O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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Eu, apavorado, dizia que ele era um louco por me contar um negócio desses.

Os fatos: sábado, depois da visita e do "confere" às dezoito horas, os guardas trancaram a galeria como de costume e foram jantar. Dois internos ficaram jogando damas em frente à porta de grades da galeria e outros ficaram nas janelas olhando para dar alarme se acontecesse algo estranho. Um interno foi batendo de porta em porta e avisando:

— Seu Tenório está esperando na galeria.

Assim que fui avisado saí para encontrá-lo. Tenório estava sentado no chão com os três quilos de maconha na sua frente.

—Bom, vagabundos, hoje vai ter pra todo mundo.

E, compenetrado, começou a desmanchar o tijolo. Não sei se era um tijolo, dois ou três. Eu estava tão impressionado com tanta loucura que fiquei à distância olhando aquele bolo de gente em volta dele, pronto para pular para dentro do meu cubículo. Selton tinha aberto sua porta e caminhava de volta com a nove milímetros na mão. Sorriu para mim, entrou no seu cubículo e se trancou novamente. Juro que rezei. Rezei para não cismarem e darem uma "geral". Depois do "confere" das 21 horas, quando todos estavam trancados, e eu estava tentando me concentrar na TV, bateram de leve na minha porta. Levantei-me e dei com o Selton na portinhola rindo.

— Vim me despedir.

E me estendeu a mão pela portinhola adentro. Que alívio vê-lo voltar ao seu lugar.

No dia seguinte, às seis e meia, um interno, como todos os dias, saiu do refeitório com um grande bule e se dirigiu ao portão, batendo no portãozinho. Como todas as manhãs, o guarda abriu para pegar o bule. Ao fazer isso foi rendido por Tenório, Selton e mais dois que eu não sabia que iriam junto. Segundo os jornais (não fiquei assistindo como tinha

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sugerido Tenório), o policial não se intimidou e se atracou com um deles. Sei que não foi o Tenório, porque ele ficou ameaçando o policial militar da guarita e caminhou em direção à rua, onde parou um carro obrigando um casal que passava distraído a descer e seguiu seu destino. Também, segundo os jornais, havia um Corcel II à espera dos quatro fugitivos, que por alguma razão preferiram seguir no carro do casal que ia passando.



Uma ou duas semanas depois, num fim de tarde, Baldaracci bateu à minha janela. Mas não foi para entregar o jantar, isso seria mais tarde. Novidadeiro, veio contar que tinham trazido o Tenório de volta. Estava na "surda", a mesma em que eu estive quando cheguei. Segundo Baldaracci, ele chegou todo arrebentado de tanto apanhar. Contou também que o prenderam em Maricá, Rio de Janeiro, no centro da cidade, em uma cabine telefônica.

Depois das fugas do Tenório, Selton e dos outros dois, quase todos os dias havia "geral" em todas as galerias e muita investigação para saber como as armas tinham entrado. Com o Tenório de volta a coisa ia ficar preta para o lado dele.



21/11983. Hoje pela manhã saí mais cedo da seção e fui jogar futebol, era apenas uma pelada. Dois times escolhidos na hora. Optei por jogar no gol. Pela primeira vez tive um contato mais próximo com ex-policiais. Estavam todos na arquibancada assistindo à brincadeira. Era futebol de campo, onze para cada lado. No meu time, jogando na meia-esquerda, havia um interno que acabara de vir para o convívio, Cabo Terêncio (a patente fazia parte do apelido, não era militar). Ocupava o cubículo que tinha sido do Selton. Altura mediana, mas de constituição muito forte e compacta, da largura de uma geladeira. Era falante e alegre, gostava de falar de sua profissão (matador profissional) e de como ele tratava bem sua família até ser preso. Dizia:

— Eles tinham de tudo: casinha toda mobiliada, escola, boas roupas e até uma ajudante para minha mulher ter mais sossego. E o meu serviço era limpo. Eu estudava a vida do "paciente" até achar o momento certo de pegar o bichão, aí era um tiro só. Ele não sofria nadinha. Me prenderam justo quando eu estava comprando um carro.

O jogo ia bem, todos se esforçando, eu até que não fazia feio. Como nunca treinávamos, era uma correria embolada, e eu estava mais assistindo, muito atento, é claro. A uma certa altura comecei a ouvir me

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chamarem. Como não conseguia localizar de onde vinha a voz, continuei prestando atenção nas jogadas. Mas, pouco tempo depois, ouvi meu nome novamente e a pessoa dizia...

— Olha a sua direita no pavilhão 1. — Só aí localizei, a dois metros e meio do chão, na pequena janela da "surda", Tenório fazendo sinais. Na hora, fiz sinal também, para ele esperar, que depois do jogo estaria lá para atendê-lo.

Para enxergar seu rosto tive de ficar um pouco afastado, porque a janela era mais alta do que parecia. Sua cara enorme e redonda estava bem, não parecia machucada. Ele olhava para os lados para ver se tinha algum funcionário por perto, e eu, percebendo isso, também prestei atenção. Estava "limpo", ninguém tomava conhecimento da gente. Enquanto ele falava em voz normal, pedindo jornais, cigarros e café, deixou cair um papel prateado, no chão do pátio. Recolhi o papel (desses que estão nos maços de cigarro), desamassei e li. Tinha um número de telefone com o nome de um advogado e o número de um cubículo com o nome de seu habitante. Era para eu entregar o papel à pessoa que, por sua vez, tomaria as providências. Essa pessoa era o Zezão, o técnico de TV, que por sinal tinha deixado meu aparelho novo. Cobrou muito, mas ficou novo. À tarde pedi ao inspetor autorização para levar alguns maços de cigarros e café para Tenório. Autorizou, mas pediu que fizesse isso logo, porque dois delegados de duas delegacias diferentes entrariam a qualquer momento para interrogá-lo.

Um dia depois, à tarde, após o parlatório, pois era dia de Finados, Marilena e eu estávamos sentados num banco atrás da seção de disciplina, lugar que gostávamos de ocupar, pois ficava embaixo de uma mangueira. E vimos quando levaram Tenório para fora, para ser interrogado novamente pelos delegados e pelo diretor. Estava cercado por uns oito funcionários. Duas horas depois, passou por nós novamente indo em direção à "surda". Cercado pelos funcionários, ia levando alguns tapas e pontapés. Sua cara não demonstrava preocupação com aquele tratamento, quando passou por nós, olhou-nos num cumprimento quase imperceptível. Marilena ficou horrorizada.

Aqui no "Sítio", ao contrário do que ocorria na Lemos de Brito, não me dava bem com todo mundo. Havia alguns que estavam sempre comigo, mas, com essa política que adotei de manter distância, mesmo nos casos de gente educada como o Alemão, que era poliglota e tinha

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um papo inteligente, eu ficava na paralela. O camarada que tinha mais intimidade comigo era o Baldaracci. Outros com quem eu mantinha um relacionamento mais estreito por trabalharmos juntos ou por estarmos na mesma galeria: o Bigode, que era xerife, o Milton, o Tenório, que quando estava no convívio andava sempre comigo. Tinha ainda o Celso e os dois que eram de Vitória, o farmacêutico, Pedrinho e Raul, um camarada tranqüilo e muito educado. A Bianca, Orlandão, Careca, Sargento, o Belmiro, que também trabalhava na vigilância e era o queridinho das moças da social e, ultimamente, o Cabo Terêncio.

25/11/1983. Essa semana não foi ruim, pelo menos jornalistica-mente. Um jornalista, Tarso de Castro, que é amigo de alguns amigos meus e sempre me arrasou, hoje limpou a minha barra ao comentar em sua coluna o julgamento da artista de tv, em artigo intitulado: "Uma assassina e o feminismo".

Alguns trechos: "Pois o fato é que um júri formado por cinco mulheres e dois homens absolveu, exatamente por cinco a dois, a assassina... E condenou, por conseqüência, o movimento feminista — à morte... Seu crime é, no mínimo, dez mil vezes pior do que o que aconteceu com Doca Street e Ângela Diniz. Sabe-se que neste mesmo jornal reivindiquei a condenação de Doca, coisa que me custou rompimento até mesmo com queridos amigos. Mas Doca, a partir do momento em que cometeu o crime — e o fez de forma passional —, comportou-se com decência, não apelou para mentiras de moralismo e coisas afins. Não fez isso. E, para falar claro, já deveria estar solto. Sou insuspeito, o mais insuspeito de todos, para afirmar que ele já pagou demais. Mas ele tem fama de rico e isso o transforma num ser imperdoável, não é verdade?" (O artigo continua por mais duas colunas.)

Uns dias depois, uma jornalista, Irede Cardoso, desgostosa com o artigo acima, escrevia contra o autor e afirmava que eu estava em liberdade. (Por que será que mentem?) Isso obrigou meu irmão fazer uma declaração num jornal que tinha um espaço para esses casos, chamado "A Palavra do Leitor":

"Doca Street está preso. Queira por fineza solicitar à sra... jornalista de sua equipe de reportagem retificação da informação falsa onde declara que meu irmão Raul Fernando Street (Doca) está em liberdade. Encontra-se o mesmo preso no presídio Viana Ferreira Neto, alameda São Boa Ventura, 763, Niterói.

Luiz Carlos Street (São Paulo — SP)."

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Na mesma coluna desse desabafo, veio um pedido de desculpas da jornalista. (O nome certo da penitenciária é Vieira Ferreira Neto.)

7/12/1983. HA TANTOS BOATOS A RESPEITO DE PIRA DEPOIS QUE ELE conseguiu sua liberdade, que não dá para ter certeza de nada. O último é que ele está baleado, se restabelecendo depois de uma tentativa frustrada de retomar o comando do seu morro de origem.

11/12/1983. Hoje é domingo, e Marilena, como sempre, esteve aqui no "Sítio" desde as onze horas, e também, como sempre, papai veio às quatro. Estivemos passeando na horta e papai ficou impressionado como era bem tratada.

Se impressionou também com o Celso ("faxina"), por sua boa figura e educação. Quando eles foram embora, e eu voltava para a galeria, encontrei o Celso na porta. Braços cruzados no peito, prestando muita atenção na movimentação dos internos. Como me encontrava com ele ali todo o final de visita, e sempre com a mesma postura, perguntei o que representava aquilo. Na hora ele me olhou desconfiado. Depois, caiu na gargalhada e disse:

— Só você pode me fazer uma pergunta dessas.

E me puxou mais para perto dele para não atrapalhar a visão e poder falar mais baixo. Enquanto olhava ia falando:

— O meu negócio é emprestar dinheiro, e se eu não receber os atrasados, logo após as visitas, mais tarde eles gastam tudo, e eu vou ter de ficar bravo. Lidar com vagabundo não é fácil.

14/12/1983. Hoje mudamos a vigilância de sala, deu um trabalhão. Agora está instalada no mesmo prédio que a inspetoria. O senhor Manoel foi para outro setor, em outra unidade.

16/12/1983. Pela manhã, recebi a visita do filho do ex-presidente da Volkswagen, Axel Shulz Wenk. Além de ser dono de concessionária, é médico, assim conseguiu me ver por alguns minutos. Entregou-me um cheque e um recibo para assinar, referente à venda de uma pequena frota de veículos que fiz para a Fontoura White.

Meu amigo e cliente Dirceu Fontoura tinha comprado alguns carros para a empresa e exigiu que a venda continuasse minha. E esse cavalheiro, proprietário da concessionária que entregaria os veículos no Rio de Janeiro, veio me fazer uma visita e me pagar.

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Amanhã é sábado e tem a festa dos filhos dos presos, mais tarde terá o jantar para nossas famílias. Papai e Marilena estarão aqui me fazendo companhia. São meus heróis, como poderei agradecer-lhes? Marilena vem de São Paulo e papai de Copacabana, mas com grande sacrifício, se apoiando em sua bengala, aos 81 anos de idade.



O visitante constante é uma pessoa muito especial, vem cheio de pacotes, enfrenta uma fila, o mau humor dos guardas e às vezes o mau humor do visitado que, desesperançado por várias razões, não consegue naqueles momentos expressar sua gratidão, permanecendo "bicudo" durante o período da visita.

18/12/1983. Domingo, dezoito horas. Nessa hora Marilena já está a caminho de São Paulo. Por economia foi de ônibus, pois neste fim de ano serão muitas idas e vindas, fazer tudo de avião é uma paulada nas finanças de qualquer um.

23/12/1983. Sexta-feira, a lista dos que sairão já chegou da Vara de Execuções e está com o diretor. Amanhã, após uma conversa no auditório, esses presos poderão sair, mas terão de estar acompanhados por um membro da família.

Estou assistindo ao show do Rei. Um pouco antes de começar, dois internos vieram se despedir, Raul e Reinaldo, me abraçaram e disseram:

— Não fique triste. O seu dia vai chegar.

Fiquei contente em ver a felicidade deles. Tenho bom relacionamento com os dois, são tranqüilos e estão a um passo da liberdade. Reinaldo é casado, tem família numerosa, esteve na Marinha. Na época de um conflito no canal de Suez, foi mandado para lá, para patrulhar a região. Era um cara certinho, mas quis comprar uma casa para a família e participou de um assalto a banco. Às vezes me acompanha nas caminhadas pelo "Sítio". Como hoje à tarde por exemplo. Fiquei o tempo todo olhando o céu, que estava cheio de nuvens. Como sempre, o tempo piora quando a família está para chegar.

Amanhã deverão me visitar Raul e mamãe. Marilena só vem no domingo, tem ceia no dia 24, com seus filhos.

O show foi ótimo, só que as canções românticas me deixaram nostálgico.



26/12/1983. A família esteve aqui conforme o planejado e o tempo cooperou um pouco, não atrapalhando o tráfego de aviões que chegaram e partiram no horário, apesar das chuvas.

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O Natal já foi, agora só faltam as festas de entrada do ano de 1984. Depois que os familiares saíram, fiquei sentado na minha cama, durante muito tempo, com lápis e papel na mão. Como não tinha nada de novo para registrar, apenas comentei com algumas linhas o ano de 1983: "Para quem gosta de viver perigosamente, 83 foi um ano daqueles. Passei por grandes apuros, acho que nem posso calculá-los, pois não dá para saber o que se passava na cabeça daquele pessoal, o que planejavam e o que poderiam preparar para mim, se fosse necessário. Devo ter passado por mais perigos do que percebi, mas estou aqui, no Sítio, a salvo. É uma penitenciária, mas o ambiente é completamente diferente, os perigos são outros e dá para se conservar fora de encrenca. Resignação e paciência são os conteúdos principais para ir saldando a dívida".

Os internos que saíram tinham até nove horas da manhã de hoje para retornar, olhando os cubículos de minha galeria, não percebi ninguém faltando.

Os dias vão passando, e todos que saíram estão eufóricos com a próxima saída do fim de ano. Menos os dois que não voltaram, porque foram pegos assaltando e estão trancados esperando mais uma condenação.

Milton, que não tinha conseguido sair no Natal, agora sairá. Ficará hospedado em Teresópolis na casa de sua namorada ex-homem. Ele está radiante. Parece que anteriormente já esteve albergado, mas andou aprontando e voltou a ficar em presídios e penitenciárias.



30/12/1983. Como no dia 24, alguns dos internos que estavam saindo vieram me abraçar e desejar feliz Ano-Novo. Milton foi um deles, me abraçava e dizia:

— Estarei com a criatura que amo, em seu palácio em Teresópolis.

Raul, ao se despedir, estava em dúvida se voltaria ou não. Isso era praxe nos fins de ano, o camarada só deixava de voltar na segunda saída, para não começarem a procurá-lo antes.

Eu estava bem, minha mulher ia entrar dentro de alguns minutos para passar o dia comigo e, mais tarde, participar de mais um jantar, oferecido pelo diretor. Para melhorar meu humor, tinha visita dia 31 e dia primeiro.

De todo jeito valeu, Marilena e eu não olhamos para o diretor-geral nem para ninguém. Ficamos quietos num canto namorando. Aliás, acho que ninguém do lado dos internos prestou atenção nos diretores e

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em seus discursos chatérrimos. Só ficamos chateados com a falta de respeito com os convidados, que chegaram às três e só entraram às cinco, tudo por pura política.

31/12/1983. Normalmente somos cem na galeria, e a esta hora, onze e meia da noite, já estamos trancados. Mas, hoje, somos apenas 48 e só a galeria está trancada. Todos estão tranqüilos com as portas abertas, mas sem nenhuma manifestação de euforia pela mudança de ano. Estou vendo TV e escrevendo estas linhas. Há pouco Gal apareceu em um show. Que maravilha, é um rouxinol.

Pronto, 1984... saio do cubículo e cumprimento de longe o Celso, o Bigode, o Clodoaldo e outros. Vou até o cubículo do Orlandão, queria lhe desejar um bom ano, pois ele era sempre delicado, perguntando se estava tudo bem comigo, se alguém me incomodava. Era um anjo da guarda, só que na surdina. Não realizei meu intento, ele dormia.

J1984 ESTAVA COMEÇANDO. SEGUNDO COMENTÁRIOS, A REFORMA DAS leis de execuções penais ou penitenciárias do ministro Abiáckel estava na reta de chegada. Pelo que eu lera a respeito, começava a achar melhor desistir de tentar anular o segundo julgamento, pois por bom comportamento e um sexto da pena poderia trabalhar fora e passar os fins de semana em família.

1/1/1984. Os internos que saíram tinham de chegar até as 22 horas. Eles vinham chegando devagar, sem o entusiasmo da hora da saída. Quase todos, a partir daquele momento, poderiam ir para uma prisão aberta. Para isso teriam de arranjar um emprego. Se não conseguissem ficariam por aqui e sairiam a cada quinze dias, para visitar os seus e tentar arrumar trabalho.

Já sabia tudo a respeito, porque nos últimos dias do ano andei conversando com alguns internos que viviam nesse regime. Estes, dentro de poucos meses, seriam transferidos de qualquer jeito e teriam algumas horas por dia para procurar uma colocação. Os albergues, pelo que ouvi dizer, estavam cheios de gente assim, já que era difícil um ex-presidiário arranjar algo.



16/1/1984. Já faz mais de um mês que parei de fumar. Resolvi parar e, com isso, pararam também de me pedir cigarros no pátio. Não sei por que resolvi isso. Não estou completamente careta, porque aqui dentro

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é impossível, dou trombada com tóxico o tempo todo. Às vezes fico muito tempo sem usá-los, mas há ocasiões em que sinto que ofenderei quem me oferece e tenho de fazer jus à fama que tenho.

Fama... bela fama. De toxicômano e, segundo alguns jornais, traficante. Isso me faz lembrar dr. Evandro indignado durante o primeiro julgamento. Ele perguntava, encarando os jurados:

— Não é estranho que meu cliente seja acusado de traficante e nunca em todos estes anos tenha sido preso?

Ele tinha toda a razão, nunca fui preso nem como usuário. Ah! Fodam-se os que pensam assim, não sei por que ainda me revolto com essas calúnias. Derrubarem-me mais do que eu mesmo me derrubei é impossível. Mas resta uma esperança, que muitas vezes contesto se tenho direito. Meus sonhos. Aqui do fundo do poço voltei a tê-los. Não que eu ache que vencerei todas as batalhas como um espadachim de filme de capa e espada, nada disso. Sei muito bem o que me espera quando estiver livre novamente. Mas, por incrível que pareça, nem o fundo do poço destrói sonhos.



25/1/1984. Hoje veio para o convívio, e está morando no cubículo em frente ao meu, um camarada enorme, parece uma geladeira. Tem uma característica no mínimo desconfortável: é antipatizado pela massa. Pior de tudo foi o apelido que lhe deram, que é para acabar com ele de vez: Dois Cu. Ele vai para o pátio, e de alguns lugares gritam "Dois Cu"; quando entra na galeria, é só o que se ouve.

Há mais uma figura fora de série que também acabou de vir para o convívio, mas este foi para o pavilhão 2. É um português, que logo no primeiro dia já foi ser "faxina" da cantina, por sua larga experiência no setor. Ele tem aspecto de uma anta, seu diâmetro é razoável e sua altura não passa de 1m e 65. Esse, ao contrário do outro, é um cara simpático, mas causou sensação desde a primeira noite na galeria onde se encontra. Segundo me contaram, ele gosta de tomar banho, passar talco e ficar deitado nu em seu cubículo. Quem quiser usá-lo como fêmea, que fique à vontade. O mais extraordinário é que, desde que chegou, tem fila em sua porta. É verdade que aquele é um pavilhão com duas galerias de solteiros.



30/1/1984. Hoje tive uma notícia triste. Mataram o Cuca. Cucão, como era carinhosamente tratado pelos parceiros. Era único, uma criança. Foi bandido da pesada porque nunca conheceu outra vida. Seu

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mundo só foi aquele. Adorava o Pira, era seu amigo, seu cão de guarda, seu tudo. Ficava na escada do pavilhão olhando o movimento para que o jogo continuasse tranqüilo. Na construção da piscina passamos por um momento muito engraçado, quando ele enrolou o guarda escondendo o "bagulho" atrás da dentadura. Eu o chamava de Carradine, ele gostava, mas nunca entendeu por quê. Nem ele nem os outros, pois esse era o nome de um artista americano que fez o papel do bandido que matou Jesse James, em um faroeste memorável. E continuando com a biografia de Carradine, ele é pai do ator que fazia até pouco tempo atrás o seriado Kung Fu. Pois é, o velho artista, que só fez papéis de bandido, era a cara do Cuca.

4/2/1984. Quatro meses e meio no "Sítio" e dois Natais na cadeia. De tanto caminhar em todas as direções, conheço cada palmo deste lugar, até os policiais militares que estão nas guaritas já me cumprimentam.

Conheço também as armadilhas naturais que acontecem nestes passeios. É importante andar para não ficar enferrujado, mas é preciso estar sempre muito atento. Há poucos dias, passando perto da pocilga, um pacote do tamanho de uma caixa de sapatos veio voando por cima do muro. Caiu a um metro de mim, mais um passo e me acertaria em cheio. Fiquei assustado, mas mantive o andar firme e, depois que passei pelo pacote, não olhei para trás embora percebesse a movimentação às minhas costas de pessoas que provavelmente esperavam escondidas na pocilga. Esses fatos, aqui corriqueiros, tornam os dias na sociedade carcerária cansativos, mas a gente se acostuma. É uma selva cercada e perigosa, sem semáforos para avisar-nos quando podemos passar.



6/2/1984. Com o calor, o mau humor dos guardas é mais evidente e causa alguns problemas. Domingo passado, por exemplo, as esposas e companheiras carregadas de pacotes, que já tinham enfrentado ônibus, barca (Rio—Niterói) e o calor arrasador, brigaram com as agentes carcerárias. A meu ver com razão, pois eram onze funcionárias, mas só uma revistava. Uma senhora gorda, suada e cheia de pacotes que estava no fim da fila armou o maior barraco. O chefe de segurança experiente resolveu a situação, pondo mais quatro agentes para ajudar. Com Marilena nunca há problemas, ela sempre traz bombons ou flores para as agentes.

Bigode foi transferido para a prisão semi-aberta em Bangu, Instituto Plácido Sá Carvalho. Saiu daqui com fama de colaborar com a direção, embora no setor A não comentassem sobre isso.

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28/2/1984. Com o número muito grande de transferências para prisões semi-abertas, acabou vindo para cá um pessoal jovem e perigoso. A proximidade do Carnaval os deixa mais excitados, tramam fugas, ficam com uma postura que deixa os guardas desconfiados e acho que, a qualquer momento, vão dar uma "geral" daquelas acompanhadas da Polícia Militar. Alguns dos novatos já chegaram tramando a morte de inimigos, começaram a aparecer armados e houve até briga de faca.

Um dos que estava tramando mortes, se colocou numa posição tão perigosa que acabou pedindo seguro de vida. É um sujeito esquisito com o apelido de Esqueleto. Para não ficar mal com a massa, pediu seguro por carta, direcionada ao diretor. Parece que a carta era longa e continha histórias que causaram mais de quinze "carrinhos", inclusive o dele. Esqueleto foi hoje para o presídio Edgard Costa.

1/3/1984. Com as últimas transferências, o ambiente ficou mais tranqüilo. Sempre há algum tipo de perturbação, mas geralmente é causada por Milton, que, com medo do pessoal das falanges, fica dedurando a torto e a direito. Como não dá para peneirar essas informações, todos os acusados são chamados à inspetoria e verificados. Às vezes até ficam trancados alguns dias, para que a administração tenha certeza dos fatos. Com isso, Milton vai se tornando odiado. Ele não toma conhecimento disso, diz que se garante e vai continuar com o dedo engessado.




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