O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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Finalmente o juiz entrou na sala e a audiência começou. Estavam presentes a promotora, dois advogados que a família de Ângela contratara para ajudar a promotoria, o dr. Evaristo de Moraes Filho e o dr. George Tavares.

É difícil para eu lembrar do interrogatório e escrever a respeito de minhas declarações. Só consegui escrever sobre minha vida com Ângela há pouco tempo, em 2003. Resumindo, falei a respeito dos acontecimentos do dia da tragédia na praia dos Ossos, em Armação de Búzios, e de tudo que havia se passado na casa entre as seis da tarde e as oito da noite. Disse que tinha conhecido Ângela e seu marido seis anos antes, na casa de um amigo, em São Paulo, em uma festa para comemorar meu aniversário. No entanto, só a encontrara novamente alguns anos depois, em outra festa na casa de Francisco, também em São Paulo. Contei quanto ela havia me impressionado com sua beleza e inteligência. Falei que, depois daquele encontro, não paramos mais de nos ver. Falei também da minha mulher na época e de como tinha deixado meu filho recém-nascido e ela para viver com Ângela. Contei sobre nossos planos e como vivíamos. Contei como era a nossa vida financeira, das retiradas que eu tinha feito em minha conta bancária, tudo documentado por cheques e comprovantes de remessa.

Depois narrei os fatos do dia do crime.

Discutimos porque naquela manhã, depois de várias doses de vodca, ela convidara uma moça que vendia bolsas na praia para ir até nossa casa, para fazermos uma festinha. Em casa, durante a discussão, Ângela resolveu acabar com o nosso relacionamento e eu peguei minhas coisas, entrei no carro e parti. Mas na primeira esquina resolvi voltar, pois queria continuar vivendo com a mulher da minha vida.

Ao entrar novamente na casa, encontrei-a no corredor, sentada em um banco de alvenaria. Ajoelhei e pedi para continuarmos juntos. Eu a amava muito e não conseguiria viver sem ela. Não adiantaram os

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meus argumentos, ela dizia que eu era muito ciumento. Mas em certo momento, irritada, respondeu:



- Se quiser ficar comigo, vai ter que fazer suruba com homens e mulheres...

Em seguida, pegou minha pasta de documentos, que estava ao seu lado, e a atirou em meu rosto. Depois de me atingir, a pasta caiu no chão e se abriu. Minha arma escorregou lá de dentro e eu, em vez de colocá-la de volta na pasta, comecei a atirar. Em seguida, horrorizado ao ver Ângela caída, saí com o carro em disparada e só parei em São Paulo.

Encerrado o interrogatório, voltei para a delegacia. Senti um enorme alívio por estar lá, era muito melhor que falar sobre um assunto que me machucava tanto.

Fiquei um tempo na sala do delegado, esperando que arrumassem um lugar para mim. Tinham transferido alguns detentos para o temido Água Santa e novos presos haviam chegado pela manhã. Nada grave, eram arruaceiros que brigaram num baile pré-carnavalesco. Começaram a reclamar, dizendo que não queriam ficar junto com ladrões e assassinos, então foram para a Malibu. Lá não havia água para banho, lugar para sentar, nada, só as grades e o boi.

O delegado estava bem-humorado. Dizia que, depois da minha chegada, não houve nenhuma tentativa de fuga, apesar de ali estarem detidos homens perigosos, como o Paulista e o Waldemar. Pediu que eu contasse para ele se ouvisse alguma trama. Quando voltei para a cela, a primeira coisa que fiz foi relatar para o Paulista e o Waldemar a minha conversa com o delegado. Muitas vezes, quando papai ia me visitar, o delegado, por gentileza, mandava me buscar para que ele não ficasse de pé no corredor. Nessas ocasiões, o Paulista sempre me advertia para não cair nas esparrelas dos policiais.

O Paulista era assaltante de banco, o Waldemar tinha matado um cara num assalto a uma residência, o Azulão era estuprador e os outros dois eu não sabia. Cabelo havia sido transferido para outra cela, trocado por um traficante. Eu até gostei, pois uma noite despertei e Cabelo estava mexendo no bolso da minha calça. Eu me virei e ele correu para o canto dele. Fingi que não percebi e ficou por isso mesmo. O traficante eu conhecia. Ele tocava violão, e eu vivia mandando recado para ele tocar alguma coisa, ele era bom de sambão. Seu nome era Sidnei, estava sempre alegre, não recebia visitas nem de advogados. Dizia que não era

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da região e, quando foi preso, perdeu toda a mercadoria e o dinheiro que tinha. Não queria avisar a família porque pensavam que era representante comercial.



Como faltavam poucos dias para o Carnaval, a gente ouvia os ensaios das escolas de samba. Havia um refrão que eu adorava: "Oi, solta ele, oi, solta ele, solta o Doca. Solta, solta". A disputa pela única janela era um problema sério, muitas vezes tive que interferir para que meus colegas de colégio interno não se agredissem.

VIAJAMOS DE MÃOS DADAS, MINHA MULHER RECOSTADA, DE OLHOS FECHADOS. Percebi que ela não dormia, reclamava o tempo todo que o avião sacudia. Eu estava preocupado, estava correndo muito risco. Colocava meu casamento em jogo porque queria viver duas vidas. Se tivessem pego a gente no sofá, o barulho teria sido enorme. E de que adiantava eu ficar angustiado, se já tínhamos combinado que nos próximos dias ela viria se hospedar na casa do Francisco, para podermos ficar juntos? Dessa vez ninguém poderia saber, e a desculpa dela era que estaria em Belo Horizonte, visitando a família. A cada dia nosso envolvimento era maior, só pensávamos em armar situações para ficar juntos. As pessoas iam acabar reparando, a amizade entre os dois casais tinha sido bastante repentina.

O avião começou a pousar. O sinal para apertar os cintos apareceu, era melhor tirar aquilo tudo da cabeça e ir levando. Chegar em casa era sempre bom, a realidade aparecia: os filhos, os negócios... a vida como ela era. Nesse ponto a coisa não andava bem, eu parecia um satélite fora de órbita. Qual era minha realidade? Dessa vez, chegar em casa me fez mal, deu uma angústia terrível, estava andando na corda bamba e tinha medo que ela afrouxasse.

Só trabalhei um dia. No dia seguinte, Ângela chegou e eu praticamente me hospedei na casa do Francisco. Esses dois dias dela em São Paulo foram loucos, fizemos de tudo: muito amor, muita bebida. Se a vida fosse só isso... estaríamos no paraíso. Tínhamos um bom anfitrião e ninguém para nos importunar. Nem precisei de despertador para me alertar que estava na hora de voltar para casa. A noiva dele trabalhava e, quando ela chegava, era hora de eu partir. Não sei como tudo aquilo passou despercebido.

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Ela não fora para Belo Horizonte e eu só cheguei ao escritório depois das sete da noite.



Na manhã de sexta ela voltou para o Rio, e nessa mesma noite minha mulher e eu fomos para lá e nos hospedamos na casa do Ibrahim. No dia seguinte haveria uma grande festa na casa de amigos.

Depois daquele, foram vários os fins de semana juntos. Ou nós íamos, ou eles vinham. Fora isso, Ângela e eu passamos a nos visitar durante a semana. Pegava a ponte aérea bem cedo e às dez, mais ou menos, já estava lá. Voltava à noite. A desculpa era sempre a mesma, ia visitar empreiteiras que participavam da construção da Ferrovia do Aço.

Ela fazia a mesma coisa, vinha e voltava no mesmo dia. Passamos a nos encontrar na casa de uns amigos dela e do Ibrahim que moravam em São Paulo, Joana e Pedro. Ela era uma gracinha e se dava muito bem com Ângela, e ele tinha um negócio de importação, ou qualquer coisa parecida. Algumas pessoas diziam que era sócio do Ibrahim. Apesar de morarem em São Paulo e conhecerem alguns amigos meus, eu não os conhecia.

Aí tudo descontrolou de vez. Estava cada vez mais envolvido com Ângela. Não sei como conseguíamos não ser descobertos... se bem que no meu escritório todos já soubessem que eu estava tendo um caso. Meu comportamento e meus horários me denunciavam. Dois dos corretores, o Dílson Tavares, muito meu amigo e que todos só conheciam pelo apelido de Grande, e o Chiquito, meu irmão de criação, conheciam Ângela. Isso os incomodava, pois também eram amigos da minha mulher.

Naquela época, além dos amigos que conhecia a vida toda, pessoal da minha idade, eu freqüentava também um grupo dos amigos da minha mulher, dez anos mais jovens. Inclusive Ângela. Os dois grupos recebiam e eram muito convidados. Almoços, jantares, festas, sei lá, um número imenso de compromissos sociais. Isso ajudou a esconder por algum tempo a minha situação. Deviam fazer alguns comentários, mas não chegavam aos meus ouvidos. A não ser o Grande, que um dia no meu escritório me passou um pito:

— Sua mulher é muito bacana e gosta de você, ela não merece isso. Converse com ela, conte tudo e façam uma viagem.

Esse era amigo de verdade... mas precisava de mais dez assim. No entanto, não adiantou nada. Sabia que ele tinha razão de sobra. Acontece que eu estava apaixonado, naquele momento conselhos eram inúteis. Não que tenha entrado por um ouvido e saído por outro, não. Pensei muito no que ele tinha dito. Estar apaixonado é uma delícia, mas é uma doença. Ele tinha me

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mostrado o caminho, mas deixei pra lá. Escrever sobre isso me faz mal. Paixão é como cachaça, só não tem A. A...



A vida com a minha mulher era gostosa, nunca passávamos o fim de semana em São Paulo. íamos muito para a fazenda do meu sogro, ou para o Guarujá, onde ele também tinha apartamento. Freqüentávamos muito a fazenda de uns amigos em Araras, Ana e Benedito Sampaio Barros, o Bené. A fazenda Cascata era um verdadeiro paraíso, divertidíssima, com muitos quartos, casa sempre cheia, bagunça total. Ninguém sabia receber como eles. Para onde íamos, levávamos nosso filho recém-nascido. Nos fins de semana, na fazenda do meu sogro, sempre tínhamos convidados. Nessas ocasiões eu levava meu filho mais velho, o Raul, que adorava aquele lugar. Na nossa casa também sempre tinha muita gente entrando e saindo, os amigos da minha mulher, os meus, os nossos amigos. E mais ainda, tínhamos o nosso amor, nosso companheirismo. O Grande tinha razão, Adelita não merecia.

Essas coisas são assim mesmo, a gente pensa que é só uma farra sem conseqüência e é fisgado. Aquela altura eu já sabia que isso tinha acontecido, no meu íntimo o alarme já tinha soado várias vezes. Estava dividido e não sabia o que fazer.

Tudo continuava, não havia outro jeito, aparentemente estava tudo normal, mas a minha impressão era que vivia em outra dimensão. Passar juntos três ou quatro horas, duas ou mais vezes por semana, já não era o bastante.

Que coisa, como é o destino... nunca vi colaboração igual. A Brasilos foi contratada pela Andrade Gutierrez para levantar pilastras de pontes da Ferrovia do Aço, no trecho próximo a Itabirito, Minas Gerais. Bom... o contrato serviu como uma luva. Passei a ir duas vezes por mês visitar a obra, pois o meu sócio, um engenheiro argentino, era o encarregado e sempre estava precisando de alguma coisa. Nessas viagens, ficava dois dias em Belo Horizonte. Ângela passou a visitar seus filhos na mesma época. Adorávamos essas estadas em Belo, era como se vivêssemos juntos. Ficávamos no mesmo hotel, jantávamos e almoçávamos juntos. Às vezes, saíamos de noite para andar a pé e acabávamos entrando num cinema. Curtíamos à beça fazer aquilo. O único momento em que voltávamos à realidade era quando ela ligava para o Rio e eu para São Paulo.

Só uma vez encontramos uma pessoa que a conhecia, um ex-namorado. Estávamos jantando de madrugada em um restaurante a poucas quadras do hotel, quando ele apareceu. Aproximou-se, cumprimentou-nos e foi se juntar aos amigos dele, que não a conheciam. Fiquei morrendo de

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ciúmes porque ela fez um charminho, desses que toda mulher faz. Fazia isso naturalmente, era sua personalidade. Acho até que não era por maldade, era só para provocar.



Para piorar, no dia seguinte, nós o encontramos novamente numa loja onde estávamos comprando uma Polaroid, pois queríamos nos fotografar nus. Foi um encontro rápido e sem importância, apesar de na despedida ela ter dito qualquer coisa como: "Quando passar pelo Rio me procura". É evidente que fiquei me mordendo, mas me controlei.

Naquela noite bebemos muito e ficamos doidões. Fotografei-a nua em dezenas de posições, ela também tirou algumas fotos minhas. Foi uma noite de fotos, vodca e drogas. Uma hora, estávamos muito loucos e quebramos o maior pau, porque ela resolveu contar as coisas que fazia com o ex-namorado, aquele que havíamos encontrado. No final acabou tudo bem, nos engalfinhamos não por briga, mas por amor.

Quando a abraçava naquele estado, era só loucura e amor, me perdia completamente em caminhos que nem sei... uma sensação de prazer que fazia meu coração querer sair pela boca.

No dia seguinte fomos para o aeroporto. Enquanto cada um esperava o seu vôo, ficamos grudados e conversando a respeito daqueles dois dias, e eu dizia quanto ela era linda andando despreocupada, sem maquiagem, só com blusa e jéans. Então ela riu e se desvencilhou de mim:

- Se você quiser podemos viver juntos.

E voltou a me abraçar. Nessa hora chamaram meu vôo, e ela conseguiu entrar na pista e caminhar comigo até a escada do avião, me abraçando e beijando até o último instante.

Na viagem vim pensando em como tinham sido bons aqueles dois dias. Será que um dia viveríamos juntos? Tinha olhado dentro dos seus olhos, investigando o que ela queria dizer realmente, e ela falara sério. Agora eu estava com medo de pensar naquilo... era muita loucura. Também me amedrontava continuar com as viagens. Se calhasse de a minha mulher ligar para ela e saber que ela estava visitando os filhos, desconfiaria na certa.

Cheguei em São Paulo e passei pelo escritório, pois o engenheiro argentino tinha pedido que providenciasse na Argentina mais macacos hidráulicos, que eram o nosso principal equipamento. Ele havia almoçado comigo no restaurante do hotel no primeiro dia, um pouco antes de Ângela chegar.

Encontrei minha casa como sempre, com tudo no lugar: mulher, filho... enfim, o calor do lar. Fiquei, como muitas vezes naqueles últimos tempos,

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completamente arrasado. Me senti péssimo e, para piorar ainda mais, achei que minha mulher estava desconfiada. Eram muitas viagens e ausências.



A noite, quando Ângela telefonou para bater papo e Adelita atendeu, fiz sinal de que não queria falar, deixando o papo só para as duas, e essa minha impressão aumentou. Com a consciência pesada e com remorso, achei que minha atitude tinha chamado mais atenção ainda. Mas era tudo imaginação, percebi isso mais tarde, quando não tinha mais criança, empregado, telefonema, nenhuma providência a tomar, e ficamos sozinhos no nosso quarto. Fiquei tão aliviado que quis pôr fim a toda aquela loucura.

No dia seguinte, cheguei tarde ao escritório, estava de novo com ressaca moral. A primeira coisa que fiz foi dar ordens à Cida para não passar as ligações da Ângela. Fui levando com esforço aquela resolução. Cida me avisava toda vez que ela telefonava. Continuei firme, apesar das saudades e dos pensamentos que me pegavam desprevenido. Do que valia a vida sem Ângela? Valeria a pena pôr em risco minha relação com meus filhos? E minha mulher?

Alguns dias depois, Cida foi até minha sala. Tinha um recado da Ângela, mas não queria que ninguém ouvisse.

— Nossa, seu Doca, ela está uma fera... disse que, já que o senhor não queria atender, que fosse à puta que o pariu.

Na verdade, aquele papo no aeroporto da Pampulha me assustara. Não por causa de Ângela, por minha causa. Sentia que estava muito envolvido e tudo estava caminhando naquela direção. Tinha que meter o pé no freio. Depois do recado malcriado, ela passou uns dias sem ligar. Quando ligou novamente, a Cida subiu e me avisou:

— Ela mandou dizer que, se o senhor não atender, ela nunca mais falará com o senhor.

A danada tinha conquistado minha secretária. Toda vez que ligava, conversava um pouco com ela. Concordei em atender o telefone, afinal ela não havia feito nada que merecesse aquele tratamento e, além do mais, eu estava com saudades.

Não tive tempo de dizer alô.

— Não estou entendendo nada. Quando nos despedimos estava tudo bem, por que você está me tratando assim?

Continuou desabafando por mais algum tempo. Quando consegui falar, fui sincero, contei todos os sentimentos que tomaram conta de mim

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quando cheguei em casa e que estava assustado com a possibilidade de abandonar tudo por causa dela. A resposta foi mais ou menos assim:



- Não leve aquela conversa a sério. Se bem que a gente fica o tempo todo pensando o que fazer para ficar perto um do outro. Quantas festas e fins de semana a gente vai ter que inventar ainda? Ontem quebrei o pau com o Ibrahim e vim passar o dia aqui. Estou na casa da Joana, vem até aqui e almoça com a gente.

Concordei em ir, mas avisei que não poderia demorar, era sexta-feira e eu iria para a fazenda.

Fui para o almoço preocupado, não porque tinha cedido e ia ver Ângela, isso eu queria e muito. Mas estava em dúvida se era amor ou apenas uma relação doentia. O que estávamos tendo afinal? Tirando alguns momentos em Belo Horizonte, tinha sido só embalo e cama.

Ao encontrar Ângela, como sempre, todas as dúvidas desapareceram. Eu ficava tranqüilo e não pensava em mais nada.

O almoço foi ótimo, Joana sabia tudo de culinária. Era uma graça, e muito alegre, birinha, saltitante. Serviu uma macarronada com todos os ingredientes, mais vinho e licor. Depois ouvimos música, dançamos e, é claro, nos embalamos com pó e fumo. Quando saí as duas estavam animadíssimas. Foi difícil, elas se dependuravam em mim rindo e dançando, mas não tinha outro jeito, tinha que partir.

NÃO consegui dormir nas noites seguintes. Eu me sentia como numa missa de sétimo dia: quando quem ficou começa a se conformar, aí vêm a missa, os amigos, a tristeza, e volta a emoção.

Eu me distraía com o violão e a voz do Sidnei e com o garoto, que se tornou meu amigão. Ele passava o dia no corredor contando vantagem e relatando os assaltos que havia praticado. Como ele estava sempre no corredor, o delegado obrigou-o a prestar serviços. Tudo tinha de estar sempre limpo, e na hora das refeições era ele que entregava a comida nas celas. Por conta disso, o Luiz ficava mais com a gente. Só saía quando tinha de fazer algum serviço na rua. Era um cara tranqüilo, mas nenhum dos presos na delegacia sabia qual crime havia cometido. Não devia ser nada grave, senão ele não andaria pela cidade

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prestando serviço para o delegado e para os funcionários. Ele gostava quando o chamavam, porque ganhava gorjetas. Às vezes, quando papai não estava (e isso era raro), o carcereiro deixava que buscasse sanduíches, café ou revistas para mim. Dormia na cama com o Waldemar, que o cobria todas as madrugadas, quando a carceragem ficava mais tranqüila. Muitas vezes assisti aos dois em ação. Entre os companheiros ninguém comentava nada, talvez pela fama de sujeito perigoso que o Waldemar tinha.



Quando faltavam dois ou três dias para o Carnaval, a delegacia ficou movimentada. Toda madrugada entrava um bando de bagunceiros completamente bêbados, e iam direto para a Malibu. Se ficassem numa boa, depois de doze horas e de uma bronca do delegado eram soltos. Os metidos, que perguntavam: "Sabe com quem está falando?", estes ficavam mais 24 horas, sem direito a telefonema, a banho, a nada.

Os demais — ladrões, batedores de carteira e traficantes — eram fichados e iam para as celas normais. Os baderneiros iam para a Malibu por consideração do delegado, que sabia que, se fossem para as celas normais, seriam assediados pelos outros presos e teriam de tomar muito cuidado para não se machucarem seriamente. Dar uma de bravo na cadeia é arrumar problema na certa. O mais esperto que eu vi, quando levou o primeiro tapa, começou a urrar, pediu por socorro, gritou e chorou. Berrou tão alto que resolveram tirá-lo de lá. Então ele pediu que o deixassem ir embora, porque estava com tanto medo que tinha se mijado todo. Como não cabia mais ninguém na "Malibu" naquela noite, o algemaram nas grades, do lado de fora.

Depois das três da manhã, todas as celas estavam cheias. Na minha entraram mais quatro. Tiveram que pagar pedágio. Mandaram que limpassem a cela e pagassem café e sanduíches, tudo sob o comando do Azulão. Quando os quatro chegaram, avisei que, se apanhassem ou sofressem qualquer tipo de assédio, eu pediria para mudar de cela. Era tudo o que meus companheiros mais temiam, já que, comigo ali, tinham a maior mordomia.

Os quatro dias de Carnaval foram igualmente tumultuados. Um entra-e-sai o dia todo. Houve muitos assaltos a residências, o delegado estava ocupadíssimo. Um dia ele chegou à carceragem, mandou o carcereiro abrir a cela onde eu ficava, entrou e sentou na minha cama:

— Estou exausto, preciso de um bom cafezinho.

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Azulão o serviu imediatamente. Depois do café, o delegado ficou batendo papo, falando sobre coisas as mais variadas. Então se levantou e disse que eu deveria ir com ele até o pátio. O pátio era grande, todo cercado por um muro alto. Não me lembro se eram tambores ou uma bancada que havia lá. Disse que ia fazer tiro ao alvo e que era para eu ajeitar algumas garrafas que estavam no chão. Fiz isso e assisti aos primeiros seis tiros que ele deu, com um revólver calibre 38.



Do pátio, fomos para o escritório dele, que tinha janelas enormes que davam para a rua. Como estavam escancaradas, aproveitei aquele momento para ver a rua e o movimento. Só quem já esteve preso pode saber o valor de, pelo menos, olhar a liberdade.

No escritório estava um camarada de estatura mediana, que, apesar de não ser tão velho, tinha o rosto todo enrugado. Aquele personagem chamou minha atenção pela atitude. Estava esperando no sofá e, quando entramos, continuou naquela posição. Deu uma risadinha quando nos viu. Estranhei, pois dr. Newton era temido, seus auxiliares o tratavam com o maior respeito. Ninguém agia daquela forma na frente dele.

— Quero que conheça meu auxiliar e amigo. Apresentou-me a figura, que se levantou e estendeu a mão. Dr. Newton riu:

— Quando saio em missão perigosa, ele sempre está do meu lado. É rápido, eficiente, não erra um tiro. Ele acha que você não matou a vítima. Se abre com a gente. Foi algum traficante? Ou vai puxar uma cadeia para proteger um criminoso?

Dei risada, e mais uma vez expliquei que não estava encobrindo ninguém. O amigo do delegado entrou na conversa.

— Você era casado com mulher rica, não era? Respondi que sim. Ele continuou: — E cometeu um crime desses...

Balancei a cabeça afirmativamente, e ele riu com desdém:

— Então você é muito burro.

Dei um salto e levantei, mas o delegado mandou que me sentasse.

— É verdade, Doca. O que você fez foi pura burrice. E agora, conhecendo você e seu pai, dois cavalheiros, não acredito que seja capaz de cometer um crime desses.

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Com a graça de Deus, papai chegou cinco minutos depois, e o dr. Newton liberou a sala dele para que ficássemos à vontade. Chamou seu amigo e os dois saíram.



ACHO QUE FOI NA ÚLTIMA NOITE DE CARNAVAL. DE MADRUGADA, entrou na minha cela um rapaz, aparentemente menor de idade, que tinha sido detido por carregar uma grande quantidade de maconha. Baixo, olhos azuis, cabelos loiros encaracolados até os ombros. Parecia uma moça. Quando ele entrou, o Paulista estava queimando um baseado no boi. Para disfarçar o cheiro, tinha pendurado uma trança feita com tiras de saco de estopa no cano de água que ficava em cima do boi e acendera a trança, supostamente para tirar o cheiro de fezes, urina e, por que não dizer, de gente.

O Paulista apagou o baseado e começou a estender uma toalha no chão, ao lado de seu colchonete. Em seguida, fez sinal para que o menino se aproximasse e se ajeitasse no colchonete dele. Ele ficaria na toalha. O garoto se assustou com tanta consideração, encostou a bunda nas grades e deu uma cutucada no meu braço. Não sei se foi de propósito ou por desespero. Quando olhei para ele, sua cara era de pavor. Eu estava deitado e tinha assistido à cena desde o começo. Falei para ele sentar no chão, ao lado da minha cama, de costas para as grades. Pedi, pela nossa amizade, que o Paulista o deixasse em paz. O Paulista me olhou com cara de poucos amigos. Moçambava levantou-se e ficou me encarando de maneira estranha. Resmungou que o xerife naquela cela era ele. Continuei sentado, e sem me exaltar argumentei:




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