O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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Tudo correu bem durante a viagem. Todos conversavam animados, até eu, que disfarçava o meu terror. Paramos duas vezes a meu pedido, uma para tomar um café e outra para almoçar.

A chegada ao Água Santa foi calma. Depois que o pessoal do presídio assinou os documentos da minha transferência, não vi mais o delegado

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nem a escolta. Dois guardas me levaram para uma sala enorme e me largaram sozinho por algum tempo, até aparecer um camarada, que perguntou se eu queria cortar o cabelo e fazer a barba. Não fazia barba ou cabelo desde que saíra de São Paulo, parecia o conde de Monte Cristo. Pedi que deixasse o bigode, à moda antiga, com a ponta torcida. Esse cara, que estava preso ali havia muitos anos, me ajudou muito nos primeiros dias.



Em poucas palavras, explicou como funcionava o presídio, como era a disposição das galerias, como deveria tratar os guardas e os companheiros. Alertou-me quanto ao diretor: era um homem justo mas muito exigente, principalmente com a limpeza do presídio. Se um interno jogasse papel ou cigarro no chão, isso era considerado falta grave; se fosse pego com drogas, teria que responder a mais um processo; parar na galeria e conversar com um interno de outro cubículo, só com autorização ou acompanhamento de um agente penitenciário. Enumerou uma série de coisas que eu não devia fazer, e outras que podia ou devia, se quisesse viver razoavelmente bem ali. Explicou também que aquela era uma prisão de espera. Em princípio, ninguém ali estava cumprindo pena. Ou o camarada estava esperando o resultado do seu processo, ou estava de castigo. No meu tempo, pelo menos, não havia banho de sol, era só concreto armado e grades.

No Água Santa, todos os cubículos — no Rio de Janeiro não se diz "cela", e sim "cubículo" — eram trancados. Só o meu, o C-1, ficava aberto durante o dia, pois os internos trabalhavam na administração. Às cinco da tarde todos deveriam estar de volta, então o cubículo era trancado e reaberto às sete da manhã. Acho que foi o dr. Newton que deu um jeito de eu ir para lá.

O guarda que me acompanhou andava depressa. Subi várias escadas, passei por corredores e galerias até chegar ao C-1. Assim que entramos, ele mostrou o beliche que eu ocuparia, deu instruções sobre os horários em que a água era liberada para o banho, virou as costas e foi embora.

Era pouco antes das cinco e o lugar estava vazio. Tinha mais ou menos quatro metros por quatro. Havia cinco beliches, e para passar entre eles era preciso encolher os ombros. Em frente aos beliches, logo depois das grades da entrada, ficava outro beliche, ao lado de uma mureta de um metro de altura que separava a cela do vaso sanitário. Quase no fundo, vi dois canos de saída de água, que eram usados para os banhos.

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Não havia parede: o cubículo continuava por uma espécie de terraço com mais ou menos dois metros de largura por quatro de comprimento. A galeria C onde me encontrava era no último andar e desse terraço se via o céu além das grades que serviam de teto. Ali sempre havia policiais militares cumprindo sua ronda, tomando conta da população carcerária. Cada galeria tinha cem cubículos, cinqüenta de cada lado. No outro lado do prédio ficava o presídio para mulheres.



Sozinho, fiquei observando tudo. Constatei, é claro, que ali não existia privacidade. Ela só seria possível na parte de baixo dos beliches, com toalhas de banho dos dois lados. Mas isso era proibido, era tido como um "come quieto", um ninho de pederastas, o que, no Água Santa, era considerado falta gravíssima.

Fiquei no último andar do beliche perto da entrada, do lado esquerdo, junto às grades e ao corredor. Não tive escolha, só havia dois lugares, esse e outro bem em frente, praticamente em cima do vaso sanitário.

Meus companheiros começaram a chegar, eram doze ao todo. Apesar de o Água Santa ser um presídio de espera, quase todos estavam ali cumprindo pena. Conforme chegavam, iam me cumprimentando e se dirigiam para seus lugares. Alguns começaram a tirar a roupa e a pegar suas toalhas. Já passava das cinco, ou seja, havia água para quem quisesse tomar banho. Os banhos eram mais ou menos assim: cada preso entrava debaixo d'água, se molhava e saía para se ensaboar, enquanto outro entrava e fazia a mesma coisa. Então era a vez de o primeiro tirar o sabão. Fiquei sem roupa e entrei na fila. Fazia muito calor, e estivera viajando desde cedo, quando saímos de Cabo Frio. Como eu não tinha sabonete, um de meus companheiros me ofereceu o dele. Todos tagarelavam muito a respeito do dia, e um deles disse que tinha sido ele que me atendera no almoxarifado e me entregara uma camiseta branca e calça azul. Aliás, na camiseta vinha estampado o nome verdadeiro do Água Santa: Instituto Ary Franco.

Fiquei ali mais de dois meses, e durante esse tempo, no meu cubículo, apenas um interno recebeu alvará de soltura. O relacionamento entre nós era razoável, até porque, como trabalhávamos na administração, não tínhamos muito tempo para criar antipatia. Trabalhar era um prêmio, e ninguém queria perdê-lo. Só houve um incidente no cubículo durante o período em que estive lá, e justamente comigo.

Quando não estávamos trabalhando, jogávamos dominó ou escrevíamos cartas para a família. Os que não tinham dinheiro para mandar

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lavar a roupa aproveitavam e faziam isso com a água que tinham dado e punham a roupa para secar no terraço. Quem lavava a minha era uma bicha caída, que o barbeiro me indicou.



Aqui mudarei o nome dos meus companheiros de cela. Não quero causar constrangimento a eles, que devem estar vivos e recuperados. Rando era o xerife, porque era o que estava lá havia mais tempo; Zeca e Orlando ocupavam o beliche perto do terraço. Os outros eram: Dorminhoco, Paulo, Alonso, Nilson (que eu chamava de Baitola), Ferrugem (o Cenoura), Velho, Professor, Chico, Cabeça e Resende.

No cubículo do outro lado do corredor ficava o pessoal que trabalhava na cozinha. Mas esse cubículo era trancado, seus ocupantes só saíam de lá acompanhados por funcionários. Nós do C-1 podíamos andar à vontade pela nossa galeria e pelo presídio, só não podíamos ir até as outras galerias, sem autorização.

No dia seguinte, às seis e meia da manhã, depois do café — servido pelos próprios internos —, todos saíram para a faxina, que é como chamam, no Rio de Janeiro, qualquer trabalho feito no sistema prisional. Voltei para o beliche para dormir um pouco. As luzes nunca eram apagadas e eu não tinha pregado o olho naquela primeira noite. Além das luzes, tinha ouvido gritos horríveis, que vinham das galerias de baixo. Passei o primeiro dia quase sem sair do cubículo. Andei um pouco pela galeria para me exercitar um pouco, mas logo voltei, porque o pessoal dos outros cubículos me chamava, queria me conhecer ou bater papo. Eu apenas respondia do meio da galeria com acenos de mão. O barbeiro tinha me avisado para não me aproximar das grades de outro cubículo para conversar.

Quando estava passando por um cubículo próximo do meu, um interno me chamou. Insistia para eu me aproximar, tinha um livro na mão e queria me entregar. Felizmente um guarda aproximou-se sorrindo e apresentou-se:

— Oi! Sou o Bandeira, tudo bem?

Estendeu a mão e me encaminhou até o cubículo onde estava a pessoa com o livro.

— Conhece o banqueiro Carlinhos, presidente de uma escola de samba?

Estendi a mão para ele, cumprimentei-o e recebi o livro. Carlinhos, antes de entregá-lo, escreveu uma dedicatória. Quase não conversamos.

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O guarda avisou que papai tinha falado com o diretor e estava à minha espera lá embaixo. Uma moça também tinha ido me visitar e não queriam permitir sua entrada. Mas, como papai a conhecia, o diretor autorizou

Que alegria foi ver meu pai e dar com Ester sorrindo para mim. Os dois haviam trazido doces e frutas, fizeram festa para mim. Ester era incrível. Conseguiu conquistar papai, que normalmente ficava carrancudo com qualquer pessoa que se aproximasse de mim e que ele não conhecesse bem. Mas ela era especial, tenho certeza que deve estar fazendo a felicidade do sortudo que se casou com ela. A visita foi ótima, embora curta. Não era dia de visitas, e aquilo era uma exceção concedida pelo diretor. Papai tinha ficado impressionado com ele, com sua educação e com a maneira como tratava as pessoas. Bandeira apareceu para me levar de volta para o cubículo. Estava na hora do almoço. Ester me beijou com carinho e pediu que eu incluísse o nome dela na lista das pessoas que poderiam me visitar. Os dois partiram e Bandeira me acompanhou de volta à galeria.

Tanto o almoço como o jantar eram servidos nos cubículos. Tachos enormes eram carregados por internos, que iam passando pelas galerias e, aproximando-se das grades, derramavam no prato de cada um a comida. O sistema era meio complicado, mas o Água Santa era "tranca dura", todo mundo ficava trancado o dia inteiro. Na época eram oitocentos internos. Nunca provei a comida de lá. No almoço comia na cantina e, no jantar, o cantineiro vinha para a tranca e trazia o que eu tinha encomendado, geralmente sanduíches, coca-cola e chocolates. Sempre tinha um estoque de frutas, bolos e doces, que papai dava um jeito de fazer chegar a mim.

Houve um acontecimento no mínimo estranho naquela tarde, depois das cinco, quando já estávamos todos no cubículo. Um guarda se aproximou das grades e me avisou que um senhor havia sido autorizado pela administração a vir até as grades e conversar comigo. Era um alto graduado da Marinha. O guarda queria saber se eu concordava em recebê-lo. Concordei, e logo vi um senhor que trazia pela mão um menino de uns nove ou dez anos.

— Oi, Doca! Tive que trazer meu neto para ver você, ele queria conhecê-lo de qualquer jeito.

Conversei com eles por alguns minutos e em seguida eles partiram. O Professor, que ficava no beliche ao lado do meu, disse:

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- A imprensa está fazendo de você um herói.



A noite desse primeiro dia transcorreu sem novidades. Participei de um torneio de dominó que o Ferrugem organizou e, quando tocou a cirene todos baixaram a voz e o torneio terminou. Depois da sirene, podia-se conversar em voz baixa, mas era proibida qualquer atividade, jogar dominó, lavar roupa etc.

Foi mais uma noite sem pregar os olhos. De madrugada fui até o terraço me refrescar e fiquei lá um bom tempo. O policial que estava de plantão fez sinal pedindo um cigarro, e eu joguei um para ele. Fumou ali mesmo, como se estivéssemos conversando. Não trocamos uma palavra. Quando acabou, fez continência em agradecimento e continuou a ronda. Não sei se cochilei depois que voltei para o beliche, sei que, quando a sirene tocou, fui o primeiro a entrar no banho.

Passei a manhã de novo sozinho e resolvi tentar dormir um pouco. Estava começando a me ajeitar quando apareceu um guarda alto, muito sério, que logo falou:

— Sou o sargento chefe de segurança. Vou acompanhar você até a sala do diretor. Ande logo, não tenho tempo a perder.

Desci da cama, vesti o tênis e o acompanhei. Quando chegamos à recepção, o chefe de segurança mandou-me esperar e entrou. Poucas vezes vi um olhar com tanto ódio como o daquele camarada. Ele reapareceu e me mandou entrar, e felizmente se retirou. O diretor se apresentou, de pé:

— Sou o capitão diretor desta instituição.

Eu ME SENTI À VONTADE E DESCONTRAÍDO. O CAPITÃO ERA UMA PESsoa agradável, apesar de deixar evidente sua autoridade. Passava esta imagem: ali quem mandava era ele, em tudo e em todos. A primeira pergunta que fez foi:

— Já explicaram o que quer dizer pisar na bola?

Respondi que sim, e ele pediu que eu repetisse o que tinha entendido.

— Não devo atrapalhar a administração, e tenho que conservar o prédio limpo, não me meter com drogas, não freqüentar outras galerias e cubículos sem autorização e fugir de encrenca com os companheiros.

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Ele sorriu.



— Quem vive dentro desse esquema se dá bem em qualquer sistema prisional do Rio de Janeiro.

Disse que era muito difícil administrar uma prisão daquele tamanho, cuja construção ainda não estava terminada e com verbas curtíssimas. Principalmente com um efetivo de oitocentos internos quando na verdade fora idealizado para seiscentos. Para piorar, tinha ali internos de todos os tipos, réus primários e reincidentes, sem que pudesse selecioná-los de acordo com a gravidade dos crimes que tinham cometido.

— É por essa razão que não posso admitir que pisem na bola. Não conseguia decifrar se aquilo era um sermão ou se ele estava se abrindo comigo. Preferi pensar na segunda hipótese. E acho que tinha razão, pois, ao me pôr a par de suas preocupações, ele me deixou tão à vontade que, quando parou de falar, fui eu que comecei. Falei do medo que tinha daquele lugar, contei algumas passagens da minha vida, até da minha convivência com Ângela.

Ele disse que, infelizmente, o caso adquirira dimensões extraordinárias por causa da imprensa. Agora só havia uma maneira de tocar a vida em frente: tendo fé. Abriu a gaveta e me deu um livro de auto-ajuda. Era Alegria e triunfo, que eu conhecia muito bem, porque meu avô me dera um igual quando eu tinha uns dez anos e morava na fazenda dele. Acho que esse livro foi o primeiro livro de auto-ajuda, pois o ganhei de meu avô em meados de 1944.

Aproveitei a oportunidade para agradecer por ele ter recebido papai. Ele disse que tinha reconhecido o "velho" na recepção e o convidara para um café. Na hora percebi que, no pouco tempo em que os dois estiveram juntos, papai havia conquistado sua amizade.

A conversa continuou. Ele falou sobre a biblioteca, um projeto novo para o qual tinha recebido muitas doações de livros. Estava precisando de alguém para organizá-la e para distribuir os livros pelas galerias. Fiquei apreensivo. Sabia que nas galerias de baixo o clima era outro, principalmente na "A", que era onde ficavam muitos internos de castigo, vindos do presídio de Ilha Grande. Mas não tinha alternativa... Aceitei trabalhar lá. Ele agradeceu:

— Então você começa amanhã. Um interno que conhece o presídio vai ajudá-lo. E autorizei seu pai a vir aqui visitá-lo sempre que quiser.

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Antes que eu saísse, perguntou se eu daria uma entrevista à jornalista Marisa Raja Gabaglia. Concordei, ela era grande amiga da Ângela e tinha tido bastante contato com ela.



Do lado de fora, dei de cara com o sargento, de pé, louco da vida, porque a entrevista com o diretor tinha demorado. Olhou com ódio em minha direção e disse:

- Por mim você estaria na galeria A, não sei por que essas regalias. Vou acompanhá-lo até a secretaria para você pegar o seu crachá de faxina, depois você se vira sozinho e vai para a sua galeria ou para a biblioteca.

Peguei meu crachá e pedi que me ensinassem como chegar à enfermaria, pois queria agradecer ao médico e ao interno que o ajudava pela atenção que estavam dando a mim. O dr. Ivo havia me receitado um remédio a cada oito horas, e isso vinha sendo seguido dia e noite, sempre no horário. O remédio não podia ficar comigo, então eu dependia deles.

Demorei uma semana para me orientar no Água Santa. Era tudo muito parecido. De repente dava numa grade trancada e tinha que fazer todo o caminho de volta, começar tudo de novo, prestando muita atenção para não errar e voltar à mesma grade. Havia escadas em todas as direções — norte, sul, leste e oeste. Se errasse a escadaria, dava em alguma passagem não permitida, como a porta que daria acesso à prisão feminina.

Renato, meu ajudante na biblioteca, estava lá havia dois anos e conhecia tudo. Naquela tarde, andamos pelas galerias e por todos os setores da administração. Estivemos também na portaria, pois tinha de passar por ela para chegar às salas reservadas aos advogados.

Nas galerias andamos pelos corredores, mantendo distância dos cubículos. A galeria B não era tão clara como a nossa, os cubículos tinham apenas luz elétrica. Outra coisa que chamou a minha atenção é que havia mais internos nos cubículos.

A "a" me assustou. Era úmida e escura, ficava no subsolo, e os cubículos eram lotados. O som alto das vozes soava estranho, não paravam de falar. Não respeitavam muito esse negócio de "pisar na bola". Nem os guardas se sentiam seguros, muito menos eles. Acho que o único cara que impunha respeito lá era o sargento. E não estavam muito preocupados com coisa alguma, como ir parar em uma delegacia e responder a outro processo por drogas ou qualquer crime que cometessem lá dentro.

Aliás, depois de passar cinco anos em penitenciárias do Rio de Janeiro e de Niterói, sei que, dependendo da situação, um interno comete

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um crime sério só para ir para uma delegacia e responder a outro processo. Por exemplo, se ele acha que sua vida corre risco.



Meu ajudante era jovem, tinha vinte e poucos anos. Não chamava atenção: era baixo, cafuzo, como boa parte da população carcerária. Mas era muito simpático e esperto. Estava preso por assalto à mão armada.

Para tudo o que eu precisava, pedia a ajuda dele ou a do barbeiro seu Antônio. Este fazia a minha barba todas as manhãs, a minha e a de quem quisesse. Conversávamos muito, e ele contou várias histórias que ouvia, no exercício de sua profissão.

Já fazia dois ou três dias que eu estava trabalhando. Estava bastante ocupado, pois havia livros doados espalhados por toda a biblioteca, em algumas estantes feitas lá mesmo, muito bem-feitas, por sinal.

Estava distraído com aquela montanha de livros quando o Bandeira entrou para avisar que uma jornalista do Última Hora estava me esperando para uma entrevista.

Tinha tentado me preparar para essa entrevista. Afinal, Marisa havia sido amiga de Ângela, saímos algumas vezes juntos. Mas ficou só na tentativa. Quando o Bandeira me avisou, fiquei pregado no chão. Tinha vontade de pedir para ele dizer que eu estava na enfermaria, impossibilitado de dar uma entrevista. Também isso ficou só na vontade. Acompanhei o funcionário até onde ela me esperava.

Não vou dizer que caímos nos braços um do outro, mas ao ficarmos cara a cara a emoção foi forte. Não esperava por aquilo, afinal, tinha lido várias vezes nos jornais declarações de amigas da Ângela me esculhambando. Nunca me defendi ou devolvi os xingamentos nas entrevistas que dei, porque acho que, se estivesse no lugar delas e matassem um amigo meu, faria a mesma coisa.

Marisa, passado o primeiro momento, me tratou profissionalmente. Gravou toda a conversa, com minha anuência, é claro. E, antes de eu sair, pediu que dissesse o que esperava do futuro. A resposta foi lacônica:

— Nada.


Dias depois ela me mandou o jornal com a entrevista. Como não guardei, transcrevo do livro de Evandro Lins e Silva, A defesa tem a palavra (p. 233), as palavras de Marisa no Ultima Hora: "Ângela Diniz morreu. Mulher bonita que vivia perigosamente. E pagou com a vida o preço que jogara tão alto. O pressentimento que ela teria uma morte trágica nunca me abandonou. Eu analisei isso, ela respondia sempre

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com a mesma frase desafiadora de sempre: Sou bonita, rica e sei brigar. Não soube brigar nem um pouco e com o sentimento humano não se brinca; sobretudo com o sentimento de um homem que anda permanentemente armado, ou seja, alguém que tem medo, que se defende. A arma é uma fraqueza, o medo de uma permanente agressão. Ângela provocou! Gostava de provocar. Mas há um limite para tudo. Inclusive para a provocação! Não vou poder nunca perdoar o gesto do Doca. Mas eu o compreendo. Hoje é um farrapo, um homem que se arrasta lambendo os restos da vida, aos frangalhos. Humilhado às últimas conseqüências, mas um candidato a morrer; viverá sempre povoado de fantasmas".

APesar de insuportável, a vida no Água Santa não era Monótona. Dia após dia, noite após noite, sirenes tocavam por causa de alguma tentativa de fuga, de uma rebelião na "A", ou porque internos estavam sendo encaminhados para a solitária por serem flagrados fazendo sexo. Fora as vezes em que a sirene tocava e todos eram trancados para contagem e a PM revistava todos os cubículos.

No período em que estive lá, nenhuma fuga vingou, o Ary Franco era presídio de segurança máxima, muito bem vigiado. Mas houve uma escapada que eu, pelo menos, achei engraçada. Um interno que trabalhava na portaria desapareceu, e só descobriram isso às seis da tarde. Naquela tarde, após a contagem, foi constatado o seu sumiço, para a alegria geral dos internos, que, quando souberam, bateram palmas e deram urros de satisfação. Percebi que a guarda não ficou muito preocupada, e no dia seguinte descobri por quê. A administração mandara um funcionário até a casa da irmã do detento e ele estava lá dormindo. Evidentemente foi da cama na casa da irmã para a tranca, onde ficou dez dias.

Era março de 1977. Pedi que comprassem um bloco e um caderno para que eu me distraísse, anotando os acontecimentos do meu dia-a-dia. Comecei também a escrever sobre minha vida. Depois daquele bloco e do primeiro caderno, comprei muitos outros, e daí em diante, mesmo quando passava muito tempo sem escrever, sempre fazia alguma anotação.

Organizar a biblioteca foi fácil, porque meu antecessor já tinha bolado um sistema e eu apenas continuei o que ele havia começado. Os internos que trabalhavam podiam ir até a biblioteca, escolher um livro

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e retirá-lo, assinando um protocolo. Tinham de devolvê-lo em quinze dias ou renovar o documento. Para atender os que estavam trancados entregávamos em todos os cubículos uma lista semanal com as obras que tínhamos. O camarada escolhia uma, e eu ou meu ajudante providenciávamos a entrega. Na "A", era raro o livro voltar aproveitável. Lá não havia beliches nem colchonetes, e além do mais era um amontoado de gente. Acabavam sentando nos livros ou usando-os como travesseiros. Por causa disso, num canto da biblioteca, fundei uma espécie de "hospital do livro", onde tentávamos recuperá-los.



Nos primeiros dez ou quinze dias de Água Santa, papai me visitou quase todos os dias, e assim continuou até eu sair dali. Minha mãe veio de São Paulo com minhas tias; parentes e amigos apareciam nos dias de visita. Da equipe do dr. Evandro, quem me trazia notícias era o dr. Arthur Lavigne. Ester veio no começo, mas de repente sumiu. Fiquei sabendo, depois de algum tempo, que ela estava namorando um funcionário da casa.

Nessa época, já conhecia melhor meus companheiros de cubículo e já sabia alguma coisa da personalidade de cada um. À noite, além dos torneios de dominó e de damas, a conversa girava em torno de leis, advogados, anistias, alvarás de solturas e dos crimes de cada um. Três deles, antes de irem para a cadeia, estavam cursando faculdade. Havia na galeria dois estudantes de direito que, apesar de trancados, trabalhavam no departamento jurídico. Alguns internos caídos preferiam os serviços deles, e não os dos advogados do Estado. Eu freqüentava o departamento jurídico porque me dava bem com os dois. Gostava de conversar com eles. Era comum o pessoal da faxina visitar outros departamentos, os funcionários não se importavam com isso. O único que quando aparecia mandava a gente de volta para nossa seção era o sargento. Mas isso era raro; como chefe da segurança, ele passava o dia andando pelas galerias.

O Professor não tinha cursado faculdade, mas na época em que entrou em cana era jornalista. Era o mais inteligente dos meus companheiros do C-1, um tremendo 171, um estelionatário. Sempre tinha alguma coisa para vender. Era uma espécie de corretor, todos os que queriam vender um relógio ou algum outro pertence procuravam o Professor. Ele era branco, 1m 70, cabelo e olhos pretos. Quando queria dinheiro emprestado era difícil escapar da conversa dele. Ter de volta o dinheiro era impossível. Na sociedade carcerária, além do traficante e do

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Jogo do bicho, havia os agiotas. Não é nada recomendável ter de esconder-se deles por falta de grana para pagar uma dívida. Esse era um dos argumentos do Professor.



- O agiota está atrás de mim.

Chiquinho, Paulo e Cabeça tinham freqüentado faculdade... segundo alardeavam. Tinham até carteirinha de estudante, mas artigo 171 é o que mais há nas cadeias. O artigo do Chiquinho era o 121 — homicídio —, o mesmo que o meu. Paulo e Cabeça também eram 171.




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