O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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2/8/1983. Como toda manhã, levantei cedo e fui para o orelhão falar com Marilena. Naqueles dias de fossa, descia me preparando para falar com ela alegre e brincalhão. Ela já tinha problemas, não ia preocupá-la mais ainda.

Depois de conversarmos como todos os dias, subi para a galeria. Ia subindo as escadas e prestando atenção nos presos, nas suas feições tristes e aparvalhadas, de caneca na mão, a caminho do refeitório para o café-da-manhã.

Aquilo acontecia todos os dias, era como gado indo para o cocho. Depois do café eles iam para os pátios, à espera de alguma movimentação. Como a lep estava arrombada, saqueada e desativada, não tinham nada para fazer. Eu assistia àquilo deprimido. Nesse dia peguei o bloco decidido a escrever, nem que fosse tudo a esmo e sem sentido. Havia um

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cheiro gostoso de café que Capeta tinha acabado de trazer da cantina. Resolvi escrever para Marilena.

"Assim, sem mais nem menos, quero dizer que te amo. E um dia, ao sol forte, deitado em teu corpo, ficarei tão quente, que derretido te invadirei para aquecer teu coração, beijando-o com a força de todo o universo num orgasmo de felicidade. E então, ao voltar, caminharemos até o mar, para que eu te beije, Marilena, e juntos sorriremos com alegria."

Acabei de escrever isso e olhei para as grades de minha janela. Levantei-me e fui até lá olhar o relógio da Central do Brasil. Depois, ficando na ponta dos pés e olhando para baixo, encontrei como sempre o telhado do hospital penitenciário. Fiquei mais deprimido ainda. Eu tinha de dar um jeito de sair desse humor. Tinha de sair e andar por tudo. De calção e peito nu, para sentir a vibração, mesmo que fosse a do inferno. Mas, em vez disso, vesti camiseta ejeans e fui para a vigilância.

5/8/1983. Hoje apartei uma briga ridícula entre dois "vacilões". Estava me preparando para bater paredão quando percebi uma discussão entre dois internos que estavam remexendo areia e cimento para um pequeno conserto no muro. Um carregava uma lata de vinte litros, e o outro remexia o cimento com uma enxada. Como eram dois coitados, me aproximei para assistir ao bate-boca. O que estava com a enxada aparentava calma, xingando o outro de "vacilão do caralho". Avançou sem muito apetite, com a ferramenta levantada em direção ao desafeto. Eu estava perto, me aproximei calmamente, estiquei o braço e tirei a enxada de suas mãos. O vigia da guarita olhava tudo sacudindo a cabeça e rindo. Outros internos se aproximaram dando bronca nos dois, e eu me afastei rumo à cantina, largando a enxada no monte de areia. "Que bom se todos os problemas daqui fossem entre bundões", pensei me sentindo o próprio machão.

7/8/1983. Domingo. Adivinha se a água chegou depois que a visita íntima terminou. Que recalque. Nós pagamos com falta de água no parlatório pelo que os internos, aí do lado, fizeram às seis e meia da manhã.

Com um refém, oito internos armados com dois revólveres e estoques, renderam duas portarias e ainda roubaram as armas da última. Zoaram, arrombaram o cofre de armas e foram passear. Houve tiroteio, o alarme soou. Pelo que ficamos sabendo ninguém se feriu. Esses caras são corajosos, saíram para o tudo ou nada, que se danasse a vida, que se danasse o mundo. Saíram saindo.

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Do lado de cá, apesar de termos ouvido os tiros e o alarme de fuga, tudo permaneceu calmo. É claro que não demonstrávamos "tristeza" pelo sucesso da fuga. Às onze horas nossas mulheres chegaram, e cinco minutos depois a água foi cortada. É... o Pira faz uma falta danada.



Marilena chegou brava, tinha discutido com papai antes de sair da casa de Maria Zélia e, quando a água acabou, ela começou a rir. Percebeu que não adiantava continuar com aquele clima e descontraiu. Sabia que aos domingos eu triplicava o estoque de água mineral. Afinal, alguma coisa eu já tinha aprendido. Quando descemos, às dezesseis horas, fui surpreendido com a presença do Chiquito e do Grandão. Que alegria. O astral daqueles dois sempre me fazia bem. Grandão tinha novidades. Tinha se casado com a amiga da Ângela que andava flertando com ele desde os fins de semana na fazenda. Segundo ele, ela não está com raiva de mim.

8/8/1983. Os boatos de que Pira estava se preparando para pular o muro e atacar algumas lideranças e os guardas eram constantes. Eu sei, de fonte limpa, que há dois ônibus "coração de mãe" esperando para levar o pessoal daqui e dali do lado até a barcaça que vai para a Ilha. Os diretores estão espertos, será que estão desconfiados? O diretor daqui fez uma ameaça muito séria: se houver fugas com violência, autorizará a entrada da Polícia Militar.

É estranha essa ameaça, porque até o momento as fugas daqui foram sem nenhuma violência. Ao contrário, os presos têm desaparecido no ar. Aparentemente o diretor está contente, pois nunca tivemos tantas "dormidas". No próximo sábado tem mais uma.



15/8/1983. Esperei tanto essa "dormida", que duas horas antes de Marilena chegar peguei a maior gripe da história. Tremia tanto que parecia que estava com maleita. Novamente Marilena tratou de mim. Na outra gripe eu estive péssimo, nesta, pensei que ia morrer. Doía tudo, até os fios do cabelo. O remédio foi o mesmo: chá e aspirina. Molhei a cama, o colchão e a Marilena.

19/8/1983. A semana foi movimentada, pelo menos para a administração. Na terça-feira, descobriram um buraco que chegaria à rua. Na hora em que foi descoberto havia quatro internos lá, trabalhando. Esse fato deixou a cadeia muito mais eriçada. Ninguém tinha dúvida de que alguém tinha cagüetado. Logo depois que acharam o buraco, trancaram a gente por mais de três horas. Depois, fizeram um "confere" e, em seguida, uma "geral" minuciosa.

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22/8/1983. Desconfiança é o que se respira aqui, desde a tentativa frustrada de fazer um buraco até a rua. Os líderes desconfiam de todo mundo. O pior é que desconfiam de um interno que está ocupando um cubículo perto do meu. É um falsário famoso. Tem várias fugas do sistema e tem uma peculiaridade: nem os guardas nem os internos gostam dele. Seu nome é Jeffrey: altura mediana, 1m 70 de altura, tez clara e olhos azuis. Muito educado. Fico preocupado porque ele me procura muito e gosta de conversar comigo. Já me avisaram que ele é a bola da vez e eu também já o avisei. Não acredito que tenha sido ele o delator.

Para agradar alguns líderes, ele falsificou seis atestados de saúde e ordens de freqüentar a galeria de parlatório. Como houve muitas entradas e saídas de internos ultimamente, havia vários documentos iguais a esses na mesa da moça do serviço social. Os internos conseguiram colocar os falsos no meio dos originais. Os atestados e autorizações eram tão perfeitos que passaram batido, e ele ganhou mais um tempo de vida... não muito. Avisou-me que iria fugir com um documento de transferência para uma prisão-albergue. Essas transferências eram feitas no fim da tarde, depois do expediente. Eram ordens de transferência assinadas pelo juiz da Vara de Execuções. Segundo ele, o documento estava perfeito, papel, assinatura, carimbos e tudo o mais. Só precisava dar um jeito de colocá-lo junto com os documentos que vinham da Vara de Execuções e iam direto para a mesa do inspetor, que conferia e cumpria as ordens. Ao se despedir me contou que, uma semana depois, conseguiu com o agente penitenciário que ia todas as tardes ao fórum buscar documentos, que colocasse a transferência falsa no meio das outras. No final da tarde, em um dia de grande expectativa e torcida, inclusive minha, ele foi ao meu cubículo se despedir. O guarda que foi buscá-lo ainda ficou atropelando:

— Vamos, não tenho tempo a perder.

Foi para uma prisão-albergue em Niterói, onde eu estive três anos depois. Lá, ninguém toma conta da portaria, os guardas ficam na inspetoria e só controlam horários de entrada e saída. Nunca mais o vi, mas falei com ele por telefone numa noite, quando eu já estava "albergado". Já estava lá havia alguns meses e tinha passado o dia fora. Eu estava assinando o retorno, quando o telefone da inspetoria tocou e o inspetor me passou o telefone, sorrindo e chamando minha atenção:

— Não dê mais o telefone daqui para as moças.

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Atendi e uma voz de mulher disse:

— Oi.


Depois, já era ele se identificando e dizendo que entenderia se eu, ao desligar, dissesse "até qualquer dia", o que queria dizer que preferia tocar minha vida para a frente sem me relacionar com o passado carcerário. Batemos um papo cuidadoso, porque me encontrava na inspetoria, nos desejamos boa sorte e, ao me despedir, usei a "senha".

Nos tempos em que ele vivia aflito porque tinha de fugir para não morrer, e tinha seu cubículo perto do meu, ia à noite assistir à televisão comigo. Conversamos muito, era um cara divertido. Contou muitos casos de golpes que dera por esse Brasil afora. Inclusive um no Rio de Janeiro. Um apartamento em Copacabana que conseguira alugar. Depois de morar lá por algum tempo, anunciou-o: "Vende-se urgente, motivo de viagem e doença". Vendeu-o montando certidões negativas e livro de escrituras falso. Simulou estar doente e ter de viver na Itália, perto dos filhos. Um suposto escrivão passou a escritura no próprio local. É claro que o preço era tão bom que o comprador estava aflito para fechar o negócio. Aquele era um momento muito perigoso nas prisões do Rio de Janeiro. Com o grande número de transferências e misturas de falanges, as prisões se tornaram um ninho de inimigos. Houve tentativa de acordos. Uma falange explorava os jogos, a outra o tráfico. Mas a Falange Jacaré estava mais forte. Polaco, Pele e seu irmão Ratazana dominavam tudo e não dividiam nada. Assistiam ao Cavalo (esse apelido vinha de Cavalo Mecânico, pelo seu tamanho), Zé Cigano e outros que sobraram da Falange Vermelha se movimentarem acesos, espertos e, ao mesmo tempo, cuidadosos, pois tinha gente nova na galeria. Uma tarde, conversando com Chico Tonelada em seu cubículo, perguntei se ele sabia como andavam as coisas. Me olhou com aquele jeito calmo dele...

— Sinceramente, tenho até medo de saber, eles que se entendam, quero estar em paz com todo mundo.

Estar preso, ser um peixe fora d'água, assistir àquilo tudo e ainda olhar para o futuro... era difícil... desesperador. Tinha me metido numa armadilha sem saída. Pelo menos a curto prazo. Precisava superar o medo, ter paciência e resignação. Resignação... nunca pensei que isso passasse pela minha mente. Quantas vezes, sentado na minha cama, com as mãos segurando a cabeça, os cotovelos no joelho, olhava as lágrimas se esborrifarem no chão e me xingava: burro, babaca, filhinho de papai, idiota, otário.

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Hoje, chegaram de volta os presos que, algum tempo atrás, tinham vindo do Água Santa e não quiseram ficar.



Não sei, não... mais um grupinho e mais uma liderança. Dois foram para a quarta galeria, um deles para o cubículo que era do Jeffrey (que anteriormente foi do Professor). Pelo que fiquei sabendo, a presença deles em nossa galeria é loucura total. Porra, será que não vou ter sossego? Antes era o Jeffrey, que cismavam que era alcagüete, agora é mistura de falanges na mesma galeria. O que será isso? Um complô para que haja conflito?

25/8/1983. A esperança de anular o último julgamento está cada vez mais longe. Descobri que o recurso ainda não tinha ido para Brasília. Estava em algum lugar do fórum, aqui no Rio, esperando não sei o quê... eu morrer provavelmente. Já estou aqui há onze meses e, quando vim para cá, essa porra desse recurso, pelo menos segundo os advogados, estava pronto e a caminho.

31/8/1983. No sábado, a família inteira esteve aqui. Mamãe, papai, Caco, Raul e, claro, Marilena. Foi bom estar com eles. Fiquei orgulhoso de ver meu filho, bonito, forte e confiante. O Exército tem feito bem a ele. Quanto ao resto...

A Polônia não paga ao Brasil; segundo o jornal, houve treta nos negócios das polonetas. Irã e Iraque não se agüentam mais, mas continuam em guerra. A América Latina está falida, a Rússia derrubou um avião de passageiros que invadiu sem querer seu espaço aéreo. Eu não tenho nada com isso, porra... preciso sair daqui.

É... não adianta espernear, vou passar o verão aqui. E quantos mais passarei?

4/9/1983. Vejo o Gangorra empurrar a cortina da porta, é o ajudante do Hugo (da cantina). Entra e começa a reabastecer o isopor. Enquanto faz isso comentamos os acontecimentos de ontem, as três mortes e os quatro feridos no pp daí do lado. Depois de ajeitar gelo, garrafas e latas, sai dizendo...

— Cadeia é isso mesmo, é só maldade.

Continuei sentado, pensando nos últimos dias. A escapada inteligente de Jeffrey e esses acontecimentos aí do vizinho refletiram direto em todo o conjunto penitenciário Frei Caneca, principalmente na animosidade entre presos e guardas.

Ontem, pouco antes de as visitas entrarem, tocaram o alarme de fuga com violência. Deram tiros de vários calibres. Empurraram as visitas

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que estavam esperando na fila, que ficaram superassustadas. Foram muito esquisitos o alarme e os tiros, porque pouco depois o guarda que tocou o alarme declarou que foi engano, que não havia fuga. Essa declaração causou indignação geral, o inspetor ficou louco da vida e encaminhou ao diretor um relatório. Segundo se comenta entre os internos, a Polícia Militar está forçando a barra para entrar e pegar o pessoal das falanges.



Apesar de tudo, depois do tumulto a visita transcorreu em paz. Mas, assim que as famílias se retiraram, o ambiente ficou carregado novamente.

Com esse tipo de alarme e as mortes aí do lado, a cadeia ficou em polvorosa. Há muitos pedidos de transferência, estamos todos querendo sair daqui. Alguns preferem sair com a adrenalina no máximo, como os três que saíram hoje de manhã, evaporando no ar. Graças a isso estamos sofrendo uma "revista geral" minuciosa, que já dura mais de duas horas. Além de procurar cafofos no chão e nas paredes, com os bastões de ferro, batem também nas grades das janelas para ver se estão serradas. É... vagabundo é esperto, serra as grades e as coloca de volta direitinho. Os guardas estão desconfiados de que os três que fugiram saíram pela janela em uma teresa. Há que tirar o chapéu para esses camaradas.



8/9/1983. Nossa, a coisa está brava, estão se preparando para a guerra. Aparentemente está tudo em ordem, até bolas de futebol apareceram e, nos dois pátios, as peladas recomeçaram. Mas todos sabemos que de uma hora para a outra vai explodir tudo, estamos todos com os olhos bem abertos. Já mandei para a Vara de Execuções três requerimentos pedindo transferência para o Instituto Penitenciário Ferreira Neto, em Niterói. Agora há pouco, antes de começarem o "confere", ficou tudo escuro. Os guardas se assustaram, houve um silêncio pavoroso. Olhei pela janela e as luzes da vizinhança também estavam apagadas, o que me deixou mais tranqüilo. Aos poucos, os sons peculiares da Lemos de Brito foram voltando ao normal e depois de algum tempo a luz também voltou.

12/9/1983. Nesta madrugada, os guardas e a Polícia Militar começaram a bater em nossas portas com cassetetes. Todos tivemos de sair para a galeria. Ficamos escoltados por uns quarenta policiais militares, enquanto os guardas reviravam tudo. Acho que estão achando a mesma coisa que eu, que algo sério está para acontecer.

A "geral" foi demorada e por causa disso eu tinha decidido dormir até mais tarde. Não sei o que deu em mim, que não conseguia parar na cama. Tomei um banho e me vesti, iria ligar para Marilena e ir para a

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vigilância. Capetinha apareceu, tinha na mão a Última Hora, que trazia a foto do Nézão e do Monstro. Andava com o saco tão cheio que nem me interessei em ler a reportagem, não agüentava mais tudo aquilo... Vivia lá e ainda ia ler a respeito? Saturado daquilo tudo, engoli um café da noite anterior e desci, acompanhado do Capeta. Ele ia comentando que eu vivia nos jornais, que o pessoal da pesada também aparecia de vez em quando.



— Eu já entrei em cana várias vezes e nunca tiraram uma foto minha. Só ele para me fazer rir naquele dia. Quando chegamos embaixo, ele foi para o refeitório dos funcionários, e eu, para os orelhões. Estranhei que não havia muita gente e em pouco tempo consegui falar.

Desliguei logo e me virei para ir até a seção. Um companheiro que também trabalhava lá — o Luiz — apareceu (aquele que no primeiro dia me escoltou até um cubículo com dois caras que queriam que eu me associasse numa compra grande de maconha). Ele estava branco, me pediu um cigarro. Tremia tanto, que perguntei se ele estava passando mal. Respondeu tentando acender o cigarro, seu olhar era de quem estava muito assustado.

— Está havendo um tiroteio na quarta galeria.

Assustei-me e olhei em volta. Dois guardas apareceram e mandaram a gente ir para a seção e não sair de lá. Ouvi os primeiros tiros. Meu companheiro apavorado estava pregado no chão. Peguei-o pelo braço e arrastei-o para a vigilância. O chefe, que estava saindo apressado, mandou a gente ficar com a porta fechada, mas sem trancá-la. Fora os "faxinas" de lá, estavam ali refugiados mais uns cinco internos de outras seções. Ouvi mais alguns tiros e a correria da Polícia Militar invadindo. A porta foi aberta e mais dois internos entraram. Nesse momento pude ver um companheiro da quarta galeria passar cercado de policiais militares. Tive a impressão de que ele estava se arrastando. Não o conhecia bem, era um dos que tinham acabado de chegar. (Mais tarde, quando o encontrei duas semanas depois, ele estava todo machucado de tanto apanhar.) Ficamos ali fechados, ouvindo tiros, correrias e berros por um bom tempo. Meu companheiro continuava tremendo, parecia rezar. Aproximei-me dele para ouvir o que balbuciava...

— Eles vão me matar... vão entrar e matar a gente.

De repente, a porta foi aberta por um funcionário de outra seção, ele chamou um dos comandantes da pm e explicou que éramos "faxinas", que não se preocupassem com a gente.

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Depois disso, quietos e muito atentos, começamos a ouvir tiros de escopetas. Parte do pessoal entrou em pânico; apavorados, queriam fazer uma barricada. Todos estávamos com muito medo, e meus companheiros, desorientados a meu ver, iam fazer uma grande bobagem. Resolvi que precisava intervir e explicar a besteira que estavam por fazer. Fiquei na frente da porta, levantei os braços e em voz alta pedi que me ouvissem. Precisavam compreender que, até aquele momento, eles (os policiais e funcionários) não tinham nada contra nós e se fizéssemos uma barricada poderíamos ser mal interpretados. Os companheiros tinham medo e com razão. Em uma invasão há alguns anos, policiais mataram inocentes que eram parecidos com um dos chefes de quadrilha. Quer dizer, por via das dúvidas, os que eram parecidos também morreram. Antes que tomassem uma decisão (se fariam ou não uma barricada), a porta foi aberta completamente e o chefe de segurança apareceu. Atrás dele se via uma quantidade enorme de pms. Era de se supor que eles aguardavam ordens, pois eu sabia que os pátios, pavilhões e galerias já estavam ocupados por policiais militares havia algum tempo.



Mandaram que saíssemos em fila indiana e nos encaminhássemos para o refeitório. O corredor por onde passávamos era parede de um lado e pms portando metralhadoras e escopetas do outro. Quando deixamos para trás os escritórios e entramos nas dependências da carceragem, atingimos o pátio 1. Daí em diante, o corredor era de pms dos dois lados, até a entrada do refeitório. O dia estava escuro e chovia fino. Enquanto passava por eles, olhei algumas vezes para o pátio à minha direita e vi os internos que estavam nas galerias e nos pátios na hora do tiroteio, deitados, nus, com policiais armados tomando conta. Um helicóptero voava a cinco ou dez metros acima dos telhados, fazendo um ruído e um vento pavorosos. Vi Chico Tonelada nu, tomando chuva. Tirei minha camisa e joguei para ele. Para não dizer que o pm da minha frente não teve a menor reação... quando viu os cabelos brancos do Chico e o seu corpo frágil, balançou a cabeça positivamente. O último dos pms do corredor em que estávamos passando era um sargento enorme, com um megafone na mão. Não o usou uma vez sequer.

Assim que entramos no refeitório, nos revistaram. Para fazer isso, mandaram que tirássemos as calças e as cuecas e levantássemos os braços. Como eu tinha dado minha camisa para o Chico, fiquei por algum momento pelado. Depois de revistados, ficamos ali juntos com

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os "faxinas" das outras seções, por uma hora mais ou menos (já vestidos, é claro).



Fecharam a porta e nos deixaram sozinhos, sem ninguém tomando conta. Só então fiquei sabendo das mortes. Segundo os comentários, onze tinham morrido, três só na minha galeria.

(Naquele instante, raciocinando a respeito, acreditava que os policiais não tinham tido muito trabalho para acabar com aquela guerra. Quando eles entraram, já estava tudo terminado. Quem tinha de morrer, já estava morto. Era bem provável que os tiros tenham sido para cima. Será que se aproveitaram da situação e mataram alguns internos?)

O refeitório tinha janelas que davam para o pátio da cantina. Na parede em frente, do outro lado, havia uma abertura como se fosse uma janela, de dois por dois metros que dava para a cozinha. Era fechada com portas de correr. Capetinha, que conversava comigo, me avisou:

— Conseguiram abrir um vão para a cozinha e estão distribuindo pão.

No início eu achei aquilo loucura, mas Capeta dizia, rindo:

— Hoje não teve "rancho" pra ninguém, vou buscar pão pra gente, essa comida é nossa mesmo.

Com a fome que eu estava, aquele pão vinha em boa hora.

Ficamos ali até aparecer o chefe de segurança. Ele entrou e mandou que fizéssemos fila novamente. Era para subirmos para as galerias e abrir as portas de nossos cubículos. Avisou que alguns cadeados tinham sido arrombados e saiu, fechando a porta. Poucos minutos depois, policiais abriram a porta e começamos a subir para as galerias. Passávamos o tempo todo por corredores de policiais. Na escada para a quarta galeria subiram poucos e chegamos inteiros a nossos cubículos. Na porta do meu havia um rio de sangue. Para entrar tive de caminhar pisando naquilo. Era do morador do cubículo 33, que tinha acabado de chegar e, pelo jeito, pertencia à Falange Jacaré.

Meu cadeado estava arrombado, a porta escancarada, o chão todo carimbado de botas que tinham passado pelo sangue. O espelho que Jesus tinha me dado estava arrebentado. O chefe de segurança me pediu para entrar e conferir se faltava alguma coisa. Entrei carimbando mais ainda o chão, agora com o sangue da sola dos meus sapatos.

— Não falta nada, só quebraram o espelho.

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Eu conhecia bem o Norberto (chefe da segurança), estava lá desde minha chegada. Só que naquela época era chefe da disciplina. Olhando-me, disse:



— Não arrebentaram sua tv porque cheguei a tempo.

Era um sujeito educado, alto e bem afeiçoado. Dava-me bem com ele. Só por isso perguntei indignado.

— Por que arrombaram algumas portas, quebraram nossas coisas e, muito pior, mataram alguns internos?

Ele balançou a cabeça.

— A Polícia não matou ninguém. Quanto ao resto, são coisas do momento, e vocês pediram isso.

Depois, mandou que eu descesse e me juntasse aos demais no auditório. Desci passando novamente pelo corredor polonês, de novo sem ninguém encostar em mim. Fui direto para o auditório, que já estava quase lotado. Um PM mandou que eu me sentasse perto da porta de saída, ali tinha alguns espaços em branco que eram preenchidos por quem ia chegando. Fora os "faxinas", todos ainda estavam nus. O companheiro ao meu lado me contou que tinham ficado no pátio nus, embaixo de chuva e do vento do helicóptero, durante todo o tempo que a polícia revistou as galerias e cubículos. Não conseguiu me passar mais informações, porque um policial à paisana, com um megafone na mão, mandou que entrássemos em fila e nos encaminhássemos para o rancho 1 (refeitório), onde seria servido um lanche.




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