O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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DEPOIS DE 1987, QUANDO CHEGUEI A SÃO PAULO, NINGUÉM SAbia que eu tinha conseguido a condicional. Graças a isso, a imprensa me deixou sossegado por algum tempo. Seguia minha vida com certa tranqüilidade, vendendo frotas de veículos da linha Volkswagen, como funcionário da empresa Iguatemy Veículos e me apresentando à Vara de Execuções Criminais a cada três meses. Mas em 1991 meu sobrinho, Churchill Street, diabético desde a adolescência, e na época com trinta e poucos anos, precisava fazer um transplante de rim, porque tinha sérias dificuldades com sua saúde. Por ser muito amigo dele e de seus pais (minha cunhada May e meu irmão Luiz Carlos, a quem chamo de Caco), resolvi fazer a doação de um rim para que meu sobrinho pudesse ter melhores condições de vida.

Nessa ocasião, a revista Contigo de 11/4/1991 publicou uma nota. Eis um trecho: "O tempo passou e o ex-playboy não quer saber mais de freqüentar as páginas de jornais. Mas não conseguiu escapar das manchetes depois que descobriram sua última façanha: salvar a vida do sobrinho Churchill, doando um rim ao rapaz de 32 anos e diabético desde os dez". Seguramente o articulista usou o adjetivo "façanha" de maneira irônica, pois não me lembro de ter feito algum ato heróico.

Em novembro desse mesmo ano, a revista Exame, em artigo de Walcyr Carrasco com o subtítulo de sociedade, e o título: "O destino de Doca Street — Aos 58 anos, o cidadão Raul Fernando Street está casado, refez sua vida mas anda num labirinto de olhares".

O repórter, no início da reportagem, conta que no escritório onde eu trabalhava, quando fui cumprimentá-lo, o telefone tocou, e dei informações a um cliente sobre o mercado de dólares e, em seguida, ao voltar para dar atenção a ele e percebendo que era jornalista, o coloquei para fora com fúria incontrolável. Em seguida, cita um artigo de 1982 da revista Manchete, assinado por Agnaldo Silva, eis o trecho: "Em 1956, Doca foi processado por surrar um homem, em Santos, e em 1971, por ter atropelado o comerciante Jorge Beirute, em São Paulo. A irritabilidade

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parece ser um aspecto permanente de sua personalidade. Junto com ela, certo sentimento de superioridade, que não é apanágio particular de Doca, mas um traço comum na aristocracia paulistana".



Não consigo entender... será algum complexo? E as mentiras, o que pensar delas? Aquele escritório era uma factoríng, só fazíamos empréstimos em moeda nacional, ninguém mexia com dólares ali. Quanto ao processo por surrar um homem em Santos, nunca existiu. Houve sim um processo em 1956, por causa de uma briga em um bar no fim da praia da Enseada, no Guarujá. Fui apenas envolvido porque estava sentado numa mesa grande no lado de fora e nem vi que alguns membros da mesa se desentendiam no interior do estabelecimento. Seria fácil descobrir a verdade, mas provavelmente ir até o fórum de Santos investigar daria muito trabalho. Quanto a um atropelamento de 1971... pelo que eu sei foi uma trombada que Jorge e eu demos e ele me processou por me achar culpado, mas fui absolvido.

No final de 1996, em 29 de dezembro, o jornal O Globo publicava: "Doca Street às portas da liberdade definitiva". Dessa vez o jornal até me deu uma colher de chá, contando que em 1997 eu estaria completamente livre. Relatou toda a história do crime e dos dois julgamentos. Mas, ao finalizar, enaltecia a minha habilidade em seduzir minha clientela vendendo de cem a 150 carros por mês.

Em 2002, eu prestava serviços ao Banco Mercantil de São Paulo S.A. na área de inadimplência de veículos. Na tarde de 11 de abril recebi um telefonema do superintendente do banco e amigo, dr. Gastão Eduardo de Bueno Vidigal. Ele me alertava indignado, a respeito de um artigo no jornal Valor Econômico, cheio de calúnias. Ele dizia:

— Você tem que processar o camarada que assina esta reportagem, isso está parecendo chantagem.

Saí correndo, comprei o jornal e, depois de ler o conteúdo da última página, fui direto à vice-presidência do banco mostrar o artigo ao Raul Pereira Barreto, que era e é meu amigo. Ele leu com atenção e disse a mesma coisa que dr. Gastão: chantagem.

Tudo estava acontecendo porque havia umas semanas eu tinha lido que Roberto Farias iria fazer um filme sobre a vida de Ângela. Como o artigo referia-se a mim também, inclusive contando qual artista faria meu papel, telefonei para o Roberto Farias. Disse a ele que desistisse da idéia, pois eu ia fazer de tudo para impedir esse filme. Roberto, muito

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educado, me explicou que ele era apenas diretor do filme, que eu deveria falar com José Louzeiro, que era o roteirista. Tentei entrar em contato com este senhor, mas não tive sucesso.



Partes do artigo do jornal Valor Econômico: "Roberto Farias voltará a dirigir filmes comÂngela Diniz". Aí começa: "O projeto mais polêmico é a biografia de Ângela Diniz.Ela era uma garota linda casada com um milionário em Minas Gerais, que largou tudo para vir ao Rio de Janeiro, onde se envolveu com o Doca Street, que a assassinou e alegou crime passional, conta Farias". Aí começam as declarações do roteirista José Louzeiro: "O Doca era um pé-rapado, que explorava a Ângela, ESTAVA ENVOLVIDO COM DROGAS E O CRIME CERTAMENTE TEM RELAÇÃO COM ISSO, MAS ELE SE DEU BEM AO ALEGAR CRIME PASSIONAL".

"Doca é hoje um próspero comerciante de carros em São Paulo e certamente deverá tentar impedir a realização do filme. Louzeiro não se preocupa.Se ele entrar com um processo, entraremos com dois ou três contra ele e vamos vasculhar sua vida... É no mínimo estranho que ELE SAIA DA PRISÃO SEM NADA E SE TORNE UM PRÓSPERO COMERCIANTE."

Quem me dera! Adoraria ser um próspero comerciante. Na época eu era apenas um cidadão prestando serviço a um banco para ganhar a vida.

Inconformado, fui ao escritório do criminalista dr. Alberto Za-charias Toron mostrar o artigo e pedir que processasse o sr. Louzeiro. Escrevo "pedir" porque eu não tinha dinheiro nem para as custas. Toron me atendeu e me apresentou uma das sócias daquele famoso escritório, a dra. Carla Vanessa T. H. Domenico, e os dois montaram o processo.

A audiência foi em 3 de fevereiro de 2003, às quinze horas. O senhor Louzeiro retratou-se perante o juiz: "Esclarece o querelado que a matéria não corresponde ao teor exato da entrevista e que esses trechos não foram ditos ao jornalista".

Assinou, perante o juiz, um documento comprometendo-se a retratar-se com um artigo no mesmo jornal e na mesma página. O documento está em meu poder, tinha trinta dias para fazer isso e nunca o fez.

Em 5 de junho de 2003, em rede nacional, a rede Globo relatou para o público, por intermédio do programa Linha Direta, trechos da minha vida com Ângela. Tentei impedir que o programa fosse para o ar, mas não consegui.

Fui réu confesso, não era necessário inventar histórias, como fizeram alguns jornalistas.



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Estes relatos foram escritos sem a menor intenção literária. São anotações que fiz enquanto estive preso. Eram, segundo imaginei, para pôr para fora a grande dor e tristeza que sentia. Fora a vergonha que fiz minha família passar, era responsável pelo desespero de três crianças que tinham perdido a mãe e de uma mãe que tinha de passar o resto de sua vida lamentando que a filha tivesse me conhecido. Foi muito duro encarar isso.



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