O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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Os três sempre recebiam visitas de familiares e não tinham problemas sérios. Cabeça tinha um cacoete: ficava o tempo todo passando a mão no queixo. Era branco, tinha 1m 90 de altura, cento e poucos quilos e, como todo 171, aparência superconfiável. Um minuto depois de conversar com ele, a pessoa tinha certeza de que só ele poderia tomar conta do cofre. Era metido a intelectual.

Paulo era branco, típico malandro brasileiro de antigamente, andar cheio de ginga, 1m 68 de altura, bigodinho. Sempre escrevia cartas à procura de uma companheira, que mandava anunciar em jornais e revistas. As descrições que fazia dele mesmo eram incríveis. Constantemente estava se virando com o pessoal do presídio para receber a visita de alguma moça que tinha respondido a esses anúncios.

Chiquinho era especial, não havia dia triste para ele, estava sempre numa boa, parecia que estava de férias. Caboclo, jeito de índio, esquelético, baixo, andava sempre com um livro debaixo do braço e sabia de tudo o que se passava nas galerias. Às vezes aparecia na biblioteca com uma cara de mistério, com um papelote de coca e falando baixo:

— Cheira, cheira logo, que estou morrendo de medo — e então sumia.

O Ferrugem, que eu chamava de Cenoura, era muito cuidadoso com tudo o que fazia, porque tinha pouco tempo para cumprir. Não falava do crime que tinha cometido, mas diziam que exterminara uma família. Do Velho, ninguém gostava, por várias razões. A principal era que ele não tomava banho. Às vezes o pessoal ficava irritado e punha o coitado na marra debaixo do cano de água. Ele havia matado sua velha esposa para ficar com a grana e viver com uma jovem. Os comentários eram de que a jovem também estava em cana. Eu também não ia com a cara dele, mas muitas vezes pedi para o pessoal deixá-lo em paz. O Nilson era do Espírito Santo, estava preso havia pouco tempo e dizia que estava lá por

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engano, que não tinha feito nada. Cada dia um de nós lavava o cubículo e era ele que fazia essa tarefa para mim. Ele era muito humilde, e eu o pagava para ele fazer isso e arrumar a minha cama todo dia, lavar meu prato, copo e talheres, que eram todos de plástico. Um dia, brincando, eu o chamei de Baitola, e ele levantou a cabeça. Baitola, no Norte, quer dizer pederasta. Foi uma tremenda gozação e o apelido pegou.



Rando, o xerife, não precisava fazer nada, a não ser que precisássemos de alguma coisa com a administração, aí era ele que tinha de negociar. Zeca, Orlando, Dorminhoco e Alonso faziam parte do grupo, mas não me lembro muito deles.

Na verdade, eu não tinha a menor condição de prestar muita atenção naquele pessoal. Água Santa é um lugar sinistro, você tem de estar atento o tempo todo para não fazer ou falar alguma coisa errada, qualquer pisada na bola pode virar um problema sério, principalmente se conquistar a antipatia de algum interno. Além do mais, eu passava por um momento que só conseguia superar com os remédios receitados pelo dr. Ivo. Se não tivesse esse apoio, e o do meu pai, seguramente teria enlouquecido.

Durante boa parte dos dias, havia música nas galerias, e às seis da tarde era a "Hora da Ave-Maria", uma coisa triste e angustiante. Não me lembro que rádio produzia aquele programa, no final da reza ainda tinha um sermão, que, segundo o padre ou radialista, era dedicado aos detentos e hospitalizados. Eram palavras de esperança, segundo o locutor.

O que escrevi na época era também muito triste. Muitas coisas me preocupavam, como meus advogados que sumiam, a presença constante de Ângela na minha cabeça, minha família, meus filhos etc. Muitas vezes escrevi revoltado que deveria ter pensado nos filhos e na família antes de fazer as cagadas.

Como não tinha coragem de escrever sobre minha vida com Ângela, só escrevia sobre a fazenda do meu avô, onde vivi até os doze anos de idade, e de onde saí porque venderam a propriedade. Escrevia também sobre as viagens pelo mundo, as caçadas na África, e coisas do gênero.

Uns dias antes, Ângela ligou avisando que ia a Belo resolver alguns negócios com seus advogados. Como eu não podia ir, combinamos que, quando ela voltasse para o Rio, passaríamos dois dias na sua casa. Isso seria

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Durante a semana, e eu arranjaria reuniões com empreiteiros. Ainda que essa desculpa já fosse muito batida, era a única com lógica. O meu sócio já estava no Rio passando uma temporada, procurando empreiteiras que também tivessem vencido concorrências em outros trechos da Ferrovia do Aço.



Telefonei para o Ibrahim a fim de bater papo e contei que dentro de poucos dias estaria lá, para uma reunião de negócios. Convidou-me para ficar em sua casa. Expliquei que ficaria num hotel, no centro, porque era lá que seria a reunião.

- De todo jeito, venha jantar comigo - disse.

Minha mulher não engoliu a viagem, mas sua reação não foi instantânea. Só percebi quanto aquilo tinha mexido com ela quando voltei para casa à noite e não a encontrei. Achei estranho, porque cheguei tarde e geralmente ela já estava lá. Depois de meia hora comecei a procurá-la. Na casa do meu sogro, nas das minhas cunhadas e nas de amigos. Ninguém sabia dela. Estava pensando em para quem mais ligar quando o telefone tocou. Era minha mãe:

- Sua mulher passou o dia aqui. O que você anda fazendo para ela ficar tão infeliz?

Aquilo caiu muito mal na minha cabeça. Demorei a reagir. O pior é que sofria por causar tudo aquilo, pressentia que estava jogando o jogo errado e que minha vida estava indo para o lixo. Estava magoando quem eu amava. Nunca conseguirei entender essa época.

Só fui buscá-la depois de alguns caubóis e, em vez de tratá-la com carinho, fui rude com ela e com mamãe. Dei uma bronca tão grande nas duas que ambas se assustaram com a minha reação. Mandei minha mulher ir para casa imediatamente e proibi minha mãe de abrir a boca. As duas me obedeceram e entrei no carro. Fui atrás do carro de minha mulher até em casa. No caminho, sozinho, pensava naquela loucura.

Em casa conversamos e, de certa maneira, a crise foi superada, pelo menos até eu voltar da viagem ao Rio. Só fui para lá alguns dias depois, já que Ângela teve que ficar um pouco mais em Belo, por causa de problemas familiares e com os advogados.

Como das outras vezes, as reuniões de negócios de fato existiam, só que fui para o apartamento da Ângela. Quem participou das reuniões e foi para um hotel no centro foi o meu sócio Carlos, o meu "coringa".

No apartamento, Ângela e eu não saímos da cama nem para almoçar. Foi só sexo e drogas. Não estávamos nem um pouco preocupados.

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Em nenhum momento passou pela nossa cabeça que estávamos exagerando. No fim da tarde, ela ligou para o Ibrahim dando uma desculpa a fim de não ir ao jantar.



Lá pelas oito da noite, cheguei para jantar com ele. Tomamos um aperitivo e liguei para minha casa. Estava tudo bem. Depois, Ibrahim conversou com minha mulher durante algum tempo. O jantar foi tranqüilo, e depois chegaram alguns amigos do Ibrahim. Como eu tinha reunião no dia seguinte, saí logo que as visitas chegaram.

Resolvi fazer o caminho de volta à pé. Era bom andar um pouco. Também me sentia mal por tratar Ibrahim com tanto cinismo. Se bem que durante o jantar ele só falou da amante. Disse também:

— Sabe como é, homem é assim mesmo, mas a mulher que eu amo é a Ângela, apesar do trabalhão que ela me dá.

Falou também das frustrações com o casamento e das farras que tinha feito pelo mundo.

Ia andando pela rua, pensando nele, na minha família, nos planos de viver com Ângela. Quando me dei conta já tinha passado, e muito, da casa dela. Ao entrar, encontrei uma amiga sua com o namorado. Ele era tão mais jovem que pensei que fosse filho dela. Fiquei meio sem jeito, já que quando abri a porta dei de cara com eles ajoelhados diante de uma mesa, experimentando a cocaína que tinham trazido. Mas ela não ficou constrangida e logo me apresentou:

— Este é meu namorado, já falei dele para vocês.

Alguns minutos depois, chegou outro visitante que também tinha entrado no racha da compra da droga.

Daíem diante, o ambiente ficou excitadíssimo. Experimentamos, falamos e bebemos muito até altas horas. Depois que todos foram embora, Ângela e eu continuamos até bem mais tarde. Tive a impressão de que a empregada já estava acostumada. Não serviu o café-da-manhã nem o almoço, mas não deixou faltar gelo em nenhum momento. No meio da tarde, depois de um banho e uma refeição leve, Ângela foi para a casa de Ibrahim e eu voltei para São Paulo. Um pouco antes de eu sair, meu sócio telefonou para avisar que já estava no aeroporto e que a obra em Itabirito tinha sido confirmada, já estavam preparando os contratos. Essa obra da Ferrovia do Aço está parada até hoje.

Já em São Paulo, no escritório, tive uma pequena reunião com Carlos. Tínhamos problemas de custos. Nossos concorrentes, com equipamentos mais

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Antigos haviam apresentado um orçamento melhor, e queria ter certeza de que ele não tinha mexido no nosso preço.



Fui para minha casa, entrei direto no banheiro e comecei a encher a banheira em vez de ir para o closet. Tirei a roupa e estranhei que a porta do quarto estivesse fechada. Abri e dei de cara com Adelita sentada na ponta da cama. Chorava copiosamente. Ela me viu e veio me abraçar. Muita coisa passou na minha cabeça naquele instante. Ficamos abraçados por um longo tempo. Se falamos alguma coisa, não me lembro, sei que no dia seguinte dei ordens para que a Cida não passasse os telefonemas do Rio. Por via das dúvidas, transferiria qualquer interurbano para o Chiquito.

Não sei quanto tempo durou essa tentativa de acabar com aquela história e pôr tudo nos eixos.

Uma tarde, durante esse pequeno recesso, minha mãe ligou. Estava com saudades, queria que eu a visitasse no fim da tarde. Quando ela fazia isso, era porque tinha coisas sérias para falar. Atendi seu pedido e fui visitá-la. Conversamos umas duas horas. Queria saber se eram verdade os boatos que ouvira, da minha separação. Contei que tudo havia começado por pura farra, mas com o tempo as coisas complicaram. Para ela essas coisas não eram novidade, minha mãe era uma mulher vivida, inteligente, e já tinha visto muita coisa. Aconselhou-me a cuidar melhor do meu casamento. Era difícil encontrar alguém com as qualidades da minha mulher.

- Ainda bem que avisei Adelita que você era um boêmio e mulherengo incorrigível. Lembra-se disso? Você ficou tão bravo comigo.

No dia seguinte, foi a vez de o Francisco me convidar para um aperitivo, no fim da tarde. Fui preocupado, pois achava que Ângela estaria lá. Fazia uns dez dias que não atendia seus telefonemas. Ela era insistente. A noite, quando chegava em casa, encontrava minha mulher falando com ela. Ouvia as duas combinando de se verem num fim de semana, mas não me aproximava. O assunto era discutido a três, elas e o Ibrahim.

No começo da noite cheguei à casa do Francisco. Pensava que encontraria Ângela, mas fiquei só no pensamento. Entrei e fomos direto para a sala tomar uísque. Estava curioso, queria saber se íamos falar de Ângela. Mas o assunto abortou quando sua irmã entrou na sala. Também era minha amiga de longa data, minha mãe gostava muito dela, eram grandes amigas. Por conta da intimidade, o papo se estendeu por bastante tempo. Minha mulher telefonou várias vezes reclamando da minha demora. Francisco e eu tínhamos bebido bastante, o papo estava ótimo, então resolvi convidá-los

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para jantar em casa e continuar a conversa. Assim que chegamos, comecei a servir as bebidas e mandei avisar minha mulher que tínhamos chegado e que os dois esperavam por ela.

O papo continuou alegre, mas Adelita, estranhamente, não aparecia. Passou tanto tempo que a situação ficou constrangedora. Sem entender o que estava acontecendo, fui procurá-la. Para encurtar a história, ela se negou a recebê-los.

Eu não tinha noção do motivo daquela atitude. Voltei para a sala e continuei servindo os aperitivos. Resolvi não dar explicação, achei que era a melhor coisa a fazer. Depois de algum tempo, eles resolveram ir embora. E eu, envergonhado, pedi desculpas por minha mulher. Assim que saíram, minha mulher apareceu. Estava tão bravo que resolvi fingir que nada tinha acontecido. De uma coisa eu tinha certeza: a amizade de Francisco e Adelita havia chegado ao fim.

Não lembro como Ângela e eu voltamos a nos ver. Logo começou tudo de novo. Da minha cama para a dela ou então para a cama da casa da Joana. Voltamos com tudo. Quando não estávamos juntos, nos falávamos por telefone pela manhã, à tarde e à noite. Muitas vezes saía do meu quarto à noite e ia para a sala ligar para ela. Eu havia pirado de vez, não tinha a menor importância se estavam desconfiando ou não.

Em uma das vezes que Ângela veio se hospedar em casa, resolvemos levá-la, junto com um grupo de amigos, para um fim de semana na fazenda. Convidamos o Grande, Chiquito, Joana e Pedro. Ninguém tomou conta de ninguém e foi um fim de semana legal. Ângela e eu estivemos com o grupo o tempo todo, como bons amigos.

Na segunda, Ângela me ligou do Rio, reclamando que eu não tinha dado atenção a ela. Depois de uns quinze dias de idas e vindas, Adelita e eu passamos um fim de semana na casa de Ibrahim. Um nosso amigo de longa data, grande jogador de pólo, estava dando uma festa, e tínhamos sido convidados. Chegamos na sexta-feira pela manhã. Assim que entramos no apartamento, Ângela veio nos receber. Estava linda em um terninho amarelo bem claro. Trazia na mão dois copos de vodca tônica com gelo e limão.

- Para vocês tomarem enquanto esperamos o motorista que vem nos buscar.

Dias depois, uma amiga do Ibrahim, que era presidente do Museu de Arte Moderna, nos convidou para almoçar lá. Após o almoço, visitaríamos as

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instalações do museu. Fazia pouco tempo que havia sido reformado, parece que tinha sofrido um incêndio um ano antes. Enquanto esperávamos, a minha mulher foi dar uma arrumada no cabelo e passar batom, para sair em ordem. Aproveitei a oportunidade para dizer a Ângela que também queria pois tinha percebido, pelos seus olhos, que ela estava alta. Adorava quando ela ficava assim, ligada. Seus olhos brilhavam, o sorriso debochado a deixava com uma postura desafiadora. Ela pegou a bolsa, tirou uma caixinha de prata e abriu. Rapidamente serviu cocaína a mim e a ela. Depois cada um foi para seu quarto e acabamos de nos arrumar. Meia hora depois, o motorista chegou e fomos para o museu. Fomos recepcionados pela amiga do Ibrahim, que nos levou direto para o restaurante lotado.



Ficamos numa mesa grande com outros convidados. A conversa estava animada, o ambiente era muito bonito. De repente reparei que Ângela estava olhando para um homem, que, por sua vez, estava tão encantado que dava a maior bandeira. Levantava o copo para ela, e mandou o garçom entregar-lhe um cartão. Assim que ela o recebeu, o camarada foi direto para o banheiro. Ângela adorava provocar. Levantou-se e foi na mesma direção. Meu pavio encurtou: segui-a até o toalete das mulheres, empurrei-a para dentro e depois para um dos reservados. Não disse nada, só a sacudi pelos ombros, tanto e com tanta força que a cabeça dela ia para a frente e para trás. Depois de alguns segundos, não agüentou mais e seu corpo amoleceu. Empurrei Ângela para o vaso e saí. Tudo foi tão rápido que, quando voltei para a mesa, ninguém estranhou. Estava completamente corroído de ciúmes, mas consegui manter uma aparência calma.

Ângela demorou para voltar. Quando apareceu, estava muito pálida, disse que não estava se sentindo bem, que iria para casa e que à noite nos veríamos na casa do Ibrahim.

O almoço continuou animado. Depois, todos os convidados percorreram o museu para apreciar as obras, sua arquitetura moderna e a vista para o mar. Quando a visita acabou, estávamos cansados. Tínhamos levantado cedo, o almoço havia sido longo e a noite prometia ser agitada. Demos um jeito de nos separar do grupo e fomos para a porta. Adelita e eu entramos num táxi e voltamos para o apartamento do Ibrahim em Ipanema. A tarde estava bonita e fomos curtindo aquele passeio: Hotel Glória, Hiate Clube, morro da Viúva, Botafogo etc.

Quando chegamos ao apartamento, ele estava vazio. Quem abriu a porta foi a empregada, que logo disse:

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— O senhor Ibrahim ainda está na redação, mas não vai demorar. Fomos para o quarto descansar. Já deitados, minha mulher comentou qualquer coisa como:



— Ângela não tem jeito, foi atrás do bonitão do museu.

Excitado com a droga e com o que tinha acontecido no almoço, não conseguia descansar. Levantei-me e fui para a sala. Ângela estava lá. Ao me ver, levantou-se. Segurei-a pelo braço e puxei-a na minha direção. Tivemos uma conversa áspera. Argumentei que a amava, que não agüentava ver que ela queria tudo e todos. Ela dizia que era livre e dona da própria vida. Reclamei, disse que ela, por saber que eu a amava, fazia coisas para me enciumar. Meu argumento era tão preciso que ela sorriu e me abraçou.

— Também te amo, mas quando olha para outras mulheres não te sacudo, como você fez.

Na verdade eu estava assustado com aquilo tudo, tentando me reconciliar com ela, e com tesão.

— Como podemos pensar em viver juntos depois do que aconteceu esta tarde?

Falávamos depressa, alguém poderia chegar a qualquer hora. De repente, ouvimos vozes e risadas no corredor, e minha mulher e o Ibrahim apareceram. Adelita foi logo dizendo que eu tinha que me vestir.

— Em cima do travesseiro tem um presente para você.

Sorri para ela e fui para o quarto. Abri a porta, olhando para a cama à procura do presente. Era uma pulseira de ouro, com elos grandes e uma placa com minhas iniciais. Senti um aperto no peito. Sabia muito bem o que aquela pulseira representava. Não era apenas um presente caro, era muito, muito mais que isso. Aquilo era um "eu te amo". Voltei para a sala, interrompi a conversa e levei Adelita para um canto. Abracei-a. Um abraço apertado e cheio de carinho, querendo dizer muita coisa. Tanta coisa que achei melhor interromper e voltar para o banheiro. Abri o chuveiro e não entrei. Sentei num banco com os cotovelos nos joelhos e as mãos na cabeça e chorei. Chorei por minha mulher, pela vida louca que estava vivendo, por ter sacudido Ângela e por não ter coragem de pôr fim a tudo aquilo, naquela hora. Me sentia como se fosse dois. Um queria parar, e o outro... Voltei para o quarto e me servi de mais uma.

Quando voltei para a sala, minha mulher e Ibrahim sorriram para mim e ele quis ver minha pulseira. Balancei o pulso para mostrar e fui pegar algo para beber. Ângela se aproximou e disse baixinho, sarcástica:

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— Fizeram amor à tarde? Nova lua-de-mel?

Em seguida, ela se afastou, e fomos todos para a festa. Era em Copacabana, num apartamento lindo. O casal que recepcionava era festeiro. Suas festas eram famosas. Minha mulher e eu não éramos os únicos paulistas. Poderíamos perfeitamente nos enturmar, mas ficamos num canto de mãos dadas.

Uma das convidadas estava num porre horroroso, sentada sozinha, num sofá enorme. Estava tão bêbada que ninguém se aproximava. Às vezes, dava a impressão de que ia vomitar ou cair do sofá. Era uma jornalista famosa, uma mulher linda, e eu a admirava muito. Vê-la naquele estado me incomodou muito. Aquela cena continuava e ninguém ia socorrê-la. Um casal se juntou a nós, e fui até o sofá para ver se dava uma força e conseguia tirar aquela mulher daquela situação. Tinha acabado de me sentar e sorria para ela quando ela me surpreendeu. Olhou direto nos meus olhos e disse:

- Você é casado com aquela lá? Qual dos dois é rico?

Ela não estava só de porre. Estava ferina também. Voltei rindo para o meu lugar. Os três quiseram saber o que tinha acontecido, pois eu ria muito. Tinha achado a pergunta engraçada, quase jornalística. Respondi qualquer coisa e mudei de assunto.

A festa estava morna, custando para embalar. Algum tempo depois, mais convidados chegaram. Um amigo meu, que era conhecido de todos e andava sempre alto, resolveu animar a festa. Pediu para as pessoas se aproximarem. Espalhou cocaína sobre a mesa de centro, ajoelhou-se e começou a cheirar.

Levantou-se rindo, queria passar o canudinho para as outras pessoas. Todos ali gostavam muito dele, mas ninguém se aproximou. Ibrahim nos chamou para ir a uma boate, achou que o ambiente estava muito pesado. Saímos e fomos todos. Lá Ibrahim mandava e, apesar de lotada, em cinco minutos estávamos numa mesa de pista. Dois casais amigos deles se juntaram a nós. Minha mulher, Ângela e eu nos sentamos juntos. Estávamos todos muito alegres. Como o lugar estava na moda, Ibrahim se divertia tirando fotos. Todos sabiam que iriam para a coluna dele.

Já era tarde, duas da manhã, e Ângela me tirou para dançar. Estávamos quase na pista, quando um homem a pegou pelo braço e disse qualquer coisa no ouvido dela. Ela puxou o braço, disse um monte de desaforos e ameaçou ir para cima dele. Entrei no meio, derrubando cadeiras e ele também. A confusão foi grande, e fomos parar no meio da rua. A boate

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ficava em Ipanema, em frente a uma praça. Muita gente saiu de dentro para ver ou apartar, mas ninguém conseguiu nos segurar. Finalmente, os amigos do sujeito o colocaram num táxi e Ângela e minha mulher me acalmaram. Ibrahim que só naquele momento apareceu, disse qualquer coisa da qual não gostei algo como: "Você não precisava fazer tudo isso". Aquilo me estressou de vez. Puxei minha mulher para dentro de um táxi, fomos para a casa do Ibrahim arrumar nossas malas e baixamos no Anexo do Copacabana. Durante toda aquela confusão, minha mulher permaneceu como sempre: calma e tranqüila. Quando chegamos ao hotel, ela comentou que Ibrahim ia ficar chateado por termos saído da casa dele assim, de madrugada. Rimos daquilo tudo e fomos dormir.



No dia seguinte, tomamos café no apartamento do hotel, que dava para a piscina. Não há ressaca que resista a um café-da-manhã no terraço do Anexo. Aquilo é um colírio, um elixir. Da piscina se ouvia o burburinho alegre dos hóspedes. Estávamos tão bem ali que nem saímos do apartamento. Ficamos ali, curtindo a preguiça. Minha mulher deu alguns telefonemas, inclusive para Ângela e Ibrahim. Mais tarde almoçamos de novo no terraço e, depois de uma soneca, voltamos para São Paulo. Quando chegamos a Congonhas, o avião não descia, ficava dando voltas e mais voltas. Nada de descer. Depois de vinte minutos, ouvimos o comandante:

— Vamos para o aeroporto de Campinas. O pedal do freio está com defeito. Só poderei dar uma pedalada. Não se preocupem, a pista lá é muito longa.

Dei as mãos para Adelita e tentamos ficar calmos. Depois de algum tempo esvaziando os tanques de combustível, o avião começou a descer. Quando já estávamos bem baixo, olhei a pista. Havia muitas ambulâncias e carros dos bombeiros, e jogavam espuma na cabeceira. Minha mulher olhava, parecia calma. A maior parte dos passageiros estava bem. Alguns rezavam e uma senhora chorava discretamente. O comandante falou novamente, explicando que havia uma boa chance de a única freada dar resultado, já que a pista era enorme. Pediu para pormos a cabeça entre os joelhos e começou a descer. Depois de taxiar por um tempo que pareceu uma eternidade, usou o freio e o avião parou. Levantei a cabeça e vi que estávamos a poucos metros dos bombeiros e da espuma. Todos batemos palmas. Rapidamente os bombeiros entraram e nos ajudaram a descer por um escorregador inflável.

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A Água Santa assustava. Quando a sirene tocava durante o dia todos ficavam apreensivos, porque nunca, por mais que conhecêssemos nossos companheiros de cubículo, sabíamos se ele estava metido em alguma encrenca. Por exemplo, se traficava drogas dentro do presídio, já que este era um dos negócios mais rentáveis. Quem tinha coragem de fazer isso seguramente sustentava com folga sua família.

Era difícil imaginar como a droga entrava, principalmente lá, onde o pessoal ficava na tranca o tempo todo e não tinha nem banho de sol. As visitas eram revistadas minuciosamente. Muitas vezes ouvi reclamações revoltadas de internos que contavam a vergonha que a esposa, irmã ou mãe tinham passado ao serem revistadas. Tinham que tirar a calcinha e ficar de cócoras em cima de um espelho, para que a segurança do presídio tivesse certeza de que não carregavam nada na vagina. São incríveis as histórias que ouvíamos, até estiletes eram encontrados. Quando a administração pegava alguém puxando fumo ou cheirando coca, o alarme tocava e todos iam para seus cubículos, que eram literalmente revirados. Só não desmontavam os beliches.




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