O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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Depois de conversarmos, dr. Evandro me entregou uma carta de mamãe. Ela estava preocupada com o fato de eu estar sendo defendido por dois advogados — dr. Paulo José da Costa e dr. Evandro —, a coisa

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toda ia ficar muito cara. Sugeriu que eu ficasse com um só, de preferência o dr. Evandro, que era do Rio de Janeiro. Só de passagem, argumentava ela, os advogados de São Paulo já haviam gastado um dinheirão.



Dr. Evandro deixou que eu lesse a carta e disse que não daria palpite, que eu deveria pensar bem e depois telefonar para ele. Confesso que não pensei nem um minuto, decidi na hora, pois também achava que ter duas equipes de advogados era demais. Optei por ficar só com ele.

Na mesma hora telefonei para mamãe para que ela falasse com dr. Paulo e explicasse os motivos da minha decisão. Ela não conseguiu falar com ele imediatamente, porque ele continuava a dar aulas em Roma. No dia seguinte, recebi e assinei as procurações para que a equipe do dr. Evandro desse andamento à minha defesa.

Dois dias depois da visita dos advogados, policiais entraram no meu quarto no hospital e me levaram de volta para a delegacia. Estava mais calmo e com a saúde em ordem. Devia aquela recuperação ao dr. Ivo, mas o pessoal do hospital tinha feito a parte deles. Foram muito delicados, e me despedi com lágrimas nos olhos.

Os policiais me algemaram, me enfiaram dentro do camburão e, cinco minutos depois, eu estava na cela com os meus companheiros. Tudo foi registrado por uma multidão de jornalistas, que tinha dobrado de tamanho. Para que eu entrasse no camburão, tiveram de chamar a PM, que fez novamente um corredor humano.

ALÉM DE TUMULTUADO, O FIM DE SEMANA NA CASA DO IBRAHIM FOI LOUCO E divertido. Apesar de terem sido apenas dois dias, muita coisa aconteceu. Três grupos se encontraram na casa dele naquele fim de semana.

Seus amigos — jornalistas, intelectuais, cupinchas etc. —, um casal amigo de Ângela e conhecido nosso, também paulistas, Paschoal e Elisa — que apareceram pouco, porque logo que chegaram foram para o quarto, começaram a cheirar cocaína e por lá ficaram —, minha mulher e eu. Fomos os primeiros a chegar, no começo da tarde. Nem os donos da casa estavam lá. Fomos recebidos por uma arrumadeira de uniforme que nos acompanhou até a suíte que ocuparíamos.

- Já vou telefonar para dona Ângela avisando que chegaram.

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Aproveitamos que não havia ninguém e fomos conhecer o apartamento. Um imóvel grande na rua Rainha Elisabeth, no primeiro andar. O último prédio da rua, bem atrás do Arpoador. Como era o último, via-se o mar. Era um apartamento grande e bem decorado, com boas peças. A localização era interessante: a rua começava em Copacabana e terminava no prédio, em Ipanema.



Como ninguém chegava, resolvemos tomar banho e dar uma descansada. Voltamos para a sala duas horas mais tarde e encontramos os anfitriões e o casal paulista. Quando vi o casal me animei. Olhei para Ângela: seus olhos brilhavam, denunciando que já tinha cheirado pó. O Paschoal, eu conhecia bem e me dava com ele, Elisa era introvertida demais e de pouca conversa. Ficamos batendo papo, tomando drinques até tarde. Quando resolvemos sair para jantar, o casal foi até o quarto para trocar de roupa. Como depois de um tempo não voltou, fui até lá. Sabia muito bem o que estavam fazendo. Depois de alguns minutos, Ângela também chegou...

- Vim ver o que está acontecendo.

Falou isso rindo, ela sabia muito bem o que estávamos fazendo. Ficamos uns cinco minutos no quarto, cheirando a cocaína que nos ofereciam, e depois voltamos sozinhos para a sala. Os outros dois resolveram não jantar. Fomos ao restaurante de um amigo do Ibrahim, lugar da moda. Não lembro o nome do lugar, só que ficava no Posto 6, numa rua transversal à avenida Atlântica. Foi tudo muito bem-comportado e, depois do jantar, voltamos para casa, porque no dia seguinte haveria um almoço para uns amigos do Ibrahim e, além do mais, ele estava cansado. Só nós três ficamos conversando, o Ibrahim se retirou assim que voltamos. Ângela dizia brincando que ele era velho e precisava dormir bastante. E era mesmo, me lembro de uma vez quando era adolescente e estava almoçando com minha mãe no restaurante do Copacabana Palace, o Bife de Ouro. Ele veio sentar-se um minuto a nossa mesa, minha mãe disse:

— Conheça o colunista social Ibrahim Sued.

Ângela, Adelita e eu ficamos batendo papo até o dia raiar. De vez em quando, íamos ao quarto de Elisa e Paschoal, pois os dois estavam embalados e nós queríamos um pouco. Minha mulher sabia muito bem o que se passava lá, mas não era a dela, por isso não participava.

Engraçado... apesar de estarmos comportados, e de até então só termos tocado nossas mãos, e às vezes trocado olhares ou um leve toque de lábios num encontro rápido no corredor, eu estava feliz. Podia vê-la, admirar

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seu movimento felino e conversar com ela. Por que tinha tanta necessidade de estar junto dela? Até aquele momento, apesar de querermos estar juntos, nunca falamos sobre planos para o futuro ou qualquer coisa do gênero. Em nossos encontros só nos amamos. Eu conhecia seu corpo, o jeito delicioso como ela se movia, sua perspicácia e inteligência, e não podia ficar sem sua companhia. Mas não sabia nada sobre seus planos e ideais.



Ali na sala, não era nisso que estava pensando. Não pensava, sentia sua presença envolvente. Quando voltava do quarto do casal, excitada pela droga, acho que então até minha mulher se deixaria envolver por ela.

O dia estava raiando, ficamos apreciando o mar e o começo do movimento dos pedestres e do trânsito. Minha mulher e eu ficamos decepcionados porque chovia, e tínhamos planejado ir à praia. Fomos para o quarto descansar e tentar dormir. Não demorei para pegar no sono, já que não tinha abusado das visitas ao quarto de Elisa e Paschoal. Nosso quarto ficava bem em frente, e quando passamos por lá, o casal falava sem parar. Acho que não dormiram nada naquele fim de semana.

Acordamos tarde e quando aparecemos as salas estavam arrumadas com algumas mesas a mais, para receber o pessoal que ia chegar para o almoço. Uma das mesas estava com o café-da-manhã. Apesar de ser mais de uma e meia, ela estava completa, sinal de que éramos os primeiros. Só uma hora depois apareceram os anfitriões e o outro casal, uma dupla muito bonita, e apesar da noite badalada os dois estavam com ótima aparência. O Ibrahim vestia uma camisa florida, dessas que americano compra no Havaí, que nele, por sua altura e ótima forma física, ficava muito bem. Ângela estava deslumbrante, com uma calça de linho azul-claro e um lenço de seda branco amarrado no pescoço e na cintura, fazendo frente única e deixando as costas de fora. Ciente de sua figura, andava de um lado para o outro, excitada. Minha mulher estava ótima, animada com o pessoal que ia chegar.

O almoço foi muito movimentado, eram muitos convidados, que riam, gritavam, berravam e faziam homenagens. Um deles eu admirava muito, lia quase tudo o que escrevia, o escritor mineiro Fernando Sabino. Saíram de lá tarde. Ibrahim, animado com o sucesso do almoço, propôs que descansássemos um pouco e, lá pela meia-noite, fôssemos a uma boate dançar. Se tivéssemos fome de madrugada, o picadinho de lá era ótimo.

O Ibrahim era agitado, em vez de descansar como tinha sugerido, pegou o telefone e ligou para Brasília. Queria saber das novidades do governo e, enquanto falava, escrevia. Ângela e eu fomos para o quarto

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de Elisa e Paschoal. Minha mulher foi ler e descansar, e fez caras quando entramos lá. Sabia que íamos nos drogar. Resolvi me juntar a eles porque tinha comido e bebido bastante e não conseguiria tomar banho ou deitar logo em seguida. Como ninguém é de ferro, demos bastante bandeira, nos agarramos, nos acariciamos, ficamos deitados numa das duas camas, pois no quarto não havia cama de casal. Não ficamos muito tempo e, por prudência, pouco depois saímos e fomos cada um para seu quarto.



Quando entrei, minha mulher comentou, rindo:

— Não agüentou? É muita loucura, não é mesmo?

Não dormimos, ficamos conversando e namorando. Gostava da companhia dela. Naquela época, nosso bom relacionamento me deixava completamente desorientado. Estava confuso, apaixonado e não sabia o que fazer para corrigir o rumo.

Mais tarde tomei um banho demorado e, como fiquei pronto antes, fui sozinho para a sala. Não havia ninguém, o ambiente estava quase frio, com o ar-condicionado a toda e a sala a meia-luz. Fui até a janela e sentei-me num sofá. Ao fazer isso senti a agradável sensação do contato com uma manta de vison. Imediatamente procurei por mais luz, queria ver aquilo. Era uma manta linda, de pele da melhor qualidade, que preenchia todo o sofá branco. É verdade que estávamos no Rio, mas assim mesmo, na temperatura daquela sala, era muito gostoso ficar sentado ali. Pouco depois chegou minha mulher, que achou graça ao ver aquela manta e começou a calcular quanto teria custado.

Ângela e Ibrahim chegaram e nos encontraram exatamente discutindo o custo da manta. Ele achou aquilo divertido e foi até o quarto. Quando voltou, estava vestindo um manto de vison que ia até o tornozelo e trazia na mão uma foto dele em Paris com aquele casacão.

Já devia ser mais de meia-noite quando chegamos a uma casa noturna, que lembro que ficava numa praça, em Ipanema.

Foi uma noite alegre, bebemos, dançamos, rimos, subimos na mesa, comemos picadinho. Ibrahim tirou muitas fotos, nossas e de outras mesas. Dancei várias vezes com Ângela e, numa delas, combinamos de nos encontrar mais tarde, no mesmo sofá. Na volta, Ibrahim contou que as fotos sairiam em sua coluna de domingo e que tiraria outras no dia seguinte, na piscina do anexo do Hotel Copacabana, onde tinha reservado uma mesa para o almoço.

Chegamos de volta mais ou menos às quatro da manhã. Ao nos despedirmos na porta do quarto, vi que a luz dos outros convidados estava

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acesa. Bati e entrei, sem esperar resposta. Estavam sentados entre as duas camas, conversando, mas minha mulher me puxou e fomos para o quarto. Conversamos um pouco e adormeci. Não sei quanto tempo depois senti meu braço ser puxado. Abri os olhos, o dia estava clareando. Ângela estava agachada do meu lado, com o dedo indicador nos lábios, fazendo sinal de silêncio. Levantei sem fazer barulho e saímos do quarto. No corredor fez sinal para eu ir até a sala. Ela voltou para o quarto, pois tinha esquecido o fumo. Ainda tentei detê-la, mas não deu tempo.



Era uma loucura, meu coração disparava. Mas eu não estava assustado, ao contrário, aquilo tudo me excitava. O dia estava cada vez mais claro e ela não voltava. O que teria acontecido? Fui até o corredor tentar ouvir alguma coisa e a vi fechando com cuidado a porta do quarto. Daquele momento em diante não ligamos para mais nada. Ficamos em total liberdade, pusemos uma música, bebemos champanhe e dançamos, nos beijamos, rimos.

Chegamos à janela dançando. Nem olhamos o mar e escorregamos no sofá macio, rindo e brincando como crianças felizes, prontos para o prazer, para fazer amor, completamente apaixonados.

O dia já estava claro quando resolvemos voltar cada um para o seu quarto. Ao passarmos pelo quarto de Elisa e Paschoal, ela quis entrar para curtir um pouco, mas a empurrei para o quarto dela.

Faz muito tempo que isso tudo aconteceu... Nunca pensei que conseguiria mexer com essa parte do meu passado. Era adrenalina pura, mas eu não era feliz, sentia que estava hipnotizado. O que me fez prosseguir? Paixão? Drogas? Os dois? Provavelmente, apesar dos 42 anos, era imaturo demais. Até hoje, quase trinta anos depois, não me conformo que tanta estupidez tenha causado tanto sofrimento.

Lá pelo meio-dia, minha mulher me acordou, teríamos que tomar café e nos arrumar para ir almoçar no Anexo do Copacabana Palace. O almoço foi ótimo e divertido, aquele lugar era um charme. A certa altura, do outro lado, depois da piscina, começaram a montar uma mesa. Alguns minutos depois chegaram os ocupantes: eram meu irmão Luiz Carlos e sua mulher May, com alguns amigos. Nos cumprimentamos efusivamente, mas cada um ficou na sua. A única coisa simpática foi o Ibrahim que fez: tirou várias fotografias deles. Foi uma tarde engraçada de fim de semana. Voltamos para São Paulo ao anoitecer.

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NA CELA, TIVE A IMPRESSÃO DE QUE MINHA RECUPERAÇÃO HAVIA IDO para o espaço. Papai tinha providenciado uma cama de verdade, café e água mineral, e meus companheiros de cela tentaram me animar, mas eu sabia que estava no inferno. Deitei na cama do jeito que cheguei, de camiseta, jeans e botas. Minha aparência era horrível, pois desde que saíra da clínica em São Paulo andava o tempo todo sem cinto, e na prisão não podia ter uma lâmina de barbear. Revoltado, não usava o barbeiro que ia todo dia à delegacia para fazer a barba de quem estivesse disposto a gastar cinqüenta centavos. Além do mais, era dia de visita, e o tempo todo havia gente perto das grades. O carcereiro veio várias vezes avisar que minhas amigas queriam me ver. Eu perguntava os nomes delas e, como não sabia quem eram, não as recebia. Nos dias de visitas, aquilo se tornou uma rotina. Meus companheiros de cela faturaram doces, bolos e até algum dinheiro para receber a visita de familiares que eu nunca tinha visto.



Depois que cheguei do hospital, começou a rotina na delegacia. Banho lá pelas sete da manhã (só havia água das sete às nove da manhã, da uma às duas da tarde e às vezes durante uma hora, à noite). Fora isso a gente tinha que se virar com algumas latas de água que enchíamos nos horários de banho.

Todos os dias, durante o tempo em que estive na delegacia, recebia visitas de papai, do Ivo e do Paulinho Badhu. Muitas vezes o delegado mandava me chamar para tomar um café na sala dele. Com o pretexto de que tinha se tornado meu amigo, tentava descobrir quem eu estava acobertando, pois não acreditava que eu havia cometido aquele crime. Para ele, Ângela estava encrencada com traficantes, eles a tinham matado, e eu, ameaçado, encobria tudo. Uma noite, o chefe dos investigadores de plantão mandou me chamar até a sala dele. Em cima da mesa havia uma garrafa de uísque.

— Senta aí, você deve estar cansado de ficar na cela, toma uma comigo e relaxa um pouco.

Servi uma dose e comecei a tomar devagarinho, já que estava tomando uma medicação que Ivo receitara e não deveria ingerir álcool.

— Conta aí, como é vida de rico, vocês zoavam muito?

Contei algumas passagens da minha vida que não tinham nada com nada e, depois de terminar a dose de uísque, disse que não podia

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beber mais por causa dos medicamentos e pedi para voltar para a cela, porque estava com sono. Ele deu uma risadinha, disse que eu era muito desconfiado e mandou o carcereiro me levar de volta para a cela.



Passava grande parte do dia lendo os livros, os jornais e as revistas que papai me levava, e dezenas de cartas que recebia de todos os lugares do Brasil, de homens, mulheres e adolescentes. Uma moça de Belo Horizonte me escreveu durante todo o tempo em que estive na delegacia, no presídio de Água Santa, no Rio, e até no presídio Edgard Costa, em Niterói. Tudo isso sem nunca ter recebido uma linha da minha parte.

Papai também me trazia as refeições, café e água, e sempre vinha alguma coisa a mais, que todos os outros também comiam. Aquele café com bolo era famoso na delegacia. Muitas vezes o delegado ia até a cela e sentava com a gente para tomar café, fumar um cigarro e jogar conversa fora. Meus companheiros ficavam impressionadíssimos e ao mesmo tempo receosos, pois bandido que é bandido não se dá com polícia. Mas entendiam que eu não sabia disso e nunca reclamaram.

No dia em que seria julgado o recurso para revogar minha prisão preventiva, logo pela manhã o delegado me disse que eu não deveria ter esperança. O mais provável era que o juiz o negasse, porque a imprensa não parava de escrever a respeito do meu caso, que tinha tomado proporções gigantescas.

Dr. Newton era uma fera, segundo a bandidagem, mas comigo sempre foi justo. É verdade que ele sentia muita pena do papai, que se mudara para um hotel ali perto só para ficar próximo de mim.

Nessa manhã tive a visita da mamãe, do meu irmão Luiz Carlos, da minha prima Maria Zélia e da Vera Miller, uma amiga minha. Ficaram umas duas horas comigo, e me contaram todas as novidades de São Paulo e do Rio. A certa altura, Vera pediu ao delegado para conhecer a carceragem. Ele chamou o carcereiro e me disse:

— Vá com sua amiga até a cela e sirva a ela um café.

Fomos até lá. O carcereiro abriu a cela, Vera entrou e eu a apresentei a Azulão, Moçambava, Paulista, Waldemar e Cabelo. Vera sentou na cama do Waldemar, e Azulão lhe serviu um café fresquinho. Vera conversou com todos e se encantou com a simpatia do Azulão, abraçou-o e tudo. Voltamos para a sala do delegado dez minutos depois. Como o que é bom dura pouco, meus parentes e amigos foram embora e eu voltei para a cela.

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Minha cama estava sempre arrumada. Se me levantasse para pegar um café, Azulão já arrumava qualquer desordem que eu tivesse feito. Fazia isso também com minha roupa, que estava sempre pendurada, e com minha bota, sempre engraxada. Esse cara me ajudou muito. Aliás, nos presídios e penitenciárias em que estive, sempre aparecia alguém assim. Mas o Azulão foi diferente, ele fazia de tudo para me agradar. Dormia aos pés da minha cama num colchonete que mandei comprar para ele e qualquer movimento estranho me acordava. O pessoal não gostava do Azulão, dizia que ele tinha uma barraca de vender sorvete perto da praia, onde também morava, e que havia atraído uma menor e a estuprado. Ele confessava que realmente tinha transado com ela, mas ela se oferecia por dinheiro a quem quisesse. Só que ele não pagou e ela, por vingança, o acusou. Aprendi uma coisa nos cinco anos e pouco em que estive preso: ninguém é culpado, todo mundo está na cadeia injustamente. O único culpado panaca era eu.



No fim da tarde, Paulinho Badhu avisou que o recurso fora negado. Fiquei arrasado, ainda que já soubesse que seria assim. Paulinho disse também que em poucos dias eu seria interrogado pelo juiz. Ainda não havia uma data, mas não passaria de uma semana. Eu iria prestar declarações pela primeira vez.

As duas notícias mexeram muito comigo. Deveria ficar contente, era sinal de que tudo estava andando. Mas não era assim que me sentia. No fundo, estava acomodado e qualquer movimento estranho me apavorava. Sabia que, depois do depoimento, provavelmente o juiz me transferiria para o Água Santa. Esse nome era quase proibido dentro da delegacia, todos tinham verdadeiro pavor de serem transferidos para lá. Falavam coisas horríveis a respeito dos guardas e de toda a administração. Além do mais, era um presídio para mil e quinhentos presos, os piores do estado.

Estava pensando a respeito de tudo isso quando o carcereiro apareceu. Disse que havia vários dias uma moça insistia em me visitar, e que naquele dia ela tinha trazido um bolo que parecia delicioso. O pessoal ouviu e começou a me pedir para receber a moça, ao menos pelo bolo. Estavam acostumados — porque eu fazia questão disto — a comer sem cerimônia os doces que eu ganhava. Não tive como recusar a visita. Alguns minutos depois ela entrou na carceragem, e o carcereiro pôs um banquinho perto das grades para ela sentar. Era uma caiçara vistosa,

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uma morena realmente bonita, embora vestida com roupas simples. Chegou sorrindo para todos. O pessoal ficou doidão, até aplaudiu. O bolo não passava pela grade, e o carcereiro teve de abrir a porta da cela. De um jeitinho todo meigo, ela pediu que eu ficasse do lado de fora por um instante, conversando com ela. O carcereiro deixou que eu saísse e nos conduziu até a "Malibu". Ficamos ali, no corredor, de mãos dadas, encostados nas grades daquela cela que todos temiam. Conversamos apenas cinco minutos. O nome dela era Ester, ficou minha amigona. Só parou de me visitar no Água Santa, porque depois da terceira ou quarta visita começou a namorar um dos funcionários. Muitas vezes, ainda em Cabo Frio, depois daquele primeiro encontro e nos dias em que o tal carcereiro trabalhava, ela ia me visitar. Acertou com o carcereiro que as visitas fossem no cartório. Nunca aconteceu nada de muito sério, eu não tinha cabeça para isso. Além do mais, o carcereiro poderia entrar de uma hora para outra.



UM DIA ANTES DE EU DAR MEU PRIMEIRO DEPOIMENTO PERANTE o juiz, o dr. Evandro e sua equipe vieram me visitar e deram algumas instruções. Precisava contar a verdade e ao mesmo tempo devia estar atento, pois, se o juiz não entendesse o que eu dissesse e mandasse o escrivão registrar algo diferente, isso poderia causar sérios problemas. Por esse motivo, um dos advogados estaria ao meu lado acompanhando o interrogatório.

Os advogados também me explicaram como era a denúncia da promotoria. Vou transcrever um pequeno trecho do livro que o dr. Evandro escreveria mais tarde. O livro se chama A defesa tem a palavra, e na p. 87 diz: "No caso Doca Street, quando do oferecimento da denúncia, a promotoria era exercida por uma mulher, a dra. Maria do Carmo Alves Garcia, que a redigiu em linguagem veemente, dura, panfletária. Depois de qualificar o réu, a promotora assim descreveu o fato e classificou o crime: Já havia algum tempo o acusado vivia em companhia e às expensas de Ângela Maria Fernandes Diniz. Embora sustentado pela companheira, que patrocinava as despesas, vestindo-o, alimentando-o e dando-lhe teto, o acusado, não satisfeito, exigia dela dinheiro em espécie".

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É claro que não consegui dormir naquela noite. Meus pensamentos estavam acelerados. Por mais que o dr. Evandro tivesse explicado, achava que ia dar tudo errado. A acusação da promotora não parava de martelar na minha cabeça.



No dia do depoimento, me tiraram da cela às oito e meia da manhã e me levaram até a sala do cartório, onde vesti terno e gravata e fiquei à espera do camburão com escolta que me levaria ao fórum. Fiquei esperando por pelo menos uma hora. Meus companheiros tiraram uma da minha cara, porque, segundo eles, quando iam ao fórum nem banho tomavam.

No corredor da carceragem, vi um garoto que falava com o pessoal das três celas. Achei estranho. Tinha uns catorze anos, era super-alegre e simpático. E era um bandido respeitado pelos demais. Tinha duas acusações pelo artigo 157, parágrafo 3º, do Código Penal, assalto acompanhado de morte. Como era menor, não podia ficar dentro das celas, então ficava no corredor. Nunca vou me esquecer desse garoto: se o levassem a uma festa do Country Club, ninguém teria dúvida de que poderia pertencer a uma boa família burguesa.

Tinha começado a conversar com ele quando a escolta chegou, me algemou e me levou até o fórum. Quando estava saindo, junto com os policiais, ele riu e falou em voz alta:

— Não se preocupa, são tudo otário.

Os policiais nem olharam para trás, e comentaram:

— Esse aí ainda está vivo?

Na porta da delegacia havia um mar de repórteres. Alguns se aproximaram dos guardas e pediram para falar comigo. Os policiais disseram que, se eu concordasse, para eles estava bem. Avisaram que eu teria pouco tempo, pois estava quase na hora da audiência. Fiquei meio assustado, era muita gente.

Olhei para a porta da delegacia, de onde o delegado fez um sinal positivo com a cabeça. Então, concordei em falar com a imprensa pela primeira vez. O papo foi muito rápido, porque não podia responder à maior parte das perguntas, que eu responderia diretamente ao juiz. Foi mais uma conversa sem importância. Papai havia pedido que eu, quando cercado pelos jornalistas, parasse, nem que fosse por alguns segundos, e desse atenção a eles. Afinal, eles estavam trabalhando. E assim foi: pediram que eu levantasse um pouco os pulsos e me fotografaram com algemas. Quando chegamos ao camburão, os guardas me enfiaram lá

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dentro, abaixaram a porta e continuei a falar com os repórteres através das pequenas janelas do carro. Ao chegar ao fórum, a mesma multidão me aguardava, mas os policiais fizeram um corredor de proteção e fui conduzido à sala de audiência. O juiz ainda não tinha chegado, e fiquei no corredor com a escolta e o delegado. Ele me orientou a manter uma postura de respeito, a não me intimidar, a falar normalmente, sem me exaltar nem fazer cara de triste.




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