O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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10/10/1984. Novamente corriam boatos de que Pira tinha se ferido em um assalto e estava no sertão da Bahia convalescendo. Já nem prestava atenção nessas histórias, depois de confirmarem tantas vezes a morte de Jesus meses atrás.

As moças do serviço social vieram à vigilância me visitar, pedindo ajuda na garimpagem de doações para a festa de Natal. Precisavam de brinquedos, pois segundo os últimos levantamentos o número de crianças dobrou neste ano.

Logo que elas saíram, telefonei para Gisela Amaral e contei-lhe da festa de Natal dos filhos dos internos e pedi brinquedos. Além de todo o

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carinho e amizade com que fui atendido, prometeu que ajudaria. Passei a data do evento, o endereço da penitenciária e não pensei mais no assunto.

O diretor resolveu promover um torneio de futebol de salão para inaugurar a quadra que foi reformada e convidou o time dos guardas a participar. São poucos times, quatro com o dos agentes. Deve começar amanhã e acabar nos próximos dois dias.



15/10/1984. Prisão é uma constante caixa de surpresas. Um interno ficou esperando dois dias por dois quilos de maconha, para comercializar e ter um dinheirinho neste fim de ano. Quando finalmente o pacote chegou voando por cima do muro, ele foi assaltado por cinco mascarados. O lugar onde acontecem estas coisas é sempre o mesmo: o fundo da penitenciária, onde se encontram as pocilgas. O camarada ficou sem o "fumo" e todo machucado. Desesperado e com raiva, pois ainda teria de pagar pela mercadoria, foi à inspetoria e deu queixa. Alegou que lhe tiraram um relógio, um cordão e um anel de ouro, e o dinheiro que tinha recebido da família no fim de semana.

Os guardas imediatamente trancaram todo mundo, depois obrigaram o camarada a mostrar onde fora assaltado e contar exatamente como tinha acontecido. Acharam a história esquisita, por ter acontecido nas imediações da pocilga. Queriam saber por que ele tinha ido passear justo ali. O cheiro era desagradável e o lugar feio. Pediram a descrição do cordão, do anel e do relógio e naquela mesma noite deram uma "geral" nos três pavilhões. É evidente que não procuravam o anel, pois a história se espalhou e todos puseram a maior "pilha" (pressão) no assaltado, que ainda por cima tinha dado queixa. Como não acharam nada, liberaram a "tranca" no dia seguinte e ficaram de olhos e ouvidos bem abertos. As máscaras para assalto na prisão são as mesmas que usam em todo lugar, um gorro enrolado, que quase todos os internos vestem o dia inteiro, se puxado cobre todo o rosto. Na "geral", os agentes acharam um desses gorros sujo de terra. Fingiram que não perceberam e ficaram na espreita.



20/10/1984. Os jornais de hoje trazem denúncias feitas à Assembléia Legislativa sobre os espancamentos, tráficos de drogas, de armas e de falta de assistência médica nos presídios do Rio. Segundo uma das reportagens, encontraram três leprosos na Lemos de Brito. Uma das pessoas que participaram das denúncias foi uma professora que tinha sido exonerada da divisão educacional do Desipe por ter desenvolvido um jornal junto com os internos, onde eles podiam criticar a Polícia, a política

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e contar acontecimentos. Um dos internos escreveu que, todas as vezes em que foi preso, a polícia lhe roubou dinheiro. O artigo continua com outras denúncias feitas nos depoimentos à Assembléia, que, segundo os jornais, duraram mais de quatro horas.

Insisto em reproduzir parte desses artigos porque acho que as penas têm de ser cumpridas num ambiente austero, severo, limpo e seguro. É utopia, eu sei, nem no cinema isso é possível. Muitos poderiam ser recuperados se houvesse interesse real da sociedade. Aliás, é melhor nem enveredar por assuntos que envolvem a sociedade, porque, se pudéssemos ter uma radiografia dela, teríamos de soltar muitos presos para cederem seus lugares a "senhores" bem mais perigosos.

31/10/1984. Dois anos, três Natais com o próximo, mais seis meses preso em 1977. Será que o diretor conseguirá a tão sonhada visita à família neste fim de ano para mim? Só quem está preso pode avaliar o valor de alguns momentos de liberdade. Por isso, para cortar a ansiedade, resolvi enfiar a cara no livro que estava lendo, Casa-grande senzala, e trabalhar, deixando para o destino a solução dos problemas.

O campeonato de futebol, vencido por um dos times dos internos, tinha terminado quase sem incidentes, e o único que houve foi hilário. Evidente que tinha de acontecer na final e contra o time dos guardas. A situação ficou quente na hora em que o juiz, que era um dos presos, expulsou de campo um guarda. Revoltado, o agente ameaçou o juiz com "tranca". Como não conseguiu mudar a atitude do árbitro, que permaneceu impassível apontando com o dedo indicador uma das laterais do campo, partiu para a agressão. Só não aconteceu o pior porque o inspetor entrou no rolo e mandou o guarda sair. Esse guarda era bom sujeito e jogava um bolão, era dos poucos que os presos não odiavam, eu o conhecia bem, pois era chefe da vigilância. Não guardou rancor e depois que esfriou a cabeça achou a situação ridícula.



6/11/1984. Marilena e eu não pensávamos em outra coisa: saída no fim do ano. Quando saberíamos o resultado da conversa do diretor com o juiz? Toda manhã, no telefone, ela me fazia a mesma pergunta:

— Alguma notícia?

O tempo ia passando, eu o preenchia com caminhadas, leituras, trabalho e escrevendo. Duas vezes por semana jogava vôlei. Quanto ao que escrevia, eu estava mais suave, agora que me encontrava havia algum tempo numa penitenciária sem tantos problemas.

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Escrevia sobre meu comportamento no passado, com uma autocrítica feroz, achava que não tinha respeitado o sentimento das pessoas, que tinha vivido uma vida boba e vazia. Irritava-me com minha personalidade. Mas, quando pensava mais profundamente no mundo, no egoísmo do ser humano, na concorrência que é a vida, em que uns passam por cima dos outros sem dó nem piedade, me desculpava um pouco; mas só um pouco. Um dia voltaria a viver uma vida normal e teria de ser um homem melhor. Esta faculdade que estava cursando serviria para me orientar, tinha certeza disso. Não poderia usar esse tipo de aprendizado nos negócios nem no cotidiano, mas certamente encararia a vida com mais seriedade. Preocupava-me com meus filhos, adivinhando o quanto a cabecinha deles estava mexida, envergonhada por causa de minha vida inconseqüente e de tudo o que tinha saído nos jornais e noticiários. Quantas mentiras, quantas notícias sem um mínimo de investigação. Escrevi páginas e mais páginas sobre essas coisas. Pus no papel muito sobre Marilena. Sua bondade e dedicação eram aulas de amor. Foram muitas páginas sobre esse assunto e outras tantas planejando nossa vida futura. Muitas vezes, mortificado pela consciência de planejar o futuro enquanto uma família sofria a interrupção brusca de uma vida. Aí rasgava tudo que escrevia.

12/11/1984. A maconha roubada já foi toda vendida e consumida, o assaltado ficou sem o "bagulho" e com dívida. Como ele é um dos que vão sair no fim do ano, terá oportunidade de correr atrás do prejuízo. Se não tiver sorte...

27/11/1984. Esta história de o sistema estar falido rendeu muita diversão para os internos daqui. Da primeira vez, foi quando usaram o "Sítio" para a filmagem de Feras em fuga, e agora, poucos dias atrás, Mick Jagger esteve aqui para olhar o pavilhão 1. Ficou encantado com o desenho do prédio e seu interior. Conforme descrevi na minha chegada: construção do final do século XIX (primeira penitenciária do estado do Rio), sinistra mas muito bonita. Fechou negócio com o Desipe e passou três dias aqui. Instalou dois ônibus-camarins do lado de fora e passa o dia filmando um thriler que deve sair nas tvs do mundo inteiro. Nestes dias a prisão esteve agitada das sete da manhã às sete da noite. O pátio e o pavilhão 1 ficaram com aparência holywoodiana, com máquinas que subiam e desciam carregando as filmadoras, e os técnicos, carregados de medidores de luz e som.

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Oitenta internos participaram da produção. Ficaram encantados com Mick Jagger, que, ao contrário do que tem feito com a imprensa, foi carinhoso com todos. Sua equipe era muito engraçada: homens de cabelos compridos requebrando, garotas pisando duro. Duas negras inglesas super-exóticas, técnicos e produtores ingleses e brasileiros. Isso tudo misturado com os internos, que se tornaram seus admiradores e faziam "fiu-fiu" para eles o tempo todo, transformando o ambiente numa descontração total. A vigilância estava sempre com alguns da equipe dependurados no telefone. Atendi o inglês que mandava em tudo, fiz várias ligações para ele. Como conversei com ele no meu péssimo inglês, convidou-me para fazer papel de diretor de prisão. Não aceitei mas indiquei o Alemão, que também declinou do papel, que acabou sendo feito por um dos guardas. Quanto à equipe brasileira, também era muito simpática, às vezes brincavam comigo, dizendo que quem mandava na cadeia era eu.

No último dia, em agradecimento, Mick Jagger fez um show para nós. Instalou caixas de som e luzes de todas as cores que, no interior daquela construção antiga de grades e concreto escurecido pelo tempo, davam uma impressão incrível. Do terceiro andar, na escada de ferro com as portas dos cubículos abertas, ele fez o show. Foi lindo, os internos foram à loucura. Durante duas horas ele e sua banda cantaram, brincaram e puseram todos dançando. Vagabundo pulou, requebrou com os braços levantados, aplaudiu e ficou triste quando eles foram embora.



5/12/1984. No decorrer do dia recebi uma dezena de telefonemas, telegramas e cartas, por estar completando 51 anos. A carta de Raul tão carinhosa me comoveu, o telegrama de Marilena e seus filhos também. Algumas das cartas dos amigos, além dos parabéns, traziam casos, mensagens engraçadas com intuito de me animar. Meu amigo Valdemar Ramos, por exemplo, comprador de uma multinacional e meu maior cliente, contou com detalhes sua operação de hemorróidas. Todos os familiares ligaram no decorrer do dia, Marilena, Raul, meus pais, irmão e cunhada. Como eu era o encarregado do telefone, muitas vezes alguém assustava. Pois, ao ligar para a penitenciária, pensando que teria dificuldade para me achar, era surpreendido com...

— Pode falar, sou eu.

Fora esses fatos, o dia passou tranqüilo e à tarde, depois de minha caminhada diária, joguei vôlei. Num certo momento da partida, chegou

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o diretor e se sentou na arquibancada recém-inaugurada. Ficou ali assistindo, sem se manifestar. Foi ponto do meu lado e eu é que ia sacar. O diretor se aproximou e me falou baixinho:

— Tenho boas notícias, você passará o Natal e o fim de ano em família.

Saquei e quando o ponto acabou pedi substituição. Procurei o diretor para agradecer-lhe, mas ele já tinha saído de lá. Fiquei doidão de alegria e saí caminhando sozinho até tocar a sirene para o "confere". Naquela noite a minha porta ficou fechada, os que assistiam à tv comigo tiveram de procurar outro aparelho. Quis ficar só, não queria dividir com ninguém aquela notícia. Os primeiros a saber seriam meus familiares. Fiquei muito tempo no escuro de olho fechado, procurando não pensar. Sabia que, a partir da primeira saída, começaria uma nova etapa dentro do sistema. Aquilo me excitava tanto que tinha de usar todo o meu controle para demonstrar normalidade. Não sei por que achei isso importante, mas foi a reação que tive.

6/12/1984.

— Alô, Marilena... vamos passar o Natal e 31 de dezembro juntos.

— Como assim?

— É isso que estou dizendo, passaremos o Natal e a entrada do ano juntos, na rua passeando a pé no calçadão de mãos dadas.

Um grande silêncio do lado de lá e em seguida:

— Não acredito... tá querendo me deixar louca?

Demorei um pouco para fazê-la entender. Quando finalmente chegamos a um acordo, eu não tinha mais tempo. Tinha de abrir a porta da vigilância para que os internos fossem entrando um a um, para usar o telefone. Aquilo era a pior parte do meu trabalho, tinha de anotar o nome do interno, da pessoa com quem ele ia falar e do número do telefone. Cada um podia dar um telefonema, e todos, sem exceção, queriam dar mais de um.

15/12/1984. Ler meu nome na lista dos que sairão no fim do ano me deixou tão emocionado que chorei. Não sei por que isso aconteceu, pois nos últimos dias tratei disso o tempo todo. Providenciei a documentação de Marilena, que será a responsável por mim, pela minha retirada no dia 24 às nove horas e pelo meu retorno no dia 26, também às nove. Tudo estava pronto, 99 sairiam, cada um teria a autorização assinada pelo juiz, em caso de ser reconhecido e abordado pelas autoridades. Mamãe, papai, Marilena e Raul virão de São Paulo.

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Minha cabeça tinha mudado naqueles dias, uma luz tinha aparecido no fim do túnel. Afinal, todos os que saíram no ano passado foram transferidos para prisões semi-abertas.

27/12/1984. Poucos dias antes do Natal chegaram os brinquedos que Gisela Amaral me prometera. As moças do serviço social estavam radiantes e ao mesmo tempo surpresas, nunca tinham visto tantos brinquedos juntos, 380 para ser exato.

A noite de 23 para o dia 24 passei praticamente acordado, estava muito excitado para dormir. Apesar de nem tudo ser como eu queria, pois papai não poderia vir por causa das dores, às seis da manhã já estava pronto, banho tomado, barba feita e vestido com uma camisa nova que Marilena me dera no último domingo. Tudo passava pela minha cabeça... iríamos para casa de Maria Zélia de ônibus? Ou era melhor pegar um táxi? Bom, o ônibus, pelo que eu tinha me informado, nos deixaria nas barcas. Era só atravessar e pegar outro, que pouco tempo depois estaríamos na Sá Ferreira.

Às sete horas o diretor reuniu no auditório todos os que iam sair. Fez uma pequena preleção e desejou feliz Natal. Às nove em ponto começamos a sair, o familiar que chegasse mostrava a autorização do juiz e o interno era chamado. Fui dos primeiros e, quando cheguei lá fora, para completar minha alegria, além de Marilena estava Raul. Abracei-os com todo o amor e emoção que aquele momento me causava. Ainda abraçado, arrastei-os rampa abaixo, queria ver a rua, os carros, os pedestres e um parque, muito verde e bonito do outro lado da rua. Passada a primeira emoção, mostraram-me um Gol prata que estava no estacionamento...

— Sua mãe alugou para você.

Olhei o carro, depois me virei para os dois e Raul sacudia as chaves do veículo.

— Você ainda sabe guiar?

Agarrei as chaves, destranquei, esperei os dois se acomodarem e saí devagar.

Olhar a ponte Rio—Niterói, assistindo àquele imenso tráfego de véspera de Natal e, ainda por cima, acompanhar chegadas e saídas de vôos do aeroporto de Santos Dumont me dava uma sensação estranha. Fazia-me entender que, por mais que não pudesse esquecer o passado, eu tinha de olhar para a frente e encarar o futuro com tranqüilidade. A primeira coisa que fiz foi ir à casa da prima Maria Zélia, minha querida

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amiga, que tanto me ajudava hospedando papai (enquanto estava por aqui), Marilena e às vezes o Raul. Depois fui encontrar minha mãe num hotel de frente para o mar em Ipanema. Outra vez o encontro foi cheio de emoção. Mas o dia estava lindo e não perdemos tempo, fomos para a praia. Coisa mais linda... Ipanema e Leblon, imbatível. E as meninas... tinha uma que chamou minha atenção, se lambuzava com um bronzeador e fazia uma movimentação tão alucinante que Marilena perguntou se Raul e eu queríamos um babador. À noite, como não conseguimos reserva em nenhum restaurante, ficamos no hotel, estávamos com dois apartamentos lado a lado. Pedimos comida e bebidas e ficamos esperando dar meia-noite.



Dia 25 foi calmo e, apesar de não estar um dia lindo, Marilena e eu fomos passear no calçadão. Aquilo foi uma festa, gente bonita caminhando, andando de bicicleta, jogando vôlei, raquetinha etc. Tinha um camarada fazendo windsurfe numa velocidade incrível. Marilena continuava querendo me pôr um babador. Não era por ciúmes, era pura gozação. Ela dizia:

— Logo se vê que você esteve preso todo esse tempo.

Almoçamos todos juntos e depois fomos levar mamãe passear. Fomos até o Leme e, na volta, passamos pelo Country Club em Ipanema, paramos um minuto para ela matar saudades dos seus tempos. Depois continuamos pela avenida Vieira Souto e pela avenida Niemeyer, fomos até a Barra, ela queria ver o Golfe Clube. Nos dois dias de liberdade, falei com meu pai todas as vezes em que entrei no hotel, para que ele não sentisse tanto não estarmos juntos na minha primeira saída.

Tive de fazer muita força na noite do dia 25 para não me deixar abater e manter o astral alto, pois no dia seguinte, às nove horas, começaria tudo de novo. Só às duas da manhã, após Marilena pegar no sono e eu ir para a janela e ficar olhando o mar, é que senti como se um anel apertasse meu coração. Fui até o apartamento da minha mãe, peguei uma de suas pílulas para dormir, tomei e pedi à portaria que me acordasse às seis horas. As despedidas foram conforme o combinado: só um abraço e um beijo na minha mãe. Em seguida, Marilena e Raul me acompanharam até a penitenciária em Niterói. De novo, despedidas simples, para em seguida eu desaparecer atrás do grande portão. Foi duro, mas sabia que no dia 31 sairia novamente. Assim mesmo o impacto foi brutal. A massa, os guardas, o pavilhão 3, o cubículo, os papos nada tinham a ver com

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minha vida. No momento em que saí, três dias atrás, e encontrei Marilena e Raul, reassumi minha vida como num passe de mágica, nem pensei mais que minha realidade era diferente e estava cumprindo pena. Agora, olhando tudo aquilo, procurava amortecer o choque. Vesti-me e fui para a vigilância. A secretária do diretor estava lá, conversando com os outros dois "faxinas", meus companheiros. Falavam sobre a festa das crianças e do sucesso que tinha sido a distribuição dos brinquedos. Aqueles quatro dias passaram devagar, mas deu para agüentar, apesar das novidades que cada um dos que saíram tinha para contar. A mais extraordinária foi a de um senhor mais ou menos da minha idade, 1m 80 de altura, gordo e de óculos. Encostou um caminhão nos fundos de uma loja de departamentos e ficou durante quatro horas carregando-o com geladeiras, televisões e uma quantidade enorme de outras mercadorias. O mais curioso desta história é que tudo o que foi roubado já está à venda em outra loja, só que num lugar mais sofisticado, na região dos lagos. Interessante mesmo era a atitude desse senhor; encarava aquilo como puro negócio.



Pelo que me lembro, só um dos que saíram não apareceu. No fim do segundo dia, em 28 de dezembro para ser exato, foi descoberto preso em uma delegacia na Baixada, acusado de assalto à mão armada a um posto de gasolina.

Em 30 de dezembro, os que já tinham saído não precisavam mais ser retirados por seus familiares. Era receber a nova autorização do juiz e sair. Às nove horas, conforme o previsto, saímos. Os que iam para o Rio, inclusive eu, encontramo-nos no ponto do ônibus para ir todos juntos para o local de onde saíam as barcas. O ônibus passou vazio e nós éramos mais ou menos quinze, foi engraçado ver aquele bando de presidiários bagunçando como colegiais. Como me dava muito com Careca, sentamos juntos, fizemos a travessia juntos e nos despedimos quando peguei o ônibus que me levaria a Copacabana.

Fui curtindo aquele passeio de ônibus até a rua Sá Ferreira. Quando cheguei ao apartamento de Maria Zélia, onde ficaria hospedado juntamente com Marilena e Raul, os três me esperavam na sala. De novo, depois que me despedi do Careca e dos outros companheiros, retomei minha vida sem pensar mais em penitenciária, guardas, diretor, companheiros e tudo mais. Então, quando cheguei já fui arrastando todos para a praia. Queria tomar um chopinho na avenida Atlântica, olhando o movimento, o mar. Mais tarde, depois do almoço, fomos ao cinema, que é dos

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programas que Marilena e eu mais gostamos e, à noite, um pouco antes da meia-noite, caminhamos até a praia para assistir à queima de fogos. Foi muito bonito. Virei o ano de mãos dadas com Marilena e Raul, meu filho me deu um grande abraço, nunca mais esqueci aquele momento:

— Pai, eu te amo, tenho orgulho de você.

Depois da passagem de ano, caminhando de volta, íamos imaginando como seria o futuro. Os três, naquele momento, tínhamos uma visão bem clara de qual era minha realidade, mas havia uma esperança, e o primeiro passo tinha sido dado. Tive de explicar que, depois de condenado, o apenado não tem nada a ver com a Justiça comum, toda sua vida é regida pela VEC (Vara de Execuções Penais), e o juiz de lá tinha me concedido o primeiro direito meu, o de visita à família. Dali por diante, seguramente, iria encontrá-los na rua mais vezes.

Não tenho registro do horário que eu voltei para a penitenciária naquele primeiro dia do ano de 1985. Acho que tínhamos até as dez horas para nos apresentar. Não quis que me levassem, fiz ao contrário: deixei-os no aeroporto e segui para as barcas rumo a Niterói e à penitenciária.

1/1/1985. Novamente papai não tinha podido vir no fim de ano, mamãe na última hora também desistiu. Falei com eles todos os dias, desde o dia trinta até hoje pela manhã. Estão bem, se fosse caso de emergência até poderiam ter vindo. O velho está animado, planeja vir até aqui no mês que vem.

Dos 97 detentos que saíram no fim do ano, só 91 voltaram. O diretor mandou procurar nas delegacias e necrotérios, como não os encontrou, notificou a vec.

Zé Antônio, aquele que foi preso com 75 quilos de pó, conseguiu ser transferido para sua terra. Ao se despedir, me deixou seu endereço e pediu que escrevesse sobre ele, se algum dia resolvesse contar minha história. Queria receber um livro autografado. Desde o dia em que uma editora de revistas esteve aqui à minha procura, alguns internos me cobram isso.

16/1/1985. Quinze dias se passaram, e quem saiu no fim do ano teve autorização de passar o fim de semana em casa. A única exigência era ter residência fixa. Eu fui beneficiado, porque meu endereço no sistema

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era na rua Sá Ferreira, em Copacabana. Não só saímos como recebemos a promessa de sair a cada quinze dias, até sermos transferidos para uma prisão aberta. Saí ontem, 15 de janeiro e retornei hoje. Como da outra vez, atravessei a ponte Rio-Niterói com o Careca e novamente nos despedimos quando apanhei o ônibus rumo a Copacabana. Meu amigo vinha preocupado, havia boatos de que quem estava visitando a família e tivesse residência fixa e emprego comprovado seria transferido para uma prisão semi-aberta. Eu já tinha arranjado uma carta confirmando um emprego como vendedor de anúncios luminosos, em uma empresa de um parente. Tinha pedido pelo meu amigo também, mas sem nenhum sucesso. Que pena, ele era um eletricista de mão-cheia, poderia trabalhar em qualquer construtora.

No sábado, logo após minha chegada ao apartamento de minha prima, onde ela e Marilena já me esperavam, fomos à praia. Depois do almoço, enquanto Marilena fazia a sesta, liguei para Gisela Amaral para agradecer os brinquedos e contar do sucesso e a alegria que eles causaram. Antevendo que dentro em breve eu precisaria de um emprego de fato, pois o parente que me empregara já estava com oitenta anos e não pretendia conservar a empresa aberta por muito tempo, pedi a Gisela que sondasse seu marido, Ricardo, quanto a um emprego em suas organizações, afinal ele tinha várias casas noturnas no Rio, São Paulo, Nova York e Paris. Para conversarmos melhor convidou-nos para jantar, naquela noite.

Foi um jantar muito agradável a três, pois Ricardo não estava no Brasil. Só voltamos a falar sobre o emprego na sobremesa e chegamos à conclusão de que o juiz não iria autorizar um trabalho noturno. Mas ela iria pensar em alguma outra coisa.

No domingo, como as praias são muito cheias, ficamos com minha prima no apartamento, tomando sol e chuveiradas no terraço. Sentia-me tranqüilo e seguro de mim, pois vários amigos e familiares ligaram expressando solidariedade. Tive ímpetos de telefonar para dr. Evandro e pô-lo a par das novidades, mas depois de pensar um pouco mudei de idéia, preferindo surpreendê-lo um pouco mais adiante, visitando-o em seu escritório. No fim da tarde, Marilena e eu pegamos um ônibus que passava pelo aeroporto. Após seu embarque, eu segui a pé até a Praça 15, onde se encontram as barcas que fazem a travessia até Niterói. Tive sorte e peguei uma imediatamente. Achei um ótimo lugar perto da janela e quando estávamos




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