O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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Dei a entrevista, mais ou menos igual à que dera à Manchete.

Na época, pessoas que se diziam jornalistas tinham telefonado para minha cunhada, querendo saber aonde meu irmão tinha ido. Se ela não colaborasse, os filhos, que estavam na escola, poderiam se machucar. Após esse telefonema, ela foi imediatamente buscar os filhos no Colégio Dante Alighieri e ficou trancada com eles em casa até meu irmão voltar.

Quando chegamos à clínica, o diretor nos esperava. Olhei para aquele senhor e me assustei... achei que ele não era confiável e disse isso para o meu irmão. Ele respondeu que era impressão minha.

Depois de uma breve conversa, Luiz Carlos partiu e me levaram para um quarto, onde me aplicaram uma injeção que me fez dormir por algum tempo.

Como eu tinha chegado à clínica muito mal, achei que a medicação era para melhorar meu ânimo. Quando acordei, alguns minutos, ou horas, depois, me lembrei imediatamente de tudo, e por isso não fiquei assustado nem me senti desconfortável. Estava de barriga para cima e, quando tentei me virar, não consegui. Sentia-me completamente imobilizado, preso dentro de mim. Não sei explicar o que senti. Fiquei apavorado, entendi o que estava acontecendo e não podia mudar de posição. Bem que eu não tinha gostado da cara daquele diretor.

Estava pensando nisso quando três ou quatro pessoas entraram no quarto.

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- Somos da polícia, o senhor está preso. Levante-se que vamos levá-lo ao aeroporto, o senhor vai para o Rio.



Eu, é claro, não me mexi. O policial não teve tempo de dizer ou fazer mais nada. Logo chegou o diretor da clínica, que se apressou em explicar que eu estava sedado e sem movimentos por pelo menos mais duas horas. Os policiais ficaram horrorizados com aquilo. O diretor tomou a maior bronca.

Esses policiais foram educados, cuidadosos, ficaram comigo até eu me recuperar. Enquanto isso, um deles me dizia que eu não seria maltratado, que no aeroporto me entregariam para a Polícia Federal e então me transportariam em segurança. Demorou para eu recuperar os movimentos, mas de pé não conseguia ficar. Quando tiveram certeza de que eu não tinha nenhum problema e podia ser removido, os policiais me ajudaram com minhas roupas, me algemaram e me carregaram para o carro.

Chegando ao aeroporto, fui carregado outra vez, e um pelotão de policiais fez uma verdadeira muralha para evitar o olhar dos curiosos. Puseram-me no chão, em algum lugar perto da porta de saída para a pista. Como eu estava completamente sonolento, deitei no chão e não me importei com nada. O policial que conversou comigo na clínica me orientou a, além de ficar deitado, fechar os olhos, já que era impossível evitar o pessoal da imprensa. Não só obedeci como tirei um cochilo. Em seguida, percebi que me carregavam novamente. Fui levado até um jatinho, onde fui entregue a outros policiais. Minutos depois, decolamos em direção ao Rio de Janeiro.

Antes de entrar no avião, pedi que ligassem para meus familiares e lhes contassem os últimos acontecimentos. Sei que fizeram isso porque, quando cheguei ao Departamento de Polícia do Interior (DPI) de Niterói, o delegado avisou que meu advogado chegaria a qualquer momento.

Não sei se os policiais paulistas contaram aos colegas cariocas que eu vinha de uma clínica e estava dopado. Mas me lembro que me deixaram em paz. Eles eram mais descontraídos que os paulistas, ficaram toda a curta viagem brincando entre si. A certa altura, sobrou para mim:

— Ouvimos dizer que você transa com todas as mulheres, como é que é isso? Conta pra gente, naquela noite vocês cheiraram muito?

Percebi naquele momento que estavam fazendo o trabalho deles, queriam que eu abrisse a guarda. Respondi que não, apenas tinha acontecido

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uma briga violenta.



A chegada ao Rio foi uma repetição de São Paulo: fiquei cercado por policiais, que procuravam impedir que a imprensa se aproximasse. Novamente me sentei num canto enquanto esperava o camburão. Como estavam algemados desde que eu tinha saído da clínica, meus braços e punhos doíam. Os policiais não fizeram isso por maldade, e sim porque não queriam que a imprensa noticiasse que o "playboy Doca Street tinha privilégios". Tivemos dificuldade para chegar ao camburão, tamanha era a multidão. Depois que conseguiram me colocar no carro, saímos em disparada para Niterói, para o DPI. Chegando lá, fui levado até a sala do diretor.

Não me lembro dele, só que era moço. Mandou que tirassem as algemas e fez sinal para que eu me sentasse em frente à sua escrivaninha. Autorizou-me a fumar, mandou trazerem água e começamos a conversar. Falou que o dr. Paulo José da Costa Jr., meu advogado, tinha ligado do aeroporto e logo chegaria. Chamou os policiais que me trouxeram, e todos começaram a conversar sobre o crime que eu havia cometido dezessete dias antes. De vez em quando saía:

— Fala a verdade, quando você atirou, vocês estavam loucões, tinha muita coca, né?

Como o dr. Paulo não chegava, o diretor e os agentes do DPI continuaram conversando comigo. De vez em quando, "brincando", me faziam algumas perguntas. Se eu não estivesse atento, poderia contar alguma coisa que mais tarde poderiam usar em seus relatórios.

Ainda estava sonolento por causa da injeção que tinham me aplicado na clínica. Ouvia aquela conversa toda sem me importar se eles estavam interessados em descobrir alguma coisa que me incriminasse. Apenas balançava a cabeça de vez em quando, concordando ou não.

Acho que o diretor estranhou minha atitude, porque de repente ele parou e mandou chamar um médico. Imagino que seu consultório era perto, pois não demorou para chegar. Examinou-me, minha pressão estava a 22 por sei lá o quê. Medicou-me e aconselhou que me deixassem descansar.

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O dr. Paulo chegou algum tempo depois. Cederam-nos uma sala para que tivéssemos mais privacidade. Ele me avisou que, no dia seguinte, na primeira hora, iriam me transportar para Cabo Frio. Se ele não chegasse a tempo, não deveria me preocupar, era só dizer à promotora e ao delegado que só faria declarações ao juiz. Garantiu que eu tinha o direito de agir assim.



Voltamos para a sala do diretor, e a conversa em tom de brincadeira continuou:

— Dr. Paulo, seu cliente não se abre com ninguém.

Dr. Paulo respondeu, também em tom de brincadeira, se despediu e voltou para São Paulo. Antes que saísse, pedi que avisasse ao diretor que eu usava um remédio chamado Privina e que sem ele não conseguia respirar. Ficou acertado que de quatro em quatro horas o carcereiro me traria o remédio. Essa providência provocou nova onda de risadas e provocações da parte dos policiais:

— E você ainda fala que não usa pó.

Depois de mais um pouco de conversa fiada, me anunciaram que sairíamos cedo para Cabo Frio. Eu deveria estar pronto, porque tínhamos que sair assim que a escolta estivesse pronta. Fiquei assustado:

— Escolta! Pra quê? Eles riram e disseram:

— Amanhã você vai ver.

Chamaram o carcereiro, que me acompanhou até a cela. Que lugar sinistro... o pé-direito era muito alto, e a sala devia ter mais ou menos três metros quadrados, com uma minúscula janela com grades a dois palmos do teto. Era impossível subir e tentar olhar o lado de fora. Num canto havia um "boi", buraco no chão para fazer as necessidades, e, em cima do boi, a mais ou menos um metro e oitenta do chão, um cano e uma torneira para o banho.

O carcereiro avisou que a luz ficaria acesa o tempo todo. Revistou-me, ficou com o remédio e o cinto. Deixou só o dinheiro que tinha no bolso.-Em seguida saiu e trancou a porta de ferro, mas antes disse que em poucos minutos traria o jantar. Voltou depois de algum tempo, com o jantar e a Privina.

— Fica com esse remédio, eu não quero ter que acordar de madrugada. Se precisar de alguma coisa, chute a porta.

Nunca esquecerei aquela refeição. Não comia nada desde que entrara naquela maldita clínica. Comi tudo e tomei quase toda a água que

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ele havia deixado. Só não tomei tudo porque lembrei que o carcereiro não estava a fim de voltar durante a madrugada.



Fiquei ali sentado no chão daquela cela, pensando no que teria acontecido com a promessa que o secretário de Segurança de São Paulo tinha feito ao meu irmão. O combinado era que eu ficaria na clínica por quatro dias, e só depois é que a polícia deveria aparecer. No fundo, achava que havia sido melhor assim, pois continuar a fugir e a esconder-me era pior. Tinha feito uma cagada, não dava para voltar atrás. Arrasado como eu estava, o melhor era enfrentar a situação.

A minha cabeça estava a mil. Misturava o secretário de Segurança, a escolta, as declarações do delegado de Cabo Frio, mamãe, Ângela, sua família... e eu ali sentado naquele poço. No fundo dele. Nunca pensei que ficaria tão ansioso para chegar logo a hora de partir para Cabo Frio.

FIQUEI ANDANDO NA CELA POR ALGUM TEMPO. NÃO TINHA VONTADE de sentar no chão e muito menos de deitar. Andei, andei e andei até não agüentar mais, então me sentei de costas para a parede, bem debaixo da janela, de frente para a porta. Foi quando ouvi o barulho do ferrolho, e a porta abriu. Fiquei preocupado que fosse algum recém-enquadrado que passaria a noite ali também. Mas era o carcereiro, que trazia um colchonete e uma coberta. Antes de sair contou que a rua estava cheia de gente, na maior parte jornalistas.

— Tente dormir que o dia de amanhã vai ser puxado.

Apesar de exausto, só consegui ficar deitado. Dormir era impossível, não parava de pensar, aquilo tudo me excitava. Tinha acontecido muita coisa. Menos de 24 horas antes estava em um pesqueiro em Mococa, onde tinha acabado de dar uma entrevista, em seguida na clínica e agora ali, tentando descansar. Quando amanheceu, um dos policiais que me trouxeram de São Paulo entrou na cela. Queria saber se eu daria entrevista pouco antes de sairmos para Cabo Frio. Disse que não, porque achava que podia me prejudicar ainda mais. Ele então me entregou um papel com algumas perguntas de um dos jornalistas e saiu.

Não li o papel, amassei e joguei no boi. Conforme as instruções do carcereiro, tinha que chutar a porta para chamá-lo. Fiz isso, e funcionou: assim que chutei alguém apareceu, só que era outro carcereiro. Perguntei

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se ele poderia comprar escova de dentes, pasta, leite, pão e manteiga. Pouco depois estava tudo lá. Enquanto eu tomava café, ele ficou conversando comigo:



— Nunca vi tamanha multidão de jornalistas e de gente da tv para ver uma pessoa. Que confusão você arrumou!

Depois do café, tomei banho e fiz a barba. Não fazia isso desde que saíra de Mococa. A certa altura vieram me buscar. Fui algemado, e o diretor do DPI me acompanhou até o carro em que eu seria transportado. Era uma perua Chevrolet, dessas grandes. Sentei atrás, entre o diretor e um policial. Na frente iam mais dois, e atrás da viatura uma escolta de mais três carros lotados de policiais. Quando saímos, vi que realmente havia uma multidão de jornalistas. Apesar da claridade do dia, lembro-me de uma centena de flashes. Passamos direto e pouco tempo depois estávamos na estrada. Éramos nós, os carros da escolta e não sei quantos carros da imprensa.

Estava arrasado, muitas vezes tinha feito aquele caminho com Ângela, momentos que tínhamos curtido tanto...

Os policiais iam conversando animadamente, comentando a repercussão que o caso estava tendo. Senti vontade de urinar e pedi que parassem o carro. Quando desci, os jornalistas atacaram com fotos e perguntas. Fiquei imóvel, olhando para baixo, sem falar nada. Os policiais deram uma bronca:

— Pô, será que o homem não pode nem mijar sossegado?

O pessoal se afastou, e eu saí um pouco da estrada. Era difícil ter alguma privacidade. Naquela altura pouco me importava, que olhassem à vontade. Voltei para o carro e a viagem continuou sem mais interrupções.

A chegada em Cabo Frio foi um alvoroço. Aquele cortejo ia aumentando e chamava muita atenção. Quando chegamos à delegacia, a multidão era tão grande que parecia um comício. Imediatamente achei que seria linchado. Pior ainda, o pessoal que estava comigo também se assustou.

A viatura estacionou na frente da delegacia. A pm abriu espaço para os quatro carros. Era um prédio antigo, com uma escadaria na entrada. Na porta estava o delegado, um homem de cara zangada que veio até a viatura e me convidou a acompanhá-lo.

Quando desci, houve uma movimentação na multidão e muitas vozes berraram:

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— Solta ele.



E então em coro:

— Solta, solta.

Confesso que fiquei aliviado, já que nos jornais o clima para mim estava péssimo. O delegado e eu subimos as escadas, entramos no prédio e chegamos em seu escritório, acompanhados pelo pessoal do DPI, pelos investigadores locais e por um mundo de jornalistas com câmeras de tv, microfones, fios e toda a parafernália que na época eles carregavam. Na sala havia gente em cima do arquivo, nos sofás, em pé nos parapeitos da janela. Só não tinha gente no lustre. Eu não conhecia ninguém, e meu advogado não estava lá. A confusão era tanta... que eu me acalmei. O delegado e eu fomos fotografados durante pelo menos dez minutos, mas ele não deixou ninguém me entrevistar. Com muito jeito, interrompeu a bagunça e prometeu que, se eu concordasse, mais tarde daria entrevistas. Todos saíram, até os policiais que haviam me trazido, e ele mandou tirarem as minhas algemas. Pediu água e café, e apontou uma cadeira para eu descansar um pouco. Disse:

— Me enganaram, disseram que você era bagunceiro e atrevido, mas na verdade é muito educado. Vamos esperar a promotora, ela deve estar chegando. Então começamos a tomar o seu depoimento.

Lembrei-me do conselho do dr. Paulo, mas apenas balancei a cabeça, concordando.

O delegado chamava-se dr. Newton, e começou a conversar comigo enquanto esperávamos a promotora. De repente disse algo que me surpreendeu:

— É difícil acreditar que você tenha cometido esse crime, você está acobertando alguém?

— Quem me dera — eu disse.

Eu estava muito aflito, a promotora estava chegando e nada do dr. Paulo. E agora o delegado vinha com essa conversa esquisita. Estava pensando sobre isso quando a promotora chegou e cumprimentou o delegado, sem nem olhar para mim. Conversaram por algum tempo e resolveram que era hora de começar o depoimento. Chamaram o escrivão. Sentei-me na frente deles e mandaram que eu contasse a minha versão dos fatos.

Disse ao delegado e à promotora que faria uso do meu direito de só dar declarações diante do juiz. Houve certo mal-estar, então argumentei que eram instruções do meu advogado, que, infelizmente, não

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estava presente. Tive de reunir todas as minhas forças e toda a coragem para tomar aquela atitude.



A promotora foi embora e o delegado me mandou para o cartório da delegacia para me identificarem. Tiraram fotografia e passaram tinta nos meus dedos para colher as digitais. Revistaram-me, tiraram o meu cinto e guardaram meus documentos. Só fiquei com o dinheiro que trazia comigo e com um barbante desses que arrebentam à toa, que servia para segurar minha calça. Foi então que me avisaram que meu pai estava conversando com o delegado.

De volta à sala do dr. Newton, para a minha alegria, encontrei meu pai e o Cláudio, filho da minha prima Maria Zélia, que era médico e estava de olho no papai, que andava muito tenso.

Descobri então que épocas de grande tristeza trazem alguns momentos de alegria. Ver papai e Cláudio foi um deles. Meu pai estava preocupado porque tinha lido nos jornais as declarações de um preso, que dizia que, na delegacia, machão se dava mal. O delegado o acalmou, aquilo era coisa da imprensa. Se eu não provocasse ninguém, eles também não se meteriam comigo.

Eram mais ou menos seis horas da tarde quando me disseram que tinha de me despedir de meu pai e do Cláudio, pois seria levado de volta para a cela. Nesse momento entrou na sala o dr. Paulo José da Costa. Simpático, cumprimentou todos e deu um abraço no dr. Newton. Expliquei que tinha dito exatamente o que ele sugerira, que meu depoimento seria perante o juiz. Ele, por sua vez, se justificou, e disse que estava chegando só naquela hora porque teve de dar uma aula no Rio e estava de viagem marcada para Roma para dar algumas aulas. Que eu não me preocupasse, estava tudo sob controle.

Aí chegou a hora de o dr. Newton me acompanhar até a cela. Dessa vez eu não estaria sozinho: teria, segundo o delegado, seis companheiros. É difícil explicar o medo que senti, mas não havia alternativa. O delegado e quatro detetives me levaram até a cela. Papai quis acompanhar, mas o delegado argumentou com toda a delicadeza:

— Senhor Luiz, vá para o seu hotel, descanse e volte mais tarde para conversar comigo, estudaremos horários para o senhor visitar seu filho todos os dias.

Deu para perceber a preocupação dele com o estado em que papai se encontrava.

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Entramos na parte de trás da delegacia, onde fica a carceragem. Havia duas celas ocupadas e uma vazia, de mais ou menos quatro metros quadrados cada uma. Estávamos caminhando quando comecei a ouvir o trabalho das chaves que o carcereiro usava e o barulho do ferrolho quando ele abriu a porta da grade, que ia até o teto. O delegado parou na entrada e disse que era lá que eu ficaria, e que esperava que me comportasse bem, para que não tivesse de ir para a "Malibu", um lugar reservado aos desordeiros. Apontou para uma cela vazia e deu um risinho. O pessoal que estava lá dentro também achou graça. Ele entrou na frente e me puxou pelo braço. Os presos, que até então estavam sentados ou deitados, se levantaram. O delegado cumprimentou todos, parou no meio da cela e começou:



— Azulão, Cabelo, Antônio Moçambava, Paulista e Waldemar.

O Moçambava era o que tinha dito aos jornalistas que playboy lá ia ficar mansinho. Evidentemente eu não sabia que era ele. Soube que era o preso mais antigo de lá, e por isso era o xerife. Feitas as apresentações, o delegado foi embora e fiquei ali, parado, sem saber o que fazer. Paulista — um homem branco, de altura mediana, com bigodão parecido com o do Stalin — aproximou-se e mostrou, num canto perto das grades, uma cama de campanha com um colchonete em cima.

— Seu pai e o carcereiro trouxeram.

Quem estava sentado nela era Moçambava, um índio de estatura mediana e cabelo oxigenado. Caminhei em direção à cama preocupado com Moçambava mas, quando me aproximei, ele se levantou e disse:

— Você deve ser importante mesmo, nunca vi delegado fazer essas coisas.

Azulão, negro, baixo e muito forte, se aproximou com um sorriso enorme:

— Quer um café? Se quiser eu faço.

Com o passar dos dias, ele se nomeou meu secretário. Agradeci o café, mas não aceitei.

Havia mais dois: o Waldemar — um caboclo baixo, de bigodinho, camarada perigoso que não gostava de muito papo — e o Cabelo — um mulato de mais ou menos 1m 70, dissimulado, que sempre estava atento a tudo. Faltava um, tinham me dito que eram seis. Mais tarde me explicaram que Luiz, o sexto preso, era de confiança, trabalhava na delegacia e só vinha para dormir.

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Sentei na cama com vontade de chorar, mas não queria Mostrar fraqueza na frente dos meus novos companheiros. Estava desconsolado, olhando para as minhas botas, quando percebi que debaixo da cama havia um pacote. Perguntei a um dos meus companheiros se aquilo era meu, e me responderam que tinha vindo junto com a cama. Abri e eram roupas de cama, toalhas, sabonetes, escova, pasta de dente e um travesseiro. Quando levantei a cabeça, papai estava chegando com o delegado, que disse, rindo:

— Não dá para negar nada para o seu pai. Ficou pedindo para ver você até eu trazê-lo aqui.

Aproveitei e pedi que ele comprasse sanduíches, refrigerante e pó de café. Estava morrendo de fome.

Enquanto a comida não chegava, quis tomar banho, mas me disseram que, água para banho, só no dia seguinte. Azulão arranjou com o carcereiro uma garrafa de água para eu lavar o rosto. Fiz isso em cima do boi, que por sinal estava limpíssimo. Como no DPI, em cima dele havia um cano. Para que eu tivesse privacidade, os presos improvisaram uma cortina com cabo de vassoura e sacos de farinha.

Minha cama ficava de costas para a parede que dava para o corredor e era onde começavam as grades. Bem em frente, atravessando toda a cela, a dois metros de altura, havia uma janela para a rua. Sempre alguém estava pendurado nela, vendo o movimento. Estava reparando nessas coisas quando o carcereiro chegou com as minhas encomendas. Achei que o pacote era muito grande. Abri e vi um grande frango com farofa, seis sanduíches, refrigerantes e um quilo de café. Comi um dos sanduíches com uns goles de refrigerante e o restante deixei com os outros. Apesar de papai, de tudo o que ele tinha trazido e de todos naquela cela se mostrarem amistosos... eu estava arrasado.

Não me importei mais com os outros e comecei a chorar. Chorei deitado, sem arrumar a cama, de roupa e tudo. A certa altura adormeci, mas não por muito tempo. Por duas horas, talvez. Quando abri os olhos, estava tudo escuro. Aparentemente, todos dormiam. Acendi um cigarro e olhei aquele pessoal dormindo no chão. Havia uma cama, também de

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costas para o corredor, a dois metros da minha, perto da porta. Era uma cama mesmo, não era cama de campanha como a minha. Nervoso como estava, não tinha reparado nela quando chegara. Lá estavam dormindo o Waldemar e mais um, o Luiz, que eu ainda não havia conhecido.



Não consegui dormir novamente. Quando o dia amanheceu, serviram café e pão em todas as celas. Na nossa, o pessoal só aceitou o pão, o Azulão fez café do nosso estoque. Logo depois, a água chegou e os meus companheiros deixaram que eu fosse o primeiro a tomar banho. O Azulão fez um tapete com folhas de jornal, para que eu não pisasse descalço no chão. Tirei a roupa e fui até o boi, fechei a cortina de sacos de farinha e tomei um banho bem razoável. A única coisa desagradável era que eu não tinha roupas limpas, e tive de vestir as do dia anterior. Quando saí do banho, não consegui coordenar os passos para ir até a cama e caí. Me ajudaram a levantar, caí de novo. Então me levaram para a cama. O Azulão me trouxe mais café, fumei um cigarro. Tentei me levantar e tive de segurar nas grades para manter o equilíbrio. Estava assim, segurando nas grades, esperando o carcereiro para dizer que não estava bem. Quando ele apareceu, estava com um jovem de paletó e gravata. Apresentou-me:

— Esse é o dr. Paulo Badhu, ele é criminalista e veio visitar você. Foi a primeira vez que vi o Paulinho, advogado de Cabo Frio, que se tornou meu amigo e foi um dos meus defensores.

Ele me contou que acompanhou meu caso desde o início, pois estava na delegacia quando vieram avisar ao delegado que havia ocorrido um crime na Armação dos Búzios. De repente, parou:

— Nossa, você está péssimo, o que está acontecendo?

Contei que não havia dormido quase nada, porque não tinha conseguido parar de chorar e, depois do banho, não consegui me manter em pé. Comecei a chorar novamente. Paulo perguntou se tinha acontecido alguma coisa, se alguém me maltratara. Expliquei que não, muito pelo contrário. Ele continuou preocupado e disse que falaria com o delegado, para ele autorizar que um médico me examinasse.

— Olha — disse ele —, aqui em Cabo Frio você é muito popular. Não é nada difícil encontrar jovens usando camisetas com seu rosto estampado. Um restaurante tem até um "filé Doca Street" no cardápio, por isso fique calmo.

Despediu-se, dizendo que iria procurar o delegado. O pessoal da cela fez um sorteio para organizar a limpeza, cada um teria o seu dia de

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faxineiro. Não me lembro com qual dia fiquei, mas não tive tempo de pensar no assunto, porque o Azulão se nomeou meu secretário e disse que faria a faxina no meu lugar.



Estava me sentindo muito mal e voltei para a cama. Meus companheiros entenderam a situação e me deixaram quieto. Passado algum tempo, o dr. Paulo apareceu junto com o carcereiro. Tinham vindo me buscar porque o delegado queria me ver. Paulo encostou-se nas grades enquanto o carcereiro destrancava a porta. Falou ao meu ouvido:




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