O farmacêutico e a dispensação responsável dos medicamentos de venda livre Edinalva Virgínia heringer cardoso



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O Farmacêutico e a dispensação responsável dos medicamentos de venda livre

Edinalva Virgínia HERINGER CARDOSO


Rua Padre Pedro Pinto, 6700 – Venda Nova– Belo Horizonte - MG.

Cep: 31600-000 Tel: (31) 3456-7962



RESUMO

A rotina diária encurta as agendas e obriga as pessoas a lançarem mão de certas facilidades, quando são acometidas por alguns males, como as dores de cabeça, acidez estomacal, azia, febre, tosse, prisão de ventre, aftas, dores de garganta, assaduras, hemorróidas e congestão nasal.

Neste estudo foi feito um levantamento dos medicamentos isentos de prescrição médica mais vendidos no período de janeiro de 2004 a janeiro de 2005 na rede de drogarias Gran Farma e foram relacionados os principais riscos possíveis destes princípios ativos para os seus usuários, discutindo o papel do farmacêutico na dispensação destes medicamentos.

Os medicamentos mais vendidos foram os analgésicos e antitérmicos com 23%, seguido dos antiácidos com 15%, os descongestionantes nasais com 12%, as vitaminas com 9%, os antigripais com 6% e 22% se referiram a outros medicamentos OTC.

Pode se observar que todos os medicamentos de venda livre também vêm relacionados com efeitos adversos, interações medicamentosas e contra-indicações.

Um fato importante que traz a responsabilidade para o farmacêutico para impedir que estes medicamentos sejam utilizados de maneira compulsiva e desenformada pela população.

Palavras chave: medicamentos, venda livre, dispensação, farmacêutico.

Sumário


O Farmacêutico e a dispensação responsável dos medicamentos de venda livre 1

Edinalva Virgínia HERINGER CARDOSO 1

Introdução 3

O presente estudo tem por objetivo promover uma discussão sobre os principais riscos associados ao uso dos medicamentos isentos de prescrição médica que foram mais vendidos na rede de drogarias Gran Farma, situada na cidade de Belo Horizonte e região metropolitana, no período de janeiro de 2004 a janeiro de 2005. 5

Materiais e Métodos 6

Resultados 7

Efeitos Adversos 8

Interações Medicamentosas 8

Discussão e Conclusão 10




Introdução

Saúde é a bandeira número um quando o assunto é qualidade de vida. Entretanto, a rotina diária, sobretudo nos grandes centros, encurta as agendas e obriga as pessoas a lançarem mão de certas facilidades, quando são acometidas por alguns males, como as dores de cabeça, acidez estomacal, azia, febre, tosse, prisão de ventre, aftas, dores de garganta, assaduras, hemorróidas e congestão nasal1.

Estes males são considerados pela ABIMIP (Associação Brasileira de Medicamentos isentos de prescrição) como “males de menor gravidade”7.

Diante de um sistema de Saúde como é o brasileiro, em que os atendimentos são precários para grande parte da população e, ainda, não há acesso a uma política de saúde integral, inclusive a programas de medicamentos que atendam às suas necessidades mínimas, a automedicação torna-se uma alternativa na tentativa de aliviar os males citados6.

Uma categoria de medicamentos que vem sendo difundida para tratar estes males são os chamados MIP (Medicamentos Isentos de Prescrição) ou OTC (Over the Counter)3.

Estes medicamentos exigem como os demais, uma rigorosa fiscalização sobre estabelecimentos (farmácias e drogarias) por parte das autoridades sanitárias, neste caso, as Vigilâncias estaduais e municipais4.

Em 2002, o mercado de medicamentos de venda livre movimentou no Brasil cerca de R$ 4 bilhões. De 1998 a 2002, o mercado de produtos OTC aumentou sua participação na venda de medicamentos, de 11,87% para 14,48%. Em 2004, o mercado brasileiro de OTC movimentou cerca de R$ 4,9 bilhões, o equivalente a aproximadamente 30% do mercado farmacêutico total 2.

Atualmente, essa categoria de medicamentos inclui analgésicos e antitérmicos, antiácidos, digestivos, laxantes e vitaminas e outros 5.

Mas, apesar destes medicamentos serem de venda livre, deve-se ter cautela com seu uso e o farmacêutico deve informar a forma correta de administrá-los.

Há oito anos o medicamento é o principal agente de intoxicação humana registrado pelo SUS no Brasil. Foram 20.534 casos em 2001 e a ocorrência diária é de 56 casos diários de intoxicação por medicamento: um a cada 24 minutos. Entretanto, estes números devem ser ainda mais alarmantes, já que a sub-notificação é um fato relevante no SUS 6.

A intoxicação por medicamento supera as provocadas por agrotóxicos, pesticidas, produtos industriais e por animais peçonhentos. Os números são do Sistema Nacional de Informações Toxicológicas (Sinitox) do Centro de Informação Científica e Tecnológica (Cict) da Fundação Oswaldo Cruz, como mostra o QUADRO 1 abaixo:
QUADRO 1 - Casos registrados de intoxicação humana, animal e de solicitação de informação por agente tóxico.



Agentes


1. Medicamentos

1637

2. Produtos químicos industriais

404

3. Domissanitários

390

4. Agrotóxicos de uso doméstico

224

5. Raticidas

205

6. Drogas de abuso

98

7. Cosméticos

87

8. Agrotóxicos de uso agrícola

74

9. Plantas

62

10. Metais

38

11. Animais peçonhentos

32

12. Produtos veterinários

22

13. Animais não peçonhentos

8

14. Desconhecido

23

15. Ignorado

19

Total

3323

Fonte: Sinitox-Sistema Nacional de Informação Tóxico – Farmacológicas da Fundação Oswaldo Cruz.


Numa sociedade de baixo índice educacional estes riscos são ainda maiores. Sem considerar o verdadeiro "bombardeio" patrocinado pelos meios de comunicação, que utilizam o marketing medicamentoso para manter e elevar o consumo 6.

Estes fatores mostram a necessidade de deixar bem claro para a população os riscos que estes medicamentos podem causar se utilizados de forma inconsciente e sem a orientação de um profissional adequado.



Objetivos

O presente estudo tem por objetivo promover uma discussão sobre os principais riscos associados ao uso dos medicamentos isentos de prescrição médica que foram mais vendidos na rede de drogarias Gran Farma, situada na cidade de Belo Horizonte e região metropolitana, no período de janeiro de 2004 a janeiro de 2005.


Busca-se ainda, complementarmente, demonstrar o papel do farmacêutico na dispensação responsável destes medicamentos.

Materiais e Métodos


Foi feito um levantamento dos medicamentos isentos de prescrição médica mais vendidos no período de janeiro de 2004 a janeiro de 2005, na rede de drogarias Gran Farma que inclui 23 drogarias localizadas na cidade de Belo Horizonte e região metropolitana.

Para este levantamento foi utilizado como base o histórico médio de vendas de OTC de toda a rede.

A partir destes dados, os medicamentos foram agrupados por ação farmacológica de acordo com sua denominação genérica para facilitar a discussão sobre os principais riscos possíveis destes para os seus usuários e o papel do farmacêutico na dispensação destes medicamentos.



Resultados


O levantamento do histórico médio das vendas de medicamentos isentos de prescrição médica na rede Gran Farma, no período de janeiro de 2004 a janeiro de 2005, permitiu obter os seguintes resultados:

Os medicamentos mais vendidos foram os analgésicos e antitérmicos com 23% das vendas de OTC na rede, seguido dos antiácidos com 15%, os descongestionantes nasais com 12%, as vitaminas com 9%, os antigripais com 6% e 22% se referiram ao restante dos medicamentos OTC como antitussígenos, pastilhas para garganta, anti-sépticos e outros, como mostra a FIGURA 1:



FIGURA 1 – Gráfico do percentual de OTC mais vendidos, agrupados por ação farmacológica.


O grupo classificado como analgésicos e antitérmicos compreenderam os medicamentos dipirona sódica, paracetamol e ácido acetilsalicílico.

Os antiácidos incluem hidróxido de alumínio, hidróxido de magnésio e bicarbonato de sódio e os laxantes apenas o princípio ativo bisacodil.

Os descongestionantes nasais incluem as apresentações contendo cloridrato de nafazolina, cloreto de sódio e cloreto de benzalcônico e as vitaminas as apresentações contendo vitamina C, vitaminas do complexo B e polivitamínicos.

Os antigripais, além de conterem em suas apresentações os analgésicos e antitérmicos citados, contêm clorfenamina, cloridrato de fenilefrina, vitamina C e cafeína.

Como comprova a literatura científica e os compêndios de farmacologia, todo medicamento traz algum risco, pois todo princípio ativo, dependendo da forma de administração, quantidade, período utilizado e das características de cada organismo, pode ser perigoso.

O QUADRO 2 relaciona os princípios ativos citados com seus principais efeitos adversos e interações medicamentosas 9,10.

QUADRO 2 – Relação de possíveis efeitos adversos e interações medicamentosas



Denominação Genérica

Efeitos Adversos

Interações Medicamentosas

Ácido acetilsalicílico

Dispepsia, náuseas, vômitos, lesões gástricas, reações cutâneas, insuficiência renal reversível, nefropatia, zumbidos, piora da asma para pacientes sensíveis.

Aumento potencialmente nocivo da varfarina

Interfere no efeito de agentes uricosídicos como probenicida e sulfinpirazona.

Reduz a excreção de ácido úrico não podendo ser utilizado por pacientes com gota

Paracetamol

Em doses terapêuticas pode causar hepatotoxicidade em alcolistas crônicos. Em doses excessivas também pode causar hepatotoxicidade grave.

A hepatotoxicidade potencial pode ser aumentada com a administração de barbitúricos e ingestão crônica ou excessiva de álcool.
Dipirona sódica

Reações de hipersensibilidade e discrasias sangüíneas

Diminui o nível plasmático da ciclosporina.

Não deve ser administrada em pacientes em tratamento com clorpromazina, pois pode ocorrer hipotermia grave.



Hidróxido de alumínio

Possui um efeito adstringente, podendo então causar prisão de ventre. Pode

causar eructação, náuseas ocasionais, distensão abdominal , flatulência e

nefrolitíase. Não pode ser usado em pacientes com apendicite.


Diminui a biodisponibilidade do ferro, teofilina, quinolonas, tetraciclina, isoniazida e cetoconazol, etambutol, de alguns agentes antimuscarínicos, benzodiazepínicos, fenotiazinas, ranitidina, indometacina, fenitoína, nitrofurantoína, vitamina A, fluoreto, fosfato, prednisona e procainamida, atenolol e do propranolol, mas aumentam a do metoprolol
Aumenta a taxa de eliminação de salicilatos e de fenobarbital e diminui a eliminação de anfetamina; efedrina, mecamilamina, pseudo-efedrina e quinidina. Os antiácidos diminuem o metabolismo hepático de ranitidina e reduzem a eficácia de nitrofurantoína na terapia de infecções das vias urinárias.

Hidróxido de Magnésio

Pode causar desconforto abdominal, cólicas e diarréias.

Não pode ser utilizado em pacientes em uso de tetraciclinas.
Bisacodil

Desconforto abdominal, cólicas, diarréia.

O uso concomitante com diuréticos e adrenocorticosteróides podem aumentar o risco de desequilíbrio eletrolítico.
Cloridrato de nafazolina

Pode causar sensação de ressecamento na mucosa nasal. Rinite atrófica, em casos de uso prolongado. Doses excessivas podem causar hipertensão, dilatação das pupilas e transpiração.

Não pode ser utilizado em pacientes com hipertensão arterial e hipertireoidismo.
Polivitamínicos

Reações alérgicas, náuseas, diarréias. Não deve ser utilizado em pacientes com insuficiência renal ou cálculos renais.

Interage com a levodopa.

Evitar o uso concomitante com derivados do ácido retinóico e com outros produtos que contenham vitaminas para evitar uma hipervitaminose.


Ácido ascórbico

Pode causar diarréias e cálculos renais

Pacientes diabéticos podem ter resultado alterado de açúcar na urina.

Vitaminas do complexo B

Prurido, eritema, náuseas e reação anafilática.

Diminui os níveis séricos da fenitoína, fenobarbital, clorafenicol e hidralazina.

Cloridrato de fenilefrina e maleato de clorfeniramina

Sedação, sonolência, hipotensão, ansiedade e tremores.

Lembrando que este medicamento não deve ser utilizado por condutores de veículos ou operadores de máquinas.



Pode aumentar os efeitos dos anticoagulantes. A sedação e sonolência podem ser aumentadas se utilizar concomitante com álcool e antidepressivos e reduz os efeitos de medicamentos utilizados na angina.




Discussão e Conclusão


Mais do que informar sobre o uso correto de medicamentos, o farmacêutico tem o importante papel de informar o cidadão sobre todas as questões que envolvem a saúde: desde o perigo da automedicação até os cuidados que devem ser tomados para a eficácia do tratamento. É importante lembrar que um medicamento utilizado de forma incorreta ameaça a saúde e põe a vida em risco.

No caso dos medicamentos de venda livre o papel do farmacêutico é ainda mais importante, uma vez que muitas pessoas pensam que este tipo de medicamento não pode trazer riscos a sua saúde.

Como foi possível observar, todos os medicamentos vêm relacionados com efeitos adversos, interações medicamentosas e contra-indicações, mesmo sendo estes considerados de venda livre e anunciados em propagandas como se não apresentassem nenhum risco à saúde.

As propagandas, o preço mais baixo destes medicamentos e a facilidade de aquisição podem induzir as pessoas a utilizarem estes medicamentos de forma inadequada. Sem uma informação do profissional farmacêutico, um outro fato importante que pode ocorrer é a interação destes medicamentos com os medicamentos que o paciente já utiliza.

Quando um medicamento é associado a outro, pode ocorrer um efeito diferente do esperado. A incidência de interações medicamentosas em pacientes que usam vários medicamentos oscila de 3 a 5%, chegando a 20% ou mais em pacientes que usam de 10 a 20 medicamentos 4.

Assim, diabéticos, hipertensos, crianças, idosos, grávidas, lactentes, cidadãos que fazem uso de medicamentos de uso contínuo e outras faixas da população estão expostas a risco na medida em que utilizam outros medicamentos sem orientação.

É imprescindível para os pacientes que fazem uso de qualquer medicamento ficar atentos a ingestão concomitante com outro fármaco, pois um medicamento que pode parecer inofensivo, quando associado a outros pode causar grandes males à saúde.

Daí a importância de relatar ao farmacêutico o uso de outros medicamentos no momento da compra de um medicamento por iniciativa própria porque viu em um anúncio no dia anterior na televisão ou porque o vizinho indicou e disse que não precisa de receita médica para comprar.

Outro fator importante que deve ser observado é o uso de medicamentos durante a gestação. Muitas mulheres grávidas fazem uso de medicamentos sem prescrição médica e sem o acompanhamento do farmacêutico. As substâncias medicamentosas podem passar pela placenta e exercer efeitos no feto, especialmente no primeiro trimestre da gravidez.

A quantidade segura do medicamento para a mãe pode causar um dano ao feto.
No período de aleitamento materno, os medicamentos usados pela mãe podem ser transferidos por meio do leite materno para o bebê. Mesmo ínfimas concentrações podem acarretar efeitos indesejáveis na criança.

Por isso durante a gravidez toda mulher deve sempre consultar o médico ou orientar-se com o farmacêutico, antes de usar qualquer tipo de medicamento.



Enfim, o profissional farmacêutico deve assumir o seu papel e contribuir efetivamente para que a população possa ter consciência que os medicamentos são um bem necessário, mas, que em hipótese alguma podem ter seus riscos desprezados, por menores que eles sejam.


Referências Bibliográficas


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  1. CRFSP - Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo. Revista do Farmacêutico. Disponível na Internet na página: www.crfsp/especial/revistadofarmacêuticoed_41jan2002.htm . Acessado dia 29/09/2005.




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  1. GOODMAN & GILMAN. As Bases Farmacológicas da Terapêutica. 10 ed. Rio de Janeiro, 2003.




  1. HANG, H.P, DALE, M.M, RITTER, J.M. Farmacologia. 3 ed. Rio de Janeiro, 1997.









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