casa. Significa que, se você usa o que sabe, e se sabe mais que seu inimigo, você vence. Quando Wulfram conduziu seus guerreiros por mar até esta terra, as pessoas que aqui viviam não sabiam como forjar o aço. Quando descobriram que nós possuíamos ar­mas que elas não podiam quebrar e armaduras que elas não podiam penetrar, ficaram desanimadas. Chamaram nosso trabalho com o aço de feitiçaria porque não o entendiam. E assim tomamos o reino.

  • Não é a mesma coisa.

  • Não saber e temer aquilo que você desconhece é a mesma coisa em todos os lugares. É o que eu penso. Cava­leiros e sacerdotes chamariam o Cálice de feitiçaria, porque com ele sou capaz de derrotá-los, e eles não entenderiam como. Mas não há mais mal nele do que havia no aço de Wulfram. Menos, eu diria, porque não tirei as pessoas de suas terras, não destruí vilarejos e nem deixei os sobreviventes e seus descendentes vivendo na miséria e sofrendo com a mais dura pobreza nas colinas. O pesar do homem das montanhas é muito grande por nossa culpa, Phaedra. O que há no Cálice são as lágrimas de Beyah, a Mãe do Mundo, de acordo com o povo das colinas. Foi isso que nós dois sorvemos juntos. Agora você possui um conhecimento que não revelei a mais ninguém desde que meus irmãos morreram. Mas já falamos demais sobre isso. Há outra coi­sa que desejo dizer.

  • O quê?

  • Mesmo quando você ainda era uma criança, sempre foi muito clara para mim. Você é rara. Não me refiro apenas a sua aparência ou a seu nascimento, mas a seu espírito. Não se submeteu, apesar de todo o reino estar contra você. Mesmo que seja somente por isso, já me sinto feliz por tê-la ajudado como meu dom permitia. Agora, está na Fronteira de Tarceny. Aqui, de acordo com minha lei, nenhum pai ou guardião pode ordenar ou impedir o casamento de alguém maior de dezesseis anos de idade. Você pode permanecer por quanto tempo desejar como minha hóspede, ou, se qui­ser, pode percorrer as terras como julgar mais apropriado ou conveniente. Será um prazer oferecer-lhe toda a ajuda de que necessita.

  • É muito... gentil.

  • E estou fazendo uma oferta incondicional. Mas ainda há algo mais, e espero que me escute.

  • Sim?

  • Minha casa é malfalada. Acredite em mim quando digo que a culpa não é minha. Toda a responsabilidade cabe a meu pai, e tudo o que ele fez deve ser esquecido. Mas os homens não entendem meu povo. Temos pouco a ver com Tuscolo, porque somos austeros, enquanto eles são festivos; somos silenciosos, enquanto eles são fofoqueiros; somos verdadeiros, eles são falsos. No entanto, minha linhagem é antiga e, exceto pelos tempos recentes, sempre foi honrada. Há verdadeiro sangue de Wulfram em minhas veias. E não sou o último de minha ordem no reino. Ele a estava pedindo em casamento!

— Acima de tudo, sou eu mesmo. Não me gabaria de minhas habilidades, mas realizei muitos estudos e conheci muitos lugares. Dou minha palavra de honra de que nunca quebrei uma promessa e nem contei uma mentira em todos os dias de minha vida. Tudo que sou, e tenho, eu daria a você, Phaedra, se me concedesse sua mão.

Uma proposta de casamento deveria durar meses; eram necessárias longas negociações envolvendo terras e dotes. E ela recusava todos os pedidos de matrimônio. Todos eles.

Mas...

Em algum lugar, a voz de sonho a chamava, mas era como se ecoasse sob a água e o som não pudesse ser trans­portado. Ela o encarou com o coração disparado.



Ele continuou falando:

— Phaedra, o homem mais santo que conheço está um quilômetro distante daqui. Falei com ele enquanto você dor­mia. Esse homem não é meu vassalo, nem opera em mi­nhas terras ou em qualquer outro lugar do reino. Mas ele tem o direito e está disposto a nos unir em matrimônio... se você assim desejar.

Sobre sua cabeça, os galhos da árvore frutífera dança­ram sob uma brisa suave. Já se podiam ver botões de flores. O sol tingia de vermelho o topo das montanhas, e a primei­ra lua cheia do novo ano começava a se erguer imponente sobre Derewater. O mundo girava em torno dela, lentamen­te, mas com a firmeza inexorável que arrasta a folha para o centro de seu turbilhão.


  • Ele está perto daqui? — Phaedra murmurou.

  • No alto daquele outeiro que podemos ver daqui. E vai esperar.

Imediatamente, ela segurou a mão dele, sobre a mesa entre eles.

—Então, vamos ao encontro desse homem.

— Tem certeza?

Uma última chance. Se ela fosse além desse ponto...

— Diga o que está pensando.

De repente, as palavras transbordaram de sua boca como água.

— Eu me lembro... quando todos os filhos de barões e cavaleiros começaram a chegar em Trant procurando por mim; sabia que teria de desposar um deles e, no entanto, sabia que tal decisão seria impossível. Lembro-me também de ter pensado que seria como unir em matrimônio um tor­rão de terra e um riacho. Soube disso porque você estava na frente de todos eles. Você esteve ali o tempo todo, e eles não eram parecidos com você. E agora você mudou. Posso vê-lo, tocá-lo, dizer seu nome. Ulfin. E eu também mudei. To­das as coisas que davam forma à minha vida foram levadas pela correnteza. Meu pai, Trant, o medo... Você sempre me disse para não ter medo. A única coisa que não mudou é que sei que você tem estado dentro de mim o tempo todo. — Ela o fitou bem fundo seus olhos castanhos, e por eles pôde ver seu coração. — Agora, Ulfin, vamos ao casamen­to. Se demorarmos, alguém pode vir para levar-me de você.

—Phaedra, estarei distante com muita freqüência...

—Um dia, dois dias em um ano com você serão melho­res do que nenhum, ou, ainda mais assustador, serão me­nores do que um ano inteiro com qualquer outro homem do reino. Ulfin, você tem sido... não creio ser capaz de ex­pressar tudo que tem sido para mim.

Ele se levantou devagar.

— Então, venha comigo.

Ela se levantou e mergulhou naquele abraço. O mundo ficou fora dos braços que a envolviam, dos lábios que tocavam seu rosto e das batidas cadenciadas e fortes do coração daquele que seria seu esposo.

As pessoas silenciaram. Ela sentia diversos pares de olhos fixos neles e não se incomodava com isso.

Ulfin gritou:



  • Hob!

  • Sim, milorde.

  • Mande mensageiros à cidade. Haverá um casamento ainda esta noite, no Outeiro de Talifer... para aqueles que forem rápidos o bastante para nos alcançarem. Haverá um banquete em minha casa. Mande providenciar comida. Es­vazie minha adega. Esvazie cada barril da cidade, seja ele pobre ou requintado. E pague com ouro! Mande buscar tochas. Você aí! Toque uma canção e conduza-nos em nosso caminho.

Houve um momento de paralisia, e de repente as pes­soas explodiram em comentários variados. Alguém asso­biou. O flautista recuperou-se e começou a tocar uma melo­dia rápida e animada. Hob correu para cumprir as ordens de seu senhor. Ulfin levou Phaedra pela estrada que ligava o porto à paliçada, passando por entre as casas de madeira. Outros os seguiam. O flautista ia na frente. Quando passa­ram pelos portões, Phaedra ouviu punhos cerrados baten­do nas portas atrás deles, na cidade.

A estrada era acidentada, difícil de percorrer. Ela subia para o norte e para o oeste, contornando a base de uma colina baixa. Cem metros além da paliçada, uma trilha ain­da mais estreita subia pela encosta, descrevendo curvas acentuadas, como se enroscasse em torno de si mesma, descrevendo um ziguezague do lado sul da colina. Eles ultrapassaram o flautista, que parou no meio da subida para incentivar os que iam ficando para trás. Atrás dos noi­vos, uma pequena multidão progredia com dificuldade. Mais longe ainda, outros corriam passando pelos portões. Dali, podiam olhar para baixo, para Aclete, e ver as pessoas cor­rendo por entre as casas.

Ela não soltava a mão de Ulfin. Ele parou ao seu lado. Ambos ofegavam por conta da subida difícil.


  • É um bom lugar para a cerimônia — Ulfin lhe asse­gurou. — Verá quando chegarmos ao topo. Aqui, o primei­ro príncipe de Tarceny esperou por lady de Velis, que nave­gava pelo lago para vir tornar-se sua esposa.

  • Olhe para a lua!

  • Sim, é um bom presságio.

Ele se virou para retomar a subida, e Phaedra o seguiu. Enquanto caminhava, ela pensava: Isso é real? Vou mesmo me casar com ele! Não há ninguém de minha casa aqui, ninguém para apoiar-me, ninguém além de mim mesma. Vou me casar com ele. Todas as linhas do passado pareciam convergir para esse momento. Não haveria cerimônias for­mais nem compra e venda de direitos ou terras e famílias que nelas vivessem. Ali, não haveria nada além do céu e de um lugar muito antigo; e os dois, correndo na frente de um grupo numeroso, deixando para trás todo um povo na ale­gria do que estavam fazendo.

A subida ia se tornando mais suave. Aclete ficara escon­dida pela curva da encosta, mas Derewater podia ser visto se estendendo para o norte. O sol estava mais baixo atrás das montanhas cercadas pela névoa. Um brilho avermelha­do iluminava o céu, e, sobre a água, a lua se erguia exibindo sua imensa e redonda forma amarela, transformando o ouro em prata. A terra em torno deles ia mergulhando na escuri-dão. Os contornos irregulares das colinas iam se perdendo Penumbra. A estrada lá embaixo era uma pálida cicatriz amarela que conduzia ao norte e ao oeste até desaparecer tragada pelas árvores. Do lado do outeiro, Phaedra podia ver os limites de um bosque que parecia cobrir toda a encosta norte. Uma figura solitária e coberta por um manto caminhava na direção deles e parecia ter saído das árvores. Ulfin virou-se e ergueu os braços com as palmas volta­das para baixo, indicando que aqueles que os seguiam de­viam parar. Depois, tomou Phaedra pela mão, e eles segui­ram em frente juntos. O sacerdote aproximou-se do casal. Ele usava uma longa túnica presa à cintura por uma faixa, como um monge, mas suas vestes tinham a cor do entarde­cer. O capuz cobria sua cabeça. Ele parecia ser um homem idoso, mas movia-se com facilidade.



  • Quem é você? — sua voz era seca.

  • Ulfin Ector, fiscal das Fronteiras de Tarceny.

  • Por que veio?

  • Para me casar com esta mulher.

O sacerdote olhou para Phaedra. Seus olhos brilharam sob o capuz. Os contornos de seu rosto eram desprovidos de carne. Sua boca era apenas um pequeno buraco negro que se movia.

  • Quem é você?

  • Phaedra, de Trant. Desejo me casar com este homem, senhor.

Sabia que devia ter dito Phaedra, filha de Ambrose, guar­dião de Trant. Mas Ulfin também não havia utilizado o nome de seu pai.

— Suas mãos.

A mão dela estava presa à de Ulfin. Eles as estenderam juntas. O sacerdote colocou a mão sobre a de Ulfin.

— Digam a verdade um ao outro. Deixem que suas vi­das sejam como espelhos para o outro. Mantenham as pro­messas que fizerem. Vocês são marido e mulher.

Ulfin inclinou-se. Phaedra o imitou e realizou uma cor­tesia delicada. Quando se levantaram, o sacerdote já se afas-tava, voltando para o meio das árvores.

— Isso foi muito rápido! — Phaedra exclamou espantada.

—Acabamos de receber uma grande honra. Que eu sai­ba ele não fez isso por mais ninguém em toda a sua vida.

Havia uma nota de fascínio na voz de Ulfin. O sacerdo­te desapareceu entre os primeiros troncos. A julgar pelos sons que ouvia, Phaedra deduziu que outros o esperavam no interior do bosque.

—Ele vive aqui?


  • Não. Ele vai aonde quer estar. — Ulfin virou-se para encará-la e segurou suas mãos. Por um momento, os dois ficaram em silêncio. Phaedra baixou o olhar.

  • Agora — ele disse —, temos de cuidar de nossos convidados.

O grupo que os seguira formava um semicírculo distan­te do local em que havia sido realizada a breve cerimônia. Phaedra pensava que o sacerdote os aconselhara a manter suas promessas, mas não haviam feito nenhuma. Poderiam ser castigados por isso? Septimus ainda poderia tomá-la, afinal, se soubesse que o casamento havia sido incomum? Talvez encontrasse um sacerdote tradicional, alguém de sua confiança, e tentaria convencer Ulfin a fazer os votos como sempre aprendera que deveria ser. Só por precaução.

Aplausos e assobios explodiram do grupo de especta­dores que, entusiasmados, perceberam que a cerimônia ha­via sido concluída. Uma tocha brilhou mais forte na noite de luar.

—O que é isso?

A música havia mudado. Várias flautas se uniam numa melodia que se erguia acima do ruído sob sua janela. Era uma canção das colinas, diferente de todas as músicas do reino; um som longo, comedido, tocado pelas lágrimas. Ulfin ergueu-se sobre um cotovelo ao lado dela e ouviu. A mistura de luar e tochas iluminou o lado direito de seu rosto. O restante continuava nas sombras. Mas ele parecia sorrir, como que tocado por alguma recordação distante.

— Esse é o Grande Lamento. O Mundo chorando por seu filho.

Ela se encolheu junto do marido, buscando conforto para os pensamentos que invadiam sua mente.

A mão dele se moveu no escuro. Os dedos tocaram sua pele. Mais uma vez, ela experimentou o extraordinário sen­timento de ser acariciada por aqueles dedos, um sentimen­to que ganhava força e despertava seu corpo para uma ur­gência que ela não saberia nomear. Deitada, ela o encarou. Seu rosto era sombrio e lindo como a meia-lua numa noite cintilante, e ele sorria novamente.

Lá fora, as luzes ardiam sobre as mesas montadas à porta de Ulfin. As pessoas falavam, bebiam e riam; os flau­tistas tocavam suas notas suaves como faziam havia ho­ras, desde que seu senhor e sua nova condessa se tinham retirado do banquete.

Ali, nos braços de Ulfin, Phaedra encontrou a dor e uma indescritível doçura. Mas mais maravilhoso que tudo era mergulhar assim no sono, cercada pelos braços do homem que amava.

VI

A Resposta do Guardião

Emergindo do frescor do hall de paredes muito altas, apoiada em seu braço, ela ouviu o som da água por um segundo antes de compreender onde estava.

— Oh! — exclamou. — E como em casa! E como em Tuscolo!

Havia esperado pelo pátio interno empoeirado em que apearam ao chegar, mas encontrava-se em uma área pavi­mentada com duas pequenas árvores frutíferas e uma fon­te. Colunas caiadas marcavam os quatro cantos da área, sus­tentando uma cobertura de ladrilhos que oferecia sombra e frescor. O ar tinha o doce perfume de plantas, menta e ale­crim, e ela reconheceu essas folhas nos grandes vasos de cerâmica situados na base de cada pilar.

Sabia que ia gostar — disse Ulfin. — E está em melhores condições do que aquele em que nos encontramos em Trant, uma área que deve ter sido abandonada há muito tempo. Pode citar os nomes das sete casas do reino?

—Tuscolo e Velis, Baldwin e Bay, Trant, Ferroux e Tarceny.

—Exatamente. Sete casas para sete príncipes, e você vai encontrar um pátio como este, ou as ruínas do que um dia foi um pátio, em cada uma delas. Porque assim as construí quando chegamos por mar.



  • Havia mesmo sete príncipes? E você é descendente de um deles?

  • Não e sim. The Tale of Kings foi escrito e lembrado muitas vezes, e de diferentes maneiras. Em cada versão, Wulfram chega por mar em três navios, fugindo de uma guerra ou de um desastre do outro lado da água, e não nos lembramos do que ele foge. Imediatamente, ele divide a terra por seus sete filhos. Mas os sete nem sempre recebem os mesmos nomes nos diferentes relatos que ouvi ou li. Contei oito nomes. Por isso, acredito que não tenham sido sete prín­cipes, mas oito. E alguns não podem ter nascido até bem depois de Wulfram ter guiado nosso povo pelo mar. Desde sua chegada até o tempo em que meu ancestral Talifer che­gou de Jent para conquistar a Fronteira devem ter transcor­rido vinte ou trinta anos.

  • Onde fica Ferroux? Não se ouve falar nela atualmente.

  • Trata-se de uma casa sem importância na região de Develin. Alguns afirmam descender dessa linhagem, é cla­ro, mas essa alegação é falsa. As outras casas também caí­ram, uma a uma. A primeira casa de Baldwin encontra-se em ruínas desde o final dos Altos Reis, embora Faul e Seguin e toda a casa real afirmem ser descendentes dela. E os admi­nistradores da terra, traiçoeiros que foram, ergueram sua torre numa colina próxima e ainda hoje se intitulam Baldwin. Trant é agora uma casa guardada por um homem indicado pelo rei, como você bem sabe. Bay tem uma história melhor, mas...

  • Gostei de Baldwin.

  • Não muito, espero.

— Não fique enciumado. Não me casei com ele, não é?
Ele riu. Parecia surpreso por alguém falar com ele dessa maneira.

  • Então, lê histórias, milorde?

  • Existem algumas histórias no castelo. E outros traba-lhos. Sim, eu leio. Meu propósito é entender como o reino chegou ao estado em que está. Por que nós, que somos mais numerosos e temos melhores armas do que todas as tribos que nos cercam, passamos tanto tempo encolhidos dentro de nossas fronteiras sem nunca buscarmos alargá-las, conquistar novas terras? Não desejo mal nenhum ao povo da colina. Mas me espanta que a força de nosso povo se volte tão destrutivamente contra nós mesmos. Certamente, nos­sos reis deveriam nos governar melhor.

  • Gostaria de ver seus livros.

  • Tudo que possuo é seu.

O que era verdade, ou parecia ser. Algumas horas antes ela havia sido levada a uma sala em que encontrara uma impressionante variedade de objetos a sua espera. Eram li­vros, pentes, espelhos, roupas, ornamentos... Uma criada estivera lá, uma mulher idosa chamada Orani, dona de um rosto fino e um olhar de pássaro que Phaedra começava a associar ao povo da colina. E mensagens já haviam sido en­viadas. Uma costureira fora chamada em Baer, a maior ci­dade na Fronteira, e um joalheiro havia sido notificado e convocado em Watermane. Ambos deveriam se apresentar no castelo o mais depressa possível.

O melhor de tudo era uma linda escrivaninha, um mó­vel de madeira tão escura que era quase negra, com pernas entalhadas no formato de criaturas sinuosas e delicadas. Deslizar seus dedos pela superfície da mesa a fizera apaixonar-se novamente pelo marido.

—Você tem sido muito generoso, mas ainda tenho um Pedido a fazer.

—É claro. O que deseja?

—Caneta, pergaminho e cera. Devo escrever a meu pai e convencê-lo a aceitar o que fizemos. E também não tenho um anel de sinete como sua esposa. Sabe que devo usá-lo como carimbo junto à minha assinatura.


  • Terá caneta, pergaminho e cera imediatamente. E eu mesmo escreverei para seu pai, também, porque reconheço a injúria que causei e não quero transformá-la em insulto. Mas um anel de sinete será mais difícil. Pode usar o meu...

  • Para outras cartas, sim, mas para esta...

  • E claro. Mas qualquer joalheiro levaria uma semana para confeccionar tal peça e... Espere. — Ele hesitou por um instante, depois retirou algo de uma bolsa interna. — Tal­vez isto sirva. Pertenceu ao meu irmão mais novo. Estava pensando se devia ofertá-lo a você, mas... acho que ele teria gostado de saber que a peça está em boas mãos.

Era um anel de sinete largo demais para seu dedo. A letra "P" era saliente sobre a lua de Tarceny. Do outro lado dela havia um "c" e um "u" gravados na face oposta do anel. Era uma jóia de prata, forjada no formato do corpo de um pequeno dragão que ia se enroscando em torno de si mesmo como uma corda, de forma que a parte superior do anel representava sua cabeça, e os olhos espiavam cintilan­tes por baixo da letra de seu nome.

  • O dragão da eternidade — ela murmurou.

  • Entre os de nossa classe, essa é uma verdade. Mas para o povo da colina seu nome é Capuu, o réptil que des­cansa em torno da borda do mundo e o mantém fechado e unido; e ele significa fidelidade. Vai vê-lo em jóias e totens, e até — ele deslizou os dedos pelo trabalho em pedra — entalhado na borda desta fonte. Éramos três, meus irmãos e eu, e cada um de nós possuía um anel como esse com a letra dos nomes dos outros dois ao lado da letra de seu próprio nome. Agora eles se foram, estão mortos, e eu sou o senhor da casa.

  • É primoroso, Ulfin. Cuidarei bem dele, prometo. Qual era o nome dele?

  • Paigan.

  • Um nome estranho.

— Um nome antigo. E devia ter vivido nele, mas não foi o que aconteceu.

—Devia amá-lo profundamente.

Ele assentiu. Phaedra esperou, mas ele olhava firme para a bacia da fonte, sem dizer nada. Por isso ela se manteve em silêncio ao lado do marido, olhando para os degraus de pe­dra e para as torres de Tarceny ao seu redor.

O lugar ainda era fascinante. Parecia muito maior do que Trant, embora não tivesse, certamente, o tamanho do castelo do rei em Tuscolo. Suas torres eram mais altas, mais finas, e pareciam quase tão graciosas quanto na época em que as vira pela primeira vez. Havia saído da floresta e se depara­ra com um amplo vale nas colinas, com o castelo pendendo de sua colina numa solidão imponente atrás dela. O solo do vale era recoberto por folhas de oliveira e parecia, visto de cima, um grande jardim. A luz do entardecer criava dese­nhos nas paredes e nos canteiros de flores brancas que cres­ciam em emaranhados perfumados. Enquanto cavalgara colina abaixo, na direção das árvores, seus ouvidos haviam registrado o som de trombetas.

A mão traçava as curvas da besta entalhada na beirada da fonte. Ela estendeu os dedos para o jato de água que brotava do centro da fonte. Era fria, mas não gelada. As gotas dançavam em sua pele banhada pelos últimos raios de sol. Em algum lugar, escondido, um asno ou burro girava a rnanivela que fazia jorrar a água, e um homem observava o trabalho do animal. Talvez estivessem na base da pequena torre no canto do pátio. Certamente não passavam todo o dia ali. Ulfin os desviara de outros deveres com o único pro­pósito de acrescentar um toque de beleza ao cenário por ela visitado.

Ela se virou, e com a base da coluna apoiada na fonte olhou para cima, para o céu. O azul estava puro naquele dia de janeiro, um panorama ainda mais imponente quando emoldurado pelas torres e fortalezas de Tarceny. Ao lado dela, Ulfin despertou de suas lembranças. Phaedra podia sentir o calor da perna dele contra a dela através do grosso tecido do vestido. As mãos estavam em seus ombros. Seu rosto se tingiu de vermelho, e ele inclinou a cabeça para beijar seu pescoço, como já esperava que fizesse.

Reverenciado e idolatrado pai (escreveu Phaedra). Coloco-me humildemente diante de sua presença e desejo ansiosamente ouvir de seu bom espírito e bem-estar, tão depressa quanto sua mensagem possa che­gar a mim. Pela carta que meu senhor envia junto des­ta, e pela boca de nosso mensageiro, vai saber que tomei a mão e o nome do Lorde de Tarceny. Escrevo para lhe dizer que fiz tal coisa por vontade própria e com grande alegria, porque nunca conheci homem mais nobre, sábio ou generoso, exceto pelo senhor, sua honrada pessoa. Antes que me julgue dona de mente inconstante, relato que esse amor não me chegou de maneira súbita, mas cresceu com o tempo e alcançou uma grandiosidade que realmente não pos­so descrever. Nunca me senti mais abençoada que agora e só preciso de sua bênção de pai para este ca­samento, o que me fará a mais feliz das mulheres que já viveram. Oro para que me envie quanto antes tais bênçãos. Idolatrado senhor, cuidou de mim e muito suportou por minha causa. Se algum dia lhe causei pesar, recentemente ou em toda a minha vida, então sofro em igual medida. Oro agora para que se regozi­je comigo, pois nesse casamento sua casa é recom­pensada com um grande aliado, alguém que será tão forte e verdadeiro a sua pessoa quanto possa ser ne­cessário, e isso porque o amor que meu senhor e eu temos um pelo outro pode significar que ele o amará como eu o amo, com todo o meu coração e com todo o respeito que meu ser lhe pode dedicar. Escrito no décimo terceiro dia de janeiro em Tarceny e assinado por minha mão.

Ela escrevia com cuidado, com muitas inserções e justi­ficativas, e ainda não se sentia satisfeita com o resultado. Devia ser uma carta mais longa, e não conseguia pensar em mais nada para dizer sem que repetisse o que já havia de­clarado. Tinha dificuldades para explicar quando havia se apaixonado. Não queria que o pai pensasse que, no final, havia se casado num impulso. Mas não podia dizer a ele como, ou por quanto tempo, conhecia Ulfin antes mesmo de ter deixado Trant.

Desejava passar a limpo toda a carta, de forma a dar a ela uma apresentação impecável, mas levara tanto tempo executando o rascunho que agora não dispunha de mais tempo. Ulfin esperava por ela no estábulo, ansioso para exi­bir um cavalo novo que havia comprado para a esposa. Por isso ela entregou o rascunho a um dos escribas de Ulfin, ordenando que ele copiasse o texto em uma folha em bran­co que já havia assinado. Seu pai, que não sabia escrever bem, teria de contar com Joliper ou outro serviçal para redi­gir sua resposta. E agora que dispunha de escribas em sua casa, podia e devia usá-los como a grande dama em que se transformara. O mesmo pensamento levou-a a mudar o cumprimento de abertura para "idolatrado senhor", remo­endo também a palavra "humildemente" da primeira sentença. Feito isso, ela correu para o estábulo.

Mais tarde, lamentaria ter feito tais mudanças. E pensaria também que devia ter oferecido mais desculpas ao o que "Se algum dia lhe causei pesar, recentemente ou em toda a minha vida". (Se!) Mas então a carta já havia sido despachada.


* * *
As torres se debruçavam sobre ondas e ondas de terre­no acidentado, relva, bosques, pedras e pomares, um pano­rama que se estendia até a névoa das grandes montanhas distantes. Nas depressões mais profundas, riachos corriam ocultos, e estradas da largura de trilhas de coelhos corta­vam os vales, subindo e descendo com o relevo. Os vilarejos eram pequenos e afastados. Um dia e meio de cavalgada lenta, depois de terem deixado Aclete, e ainda não haviam passado por castelos ou outras propriedades. O primeiro repouso do dia ocorrera em um grupo de quatro cabanas ao lado da estrada; o segundo, em uma bifurcação da estrada.

Era um lugar vazio, depois do mundo atribulado e fe­chado de Trant; vazio por dentro e por fora. Não havia sa­cerdotes, uma coisa com a qual deveria estar chocada e que, sabia, teria de mudar antes de seu pai e outros de seu mun­do tomarem conhecimento disso. Com exceção desse deta­lhe, a criadagem de Ulfin era maior do que a do guardião, mas era mais quieta e mais organizada. Os grandes aposen­tos impunham uma porção de sua quietude aos humanos que por eles se moviam. O salão erguia-se três patamares acima de suas vigas, com a porta para o patamar superior a meio caminho de sua altura e uma lareira cuja largura era quase a mesma da parede do cômodo. Degraus brancos su­biam para a madeira escurecida da galeria, e além dela fica­vam os quartos. O piso alternava quadrados de mármore branco e preto, compondo um padrão que era quase regu­lar, mas não inteiramente.

— Alguém foi descuidado, senhor — ela comentou cer­ta tarde. — Porque aqui há três... não, cinco pedras pretas alinhadas diante da lareira. Estou surpresa por ter permiti do tal desarranjo.

Ele não parecia estar com disposição para brincadeiras.

—As pedras negras vêm de pedreiras além de Baer. Mas brancas são de Velis. Na época em que as pedras foram danificadas, a rebelião começava no Litoral. Nada passara para o sul pela costa. Fizemos o que foi possível, e eu acabei me acostumando com isso.

Phaedra nunca havia estado em um cômodo projetado em torno de uma combinação de cores. Nem mesmo em Tuscolo.

—Branco e preto são mais do que as cores da minha casa — disse Ulfin. — São as cores da verdade. São claras, precisas e sem decoração.

— Como um tabuleiro de xadrez?

Aun sempre se referia ao seu tabuleiro e às peças do jogo de xadrez como pretas e brancas, por mais que tives­sem tons diferentes de verde e marrom.


  • Ainda está tentando brincar comigo. Mas é isso mes­mo. Sabe jogar xadrez?

  • Comecei a aprender no último ano. Minha peça fa­vorita é a rainha. E a sua?

  • Não devemos ter peças favoritas. E necessário usar todas as peças, como o jogo exige. No momento apropria­do, você deve sacrificá-las sem misericórdia. Exceto o rei, que deve ser guardado como sua própria vida.

Assim, eles começaram a jogar xadrez depois do jantar. Jogavam em um grande e belo tabuleiro com peças da cor do ébano e do mármore. Ulfin era habilidoso, muito mais do que Aun havia demonstrado ser. Ele planejava muitas jogadas com antecedência. E seu jogo também era mais sutil. Ele adorava levar uma peça para uma posição de vantagem e assim deixá-la preocupada com ela até aproximar ao de um cavalo ou peão para o movimento de defesa. Então, ele balançava a cabeça suavemente, e ela olhava para o tabuleiro e via, pela primeira vez, o bispo ou o castelo que seu movimento havia deixado descoberto, a ameaça direcionada para o centro de sua defesa.

Ela lutou. A luta ajudou-a a aprimorar sua consciência do jogo, de suas complexidades e de seu ritmo. Ela o forçou a executar mudanças súbitas a fim de remover uma peça na qual, de acordo com a opinião de Phaedra, repousavam seus planos. E assim eles jogavam, às vezes várias partidas con­secutivas, nas noites de início de primavera no salão em Tarceny, onde o ar penetrava pelas longas janelas e não ha­via outro som senão o das peças e das cortinas balançando suavemente, cheias de história. E quando suas defesas eram vencidas, e seu rei caía pela última vez, ela sorria e aceitava a mão estendida, e juntos eles subiam a escada de mármore para os aposentos íntimos, onde a lua fazia cintilar os len­çóis e seus corações batiam mais forte.

Assim, o idílio de Phaedra durou até os primeiros dias de fevereiro, quando a primeira chuva de muitas semanas bateu contra as janelas, e a resposta de Trant chegou para destruir seu sonho.

... Inconseqüente, voluntariosa e anormal... Seu pai me pede para escrever que ele deveria enviar a mal­dição dos Anjos e a dele também, porque você enver­gonhou sua casa diante do rei e de todo o reino... todo o sangue que ele e seus cavaleiros derramaram foi em vão... e que ele jura que vai trazê-la para casa, e amarrada se for necessário...

O Salão de Guerra de Tarceny era iluminado por tochas, e pelas janelas se podia ver o brilho do sol se pondo sob uma massa de nuvens. As paredes eram caiadas, a mobília era de madeira escura e polida, brilhante, e havia uma mesa com bancos dos dois lados e uma cadeira em forma de tro­no em uma de suas pontas. O único ornamento nas parede consistia em um retrato de um homem jovem, com o rosto longo da família de Ulfin e uma expressão triste no olhar.

Phaedra olhou em volta para os doze homens, alguns desconhecidos, outros mais familiares, mas a quem ainda não podia dar nomes. Hob, mordomo de Ulfin e assistente mais próximo, estava ali. Ele ocupava uma posição baixa à mesa. Os outros deviam ser cavaleiros, cada um com várias fazendas e propriedades e uma dúzia ou mais de homens armados, vestidos com armaduras e montados. Alguns ves­tiam malhas. Em Tarceny, os homens se trajavam para a guerra mesmo quando estavam em suas terras, pelo que via, e até para a curta viagem pela estrada precária que le­vava ao portão de seu senhor. Muitos eram anos mais ve­lhos que Ulfin. E, desses, nenhum tinha o rosto simpático, embora valente, do povo de Trant. Eram os homens que haviam seguido o velho conde, duros e silenciosos. Homens que haviam cumprido suas ordens.

Agora, eles esperavam pelas ordens do filho do conde.

— Vocês sabem — começou Ulfin — que escrevi para o pai de minha esposa oferecendo amizade, um possível dote e meu apoio, pedindo apenas que ele se sentisse contente por me chamar de filho. Não recebi nenhuma resposta. Mi­nha esposa também escreveu, e recebeu uma resposta, mas nada que nos dê esperança ou ânimo. Por essa razão, basi­camente, pedi que se unissem a nós enquanto discutimos o assunto. Também devemos considerar as notícias que Abernay me trouxe, e pedirei que ele as resuma. Por último, eu mesmo tenho notícias as quais desejo tornar conhe­cidas. Juntos, vamos considerá-las e decidir o que fazer.

Todos os presentes assentiram e esperaram em silêncio.

Ulfin seguiu em frente.

—Em primeiro lugar, devo repetir, caso haja alguma dúvida, que minha esposa aceitou se casar comigo por vontade própria, em solo da Fronteira e de acordo com nossas leis. Não há nenhuma dúvida quanto a isso.

Sua mão direita repousava sobre o braço de Phaedra. A esquerda estava sobre um baú de madeira entalhado com complexas serpentes e imagens, um objeto que era mantido sobre a mesa como um totem de autoridade. Sua lingua­gem era formal, como a de um sacerdote. Phaedra podia ver que os homens em torno da mesa tentavam antecipar o que ouviriam ali.



  • Milady — disse Ulfin, virando-se em sua cadeira.

  • Milorde — Phaedra respondeu num sussurro. Ten­tou tossir para limpar a garganta, e voltou a falar: — Milorde, meu pai mandou escrever que não reconhece e não aceita nosso casamento e nem pretende responder a suas cartas.

Alguém grunhiu. Podia ser uma gargalhada, mas o som foi tão breve que Phaedra não soube identificar se ele tradu­zia um lamento ou escárnio.

  • Não creio que tenhamos de questionar o significado de tal mensagem — disse Ulfin.

  • Ele não pode esperar vencer — comentou Orcrim, o cavaleiro de cabelos brancos que era mestre de guerra de Ulfin. — Somos cinco ou mais para cada um deles.

  • Se fosse só esse o ponto, eu concordaria — respon­deu Ulfin. — No entanto, vamos pensar que, enfurecido como está, ele parece ter adiado por oito ou dez dias sua resposta. Tempo suficiente para mandar outros mensagei­ros e receber respostas. Sabemos que o guardião é homem do rei. E não me parece impossível que um certo príncipe real possa estar ofendido com tudo isso.

Um ou dois homens sorriram. Pelo que Phaedra podia ver, Septimus não tinha o respeito dos cavaleiros da Fronteira.

—Abernay, onde está o rei agora, e quem está com ele?

Um cavaleiro, um daqueles que vestiam malhas, inclinou-se para frente. Ele tinha um rosto estreito, com um queixo pontudo e cabelos negros cortados num formato arredondado.

—Falei com um mercador que foi enviado a Bay para fazer compras para a chegada do rei. O rei saiu de Tuscolo no último dia de Natal. Agora ele está em Baldwin, mas estará em Bay no final do mês. Os dois príncipes estão com ele como lorde Develin e os outros. Eles estarão em Trant por uma quinzena no meio de março, e chegarão em Jent para a Páscoa.

— Esse era seu plano — disse Ulfin. — Agora, imagino que o tenha mudado... pelo menos com relação ao local em que passará a Páscoa. O que penso é o seguinte: uma or­dem com o selo real foi enviada a todas as praias do leste de Derewater, exigindo que todos os navios e barcos passíveis de comando estejam em Trant no décimo quinto dia de março.

Houve silêncio no salão novamente. Phaedra podia ou­vir o crepitar das tochas presas à parede. Na ponta da mesa, Hob parecia pensativo. Seus olhos repousavam na pequena arca sob a mão de Ulfin. Para além das janelas era quase noite. A chuva caía leve sobre a soleira.

Ela estremeceu, sentindo um frio súbito.

... que você tenha comungado em segredo com inimi­gos de sua casa... que até receber sua carta ele não sabia se estava viva ou morta... filha de uma amada mãe, que agora está morta, irmã de adorados irmãos, que estão mortos, e que você deverá estar morta para ele deste dia em diante...

Nas horas de insônia, infelicidade e fúria, dissera a si mesma que não poderia estar morta para ele, se ele se dispunha a atravessar o lago para levá-la de volta pela força. Ele nunca falava a sério quando pronunciava suas palavras com ira. Se estivesse em Trant, poderia encará-lo e vencer Poderia dizer a ele que Tarceny somente era um inimigo se ele assim desejasse fazê-lo. Poderia fazê-lo entender que esse era o único caminho para ela, e assim seria perdoada. Mas por estar ali, não podia fazer nada.

Mas havia pouco conforto nesse pensamento. A verda­de era que fugira por ser impotente e nem sequer conside­rara o que ele pensaria ou diria. Fazia muito tempo que seu pai não ficava furioso olhando em seus olhos. Parte dela esquecera como era enfrentá-lo nesse estado de fúria. Escritas num discurso relatado, por um homem que tenta­va desesperadamente suavizar o que seu senhor prova­velmente havia gritado para que ele escrevesse, as pala­vras a feriram de um jeito para o qual simplesmente não estivera preparada.

E ali estava o pós-escrito desesperado e frenético de Joliper.

... Escrito neste vigésimo sexto dia de janeiro em Trant. Idolatrada e querida senhora, digo que ele está obsti­nado, porque se enfurece e chora como nunca vi an­tes. Devemos empunhar armas e praticar todos os dias, e aqueles que assim não fazem são espancados até lhe obedecerem. Na verdade, eu lhe desejo boa sorte, senhora, mas haverá um rio de sangue antes que esta história se encerre.

Eles a tomariam de Ulfin!

A mão direita dele ainda repousava sobre seu braço. Ela usou a própria mão direita para segurá-la com força. Como se encorajado por seu toque, ele voltou a falar.

— Saberão, meus amigos, que desde a morte de meu pai não demos ao rei causa alguma para nos odiar. No en­tanto, julgo que ele pensará que também não tem motivo para nos amar. Já que nunca dançamos ao ritmo de sua cor­te nem fizemos nossas as suas batalhas. De qualquer maneira, não desejo esperar até que o rei e os milordes Baldwin, Bay e Develin estejam preparados para me enfrentar. Se as­sim agir, não duvido de que teremos de ser duros para pôr um ponto final nisso, e que os termos de qualquer contenda serão realmente difíceis. Assim... a chave para a preparação dos cavaleiros é Trant. Lá eles reunirão seus barcos. Lá con­vocarão todos os cavaleiros que já não estejam com eles. Lá o rei chegará, no décimo quinto dia de março...

O rei, que era a Fonte da Lei. Ele também estava con­tra ela.

— ... se não o detivermos. Então, pretendo tomar Trant. Com um castelo real em nossas mãos, acredito que podere­mos ouvir melhores termos.

Era como se ela estivesse olhando por uma janela para dentro do salão, vendo-o de fora para dentro enquanto ele falava. Sua mente estava em algum outro lugar, enquanto suas palavras soavam calmas, naturais, encaixando-se no discurso de um mundo que havia enlouquecido. Ela viu al­guns dos cavaleiros assentindo, como se desafiar o rei à guerra fosse algo em que nunca houvessem pensado até esse momento, embora fosse certo que a idéia já havia pas­sado por suas cabeças muitas vezes.

Outros franziam a testa. Tomar Trant? Assim, de repente?

—O golpe deve ser certeiro — falou Orcrim de seu as­sento à esquerda de Ulfin. — Melhor ainda se esperarmos até que muitos desses barcos estejam ali reunidos, de forma que possamos tomá-los para nosso próprio uso. E isso deve ser feito antes da chegada do rei.

—Realmente — concordou Ulfin. — Eu não seria conhecido no reino como alguém que ataca seu senhor antes de um desafio ser lançado.

Ulfin!

Era sua própria voz. Ela se recuperou.


  • Milorde. Se me ama... ninguém em Trant deve ser morto por minha causa.

  • Sei por que diz isso — respondeu ele. — Embora es­teja pedindo demais. Na guerra nada pode ser certo ou se­guro. Mas — ele prosseguiu olhando em volta — também não desejo derramar em vão uma só gota do sangue da casa do homem a quem chamaria de pai. Portanto, devemos pla­nejar nosso ataque de forma que ninguém na casa tenha uma só chance de puxar a espada.

Agora, todos estavam chocados.

  • E impossível! — alguém protestou.

  • Teríamos de manter alguém lá dentro.

  • Não é impossível — Ulfin argumentou. — Difícil, sim. Difícil, mas quem me diz que o que pretendo fazer é impossível?

Houve outro silêncio, desta vez mais denso. Ninguém respondeu.

— Muito bem, então. — Ele olhou para Phaedra. — Há alguma forma de penetrarmos as muralhas de Trant sem sermos notados? Um túnel, talvez?

Mais tarde, quando refletiu sobre esse momento, Phaedra lembrou-se do rosto olhando para ela à luz das tochas, de seu coração batendo forte no peito, e da necessidade deses­perada de ajudá-lo a persuadir os homens apavorados que lotavam aquela sala do que devia ser feito.


  • Não há nenhum túnel — ela disse. — Nenhum cano ou respiradouro grande o bastante para permitir a passa­gem de um homem.

  • Como escapou do castelo, então?

  • Pela porta do fundo. Fica na parede ao lado do lago, sob a torre noroeste. Ela se abre para o fosso e, por dentro, conduz ao pátio. Ela é mantida trancada por dentro. Não poderá arrombá-la sem atrair a atenção da guarda. Mas... - Ela hesitou.

— Mas?

Todos olhavam para ela. Havia algo nela que não dese­java prosseguir. Ela se ouviu falar:



  • Não fui a única a escapar do castelo naquela noite.

  • Lackmere?

Ela assentiu.

  • Ele mantinha cinzéis em seus aposentos e alguns co­bertores. Quando o vi um dia antes, ele examinava a parede norte e como ela se inclinava para fora na base, como a alve­naria estava rachada. Creio que ele saiu pela janela de seus aposentos, que ficava no topo daquela torre, e desceu pela parede forçando os cinzéis entre as pedras para utilizá-los como degraus improvisados, apoios para as mãos e os pés.

  • Desesperado, não?

  • Ele não estava disposto a pôr sua chance de fuga em risco. E não há vigilância na muralha em tempos de paz. Pode ser um caminho para você.

Os homens não gostaram daquilo.

  • Teremos de manter dois homens sobre a muralha, equipados para a guerra!

  • Não — Ulfin protestou. — Apenas um para abrir a porta do fundo. E será mais fácil escalar a parede do que deve ter sido descer por ela.

  • É verdade — disse alguém. — Esse Lackmere devia estar maluco.

—Ou ele estava, ou nós estamos. Nunca ouvi falar de um lugar como Trant sendo dominado dessa maneira!

—Chega. — Ulfin impacientou-se. — Se um homem conseguiu sair, um homem consegue entrar. De uma forma ou de outra, devemos chegar à porta do fundo sem sermos vistos, e chegaremos. Agora, milady, uma vez aberta a porta... Onde ficam alojados os guardas e guerreiros?

Ela se debruçou sobre a mesa, sem encarar ninguém, e começou a traçar com os dedos os contornos de sua casa na madeira escura. O ar que a cercava era denso como se ante­cedesse uma tempestade.

Uma hora mais tarde, a reunião terminou. Ninguém fa­lava. Os cavaleiros deixavam a sala com ar sério. Phaedra se mantinha ao lado do marido, ouvindo o ruído dos pés descendo a escada além da porta da capela, onde alguém deve ter dito alguma coisa para provocar aquela gargalha­da amarga dos outros. Finalmente, os passos desaparece­ram abafados pelo som suave da chuva caindo lá fora, uma chuva insuficiente para encher os tanques ou ajudar em al­guma coisa, mas suficiente para levantar o cheiro de poeira da terra. Ulfrin reclinou-se em sua cadeira, pensativo. De­vagar, ela se acomodou no banco e foi se debruçando sobre o apoio de braço da cadeira, até encostar a cabeça em seu ombro. Ele a envolveu com um braço.



  • São bons lutadores, mas limitados de pensamento — disse. — Só conseguem raciocinar de certas formas preestabelecidas. Phaedra, lamento que ele tenha escolhido esse caminho. Não era essa minha intenção. No entanto, com alguma sorte, ainda poderemos rir de tudo isso depois da conclusão do embate.

  • Eles o respeitam.

Uma vez anunciada a decisão de Ulfin, ninguém a dis­cutira. Não haviam questionado o rito do casamento, ou a sabedoria de lançar Tarceny num confronto armado com o rei. Não haviam nem mesmo questionado Ulfin sobre como ele obtivera as notícias sobre os barcos do rei, ou até que ponto esses dados eram confiáveis. Talvez julgassem saber. Phaedra acreditava poder imaginar, também.

Quem me diz que o que pretendo fazer é impossível?

— Quando planeja partir para Jent?


Ela não queria pensar nisso.

—Fico me perguntando se deve mesmo ir — ele continuou. — Não posso acompanhá-la agora. Há muito o que fazer por aqui.

—Deve haver um sacerdote no castelo, Ulfin. E toda essa situação torna essa necessidade ainda mais urgente.

— Por que diz isso?

Seu pai havia atraído os sacerdotes e monges da Fron­teira até restarem bem poucos deles, um punhado de fracos que nunca se opunham ao que ele determinava. Assim, Ulfin jamais soubera como era viver sob as bênçãos da Igreja. Tal­vez por isso não demonstrasse entender como era visto no reino, como era criticado por não ter restaurado o que o pai havia destruído. Mas ele mesmo havia mostrado como os sacerdotes também eram atores na encenação da justiça.

Que lei poderia haver ali, se suas terras não eram aben­çoadas? Nada podia ser feito na Fronteira que não pudes­se ser desfeito. Até um rito de casamento, especialmente um rito apressado como havia sido o deles, podia ser de­clarado nulo se o bispo e o rei assim decidissem. Então, seria levada dali, para longe dele, e ficaria decretado que o que haviam feito não passara de malícia, erro grave e pe­cado abominável.

Mas ele não estava preparado para essa conversa. Nem ela. Se discutissem agora, ambos estariam absolutamente sozinhos.

—O julgamento em Segne será contra nós — Phaedra resumiu. — E nos julgarão sem pensar...

—O tempo é muito curto. Se houver luta, você não poderá ter segurança viajando fora da Fronteira. Jent também estará mergulhada na atribulação, repleta de peregrinos para a Semana Santa.

—Deve haver um homem em quem podemos confiar, Ulfin; e isso significa que devemos escolher esse homem. Não podemos... não podemos mandar buscar o sacerdote do outeiro? Ele certamente...

Ulfin já havia dito que tal coisa era impossível. Dessa vez ele nem pareceu tê-la ouvido.

— Talvez isso ajude. Eles podem tentar alegar que eu a trouxe para cá pela força, e assim terão maior facilidade para dissolver nossa união antes de casá-la com Septimus. Será bom, portanto, que você seja vista além da Fronteira sozi­nha, sem nenhuma vigilância. E sua viagem também pode ocultar nossas intenções. No entanto, não deve se arriscar a ser capturada. Previna-os o mínimo possível sobre sua chegada. E terá de estar de volta à Fronteira no décimo segundo dia do próximo mês. Não será seguro estender essa aventura.

Ulfin ainda a abraçava, e ela mantinha a cabeça em seu ombro. Por um momento, nenhum dos dois disse mais nada. Ela podia ouvir e sentir seu coração pulsando, batendo con­tra seu ouvido.

Era seu mundo. Todo o mundo estava ali, pelo menos para ela. Nos primeiros dias de casamento, havia pensado que não poderia estar mais apaixonada. Havia sido espan­toso como seus sentimentos, que foram criando raízes mais e mais profundas ao longo de todos os anos em que os dois se encontraram em seus sonhos, emergiram tão depressa e com tanta força. Pelo Cálice haviam construído um laço entre eles que, Phaedra pensava, era mais forte que tudo no mun­do. Agora sabia que era possível amar ainda mais profun­damente. Amava-o ainda mais quando pensava que podia perdê-lo.

Fuligem antiga, deslocada pela chuva, correu pela cha­miné com um ruído característico. Da parede, o retrato do homem jovem os observava com seu olhar fixo. A moldura da tela era decorada com uma grande serpente retorcida, uma imagem que despertava em sua mente a lembrança do anel de dragão que agora levava em uma corrente presa ao seu pescoço.

—Aquele é Paigan?

— Sim.

—Como ele morreu, Ulfin?



Ele suspirou.

—Devo dizer-lhe a verdade, Phaedra, porque jurei mi­nha honestidade. E assim você poderá entender melhor por que os sacerdotes não nos amam e por que os homens em­punham armas quando ouvem o nome de Tarceny. A ver­dade é que meu próprio pai o matou, aqui mesmo, nesta sala. E sua morte não tardou a ser vingada.



VII

As Janelas de Jent

Em um opulento cômodo de seu palácio, um aposento iluminado por janelas muito altas, o bispo estava sen­tado como um verme no coração de uma maçã. As paredes eram cobertas por cortinas claras, douradas com um suave toque rosado, mas suas vestes eram simples como as de um noviço. Em uma pequena mesa a seu lado viam-se os restos de uma refeição composta de pão e água. Ele devia ter co­mido antes do amanhecer, e não tocaria em nenhum outro alimento antes do anoitecer. Não se banhara na última se­mana nem usara óleos ou perfumes. Seu cheiro era o de um simples camponês de qualquer vilarejo agrícola.

Esses eram os dias de Quaresma; o tempo que antecede a Páscoa, quando a Igreja exige penitência. Mesmo esse bis­po os respeitava com o que comia e vestia; dedicava-se dia após dia àqueles que iam a Jent nessa época do ano para suplicar por perdão. E ele não estava nada satisfeito por ter de interromper seus deveres.

Com o rosto vermelho e os olhos salientes, ele se incli­nou para frente em seu trono.

— Soube que insistiu muito em falar comigo.

Ele não a cumprimentava nem fazia uso de títulos que denotassem respeito ou admiração. Não havia como deixar de notar sua ira.

Do outro lado da porta atrás dela, Phaedra podia ouvir interminável multidão de penitentes, alguns em pé, ou­tros sentados na escada e no chão do palácio do bispo. Os pacientes peregrinos a viram forçar passagem e usar sua posição para anular as objeções dos sacerdotes do bispo e dos guardas que controlavam a porta. Eles podiam esperar mais de um dia por sua vez para entrar em seus aposentos e falar com ele sobre os erros que haviam cometido. Mas ela tinha pressa e não hesitara em se impor diante de milhares de pares de olhos.

Também tinha consciência das sedas e das jóias com que se cobrira naquela manhã, uma escolha impensada, claro.


  • Vossa Excelência deve ter ouvido que desde nosso último encontro tomei o nome de Tarceny — ela começou.

  • Eu soube. Devo confessar que tal nome não está en­tre aqueles que amo. Deseja minha bênção para o casamen­to ou prefere que o anule?

Anular o casamento? Não! Como ele podia sugerir tal coisa?

  • Se... Se Vossa Excelência puder fazer o favor de nos abençoar — ela pediu cuidadosa —, seremos muito gratos. Vim porque descobri que minha casa não tem um sacerdote e gostaria de implorar que...

  • Um sacerdote? Francamente! Eu estava mesmo pen­sando em perguntar que sacerdote teve a ousadia de reali­zar esse casamento.

Surpresa novamente, Phaedra não respondeu. O reli­gioso devia ter percebido por sua expressão que ela desconhecia o nome daquele que a unira a Ulfin.

—De que igreja, que ordem? — ele a pressionou.

— Ele é um andarilho sagrado conhecido por meu ma­rido.

—Um mendigo!

—Assim como Tuchred Mártir, senhor.

—E como qualquer velhaco de educação medíocre que reclama a batina só para escapar da forca, caso seja surpreen­dido com os bens de outro homem em seu poder! E a bên­ção de seu pai... Também a teve, suponho? Ou mandou pedi-la posteriormente, postando-se diante do homem que a criou e guardou sua vida desde sempre, revelando a ele o que havia feito?

Phaedra não queria falar sobre o pai. Estava tentando lembrar se o sacerdote usava uma insígnia de uma das gran­des ordens. A Corda com o Nó, a Lanterna, o Cajado... Cer­tamente havia algo que o identificasse, mas ela não notara. Seus brincos tilintaram pesados quando ela balançou a ca­beça, e as sedas de suas vestes pareciam sussurrar. Maldi­tas fossem! E maldito fosse ele, também, com toda aquela humildade nas roupas e uma atitude tão arrogante!

O bispo ergueu as sobrancelhas, esperando por uma res­posta. Uma resposta que ela não podia dar. Phaedra quase saiu da sala. Mas aquele lugar não era Trant, e ela não era mais uma criança.



  • Vossa Excelência, vim em boa-fé, certa de que ficaria satisfeito com meu propósito. Se deseja falar sobre meu ca­samento, ouvirei com alegria. Mas...

  • Ouça, então. Não aceito que uma filha se case sem o consentimento de seu pai ou que um pai seja tão castigado depois de anos de zelo e cuidados. Também não aceito que a casa real seja desafiada ou que o reino seja levado nova­mente à beira de uma guerra. Não brinco com casamentos. Em pouco tempo, um príncipe da Igreja, provavelmente eu mesmo, será chamado para julgar o seu matrimônio. Quan­do esse dia chegar, será bom para você poder apresentar esse mendigo e melhor ainda que ele possa confirmar o que está dizendo aqui. O que consegue dizer sobre ele até esse momento não é nada tranqüilizador.

O silêncio invadiu a sala depois dessas palavras duras. Do lado de fora, os peregrinos esperavam e falavam. O mais próxirno da porta devia ter ouvido tudo que o bispo dissera.

—Vossa Excelência... Peço sua ajuda para encontrar um sacerdote para meu povo em Tarceny, um povo que não teve as bênçãos da igreja nesses últimos doze anos.

—Seu povo. E é para seu povo que me pede tal coisa?

Era difícil sustentar seu olhar penetrante.

— Todas as almas de minha casa necessitam de bên­çãos, senhor. Não aprendi de outra maneira.

Ele estava tentando intimidá-la com os olhos. Phaedra esperou.

O bispo levantou-se e começou a andar de um lado para o outro na frente do trono. Ainda estava zangado, mais ain­da do que quando ela entrara. Era possível ver o emaranha­do de veias em suas faces vermelhas.


  • Bênçãos — ele repetiu. — Na Quaresma, minhas bên­çãos são para aqueles que vêm a mim em penitência.

  • De fato, isso me causa pesar, senhor, pois não deseja­va ter interrompido seus assuntos sagrados. — Pelo menos por isso podia se desculpar (como se fosse capaz de esperar ali até o fim da Semana Santa, enquanto ele recebia um a um milhares de peregrinos!). Mas, se ele desejava ouvi-la lamentar ou pedir desculpas por seu casamento, teria de es­perar por toda eternidade. — Na verdade — Phaedra pros­seguiu —, disponho de pouco tempo e por isso devo deixar Jent ainda amanhã, bem cedo. No entanto, pensei... — Ela o encarou. — Eu e meu marido pensamos que nossa casa deveria ter alguém rezando por ela, mesmo que fosse apenas um homem de Deus, e que essa era a primeira e mais urgente questão a ser tratada por nós quando retornássemos a Tarceny.

Ele havia se virado e olhava por uma das imensas janelas que deixavam entrar luz no aposento. Era uma janela imensa, feita por muitos painéis e tão valiosa quanto toda a mobília e a decoração da sala. Não saberia dizer para que ele olhava tão atentamente, mas devia ser uma bela vista da cidade e das pessoas que chegavam em procissão ao seu palácio. Suas mãos estavam entrelaçadas às costas. Um polegar gorducho movia-se lentamente em torno do outro. Ele estava pensando. Phaedra não conseguia ver seu rosto.

Certamente, a essa altura ele já devia ser capaz de en­xergar além da ira e identificar onde estavam seus interesses. Mesmo que odiasse Tarceny, ele tinha dúzias de motivos para desejar reconstruir a Igreja nessa casa. Seria descortês, e até perigoso, recusar seu pedido e expulsar a esposa de seu mais poderoso vizinho sem nenhuma cerimônia. Aos dezessete anos, ela julgava conhecer os sinuosos caminhos do poder.



  • Bem — ele falou finalmente —, seria bom se os olhos dos Anjos estivessem sobre Tarceny outra vez. Vou pensar nisso. Mas, no presente, não tenho o habitual batalhão de idiotas ordenados suplicando por um meio de vida.

  • Não tem, Vossa Excelência? Bem, sua declaração mui­to me surpreende. — Os bispos estavam sempre tendo de lidar com as exigências de seus sacerdotes para que os colo­cassem em algum lugar em que pudessem viver.

  • Continue me pressionando, e posso surpreendê-la ainda mais. Já disse que vou pensar nisso. Agora chega. Ha um assunto no qual talvez possa me ajudar.

  • Sim, Vossa Excelência?

  • Esse maldito vento norte. Está soprando há dias, e pou­cos capitães de naus zarpam com esse tempo inclemente.

  • De fato, Vossa Excelência. — Ele queria que ela mudasse o clima?

  • Muitos cidadãos de boa índole vieram a esta cidade movidos pela fé e não conseguem retornar a suas casas. Um deles me preocupa mais do que todos. — Ele a chamou para que fosse se colocar a seu lado na janela. — Lá embaixo...

Da janela se podiam ver todos os obeliscos de Jent. À direita ficava o antigo santuário de St. Tuchred Mártir, com sua torre branca e seu telhado pontiagudo. Ao lado dele, erguia-se a nova catedral, uma maciça forma cinzenta seis vezes maior do que o antigo santuário. Estava sendo cons­truído havia cerca de vinte anos, e mais uma vida inteira transcorreria antes que estivesse pronto. Multidões de pe­regrinos da Quaresma se reuniam em suas portas. A praça diante do lugar estava repleta deles, com suas túnicas, seus cajados e suas vozes estridentes.

O bispo apontava para o norte da praça, onde o piso descia bruscamente numa encosta íngreme. Havia ali uma balaustrada baixa de pedra de onde se podiam ver nitida­mente o lago e a cidade baixa. Uma figura solitária ocupava o balcão. Uma mulher num vestido claro.



  • Ela esteve em minha presença há três dias. Desde então, encaminha-se à praça todas as manhãs, onde espera por um meio de voltar para casa, perto de Watermane. Como disse que planeja partir amanhã...

  • Deseja que eu a leve comigo para o norte?

A impaciência devia transparecer em sua voz, porque o bispo a fitou novamente com aquela expressão carrancuda.

—Sempre pensei que fosse costume dos mais fortes permitir que outras pessoas se juntem a eles a fim de ter segurança na estrada — ele disse. — Lembro-me de que seu pai, e a filha dele, porque ele ainda tinha uma filha, aceitaram minha companhia na estrada de Tuscolo há dois anos. Não desconfie de mim. Não vou lhe dar uma leprosa ou uma dona de bordel por acompanhante, embora conheça muitas delas que poderiam lhe fazer grande bem, caso as conhecesse. Essa mulher é esposa de um cavaleiro, mas seu grupo é pequeno demais para que se arrisque a viajar por terra sem mais companhia.

Phaedra estava prestes a lhe perguntar por que, nesse caso, a mulher não se juntava a uma das inúmeras carava­nas de viajantes que deixavam Jent todos os dias. Mas ele ergueu um dedo para silenciá-la.

— Seja generosa com meus penitentes, criança. Um dia ainda poderá ser um deles.

Penitência, casamento... Não havia nada a lucrar na re­petição dessa parte da conversa com o bispo. Por isso ela inclinou a cabeça com cortesia e elegância.

— Já que me pede, Vossa Excelência... Estarei esperan­do pela resposta para o meu pedido. E oro para que seja breve.

O bispo resmungou alguma coisa e virou a cabeça. Uma porta lateral se abriu. O secretário do bispo estava ali. Foi com gratidão que Phaedra deixou o opulento salão sem ter de beijar a mão do religioso, que preferiu ignorá-la a despe­dir-se apropriadamente.

— Venha comigo, milady — o secretário pediu, fechan­do a porta atrás dela.

Estavam em um corredor escuro e deserto que devia ser­vir de ligação entre os aposentos dos criados e o salão em que o bispo recebia seus penitentes. A comitiva com que chegara ao palácio, o escudeiro Vermian, Orani e os homens de armas, ainda estava acampada em algum lugar em meio à multidão de peregrinos na grande escada do outro lado da imponente construção.


  • Sua Excelência deseja que eu ofereça minha compa­nhia à esposa de um cavaleiro. Ela deverá vir comigo ama­nhã, quando eu partir.

  • De fato, milady. Refere-se a lady Evalia diManey, de Chatterfall. Devemos ser rápidos, porque ela não pode se demorar...

Ela o seguiu apressada, percorrendo a passagem que levava a uma escada escondida.

O homem estivera ouvindo! O bispo devia tê-lo coloca­do atrás da porta de forma a escutar cada palavra daquela entrevista. Sentia-se humilhada. Podia sentir o rosto corado e estava feliz por esse rubor não poder ser visto nas passa­gens escuras. Phaedra seguiu o secretário com toda a pres­sa de que era capaz, mas sem correr e de cabeça erguida. O homem a levou à varanda principal, onde havia um grande número de peregrinos, e lá ele se deteve na porta. Procura­va por alguém na praça, certamente a mulher que o bispo havia apontado da janela do salão.

— Uma coisa — ela apontou para o peito dele, determi­nada e séria. — Enviei uma mensagem anunciando minha chegada. Solicitei uma audiência com o bispo esta manhã e pedi também para encontrar candidatos depois disso. Sei que minha mensagem chegou ao palácio antes de ontem, mas creio que Sua Excelência não a recebeu. Ele se mostrou surpreso com minha presença. E nenhum preparativo foi feito para me receber no palácio.

O secretário a olhou de cima. Ele era um jovem sacerdo­te, com brilhantes cabelos claros e o pomo de Adão mais proeminente que ela já vira. Era possível perceber por sua atitude que ele a menosprezava, que não a considerava dig­na de melhor recepção ou da atenção do bispo, e que a censurava por ter passado na frente de todos aqueles fiéis miseráveis.

Milady, qualquer mensagem de importância que che­gue às nossas mãos é levada a Sua Excelência. No entanto, não posso discutir o que ele pensa de sua presença, exceto o que ele já lhe disse em audiência.

—Muito bem, pois custo a acreditar que Sua Excelência tenha recebido o aviso de minha chegada. E prefiro que não se incomode em me acompanhar. Deve estar muito ocupado; não creio que estará ajudando Sua Excelência se perder outras mensagens enquanto estiver me servindo. Concorda comigo?

Então ela saiu sem manto ou acompanhante para en­frentar o forte vento do norte.

Era uma vitória barata, especialmente porque o derrota­do era alguém incapacitado de responder. Mas sentia que alguém no palácio do bispo devia saber o que ela pensava sobre a recepção que tivera.

Phaedra atravessou o pátio e se viu sozinha. Avançava por entre a multidão malcheirosa e cansada reunida na gran­de praça entre o palácio e os templos sagrados. Ninguém ali parecia conhecê-la. Não voltara a ver sua criada ou os guardas desde que os deixara na ante-sala do bispo. Não havia ninguém a chamar para ajudá-la a abrir caminho, nin­guém para afastar a multidão e auxiliá-la a passar pelo mar de potes, panelas e canecas que cobria o chão. Podia sentir as grandes janelas do palácio atrás dela. Sua Excelência ain­da a seguia com os olhos por trás das cortinas, observando-a enquanto se aproximava da mulher? Ele se importava com seu destino? Não queria pensar que a missão de caridade havia sido apenas um pretexto para pôr fim à entrevista. Ele estivera tão zangado! Por quê? Por causa do velho ódio contra Tarceny? Porque, graças à incompetência de seus se­cretários, havia sido forçado a interromper as visitas dos penitentes? Ou ele realmente se aborrecera com seu casa­mento? Temia ser surpreendido pela tempestade que o se­guiria? Estaria sua lealdade depositada em Trant, com seu pai, e não em Tarceny, com ela? Era isso que o afligia?

Phaedra não olhou para trás. Se ele a estivesse observando, preferia não deixar transparecer que tinha consciência disso. Se não era observada por ninguém, preferia não saber. Viajara durante uma semana para estar ali e discutira com sacerdotes pelo que havia parecido uma eternidade. Sua audiência não podia ter sido encerrada tão depressa, e com tão poucos resultados! Phaedra desviou-se de um grupo de peregrinos canto­res e descobriu que a balaustrada ao final da praça estava vazia.

Toda Jent conspirava contra ela? A mulher que vira um momento antes da janela do bispo havia desaparecido como fumaça. Recusara a companhia do secretário do bispo e es­tava separada de sua comitiva. Não havia ninguém ali para ajudá-la. E ainda sentia as janelas do palácio às suas costas, assistindo aos seus movimentos.

Frustrada, ela olhou para o norte, para além da cidade baixa.

O vento soprava contra ela vindo de Derewater, encur­ralando os barcos no porto, lavando as paredes caiadas e os telhados vermelhos, fazendo balançar tudo que se opuses­se à sua força devastadora. A superfície do lago estava crispada e escura. O dia estava mais frio do que qualquer outro nesse novo ano.

Um pouco à direita havia uma escada, degraus que con­duziam a alguma rua estreita na base da colina. Ela se apro­ximou do topo da escada e olhou para baixo. Os degraus formavam uma trilha sinuosa pela face escarpada da coli­na. Havia uma mulher num vestido claro, sozinha, descendo a escada com cautela e sem pressa. Seria aquela?

— Lady diManey?

A mulher continuou em seu caminho, mas parou quando Phaedra a chamou pela segunda vez.

—Sim... sim, esse é meu nome — respondeu, como se emergisse de um mar de pensamentos sombrios.

—Sua Excelência me disse que espera por uma chance de voltar ao norte. Planejo partir amanhã com uma comitiva. Gostaria de vir comigo? Não teremos de nos desviar de nosso caminho.

A mulher olhou para o ar diante dela. Não parecia sur­presa com a oferta, mas balançou a cabeça sem encará-la.

— É uma boa alma, milady, e Sua Excelência teve a gene­rosidade de enviá-la. Mas Sua Excelência esquece que fui banida das estradas do reino, e devo viajar por água, ou não viajar de nenhuma maneira.

Banida? Anjos do céu, quem era essa? Ao mesmo tempo, Phaedra compreendeu por que ela havia sido solicitada a oferecer companhia a essa mulher.

— Desculpe-me, milady, por não ter sido mais clara. Sou a condessa da Fronteira, de Tarceny. Viajarei para oes­te do lago, atravessando a Fronteira. A Fronteira tem leis próprias. E as estradas ali não pertencem ao reino, mas ao meu marido.

Dessa vez a mulher a encarou. Phaedra viu um rosto pálido e triangular com olhos grandes e um nariz pronun­ciado. Havia algo de familiar naquele rosto, como se já o houvesse visto nesse mesmo ângulo e à mesma distância antes. Uma lembrança tentava emergir da escuridão do fun­do de sua mente.

Alguém com medo...

— Soube que ele se havia casado — disse a mulher. — Então foi com você.

Ele e você. Quem era essa mulher?

Lady diManey também a estudava como se tentasse agarrar lembranças esquivas.



  • Sua Excelência revelou por que fui banida, milady?

  • Não.

Não. Mas agora ele nem precisaria.

— Eu... assisti ao seu julgamento em Tuscolo, dois anos atrás. Estava na galeria com algumas amigas...

Anjos! O bispo a encarregara de acompanhar uma bruxa!

—Foi lá que a vi? Seu rosto voltado para baixo... Por alguma razão, lembro-me bem disso.

Ela subia a escada para se aproximar de Phaedra, observando-a enquanto falava. Havia uma expressão distante em seus olhos, como se tivesse motivos para duvidar da boa-fé de sua oferta. De repente, Phaedra esperou que ela recusas­se o convite, embora soubesse que uma negativa nessas cir­cunstâncias seria algo extraordinário. Uma esposa de cava­leiro ansiosa para viajar de volta para casa agarraria qual­quer oportunidade que surgisse, especialmente se essa opor­tunidade viesse por meio de uma grande dama.

A mulher estava diante dela agora. Era alta e esguia. Phaedra, que alguns minutos antes enfrentara com valentia um dos homens mais poderosos de todo o reino, sentiu-se tremer diante dessa criatura.

O que pretendia o bispo com essa atitude inusitada?


  • Minha comitiva tem apenas três pessoas, contando comigo — Lady diManey explicou. — Mas viemos de barco e não temos montaria ou equipamento apropriado...

  • Eu... posso providenciar tudo isso...

O custo seria irrisório. Mas o tempo... Dispunha de tão pouco tempo!

E a mulher era uma bruxa!

Lady diManey tomou uma decisão.

—Nesse caso, serei eternamente grata, milady, se real­mente aceitar-me em seu grupo.

Ela parecia saber que Phaedra já se arrependia da oferta que fizera. E era isso o que mais a incomodava.

—Tarceny sente-se honrada em poder escoltá-la, milady disse, colocando espantosa força na palavra Tarceny, como se ela servisse de escudo. — Irá comigo até minha casa e de lá terá um acompanhante para conduzi-la a sua casa. Prometo.


* * *

Nos aposentos enfumaçados e apertados que haviam conseguido na hospedaria, Phaedra sentou-se cansada em uma cadeira de madeira perto do fogo.

— Vermian, acuda-me, por favor.

O escudeiro era um dos jovens e experientes guerreiros que Ulfin mantinha em Tarceny, homens que esperavam por uma chance de serem sagrados cavaleiros pelas mãos do poderoso senhor. Queriam também uma casa que os sustentasse e uma família. Ele tinha um jeito sorridente e agradável com aqueles cabelos de corte arredondado e as sobrancelhas claras quase invisíveis na pele pálida. Ulfin devia apreciá-lo, ou não o teria escolhido como acompanhan­te de Phaedra nesse momento de dificuldade, quando os cavaleiros mais velhos e experientes não podiam ser dis­pensados de seus postos. Mas a cidade não era seu elemento. Por isso, ele mantinha a testa franzida e os lábios apertados.



  • Montarias, milady?

  • E equipamento, e uma liteira para lady diManey. Qua­tro cavalos e uma liteira. Quero tudo pronto hoje à noite.

  • Onde...?

  • Como posso saber? Pergunte ao dono da hospedaria.

  • Perguntarei, milady, claro. Mas metade da cidade esta tentando viajar. As montarias são escassas.

Sim, sabia disso. Ele não estava apenas sendo estúpido. Mas Phaedra sentia-se exausta, desapontada e chocada. E ele não tinha o direito de devolver problemas que ela puse­ra em suas mãos para serem solucionados.

— Vermian, vai ser mais fácil aturarmos um ao outro se você... — Oh, por Umbriel! — Dois, então, para seus acompanhantes — resmungou. — Quatro, se for possível, mas dois, no mínimo, e hoje à noite, a qualquer preço. A mulher pode usar minha liteira, se for o caso. Eu... seguirei cavalgando Thunder — decidiu, pensando no grande garanhão preto que Ulfin lhe havia dado e que passara boa parte da jornada até Jent cavalgando sozinho atrás da liteira.

—Sim, milady.

Uma grande dama, cavalgando durante uma semana? Ele não gostava disso. Mas sabia que não devia discutir. Por isso, inclinou-se e partiu, as malhas de sua roupa tilintando no ritmo de seus passos.

A velha Orani não sabia que devia permanecer calada. Parada ao lado da porta, com seu rosto fino e os ombros arredondados, ela olhava séria para sua senhora.


  • Vai cavalgar durante todo o caminho, senhora?

  • Temos de partir amanhã. E devemos levar essa mu­lher conosco.

— Por que ela vai viajar conosco, senhora?
Por quê? Grande Umbriel!

  • Porque eu decidi que vai. Agora, por favor, ajude-me. Quero me livrar destas sedas tolas. Quero alguma coisa para comer. E, depois, quero papel e tinta.

  • Sim, senhora. Primeiro, tire a roupa, depois poderá comer.

Essa era uma atitude típica da mulher que a servia. Se ela não sabia como cumprir uma ordem ou seguir uma ins­trução, fingia não ouvi-la.

— E tinta e papel, Orani. Desejo escrever para meu marido.

Havia planejado passar a tarde entrevistando candidatos para o posto que ofereceria. Mas agora isso não aconteceria mais. E depois da experiência daquela manhã, não queria perambular por entre os impressionantes edifícios da cidade do bispo, como poderia ter feito em outra ocasião. Todo o poder de Tarceny parecia ser inútil ali. Permaneceria na hospedaria e escreveria a carta. Um de seus cavaleiros teria de ser despachado com ela antes do amanhecer. Ulfin desejaria saber como Jent recebera friamente um pedido de sua casa. E escrever para ele seria um conforto, quando nenhum outro conforto existia.

Orani olhava para ela, seu rosto transmitindo confusão

— Peça papel e tinta ao dono da hospedaria — disse Phaedra.

Céus, por que ela tinha de resolver todos os problemas que apareciam?

Sozinha, esperando por sua refeição, ela andava pelo quarto, inquieta.

O que o bispo sabia sobre aquela mulher? Sabia ao menos que ela era uma bruxa? Certamente que sim. E sabia que a cortesia exigia que Phaedra a deixasse viajar ao seu lado, conversasse com ela e olhasse em seus olhos por dias seguidos. O que a mulher faria? O que não faria? Era exata­mente como se ele a houvesse solicitado para aceitar em sua comitiva alguém com uma praga secreta que os olhos não podiam ver.

Phaedra lembrou-se do jeito casual com que o bispo olha­ra pela janela. Nada que ocorresse em Jent e envolvesse a lady de Tarceny seria casual dessa vez. Oh, ele sabia quem, ou o que era diManey. Sabia que ela devia estar bem longe dali. Podia até tê-la instruído nesse sentido, exigindo sua partida. Unir as duas era seu objetivo desde o início.

Por quê? Para retardar sua partida? O bispo sabia que a guerra se aproximava. Estaria colocando essa mulher em seu caminho numa tentativa de manter lady de Tarceny em Jent por mais um dia, de forma que pudesse melhor arran­jar sua captura? Mas isso não funcionaria. De um jeito ou de outro, partiria ao amanhecer, com todos de seu grupo montados e equipados, de forma que pudesse estar bem longe dali e de qualquer tentativa que fizessem de alcançá-la quando a batalha começasse. E teria havido outras maneiras, soluções muito melhores, para retê-la ali. Prometer um campo cheio de sacerdotes para que ela entrevistasse e selecio­nasse um deles no período de uma semana, por exemplo.

Seria isso para difamá-la, então, para mostrar ao mun­do que Tarceny oferecera ajuda a uma feiticeira? Mas ele mesmo havia recebido essa mulher. Não poderia difamar Tarceny sem causar dano a si mesmo. Não, essas eram idéias sem sentido.

De que tinha medo, afinal? Bruxaria? Seu grupo conta­va vinte integrantes, enquanto o de lady diManey tinha apenas três. Mesmo que diManey fosse uma bruxa, estaria dependendo de Tarceny para sobreviver e gozar de prote­ção, e por isso não pensaria em causar nenhum mal àqueles que a conduziam na viagem pela Fronteira. E a mulher bem podia ser inocente. Totalmente inocente. Só haviam alega­do que ela era uma bruxa a fim de matá-la para tomar suas terras. Phaedra lamentara por ela no passado. Por que a temia agora? O medo estava se tornando um hábito nesse novo mundo em que havia penetrado.

Preferia acreditar que o bispo a estava testando. Queria que ela exibisse algum sinal de humildade. Se oferecesse conforto a um peregrino desconhecido e hostilizado, como era o caso dessa mulher, talvez ele atendesse ao seu pedido, então. Por isso ajudaria a mulher. Por isso não chamou Vermian de volta à hospedaria nem mandou uma mensa­gem aos aposentos de lady diManey sugerindo que encon­trasse outras pessoas com quem viajar. Ainda havia uma chance de levar um sacerdote a sua casa e assim garantir a continuidade de seu casamento.

O bispo queria que Tarceny tivesse um bispo. Ele mesmo dissera. E ele havia dito...

Por um momento, ela ficou olhando para as paredes do quarto abafado e pequeno.

Se os olhos dos Anjos estivessem sobre Tarceny outra vez.

Seria aquela mulher uma espiã?

VIII

Um Rosto na Estrada
Agora, que Miguel nos proteja, milady — disse a feiticeira ao amanhecer.

Os portões de Jent se abriram ruidosamente para per­mitir a passagem de trinta cavalos. A luz era tênue sob o túnel em arco. O mesmo vento que soprava havia dias sa­cudia as portas de madeira em suas dobradiças e balançava as cortinas pretas e brancas da liteira de Tarceny, da qual o rosto de lady diManey espiava o movimento à sua volta.

— E que Rafael nos conduza em nosso caminho — Phaedra respondeu de forma abreviada, sem completar a oração. Também não apreciou o olhar de diManey nem in­centivou o prolongamento da conversa. Com um som as­sustador, os portões se abriram completamente diante dela. Thunder, o grande garanhão por ela montado, estremeceu ao ver a estrada se descortinar, mostrando o caminho de casa.

Thunder era um idiota; Phaedra não confiava nele, em­bora o animal houvesse sido um dos primeiros presentes do marido para ela. Pensar que teria de passar uma semana montada em seu lombo era um veneno para seu hu­mor. Nas poucas viagens longas que fizera anteriormente, sempre fora acompanhada por uma liteira. O aparato pendia entre dois cavalos e era coberto como uma tenda, e ali ela podia descansar quando se fartava de cavalgar ao sol. Para resolver o dilema do tempo e da falta de cavalos, tivera de ceder sua liteira para lady diManey. Mas, pelo menos, ainda podia escolher em que local da comitiva viajaria e quando ou se desejava falar com sua companheira de jornada.

A noite havia sido de insônia, com a guerra, a bruxaria e a raiva povoando seus pensamentos. Não ouvira mais nenhuma palavra do bispo. Nenhum sacerdote se apre­sentara portando uma carta de Sua Excelência. Era pouco provável agora que um capelão os alcançasse (e, caso isso ocorresse, teria perdido sua chance de escolher o homem). Pela primeira vez na vida, não havia conseguido aquilo que desejava. Não podia crer que tamanho desastre se aba­tesse sobre alguém em sua nova posição; a esposa do mais poderoso vizinho de Jent, a filha de um velho amigo, que chegara absolutamente certa de que Sua Excelência a rece­beria bem.

Que um pai seja tão castigado... que a casa real seja desafiada...

Seu pai, o bispo e o rei... Era muito errado que os pilares do mundo devessem cair em ultraje contra ela, um ultraje tão impensado! Pensavam que os costumes, o dever de uma filha e o respeito pela casa real não eram nada para ela. Não entendiam. Sabia como se afastara do que era aceito (pelo menos, estava afastada agora). Mas, se o amor era uma ofen­sa que os bispos amaldiçoavam e contra a qual cavaleiros pegavam em armas ultrajados, então devia ofendê-los. Seu passado nada tinha a oferecer. Era tão vazio quanto a estrada diante dela. Sua estupidez representava perigo para todo o reino. E se tinha de acontecer uma guerra entre Trant e Tarceny, entre Tarceny e o rei, só haveria um lado que poderi defender; e devia seguir sua decisão. O amor era mais forte que o sangue e mais verdadeiro que a Fonte da Lei. Eram eles que não conseguiam ver.

Então, ela cavalgava, e pensava, e cavalgava enfren­tando os frios ventos do norte, suplício que perdurou pela primeira hora de sua jornada, até que finalmente sua cons­ciência e hábitos provocaram uma revolta contra seu pró­prio comportamento. Phaedra voltou até alcançar a liteira cuja ocupante podia ser inteiramente inocente, mas certa­mente já havia percebido que sua protetora estava de mau humor.

— Esses malditos ventos — ela disse. — Sopram assim há dias e ainda podem perdurar por muito mais tempo. Não gosto do que podem pressagiar.

Foi um dia de conversas superficiais e longos silêncios. DiManey era correta em seu discurso, mas revelava pou­co. Talvez estivesse ofendida; talvez, envergonhada. Ela não demonstrava nenhum desejo de conquistar a simpatia da esposa de um alto nobre, como teria feito a esposa de qualquer cavaleiro desvalido. Phaedra cavalgava, refletin­do sobre as questões da política daquela região. A lembran­ça do rosto vermelho do bispo retornava à sua mente com freqüência.

A primeira noite da viagem de volta foi passada em uma das casas de Ulfin no limite sul da Fronteira, onde o cavalei­ro que a guardava ria alto à mesa e falava com entusiasmo sobre batalhas. Phaedra retirou-se cedo, deixando-o aborre­cer lady diManey até altas horas. As luzes do lugar eram apenas chamas tênues, e o papel, como o que o dono da hospedaria providenciara para ela no dia anterior, era de má qualidade, com a marca d'água de um moinho em Jent, diferente das folhas lisas e majestosas de Velis, material a que ela estava acostumada. Mesmo assim, precisava regis­trar seus pensamentos. Queria expor seu caso ao rei. Ainda havia uma pessoa vivendo a leste do lago que pode entendê-la.


Querida madame e boa amiga, procuro-a agora e oro para que me receba, porque me aconselhou a casar por amor, e segui seus conselhos.

Ela começou descrevendo a aparência de Ulfin, sua voz, a inteligência profunda por trás de seus olhos. Escreveu sobre seu casamento no Outeiro de Talifer, de forma a po­der estabelecer com firmeza (e ao mesmo tempo lembrar-se) que havia sido uma cerimônia verdadeira, embora bre­ve. Ela ouviu mentalmente, palavra por palavra, o pouco que o sacerdote havia dito ao casá-los. Digam a verdade um ao outro. A vida de um devia ser espelho para o outro. Ela decidiu que, se uma centena de bispos se houvessem reuni­do para realizar a cerimônia, não poderiam ter sido mais claros. Entre marido e mulher devia haver verdade, acima de tudo, e conhecimento real; como espelhos, deviam mostrar um ao outro suas verdadeiras personalidades.

Manter as promessas. Não haviam feito nenhuma, exceto em seus corações.

... um casamento tanto em lei quanto em verdade. E, no entanto, espanta-me que tantos sintam-se ofendi­dos por ele, prometendo pegar em armas e lançando terríveis ameaças, como se aço e costumes tivessem de vir antes da lei e do amor. Realmente, estes são tempos bastante difíceis para mim, porque aqueles que amo e a quem honro acima de tudo no mundo, exceto acima de meu marido, estão contra mim...

Devia ser cuidadosa agora. Uma carta de Tarceny para o coração do reino bem poderia ser lida por outras pessoas, antes ou depois de chegar ao seu destino. Mesmo suas palavras poderiam ser distorcidas por línguas hostis.
Honro verdadeiramente Sua Majestade e Sua Alteza Real, o príncipe Septimus, como honro o Sol, que go­verna os dias e é indispensável para todas as vidas, mas meu coração deve estar com a Lua brilhante que se levanta sobre nossas noites. Porque sabemos que os Anjos deram o dia para o dever, mas deram a noite para o amor.

Phaedra releu a carta, fez algumas correções necessá­rias, trabalhando até tarde à luz tênue, e produziu uma boa cópia. Depois a assinou, dobrou e endereçou: "Para Minha Boa Amiga Maria, da Casa de Sir Hector Delverdis, em Pemini". Por fim, selou a missiva com o anel que recebera de Ulfin. Olhou para a impressão das letras cPu sobrepos­tas à lua de Tarceny na cera endurecida.

O sol real para o dever, a lua para o amor. Há muito tempo não repousava nos braços de Ulfin.

Na manhã seguinte, na estrada, Phaedra conduziu Thunder paralelamente à liteira e fez um esforço honesto para conversar com lady diManey. Havia decidido que, caso sua companheira de viagem fosse uma amiga, ela merecia mais cortesia do que havia demonstrado no dia anterior, e que, se fosse realmente uma agente do bispo ou da coroa, seria conveniente que soubesse com que firmeza Phaedra se mantinha no caminho que havia escolhido e por quê.

O mesmo pensamento a fez começar falando sobre Ulfin.

— Muitas coisas mudaram para mim depois que deixa­mos Tuscolo — Phaedra contou, conduzindo Thunder pela estrada estreita que ficara ainda menor pela presença próxi­ma da liteira. — Todos aqueles desditosos desejando desposar-me! Eles modificaram tudo, até mesmo meu pai e minha casa. No final, tive de encontrar uma saída para mim. E foi como se descobrisse uma forte disposição que me empurrava nessa direção como uma folha levada pela correnteza. Havia apenas a voz de meu senhor dizendo-me para não ter medo...

Os olhos de lady diManey tornaram-se mais atentos, até surpresos. Talvez ela sentisse que Phaedra havia altera­do uma palavra crucial em seu discurso, algo que ela nem chegara a começar a pronunciar, mas que se fizera enten­der nas entrelinhas. Talvez estivesse apenas ofendida pelo contraste que Phaedra insinuava entre seus casamentos. Phaedra a encarou e esperou, como se desafiasse sua com­panheira de viagem a tentar acompanhá-la em seu relato, ao mesmo tempo decidindo que seria dez vezes mais caute­losa nas palavras que escolhesse no futuro. Então, lady diManey baixou o olhar e murmurou um pedido de descul­pas. Elas prosseguiram em silêncio.

Um pouco mais tarde, Phaedra surpreendeu aquele mes­mo olhar novamente.

E nesse momento foi como se elas atravessassem algu­ma fronteira de intimidade na mente de Evalia diManey, porque de repente ela começou a falar mais, e sobre si mes­ma. Disse que fazia a viagem a Jent todos os anos, para penitenciar-se, sim, mas também para buscar o consolo do Céu. Ela falou um pouco sobre a casa do novo marido, uma propriedade que ficava abaixo do nível do lago. Referia-se a ele ocasionalmente, basicamente para dizer que esperava por seu retorno; e uma ou duas vezes ela mencionou episó­dios de sua infância.

E demonstrava consideração, também. Quanto mais se adiantavam nas colinas escarpadas de Tarceny, maiores eram os problemas que Thunder enfrentava com o solo acidentado. Phaedra se cansava mais depressa do que havia esperado. Cavalgar era um esforço, e manter o cavalo idiota ao lado da liteira enquanto conversava era um esforço exaustivo. Por volta do meio-dia do terceiro dia, Evalia diManey insistiu com muita elegância que naquela tarde elas deveriam trocar de lugar. Quando retomaram a viagem, ela con­seguiu iniciar uma conversa com o normalmente quieto es­cudeiro Vermian, de forma que passaram a cavalgar natu­ralmente lado a lado, enquanto a liteira ficava para trás Phaedra descobriu que podia fazer aquilo que realmente desejava, algo incomum para ela, que era encolher-se entre as almofadas e cochilar. O balanço cadenciado e lento era fonte de tranqüilidade sob o sol brilhante de Tarceny. Até mesmo o pensamento de que não havia prevenido Vermian sobre sua companheira de viagem foi apenas um momento de desconforto enquanto, sonolenta, ela deixava o mundo real para mergulhar no dos sonhos.


Era noite do décimo quinto dia de março; a noite do ataque a Trant. Phaedra estava sentada com Evalia diManey depois da refeição no longo salão de jantar da casa de Ulfin em Baer. Cada uma delas segurava um cálice de vinho. A bebida parecia soltar a língua de diManey.

— ... Foi horrível. Fiquei doente com isso. Não conse­guia pensar em nada além das espadas. Quando diManey apareceu, não pensei quem era ele ou por que arriscava sua vida. Não creio que pudesse ter raciocinado. Lembro-me apenas de perceber que não seria morta ali, naquele momento, diante de todos. Mais tarde, eu me dei conta de que seria melhor ter morrido a ter de viver aqueles momentos mais uma vez.

E uma taça mais tarde, ela disse:

— Você é muito jovem. E tem beleza, sim. Mais, você é feliz. Ainda não sabe que a única felicidade digna de se ter é a esperança de que ela continuará existindo. E como você a manterá? Como?

Phaedra olhou para o interior de sua taça. Podia sentir piedade de sua companheira. Agora, podia até gostar dela. Mas não queria ouvir sermões sobre como ser "feliz". A felicidade era uma flor que florescia e murchava, mas para outras pessoas. Para ela, podia ver duas vidas se abrindo: uma mutilada, outra inteira. Não era uma pessoa, pensava. Era a metade de um todo, uma de duas metades unidas por elo tão forte e profundo quanto as escuras águas do lago, e para sempre. E agora os pequenos barcos de Tarceny estariam zarpando do dique pelo pátio em ruínas no bosque de oliveiras. Sentia-se capaz de suportar qualquer coi­sa qualquer desfecho, desde que Ulfin não fosse morto.

Perdera o prazer de saborear o vinho. Phaedra girava a taça e seu conteúdo num movimento lento e repetitivo, rezando para os Anjos manterem seu marido a salvo. Ora­va para que, de alguma forma, ele desistisse de liderar o grupo de homens que escalaria a muralha. Ou para que to­dos os guardas dormissem. Que ele voltasse para casa em segurança.

Quando ergueu os olhos novamente, ela descobriu que sua companheira fitava o infinito, ou algum ponto perdido no meio do fogo que ardia na lareira, como se toda a sua atenção estivesse voltada para os próprios pensamentos. Seus olhos cintilavam úmidos, e ela piscava como se quisesse conter as lágrimas. Phaedra também observou o fogo por algum tempo, e quando voltaram a falar foi sobre ou­tras coisas.

Naquela noite, ela foi acordada por um ruído sinistro bem perto de sua cama. Imóvel, esperou ouvi-lo novamente. A noite estava silenciosa. A lua brilhava alta por trás de um fino véu de nuvens que ofuscava sua luz. Nada se movia em seu quarto. Mas, quando se ajeitou sob as cobertas, ela ouviu novamente aquele som. Vinha de algum lugar próximo, do outro lado das tábuas que formavam uma parede. Uma voz que gemia, e depois falava. Uma voz de mulher, uma voz que chamava o nome Calyn, e seguia o chamando com sons que lembravam um lamento choroso. O lamento se estendeu por algum tempo. Ele a seguiu em seus sonhos em que ela escalava uma encosta de pedras escuras para um cume de onde o brilho de sol se despedia rapidamente. A paisagem era composta por grandes rochas que lembra­vam pessoas corcundas. Estava perdendo a direção.

Não podia mais ver o horizonte, ou as duas luzes na borda do mundo que tantas vezes haviam estado lá. Seus pés eram guiados apenas pelo que parecia ser o ângulo da encosta naquele terreno difícil. Mesmo assim, ela continua­va subindo e tropeçando, realizando uma última curva para emergir num patamar rochoso banhado pela última luz do sol. Ao seu lado, Ulfin segurou seu braço e exclamou Conse­guimos, meu amor! Trant é nossa, e sem uma única vida perdida. E seu pai é nosso prisioneiro.

Mais um dia começava, cheio de cansaço, anunciando mais um dia na estrada. Mas esse era diferente. Finalmente completariam a última etapa da viagem. Estariam em Tarceny ao anoitecer. Logo diria adeus a sua companheira de jorna­da, talvez com certo pesar, embora aliviada. Estaria em casa.

Uma grande porta tinha sido aberta em meio à parede que a cercava. Ulfin estava seguro. Trant era deles. Assim como seu pai. Sabia que ele devia estar furioso, o que dimi­nuía a probabilidade de se dispor a ouvir a voz de sua filha. Mesmo assim, agora encontraria um meio de resolver o con­flito. Precisava encontrar um meio.

Ela cavalgou em silêncio por boa parte da manhã, pen­sando em seu problema. O cansaço crescia, e ainda não ha­via encontrado respostas. À tarde, quando repousava na liteira, uma chuva repentina e pesada ensopou a paisagem. Sonolenta como estava, Phaedra levantou-se e deteve o progresso da comitiva para insistir que Evalia diManey dividisse com ela o reduzido espaço do abrigo. A liteira não fora construída para acomodar duas pessoas, e as roupas de sua companheira de jornada estavam molhadas. Mas elas riram do desconforto e observaram a boa chuva que molhava a terra por onde continuavam viajando. Quando passaram nela entrada para Aclete, as nuvens começaram a se abrir, e quando finalmente alcançaram a elevação sobre os bosques de oliveiras de Tarceny o céu estava claro. Uma brisa fresca soprava sobre o grupo.



  • Este é o melhor lugar para vê-la — Phaedra contou. - E o melhor momento do dia. Veja!

  • Maravilhoso — aprovou Evalia diManey.

O sol começava a se pôr sobre Tarceny, tocando os pi­cos das montanhas. O ar estava úmido. Lá embaixo, os bosques de oliveiras mergulhavam em sombras. Mas o castelo do outro lado ainda refletia a luz do sol, e suas pa­redes e torres brilhavam com a cor do pálido âmbar, flutuando sobre as nuvens que a lua fazia cintilar em sua len­ta ascensão. Havia bandeiras nas torres, longas flâmulas que tremulavam ao vento da Fronteira. As armaduras dos vigias brilhavam nos postos de observação em que ainda havia um resto de sol. Phaedra sentiu o coração se alegrar ao olhar para o vale e para seu novo lar. E, nesse momen­to, ela encontrou a resposta para o problema que a inco­modara durante todo o dia.

Levaria seu pai para lá. Ele teria de prometer que não lutaria nem tentaria fugir, de forma que pudessem mantê-lo em amistoso cativeiro em Tarceny, como ele mesmo fize­ra com Aun de Lackmere. Sabia que ele seria um prisioneiro difícil. Estaria preparada para isso. Podia controlá-lo, se fosse necessário. E, difícil ou não, sentia falta dele. Era capaz de pensar em sua turbulenta presença com ternura. Cuidaria dele, leria para ele, seria sua companheira em longas e prazerosas caminhadas. Mostraria a ele as vastas terras de Tarceny e a nobreza de sua casa. Faria com que ele aprendesse a enxergar a tragédia de seu passado com tris­teza, em lugar do ódio. E o faria entender como Ulfin e ela se amavam e precisavam estar juntos. Convenceria seu pai e o traria para seu lado, mesmo que levasse muito tempo para atingir esse objetivo. Abriria um caminho de paz para o coração daquele que a criara.

O escudeiro Vermian fez soar a trombeta, e, ao mesmo tempo, os vigias nas torres gritaram, ordenando que a es­trada fosse liberada. Alguns camponeses de um dos vilarejos os encontraram na última colina, por onde subiam com seus burros carregados de madeira para as lareiras de suas ca­sas. Aquele não era um bom lugar para homens montados, e era ainda mais difícil conduzir a liteira pela descida escor­regadia e estreita. Os camponeses se mantinham na beirada da trilha, esperando que a comitiva passasse. Havia três ros­tos voltados para ela, marcados pelo suor e pela poeira, e um quarto rosto encoberto por um capuz. Phaedra estava imersa na campanha mental para reconquistar o apoio do pai, e foi necessário um momento antes que ela registrasse o que havia visto. Sobressaltada, afastou as cortinas da liteira para olhar mais uma vez para o grupo de camponeses. Os quatro já retomavam a difícil jornada pela colina, e ela gri­tou para o escudeiro:

— Vermian! Vermian!

Todos os cavaleiros pararam suas montarias. O escudei­ro aproximou-se da liteira.


  • Milady?

  • Aquele grupo que acabou de passar por nós. O últi­mo homem. Traga-o até mim. Quero falar com ele.

O escudeiro levou um segundo para compreender a or­dem que recebera. Então, cravou os calcanhares no flanco do cavalo para cumpri-la.

Todos permaneceram onde estavam, esperando. Phaedra olhou para Evalia diManey e notou como sua pele brilhava, banhada pelos últimos raios de sol. Ela nem prestara aten­ção ao que estava acontecendo. Havia algum pensamento, alguma lembrança, por trás de seus olhos voltados para o castelo. O eco distante da trombeta do portão alcançou seus ouvidos. Phaedra lembrou-se de que Ulfin não estaria em casa. Seria a primeira vez que entraria no castelo sem ele. Ela se virou na liteira.

— O que os retém?

Nesse momento, o escudeiro apareceu novamente, con­duzindo um homem. Phaedra sufocou uma exclamação ao vê-lo de perto.

— Não é este! Não é este! — disse irritada. — Pedi para trazerem o último homem do grupo. O último!

Vermian resmungou alguma coisa que podia ser uma praga.

— Perdoe-me, milady, mas havia três homens, e este era o terceiro.

O camponês parecia encurralado num mundo que esta­va além de sua compreensão. Sua expressão era quase de dor, como a de um coelho que se vê diante do caçador.

— Solte-o, idiota! Havia quatro homens. O último ia coberto por um manto e um capuz, e seguia um pouco afas­tado dos outros.

Vermian parecia confuso.



  • Pode chamar-me de idiota, milady, mas só havia três homens quando os alcançamos.

  • Pelos anjos! Vamos em frente, Vermian!

Eles se agrupavam em torno da liteira, gente simplória e de porte avantajado, homens grandes em cavalos também muito grandes, e o camponês continuava preso pelas mãos do escudeiro.

Milady... O que é isso? — indagou Evalia diManey.

—É um circo... O que mais parece ser? Muito bem. Sol-te-o, Vermian. E dê alguma prata ao coitado. É capaz disso, não é? Mande alguns homens de volta para olharem me­lhor o grupo de camponeses. Quero aquele homem. Pro-metam o que for necessário, mas, por Miguel e Umbriel, levem-no ao castelo. Agora, vamos.

Ela se acomodou novamente na liteira e olhou para fren­te, pois não queria continuar encarando os cavaleiros e suas expressões estupefatas. Eram todos idiotas.



  • Ele não pode ter percorrido quarenta e cinco metros — resmungou para Evalia diManey.

  • Quem, milady?

  • Se aquele homem era quem penso, ele me causou muitos problemas. Problemas e constrangimento... Embora não tenha sido uma ação voluntária. Creio ter visto o sacer­dote que me uniu ao meu marido. Vou descobrir por conta própria se ele aceitaria uma posição em minha casa; se não, quero saber por que não, e exigirei conhecer ao menos seu nome e a ordem à qual pertence.

  • De que homem está falando?

  • Do último daquele grupo de camponeses. Também não o viu?

Evalia diManey a encarava como se olhasse para um hóspede ou amigo que no meio da noite se embriagara até perder a razão.

  • Vi três camponeses e dois burros.

  • Então você não estava prestando atenção! Ele esta­va lá!

  • Viu um sacerdote naquele grupo? — Havia urgência na voz de diManey.

  • Um homem com um manto claro e um capuz. Meu marido o escolheu.

Sua companheira de viagem olhou para trás, para a es­trada encoberta pela poeira.

— Não o vi — respondeu em voz baixa, como se falasse para si mesma. — Não o vi.

Para Phaedra, essa resposta foi o insulto final. Era a lady de Tarceny, a rainha da grande Fronteira. Tinha um grande grupo de homens sob seu comando imediato, cada um deles montado e armado à custa da colheita de várias plantações. Não conseguia fazer com que cumprissem uma tarefa simples, mesmo que fosse importante. Uma chance como essa para esclarecer seus problemas, e eles a desper­diçavam. Furiosa, ela olhava para as oliveiras à beira da estrada.

Depois de alguns momentos, sua companheira voltou a falar.

— Phaedra... Não sei ao certo quem é esse seu sacerdo­te. Mas, se o viu, creio que deva tomar cuidado.

Phaedra a ignorou.



IX

EO Lago Traz Más Notícias

la não entendia por que seu humor se alterara tão inten­samente com relação à hóspede naquela noite. A única culpa que podia atribuir a Evalia diManey era a de ter usa­do seu primeiro nome sem antes obter consentimento para isso. Mas Phaedra não conseguia se recuperar da decepção de ter perdido o sacerdote. A noite transcorreu pontuada por longos períodos de silêncio, enquanto Phaedra pensa­va e Evalia olhava curiosa para todos os detalhes da grande sala preta e branca de Tarceny. Ambas se recolheram cedo.

Phaedra não considerou estranha a dificuldade para se levantar na manhã seguinte. Finalmente, ela se arrastou para fora da cama e vestiu-se a tempo de dizer algumas palavras de despedida a lady diManey, que já se preparava para par­tir levando um grupo de seis cavaleiros escolhidos por Vermian. Eles a protegeriam no último estágio da jornada a Chatterfall. Phaedra recebeu a gratidão da hóspede com um sorriso pálido e um aceno. Depois disso, houve mais um daqueles olhares estranhos, mas nenhuma palavra. Evalia diManey passou pelo portão na liteira de Phaedra, que não perdeu um segundo antes de retornar ao interior do castelo.

Estava muito ocupada com os próprios pensamentos. Ulfin obtivera uma vitória importante, embora pequena. Mas a tranqüilidade não duraria para sempre, e havia coisas que ela podia fazer para ajudar no estabelecimento de um acordo. Phaedra escreveu para Ulfin, encorajando-o a mandar eu pai pelo lago, assim que sua palavra de honra fosse assegurada. Depois, redigiu uma descrição do sacerdote do Outeiro de Talifer, mandou que fosse copiada e distribuída para cada uma das setenta casas e propriedades da Frontei­ra enviada por mensageiros especiais a cada uma delas, de forma que a notícia do paradeiro do homem pudesse en­contrá-la sem demora.

Vermian resistiu em despachar metade de sua tropa para percorrer a Fronteira. Obrigá-lo a cumprir sua ordem a dei­xou irritada e exausta.

Sua mente estava inquieta, incapaz de concentrar-se. Ela decidiu começar a trabalhar num manto para Ulfin, como sua mãe costumava fazer para seu pai. Disse a si mesma que isso tornaria mais difícil para o pai fingir que ela havia sido levada contra sua vontade. O primeiro passo era fazer uma lista das sedas e do material que deveria ser trazido de Baer ou Watermane. E, usando o rascunho da carta que es­crevera para Maria, ela começou a compor um apelo para Septimus, uma missiva que seria entregue quando pudesse provar seu casamento e reconquistar o coração do pai. Nela, ela implorava para que o príncipe desistisse da hostilidade e honrasse a nova casa de Tarceny, como ela o honraria. Se­ria a grande paz, a vitória decisiva. Imaginava-se mais uma vez diante dos tronos de Tuscolo, dessa vez falando de Amor, não de Obediência. Tentou imaginar o som das liras que transportariam suas palavras em forma de canções, perpe-tuando-as por muitos anos. Mas as palavras secaram antes de encontrarem o papel. A imagem dos tronos se modificou rapidamente e com facilidade, canalizada por sua lembrança para uma cena de sombras e espadas: as tochas de brilho instável, a multidão agitada e uma mulher sendo julgada por bruxaria.

Inquieta, ela esperou por notícias.

A casa estava cheia de ecos. Ulfin estava longe. (E com ele estavam seus cavaleiros e muitos dos guardas armados, mas era a ausência de Ulfin que mais se fazia sentir.) Sem ele, o castelo ficava estranho. A população doméstica, uma coleção de pessoas comuns que mal conhecia, movia-se cum­prindo suas tarefas por trás de portas fechadas, deixando-a sozinha. Phaedra ficava deitada em sua cama ao amanhe­cer, vendo a luz se mover e crescer nas paredes e no teto. Retirava livros das estantes e os lia. Livro após livro, desco­bria anotações feitas por Ulfin nas margens das páginas, ou pergaminhos que ele redigira com comentários sobre as his­tórias, e assim ela examinava cada prateleira em busca dos pensamentos do homem com quem se casara. Em alguns momentos, sentada sozinha, ela apertava um livro contra o peito e olhava pela janela, tomada pela saudade.

Buscava o pequeno conforto das coisas que traziam lem­branças dele. Roupas, broches, uma caneca... Sinais de que, apesar de sua ausência, aquela ainda era sua casa, e sempre havia sido. Não havia retratos dele nem de nenhum outro membro da família, exceto do triste Paigan na Sala de Guer­ra. Ela começou a visitar a Sala de Guerra para, no silêncio, olhar para o rosto emoldurado pela serpente retorcida, ima­ginando a sutileza do trabalho que transformara tintas e pincéis numa expressão humana. Depois, sentava-se no ban­co à direita do trono e repousava a mão sobre o apoio de braço, imaginando tocar o braço do marido. A pequena arca havia desaparecido de onde estivera, sob a mão esquerda de Ulfin.


  • Por que não há nenhum brinquedo? — ela pergun­tou certa manhã, quando alguns criados trabalhavam perto dela num aposento do andar principal.

  • Brinquedos, milady?

Ulfin valorizava o silêncio entre seus criados. Por isso eles não estavam habituados a conversar. Ela falava com um homem idoso de rosto magro e cabelos brancos, com o mesmo uniforme preto e branco e, ela acreditava, a mesma expressão impassível de todos os outros. Tinha quase certe­za de que seu nome era Patter, mas ainda não estava con­fiante de conhecer todos na casa por seus nomes.

— De meu marido e seus irmãos. Lembranças de sua infância.

Era preocupante que houvesse tão pouco no castelo para lembrar a meninice de Ulfin. Bons brinquedos, registros de seus estudos e relíquias de suas aventuras com os irmãos... Em Trant, suas bonecas e seus jogos ainda esperavam por novas mãos que os manejassem. Mas ali em Tarceny não se via nenhum traço dos três garotos que cresceram entre aque­las paredes. Era como se os anos se houvessem perdido, ou sido enterrados. Os aposentos íntimos, um conjunto de quar­tos e salas mobiliados com frugalidade e contendo apenas alguns tapetes, arcas e mesas, não continham nenhum tra­ço deles. Esse era outro vazio, e a preocupava porque, sem evidências do passado de Ulfin nesse lugar, era difícil ima­giná-lo vivendo ali por todos os longos anos de seu futuro.

O homem colocava de volta em seu lugar uma cadeira que ela havia levado para perto da janela, onde estivera lendo.

— Não sei se eles tiveram brinquedos, milady, ou se os guardaram.

Ele se moveu até o console da lareira para substituir uma vela queimada e devolver pequenos objetos aos seus exatos lugares.

Enquanto o observava, Phaedra pensava que os anos que Ulfin passara ali na infância e na juventude deviam ter sido difíceis e tristes. Nem ele nem seus criados gostavam de falar dos tempos de domínio do antigo lorde. Patter parecia muito concentrado em suas tarefas. Era óbvio que evitava encará-la, esperando assim encerrar a conversa. O si­lêncio foi prolongado e desconfortável entre eles. Mas ele sairia dentro de alguns momentos. Já havia feito mais do que o necessário no aposento espartano.

O silêncio se estendia. O criado se movia pacientemente de objeto em objeto, tirando a poeira do tabuleiro de xa­drez, ajustando uma mesa, recolocando cada coisa em seu devido lugar, onde haviam estado antes de alguém as tocar.

Ela o observava fascinada, notando como cada traço de vida desaparecia sob suas mãos competentes; cada sinal deixado pelos moradores do castelo era apagado, enterrado como as infâncias perdidas de Tarceny.

Não havia um sacerdote como irmão David. Não havia artista como Joliper. Phaedra não encontrava uma boa com­panhia entre os habitantes de sua casa. Com o passar do tempo, ia se tornando mais e mais dependente de Orani para transmitir suas ordens aos outros. Mas nem mesmo Orani era boa companhia; mais velha, silenciosa e introver­tida, ela possuía olhos que pareciam profundos, mas eram vazios. Era competente no que fazia, mas quando falava era confusa e mudava de assunto sem fazer pausas. E ela esta­va sempre mexendo nas coisas de Phaedra.

Assim, Phaedra vagava pelos aposentos de Tarceny, olhando para as finas tapeçarias que adornavam as pare­des, conversando com os retratos dos santos e mártires, solidarizando-se com suas feridas ou implorando para que poupassem homens e animais naquela batalha de aço e ódio. Ela os censurava em pensamento pelo sangue que corria de suas mãos, imaginando se havia sido assim para os jovens filhos de Tarceny, crescendo dia após dia sob aqueles olha-res fixos.

As noites eram mais frias do que havia esperado, efeito do ar das montanhas. Ela passou a usar um xale.

Sentia-se doente.

A liteira retornou depois de uma semana, e com ela chegou uma nota de Evalia diManey. A mensagem começava respeitosa: "Honrada e boa senhora" e continuava repleta de expressões de gratidão, para concluir "... oro para que os Anjos a protejam em todas as coisas de sua nova vida, e também rezo para que possamos nos encontrar novamen­te, pois a amizade é fonte de força contra tudo que o destino possa nos trazer". A assinatura era informal, um grande e rebuscado E.

Phaedra sentia o coração pesado. Em outros tempos, tal­vez, com outros passados, as duas poderiam ter sido ami­gas. Mas havia um grande abismo político e social entre elas. A mulher se mantivera quieta, quase reticente, duran­te a maior parte da viagem. Por que agora reclamava uma porção da alma de Phaedra? Não queria descobrir que a mulher era uma espiã, afinal, ou algo pior. Cinco dias em sua companhia não haviam resultado em respostas para as dúvidas levantadas desde o primeiro encontro.

Assim, a resposta de Phaedra incluiu um convite breve para uma visita a Tarceny na próxima vez em que Evalia diManey viajasse a Jent ou de lá retornasse. Calculava que a viagem por terra, especialmente pelo difícil território de Tarceny, consumiria três ou quatro vezes mais tempo do que o mesmo trajeto por água. Sendo assim, diManey teria de ter bons motivos para tirar proveito de tal oferta. E se algum dia ela aparecesse novamente nos portões de Tarceny, Phaedra estaria prevenida.

Sentia-se mais e mais cansada, especialmente ao entardecer. Seu humor ainda era instável, e já não dormia tão bem. Uma nova e terrível suspeita começou a instalar-se em sua alma. A falta que sentia de Ulfin era maior do que nunca. Gostaria de poder falar com ele, mas seu marido não estava ali.

Ela estava novamente na Sala de Guerra, com os braços apoiados no parapeito da janela, olhando para o norte e para o oeste, para as montanhas distantes, quando alguma coisa mudou. Podia ter sido apenas o sol descendo lentamente rumo às colinas, ou a súbita lembrança de uma ave que es­tivera cantando um momento antes, mas de repente o sen­tia mais próximo, como se algum pensamento esquecido rom­pesse o vazio por um instante. Era como se pudesse sentir sua presença mais real e sólida na sala, atrás dela.

Ulfin! Finalmente!

Ele estendia as mãos em sua direção, como costumava fazer em Trant. Segurava o Cálice.



Phaedra.

Sinto sua falta, ela disse.

Não se sente bem em Tarceny?

Não consigo imaginar como foi para você crescer aqui.

Ela sentiu seu suspiro.



Apenas Calyn se lembrava de nossa mãe, ele respondeu. Isso dava a ele uma força que não podia dividir comigo ou com Paigan. Tudo que tínhamos era um ao outro, e o ódio.

Depois de um momento, ele voltou a falar.



Phaedra. Encontre-me em Aclete amanhã à noite. Preciso fa­lar com você.

Foi impossível não olhar em volta, como fazia quando era uma menina. Sua mão tentou alcançá-lo, mas só encon­trou o ar e o vazio. Ele havia partido. Phaedra esperou, mas Ulfin não voltou.

Era noite mais uma vez, e ela se encontrava na estrada para Aclete. A luz estava pálida sob as nuvens cinzentas. A jornada chegava ao fim. O vulto do Outeiro de Talifer erguia-se diante deles, bloqueando a vista do lago e da cidade. Phaedra ouviu as trombetas de sua escolta.

—Vermian! Vermian, para quem está tocando as trom­betas?

—O estandarte de milorde está no alto da colina, milady.

Ao longe, trombetas soavam em resposta. Ela conseguia ver as pequenas figuras recortadas contra o horizonte, pa­radas para verem a estrada e serem vistas de lá. Uma gran­de bandeira tremulava acima deles. Vermian, ou um de seus homens, devia ter visão exemplar, se podia identificar a in­sígnia àquela distância. Talvez fosse o formato da bandeira, ou algum sinal emitido pela trombeta e pelo movimento da flâmula, que identificasse o grupo. Talvez Vermian houves­se participado de outros encontros parecidos antes.



  • Ele está lá?

  • É muito provável, milady.

  • Então, vamos encontrá-lo.

Preciso falar com você. Por que ele já não havia falado? Ou o que ele tinha a dizer era tão importante que não podia ser contido, fosse dia ou noite, em uma visão de seu cálice? Nesse caso, o assunto devia estar relacionado a seu pai e ao pedido que fizera para que ele fosse trazido a Tarceny. Ulfin queria discutir a questão, provavelmente argumentar.

Mas ela tinha outros motivos para desejar conversar com o marido. Estivera contando as horas esperando por esse momento. E agora estava aos pés do Outeiro de Talifer.

Vermian ordenou o seguimento da marcha. Ele a enca­rou, silencioso. Já devia ter percebido que estava diferente. Não disse nada, mas o olhar parecia perguntar se ela estava preparada para o esforço. A subida era impossível para a liteira. Seria difícil para os cavalos, porque o terreno era escorregadio e cheio de pedras e galhos. Orani, quieta e atenta, viajava montada num asno. Thunder ia atrás da liteira, selado e pronto para ser montado, mas as mãos que o prepararam haviam trabalhado em vão, porque ela não o cavalgaria.

Estava cansada. Tinha o estômago embrulhado e a garganta apertada. O movimento da liteira piorava essas sen­sações. Sua mente perdia a concentração por conta do enjôo e do choque.

Ela se sentou bem perto da cortina da liteira, aceitando a ajuda de um guarda para descer dela. O terreno era sólido sob seus pés. A colina se inclinava íngreme diante deles. Não estava devidamente calçada para a caminhada. Seria mais sensato prosseguir até a cidade e esperar por Ulfin lá. Mas ele os aguardava no alto da colina.

— E melhor quando estou em pé — ela comentou. — Pode mandar a liteira de volta, Vermian, e todos os outros que julgar desnecessários. O restante subirá conosco.

Homens desmontavam em torno dela. Vermian distri­buía ordens. A liteira era levada. Ela se preparou para a caminhada.

Não havia uma trilha. A vegetação era alta e batia quase na altura dos joelhos. Espinhos feriam seus tornozelos e machucavam seus pés, perfurando as finas solas dos sapa­tos. Ela continuou subindo, segurando as saias e estranhan­do a dificuldade. Nunca havia estado tão cansada antes. Não se sentia forte. Começava a ofegar, embora houvesse feito apenas um pequeno esforço. Os homens no alto da colina estavam escondidos depois de uma curva.

O grupo prosseguia lentamente.

A subida era interminável. Phaedra parou e percebeu que havia superado apenas um terço do caminho. Onde es­taria o sacerdote que se escondia no bosque, entre as árvo­res frondosas? Talvez ele conhecesse um caminho secreto. Seus companheiros deviam tê-lo ajudado. Sabia que eles existiam, porque os ouvira entre as árvores quando encontrará o sacerdote pela primeira vez. Mas não havia ninguém ali para ajudá-la. No sonho, ela se perdera entre os arbustos e tropeçara nas raízes expostas. Mas Ulfin estivera lá em cima e, quando o alcançara, ele havia anunciado as boas novas.

Milady...

Orani aproximou-se para oferecer ajuda. Ela estendia a mão e apontava para o pequeno asno, único animal capaz de realizar a subida íngreme. Phaedra recusou a oferta com determinação. O asno pertencia à criada, e ela não iria ao encontro de Ulfin amontoada sobre seu lombo como um saco de grãos.

— Vamos em frente — disse Phaedra. — Estamos qua­se chegando.

O enjôo havia desaparecido. Agora sentia apenas fra­queza, e não deixaria que os outros a notassem. Subindo, subindo, subindo... Homens gritavam e riam. Era bom sa­ber que alguém se divertia com a aventura. Alguém fez soar uma trombeta. Havia figuras lá em cima, descendo para encontrá-los... Homens a pé. O uniforme de Tarceny estava em todas as partes. Ulfin não estava ali, mas um homem, o escudeiro Cradey, correu para ajudá-la e oferecer seu braço.



  • Onde está meu marido?

  • Lá em cima, milady — respondeu o escudeiro.

  • Ele está bem?

— Bem e ileso, milady.
Graças a Miguel.

Agora a subida era mais suave. Os espinhos já não a incomodavam, e o terreno não oferecia tantos obstáculos. Podia ver o horizonte acima deles, e a bandeira, e os ho­mens reunidos em torno dela. Ulfin devia estar lá. Ela sorriu e se sentiu mais forte. Parecia que fazia muito tempo que não o via.

Ele não estava entre os homens. Quando alcançou a bandeira, todos apontaram para onde ele esperava sozinho, um pouco abaixo do cume, na encosta de onde se via o lago. Ele olhava em sua direção, mas fitava a face escura de Derewater e as terras úmidas que o cercavam. Havia algo em sua postura que sugeria apreensão.

Preciso falar com você. E agora que estava ali, ele não a encarava. Parecia prolongar o momento que antecedia o encontro. Era como se tivesse algo para dizer, mas não de­sejasse falar.

Preciso falar com você. O silêncio cobria como um manto os homens reunidos sob a bandeira. Phaedra sentia a ten­são entre eles, a atenção com que olhavam para seu senhor. Eles sabiam o que ele sabia, e ela, não. Eles sabiam o que ele tinha a dizer.

— Ulfin? O que está acontecendo?

Ele se virou para fitá-la. Seu rosto estava pálido e ele se apresentava mal barbeado. Havia manchas escuras em tor­no de seus olhos, como hematomas.


  • Phaedra, eu... A verdade é que não sei como dizer...

  • Meu pai?

Ele hesitou por um momento.

  • Sim.

  • Está morto?

  • Sim.

  • Sua aparência é horrível.

  • Foi um período difícil. O rei e o príncipe Barius tam­bém... Muitas coisas aconteceram. Phaedra... o rei está de­saparecido.

Ela se virou e olhou para o lago. Pela primeira vez sen­tia o vento soprar mais frio em seu rosto, unindo-se às lágrimas que o molhavam. Seu pai estava morto. E o rei... Desaparecido. Morto, também?

Pai!

Ela piscou. Seria considerada a pior traidora do reino.



  • Por que... Por que isso aconteceu?

  • Porque ele era um bom homem! Porque não mantinha em ordem seu fosso! — As palavras explodiam de seu peito como um protesto violento. — Nós o mantínhamos em um depósito com mais alguns homens, um lugar cujo propósito não era o de servir de cativeiro. Eles escaparam e atacaram meus homens. Não estavam armados, mas nos surpreenderam. Meus homens se defenderam. Quando cheguei à cena, ele já estava morto, e havia mais dois homens caídos com ele.

— Quem?

—Não sei quais eram seus nomes. Posso descobrir...



  • Não. — Nesse momento, não queria saber quem ha­via perecido ao lado de seu pai. — Pedi que o mandasse para cá.

  • Não consegui obter sua palavra de honra.

Seu pai devia ter sentido raiva e vergonha. Talvez nem houvesse escutado a proposta. Havia pedido demais, so­nhado demais, acreditado que tudo acabaria bem, porque era essa sua vontade e sua mais sincera intenção. Não po­dia culpar Ulfin.

Ela segurou a mão do marido.



  • É bom tê-lo de volta — murmurou. — Senti sua falta...

  • Phaedra, eu... não posso ficar.

— Mas você precisa ficar! Precisa! Não posso...
Não ia chorar.

Olhando em volta, ela viu o lago e as colinas. O bosque e o céu. Não havia nenhum lugar para onde ir. Não tinha mais casa. Tarceny sem Ulfin não era seu lar. Trant sem seu pai não era seu lar. Tantas lembranças! Não ia chorar.

Ulfin a segurou pelos ombros.

— Phaedra, sei que tudo isso é muito triste. Este é um momento em que eu deveria estar a seu lado. Mas a guerra pode estar sobre nós. Enviei homens portando uma bandeira de trégua ao acampamento do rei na estrada para Bay, mas o rei e Barius haviam desaparecido de lá. Você entende?

Ela balançou a cabeça, sufocada pelas lágrimas, e enter­rou o rosto em seu ombro.

— Não posso prever o que vai acontecer agora. Tenho oitenta homens do outro lado de Derewater mantendo Trant para você. Devo retornar imediatamente, com oitocentos...mil. Não posso me demorar.

Se haveria mais luta, ainda corria o risco de perdê-lo também.

— Uma noite — ela pediu. — Uma noite, Ulfin. Por fa­vor. Há algo que devo lhe dizer.

Ele hesitou.


  • O que é?

  • Penso estar esperando uma criança.

Não acreditara quando Orani lhe dissera pela primeira vez o que significavam o cansaço e o enjôo. Não acreditara, porque não queria acreditar nisso. Mesmo quando o corpo começara a exibir os primeiros sinais, ela resistira à realida­de. Somente agora, quando pronunciava as palavras, final­mente se rendia a elas.

Ulfin se afastou dela e olhou para o lago. Depois voltou a encará-la e, finalmente, sorriu. E em sua dor e em seu medo, ela não considerou estranho que ele também pensasse que essa era a pior de todas as notícias.






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