O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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— Não economize lágrimas quando estiver falando com o delegado. Tenho um plano, depois nos falamos.

Isso me assustou, pois eu nunca tinha visto aquele camarada, e além do mais não conseguia parar de chorar mesmo. Acompanhei os dois até a sala do delegado. O dr. Newton mandou todos saírem da sala. Ele estava bravo porque na cela ao lado da minha dois presos se desentenderam, e um deles se machucou e estava fazendo um berreiro havia horas. Eu estava a par da briga e, é claro, da gritaria. O Paulista, usando um espelho, tinha acompanhado e relatado tudo. Mas, naquela altura, eu estava tão mal que não queria saber de nada.

O delegado conversou comigo para saber o que eu estava sentindo. Expliquei que não conseguia parar de chorar e, depois do banho, não tinha conseguido caminhar até a cama. Enquanto eu falava, as lágrimas caíam, ainda que me controlasse ao máximo para não soluçar. O delegado mandou chamar o Paulo Badhu, para saber se ele sugeria alguém para me ver. Pela primeira vez o delegado se dirigiu a mim com impaciência:

— E vê se pára de chorar, que isso não é coisa de homem. Isso aqui é uma delegacia, e não um ambulatório.

O dr. Paulo entrou na sala e os dois conversaram. Paulo foi buscar um psiquiatra.

O delegado quis saber se algum dos meus companheiros de cela havia me incomodado. Expliquei que não, que até tinham me ajudado quando passei mal. Ele então foi irônico:

— Também, com a mordomia que seu pai deu a eles... frango, sanduíche etc.

Em seguida, levantou e foi comigo até a cela. Comecei a andar sem direção e ele teve de me ajudar. Pegou a chave com o carcereiro e entrou comigo. Sentou na cama do Waldemar e pediu para o Azulão servir um cafezinho para ele.

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— Quer dizer que você é secretário do Doca.



Percebi que aquele homem sabia de tudo o que se passava na carceragem. Tomou o café e comentou:

— Porra, muito melhor que o meu, vou ficar freguês.

Eu tinha pedido ao carcereiro que comprasse jornal. Ele tinha posto em cima da cama, junto com algumas cartas que haviam deixado para mim. O delegado viu aquilo e comentou:

— Isto aqui está virando um inferno. O que já veio de mulher querendo visitar você... A minha ordem é: visitas só aos domingos, e somente as autorizadas por você e com o meu o.k.

Com todo aquele movimento, me distraí um pouco, mas não quis saber do jornal nem das cartas. Dei tudo para o Azulão e disse que podiam ler à vontade. A única coisa que me interessou e que me intrigava era: por que um psiquiatra?

O dr. Newton pacientemente explicou que, no estado em que eu estava, era a melhor opção.



UMA HORA DEPOIS FUI ENCONTRÁ-LA; PERCEBI QUE ESTAVA NERVOSA E assustada. O ex-marido a estava processando pelo rapto de um dos filhos, e, para arrematar, ela havia se desentendido com o advogado que a representava nesse processo e em um outro, por posse de droga. Estava com medo. Quando foi pega com droga, houve flagrante e ela ficou presa uns dias, e se não tomasse cuidado poderia ser condenada. Achei que o momento não era oportuno para perguntar onde tinha sido presa, no Rio ou em Belo Horizonte. Ela falava enrolando um fumo, às vezes ficava séria, às vezes ria debochada. Estava linda daquele jeito: atravessada numa poltrona, só de calcinha e camisa. Ia enrolando o baseado e contando os poucos dias que passara presa. Tinha ensinado as presas a se maquiarem na última moda.

— Uma me beijou e me passou a mão, mas ficou nisso.

Seus olhos faiscavam enquanto ela contava essa história. Logo em seguida, disse que morria de medo de ser condenada.

Depois... pedimos uma garrafa de uísque e outra de vodca, que era sua bebida favorita. Sentamos na cama, ficamos doidões, bebendo e conversando.

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Dois pacotes bem embalados com papel prateado chamaram a minha atenção. Perguntei o que era aquilo, embora já soubesse do que se tratava...



- É fumo, acabaram de entregar.

— Ah, bom... pensei que você tinha entrado no avião com isso.

A tarde passou rápido, ficamos bebendo e nos acariciando, estávamos altíssimos. Quando demos por nós eram sete da noite. Saímos correndo para o aeroporto, ela ia jantar com Ibrahim na casa de amigos. E tinha um detalhe: ninguém sabia que ela estava em São Paulo. Não a acompanhei à sala de embarque, nos despedimos no carro. Deu um beijo demorado e carinhoso e pediu para eu deixar aqueles dois pacotinhos prateados na casa de uma amiga.

O jantar na minha casa não saía antes das nove; cheguei completamente doidão. Tinha passado uma tarde do jeito que o diabo gostava e estava em casa do jeito que eu queria: com minha família. Aquele era um momento que apreciava... tomar banho acompanhado de um drinque. Gostava muito da casa, do sossego do bairro, o Jardim Guedalla, no Morumbi.

E. Mas Ângela não saía da minha cabeça... seu cheiro de fêmea, o jeito de andar, de sorrir com os olhos faiscando... eu estava preocupado e ao mesmo tempo queria mais. Tentava me convencer de que estava tudo bem: afinal, tinham sido apenas duas tardes divertidas.

Minha mulher chegou em seguida, cansada. Trabalhava muito em sua oficina de estofados, que fazia sofás e poltronas. Era filha de um industrial, Nicolau Scarpa, e de Alicia, uma senhora nascida na Argentina. Tinha quatro irmãos: Nico, Analicia, Eduardo e Rodolfo. Pais e filhos eram unidos, e eu gostava de conviver com eles.

Normalmente, quando chegávamos, nosso filho, Luis Felipe, já estava dormindo; a hora de brincar com ele era pela manhã e às vezes na hora do almoço.

Logo depois do jantar, ainda estávamos à mesa quando o telefone tocou. Era o Ibrahim, contando que viria a São Paulo para entrevistar o Emerson Leão, o Leão, goleiro do Palmeiras, que segundo a imprensa esportiva tinha as pernas mais bonitas do esporte brasileiro. Ia fotografá-lo e queria permissão para usar a piscina da nossa casa. Não a ocuparia por mais de uma hora. Como as fotos seriam feitas no sábado, ficou combinado que ele viria com Ângela e que o casal se hospedaria conosco no fim de semana. Apesar de ter gostado da idéia, fiquei apreensivo, tinha medo de perder a linha e fazer alguma bobagem. Sabia que, se aparecesse alguma oportunidade, Ângela

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e eu não a desperdiçaríamos. Só tinha passado algumas horas com ela, mas já sabia que qualquer faísca provocaria uma explosão.



Naquela noite não pensei mais no assunto. Fui para o quarto com minha mulher e namoramos, como sempre.

Ibrahim e Ângela vieram e tudo correu bem. No sábado convidamos alguns amigos para jantar, assim ajudariam a fazer sala para as visitas. Depois fomos a uma casa noturna, o Hipopotamus, queríamos melhorar o humor do Ibrahim que tinha levado um cano do Leão. Ângela e eu ficamos sentados lado a lado, o tempo todo de mãos dadas, e aproveitamos um momento em que todos estavam dançando para marcar um encontro na sala de visitas lá de casa, assim que tivéssemos certeza de que nossos cônjuges estivessem dormindo. Na verdade, tramamos aquilo rindo, achando divertida e excitante a situação. Afinal, havia bastante gente na casa: nós, meu filho e os empregados. Também combinamos que, se um dos dois não pudesse aparecer, tudo bem, página virada.

Voltamos para casa cedo, acho que era inverno, porque me lembro do Ibrahim apanhando para acender a lareira, enquanto eu preparava mais um drinque. Tomamos mais alguns e fomos dormir. Quando cheguei ao quarto, minha mulher já estava dormindo. Lavei o rosto, escovei os dentes e subi para a sala novamente. As salas de visitas e de jantar ficavam no nível da rua; o terreno da casa era irregular, por isso os quartos ficavam abaixo das salas.

Quando cheguei, Ângela estava deitada no sofá, de pijama, lendo uma revista. Sorriu para mim e disse, com aquela cara que só ela sabia fazer:

- Não se preocupe, ele dorme como uma criança.

Se eu estava preocupado, daquele momento em diante esqueci tudo. Ela estava linda e sensual, senti que estava ligada naquele nosso momento. Servi uma bebida e fui me juntar a ela no sofá, perto da lareira. Era um sofá enorme de camurça. Acendemos um baseado e ficamos deitados conversando baixinho. Voamos alto, num espaço só nosso. Não sei onde estivemos, mas fomos além, muito além.

Quando o dia nasceu, no lusco-fusco dos primeiros raios de luz, percebi o movimento da nossa Bell (uma dobermann de cor albina) no terraço, e a realidade me atingiu. Cheiro de amor, roupas espalhadas pelo chão, as almofadas do sofá na mais completa bagunça. Em silêncio, começamos a arrumar tudo rapidamente. Sentia um choque e um aperto no coração. Que piorou muito quando me dei conta de toda aquela loucura. Mas não era hora para arrependimento, tinha que agir rápido e sair dali. Tudo arrumado, demos

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uma olhada de longe e achamos que estava tudo bem. Nos separamos sem nos despedir, não tínhamos tempo para isso. Entrei no banheiro, tomei uma chuveirada bem quente, deitei e dormi até uma e meia da tarde.

Acordei me sentindo esquisito, com uma grande ressaca moral. Minha mulher estava tranqüila, lendo. Quando subimos para o café, a empregada avisou que o almoço estava quase pronto e que os convidados tinham partido por volta do meio-dia, deixando agradecimentos e abraços. Fiquei aliviado, mas o aperto no coração continuava. Precisava fazer alguma coisa... encher minha mulher de beijos, mimá-la, fazê-la sentir-se amada, ter certeza de que ela estava feliz. Jurei para mim mesmo que nunca mais sairia com outra e que me dedicaria só à minha família.

Afinal, amava muito minha mulher... admirava sua inteligência e coragem. Tínhamos lutado muito para ter um filho, ela passou oito meses deitada para não perder a criança. O médico a tinha proibido de andar. Eu não podia pôr tudo a perder. Almoçamos e passamos uma tarde tranqüila. Lá pelas dez da noite, Ibrahim telefonou, agradecendo o fim de semana.

O dia seguinte foi normal até o fim da tarde. Reuniões com os corretores da imobiliária pela manhã e com o pessoal da Brasilos à tarde. No começo da noite, antes de ir para casa, telefonei para Ângela. Queria saber dela e perguntar por que tinham partido:

— O Ibrahim tinha se aborrecido com alguma coisa?

— Nada disso, ele detesta São Paulo.

Depois, disse que queria retribuir o convite. Ia telefonar para minha casa logo mais e nos convidar para passar um fim de semana no apartamento do Ibrahim. Se topássemos, seria dentro de quinze dias. Aí me surpreendeu:

— Amanhã ou depois estarei aí, vou passar uns dias com Francisco, que está querendo casar de novo. Telefonou, dizendo que está precisando de mim. Não se preocupe, ele já está sabendo de tudo.

Na verdade, fiquei preocupado, ninguém sabia de nada, só minha secretária Guida e Chiquito é que sabiam desse novo relacionamento. Francisco era muito meu amigo, estávamos sempre juntos, mas eu não tinha comentado sobre Ângela com ninguém e achava que deveria continuar assim, não queria que virasse um "caso".

No dia previsto ela não pôde vir, nem nos seguintes. O Ibrahim precisava dela, ia dar um jantar para um pessoal importante. Só chegou uns dez dias depois, mas antes eu já tinha ido para o Rio, passar um dia com ela. Tinha sido confuso, porque o Ibrahim ficou telefonando o tempo

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todo, cobrando sua presença e ajuda. Conheci melhor Ibrahim por causa da Ângela. Era um jornalista muito bem informado, sabia tudo o que se passava no governo, apesar de estarmos em plena ditadura militar. Além disso, era muito bem relacionado com empresários e gente da "alta sociedade". Conhecia a vida de todo mundo, a coluna dele era a mais lida do país. Muitos intelectuais e gente da imprensa faziam pouco dele, diziam que era ignorante. Pura dor-de-cotovelo, ele punha todos no bolso.



Naquela tarde, antes que eu saísse do apartamento de Ângela, ele telefonou de novo. Reclamou com ela, dizendo que tinha de fazer tudo sozinho e que ninguém o ajudava, e comentou que havia combinado com minha mulher nossa vinda, dentro de uma semana ou duas.

Mais uma noite cheguei em casa doidão. Acho que naquela altura já sabíamos que nosso relacionamento não seria passageiro. Eu, pelo menos, adorava a companhia dela e estava apaixonado, não tinha mais dúvida.

O que havia acontecido? Paixão à primeira vista? Estivemos juntos pouquíssimas vezes, não era para eu estar assim, de ponta-cabeça. Era verdade, estava adorando amá-la, mas estava sofrendo muito com aquela loucura toda. Um alarme tocava dentro da minha cabeça, mas meu coração o desligava.

Quando ela chegou, uns dias depois, me telefonou dizendo que já estava instalada na casa do Francisco. Fui encontrá-la no fim da tarde. Estava na beira da piscina com o dono da casa e sua noiva. Num primeiro momento fiquei constrangido, pois antes, sempre que estivemos em público, foi como amigos. O casal que nos recepcionava sabia que estávamos tendo um caso, e eu freqüentava aquela casa com minha mulher. Não sabia exatamente como devia agir.

Ângela ficou em São Paulo três ou quatro dias e passamos juntos boa parte do tempo.

O encontro seguinte foi no Rio na casa do Ibrahim. E foi bastante tumultuado.



Sempre tinha lido que sair de um manicômio judiciário é Muito complicado, depende da avaliação de várias comissões. Por isso, me incomodava estar à espera de um psiquiatra. E se toda a ajuda do dr. Paulo Badhu fosse uma armadilha?

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Estava todo enrolado nesses pensamentos quando o carcereiro avisou que o médico havia chegado. Dr. Newton mandou o carcereiro levar o psiquiatra para o cartório e, depois de alguns minutos, me acompanhou até lá.



Paulo e o psiquiatra conversavam quando entramos. O médico era cabeludo, usava uma barbinha rala, vestia camiseta e calça branca. Paulo nos apresentou.

— Conheça o doutor Ivo.

Percebi que ele era amigo do delegado, pelo modo efusivo como se abraçaram. Depois que Paulo e o delegado saíram da sala, começamos a conversar.

— Você está causando o maior rebuliço na cidade. Se se candidatar a um cargo público, ganhará na certa. Você não deve estar sabendo, mas muitos amigos seus estão passando temporada em Búzios e tentaram vir ontem te abraçar. Por causa de toda aquela gente aqui em frente, não conseguiram.

Eu disse alguma coisa e fiquei observando enquanto ele tirava a minha pressão. Estava alta, não sei quanto. Em seguida, pediu que eu explicasse o que estava sentindo. Contei o que tinha acontecido pela manhã, depois do banho, e que passara parte das últimas horas chorando. Ele quis saber como haviam sido os dias em que estive escondido. Fiz um resumo, contei sobre a injeção que me aplicaram na clínica e confessei que estava com medo de estar ali. Ele me tranqüilizou quanto ao meu estado de saúde. Disse que era óbvio, eu estava exausto e emocionalmente muito abalado, e precisava de pelo menos dez dias em uma clínica. Receitou um calmante e voltamos para a sala do delegado. No caminho disse que o Paulinho (era assim que chamava o Paulo Badhu) ia conversar comigo mais tarde. Fiquei pouco tempo na sala com o dr. Newton. Não me sentia bem e pedi para voltar para a cela e me deitar. O ambiente estava quente, superabafado. Na carceragem, o pessoal da cela estava preocupado, porque haviam transferido alguns presos para o presídio de Água Santa, no Rio de Janeiro. Não dei a mínima para nada, deitei e fiquei quieto. Estava ansioso, esperando que papai aparecesse. Quem apareceu foi Paulinho.

— Olha, se você seguir o meu conselho, o Ivo e eu levamos você para uma clínica. Continue chorando e volte para a cama. Vou falar para o delegado que você precisa ir para um hospital, que o Ivo constatou que

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você está muito mal e que, se acontecer alguma coisa, a responsabilidade será dele. Se você voltar para a cama, interpretarei que está me autorizando a agir e tomarei as providências. Mas, se eu começar e você der para trás, quem vai ficar mal serei eu.



Achei que a história não vingaria nunca, que aquele cara era louco e o tal do dr. Ivo, mais louco ainda. Olhei bem nos olhos do Paulinho. Não sei por quê, disse que concordava com tudo e que ele não tinha que se preocupar: faria a minha parte. Voltei para a cama e fiquei quietinho, encolhido. O calor era brutal, e ninguém tinha nada para fazer, a não ser conversar e jogar dominó. Quiseram conversar comigo, mas fiz sinal de que não estava bem.

O carcereiro apareceu e contou que muitos repórteres estavam à minha procura, que o dr. Newton estava furioso, tinha mandado a PM pôr todos para fora e proibira a entrada deles na delegacia. Que naquele momento estava trancado com o dr. Ivo e o Paulinho no escritório. Ouvi tudo isso sem me mover, não olhei nem mostrei interesse.

Percebi que havia uma movimentação estranha na cela. Todos levantaram de repente, e ouvi o barulho das chaves e da porta de ferro rangendo. Mas não abri os olhos. Alguém mexeu nos meus ombros duas ou três vezes. Era o delegado, avisando que uma ambulância estava a caminho para me buscar e que eu seria transferido para um hospital. Que seria guardado dia e noite pela PM.

— Não tente fugir, serei eu o responsável. Você vai sair daqui na maca. Não se assuste com a multidão nem com os flashes. Centenas de jornalistas estão lá fora, a pm fará um cordão de isolamento. Ninguém chegará perto de você.

O dr. Ivo chegou com alguns homens, e saí da cela de maca. Quando passei pela porta que dava para a rua, o dr. Ivo mandou eu não abrir os olhos. Mas abri um pouquinho e vi o delegado de um lado e o Paulinho e o dr. Ivo do outro. Devia ter muita gente ali, pelo zunzum e pelo barulho das máquinas fotográficas. Fora perguntas incríveis feitas aos berros, não sei se de repórteres ou apenas curiosos. De uma, lembro bem:

— Doca, você ainda ama Ângela?

De repente percebi que estava na porta da ambulância. Notei que papai estava do meu lado e tive a impressão de que ele não estava entendendo nada. Fui posto na ambulância e o dr. Ivo entrou comigo, rumo ao Hospital Santa Izabel.

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NA AMBULÂNCIA, ALÉM DE MIM E DO IVO, ENTROU UM POLICIAL que eu já conhecia da delegacia. Não houve incidentes durante o trajeto, exceto os carros dos repórteres. Não sei o que esperavam conseguir, talvez algumas fotos de minha entrada, de maca, no hospital.



A chegada foi caótica, demorei uns quinze minutos para sair da ambulância. Fazia muito calor e as portas tinham que ficar abertas para que não sufocássemos. Depois de muita conversa e empurrões, a polícia fez um cordão de isolamento e finalmente conseguimos passar e entrar no hospital.

Acho que fui para o terceiro andar, fiquei no último quarto, à direita do elevador. Dois policiais já estavam na porta quando cheguei. O investigador que me acompanhava foi embora, mas avisou que passaria por lá três ou quatro vezes por dia, para ver se estava tudo bem. O dr. Ivo e uma enfermeira me ajudaram a colocar um camisolão e me aplicaram uma injeção, e ele recomendou que eu não me levantasse, a não ser para ir ao banheiro.

Quando a enfermeira saiu, o dr. Ivo e eu ficamos sozinhos. Perguntei pelo Paulo Badhu. O dr. Ivo explicou que estava com papai, na secretaria, cuidando da parte burocrática, mas que logo eles estariam com a gente. Ele começou a rir e disse:

— Você é corajoso, por isso deu tudo certo. Não se preocupe, assinei um termo de responsabilidade na delegacia. O Paulinho convenceu o delegado de que, se você tivesse alguma coisa séria lá, a responsabilidade seria toda dele. Você terá que se recuperar e se preparar para agüentar tudo o que vem por aí. Estou aqui para ajudá-lo, se você quiser.

Concordei imediatamente. Na verdade, desde que fugira, vinte dias antes, não havia tido um minuto de tranqüilidade, que me desse tempo para pensar. Ou estava fugindo, ou preocupado com a situação que tinha pela frente. Essa era a oportunidade de parar tudo e pôr a cabeça no lugar. O tempo era curto, uma semana, dez dias, se a sorte continuasse me ajudando. Tinha certeza de que a promotora e o juiz não estavam gostando nada da minha saída da delegacia e da minha estada naquele hospital.

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Resolvi confiar no dr. Ivo e em Paulinho. Afinal, foram eles que me socorreram na hora do aperto e, além do mais, do meu ponto de vista, o que tinham conseguido era um verdadeiro milagre.



Paulinho e papai chegaram. O velho foi logo dizendo:

— Afinal de contas, o que aconteceu? Não estou entendendo nada.

Os dois explicaram tudo, com todos os detalhes. Perguntei ao Paulinho se ele queria uma procuração para continuar no caso junto com o dr. Paulo José da Costa. Disse também que ele iria até o fim, se aceitasse, é claro. Também ficou acertado com o dr. Ivo que ele estaria comigo nos momentos complicados. Que seriam inúmeros. Esse homem, de uma bondade extraordinária, me ajudou muito. A paciência que teve comigo, só meu pai teve igual. Dinheiro não paga o que ele fez por mim. Aliás, ele nunca cobrou.

Bom... finalmente estava instalado num hospital, preparando-me física e mentalmente para enfrentar a vida que me esperava, que em princípio seria cadeia, julgamento e pena a cumprir.

Acredito que fiquei lá mais de quinze dias. Conversei muitas horas com Ivo, contei minha vida e meu romance com Ângela, a fuga para São Paulo e tudo o que aconteceu até a volta para Cabo Frio. Repassamos tudo várias vezes, e em muitas ocasiões me desesperei e chorei muito.

Além de Ivo, uma enfermeira foi dedicadíssima, e papai, fiel guardião, não arredava pé da minha cabeceira. Alguns amigos que estavam de férias em Búzios tentaram me visitar, mas, como não conseguiam, mandavam recados. Por dia, recebia em média de cinco a dez cartas de todos os cantos do Brasil. Noventa por cento eram de mulheres, quase todas de apoio, e pedindo uma resposta. Evidentemente isso me incomodava, essas cartas eram no mínimo estranhas.

Talvez a imprensa estivesse falando tanto de mim que estava me tornando um herói. Uma vez, quando esperava o julgamento em liberdade, um camarada me parou na rua e pediu um autógrafo — neguei, é claro, disse que não entendia a atitude dele.

— Me desculpe — ele disse —, é que meu filho admira muito o senhor.

Depois de uns três dias no hospital, papai me avisou que eu receberia a visita de um advogado famoso, porque o dr. Paulo José da Costa estava lecionando em Roma e ainda iria demorar uns quinze dias para voltar. Em vista disso, ele tinha convidado esse advogado para assessorá-lo. O nome desse novo advogado, papai achava que era Evandro.

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NO FIM DA TARDE, RECEBI A VISITA DO DR. EVANDRO LINS E SILVA, que veio acompanhado de sua equipe: seu sobrinho Técio Lins e Silva, o dr. Arthur Lavigne e o dr. Ilídio Moura. Conversamos longamente, e pela primeira vez fiquei sabendo tudo sobre o processo. Informaram que assim que possível entrariam com recurso, para que eu pudesse aguardar o julgamento em liberdade. Era réu primário, tinha bons antecedentes e residência fixa. Apesar da gravidade do assunto, a conversa não foi pesada. Aquela reunião me fez bem. O ex-ministro Evandro Lins era uma pessoa agradável e expunha seus pontos de vista de maneira muito clara. No fim da visita, sabendo o rumo que a defesa tomaria, me senti aliviado, já que Evandro era um grande criminalista, vivia no Rio e seria fácil falar com ele ou qualquer membro de sua equipe.



Permaneci mais tempo que esperava no hospital. Paulinho e Ivo mexeram os pauzinhos e com isso fiquei mais de quinze dias lá. No fim desse tempo estava mais calmo e forte, mas ficava apavorado ao pensar que de uma hora para outra estaria voltando para a delegacia. Um ou dois dias antes de ser escoltado de volta para a cadeia, recebi novamente a visita do dr. Evandro e de seu pessoal.

Como da primeira vez, ele falou sobre o andamento do processo e sobre a reação do juiz a minha permanência no hospital. Traçamos um plano de ação para que me sentisse mais confiante. Assim, voltaria para a delegacia certo de que estavam trabalhando para que eu tivesse um julgamento justo.

Havia um fato novo: uma equipe da promotoria tinha vindo me visitar para constatar se eu realmente precisava continuar internado. Os advogados e o dr. Ivo me avisaram que não conseguiriam me manter por mais tempo no hospital. E tampouco poderia esperar o julgamento em liberdade. O dr. Evandro tinha feito um requerimento, mas havia um problema: a comarca de Cabo Frio estava, na época, com um juiz substituto, o que na visão do dr. Evandro não era bom.




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