O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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no meio do canal e eu olhava uma das pontas da pista do Santos Dumont, um Electra da ponte aérea decolou e eu atirei um beijo para o meu amor, que provavelmente estava naquele vôo. O avião desapareceu atrás da montanha e a barca continuou seu caminho. Apesar de estar voltando para a penitenciária, aquele era um momento sem tristeza: havia esperança. Sentia o peso da solidão e de ter de enfrentar a massa carcerária, os guardas e a penitenciária, mas estava tranqüilo, sabia que o pior já tinha passado. Entrei conforme o previsto — às dezenove horas —, fui direto para o cubículo e comecei a escrever sobre os últimos acontecimentos.



Nunca nos momentos de euforia deixei de pensar em Ângela e de sentir um desconforto enorme. Acho que não preciso descrever o que sentia e sinto. Quando isso acontece meu coração dói e me sinto só, mesmo no meio de uma multidão. Geralmente fico refletindo a respeito de tudo o que aconteceu e sempre sinto a intranqüilidade da próxima hora, do futuro tão inesperado. O que guia nossos destinos? Quando Marilena está por perto converso com ela. Conto tudo, para desabafar.

21/1/1985. Marilena estará me visitando no próximo sábado e domingo, e no outro estarei na rua novamente. Assim espero, o sistema é meio imprevisível e é bom sempre estar preparado para alguma mudança.

Filomeno, o Fio, recebeu o alvará de soltura no fim do ano. Ainda tinha um bom tempo a cumprir, mas estaria na condicional. Tinha sido um assaltante famoso, mas desde sua prisão era outro homem. Tornara-se religioso, não pisava na bola e tinha vários elogios na ficha. Estava sem sair havia mais de oito anos, seu artigo era o 157 (assalto à mão armada acompanhado de morte). Ao se despedir de seus companheiros, alguns o aconselharam...

— Cuidado.

Não soubemos como foi ou qual a razão, o fato é que já está morto.

Bianca terminou sua pena de catorze anos há mais ou menos vinte dias, e no último fim de semana foi presa e está numa delegacia. Parece que telefonou para o diretor pedindo ajuda. Alega que não fez nada, foi só arruaça.

Dois Cu, em sua última saída matou dois, mas, pelas informações que chegaram aqui, durante o tiroteio foi baleado e também faleceu. Seu corpo está no IML e até agora ninguém o reclamou.



25/2/1985. Depois de Marilena me visitar mais uma vez e de passar o domingo no parlatório comigo, tive uma grande surpresa na segunda-feira.

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Fui avisado de que seria transferido para uma prisão semi-aberta, o Instituto Romeiro Neto, aqui mesmo em Niterói.

30/2/1985. Um ônibus do sistema transportou dezesseis internos para o Romeirão, como era chamado o nosso novo endereço. Nosso comportamento era eufórico, parecíamos colegiais, apesar de todos ali já terem passado o fim de ano na rua e depois disso ter saído pelo menos uma vez. Tudo era novidade. Um novo sistema, uma nova casa, um novo diretor e, provavelmente dentro de uma semana, uma nova vida, pois começaríamos a sair todos os dias pela manhã e retornaríamos à noite. Mas naqueles momentos, antes de chegarmos, tudo era expectativa.

O ônibus parou em frente a um muro alto, o portão estava entre -aberto e não havia guardas tomando conta nem guaritas. O agente que dirigia o ônibus pôs o veículo em movimento novamente e foi dirigindo devagarzinho até chegar ao portão. Do lado esquerdo, bem em frente, tinha um supermercado de proporções gigantescas, que chamou nossa atenção. Abriu a porta e disse:

— Deixem o supermercado para depois, agora desçam e se apresentem à inspetoria.

Tudo tinha mudado, a atitude dos guardas, a postura do inspetor que nos recebeu e o portão que continuou aberto. Após o inspetor fazer uma chamada e conferir os documentos de cada um, nos encaminhou para um corredor, onde deveríamos permanecer esperando.

Albergados passavam por nós, entravam e saíam sem muita burocracia. Depois de nos conhecer um a um, o inspetor assinou o recibo que dava por encerrada aquela primeira fase: estávamos entregues. Em seguida levou-nos para conhecer a cozinha e os albergados que trabalhavam ali. Para minha surpresa, já conhecia todos.

Muitos albergados que tinham profissão como cozinheiros, marceneiros, pedreiros etc. e não conseguiam emprego, trabalhavam no sistema e moravam ali. Dali por diante todos nós teríamos no "Romeirão" um apoio: cama, comida, banheiro com chuveiro e boi, serviço social e um atendimento advocatício, composto por estagiários.

Depois fomos aos dormitórios, que eram três e do mesmo tamanho. Nunca vi tantos beliches juntos, cada um com três andares. Deixaram que escolhêssemos nossas novas camas e recebemos um armário, parecido com esses de guardar bagagem em aeroporto. Tive sorte, arranjei o último andar de um beliche, bem em frente ao armário que me

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coube. Depois fomos conhecer o pátio que servia para recreação, para lavar roupa, para secá-la, para jogar futebol de salão e tomar sol. Ficava atrás da cozinha e ao lado do último dormitório. Tinha dois tanques de lavar roupa e um bom campo de futebol de salão.

Após essa visita ficamos liberados por meia hora, já que eram quatro e meia e o jantar era às cinco. Baiano, que com sua simpatia conseguiu escapar dos castigos e dos maus relatórios sobre seu comportamento por causa de jogo (carteado), sugeriu a mim e a Gilberto, que era goleiro da seleção do "Sítio", irmos até o supermercado. Pedimos permissão ao inspetor, que autorizou com a condição de estarmos de volta às dezessete horas, pois a diretora queria conversar com todos após o jantar.

Chegamos na hora, mas não jantamos no pequeno refeitório. Entusiasmados como estávamos após um passeio pelo supermercado, compramos hambúrgueres e refrigerantes e comemos no pátio.

A reunião com a diretora foi boa, nos deu boas-vindas e nos orientou como deveríamos proceder nos próximos dias. Avisou que só poderíamos sair depois de uma semana, mas que durante essa primeira semana teríamos algumas horas para procurar emprego e o portão estaria aberto, portanto dar umas voltas nas imediações era permitido. Passar o fim de semana com os familiares, só a partir da segunda semana, mas poderíamos receber visitas neste próximo sábado e domingo.

Os que já possuíam colocação tinham de trazer um membro da família e a companheira, se tivesse, para assinar alguns papéis e passar por entrevista com a administração. Fez uma preleção sobre ser pego com drogas ou armado. Para os que permanecessem sem emprego, ela os utilizaria, se concordassem, na construção de duas salas à direita do pátio de entrada. Em seguida nos dispensou, aconselhando a todos que não perdessem a oportunidade de voltar a ser cidadãos livres.

4/3/1984. Nessa primeira semana cumpri todos os procedimentos que a nova casa exigia. A prima Maria Zélia veio e assinou um termo de responsabilidade a meu favor, e Marilena, que esteve me visitando no fim de semana, veio antes de São Paulo, na sexta- feira, e conversou com a diretora. Só uma vez utilizei essas duas horas diárias. Fui sincero com a administração, contei que a colocação que tinha era temporária e almejava algo melhor. Para isso fui procurar um banqueiro amigo, que tinha certeza de que me receberia bem. Como de fato recebeu. Luiz Afonso

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Cardoso de Mello Álvares Otero, banqueiro de visão fora do comum, excêntrico e bom amigo, não só me deu o emprego, como também dinheiro para eu comprar um carro.

— Você não está acostumado a andar de ônibus — disse ele sorrindo, entregando-me o dinheiro.

Como eu tinha trabalhado com carros, me ofereceu fundos para começar um novo negócio. Não pude aceitar, não me sentia com capacidade naquele momento. Estive muito inseguro nessa época, achava que as pessoas, ao me reconhecerem, desconfiariam de mim.

De todo jeito só iria trabalhar com ele dentro de sessenta dias, pois não poderia fazer desfeita para o parente e amigo que me estendera a mão. Iria esperar o encerramento da empresa, para depois me registrar no Banco peb, um banco pequeno que operava muito na Bolsa.

Fora esses trâmites exigidos, que foram cumpridos à risca, a semana passou tranqüila.

Bem em frente ao supermercado, do outro lado da rua do "Romeirão", havia quatro orelhões. Para usá-los era só atravessar a rua, não era necessário pedir permissão, também não era obrigatório fazer as refeições no instituto, apesar de a comida lá ser tão boa, que a maior parte das vezes foi lá que comi. Só duas vezes almocei no restaurante do supermercado.



15/3/1985. Cheguei cedo na casa de Maria Zélia e Jaime, meus primos que me hospedavam até as coisas melhorarem. Entrei pé-ante-pé para não acordá-los. Fui direto para o quarto que ocuparia naqueles primeiros tempos. Tinha um terraço que dava para os morros do Pavão e Pavãozinho e um ótimo banheiro. Em cima da cama encontrei um bilhete que me avisava para não ir à empresa em que ia começar a trabalhar, porque não tinha nada para fazer, estavam só cuidando de encerrá-la e isso seria feito a portas fechadas. Não precisava me preocupar, se aparecesse alguém do sistema para me visitar, diriam que eu estava visitando firmas. Não me preocupei, já tinham me avisado que isso poderia acontecer.

Aproveitei para deitar e dormir mais um pouco. Acordei uma hora depois com o barulho dos meus primos tomando café. Fui juntar-me a eles, pois o cheiro que vinha da copa, além de gostoso, me fez lembrar que estava em jejum.

Depois do café em família fiquei ansioso, afinal aquela não era a situação ideal.

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Liguei para Marilena e depois para Luiz Afonso para ver se conseguia começar a trabalhar imediatamente. Infelizmente ele tinha viajado para a Itália e só voltaria em vinte dias.

Nos últimos tempos tanta coisa tinha acontecido, e de maneira tão rápida, que nem tive cabeça para avisar meus advogados. Aproveitaria aquele dia para visitá-los. Primeiro fui até o escritório do dr. Evandro na avenida Rio Branco e, quando encontrei dr. Ilídio na entrada, já fui avisando:

— Não se assuste, não fugi, está tudo bem.

Ele mesmo me levou até a sala do ministro, que me recebeu com a majestade de sempre. Durante o cafezinho, contei-lhes tudo o que tinha acontecido, desde a entrevista com o diretor da penitenciária Ferreira Neto, que me abriu o caminho para as saídas de fim de ano, até a transferência para a Romeiro Neto, uma prisão semi-aberta. Depois de ouvir tudo, dr. Evandro achou melhor continuar na mesma linha. O que eu tinha conseguido era dentro do sistema penitenciário, ele estava tentando diminuir minha pena, o que me beneficiaria com a condicional. De lá mesmo telefonei para dr. Humberto, para contar as novidades.

Tudo estava caminhando, só estava preocupado por não estar trabalhando de verdade.

Passados alguns dias, minha prima, percebendo minha angústia, me apresentou a um conhecido que administrava imóveis de aluguel para temporada. Um tipo de empresa muito comum no Rio. Fui conversar com ele e gostei do negócio. A firma dele tinha uma centena de apartamentos para alugar, a maior parte em Copacabana. Alugava por dia, por semana ou por mês, de acordo com a necessidade de cada turista. A comissão era boa e ele precisava de mais um corretor. Fiquei com a vaga e comecei no mesmo dia. Então a situação ficou assim: eu tinha um emprego e trabalhava noutro. Fiquei bastante tempo fazendo isso, quase dois anos, era um bom negócio e continuei nele mesmo depois que Luiz Afonso me registrou em sua firma. Comprei um carro para ter um pouco mais de conforto e fui tocando a vida desse jeito. Todo fim de semana, Marilena vinha e passávamos o sábado e domingo juntos.



20/4/1985. Muita coisa tinha mudado desde minha saída da penitenciária Ferreira Neto. Levava uma vida de meia liberdade, mas me sentia vivendo novamente. Cumpria todos os horários e deveres exigidos pelo sistema. Inicialmente saía às seis horas da manhã e voltava às 21 horas, mas, pouco tempo depois, passei a retornar às 23 horas.

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A luta pela vida não era fácil, a concorrência enorme tornava as coisas difíceis, um lugar ao sol tinha de ser conseguido com muita persistência. Eu tinha o apoio de Marilena, da minha prima e, se a coisa apertasse muito, sabia que podia recorrer a Luiz Afonso.

Na verdade, eu tinha duas vidas completamente opostas, a familiar, com meu trabalho e os amigos, e a da sociedade carcerária. Só agora lendo o que escrevi na época é que percebo que conseguia levar as duas numa boa, apesar da enorme diferença entre elas.

Nas prisões semi-abertas, presídios e penitenciárias a vida também continuava e toda noite, quando voltava para o "Romeirão", baixava uma cortina e subia outra. Minha vida virava como se vira uma moeda. Outras histórias, outras conversas e outros problemas. Todos os dias havia fatos novos, tais como: fugas, prisões, assaltos, mortes em tiroteios com a Polícia ou entre facções nas penitenciárias. Fora as mortes acontecidas por retorno aos morros de origem.

Pira tinha sido morto por um companheiro que o acompanhava quando juntos iam em direção a sua casa. O matador morreu em seguida, assim que comunicou ao mandante a notícia de que tinha completado o serviço.

Fiquei chocado quando tive certeza do fato. Gostava daquele camarada. Foi meu amigo e me ajudou muito numa hora difícil de minha vida, em que corri sérios riscos por não conhecer o sistema nem saber como me mexer dentro dele. E não foi só a mim que ajudou enquanto comandou a política de entrada e saída de internos na Lemos de Brito. Enquanto o consultaram, ninguém morreu. As mortes só começaram porque trouxeram gente da Ilha e de outras cadeias, misturando as facções. Não estou fazendo a apologia de um bandido que era meu amigo, só estou contando o que aconteceu naquela época.

10/5/1985. Há mais ou menos vinte dias fui a São Paulo por quase duas semanas. Após quase três anos, voei para lá para passar a Semana Santa com a família. Emocionei-me quando vi Raul me esperando no aeroporto, isso aconteceu novamente ao entrar no apartamento de Marilena e dar com ela e os filhos comemorando minha chegada.

O juiz autorizou a viagem por duas razões: primeiro para visitar a família na Semana Santa, e segundo, porque um megaindustrial de São Paulo me ofereceu um emprego. Iria ser encarregado de nomear representantes de sua empresa no Rio de Janeiro. Não deu certo, a indústria

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era familiar e membros de sua família não concordaram com minha nomeação. Senti pela primeira vez uma barreira por ser quem eu era. Nos cinco anos que fiquei em liberdade, esperando julgamento, tinha feito contatos com empresas nacionais, multinacionais e bancos, sempre fui bem recebido, conseguindo realizar negócios de monta. Mas desta vez não tinha dado certo. Paciência, não ia ficar traumatizado com isso. Pedi a quem me convidara uma carta para me justificar perante à vec e à diretora do "Romeirão".



Nos cinco dias que fiquei em São Paulo estive com papai todas as tardes, almocei com minha mãe quase todos os dias. Revi meu filho caçula, Luis Felipe, e fiquei muito emocionado ao reencontrá-lo. Apesar de estar com apenas dez anos, encarou nossos poucos momentos juntos com seriedade. Fez um pouco de cerimônia, mas isso considerei normal, pois mal se lembrava de mim.

Revi alguns amigos em um jantar que me ofereceram, e no dia seguinte fui almoçar com Plínio Calil e Ernesto Colombo, proprietários da última empresa na qual havia trabalhado enquanto aguardava julgamento. Depois disso, fui com Marilena e Raul para a chácara da minha cunhada e meu irmão, onde fiquei até terminarem os feriados.

O retorno foi traumático, é claro, depois de quinze dias brincando de homem livre, assinar o livro de entrada no Instituto Romeiro Neto não foi nada fácil, apesar de saber que às seis horas da manhã estaria na rua novamente. É... aquilo era um choque de alta voltagem. Os quinze dias que passei com Marilena e minha família tinham me jogado de volta à normalidade da vida, mas o retorno me trazia à realidade recente, com seus traumas e lembranças, me fazendo pensar em por que estava ali cumprindo pena.

Deitado no terceiro andar de meu beliche, naquela primeira noite após a Semana Santa, pensava no passado, no sonho de viver um amor impossível, de ter consciência disso e de ter continuado rumo ao abismo que estava ali, a poucos passos. O que me fez agir assim? Os tóxicos? Era muito fácil culpá-los. Esses pensamentos não me deprimiam mais. Compreendia que não tinha como voltar o tempo e teria de conviver com isso o resto de meus dias.

Custei a dormir e quando o dia amanheceu fui acordado por Ser-ginho, que tinha chegado enquanto estive fora. Assim que me sentei no beliche para espantar o sono, vi Zé do Lago me dando adeusinho. Se aproximou e contou que tinha acabado de chegar da Lemos de Brito.

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Cumprimentei-o e desejei boa sorte, mas não tive bom pressentimento, nem o apresentei a Serginho.

Quanto a este último, fiquei feliz em encontrá-lo, ele estava entusiasmado, a mulher e os filhos já tinham estado com a diretora e estava tudo pronto para ele sair a partir da semana seguinte. Quase dei conselhos para ele deixar os homossexuais em paz e arranjar um emprego, mas me segurei e não falei nada.



5/6/1985. Os dias e as semanas iam passando sem novidade. Sair cedo e voltar à noite. Sábados e domingos livres.

Uma manhã, quando saía caminhando em direção ao ponto de ônibus (raramente vinha com meu carro), fui abordado por jornalistas. Fui fotografado por um quarteirão e depois se aproximaram para que eu desse uma entrevista. Expliquei que estava impedido e podia ser prejudicado se os atendesse.

Uma semana depois saiu a publicação: três páginas com fotografias tiradas naquela manhã e outras de arquivo. No canto da primeira página aparecia: "Oh, que delícia de cadeia", e depois em letras enormes: Bem disposto, elegante e bronzeado, lá vai Doca Street para mais um dia de liberdade.

Daí por diante a reportagem foi normal: escreveram alguns trechos de minha vida com Ângela, o crime, a condenação de quinze anos. Não omitiram que eu já tinha cumprido quatro anos e, pelo meu bom comportamento, a Vara de Execuções Criminais tinha me concedido prisão semi-aberta.



20/8/1986. Morei na casa de minha prima bastante tempo, o necessário para me fortalecer e acostumar com a nova vida. Mas, ultimamente, Marilena e eu alugamos um apartamento quase em frente ao Jóckey num bairro simpático, o Baixo Gávea.

Um ano depois de chegar ao "Romeirão" começaram os boatos de que aquele instituto iria se transformar numa prisão semi-aberta para mulheres.

Em fevereiro de 1986, fui transferido para o Instituto Vicente Piragibe, em Bangu. Também era uma prisão semi-aberta e fiquei lá até conseguir a condicional.

Os dirigentes desse instituto tinham a cabeça mais aberta, os horários não eram rígidos e eles demonstravam que, até provar o contrário, éramos confiáveis. Ao sairmos nas sextas-feiras, estávamos liberados até segunda-feira, às 23 horas. Todos os que moravam fora da cidade

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e do estado podiam, desde que pedissem autorização ao diretor, viajar para suas casas nos feriados prolongados. Só ficamos literalmente presos durante os carnavais. Passei dois lá. Exprimi-me mal; não ficávamos trancados, ficávamos sem sair, pois podíamos andar no conjunto todo, que era bem maior do que o "Sítio".



Nas vezes que meu pai esteve muito doente, fui a São Paulo visitá-lo. Quando faleceu me liberaram por quatro dias. Uma semana depois, uma de minhas tias, irmã por parte de pai, também faleceu, e fui liberado novamente. Só que desta vez só por 48 horas. Quase perdi a hora dessa vez, pois dr. Tancredo Neves, nosso primeiro presidente pós-militarismo, faleceu. Eu tinha viajado a São Paulo de avião e, com o excesso de movimento e confusão por causa da morte do presidente, não conseguia marcar a passagem de volta. Só depois de muita luta e explicação é que me deram prioridade e embarquei, quando uma senhora que passou mal desistiu da viagem.

Ontem, para dar andamento ao pedido da condicional, fiz exame de cessação de periculosidade e, dependendo do resultado, estarei apto ao benefício a qualquer momento. Daí para a frente é uma questão burocrática.

Éramos 22 fazendo os testes, quando chegou a minha vez estava ansioso e amedrontado, demorei um pouco para me controlar, mas assim mesmo acho que me saí bem.

Uma das promotoras da Vara de Execuções Criminais pediu vistas ao meu processo. Isso atrasa a liberação, porque o juiz só assinará a condicional após receber o processo de volta.

Aconteceu de tudo com o meu processo naquela época, até boatos de que ele estava perdido. Só consegui o que tinha por direito depois de muita luta e com quatro meses de atraso.

Assim que meus documentos da condicional ficaram prontos, carreguei as poucas coisas que tinha e rumei para São Paulo.

Fui direto para a casa de Marilena, surpreendi a todos porque não tinha contado a ninguém que a condicional finalmente tinha chegado.

Quando cheguei ao apartamento não havia ninguém, telefonei para a imobiliária onde Marilena trabalhava e...

— Venha para casa me ajudar a abrir espaço para minha roupa.

Ficamos vivendo juntos Marilena, e seus filhos Cláudia e Zé Maria. Adriana estava casada e Raul morava com minha mãe no meu antigo

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quarto. Só tive um dia de descanso, que aproveitei para ver meu filho caçula e visitar sua mãe.



No segundo dia, comecei a trabalhar. Era 22 de agosto de 1987.

Minha condicional durou dez anos. Nesse tempo trabalhei em firmas de automóveis: Iguatemy, cinco anos, Guarujá Veículos, dois anos. Em 1993 resolvi trabalhar novamente no mercado de capitais e entrei para uma factoring. Fiquei pouco tempo, me aborreci com um negócio feito com um amigo e saí. Depois andei tentando vários negócios, leilão de automóveis, por exemplo. Fiz isso por uns dois anos. Após os leilões, voltei a vender automóveis da Volkswagen na Sabrico, cujo diretor-geral era meu amigo, e já tínhamos trabalhado juntos na Marcas Famosas em 1978, onde ele também era diretor-geral. Um ano depois, a empresa foi vendida, e eu fiquei uns dois meses sem fazer nada, já estava com 65 anos e senti alguma dificuldade em trabalhar, era meados de 1998. Depois de muita luta, fui vender caminhões Mercedes-Benz e fiquei quase dois anos na concessionária Tapajós. Não fui um campeão de vendas, pois 98 e 99 foram anos muito difíceis para o setor. Assim mesmo, quando decidi sair da empresa, o proprietário, dr. Antônio Saad, e o diretor-geral Paulo Lelis insistiram para que eu permanecesse com eles. Daí para a frente fiquei garimpando negócios e acabei voltando para o Banco Mercantil de São Paulo, do meu amigo Gastão Eduardo de Bueno Vidigal. Na ocasião, tinha sido intermediário na venda de uma casa para ele e, ao término do negócio, pedi para ser encarregado das vendas dos veículos inadimplentes do banco, o que fiz até o banco ser vendido, após a sua morte.

Naqueles anos pós-87, tinha de me apresentar à Vara de Execuções Criminais a cada noventa dias. Nessas ocasiões encontrava ex-companheiros na enorme fila de atendimento. Era quando obtinha informações sobre tudo o que estava se passando no sistema carcerário. Quem havia saído na condicional ou então fugira, quem retornou ou faleceu trocando tiros com a Polícia. Sempre me preocupei com o período pós-prisão. É muito difícil para um ex-detento reorganizar sua vida. Se tiver ajuda e família tem alguma chance, caso contrário, noventa por cento das vezes volta a delinqüir. Para corrigir essa grande falha, o apenado deve aprender uma profissão enquanto está no sistema.

Era um choque de mundos, essas visitas periódicas ao sistema. Não me aborrecia ter de voltar a cada noventa dias, pelo contrário, aquelas eram horas de reflexão e de análise.

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Em 1997, quando terminou minha pena, estive pensando se uma organização poderia ajudar os ex-condenados; talvez uma ONG, não sei; de repente ainda volto a pensar no assunto.





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