O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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como só eu fui para a "surda", pois os outros dois, apesar de estarem fora do convívio, estavam trancados em cubículos normais, alguns internos, inconformados com isso, foram reclamar com o diretor. Voltaram com uma explicação quase razoável. Primeiro, eu não tinha direito a regalias; segundo, iria direto para a galeria de parlatório; e terceiro na Lemos de Brito eu andava com os membros da Falange Vermelha e podia muito bem ter arranjado inimigos. Aquele pessoal sabia muito sobre mim, percebi isso pelos comentários indignados com o argumento do diretor.



— Imagine, o Doca nunca se meteu em nada.

Fiquei preocupado... por que será que sabiam tanto a meu respeito? Qual o interesse? Ali no "Sítio", como era chamado o lugar, eu não ia pedir nada para o meu amigo "banqueiro", ia deixá-lo em paz definitivamente.

No fim da tarde apareceu um camarada, bem barbeado, camisa e bermuda de grife.

— Meu nome é Milton, passei só dois dias na Lemos de Brito há uns dois meses. Estivemos conversando por alguns minutos, lembra? Tive de sair de lá para não ser morto pelo seu amigo Pira. Aqui, a Falange não tem vez, eu dedo para o diretor, não deixo entrar. Você vai se dar bem aqui no Sítio do Pica-Pau Amarelo. Não é tão tranqüilo quanto dizem, mas dá para "tirar" (cumprir) a pena.

Os dias ali, naquela masmorra centenária, eram longos, e o lugar malcheiroso. Às vezes subia a rampa para chegar à janela, via do lado direito parte de um campo de futebol, o muro alto atrás das traves. Em frente a esse observatório, havia um prédio pequeno, construção moderna, devia contrastar com o prédio onde eu estava (que seguramente era muito antigo). As paredes da "surda" eram tão grossas, que o vozerio e os rádios dos duzentos e poucos homens que estavam naquele prédio mal chegavam aos meus ouvidos. De lá eu via também algumas árvores e bastante mato rasteiro.

No segundo dia, um dos internos que era "faxina" do serviço social apareceu e perguntou se eu queria mandar algum recado para meu pai, que estava no portão. Explicou que o diretor era um promotor linha-dura e não tinha recebido o "velho". Mas os guardas, com pena, mandaram ele me procurar. Escrevi uma cartinha contando que estava bem, que ele e Marilena não se preocupassem e só viessem me visitar no

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sábado da segunda semana, pois só então eu teria direito à visita. Eram as regras daquele instituto.



Fiquei preocupado, estava sendo tratado como um bandido perigoso, tendo de ficar na "surda" para ser olhado e depois ainda tinha aquela explicação, que eu não teria privilégios. Será que tinham feito minha caveira? Pelo que eu sabia, na minha ficha tinha um elogio por comportamento.

No terceiro dia recebi um telegrama de Marilena, dizia que estava feliz por eu ter saído do inferno e estava com saudades.

No quarto dia, já ninguém vinha me olhar. De vez em quando alguém aparecia. Mas era para saber se estava tudo bem.

21/9/1983. No último dia, lá pelas catorze horas, tiveram de me deixar sair. Dr. Humberto e seu sócio, dr. João, vieram me visitar e papai veio junto. Esse era um direito que eu tinha, receber meus advogados. Estavam surpresos, ficaram sabendo da minha transferência pelos jornais. Papai era fogo, enquanto não me viu não sossegou.

Depois que foram embora voltei para a "surda" e fiquei lá por mais umas duas horas. Quando o inspetor foi me tirar, para me trazer para o cubículo, alguns internos vieram junto e ajudaram a transportar minhas coisas. Ao passarmos pelo pátio, alguns internos cumprimentavam e outros gozavam com a cara do Milton...

— Olha! Bandidão carregando mudança pro Doca.

A galeria era limpa e o meu cubículo — o número 239 no térreo (de um prédio de dois andares exatamente iguais) — ficava do lado esquerdo de quem entra. Não estava completamente destruído. Tinha uma mureta que escondia o boi; do outro lado, a dois metros do chão, um cano onde eu iria instalar um chuveiro. Entre os dois, uma janela com grades que dava para um campo de futebol de salão. No meio desse campo havia dois postes finos, que denunciavam que ali também se praticava voleibol. Depois do campo se via outro prédio no mesmo formato, comprido, retangular, dois andares com cinqüenta celas de cada lado. Estava tentando ver mais alguma coisa, mas parei porque ouvi uma voz conhecida às minhas costas.

— Bem-vindo ao Sítio do Pica-Pau Amarelo.

Virei rápido mas pela portinhola eu só via o bigode e um sorriso com algumas falhas nos dentes. Enquanto me aproximava ele dizia:

— Aqui também sou o xerife.

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Só então reconheci o Bigode. Moramos na mesma galeria na Lemos de Brito, quando me mudei pela primeira vez para uma galeria de parlatório, no terceiro pavilhão, primeira galeria, no cubículo 7. Não posso dizer que foi uma festa. Ali, naquele lugar, era impossível, mas ficamos bem contentes de nos encontrarmos. Ele, como sempre, estava queimando um fumo e passou a mão para dentro da portinhola para que eu desse um "tapa" em suas próprias mãos, assim, se aparecesse alguém ele iria embora, eu não teria nada a temer. Aliás, esse cuidado eu sempre tive, nunca carreguei ou guardei nada.

Ficaria trancado mais três dias. Tinha comigo o colchão, roupas e produto de limpeza. Minha tv e rádio só viriam quando eu fosse para o convívio. Nos quatro dias que passei ali sem sair, conservei a portinhola aberta para pelo menos poder olhar o movimento, com um espelho de mão emprestado pelo Orlandão.

Durante aqueles dias de tranca, recebi muitas visitas dos companheiros. Bianca apareceu e levou minha roupa para lavar.

— É só dessa vez que vou fazer isso, sua roupa deve estar encardida. Depois arranjo uma "caída" para ajudar com essas coisas.

Pelo menos uma vez por dia Milton vinha bater papo comigo. Tinha pertencido a uma das quadrilhas mais famosas do Rio, tão famosa que fizeram até um filme a respeito de seu líder. Milton também tinha ficado famoso por resgatar sozinho o líder em um camburão que ia levá-lo a uma audiência no fórum. Rendeu os guardas, liberou seu companheiro e chefe e, ainda por cima, virou a viatura de rodas para o ar.

Numa das visitas que me fez, num fim de tarde, me contou que morava no último cubículo do corredor, do mesmo lado que o meu, e vivia com uma "criatura" que o visitava ali. Ele gostava muito dela, embora tivesse sido homem. Era muito rica e tinha feito uma cirurgia de transformação na Suíça. Marilena e eu tivemos oportunidade de vê-la, durante todo o tempo em que estive lá. Era bonita, educada e se vestia com elegância.

O domingo tinha chegado e a visita íntima iniciava às dez horas. Um pouco antes me tiraram da galeria e me levaram para o pavilhão que eu via de minha janela, do outro lado do campo de futebol de salão. Puseram-me em um cubículo, no segundo andar, que dava para uma parte do "Sítio" desconhecido para mim. Arranjaram uma cadeira, um

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colchonete e uma vassoura. Pedi a um interno que me arranjasse na cantina água mineral, uma garrafa térmica com café, jornais, um pacote de bolacha e spray para matar as formigas e baratas. Antes de olhar pela janela, para fazer um reconhecimento do lado do fundo do "Sítio", tive de tratar da higiene do local. O camarada que foi à cantina buscar essas coisas era homossexual, tinha uma aparência simpática, de altura mediana, bem preto, com olhos muito espertos e sorriso maroto. Chamavam-no de Sargento. Daquele dia em diante ele estava sempre por perto, lavando meu cubículo, conservando meu isopor cheio e me prestando pequenos serviços. Adorava música e, para secar meu cubículo, punha o rádio ao máximo e dançava em rodopios, com um pano em cada pé até ficar tudo seco e os ladrilhos brilhando.

Bom... voltando ao cubículo onde me encontrava. Depois de limpar tudo, fui para a janela. Do lado esquerdo eu via a cantina, naquele dia bastante movimentada. Bem em frente tinha árvores, com visitantes e internos caminhando por ali. À direita, uma enorme horta. Havia pessoas trabalhando, ajeitavam aqueles regadores de solo, com três canos finos que giram e atiram água nas hortaliças. Havia também um córrego ali, porque dois meninos pescavam e um tirou um peixe minúsculo, bem na hora em que eu pensava que não pegariam nada. Se fosse no interior de São Paulo eu diria que era um lambari, mas lá... Aquilo me fez rir e pensar com saudades na fazenda de meu avô, e no apelido carinhoso que os presos tinham posto naquela penitenciária: "Sítio do Pica-Pau Amarelo". Fiquei bastante tempo olhando para algum ponto, sem nada ver, apenas recordando com saudades meus avós e a felicidade em que vivi até os doze anos.

No fim da tarde, já de volta ao meu cubículo, tomei um banho de cano. Depois deitei para ler os jornais, mas dormi profundamente. Acordei tarde com o Bigode me chamando porque estavam fazendo o "confere". Aqui era diferente da Lemos de Brito, depois de contarem os presos às 21 horas, trancavam todo mundo e, mais tarde, às 23 horas, apagavam as luzes. Podia ficar ouvindo música ou vendo televisão, mas tinha de ser bem baixo. As portas e chaves eram comuns, como em qualquer quarto, o que propiciava ao preso sair se quisesse. Se fosse pego ia para a "surda". No meu caso, eu ainda não tinha recebido minha chave e, em caso de ficar na "tranca" (de castigo no próprio cubículo), tomavam a chave do camarada.

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O "confere" tinha acabado, eu estava na janela olhando o jogo de futebol, que ia começar (a quadra era iluminada). Era o time dos guardas contra um dos times dos internos. Virei rápido porque percebi que abriam minha porta. Era o inspetor que tinha me recebido na chegada — o senhor Manoel. Tinha sessenta e muitos anos, sem um fio de cabelo, 1m 64, usava óculos. Sorriu para mim...

— Amanhã vais para o convívio. Porta-te bem, que eu disse ao homem que és educado. Já sei que tem chefe de seção a querer-te para faxina. Agarra-te logo a uma. Boa sorte.



23/9/1983. Saí para o convívio às catorze horas do dia seguinte e fui direto para o serviço social ver se minha documentação e a de Mari-lena estavam em ordem. Estavam e fiquei aliviado, depois fui procurar o Sargento para me ajudar a carregar a TV, o rádio e uma cama que papai tinha providenciado e estava na inspetoria. Feito isso, fiquei assistindo ao Sargento lavar meu cubículo. Fiz lavar tudo, até o teto. Depois colocamos tudo para dentro, cama, ventilador e a tv, que pus em cima de uma mesa que o Sargento me vendeu. Estávamos pensando como íamos fazer com a TV...

— Você não entende nada disso, deixa que eu arrumo tudo.

Conhecia aquela voz, era o Careca, o eletricista que tinha instalado tudo para mim na Lemos de Brito. Falei de bate-pronto enquanto lhe dava um abraço:

— Me falaram que aqui não tinha ninguém da Falange Vermelha. Respondeu olhando em meus olhos.

— Sei até quem te falou essa bobagem, não liga, o Milton está pinel, com mania de perseguição.

Bom, depois disso foi um sucesso, instalou um pedestal em cima da porta para o ventilador, ligou a tv na antena de um vizinho e me emprestou um chuveiro elétrico. O pagamento teve de ser o mesmo da última vez, alguns pacotes de bolacha e refrigerantes. Enquanto arrumava tudo me contou que já estava lá havia dois meses, tinha vindo para consertar a fiação e conseguiu ficar.

Era a minha primeira noite na galeria. A porta ficou aberta como na Lemos de Brito. Eu fiquei tratando de arrumar minhas coisas, vendo tv e anotando os acontecimentos. Já tinha passado pelo meu batismo de fogo e, lá, não ia permitir que ninguém entrasse pelo meu cubículo adentro para pegar água, refrigerantes ou gelo. Não era por egoísmo, é que a coisa

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funcionava assim. O tempo vai passando e você aprende como é a vida na cadeia. Dependendo do seu histórico, será respeitado ou não. Não ia impor nada, nem me passava pela cabeça me envolver em qualquer tipo de atividade que não fosse a "faxina". Apenas sentia que a situação era outra.

A porta permaneceu aberta e alguns vieram bater papo e saber informações sobre os acontecimentos do setor b. Um camarada, regulando em idade comigo, só que com o cabelo todo branco, 1m 75, noventa quilos, aparência agradável, cara limpa, puxou conversa da porta. Já o tinha visto de longe na horta, na tarde do último domingo. Em um terno bem talhado, passaria por um empresário de sucesso.

Conversamos por uns vinte minutos. Quis saber do Nézão, como estava, o que fazia, se traficava na cadeia. Não dei nenhuma informação importante, mesmo porque nunca tinha conversado com Nézão sobre suas atividades na cadeia ou fora dela. Sabia que era traficante dos grandes, por ouvir falar. Respondi apenas que ele estava vivo, gozando de boa saúde. Aparentemente satisfeito com as informações, passamos a falar sobre onde estávamos, o "Sítio".

— Aqui é diferente — dizia ele. — Não têm acontecido mortes. Os perigos são outros. Tem muita covardia, muito dedo-duro, "garotos", ex-policiais, gente que era do grupo do Mariel Mariscot, todos no "seguro". Onde você estava a massa era de assaltantes e traficantes, aqui é de raptores e chantagistas. Bom... não preciso te dizer, como em qualquer cadeia, não dá para confiar em ninguém.

Em vez de se despedir, convidou-me para um café em seu cubículo, que aceitei não só por educação, como por curiosidade. O cubículo era limpo e confortável, com uma tv enorme de última geração, chuveiro elétrico e cama muito bem arrumada, tudo nos seus lugares, sinalizando uma personalidade organizada e meticulosa. Tomei o café, ouvindo sobre os dissabores que tinha com seus advogados, que não conseguiam tirá-lo de lá. Já estava preso havia muito tempo e já tinha direitos que não conseguia fazer valer.

De volta ao meu lugar, fui colocar um espelho (desses comuns, que se compra em camelôs) debaixo do chuveiro na altura do meu rosto, para poder fazer a barba tomando banho. Olhei-me e vi o quanto as últimas semanas e a "surda" tinham me deixado abatido. Examinava meu rosto, mas com o canto dos olhos percebi na porta a presença do Bigode, com seu jeito debochado. Foi logo se abrindo...

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— O Celso veio conversar com você em seu cubículo... que honra. Ele não faz isso com ninguém. Matador temido na "Baixada", sua presença em qualquer lugar causava pânico. Aqui, além de ser o encarregado da horta, é agiota, todo mundo tem o rabo preso com ele, até alguns guardas.



23/9/1983. Levantei-me cedo, tomei café na cantina e depois fui andar. Precisava me exercitar e andei por tudo. Aquilo era gigantesco, uns 200 mil metros quadrados com prédios, pocilgas, uma horta enorme e até um campo de futebol. Num dos prédios de fundo, do lado esquerdo, ficava a alfaiataria e a sapataria. (Faziam uniformes, calças jeans e roupas usadas no sistema penitenciário. Fabricavam também bolas de futebol de salão.) Por onde eu ia, era notado e saudado pela maior parte das pessoas, internos ou funcionários. Na pocilga, o interno encarregado me mostrou tudo, porcos, porcas e filhotes. Na horta foi onde me demorei mais, porque Celso fez questão de me mostrar todos os canteiros. Assisti ao futebol de campo e de salão e fui ao refeitório dos guardas agradecer ao Baldaracci (o cozinheiro da cozinha dos funcionários), que tinha me levado comida todos os dias desde minha chegada. Fizemos um acerto e eu continuei recebendo almoço e jantar no meu cubículo. Esse cara era incrível, além de cozinheiro dos guardas, era o encarregado da seção de disciplina. Tinha esse apelido por causa de um personagem de novela.

Pela "boca-de-ferro", fui chamado à inspetoria. Apresentei-me ao inspetor, que me entregou um chuveiro elétrico que papai tinha acabado de deixar com ele. Pediu que avisasse o "velho" que o diretor não ia deixá-lo me visitar fora dos dias e dos horários permitidos.

Quando me liberaram para o convívio, me avisaram que era considerado falta grave estar em pavilhão que não fosse o seu. O meu era o primeiro, ali eu podia circular à vontade, nos outros só com autorização. Ninguém respeitava muito isso, mas, como eu queria visitar o prédio do pavilhão 3, onde ficava a "surda", pedi licença ao inspetor e, autorizado, fui para lá. Os três pavilhões davam para um pátio. Os pavilhões 1 e 2 ficavam do lado direito de quem entra, o que eu ia visitar, à esquerda, logo depois da inspetoria e do auditório, de costas para o campo de futebol.

O prédio era bonito, dava a impressão de que o Corcunda de Notre Dame ia sair de lá a qualquer momento. Foi construído em 1856, se não me engano. Lembrava uma pequena catedral. Não estava maltratado, estava sujo. Sua cor era cinza-escuro. Acho até que, se um dia resolverem

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limpá-lo, vão estragar sua característica principal, a aparência sinistra. Tem dois andares, a frente é de grades de ferro até o primeiro andar. Ao entrar, se percebe uma enorme nave. No térreo, como se fossem pequenos altares que volteiam as naves das igrejas, estão as celas, cinqüenta de cada lado. Dali para cima tem mais dois andares de celas. Para atingi-las, sobe-se em escadas de ferro e anda-se em corredores de ferro, com corrimãos e proteções igualmente de ferro em toda sua volta. As portas das celas, também de ferro, dão uma impressão mais pesada ainda ao ambiente. É incrível olhar da segunda galeria aquele enorme espaço vazio. Principalmente pela pouca luz existente lá.



24/9/1983. Sábado. Hoje, quando Marilena, mamãe e papai apareceram no portão, dei um pulo de alegria, parecia que tinha marcado um gol.

Já tinha arrumado mesa debaixo de uma árvore, com toalha, cadeira e tudo. Mas choveu e nós tivemos de ficar em um galpão de alvenaria, com mesas e bancos. Aquele tinha sido um mês atípico, tinha chovido quase todo o tempo. Mas, toda vez que a chuva dava uma parada, passeávamos pelo "Sítio". Tive pena deles, acho que esperavam um lugar melhor. As árvores, a horta e o córrego não tiravam a aparência de penitenciária do lugar, com seus muros altos e guaritas com policiais armados. As horas passaram rápido e eles se foram. Não tinha tempo para tristezas. No dia seguinte, Marilena estaria aqui comigo, e eu precisava dar um jeito de melhorar o espaço. Ainda não tinha tido tempo de pintá-lo e de colocar o vaso sanitário, que já estava comprado, mas que só seria colocado na próxima semana, quando o Português (o mesmo que reformou meus cubículos no setor b) acabasse a reforma de dois outros cubículos.

17/10/1983. Os dias no "Sítio" seguem calmos, a não ser por alguns acontecimentos que considero de rotina em uma cadeia, como os de ontem, exatamente na hora em que estava dando minha caminhada. Estava passando pela quadra de futebol de salão, que é a vista que tenho de meu cubículo e percebi que os guardas corriam atrás de um interno, que tinha em uma das mãos um pacote. Quando ele se viu cercado, jogou o pacote em direção de uma das janelas da galeria. Na correria, não conseguiu seu intento. Agarraram-no e o levaram para a

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delegacia mais próxima, onde ele confessou que iria traficar no interior da penitenciária. Delatou um parceiro que o ajudava e agora estão cada um numa "surda" e com mais um processo nas costas. Os jornais do dia 20 de outubro noticiaram o fato e confirmaram que os rapazes não entregaram seus fornecedores. O restante da massa procura se comportar, já pensando no Natal e na troca de ano. Aqui, pelo menos quarenta por cento tem direito de ir passar esses festejos com a família.

Paulinho Badhu esteve aqui me visitando e acha que tenho grande chance de ter meu segundo julgamento anulado.

Mais tarde, um pouco antes de terminar o expediente, o diretor esteve na seção examinando as fichas dos internos, à procura de penas vencidas e das fichas dos que têm direito a sair no fim do ano. Anotou também dois nomes que iria indicar para o indulto que o presidente da República dá todo final de ano. Bom sinal, era a primeira vez que eu via um diretor tratar pessoalmente dessas coisas e, ainda por cima, pedir urgência na revisão do restante das fichas, para que ninguém que tivesse direitos deixasse de consegui-los.

23/10/1983. Uns dias depois que saí para o convívio, fui procurado por Tenório, ou o Gordo, como a imprensa o chamava. Veio para o convívio uma semana depois que eu, pois chegamos com poucos dias de diferença. Só não me lembro se ele veio da Ilha ou do Água Santa. Enorme, em torno de 1m 90, 120 quilos, tez clara com o rosto cheio de bexigas. De tanto nos cruzarmos caminhando pelo "Sítio", fizemos amizade, era membro destacado da Falange Vermelha e, embora deixasse transparecer não ter muita simpatia por Pira, era seu parceiro e sabia de nossa amizade. Pertencia à quadrilha de roubo de automóveis da época. O Gordo tinha duas especialidades: assaltar bancos e, a maior delas, roubar automóveis. Segundo comentavam, tinha ganhado muito dinheiro. Era um sujeito alegre, muito inteligente e, apesar do tamanho, era muito ágil, era incrível vê-lo jogar futebol. Enquanto esteve no "Sítio" me procurava muito. Tinha grande interesse em saber como se portar em sociedade, pedia sempre para eu explicar como segurar o garfo e a faca nas refeições. Quais as diferenças dos copos de vinhos tintos e brancos, enfim, sentia uma grande necessidade de saber tudo sobre etiqueta. Eu, por minha vez, também tinha curiosidade e, para ser honesto, comentei que anotava tudo o que se passava na prisão e um dia, se tivesse coragem, escreveria um livro. A primeira vez que lhe falei sobre isso, me fez jurar

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que o incluiria em minhas histórias. Como escrevi antes, nos tornamos bons camaradas. Milton, que tinha ódio de todos da Falange Vermelha, me procurava para dizer que achava que um dia eu ainda ia me dar mal por me dar com aquela gente. Para desespero dele, a direção tinha colocado o Gordo em nossa galeria. Era vizinho do Orlandão. Milton comentava:

— Você já viu os caras que gostam de você? — E enumerava: — Tenório, Orlandão, Cabo Pereira, Celso... Porra, você está louco... A administração presta atenção em tudo.

Eu brincava com ele, perguntando por que não tinha incluído o nome dele. Ele respondia na lata:

— Eu não gosto de você.

Mas Tenório não ficou muito tempo com a gente. Nessa época, quase em frente ao meu cubículo, vivia Selton. Era um rapaz boa-pinta, educado, que também se dava bem comigo. Gostava de me contar suas farras e conquistas. Era assaltante, não pertencia a nenhuma facção e era muito perigoso. Não era bem-visto, era bonito, arrogante e não respeitava ninguém. Estava em constante atrito com a administração e, no momento em que fazia anotações sobre ele, estava na "tranca". Tinham achado duas facas em seu cubículo e, segundo ele alardeava, sabia quem o tinha delatado.

Parecia uma fera ali trancado, berrando a todo pulmão, jurando de morte seu delator. Antes de ser trancado vi várias vezes ele e Tenório conversando. Nos últimos dias, Tenório ficou muito tempo na sua porta confabulando. Uma das vezes que estavam assim nessa trama, passei por eles ao sair do meu cubículo. Quando passei, Tenório me chamou. Estavam queimando fumo e Selton disse rindo:

— Toma aí pra tu chegar doidão na vigilância. — E falava para o Tenório: — Ele morre de medo de tomar um flagra.

Dei um "tapa" para não ser desmancha-prazeres e já fui me virando para ir embora, mas Tenório me segurou.

— Espera, vou com você, vamos tomar um café. E o outro pela portinhola falava:

— Conta pra ele.

A história era a seguinte: fugiriam no domingo lá pelas seis horas, logo depois do café. Tenório me contou tudo. Iriam ter armas que chegariam no sábado. A mula, que era de confiança, fornecia bolachas

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e balas para a cantina, e Tenório o conhecia. O sujeito pensava que estaria trazendo três quilos de "bagulho". Para convencê-lo a fazer isso foi necessário ameaçá-lo de ter a filha raptada. Dentro da maconha estaria uma metralhadora Uzi.

Quando ele acabou de contar, disse:

— Venha assistir a nossa saída, ninguém vai se machucar. Logo depois do café, às seis e meia. Você fica encostado no porta-estandarte assistindo a tudo.




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