O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



Baixar 2.3 Mb.
Página29/37
Encontro07.10.2019
Tamanho2.3 Mb.
1   ...   25   26   27   28   29   30   31   32   ...   37
4
ESCREVI UM BILHETE AGRADECENDO O CONSELHO E INFORMANDO que ia tomar providências de sair rumo a Niterói o quanto antes. As suas coisas estavam em meu poder, bem guardadas e em segurança. Procurei o cubículo do companheiro da moça que me entregara o bilhete, entreguei a resposta e agradeci a gentileza.

Quando voltei para o cubículo, Marilena estava preocupadíssima. Iria procurar dr. Humberto pessoalmente, o que queria dizer que passaria mais um dia no Rio, e isso atrapalhava seus negócios. Depois de muita conversa consegui convencê-la de que papai daria conta disso, principalmente depois de ler o bilhete do Pira.

Domingo, depois que Marilena e papai saíram, o ambiente ficou sinistro. Aquele silêncio inquietante reinava. Os internos não saíam das galerias para nada, os pátios estavam vazios. Os que não tinham recebido visita foram ao refeitório, fizeram a refeição e retornaram para as galerias de origem, muitos se trancaram em seus cubículos. Não demorou muito e o alarme tocou. Em seguida, os guardas trancaram todos em seus cubículos. Só voltaram duas horas depois, para fazerem o "confere" e dar uma "geral". Quando saíram, como sempre, só trancaram a galeria. Com liberdade de sair dos cubículos para andar pela galeria, fui até o cubículo do Tonelada. Ele devia saber o que estava acontecendo. Serviu um café e me pôs a par dos acontecimentos.

— Antes do término das visitas, cinco internos convidaram um companheiro para puxar fumo em um cubículo, outros cinco convidaram outro companheiro para fazer a mesma coisa. Os dois convidados morreram, com mais de cem estocadas cada. Até aquele momento ninguém tinha se apresentado para assumir os crimes.



19/6/1983. Sarará, Juninho e Belizário foram hoje para a Ilha. Com a saída deles, sobraram seis cubículos vazios na nossa galeria.

385


Na semana passada, uns dias antes da transferência do Pira, Nenê Cara de Cachorro (que era quem passava os filmes no auditório), de uma hora para outra foi transferido, acusado de ter ajudado na fuga ocorrida na noite do apagão. Pediu, implorou e explicou que, para onde ia, na Milton Dias Moreira, morreria na certa. Não teve jeito, foi para lá e quinze dias depois foi chacinado. Encontrei com ele na porta da vigilância quando estava de saída. Olhou com tristeza e reclamou.

— Estão fazendo o que sempre fazem: transferem a gente para morrer.

Com tudo isso acontecendo aqui, na Ilha, em Bangu e no Água Santa, o governador ficou preocupado. Reuniu seus secretários e exigiu providências. Parte dessa reunião saiu numa reportagem do Jornal do Brasil, com o seguinte título: "Brizola teme tragédia nos presídios". Transcrevo partes da reportagem: "O tema dominante na reunião com o secretariado foi o sistema carcerário e, mais especificamente, a morte de mais dois presos, domingo à noite, no Instituto Penal Lemos Brito, e o encontro de três mulheres no Instituto Penal Esmeraldino Bandeira — em Bangu, só para homens". Em um outro trecho, o diretor do Desipe informou que, para evitar outras mortes nos presídios, o primeiro passo é desarmar todos os que se encontram nas celas. "Essas vistorias, explicou,são difíceis porque os presos não escondem armas debaixo do travesseiro e, sim, dentro das paredes, o que requer quebrar tudo para poder encontrar as armas de fogo e os estoques".

Aquilo que aconteceu em Esmeraldino Bandeira acontece aqui, às vezes. É arriscado, mas elas não ligam a mínima. Entram na visita e conseguem ficar escondidas, escapando ao controle. Passam a semana aqui, faturando para o homem delas ou para elas mesmo. Geralmente roubam no domingo seguinte o bilhete que todas recebem para entrar e devolvem na saída, causando problemas para a visitante distraída.

As transferências e as fugas do pessoal da Falange Vermelha tinham deixado a cadeia quase sem liderança, e muito mais perigosa. Pira tentava continuar comandando, mas estava do lado de lá do muro. Dos companheiros que tinham restado, o mais feroz era o Monstro, que aparentemente continuava sob seu comando. Impunha respeito seguindo os conselhos de Xane, mas tinha de usar bastante terrorismo para impor ordem e controlar as lideranças mais jovens, que, embora aliadas (pelo menos se diziam), tinham idéias próprias. Eram recém-chegados de outros

386


institutos, eram unidos e destemidos. Monstro e Xane podiam contar com Zé Cigano, que, graças a sua rebeldia, vivia levando "carrinhos", rodando por muitas cadeias, e por isso conhecia melhor e se dava com o pessoal mais jovem.

Em contrapartida, Polaco, Pele e seu irmão Ratazana, que pertenciam à Falange Jacaré e agora contavam com aliados chegados de outras instituições, também faziam terrorismo para liderarem toda a penitenciária.

É... era complicado. Para entender a situação só estando lá, vivendo aquele momento.

A administração tinha trazido um chefe de segurança que era muito parecido com os membros das falanges. Não usava uniforme, estava sempre com um jeans surrado. Cabelos brancos, barba mal aparada, mas falava a mesma língua. Andava pela penitenciária inteira, desconfiava de tudo, falava manso e impunha respeito. Era, como todos da administração, odiado pela massa. Por sua experiência e perspicácia, evitou muito derramamento de sangue. Ele era danado, devia ter ótimos informantes, descobria as coisas e transferia os que iam morrer, ou os matadores, horas antes dos acontecimentos.

O pessoal comentava que alguém interessado em acabar com as lideranças, ou em liderar, estava delatando as tramas. Quer dizer... desconfiança geral.

Às VEZES FICO TÃO ASSUSTADO QUE GOSTARIA DE SER UMA SOMBRA vivendo na floresta, só observando. Não dando alimentação à vida, sendo alimentado por ela.

Fui condenado à reclusão, isso não quer dizer que preciso viver com um bando de malucos.

24/6/1983. Um interno aí do lado, da Milton Dias Moreira, tentou atear fogo no diretor. Não conseguiu por pouco. Comentaram que ele estava para sair e, não tendo para onde ir nem família a procurar, resolveu cometer um crime para continuar preso.

Chico Tonelada e eu estivemos conversando. Falávamos do boato da morte do Jesus. É a segunda vez que espalham que ele foi morto trocando tiros com a polícia. Se sua morte for confirmada, todos os que

387

fugiram, morreram ou voltaram para a prisão, como é o caso do Lâmpada. Para não escrever todos, tem um que levou um tiro na perna e ficou sem ela e o Professor, que, diziam, estava na Bahia, organizando uma quadrilha. Por que será que isso acontece com tanta freqüência? Falta de costume? O cara fica muito tempo na cadeia e perde a mão? Apesar de tudo, eu gostava do Jesus.



Ontem apareceu aqui uma bicha, da penitenciária aí do lado. Veio buscar as coisas do Pira. Ela é mágica, conseguiu pôr Pira para falar comigo de orelhão para orelhão. Fez isso porque eu não queria entregar nada sem confirmação do proprietário. Ela não ficou brava, era muito engraçada. Quando já estava de posse de tudo...

— Eh! Você é uma gracinha, não fica preocupado, eu sou de confiança. — E saiu rebolando.

Estes últimos três meses abalaram minha estrutura de tal forma que não estou entendendo mais nada. Só Freud daria um jeito na minha cabeça. Ele na cabeça, e Dostoiévski na minha história.

Coisas estranhas aconteceram: parece que o diretor do Desipe esteve aí do lado, conversando com o Pira. Não tenho confirmação disso, mas se quiserem alguma coisa do Pira têm de trazer ele de volta e isso eu duvido que aconteça. Seria uma demonstração de fraqueza da parte do Desipe.



25/6/1983. Hoje aconteceram mais transferências, apesar de ser sábado. Havia boatos de que mortes ocorreriam. Pelo menos a meu ver, essa movimentação de internos salvou algumas vidas. Este novo chefe de segurança tem faro e é claro que tem informações na hora certa. Houve uma atitude nova da parte dos guardas quando havia fugas ou transferências: assim que os internos abandonavam os cubículos, arrebentaram todas as melhorias encontradas nos cubículos (feitas pelos internos), vasos sanitários, espelhos, armários etc. para evitar que fossem saqueadas e, depois, vendidas para o próximo ocupante.

Não consigo entender... acho que ao fazer isso a administração se iguala aos presos. Pois é vandalismo arrebentar melhorias. A impressão que dá é que querem que haja reação. Será que é isso? Querem invadir com a Polícia Militar e matar os líderes?



28/6/1983. Estou no meu cubículo, deitado de barriga para cima e, para não olhar a janela e as grades, fecho os olhos. Tenho flashes da Ângela. Procuro evitá-los, me fazem sofrer. Não é de saudades nem por estar aqui. Quando isso acontece fico desesperado, pois não consigo fechar

388


os olhos, que suas imagens surgem. Não tenho outra coisa a fazer, senão enfrentá-las. Relaxo, respiro fundo e deixo minha mente à vontade, "para reproduzir o que quiser". Quando eu era adolescente, adorava futebol. Lembro tão bem de um filme a que assisti, chamava-se O homem que chutou a consciência. Bom é o Kafka, que escreveu sobre o cara que virou barata. Talvez eu possa virar um lagarto. Quando eu ficava assim com esses flashes e pensamentos estranhos, já sabia que acabaria reproduzindo imagens que me abalariam. Talvez fosse melhor não enfrentar minha consciência e abrir os olhos, levantar e sair do cubículo, para enfrentar a realidade de minha situação. Pelo menos poderia perceber que estava em um lugar pagando penitência. Em vez disso, ligo a televisão. Não foi numa boa hora, a primeira coisa que aparece é a notícia de que mataram três na Ilha Grande. Dão o nome dos mortos e, se entendi bem, um deles saiu daqui na semana passada. Segundo o comentarista, o secretário de Justiça disse que essas mortes não têm nada a ver com a guerra dos presídios. Quem será que ele está tentando enganar?

29/6/1983. Hoje sumiu um interno que saiu escoltado para ir a um hospital. Ia fazer um exame que aqui ao lado não tinham como realizar. A escolta se distraiu na sala de espera e, quando olharam mais atentamente, ele não estava mais lá. Segundo a escolta, ele evaporou.

À tarde, o diretor convocou todos para comparecerem ao auditório. Voltou a falar que queria um representante de cada galeria, para conversar com a administração. Pediu que cada galeria se reunisse e elegesse o representante nas próximas 24 horas. Se isso não fosse feito, ele ia reunir todos no auditório e promover uma espécie de eleição. Só sairiam do auditório as galerias que tivessem eleito seus representantes.

Depois, dando a entender que as verbas andavam curtas e não dava para reformar o prédio imediatamente, proibia o uso de chuveiro elétrico. Tinha informações de que os fios elétricos estavam em péssimas condições e não lhe restava outra alternativa que a proibição. Em compensação, estava concedendo uma "dormida" no começo do mês, da noite de 9 para 10 de julho. (Nunca ele conseguiu que deixassem de usar os chuveiros elétricos. Eram poucos os que tinham esse conforto.)

4/7/1983. Ontem, policiais militares estiveram aqui para uma "geral". Depois, mandaram quatro arrumarem suas coisas, pois iam ser transferidos. Desses, o único que eu conhecia bem era o Cuca. Também foi o único que saiu reclamando:

389


— Esse diretor falou que não transferiria sem avisar, mentira dele. — E saiu sacudindo a cabeça.

5/7/1983. Dezessete presos fugiram da Ilha nesta madrugada. A Polícia e os caçadores de fugitivos estavam nas matas tentando recapturá-los. Apesar de ajudados por um helicóptero, até o fim da tarde não tinham localizado ninguém.

6/7/1983. Tudo calmo, apesar de haver muita trama no ar e de todos se olharem com desconfiança.

9/7/1983. Marilena esteve aqui. Entrou no sábado às treze horas e saiu no domingo. Estive com uma gripe tão forte que tremia como vara verde, de tão alta que era a febre. Ela me fez chá, que tomei com aspirina, e, algumas horas depois, já me sentia bem melhor. Ficar doente num lugar como este é complicado. Não há recursos e o médico só vem duas vezes por semana. Ele é dedicado e traz muitos remédios que recebe como amostra grátis. Há problemas sérios, como doentes com tuberculose, e eles têm prioridade. O número de internos com essa doença é enorme. (Naquela época ninguém tinha ouvido falar em HIV.)

11/7/1983. Estou sendo atacado por uma crise de inspiração. Não tenho vontade de escrever. Acho que é por causa do ambiente sinistro e da visita que o Humberto me fez. Veio me avisar que não conseguia me transferir para Niterói, porque não conhecia ninguém da nova administração.

Era muito difícil encarar os novos companheiros e o clima constante de perigo. Sabia que todos estavam armados e a qualquer momento aconteceria uma guerra.

Medo... é difícil dominá-lo, não sei como consegui fingir que andava tranqüilo e despreocupado.

Nos últimos tempos, além de não anotar nada em meu bloco, não tinha ânimo nem de bater paredão.



18/7/1983. Mais uma vez, o diretor convocou todos para irem encontrá-lo no auditório, desta vez às quinze horas. Não mandou tocar a sirene, apenas pediu aos guardas que fossem avisando os internos nos pátios e nas galerias. Eu estava me dirigindo para a reunião e o encontrei no corredor. Chamou-me e mandou que fosse procurá-lo após a conversa no auditório. Fez questão de me explicar como eu devia proceder para ir encontrá-lo. Pegar uma autorização com duas vias na inspetoria, para que ele vistoriasse uma... ia continuar quando viu o meu crachá.

390


— Bom... você é "faxina"... Então, depois que sair do auditório, passe lá no meu escritório.

A conversa no auditório foi curta; ele queria saber se todos concordavam em doar um dia de refeição para os estados do Sul. Tinham passado por chuvas fortíssimas e estavam com grandes dificuldades. Todos que concordassem deveriam levantar as mãos. A aprovação foi unânime.

Terminado o papo no auditório, ele subiu para seu escritório e eu o segui de perto. Não era mais Zé do Lago que atendia na recepção, mas o substituto era conhecido e em pouco tempo eu estava sentado à frente do diretor.

Ele tinha um bloco na sua frente e pela sua postura ia fazer anotações.

Perguntou meu nome e endereço e nome de algum familiar para entrar em contato em caso de emergência. Em seguida, perguntou se eu era português. Como estranhei a pergunta, perguntei a razão.

— É por causa de seu sotaque.

Respondi que tinha ascendência inglesa, meu sobrenome, Street, queria dizer "rua" e eu era paulistano.

— Tenho aqui uma carta da NBC, de uma rádio e televisão americana. Querem saber se você concorda em fazer uma reportagem sobre machismo.

Respondi que não queria saber de jornalistas naquele momento da minha vida. Que entendia o interesse da imprensa brasileira e de outros países, mas não estava interessado.

— Para facilitar, peço por gentileza que rejeite qualquer tentativa de entrevistas.

Olhou-me com estranheza e pediu que eu escrevesse e assinasse aquilo. De saco cheio respondi que consultaria meu advogado antes de assinar qualquer coisa. Em seguida, quis saber sobre a minha situação jurídica. Informei que estava com um recurso impetrado no Supremo Tribunal Federal, para anular o último julgamento e, se tivesse sucesso, esperaria o próximo em liberdade, mas o recurso ainda não tinha chegado em Brasília. Ele continuava curioso; queria saber como me sentia no cárcere.

— Às vezes fico muito preocupado com a violência e quando o senhor tomou posse fiquei muito apreensivo, pois tinha conhecimento pelos jornais que o sistema carcerário estava sem verba. Além disso, tinham acontecido aquelas mortes e algumas fugas. Desejo que seja feliz em sua administração.

391

Com minha ficha na mão, ele respondeu:



— Acho que sua pena é muito alta e não devia estar preso aqui, com esse tipo de delinqüentes. Se precisar falar comigo, avise o inspetor do dia, darei um jeito de atendê-lo.

Naquela noite apareceram na TV os estragos que as chuvas causaram no Sul. Eram impressionantes. Abordava também a situação de penúria por que estavam passando alguns setores do comércio e da indústria no Brasil. Citava a concordata das indústrias da família de um ex-amigo. Era uma concordata grande, o grupo em sua fase áurea reunia cerca de 30 mil operários.

Que pena que o país esteja tão mal. Os militares não conseguem pôr ordem na casa.

24/7/1983. Domingo, como sempre, Marilena e papai se foram. Eu fiquei. Assisti à saída deles até fazerem a curva no corredor e se virarem para me acenar adeus. Hoje, no nosso encontro tão esperado de todos os domingos, Marilena não estava bem, chorou muito, sua tristeza era enorme. Tinha perdido o pai e uma tia na mesma semana. Eu ia pensando nisso e subindo a escada para a minha galeria. Descendo, vinham alguns internos indignados porque um companheiro tinha levado uma surra de alguns guardas. Isso tinha acontecido no dia anterior e o camarada estava todo estropiado na "surda". Ele estava desaparecido, seus companheiros não o achavam. Mas hoje, com a chegada da família para visitá-lo, os guardas tiveram de contar que ele estava de castigo por desacatar um funcionário. Imediatamente, alguém da família avisou o pessoal dos Direitos Humanos, que veio mas foi barrado pela guarda do dia. Agora, aqueles internos iriam até a inspetoria reclamar dessa atitude. E avisar que no dia seguinte ia ter a imprensa na porta para entrar junto e fotografar o companheiro. Quando um grupo de internos resolvia enfrentar os guardas, geralmente dava coisa séria. Os guardas se apavoravam, com medo que virasse tumulto e não tivessem tempo de sair correndo, para fora da carceragem e do prédio. A providência era tocar o alarme e chamar a Polícia Militar.

Uma noite, uns dois meses atrás, antes de trancarem a galeria, Pira e eu descemos até a inspetoria para pedir alguma coisa (agora não lembro o que era). Talvez falar ao telefone... alguma coisa assim. Quando o inspetor nos viu, correu para a inspetoria e tirou, não sei de onde, uma espingarda calibre doze. (É proibido agente penitenciário ou funcionário

392

entrar armado no interior das prisões.) Só depois que teve certeza de que queríamos apenas falar com ele é que relaxou.



Mas voltando ao fato do espancamento: os guardas estão abusando e querendo descarregar seus recalques nos internos. Na semana passada, no refeitório, encheram de socos e pontapés um interno que é um coitado e está meio louco. Anda por aí maltrapilho, falando sozinho. Jogou feijão num dos "faxinas" que servia a comida. Os guardas agiram rápido e com covardia, pois não bateram nele na hora. Arrastaram-no até o pátio 3, que estava vazio, pois quase todos se encontravam almoçando e lá fizeram o serviço. Ninguém tomou muito conhecimento do fato, porque há muitos doentes mentais mendigando abandonados pelas cadeias e eles são desprezados. Às vezes são removidos para o Manicômio Judiciário e, quando voltam limpos e bem tratados, dependendo da idade, abusam sexualmente deles.

25/7/1983. Hoje recebi carta do Raulzinho, que alegria. Ele já está um homem, teve de se apresentar para servir no Exército e foi convocado. Que bom. Tenho certeza de que isso fará bem a ele. Já sei que se virou e é motorista. Bom sinal.

O diretor desistiu de esperar que os internos elegessem os representantes das galerias. Hoje reuniu todos novamente e começou a eleição na marra. Conseguiu que cada galeria elegesse dois representantes. Mas antes disso fez uma preleção, explicando que não queria dois dedos-duros, na verdade queria representantes, pois a seu ver isso facilitaria o diálogo entre a administração e os internos. Ele dizia que aquela era uma atitude democrática e queria candidatos. Olhou para mim, que estava completamente distraído e perguntou:

— Não é verdade, Raul, você não acha tudo isso democrático? Respondi de bate-pronto a primeira coisa que me veio à cabeça.

— Acho que sim, e, já que é democrático, me reservo o direito de não ser candidato.

Mais tarde, pensando no assunto, achei que mesmo distraído tinha me saído bem. A minha resposta tinha causado algumas risadas, mas eu tinha me livrado de ser candidato. Tinha certeza de que ele ia me propor isso. Como tinha certeza também de que ele era sincero e estava querendo fazer uma administração justa.

Pelo menos que eu me lembre, só dois foram eleitos para representar todas as galerias. Não tenho muitas anotações daquela quinzena.

393

Andava muito deprimido e não tinha vontade de nada, nem de escrever. Os dois eleitos — Americano e Ary — aparentemente eram da confiança da massa, só os conhecia de vista, não estavam lá há muito tempo.



26/7/1983. A nova política carcerária adotada pelo novo governo, de deixar as cadeias praticamente abertas à visitação pública, era perigosa, pois de uma hora para a outra podia acontecer algo e os visitantes poderiam se tornar presas fáceis. Além disso, era constrangedor para o interno, que ficava muito exposto, principalmente quando o visitante era insensível e fazia perguntas idiotas.

A quarta galeria recebeu a visita de um grupo que se dizia do Tribunal de Alçada. Eu não sabia dessa visita e desavisadamente entrei na galeria. Tinha umas quinze pessoas. Quando as vi, parei e já ia saindo, mas o funcionário que as acompanhava me chamou. Veio ao meu encontro e pediu que eu abrisse meu cubículo. Dizia que deveria abrir para que vissem que eu não tinha privilégios. Eu conhecia o funcionário e, para não desagradá-lo, atendi. Abri a pesada porta e os deixei à vontade. Um senhor me olhou e disse:

— Sabe, sou do Tribunal de Alçada. Respondi apenas:

— Não me diga. E ele continuou.

— Ouvi dizer que você recebe mulheres aqui todas as noites, dizem que são orgias fantásticas. Você não tem religião? Gosta de ler?

O homem não esperava resposta.

— Quais seus planos para o futuro? Uma moça que estava junto interrompeu.

— Nossa, ele tem até geléia. Não me contive...

— Se abrirem aquele isopor encontrarão um resto de champanhe da orgia de ontem. Está bem gelada. Querem experimentar?

Senti que o funcionário já estava arrependido, pois deu a visita por encerrada. O cavalheiro ia saindo e falando ao cicerone:

— Mas é incrível, será que tem alguém do nível dele para conversar? Evidentemente, não eram só imbecis que nos visitavam. Tinha gente interessada, a OAB, por exemplo. Eles tentavam fazer um levantamento de todos os internos com penas vencidas. Isso já tinha sido tentado pelos promotores e advogados do Estado no começo do governo e já

394


tinha rendido alguns resultados. Tinha também um pessoal da Pastoral, que quando nos visitava era orientado pelo padre Bruno Trombeta, que prestava serviços extraordinários aos internos e ao sistema.

Hoje, por exemplo, estive numa reunião promovida pela Pastoral. Conheci uma advogada que se dava com o irmão do meu pai, tio Tito. Disse que tinha condições de pedir minha transferência para Niterói. Não sei por que não acreditei na moça. Talvez pelos boatos que corriam pelos presídios, de que as mulheres sozinhas é que se envolviam nessas coisas. Enfim, não tinha nada a perder e a autorizei a tentar a transferência. Não continuei a freqüentar essas reuniões, apesar de acreditar no trabalho do padre.



27/7/1983. A minha situação está feia, mas a do Brasil não fica atrás. Segundo o professor Roberto Campos, dentro de pouco tempo o país fica insolvente, aqui e lá fora.

29/7/1983. Que pena... morreu David Niven.

Esse era o humor, naquele momento, que eu estava atravessando. Não escrevia, se pudesse não saía do cubículo, não tomava banho e não fazia mais nada. Eu estava que era uma fossa só. Não porque não acontecia nada na cadeia. Acontecia e muito, tinha muitos disputando o poder, e eu tinha certeza de que algo muito sério estava para acontecer. A covardia, a traição e a sordidez reinavam. Eu não via porque não queria ver, tinha medo. A corda bamba estava muito esticada e o palhaço estava tremendo. Como não tinha nada a ver com isso, assistia e ouvia, pois era bem informado por Capetinha. Ficava na minha, mas na fossa.




1   ...   25   26   27   28   29   30   31   32   ...   37


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal