O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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Um camarada como ele até pode ser assim, quadrilheiro antigo e provavelmente com muitos inimigos. Os internos que ele acusa têm muito trabalho em desmanchar suas futricas com a administração e depois, quando não levam "carrinho", ficam falando que vão se vingar. Até hoje não vi ninguém enfrentá-lo, armar uma armadilha para ele não é fácil. Tem muito tempo de cadeia e é muito sagaz.

Estou muito preocupado com a saúde do papai. No último fim de semana não apareceu e para isso acontecer é porque esteve muito mal. Tenho telefonado para ele todos os dias e percebo mal-estar e dor em sua voz.

Hoje é aniversário de Marilena, e logo pela manhã nos falamos. Ela estava contente, tinha acabado de receber o presente que mandei e se preparava para almoçar com as amigas. Mais tarde jantará com os filhos e com Raul.

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É Carnaval, e os cubículos estão abertos o tempo todo, inclusive à noite. Os sons das poucas televisões da galeria estão mais altos que nas avenidas e salões. Os que não têm tv se aglomeram nas portas dos que têm e são os mais animados. Escrevo no escuro por causa do calor, o tema é Marilena, que virá amanhã. Enquanto escrevo ouço a folia na avenida e a dos internos que assistem em meu aparelho de tv, que está virado para a porta.



Uns dias antes do Carnaval tive notícias de Pira. Já estava recuperado dos tiros que levou, parece que foram de raspão. Segundo contaram, fez um acordo de paz no morro onde se encontra e vivia. Será que vão deixá-lo tranqüilo? É incompreensível, todos sabem que voltar ao seu lugar de origem depois de muito tempo de ausência é sentença de morte, mas fazem isso.

14/3/1984. Sábado. May esteve aqui e me ajudou a convencer papai a ir para São Paulo se tratar. Ficaria uns tempos com ela e meu irmão. Naquele dia, durante todo o tempo, ele esteve muito mal, com muitas dores, e acabou concordando. Ficou arrasado e no dia seguinte se despediu de mim chorando. A dor foi mútua, fiquei sem meu pai, meu amigo e protetor.

23/3/1984. Dr. Evandro esteve aqui. Estava assustado, pois nunca tinha visto Marilena e, quando ela apareceu em seu escritório, substituindo papai, não entendeu nada. Atendeu-a muito bem e um dia depois, quando foi me visitar, aproveitou para saber tudo sobre ela. Ao sair, me estendeu uma das mãos e colocou a outra em meu ombro tentando me consolar pelos atrasos do Supremo e a ausência de meu pai.

— Você tem sorte, sua companheira me causou ótima impressão.



26/3/1984. Estiveram aqui, ontem e hoje, artistas e técnicos de uma companhia cinematográfica, usando o pavilhão 1 para filmar cenas de uma rebelião e fuga de um presídio de mulheres. O filme se chamará Feras em fuga. Uma das atrizes, o diretor e sua secretária, quiseram me conhecer. Batemos um papo muito simpático e recebi de presente um livro, O nome da rosa.

30/3/1984. A Frei Caneca sempre é um mar de surpresas para a administração. Houve uma tentativa de fuga que, segundo os boatos, foi liderada pelo Alton, o Filho do Polícia, preso recentemente. Construíram túnel que dava na rua, mas foram surpreendidos. Trocaram tiros com

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guardas e pms. Estavam bem armados e parece que Alton portava uma minimetralhadora. Como foi que esse armamento entrou no setor b?

31/3/1984. Domingo às onze horas em ponto as mulheres começaram a entrar. Marilena foi a primeira, levei um grande susto, pois entrou com o braço numa tipóia. No dia anterior, ao descer do ônibus, achou que ia ser assaltada, resolveu sair correndo e caiu. Como foi ajudada por umas pessoas que iam passando, não viu mais os assaltantes.

4/4/1984. As filmagens continuaram durante todo o dia de hoje, mulheres se atiravam de cima do muro em cima de enormes caixas com colchões. Os presos aplaudiram muito. Essa filmagem quebrou a rotina e trouxe um pouco de distração para os internos, que procuraram cooperar para que tudo desse certo. Como depois do primeiro dia de filmagem me mantive afastado e assisti tudo à distância, as moças da equipe me apelidaram de "pavão misterioso".

Março passou e, para variar, sem notícias de Brasília. Mas, em compensação, o Jornal do Brasil de hoje informa que novas leis de execuções penais foram aprovadas ontem, para melhorar a humanização no cumprimento das penas. Infelizmente, a reportagem não entra em detalhes sobre os benefícios. Espero que nos próximos dias apareça tudo.

5/4/1984. Mataram dois na Lemos de Brito e com isso o pessoal da Falange Jacaré foi todo transferido para a Ilha. Confesso que não entendo a administração, todos sabem que lá é reduto da Falange Vermelha e é difícil o Comando Jacaré se criar ali.

16/4/84. O avião passa, falo com Marilena, ouço o barulho da rua.

Meu coração dói. Não sei mais o que é a vida, como é a liberdade, nem como se vive lá fora.

O avião passa. A vida também, falo com Marilena, quero viver.

A vida passa e eu também.

Pensava nisso enquanto caminhava depois do expediente, como fazia todas as tardes. Em tardes de vôlei, saía um pouco antes da vigilância. "As caminhadas de reflexão", como as chamava. Nesses passeios era raro alguém se aproximar e, quando isso acontecia, eu abortava a caminhada. Mas naquela tarde eu estava especialmente triste e esperava um monomotor, que passava todos os dias na mesma hora. Ele passou como sempre e eu senti todo o peso de não existir, de ser apenas um número, num túmulo de mortos vivos. Parei e fiquei vendo o avião se afastar.

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No fundo, o que me entristecia era a Páscoa, não participar da euforia dos que iam passar com a família. Não era inveja, só tinha vontade de ir também.

Os que têm direito acabaram de sair, passarão a Páscoa com suas famílias. Bom... quase todos.

Amanhã é sexta-feira e terá parlatório. Que bom. Melhor ainda é que domingo tem novamente.

Marilena e Raul vieram passar esses dias comigo. Ando tão piegas... escrevo isso e choro por amá-los tanto e perceber o esforço que fazem para estar comigo. Durante o tempo que estiveram aqui fiquei o tempo todo de cara alegre e abraçado a eles.



24/5/1984. Hoje finalmente tive notícias de Brasília. O recurso será julgado em 5 de junho. Como demorou para se decidirem a julgá-lo.

Depois de receber essa notícia, interrompi o que estava fazendo na vigilância e fui caminhar. Saí em direção à horta, era um lugar agradável, bem tratado, e muito gostoso de passear. Sempre que precisava de sossego ia para aquele lado. No caminho encontrei o Macaca Fina, o "Maluco Beleza", como alguns o chamavam. Depois que cheguei no "Sítio", ele esteve no manicômio duas vezes. É um rapaz negro, inofensivo e com olhar triste. Não sei qual é seu artigo, mas acho incrível ele estar aqui. Passa os dias andando e falando sozinho. Contaram que algum tempo atrás o estupraram lá pelos lados da pocilga. Não é o único maluco por aqui. Tem um que é bem mais louco, seu nome é Fubá. Nas crises entope o boi de seu cubículo e fica sentado com uma vara imaginária tentando pegar um peixe.

Mas, enfim, fui andar pela horta e pensar no recurso que estava para ser julgado. Tinha medo de ser posto em liberdade, de ir para um terceiro julgamento e ter de voltar novamente. Não acreditava que pudesse ser absolvido. E, depois, a nova lei de execuções penais estava para sair e esse caminho me parecia o mais seguro. Direitos adquiridos não têm volta, nem recurso ou mais um julgamento. É definitivo.

Se bem que, se o recurso fosse julgado a meu favor, eu seria posto em liberdade no mesmo dia. Eu estava exultante e ao mesmo tempo com medo. Essa mistura de pensamentos me acelerava a tal ponto que, depois de um certo tempo, nem sabia por onde estava caminhando. O preso é assim mesmo. Um leve aceno de liberdade e a adrenalina vai ao máximo. Conhecendo-me como a palma da sua mão, Marilena, quando me deu a notícia sobre Brasília, foi logo dizendo:

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— Não vá deixar de comer por causa disso.



26/5/1984. Sábado. Marilena e Raul vieram de São Paulo de ônibus. Chegaram na rodoviária do Rio e pegaram outro ônibus para cá. Chegaram muito cansados. Aquilo me mortificava, mas, com a grana curta daqueles dias, duas passagens de avião, ida e volta... nem pensar, ficar sem a visita deles então... sem comentários.

Durante o fim de semana só falamos do recurso. Dr. Evandro não ia cobrar a defesa que faria junto aos ministros da Suprema Corte. Mas tínhamos de providenciar sua passagem e talvez a hospedagem. Nossos comentários eram animados, Marilena fazia planos de ir a Brasília, queria assistir à defesa do dr. Evandro ao vivo.

28/5/1984. Esperar o dia do julgamento e ficar supondo como será o resultado tomou conta de todos os meus pensamentos. Por mais que tentasse me concentrar no meu trabalho, num livro ou nos programas da TV, não conseguia. Nunca caminhei tanto, procurava me cansar, com medo de não conseguir dormir.

1/6/1984. Marilena foi a Brasília levar para o dr. Evandro o documento que deverá fazer parte do recurso. Segundo ela, não pôde ver o documento por estar em um envelope fechado. Alguma prova talvez. Adriana, futura advogada, foi com ela.

3/6/1984. Semana tensa, só expectativa. Aliás, para contrariar, não foi só isso. Mataram o Mimo, ou Manhoso, como também era conhecido. Escrevi sobre ele quando de sua fuga da Lemos de Brito. Fugiu com mais alguns, entre eles, Jesus. Quando escrevi contando a fuga, antecipei que morreria em sua casa ao atender à campainha. Isso aconteceu há dois dias. Era um homem educado e atencioso, estava sempre na capela, gostava muito do padre. Provavelmente foi o profissional do crime mais perigoso que conheci. Marilena morria de medo dele. Dizia que tinha olhos gelados.



4/6/1984. Amanhã é o dia. Estou conseguindo controlar meu estado de espírito. Também... o que mais posso fazer? Tento me distrair lendo jornais e vendo tv. Como sempre, a Lemos de Brito é notícia. Dois internos morreram no período de uma semana, por falta de atendimento médico. Há outras acusações: os internos acusam os guardas de roubo de alimentos, de espancamentos de presos para roubo de objetos pessoais e abuso do uso da "surda".

No fim de semana mamãe virá com Marilena, tentará me convencer a pedir minha transferência para São Paulo. Direi que vou pensar, mas não atenderei seu pedido. É por aqui que travarei minha luta.

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4/7/1984. Depois que comecei a jogar vôlei duas vezes por semana, ganhei mais peso. Comecei a me sentir bem-disposto e, o principal, quando estou jogando esqueço de tudo, participo da brincadeira com alegria.

Esta semana vou perder meu companheiro Baldaracci. Ele irá à Vara de Execuções e, dentro de alguns dias, terá sua liberdade de volta. Nunca perguntei seu artigo; aliás, não pergunto isso a ninguém. Esse é um que dificilmente voltará para a prisão, só mesmo se não lhe derem a menor oportunidade.

Hoje, Marilena irá à Vara de Execuções. Pedirá ao juiz que me deixe visitar papai no Dia dos Pais. Sabemos que não dará certo, mas, segundo pesquisas que andei fazendo, é importante que o juiz e os promotores comecem a conhecê-la e a acostumar-se com meus requerimentos reivindicativos. Fora isso, estou contente porque amanhã é sábado e estarão com ela suas duas filhas, Cláudia e Adriana, e seu filho Zé Maria.

10/7/1984. O alarme tocou e todos tivemos de voltar para os cubículos, ia começar uma "geral".

Pouco tempo depois, saía arrastado da galeria um interno que cumpria sete anos por tráfico. Foi levado para a 78 dp com cerca de oitenta "trouxinhas" de maconha. Na delegacia não conseguiram que ele contasse como tinha recebido o "bagulho". Agora está na "surda" esperando sua transferência para Água Santa, onde esperará outro julgamento.



11/7/1984. Ontem Fabinho Motta, advogado criminalista paulista, esteve me visitando e contando todo o seu relacionamento com juizes e promotores de São Paulo. Ele acha que lá, além de eu estar mais perto da família, terei mais chances de conseguir a prisão semi-aberta.

Agora há pouco acordei pensando em São Paulo. Tenho saudades da minha cidade. Lembro tão bem do dia que saí de lá com Marilena do meu lado, rumo ao Rio e com a certeza de que passaria muito tempo sem voltar. Apesar de cinza e de seus rios poluídos, Pinheiros e Tietê, as avenidas marginais sempre congestionadas, aquela cidade é muito especial. Seus prédios que parecem até um paliteiro, com toda a população trabalhando enlouquecida, têm um ritmo diferente, frenético e excitante. A boemia lá é deliciosa, a vida noturna é insuperável, tem de tudo, para todos os gostos.

Como já escrevi antes, não poderei cumprir pena na minha cidade. Irei viver lá, mas quando tudo acabar. Até isso é complicado para decidir, porque amo o Sol e a praia, e sempre sonhei passar uma boa parte

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da vida entre Ipanema e Leblon, nesses dois bairros vizinhos que, para mim, são os mais bonitos do país. Bom... por ora não preciso decidir nada, é melhor nem pensar num futuro próximo para não ficar mal.

10/8/1984. Andei muito deprimido. Não tinha vontade de nada, muito menos de escrever. Só voltei a fazê-lo porque aconteceram coisas que tinham de ser registradas.

Nestes últimos dias a cadeia mudou. Chegou um pessoal da pesada, além de não serem poucos. Entre eles estava Zé Cigano. Quando nos encontramos na cantina, em seu primeiro dia de convívio, foi uma festa. Mais tarde, quando conversamos, ele, eu e o Careca (eletricista) nos garantiu que ficaria calmo e estava apenas esperando os poucos meses que faltavam para acabar sua pena. Falou isso numa boa, pois não tivemos a menor intenção de lhe dar conselhos, ele nem aceitaria.

Quanto aos outros recém-chegados, os conhecia de vista do setor a e creio que não estiveram lá por muito tempo, provavelmente só de passagem. O que sei é que com a chegada deles a penitenciária ficou mais agitada. A quantidade de maconha a ser comercializada quadruplicou, vários flagrantes de venda de tóxicos aconteceram. Nas últimas 24 horas, dois foram para a delegacia com mais de cem balinhas (pa-cotinhos de pó). O inspetor achou dentro do globo de luz, que sempre esteve com a lâmpada queimada, no fundo da galeria, muita maconha, pronta para ser vendida.

21/8/1984. Hoje pela manhã, quando falei com Marilena, levei um susto que me deixou de pernas bambas. Raul e o filho dela, o Zé Maria, tiveram um acidente na via Dutra, voltando de um churrasco. O meu filho, que dormia no banco ao lado, não teve um arranhão, mas Zé está na uti. Marilena está desesperada, nem conseguia falar, só chorava.



28/8/1984. São quase dezesseis horas. Estou deitado em meu cubículo, pensando em Marilena, no seu sofrimento, no desespero de ver que seu filho ainda corre grande risco. Sei por Raul que ela não sai do hospital, apesar de não ser permitido acompanhantes em uns.

Ouço alguém festejando o gol que acabou de marcar aí, bem debaixo de minha janela, na quadra de futebol de salão. Acho graça, mas não por ouvir a manifestação de alegria, mas porque o Sol, que bate em minha janela, faz as grades refletirem no chão, parecendo não querer que eu esqueça que estou preso.

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1/9/1984. Marilena está longe, sofrendo muito, o tempo custa a passar, morro de pena e de saudades. Por causa de seu sofrimento, lembro da mãe de Ângela, para ela não restaram esperanças. Apesar de agnóstico, mais uma vez rezo e peço perdão.

Depois de tantos boatos sobre a morte de Jesus, os jornais trouxeram ontem notícias sobre sua prisão. "Polícia prende fugitivo do Lemos de Brito condenado a 150 anos de reclusão. Policiais da 28 dp, em Madureira, prenderam, ontem à tarde,.. assaltante condenado a penas superiores a 150 anos de reclusão, que fugira do instituto penal Lemos de Brito em 26 de abril de 1983. Mesmo portando uma pistola calibre 45, não reagiu." A reportagem termina com seu histórico como um dos líderes da Falange Vermelha, que fazia parte do grupo de Manhoso, assassinado pela Polícia em Volta Redonda.

Todos o temiam no setor A, chamavam-no de "verdugo". Eu, particularmente, não posso me queixar, batíamos paredão, andávamos pela penitenciária toda e sempre o vi gentil com todos. Houve mortes na época em que ele e Lâmpada estiveram lá, e o boato era que os dois eram os executores. Mas, depois que eles fugiram, as mortes continuaram.

5/9/1984. Depois de duas semanas, Marilena entrou no domingo às onze horas. Estava abatida, com ar cansado de tanto hospital.

Estamos entrando na Semana da Pátria, haverá um show com uma cantora famosa, que às vezes vem aqui visitar seu primo, o Alemão. Outras comemorações farão parte dessa semana: um curto campeonato de futebol e palestras.



24/9/1984. José Maria não andou passando bem e Marilena não pôde vir. Mas hoje, falando com ela, para saber notícias ouvi:

— Nem que chova canivete faltarei no próximo fim de semana.

Isso queria dizer que seu filho estava melhor e que ela estava mais tranqüila.

O astral aqui está em alta, o novo Código de Execuções Penais já está valendo e quase todos tiveram uma melhora na situação, principalmente os primários. Eu fui atingido em cheio, porque já tinha cumprido seis meses em 1977 e desde aquela época sempre tive faxina. A nova lei diz: a cada três dias de trabalho, abate um de pena. Fiz minhas contas e, mesmo sem o código novo, tenho direito de visita à família. Contando com o que cumpri da primeira vez, dá dois anos e seis meses. A lei de execuções diz: primário com bom comportamento pode começar a visitar

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a família com um sexto da pena cumprida. Eu só preciso saber por onde começar.



28/9/1984. Ontem, em pleno dia, três internos encostaram o carrinho de limpeza (desses grandes com tampa) no muro que fica atrás do pavilhão onde estou. Tiraram, lá de dentro, uma marreta e imediatamente começaram a marretar o muro para tentar fazer um buraco. Não se sabe se foram dedados, ou se é verdade o que o inspetor contou, fazendo força para conter uma gargalhada:

— O vizinho veio reclamar que estavam tentando arrebentar o seu muro, que é grudado no da penitenciária.

Agora os três estão na "tranca" e vão responder a um processo por tentar destruir propriedade pública.

5/10/1984. Hoje, sexta-feira, me dou conta de que passei a semana sem anotar nada. Apesar de ter sido uma semana diferente.

A administração está começando a pensar na festa de Natal dos filhos dos apenados, e os internos com direito a visitar as famílias neste fim de fim de ano já começam a procurar o serviço social para se inteirarem sobre o requerimento a ser encaminhado à Vara de Execuções. Poderá ser um requerimento contendo todos os nomes, com seus históricos, ou cada um faz o seu e o serviço social só encaminha. Percebendo essa movimentação, o diretor reuniu todos no auditório para coordenar os trabalhos. Afinal, não era só a festa das crianças e a visita aos familiares. Ele tem planos de repetir o que fez no ano anterior. Um jantar com um membro da família no Natal e outro no fim da tarde do último dia do ano para os internos que ficarão.

Quando acabou a reunião e todos saímos para o pátio, resolvi abordá-lo, queria uma orientação, pois pelas minhas contas já podia requerer visita à família e até prisão semi-aberta. Humberto tinha prometido se encarregar desse assunto e de cuidar de minha transferência para Magé, mas em sua última visita confessou que não tinha como fazê-lo.

Não era só eu que queria falar com o diretor. Ele parou na saída do auditório, completamente cercado pelos internos. Ia respondendo por alto às perguntas. Como estava muito tumultuado, fiquei de lado esperando uma oportunidade. Depois de uns dez minutos de assédio, ele ia conversando, dando uma ou outra orientação e se encaminhando para a saída, olhou para mim, que acompanhava o grupo a curta distância.

— Você deseja falar comigo?

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Como respondi positivamente, avisou ao inspetor, que se encontrava a seu lado, para me encaminhar a seu escritório após o almoço. Agradeci e me afastei. Estava contente, pois o mínimo que podia acontecer era ver a rua. E queria muito isso. Dava-me bem com a secretária do diretor e com uma das advogadas do Estado, ambas iam muito à vigilância conversar com a gente. Já tinham me explicado como era a vizinhança, mas eu nunca tinha ido aos escritórios externos.

Agora, além de ver a rua, iria ter a oportunidade de discutir meus problemas com uma pessoa diretamente ligada à Vara de Execuções. Isso me deixou ansioso, nem almocei direito. Voltei logo para a vigilância e fiquei esperando. Às duas e quarenta e cinco, o inspetor me chamou e abriu o portão.

— É ali, aquele escritório do meio.

E fechou o portão às minhas costas. A minha frente, logo após uma rampa, estava a rua, do lado esquerdo o serviço social, o escritório do diretor e o dormitório dos guardas. Do lado direito, muitas árvores e um pátio de terra batida com uma construção malfeita de madeira, talvez uma pequena casa pré-fabricada encostada no enorme muro. Descobri tempos depois que era ali que as visitas eram revistadas. Dei alguns passos para a frente para poder olhar melhor a rua e parei um instante para ver os carros e os pedestres. Depois voltei para o enorme portão e, olhando à direita, acompanhei o muro com o olhar até encontrar a guarita. Fiz a mesma coisa do lado esquerdo e, quando levantei os olhos, o policial da guarita me saudou, com acenos de mãos. A secretária do diretor, que assistia a tudo da porta do escritório, me chamou para um cafezinho enquanto ele não chegava.

— Não se preocupe, daqui a gente vê quando ele sai de casa.

E me apontou para uma residência de bom tamanho, logo após o muro do lado esquerdo da penitenciária. Não pôde me servir café porque o telefone tocou e ela desapareceu em uma saleta. Quando voltou, quinze minutos depois, o diretor entrou e me pôs em sua sala. Era um homem entre 35 e quarenta anos, 1m 76 de altura, com olhos atentos atrás dos óculos. Sentou-se à sua mesa de trabalho e fez sinal para me sentar bem à sua frente. Ficou um minuto me estudando, depois pegou minha ficha e sem ler seu conteúdo me perguntou...

— Então... conta aí, como foi que você matou a Ângela?

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Apesar de me pegar desprevenido, me conservei calmo. Demorei um pouco para me concentrar e começar a falar. Ele não mostrava impaciência, mas falou...

— Vamos... você tem meia hora para contar tudo.

Comecei contando a grande e repentina paixão que tive por Ângela e comentei que só mais tarde tinha compreendido o quanto eu era provinciano e despreparado para viver em sua companhia. Contei também a dor que sentia ao lembrar da maneira que saí de casa, largando a mulher que também amava e meu filho recém-nascido. Voltei ao dia 30 de dezembro de 1976 e narrei toda aquela manhã na praia, todos os fatos que se passaram depois que voltamos para casa, a discussão, a briga, a minha saída, a volta, os tiros e a fuga. Quando terminei chorava muito e me desculpava, explicando que não conseguia me controlar quando imaginava o sofrimento e o desespero da família de Ângela.

Passado algum tempo vi que ele me dava um copo de água. Voltou para o seu lugar dizendo que imaginava meu sofrimento e ficou sentado, esperando eu me recompor. Fiz isso envergonhado, me desculpando novamente. Ele se levantou considerando a reunião terminada, me levou até a porta e, quando se despediu, me falou:

— Eu mesmo vou pedir ao juiz a autorização para seu Natal e fim de ano em família.

Saí de lá e fui para meu cubículo, só parei de chorar muito tempo depois. Remexer no passado daquele jeito, como num confessionário, tinha mexido tanto comigo que novamente eu parecia estar fora do meu corpo, olhando-me assustado. Toda vez que lembrava das últimas palavras do diretor, chorava mais ainda. Era um fio de esperança misturado com emoções e lembranças que estavam escondidas.




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