O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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Pedi pela nossa amizade, não vejo nada de mais nisso.

O menino sentou-se com as pernas dobradas, pôs a cabeça entre os joelhos e ficou umas duas horas olhando para o chão. Lá pelas cinco da manhã, o delegado substituto apareceu junto com um militar e os dois o levaram. Tenho certeza de que o Paulista e o Moçambava teriam se dado mal se tivessem abusado daquele menino, pois o militar voltou sozinho até a cela e, com cara muito séria, me chamou. Deu o seu nome, o batalhão onde servia, o telefone de lá. Disse, olhando para todos na cela, que, se eu precisasse de alguma coisa, era só procurá-lo.

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Mas não adiantou muito ter ajudado esse garoto. Em 1984, fui transferido da penitenciária Lemos de Brito, no centro do Rio, para a penitenciária Vieira Ferreira Neto, em Niterói. Como tinha um bom comportamento, trabalhava na secretaria, era arquivista. Um dia ele apareceu, vindo do presídio da Ilha Grande. Era homem feito, 1m 80, corpo de atleta, mas completamente perdido. Tinha em sua ficha: assalto à mão armada e tráfico de cocaína. Era bissexual declarado. Não o reconheci. Percebi no dia em que chegou que sorria para mim e, dias depois, quando foi liberado para o convívio, ele me procurou e se identificou. No domingo seguinte, durante a visita, apresentou-me sua namorada, moça muito linda. Ou melhor... ele nos apresentou, pois eu estava com Marilena, minha atual esposa.



O último arruaceiro que entrou na "Malibu" no Carnaval de 1977 foi um argentino. Foi, no mínimo, inesquecível.

Ele chegou à carceragem nas primeiras horas da quarta-feira de Cinzas, lá pelas quatro da manhã, completamente bêbado, acompanhado de policiais militares e de investigadores. Não sei o que tinha feito, mas dava para ouvir o berreiro e o barulho a um quarteirão. Quando abriram a porta que dava para o corredor da carceragem, vimos uma nuvem de policiais militares e civis, dando pontapés e socos. De vez em quando, um dos policiais saía voando e se esborrachava contra a parede ou caía no corredor. Passaram em frente às celas, em direção à Malibu, e dois ou três minutos depois jogaram o indivíduo lá dentro. Durante todo o trajeto, o argentino berrava:

— Mucho peor que la policia de Perón. Voy a quejarme con el cônsul...

Só pude vê-lo 24 horas depois, quando ele foi libertado e passou por nós, cercado por uns dez policiais, pedindo desculpas e querendo saber o que tinha acontecido. Parecia uma parede, tinha uns dois metros de altura e estava em ótimo estado. Pude vê-lo bem de perto, porque pararam um segundo em frente a minha cela. Ele tinha dois palmos a mais que os policiais e sua mão parecia uma raquete de tênis.

O Carnaval acabou e tudo voltou à rotina na delegacia. Novos presos entravam, outros eram transferidos, cartas e mais cartas chegavam todos os dias.

Já estava na delegacia de Cabo Frio havia quase três meses; nesse tempo todo fui assistido por papai, Paulinho Badhu, Ivo e Ester. Mamãe,

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meu irmão Luiz Carlos e meu padrasto Luiz da Cunha Bueno vieram algumas vezes de São Paulo.



Das cartas que recebia, só respondia às de pessoas que conhecia. A maior parte das cartas era de mulheres, mas havia também muitas de pastores de seitas de que eu nunca tinha ouvido falar. Às vezes eu recebia recados de mamãe, dizendo que um advogado tinha ligado, propondo me tirar da cadeia imediatamente, e é claro que pedia certa quantia de dinheiro. Por conselho do dr. Evandro, sempre concordamos em ter esses serviços, mas só pagaríamos quando eu estivesse com o alvará de soltura.

UM DIA ANTES DE SER INTERROGADO PELO JUIZ DA COMARCA DE Cabo Frio, recebi novamente a visita do jornalista Salomão Schwartzman.

Estava sentado na minha cama, lendo jornais para ver se esquecia o calor que fazia naquele dia, que estava deixando todo mundo desesperado. Às vezes, ensopava o lenço em água mineral e passava no rosto. Estava fazendo isso quando o carcereiro apareceu e me levou à sala do delegado.

Quando entrei, dei de cara com o Salomão. Gostei de vê-lo, afinal ele tinha publicado o que eu dissera em minha primeira entrevista, sem inventar histórias.

Ele queria outra. Não lembro se veio de surpresa ou se eu já o esperava. Logo estávamos conversando, o dr. Newton, ele e eu, enquanto o fotógrafo fazia o seu trabalho. Na entrevista, o delegado disse que, ao me conhecer, mudou de opinião sobre o meu caráter. Contou que eu me relacionava bem com todos, tanto com policiais como com meus companheiros de cela. Falamos também sobre Ângela, mas, por sorte, quando ele começou a entrar mais fundo nesse assunto, papai entrou na sala. Com a presença do velho, a entrevista ficou mais formal. Logo depois, o delegado achou que eu deveria levar o Salomão e o fotógrafo até a carceragem, para conhecer a minha cela e meus companheiros. Só pediu para não mostrar a "Malibu".

Fomos até a cela, apresentei meus companheiros e conversamos por uns quinze minutos. O fotógrafo ficou muito à vontade, tirou uma dezena de fotos e, em seguida, nos despedimos.

Algum tempo depois, fiquei sabendo que o juiz, ao tomar conhecimento dessa entrevista, me transferiu para o Água Santa. Mas o que

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mais estranhei foi o que aconteceu com outros crimes que ocorreram na época. Um pintor conhecido cometeu um assassinato quando eu já estava preso. Matou um homem a tiros, só porque deram um encontrão na calçada em que caminhavam. Posso até entender que uma pessoa transtornada possa cometer um crime sem sentido. Não consigo compreender, no entanto, como esse pintor foi absolvido sumariamente, pouco tempo depois.



Durante o período em que estava fugindo, me escondendo por aí, preocupado com o que a imprensa dizia a meu respeito, houve em São Paulo outro assassinato que deveria despertar o interesse da imprensa. Pois o crime havia sido cometido pela filha de um figurão. Ela estava tendo um caso com o guarda-noturno de sua casa. Para livrar-se do marido, ela e o amante planejaram pôr fogo na casa enquanto ele dormia. Mas o crime quase não teve divulgação. Nos jornais, saíram apenas algumas linhas a respeito. Não porque eram pessoas desconhecidas, por quem os leitores não teriam interesse. Não, nada disso. O pai da moça, que eu conhecia desde criança e que sempre mereceu meu respeito e admiração, era uma das pessoas mais importantes do país, e sua empresa era e é a maior do seu ramo. A imprensa pura e simplesmente não divulgou o caso.

O tratamento que o meu caso recebeu foi completamente diferente. Durante vários anos fui capa das revistas de maior circulação. Só na Veja fui "contemplado" com pelo menos duas capas; no Globo Repórter, apareci sei lá quantas vezes; na Manchete7. Salomão que o diga. Aliás, não posso me queixar de Salomão. Nas duas ocasiões em que me entrevistou, publicou na íntegra o que lhe relatei.

Isso tudo me deixa triste e descrente do ser humano. Não sou santo: cometi um crime e paguei por ele. E não queria que o pintor fosse preso. Só cito o fato para mostrar que coisas estranhas aconteciam. Por quê? Talvez porque vivêssemos, na época, um período difícil, por conta da ditadura dos generais, no qual empresários e amigos talvez tivessem regalias.

CHEGAMOS À FAZENDA EM RIO CLARO, A 120 QUILÔMETROS DE SÃO Paulo, por volta da meia-noite. Dona Alicia e Nicolau, pais de minha mulher, e meus cunhados já estavam lá. Era um grupo alegre. Um de meus

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cunhados, o mais velho, Nico, era casado com Marina Campelo, minha amiga de muitos anos. Minha cunhada, Analicia, era noiva de um advogado tributarista que mais tarde se tornaria um empresário muito importante e senador da República por alguns anos. Nos dávamos muito bem. Os dois irmãos mais moços, Eduardo e Rodolfo, eram ótimos companheiros. Gostava daquela família. Meus sogros tinham quatro casais de amigos que eram convidados constantes. Dois dos maridos eram professores doutores em medicina, Edmundo Vasconcelos e dr. Bernardes de Oliveira; os outros eram o presidente do Metrô na época, dr. Dario de Abreu Pereira, que por sinal era um homem muito engraçado, e um intelectual e jornalista, de um carisma fora do comum, dr. João de Scatimburgo. Era um prazer ouvir e participar das conversas de um grupo assim.



Como fomos os últimos a chegar, quando aparecemos já havia uma mesa de tranca formada, gente na sala batendo papo e o pessoal mais moço na sala de cinema, onde também tinha uma mesa de sinuca e outra de pingue-pongue. Fui sentar junto à turma da tranca, numa sala que era a menor da casa, mas a mais movimentada. Tinha a mesa de jogo, um sofá, uma poltrona de couro, estante com livros, jornais e revistas, e o bar. A sala dava para um grande terraço. Como todos ali prestavam atenção no jogo, dei uma sapeada e me servi de um uísque. Resolvi telefonar para a casa da Joana. No embalo em que as tinha deixado, com certeza estavam acordadas, apesar do horário... dormindo não poderiam estar. Quem atendeu foi Pedro. Pelo volume da música e das vozes, percebi que havia uma festa. Depois dos "olás", pedi para falar com Ângela.

- Vou chamá-la, ela está dançando.

Conversamos um pouco, ela disse que ia para o Rio no dia seguinte bem cedo, porque o Ibrahim já tinha telefonado várias vezes. Perguntei quem estava lá.

— Uns amigos da Joana e um amigo meu de Belo.

Lembro bem o que senti quando ela disse aquilo. Pensei imediatamente no ex que tínhamos encontrado algumas semanas antes. Continuamos o papo por algum tempo e quando desliguei meu humor era outro. Fiz muita força para não dar bandeira. Tomei alguns caubóis e agüentei firme, não fiquei embriagado.

Substituí um dos parceiros quando ele foi dormir. Jogando e bebendo, tirei aquilo da cabeça. Afinal, o fim de semana estava apenas começando e eu ia aproveitá-lo. Foi o que aconteceu, não pensei mais nela nem em com quem

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dançava. No domingo à noite, quando tínhamos acabado de voltar, o telefone tocou. Era ela. Falou por um bom tempo com minha mulher, e ouvi ao menos o acerto que fizeram. Ou eles vinham ou nós íamos.



E as coisas estavam acontecendo numa velocidade fora do normal. Será que nossos cônjuges encaravam tudo aquilo como uma amizade tão agradável que queríamos estar sempre juntos?

O que sei é que duas semanas depois estaríamos no Rio, passando o fim de semana. Ficaríamos hospedados no Copacabana Palace, pois eu tinha que ligar para um empreiteiro de Campos que encontraria na segunda e achei que o hotel era mais apropriado.

Nesses quinze dias estive com Ângela várias vezes, ou na casa da Joana ou indo para o Rio e voltando no mesmo dia. No nosso último encontro combinamos uma passada rápida por Petrópolis, para termos pelo menos 24 horas só para nós.

Teria mesmo que me encontrar com o empreiteiro, tinha esse compromisso. Só precisava arranjar um jeito de ficar lá mais dois dias para ir a Petrópolis.

O fim de semana no Rio foi normal, com os programas de sempre. Fiz um único telefonema para o empreiteiro, que confirmou nosso encontro na segunda. No domingo, nós quatro almoçamos no Anexo do Copacabana, na piscina. Lá era e é sempre agradável. Mais tarde levei minha mulher para o aeroporto. Adelita tinha compromissos em São Paulo, móveis para entregar, coisas do gênero. Não sei se eu estava ansioso ou se havia feito algo estranho, mas achei-a pouco à vontade na hora de embarcar.

No hotel, pedi na portaria que me alugassem um Galaxie e fui para o apartamento de Ângela, que já estava me esperando com uma pequena mala de mão. Por precaução, ficamos lá um pouco para ver se Ibrahim telefonava. Fiz dois telefonemas, o primeiro para Chiquito, que sempre estava a par de tudo o que se passava na minha vida. Dei para ele o telefone do hotel em que íamos ficar. O segundo, duas horas depois, foi para casa. Queria saber se a viagem de Adelita tinha corrido bem.

Esperar por Ibrahim era bobagem. Eu sabia que ele tinha uma namorada casada e que ia jantar com ela. Eu a conhecia, era uma loira linda. Às vezes, quando estávamos sozinhos, ele falava dela.

Saímos quando Ângela teve certeza de que podíamos ir sossegados.

A viagem foi ótima. Dirigi bem devagar, curtimos cada momento, namoramos, ouvimos música e mandamos uns baseados. Quando chegamos,

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estávamos famintos e resolvemos comer num restaurante francês que elo conhecia. Assim que descemos do carro, ela abriu uma sacola que havia trazido, tirou um manto de vison e o vestiu. A noite era fria mas agradável. Estacionamos perto de uma grande praça e resolvemos caminhar um pouco. Ângela estava linda, elegantíssima. Ria com os olhinhos brilhando felizes. Brincava completamente à vontade.



Demoramos um pouco para chegar ao restaurante, de tanto que paramos para beijar, rir e brincar. Nunca esquecerei aquela caminhada curta. Se a felicidade é feita de momentos, aquele seguramente foi um.

Tive a impressão de estarmos perto do centro pelo trânsito. Apesar de a família Street ser de lá, eu não conhecia a cidade. Tinha estado em Teresópolis, ali perto, onde minha primeira mulher, Glorinha Mariano, tinha uma ótima casa.

Só de madrugada fomos para o hotel, o Hotel das Flores, que ficava no pico de uma montanha. Nossa estada foi breve. No dia seguinte, acordamos e tomamos café-da-manhã no terraço, para aproveitar a vista. Estávamos ali conversando... quando o telefone tocou. Era o Chiquito:

— Deu bode, sujou a barra. Sua mulher telefonou... o Ibrahim não acha a Ângela e ela quer saber onde você está. Eu disse que ia telefonar para a empreiteira, interromper a reunião e pedir para você telefonar assim que possível.

Quando voltei para o terraço e contei o que estava acontecendo, Ângela riu e só fez um comentário:

— O que é bom dura pouco.

Bom, que remédio. Voltamos para o Rio. A viagem foi tranqüila, o dia estava lindo, paramos umas duas vezes para apreciar a vista. Nada falamos que pudesse estragar aquele passeio. Chegando ao Rio, deixei Ângela em seu apartamento e fui para o aeroporto. Devolvi o carro e entrei no primeiro avião da ponte aérea rumo a São Paulo. Teria de tomar cuidado e fazer de tudo para não piorar a situação.

Fui direto para o escritório. Liguei para Campos e falei com o meu sócio, queria saber tudo sobre a reunião. Em pouco tempo fiquei a par de todos os detalhes. Depois conversei pessoalmente com Chiquito. Ele estava preocupado.

As oito da noite, como sempre, cheguei em casa. Embora tivesse estado calmo o dia todo, quando entrei em casa me sentia péssimo, com um aperto enorme no peito. Fui para a sala de sinuca e fiquei lá por uns

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minutos, jogando sozinho. Precisava me acalmar. Finalmente desci para o meu quarto. Minha mulher estava no telefone, desconfiei que falava com Ângela. Quando desligou, sorriu para mim. Ela era muito inteligente, tentar enrolá-la seria besteira. Fiquei esperando, andando de lá para cá, liguei aTv. Como ela não tomou iniciativa, comecei a contar que Chiquito havia telefonado e me encontrado na empreiteira, e que assim que pude tinha voltado, deixando que o argentino continuasse as reuniões. Ela me olhou e chorou. Imediatamente fui abraçá-la. Continuou chorando e disse que eu já não gostava dela. Não sei descrever o desespero que senti nessa hora.



Tinha medo de perdê-la. Lembro do que pensava naquele instante. Eu a amava, não queria fazê-la sofrer... Estava sendo muito egoísta. Sofria tanto quanto ela. Pedi que olhasse para mim e jurei que estava enganada. Eu a amava muito. Estava tão confuso que resolvi ficar quieto. E esperar que as coisas tomassem o rumo que tivessem de tomar. Afinal, de que adiantava tudo aquilo? Eu sabia que ela estava desconfiada. Estaria sempre alerta, e sofrendo por causa disso. As coisas tinham saído de controle, eu estava dividido, precisava de Adelita, mas não podia ficar sem Ângela.

O olho do furacão passou. Ficamos abraçados por um tempo, ela enxugou as lágrimas e fomos para a cama. Fizemos amor durante horas. Adorava fazer amor com ela.

Ao contrário das outras vezes, não fiz para mim mesmo nenhum juramento ou promessa que não cumpriria. Meu radar estava ligado, eu tinha que tomar mais cuidado. Talvez eu não estivesse enxergando bem o que se passava. Ângela e eu estávamos grande parte do tempo drogados e fazíamos quase tudo por impulso. Que vida era aquela? O que queríamos?

A amizade entre os dois casais continuou, assim como minhas idas e vindas para o Rio e, evidentemente, até a casa da Joana.

Minha mulher resolveu dar uma grande festa para nossos amigos de São Paulo e do Rio. Ângela e Ibrahim seriam nossos hóspedes. Ibrahim era o cronista social mais importante da época. Na coluna dele não havia só fofocas sobre a alta sociedade. Ele comentava os bastidores do poder. Tinha atravessado vários governos, falava de negócios, bolsas de valores e do Htiti internacional.

Durante a festa ele faria uma entrevista com a dona da casa para o Fantástico. A festa tinha que ser bem planejada, a lista de convidados seria enorme. Minha mulher era empresária, e reunir amigos, mulheres e homens de negócios das duas maiores cidades do país poderia ser importante,

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além de divertido. Se tudo desse certo, isso divulgaria sua imagem como empresária e pessoa do jef sef. O pai de Adelita era um homem importante no cenário nacional, e ela era ambiciosa, queria ter seu próprio espaço.



Não me preocupei muito com a festa, que era muito grande e demoraria para acontecer. Fora isso, tinha esperança de que nunca se realizasse. E tinha um grande complicador: meu caso com Ângela estava longe de acabar. Muitas vezes, no embalo, planejávamos nossa união definitiva.

Que tempos loucos aqueles. Ângela estava sempre por aqui, hospedada com Joana. Nessas ocasiões eu chegava ao meu escritório às quatro ou cinco da tarde. Passava o dia com ela na casa da amiga. Chegava lá para o café-da-manhã às nove, almoçava e só então ia tratar de negócios. Novas viagens para Belo voltaram a acontecer.

Minha vida era tão louca que eu tinha a impressão de que minha família era que estava na paralela, e não a loucura com Ângela.

Além de Joana, estávamos sempre com o Francisco. Quando começamos a pensar que mais cedo ou mais tarde moraríamos juntos, foi ele o primeiro amigo que discutiu o assunto conosco. Foi na casa dele que falei pela primeira vez que gostaria de morar em Búzios. Mas achávamos que eram planos, apenas planos. Nada indicava que seriam para logo. É verdade que não perdíamos nenhuma oportunidade de estar juntos. Sempre que telefonava para Ângela e perguntava: "Amor, como vai?", eu ouvia a risada: "Planejando nosso próximo encontro". Realmente tínhamos que planejar, pois ela morava no Rio e eu em São Paulo. Então, em princípio, não levava a sério a idéia de morarmos juntos.

Muitas vezes, depois de passar boa parte do dia com Ângela, eu ia para o escritório e, mais tarde, chegava em casa, tomava um banho e ia jantar na casa do Francisco. Então me encontrava com ela novamente. E não era só isso. As vezes, Ângela não ficava na casa da Joana e se hospedava na nossa. Lembro de ficarmos os dois assistindo à TV na cama com Adelita. Nessas ocasiões ela brincava: "Seríamos felizes os três". Uma vez, depois que minha mulher foi dormir, fui para a cama de Ângela e fiquei lá até amanhecer. Acho que curtíamos mais esses momentos de perigo, a adrenalina ficava a toda.

Não me lembro quando, mas fomos passar um fim de semana na fazenda e, como Ângela estava aqui, ela foi com a gente. Uma amiga de quem ela gostava muito telefonou, pouco antes de sairmos. Como só íamos nós, convidamos a amiga também. Já a conhecíamos de um dos almoços do Ibrahím, chamava-se Maria Antonia, era do Norte. Foram dois dias de

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imprudência: passeios a pé, a cavalo, piscina, além de, é claro, bebida, fumo. Minha mulher sabia das drogas, nunca usei nada escondido, mas ela não participava, não era a dela. Depois do jantar, jogamos baralho e, no começo da madrugada, minha mulher e eu fomos dormir. As duas continuaram conversando, estavam ligadíssimas. E eu também, mas fui para o quarto.



Sempre gostei de ler, principalmente antes de dormir e ao acordar. Mas naquela noite eu estava ligadão, não me concentrava na leitura e o sono, é óbvio, não veio. Uma hora levantei, lavei o rosto e fui andar pela casa, tinha esperança de encontrar as convidadas acordadas. Já no corredor vi que havia luz no quarto delas, bati de leve, foi a amiga que abriu a porta. Era uma pessoa muito agradável, apesar de estranha. Tinha cabelos curtos, corpo proporcional, olhos claros. Não era linda. Estava de pijama de flanela, era uma madrugada fria. Entrei e comentei que sabia que elas estavam ligadas. Sentei na cama de Ângela, e a amiga também. Queríamos mandar mais uma. Depois resolvemos que um uísque ia dar estabilidade, e fui até o bar buscar uma garrafa. Quando voltei e entrei no quarto, elas estavam se beijando. Não se incomodaram com minha chegada. Quando vi a cena, não sabia o que fazer, então me juntei a elas. Nada de sério aconteceu, ficamos molhando a boca com uísque e nos beijando.

O dia clareou, e ouvi o barulho dos trabalhadores e de cascos de cavalo. Logo teria gente andando pela casa. Apesar de ligadíssimo, fui caminhando até a porta, elas vieram junto, me beijando e rindo, me puxando, brincando de fazer barreira para eu não sair. Voltei para perto da cama, peguei a garrafa e o balde de gelo e levei de volta para o bar. Não queria saber de fofocas entre os empregados da casa.

Entrei no meu quarto e, como estava tudo em silêncio, enchi a banheira com água bem quente. Fiquei lá por muito tempo. Depois fui para a cama e pensei em Maria Antonia até dormir. Seus olhos transmitiam um tipo estranho de inquietação misturada com angústia. Conheci algumas amigas de Ângela que eram assim. Eram inquietas, e se aproximavam dela para extrair alguma coisa, atenção, carinho. Ela atraía esse tipo de pessoa. Acho que Ângela ficava com pena delas e chamava para si a responsabilidade de ser amiga, de ouvir suas tristezas, uma espécie de pára-raios. Só acordei quando a empregada trouxe o café-da-manhã.

Voltamos para São Paulo depois do jantar. A fazenda era perto e chegamos logo. Instalamos a moça num dos quartos e fui olhar meu filho. A babá e ele dormiam. Então fui andar pela casa. Fazia isso constantemente, já

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havia surpreendido o guarda dormindo várias vezes. Olhava principalmente as janelas, que eram enormes e de correr. Tinham trancas especiais e, se estivessem trancadas, era impossível abri-las por fora. Só ia dormir depois de ter certeza de que estava tudo bem fechado. Eu tinha medo, já haviam assaltado duas casas na vizinhança. Fui para o meu quarto.



No dia seguinte, logo cedo, o motorista levaria as duas para o aeroporto, e a vida na minha casa voltaria ao normal. Só a vida da casa, é claro. A minha estava irremediavelmente de ponta-cabeça.

Dias depois do Carnaval, ouvi boatos de que seria transferi-do para o presídio de Água Santa. Na primeira oportunidade, perguntei ao delegado se era verdade e se ele poderia conseguir que eu permanecesse em Cabo Frio. Ele respondeu:

— Quem manda é o juiz, ouvi dizer que a promotora pediu sua transferência. Se ele acatar, não posso fazer nada. Aliás, posso fazer sim. Vou levá-lo pessoalmente e recomendá-lo ao diretor.

Aquilo não me deixou nada tranqüilo. Tinha visto vários presos sendo transferidos, e todos saíam apavorados. Dois dias depois, lá pelas nove da manhã, avisaram que o delegado e uma pequena escolta já estavam à minha espera. Tinha de pegar as minhas coisas e sair imediatamente. O carcereiro trouxe minha mala, que estava no cartório. Ele e um policial militar ficaram dentro da cela esperando que eu me aprontasse. Quis sortear a cama e o colchão entre meus companheiros de cela, mas fui impedido pelo carcereiro. A cama, se eu concordasse, ficaria no quarto dos carcereiros. Despedi-me dos colegas e fui escoltado até a sala do delegado. Ele mesmo colocou as algemas, e justificou-se dizendo que era obrigado a seguir regras. Depois cumpriu a promessa que fizera e me acompanhou, junto com três policiais de sua confiança. Não quis que eu fosse de camburão. Usamos uma perua Chevrolet. Quando estávamos saindo, Ester chegou e aproveitei para pedir que avisasse papai e o Paulinho Badhu da minha transferência.




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