O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



Baixar 2.3 Mb.
Página31/37
Encontro07.10.2019
Tamanho2.3 Mb.
1   ...   27   28   29   30   31   32   33   34   ...   37

Entrei na fila e fui ao refeitório só para cumprir a ordem, nem sentei, fui direto para porta da saída. Não queria comer, só pensava em voltar para o cubículo, passar a tranca na porta e ficar sozinho. Mas isso não aconteceu, me encaminharam novamente para o auditório. Um pouco antes da entrada, comecei a ouvir um bate-boca de grandes proporções. Os pms que estavam nos pátios também ouviam a discussão e se mostravam inquietos. Parei para tentar não entrar, mas mandaram que eu continuasse. Lá dentro o tumulto era grande. Oitenta por cento do pessoal que continuava nu se negava a ir para o rancho 1. Eles berravam para o diretor e para os pms:

— Vocês que estão vestidos, vão comer.

Os que ainda estavam nus no pátio 1, também não saíam do lugar. A impressão que dava era que estávamos num campo de concentração. E pior, a coisa estava escapando do controle. (A corda tinha esticado

405


demais, o risco de arrebentar tinha de ser levado em conta.) Aqueles homens nus não estavam mais com medo dos pms e suas metralhadoras, e não havia uma autoridade maior para pôr fim naquela situação.

Eu estava revoltado. As autoridades do governo recém-empossado estavam fartas de saber que algo muito sério estava para acontecer. Para mim, incrementaram a guerra entre facções, misturando-as. Tinham de ter estudado melhor a situação. O que será que elas pretendiam, mexendo as pedras do tabuleiro? Que tudo explodisse?

Finalmente, depois de muito bate-boca, fomos separados por pavilhões e galerias e ficamos esperando divididos, entre os dois ranchos e o auditório, enquanto revistaram todos os cubículos novamente.

Depois de muito tempo, mandaram que fizéssemos fila por galerias. Quando estávamos todos enfileirados, por pavilhões e galerias, como se estivéssemos em "ordem unida", deram ordem para começarmos a subir. Aquilo era a coisa mais surrealista que tinha visto em minha vida. Um batalhão de homens nus e vestidos, tendo de subir escadas em corredores poloneses constituídos de pms com raiva, pois estavam ali desde cedo.

Eram 22 horas quando começamos a subir. O pessoal subiu levando chutes, pontapés e tapas. Isso estava acontecendo antes de o diretor aparecer. Sei lá onde ele estava, provavelmente tinha ido ao toalete. Mas, assim que viu aquilo, correu em direção ao comandante e disse:

— Os senhores não podem fazer isso...

E levou um tapa na altura da orelha. Louco da vida, mostrou seus documentos...

— Sou o diretor, o senhor sabe muito bem, além do mais, sou promotor de Justiça. Isso não vai ficar assim.

O comandante não ficou muito preocupado, olhou para ele e pediu desculpas alegando:

— Apreensivo como estava, e o senhor em mangas de camisa, pensei QUE ERA UM DELES.

Eu não assisti a esse fato, mas era voz corrente, na penitenciária. Disseram até que isso aconteceu quando eu estava subindo, que ele tinha iniciado sua revolta em minha defesa.

Eu subi com muito medo. Quando estava no meio do primeiro lance de escadas, ouvi vindo de baixo...

— Esse aí é o Raul Doca Street.

406


E levei um pontapé na altura da coxa. Só me pegaram de novo quando entrei na galeria, levei um tapa nas costas.

O sangue de Reginaldo Donato do 33 tinha sido enxugado, mas o cheiro continuava forte. As paredes e portas de cubículos estavam pipocadas de tiros. A minha porta foi a única, naquele canto direito, que escapou. Estava intacta.

Apesar de muito cansado, passei uma toalha molhada no chão para tirar as marcas de botas e sapatos, feitas de sangue. Ia passando a toalha úmida enrolada em um rodo, mas tive de parar duas ou três vezes para vomitar. Meu estômago doía, provavelmente porque estava praticamente vazio. Felizmente eu tinha água e pude tomar um banho. Pensei que estava pronto para deitar, mas tive de tomar mais uma providência, pois minha cama estava repleta de cacos do espelho. Juntei as quatro pontas do lençol, dei um nó e joguei em um canto. Depois jogaria tudo fora. Antes de me deitar, vi minha figura toda torta e cheia de vazios no que tinha sobrado daquele enorme espelho presenteado por Jesus. As lágrimas desceram com força e eu fiquei me olhando chorar, o rosto parecia um quebra-cabeça retorcido. Nunca mais esqueci o que refletia ali.

Comecei a escrever esses fatos no dia 12, mais ou menos, pois nos dias que antecederam ao tiroteio e à invasão não tive cabeça para nada. Pressentia que algo muito sério estava para acontecer.



14/9/1983. Por ocasião das primeiras mortes, quando Pira, Jesus, Jarra, Lâmpada e outros da Falange Vermelha ainda estavam aqui, também houve uma invasão de pms (em pequeno número) e, em seguida, de repórteres. Não foi nada comparado com os últimos acontecimentos, mas causou um grande impacto na imprensa, apesar de o número de mortes cometidas por internos ter sido o mesmo (duas). Infelizmente esses relatos se perderam. Faz tanto tempo que tudo aconteceu, que não sei se o que contarei agora se passou na época das primeiras mortes ou agora, no tiroteio acompanhado de mortes. Vale a pena registrar que naquela madrugada, após os acontecimentos do dia, bateram à minha porta insistentemente. Era o chefe de segurança com uma repórter de uma rede de televisão. Apesar do cansaço, não estava dormindo, e quando se aproximaram reconheci a voz da repórter. A luz estava apagada e assim ficou. Estive quieto e mudo durante o tempo todo em que estiveram à minha porta. Bateram, pediram, o chefe de segurança se identificou,

407


pois, como já escrevi, me dava com ele. Nada adiantou. Ficaram ali tentando por uns vinte minutos. A repórter insistia que a reportagem seria para o meu bem. Eu não ia deixar filmarem meu cubículo, logo após a invasão de PMs, por causa de mortes, por passagem de "bondes" ou tiroteios na galeria.

Era um outro dia, mas estava longe de ser uma nova vida. Tínhamos de lavar a galeria, os cubículos, a nós mesmos; pois aquilo já era passado e, dentro de dois dias, estaríamos recebendo ali nossas mulheres. E novos fatos já estavam acontecendo.

Eu estava acabando de ajeitar meu cubículo, que já tinha sido lavado e escovado com água, sabão e água sanitária. Chico Tonelada, que foi me devolver a camisa, limpa e passada, contou os acontecimentos do dia anterior à invasão. Ele estava na galeria, ouviu tudo e viu uma boa parte.

Nézão, Zé Cigano e Monstro ficaram de tocaia, junto com mais alguns, esperando o Reginaldo Donato sair do cubículo com um companheiro que o visitava. Quando apareceram na galeria e iam fechar a porta, levaram os primeiros tiros. Donato, percebendo a situação em que se encontrava, avançou mesmo de mãos limpas, aos berros:

— Venham, covardes filhos-da-puta, que vou levar pelo menos um.

O que levou foram muitos tiros e estocadas, morreu na hora. Seu companheiro, cheio de estocadas e um tiro, ficou ferido, parece que chegou a ser socorrido, mas não agüentou e faleceu mais tarde. Segundo me contaram depois, Zé Cigano sapateou no rio de sangue de Donato e depois, ensopando as mãos, fez riscos de sangue no próprio rosto e no peito, com um grito de guerra. Enquanto fazia isso fez um discurso, que nenhum dos que confirmaram esta história conseguiu reproduzir.

Ontem, papai esteve aqui com dr. Evandro. Queriam ver como eu estava e contar que finalmente o recurso tinha chegado a Brasília. Papai estava assustado com tudo o que andava acontecendo na Lemos de Brito. Fiquei abraçado com ele bastante tempo, pois era dia de seu aniversário. Na verdade, eu sabia que ele estava pouco se importando com o Supremo em Brasília. Ele, mamãe, Marilena e Luiz Carlos estavam se virando na surdina para me tirarem dali.

Bom... o alarme tocou e a visita teve de terminar. Dois funcionários vieram me buscar. Despedi-me de papai e do dr. Evandro, que saíram mais preocupados do que quando entraram.

408

No caminho de volta à carceragem, fiquei sabendo do que se tratava. Haviam encontrado um buraco que vinha da Milton Dias Moreira e acabava do lado de cá do muro. Quer dizer, na Lemos de Brito. Puseram-me a par dos acontecimentos e me mandaram subir para a galeria. Iam trancar a gente.



Desde o dia anterior, durante a visita íntima, havia começado o boato: Pira e seus companheiros do setor B (Milton Dias Moreira) iriam invadir o setor a (Lemos de Brito), e quem não tivesse pedido "seguro" para ficar com ele na "Especial", corria perigo.

Obs.: Eu não estava entendendo como Pira andava me telefonando, querendo saber de mim. Tinha feito isso duas vezes, a primeira quando a bicha amiga dele veio buscar seus pertences que estavam comigo, e a segunda, quando estava na visita com papai e não tinha conseguido atendê-lo. Agora com esses boatos de invasão é que entendi... ele e o Jarra, mais os outros que tinham levado "carrinho" no mesmo dia, estavam na "Especial". Lá tinha tudo, telefone, mesa de sinuca, podia receber visita todos os dias etc. Uma das razões de ele estar tão revoltado era essa. Ali era prisão de quem pedia "seguro": ex-policiais, dedos-duros e pessoas que não podiam permanecer no convívio.

O buraco tinha sido tapado e havia sentinelas (guardas penitenciários) ali tomando conta (acho que estavam morrendo de medo).

Nós estávamos trancados. Eu pensava em Marilena, no susto que tinha levado ao encontrar a galeria toda furada de balas. Ela ficou horrorizada com meu espelho arrebentado daquele jeito, queria que eu o tirasse dali. Eu não conseguia tirá-lo de lá, não sei por quê, mas não conseguia. Estava preocupado, achava que tinha feito mal em recebê-la ali, devia tê-la poupado. Agora era tarde, eu deveria ter pensado nisso antes.

Eu estava olhando a tv e nada via, imerso nos meus pensamentos. Mas, de repente, uma notícia chamou minha atenção. Era sobre a Ilha Grande: dez internos tinham sido mortos naquela tarde. O noticiário continuava falando sobre os últimos acontecimentos no sistema penitenciário, e apareceu o Cavalo declarando que, se não mandassem os líderes da Falange Vermelha que estão na "Especial" de volta para o setor a, as mortes iam continuar.

Acabei de ouvir as notícias e comecei a escutar a bagunça na galeria. (Estávamos trancados literalmente, cada um em seu cubículo.) Os internos começaram a abrir as portinholas das portas e berrar para os outros.

409

— Ouviram as notícias?



Coloquei o braço esquerdo para fora, levando na mão um pequeno espelho, procurei à minha direita a porta do Chico e chamei por ele. Vi que ele punha sua mão para fora, também segurando um espelho, e ouvi sua voz, que não era forte...

— Vai continuar fedendo.

É... aquilo não ia terminar nunca. Depois de algum tempo do noticiário sobre a Ilha, o alarme da Milton Dias Moreira tocou, e o nosso também, mas acho que foi apenas um toque de alerta. Conclusão final: dois apareceram mortos lá do outro lado.

No dia 14, o Jornal do Brasil começava com um título em negrito: Terror nos cárceres. "O assassinato de oito detentos na Ilha Grande, há menos de uma semana de um conflito de graves proporções aqui perto, no Instituto Penal Lemos de Brito, vem demonstrar que a lei da selva está em pleno vigor no universo penitenciário do Rio de Janeiro. De março até agora, rebeliões de presos e fugas em massa transformaram-se numa assustadora rotina. E os assassinatos cometidos com assustadora regularidade, vieram contribuir para demonstrar que a situação carcerária do Rio — das delegacias dos subúrbios aos institutos penais — está longe de controle." O artigo prossegue, mencionando a "desorganização do sistema penitenciário, a falta de recursos para resolver o problema e o caos reinante nessas penitenciárias". Continuando: "Cabe ao Estado fiscalizar e gerir a segurança dos presos. É atribuição do governo estadual zelar pelos detentos, do começo ao final da pena. Logo, é inconcebível que o governador Leonel Brizola venha a público proclamar, pela TV, que espera novas mortes, novas rebeliões. É igualmente inconcebível que ainda existam grupos armados e organizações criminosas operando no interior dos presídios sob os olhares complacentes de guardas pagos pelo Estado. E com a proteção do diretor do Departamento do Sistema Penitenciário,.. que se recusa categoricamente a admitir a existência de facções e organizações em luta nos presídios".

Em artigo de outro jornal, o título era: "Deputados querem ouvir os líderes das facções". "Os principais líderes das falanges Vermelha e Jacaré, facções que se digladiam há dois anos pelo controle dos presídios do Rio, prestarão depoimento na próxima semana na CPI da Assembléia Legislativa."

410


(É claro que posso estar enganado, mas eu duvido que algum líder vá depor.) Mais adiante a reportagem comenta: "Esse sistema, que hoje conta com 12 mil presos, está apodrecendo a olhos vistos", e mais adiante, Liset Vieira, líder do PT, que participava da reportagem, comenta: "Existem lideranças entre operários, negros, prostitutas e homossexuais. Por que não poderia haver lideranças entre os presos?". Na mesma reportagem, mais adiante, um líder do PDE disparava: "A única coisa que está errada é que nós demos tudo ao preso, e o preso só está dando em retorno a discórdia, atribulações, brigas, violências, atritos entre eles. Essas lideranças nós, absolutamente, não podemos reconhecer e estimular".

Sinceramente não vi nada, pelo menos até aquele momento, que o novo governo tenha dado aos internos. Também acho que estão "viajando", discursando que 12 mil internos vão trabalhar. Gostaria de saber onde.

Acho que o Desipe faz até demais com as verbas que recebe, o resto é conversa fiada. Se tivessem estudado a situação carcerária antes de começar a mexer atabalhoadamente com a massa, provavelmente teriam evitado todos esses seríssimos acontecimentos.

15/9/1983. Eu estava muito apreensivo, não tinha o menor preparo para viver aquilo tudo. Não tinha problemas com as novas lideranças, muito pelo contrário, era muito saudado entre esses grupos. Tomava muito cuidado com tudo o que dizia e fazia.

Logo cedo telefonei para Marilena, precisava ouvir sua voz e ter outro tipo de papo além daquele carcerário. Tive sorte, foram ótimas as notícias que recebi. Seria transferido para Niterói de uma hora para a outra, já estava tudo resolvido. Não tinham como recuar, era ordem do governador. Mais animado, fui para meu cubículo tomar banho e fazer a barba. Enquanto fazia isso, pensava nas informações que tinha a respeito da penitenciária de Niterói, a Ferreira Neto. Era ampla, tinha um campo de futebol, hortas, pocilgas, enfim, parecia mais uma chácara.

Ia sair para ir à vigilância, quando bateram à porta. Abri e dei de cara com um guarda. Ia começar um "confere" e, em seguida, trancariam todo mundo, inclusive os "faxinas". Saí do cubículo, parei na porta para responder ao "confere". Que susto, estava acontecendo tudo de novo. Na entrada da galeria, um bando de pms esperava acabar o "confere" para dar outra "geral". Foi tudo calmo, com a graça de Deus, não acharam nada e, depois de duas horas, liberaram todos os pavilhões e galerias. Fui

411


direto para a seção, já tinha aprendido que lá, em caso de invasão, estaria mais protegido.

Almocei na cantina do pátio e subi. Queria ficar quieto, aproveitar para relaxar de fato, pois o ambiente não denunciava nenhuma tragédia. Consegui dormir por muito tempo. Acordei com Capeta, que trazia meu jantar do refeitório dos funcionários. A primeira coisa que fiz foi perguntar se estava tudo bem. Como estava, comecei a comer. Já estava quase terminando quando o Capeta, que me fazia companhia, me cutucou e fez sinal para que prestasse atenção. Atento, comecei a ouvir meu nome ser chamado insistentemente na "boca-de-ferro" (alto-falante), pedia que comparecesse à inspetoria. Dei um pulo da cama, entreguei meu prato pro Capeta e saí pedindo que ficasse ali me esperando. Pressentindo que era minha transferência, desci correndo as escadas e me apresentei ao inspetor. Ele sorriu para mim e me entregou os documentos de transferência.

Dentro de trinta minutos, esteja aqui. O camburão que vai levá-los a Niterói já está esperando.

Tirando meu colchão, a TV, minhas roupas e coisa de higiene pessoal, deixei tudo para os internos: cortinas, armário, chuveiro, um isopor tamanho gigante, cheio de gelo, água e refrigerantes. O colchão causou problemas, pois era grande e sua passagem pelas escadas do primeiro pavilhão, carregado por Capetinha e mais dois outros internos que resolveram me ajudar chamava atenção e não era só pelo tamanho, pois, enquanto arrumávamos minhas coisas, queimávamos um fumo. Descemos bagunçando e rindo. Mas, antes de sair, me despedi de todos que estavam na galeria naquele momento, e fui dar um abraço em Chico Tonelada. Deixava para trás gente de que jamais esqueceria, alguns que até já tinham morrido, como Jesus, ou fugido, como o Lâmpada e o General. Tinham convivido comigo ali, dia a dia, Capeta, Chaves, Careca, Antônio (cozinheiro dos funcionários), Luiz, Cuca, Peróska, Bigode, Bóris, Monstro e os que foram transferidos com o quarteirão todo cercado por policiais militares, porque a administração teve medo de que reagissem. Pira, meu amigo, que muitas vezes me chamava de irmão e a quem provavelmente devo minha vida, e os outros que com ele foram para a "Especial" naquela tarde alguns meses atrás. Talvez, e eu repito, talvez, se não tivessem transferido esse pessoal, as coisas não tivessem ficado tão feias.

412

Convivi com eles, me respeitaram, confiaram em mim, estivemos juntos no mesmo barco, não me interessa o que fizeram ou por que fizeram, nunca negarei a amizade que tive com eles. Talvez, e novamente repito, talvez, o engenheiro e governador do Rio na época, dr. Leonel Brizola, tivesse razão de chamá-los de guerrilheiros, por causa de suas condições de pobreza e desamparo social. Quem sabe...



Bom... descemos com minhas coisas e me apresentei à inspetoria. Havia mais dois internos que iriam comigo para a mesma penitenciária. Dois guardas deveriam escoltar-nos até a viatura, mas o inspetor achou melhor nos acompanhar, porque o pessoal do camburão era capaz de encrencar por causa de nossa bagagem. Ele tinha razão, o motorista chiou. Disse que o camburão era para transportar presos e não fazer a mudança para eles. Ele estava furioso, pois, além do meu colchão e TV, um dos que também fariam aquela viagem tinha um aparelho de tv que era quase uma tela de cinema, fora a profundidade.

Depois de alguma discussão, o inspetor conseguiu convencer o motorista e a escolta de que, se coubéssemos com todos os pertences, seguiríamos viagem. O camburão atrás é apertado e dividido em duas partes. Fui sozinho, do lado direito, num aperto danado por causa do colchão. Para poder respirar, fui com a cara encostada nos furos da janelinha. Depois que fomos instalados, fecharam a porta e trancaram com cadeado.

Apesar do imenso desconforto e das ameaças de cãimbras, pois estava torcido e encolhido, apreciei a viagem. Fazia quase um ano que não via a rua, e pelos buraquinhos da pequena janela ia acompanhando nas calçadas as pernas das pessoas caminhando. Paramos num farol, pude ver um bar e ouvir seus ruídos de vozes e gargalhadas. Depois, passamos pela ponte e finalmente chegamos. O trajeto deve ter durado uns 25 minutos. Depois da chegada, ficamos no camburão por mais uns trinta minutos, até que conferissem os documentos e dessem a operação por terminada.

16/9/1983. Aqueles minutos de espera foram terríveis, o calor fez meu corpo e minhas roupas ensoparem de suor, não tinha mais como permanecer naquela posição. Não tinha mais nada para olhar, a

413

única coisa que se via por aqueles minúsculos buracos era um pedaço de portão de ferro.



Comecei a pensar na Marilena e na minha família. Eles tinham agido rápido, falaram com o dono de um jornal, amigo da família, e parece que ele telefonou para o governador. Agora estava ali, olhando aquele portão e imaginando o que me esperava do lado de lá.

Finalmente os guardas apareceram e nos ajudaram a descer. Havia muita claridade, demorei um pouco para abrir os olhos de vez. Dava a impressão de que todas as luzes estavam em cima da gente. Reparei que tinha árvores e, para além da rua, um parque. Não pude continuar a olhar, porque começaram a me revistar. O portão, que vi da viatura, tinha mais ou menos seis metros de comprimento por três de altura; no meio, a um palmo do chão, havia uma porta de tamanho normal para passagem de uma pessoa por vez. Depois de revistados, fomos encaminhados para a inspetoria, já dentro do instituto. Encaminharam os outros dois para as galerias e eu fui para a "surda". O inspetor, um senhor idoso com sotaque português e muito educado, pediu desculpas:

— São ordens — disse ele.

Caminhamos uns vinte metros e entramos numa carceragem incrível. Por dentro parecia a nave de uma igreja. Por fora, pela escuridão da noite, não pude ver direito, mas a frente era de grades de uma espessura nunca vista. Para entrar, passamos por uma porta grande e imperceptível naquela escuridão, por ser continuação das grades. Fomos até o último cubículo. Acho que a porta era pesada e de ferro. O interior foi iluminado pela lanterna do inspetor, era uma masmorra grande, imunda e fedida. Dizendo que ia buscar uma vassoura, saiu fechando e trancando a porta, com aquele barulho característico das cadeias. Meu colchão estava de pé, encostado na parede. Eu também permaneci de pé no escuro, quase imóvel, com os ouvidos bem abertos, pronto para me defender de ratazanas e voadoras (baratas grandes).

Depois de uns vinte minutos, ele voltou, trouxe um fio elétrico com uma lâmpada na ponta, uma vassoura e dois colchonetes para pôr meu colchão em cima. Não esperava essa delicadeza dele e agradeci muito. Com seu sotaque carregado...

— A gente faz o que pode.

Ajeitei-me ali como pude, pois a lâmpada além de fraca tinha o fio em péssimo estado, que a fazia piscar o tempo todo. O lugar era sinistro,

414


tinha o formato de uma capela, com o teto alto e oval. A janela era pequena e, para atingi-la, só subindo uma rampa. Depois de varrer um pouco, estendi o colchão em cima dos colchonetes, me deitei e apaguei por muitas horas. Estava exausto por ter passado dias tão tensos e angustiantes. A partir das seis da manhã, percebi que me olhavam por uma abertura na porta, que em vez de portinhola como as outras, tinha uma cobertura móvel por fora, que era levantada toda vez que alguém quisesse. Era só levantar a proteção, olhar, que, ao sair, a proteção caía de volta. Muitos olharam, acho que oitenta por cento dos internos fizeram isso, por cinco dias.

Até acordar de vez, fiquei de costas para aquela porta, sem me importar com nada. Só acordei quando um guarda veio trazer café e pão. Pedi que me comprasse água, bolachas, chocolates, balas e cigarros. Ele me olhou curioso, mas atendeu ao meu pedido. Assim que ele saiu, encostou um interno que trazia uma garrafa térmica com café; esperou o guarda voltar com minhas encomendas e me entregou a garrafa.

— Lembra de mim? Estivemos juntos em 1977, em Edgard Costa. Era um mulato enorme, da minha altura, só que com 120 quilos mais ou menos. Tranqüilo, com um sorriso largo e resignado.

— Já sei que vai para a minha galeria, qualquer coisa mande me chamar.

Era incrível, mais uma vez encontrava solidariedade onde menos esperava. Eu não me lembrava daquele camarada; segundo ele me confirmou dias depois, quando estivemos juntos seis anos antes, ele era bem menor. Mais ou menos dois anos depois, na época em que saí albergado, ele continuava lá, pois seu crime era grave, tinha matado um juiz num assalto. Sujeito quieto, não fazia política, mas quando dava opinião era atendido por todos. Orlandão, assim o chamavam. Não sei como se virava, pois tinha mulher e muitos filhos. Família que conseguiu na cadeia. Lá trabalhava na alfaiataria.

Continuei exposto à curiosidade dos internos por cinco dias. Que coisa mais desagradável, podia estar tomando banho ou sentado no vaso sanitário; e eles vinham olhar. Não estava na "surda" de castigo, e sim para ser olhado. Era uma maneira que a administração tinha de saber se o preso tinha inimigos. Se o interno olhasse e tivesse medo de quem estivesse ali, ou precisasse matá-lo para continuar vivo, iria à direção e contava. Nesses casos, um dos dois era transferido.




1   ...   27   28   29   30   31   32   33   34   ...   37


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal