O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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24/3/1983. "Mar, amor, acabei de falar com você, quando falamos minha cabeça muda, as minhas disritmias ficam um pouco mais rítmicas e, nas quintas-feiras, quando você vem, como esta tarde, é melhor ainda, pois sei que sábado estaremos juntos novamente. Ando tão apaixonado por você... Beijos."

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Carinho entre nós não faltava. Escrevi as linhas acima depois de receber, praticamente ao mesmo tempo, sua visita e este carinhoso bilhete pelo correio, que, como sempre, foi censurado por algum funcionário. (Recebíamos as correspondências abertas).

São Paulo, 22/3/1983

Amor muito querido,

Este é só um bilhetinho para dizer que estou morrendo de saudades (lugar-comum) epara estar presente com você pelo menos na hora em que você estiver lendo o mesmo. É meia- noite, não saí desde as seis e meia, estou na cama. Está umfriozinho bom para isso. Zé e Cláudia chegaram há pouco e mandam beijos. Boa noite, amorzinho, eu amo você. Streetinha.

Com a mudança de governo e a certeza de mudança na administração, havia muita desconfiança entre os internos e os administradores que estavam de saída. Segundo os líderes, estavam tentando misturar todas as facções para complicar a vida do próximo diretor. Mas era a opinião da liderança de internos, isso não queria dizer que tenha sido verdade. Agora... que houve transferências e entradas em grande número, é verdade. Que Pira andava esquisito e tinha um monte de gente falando em armar arapucas para os guardas, também era verdade.

Acho até que era coisa antiga, guardas que estiveram na Ilha e naquele momento estavam ali. A coisa era muito complicada, rancores antigos, coisas da rua, de outros presídios, que a administração atual conhecia e evitava. Se estavam tentando embaralhar tudo ia dar problema. Já tinha assistido a Jesus e Lâmpada falarem que dois presos que tinham acabado chegar da Ilha teriam de morrer. Até pedi que não comentassem essas coisas na minha frente.

— Depois dá alguma coisa errada e o único que sabe sem ser vocês, sou eu. —Isso era motivo de risada, eles se divertiam com meu medo.

Hoje acordei com uma tremenda confusão perto da minha porta, que estava trancada, como sempre que eu dormia.

— Vai tomar no cu, qual é, tu tá cheio de caô... Eu conheço tua vida na Ilha, tu era "garoto".

Resposta:

— Vai à tua luta, vagabundo, que tô bolado (de saco cheio), tu fica me pondo pilha (irritando), tu é vacilão (que só faz bobagens) como

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todo mundo nessa galeria. Eu também conheço tua vida, na Ilha tu era "alemão" (olheiro da administração), sempre com o capitão Theobaldo querendo dar "carrinho" (transferência) em quem não formava (pensava da mesma maneira) com tu. Só tu queria vender bagulho (fumo).

Aí ouvi a voz de Pira.

— Deixa comigo, vou resolver essa parada.

Era uma discussão com um pessoal de outra galeria de visita íntima. Diziam que a liderança, por falta de interesse, não estava tentando arranjar "dormida" no próximo feriado, que era na Semana Santa. A princípio, isso não era verdade. As mulheres dos líderes estavam sempre lá, nas visitas de domingo e nas "dormidas". Mas, em se tratando de cadeia... tudo é possível.

O ambiente estava cheio de novidades, eu passava pouco tempo na vigilância. O Desipe autorizou outras visitas de jornalistas, e eu os evitava. Promotores e advogados do Estado entrevistavam internos que reclamavam estar com pena vencida. Muitas reclamações eram pertinentes e alvarás de soltura estavam para chegar há muito tempo.

Eu ia até a vigilância e encontrava promotores examinando os arquivos. Cumprimentava o senhor Waldique e saía de fininho. Ia bater paredão, geralmente procurava Jesus para ir comigo. Agora já não era tão fácil usar o muro do pátio 3. Eu tinha doado quatro pares de raquetes e o pessoal jogava frescobol, aliás, jogavam paca. Mas atrapalhavam a batida de paredão. Só que eu tinha meu parceiro Jesus, que, educado, pedia para darem um tempo.

Aquele interno desaparecido apareceu depois de uma semana. Esteve escondido dentro da caixa de água. Bem que Pira estava desconfiado e esteve procurando lá, mas o "velho" percebeu sua presença e mudou de lugar.

O "velho" ficou sabendo que seu alvará de soltura estava na mão do diretor. Como ele não tinha para onde ir, pois estava lá havia vinte anos e não tinha família, se apavorou. Mas tudo acabou bem, arranjaram para ele trabalhar num dos albergues do Desipe.



29/3/1983. Os feriados se aproximavam, e só se falava em sair para visitar a família e na "dormida". Isso e mais jornalistas visitando e querendo entrevistas, os promotores e advogados do Estado procurando gente para soltar. Essa situação causava um certo frisson na massa e

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tumultuava minha cabeça. Já estava havia dois dias sem bater paredão, pois, se me fotografassem, sairia matérias nos jornais e eu até adivinhava qual seria o texto.

A intranqüilidade de Pira com "entradas e carrinhos" me deixava assustado. Será que era tão séria assim a situação? Outra coisa: será que teríamos "dormida"?

Fui até a vigilância marcar presença. Estava tudo em paz, as fichas que tinham sido remexidas estavam arquivadas. Waldique não estava, e um dos internos que trabalhava na mesa ao lado da minha estava de porre. Tinha arranjado uma garrafa de álcool e não achou nada melhor que jogar metade fora e completar novamente com laranjada. Mal começou a beber, ficou num porre que deixou todos ali preocupados. Se alguém da administração visse aquilo, iria sobrar para todo mundo. Decidimos levá-lo para sua galeria. Eu tomaria conta da seção enquanto Chaves e Luiz o levavam. Foi difícil, já que o álcool o pegou de tal jeito que saiu arrastado. Demoraram a voltar pois tiveram de fazer muito ziguezague para evitar os agentes penitenciários.

Finalmente retornaram e eu pude sair dali. Ia em direção à cantina, mas não sei o que me deu, decidi fazer uma visita ao diretor. Afinal, ele me deixou claro no primeiro dia que poderia procurá-lo sem aviso prévio.

Subi e pedi para João do Lago ver se o diretor podia me atender. Olhou uma lista que estava na gaveta, constatou que meu nome não estava lá. Fez caras, mas levantou-se, bateu à porta e entrou. Um minuto depois eu estava ouvindo...

— Até que enfim... você apareceu sem eu intimá-lo. — Mandou que eu me sentasse e ficou me olhando por algum tempo. Depois, sorrindo: — Onde você acha toda essa força e resignação?

Me lembro bem da resposta, porque mais tarde fiquei me perguntando aonde tinha ido buscar aquilo:

— Resignação é a primeira coisa que se aprende na cadeia.

Batemos um longo papo. Ele demonstrou claramente seu desagrado com a invasão de jornalistas, promotores, advogados e até estudantes de direito.

— Isso tumultua muito, vocês estão aqui para cumprir pena e não para servir de pano de fundo a políticos. — E continuou: — Já tenho problemas de sobra. O juiz só vai liberar para sair na Páscoa quem saiu no fim do ano, e esses eu transferi, e você sabe o porquê. Hoje em dia já

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compreende, não podiam mais ficar aqui. Os internos que estão achando que têm direito à visita à família nem resposta vão ter.



Aproveitei que houve uma pausa porque alguns guardas entraram sem se anunciar e ele teve de atender. Pareciam exaltados. Ele fez sinal que esperassem, já ia atendê-los. Quando olhou para mim novamente, perguntei pela "dormida".

— Já consenti. Não sei porque Pira está fazendo esse mistério, foi autorizado por escrito, tem de entrar no diário do inspetor. — O telefone tocou, ele atendeu e me olhou depois de ouvir o que diziam. — Seu pai esta aí, vá encontrá-lo, tenho que atender aos guardas.

Falou isso, olhando e fazendo cara de quem estava de saco cheio. Levantou-se e foi até a porta comigo.

— Não fale nada sobre a "dormida", deixa o Pira pôr o aviso na lep.



2/4/1983. Marilena me surpreendeu, não avisou que vinha na quinta-feira. Nós dois estávamos no salão, ao lado do serviço social, e eu explicava para ela todo aquele movimento de advogados, promotores e jornalistas por ali. Animado, contava da "dormida" no sábado, quando tocou o alarme, longo e intermitente (fuga). Não sabendo o que fazer, optei por sentarmos em um lugar que qualquer administrador ou agente que aparecesse não tivesse dúvida de que eu estava apenas recebendo uma visita. Esta sala e o serviço social eram um pouco além da administração e da carceragem. Pouco tempo depois, apareceu um agente, mas só olhou e saiu novamente. Voltou quinze minutos mais tarde dando a visita por encerrada. Acompanhou Marilena até a portaria e eu voltei para a vigilância, passando por um bando de promotores e advogados que estavam sendo encaminhados para a saída. Assim que entrei na seção, perguntei quem fugira. Estranhei a atitude de todos, era uma mistura de tranqüilidade e revolta. Olhei para o Chaves, e ele, que estava sempre calmo e tirando sarro de tudo, comentou:

— Até agora ninguém sabe quem disparou o alarme, já estão dizendo que foi armação dos guardas.



3/4/1983. São 23 horas de domingo, Marilena ficou 29 horas aqui comigo. Foi ótimo, deu para esquecer um pouco esse inferno e o complô dos guardas.

Não acredito que alguém possa entender a sociedade carcerária. Há uma guerra velada entre guardas e internos. Ainda não entendi a razão. Talvez, com a mudança de governo, os guardas estejam realmente

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tentando misturar todos os internos para acabar com as lideranças das falanges.



Marilena e eu curtimos a "dormida", como sempre, com sua presença, meu humor melhora.

Era sábado à noite, na hora do "confere", nós (os internos) ficamos sempre de pé, à porta, e depois de responder à chamada voltamos para nossas mulheres. Durante todo o tempo em que ficamos juntos, Marilena e eu só falamos uma vez sobre o clima que havia entre agentes e internos, depois nos desligamos do mundo. Namoramos, assistimos à TV, conversamos sobre o futuro, acredito que em algum daqueles momentos me senti gente, esquecendo que estava naquele lugar horrível e degradante, naquele clima quase de guerra entre guardas e internos. Aliás, quase de guerra uma ova, era guerra mesmo. Enfim, aquilo era um "tempo". Sabe, quando você pede para "dar um tempo". Era o pique. Lembro-me tão bem, quando era criança e brincava de pique. É certo que temos de pagar por nossos crimes, mas tem de ter um "tempo" para não enlouquecer.

É duro voltar... abrir a porta, dar com a galeria e com tudo aquilo. É um choque muito forte e o sofrimento é terrível. Parece o ralo de uma banheira, aquele pingo de alegria vai saindo e você fica.

Marilena, quando estava lá, usava uma das minhas camisetas. Era o que me sobrava, dormir com elas.



6/4/1983. Retrospecto: Marilena esteve aqui na quinta-feira, quando o alarme tocou e era tudo armação daquela turma de guardas. Se quiseram chamar a atenção dos promotores e advogados do Estado que aqui estavam, o tiro saiu pela culatra. Pois foi apenas um alarme falso, demonstrou incompetência. Essa guarda não perdia por esperar.

Sexta-feira, visita normal, era Semana Santa. No sábado, Marilena entrou aqui e ficou 29 horas comigo, sua presença foi um bálsamo.

Hoje deve estar fazendo seis meses que estou aqui, o alarme acabou de tocar e o alto-falante convoca todos os internos a ir para o auditório. O diretor vai apresentar seu substituto.

— Muito caô e depois trocamos de diretor. — Foi assim que Cuca definiu aquela convocação.



7/4/1983. O dia foi calmo, apesar dos comentários sobre revoltas nos presídios de São Paulo. Em qualquer grupinho só se falava nisso.

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Mas o que estava deixando o pessoal mais curioso era a reunião de todas as turmas de guardas com o novo diretor, dr. Pedro Brito.

No fim do dia, fui informado que a Suprema Corte de Brasília tinha confirmado minha sentença. No momento em que recebi a notícia não fiquei muito abalado, mas com o passar das horas aquilo foi tomando conta de mim.

Só aí percebi que aquela era minha última esperança. Afinal, se Brasília anulasse o segundo julgamento, eu iria para a rua na hora.

8/4/1983. O clima esquentou, o novo diretor quer acabar com as lideranças. Sugeriu que cada galeria tenha dois representantes e que esses dois façam relatórios a ele.

Esse papo foi em uma reunião com todos os internos no fim da tarde, no auditório. Não fui à reunião, preferi ficar lendo, estava com o saco cheio por causa do resultado de Brasília. E ainda quase trombei com o novo diretor de manhã, quando saía da cantina. Achei que tinha me olhado esquisito. Mas o terremoto que essa reunião causou, eu assisti quando todos voltaram para as galerias. Os comentários a respeito da sugestão eram todos iguais:

— O homem está louco, quer dois dedos-duros em cada galeria. Segundo Chico Tonelada, que foi comentar os acontecimentos em meu cubículo, os internos se rebelaram na hora e deixaram claro que "as lideranças iam continuar e que isso era religião".

Acredito sinceramente que a intenção do diretor era boa, mas ele não soube se explicar. Era promotor público, não tinha a menor experiência de sistema penitenciário, acho até que nunca tinha entrado em uma penitenciária até poucos dias atrás.

De todo jeito, os internos achavam que os guardas tinham feito a cabeça dele e manifestaram isso na reunião. O ambiente ficou carregado. O que salvou foi que, no final da reunião, ele anunciou que ia dar uma festa no dia primeiro de maio, Dia do Trabalho, e ela deveria ser organizada em conjunto pela administração e pelos internos. Os internos também não concordaram e, segundo Chico Tonelada, o Cuca se levantou e falou:

— É melhô o senhô fazê o nosso jogo, dotô, senão o senhô vai caí daí. A gargalhada foi geral e ele então concordou e deixou tudo na mão dos internos. Também, segundo Chico Tonelada, o diretor ia saindo, mas voltou e fez mais um anúncio:

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— No dia da festa, as galerias, todas elas, poderão receber os visitantes. Não é visita íntima, é para todos os familiares e amigos, vamos chamar esse fato de "Jupirão".



Aí, alguns aplaudiram.

Outra coisa que demonstrava a inexperiência desse diretor foi a pergunta que fez ao encontrar Pira e Jesus, na saída do auditório.

— Como vocês conseguiram a liderança? Foi aterrorizando os companheiros?

Resposta dos dois:

— Chi! É uma história muito antiga. Começou na Ilha, mas ninguém é líder, só estamos nessa vida há mais tempo.

Mais tarde, depois do "confere", Pira apareceu no meu cubículo.

— Por que você não foi ao auditório? Se você forma com a gente, tem que estar junto. — Expliquei que tinha ficado abalado com as notícias de Brasília e tinha preferido ficar só. Ele continuou: — Esse doutorzinho vai causar problema com essa história de dois representantes por galeria. Ele mudou de assunto, falou de "Jupirão", mas não me enganou, isso é orientação do Desipe.

Nos dias que se seguiram, o novo diretor, dr. Pedro, andou por todo o prédio e conversou com alguns internos. Dizia que de uma certa maneira ia continuar tudo igual, a "dormida" mensal, por exemplo, estava garantida.



11/4/1983. Segunda-feira, acordei com ressaca moral e com muito medo. Sábado, na visita, Marilena estava ótima, mas no domingo ela chegou chateada. Choveu, e os guardas, de sacanagem, ficaram conversando, tomando café e deixaram as moças na chuva por uma hora. Eu também não estava bem, tinha ocorrido um incidente na galeria enquanto esperávamos por nossas companheiras. Uma discussão boba, mas violenta. O bate-boca entre General e Lâmpada me deixou assustado. Ontem à noite, fiquei sabendo o motivo da discussão e me apavorei mais ainda.

Pira me explicou:

— Na quinta-feira, dois "alemão" (inimigos) vão morrer, isso já está decidido, vai ser logo de manhã, uma hora depois da troca da guarda. Os guardas que estarão no plantão são os que estão causando problemas e essas mortes vão prejudicá-los. Tocaram alarme falso, deixaram nossas esposas na chuva etc. O General e o Lâmpada discutiram

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, porque um acha que não vale a pena provocar. Vai arrumar mais confusão com eles, era uma questão de política, vamos ser mais visados ainda. Aí a discussão, Lâmpada e os outros querem ir à forra com os guardas já. — Depois me avisou: — Nesse dia saia tarde do cubículo. Vamos pegar os "alemão" em lugares diferentes, um na cantina e outro em seu cubículo. Quando tudo acabar, vá para a sua seção e fique lá, de olhos bem abertos. Não se preocupe com a gente, o Preá vai assinar os crimes.

É claro que acordei mal. Como eu tinha bolo, frutas e refrigerantes, não fui à cantina tomar café. Quando desci, já levei as raquetes e bati paredão até não agüentar mais. Ao voltar para o cubículo estava exausto. Sentei-me embaixo do chuveiro e fiquei algum tempo, depois larguei o corpo na cama e dormi pesado. Quando acordei e abri os olhos percebi que tinha um camarada sentado à minha porta. Estava de costas e conversava com Nézão. Falava baixo para não me acordar. O que não adiantava nada, pois havia pelo menos cinqüenta rádios ou aparelhos de tv ligados a toda. Sentei-me e ele olhou para mim. Tinha a cabeça grande para seu corpo. Era escuro, cabelo carrapicho, havia tempos sem cortar, e uma barbicha. Olhou e sorriu, um sorriso sem um ou dois dentes.

— Oi! Sou o Adilson, seu Waldique mandou te chamar. Nézão encostou na porta.

— Você conhece o Capeta (Adilson)?

Daquele dia em diante, o Capetinha passou a fazer parte do meu dia-a-dia. Além disso, ele adorava o Chico Tonelada, que era praticamente meu vizinho.

Então era Capeta para tudo: ir à cantina buscar coisas, procurar a Baiana que estava atrasada com minha roupa e limpar meu cubículo. Era esperto, arranjou uma faxina muito boa na cozinha dos funcionários. Então, toda tarde, trazia meu jantar e o do Chico.

Vesti-me rápido e fui para a vigilância atender o chefe. Tinha um bando de internos saindo e um outro entrando. Bianca estava no meio dos que estavam levando "carrinho". Depois de umas duas horas de um certo tumulto, pelo volume de entradas e saídas, subi até a galeria, nem sabia bem por que estava fazendo isso, acho que era para sair um pouco da seção. Passei pelo cubículo do Pira e parei um minuto. Comentei que estava entrando e saindo muita gente, naquele exato momento. Quando falei isso ele se sentou preocupado e quando contei que a Bianca estava

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no meio... ele catou uma calça e saiu a toda, em direção à vigilância. Como não entendi nada, fui perguntar ao Chico Tonelada o que podia significar aquilo. Ele ficou olhando para o teto pensando...

— É... o ambiente está esquisito, quem sabe o que Pira e Bianca tramam. Ela pode estar guardando armas para ele. É pouco provável, mas não é impossível. Ela estava aflita?

Respondi negativamente:

— Pelo contrário, saiu dando adeusinho, rindo e rebolando, dizendo que, se eu fosse dela, me trataria como príncipe.

Ele riu.

— Essa Bianca... ela sabe muito, sabe para onde ela foi? — Respondi:

— Foi para a Ferreira Neto em Niterói.

— Lá não tem problema. Aliás, você deveria ir para lá, não sei por que está aqui. Isso aqui é um perigo, é para nós, bandidos.

Mais tarde estive com Pira. Ele estava calmo e não tocou no assunto.

15/4/1983. Não consegui dormir a noite passada, ainda mais porque Lâmpada esteve me visitando. Fez um "charuto" enorme e só foi embora depois de acabar com meus refrigerantes e meu pão de forma. Eu sabia que ele e Jesus eram os chefes do "bonde" (grupo de internos encarregados da "limpeza"), mas não tocamos no assunto. A princípio eu não sabia de nada. Nunca vi camarada tão tranqüilo, nem parecia que tinha missão tão macabra. Sei que eles não tinham outra coisa a fazer, se não tomassem aquela atitude, em breve seriam eles. O que chamava a minha atenção era a tranqüilidade com que eles encaravam a situação. Tinham de tomar uma atitude e tomariam. Aquilo deveria chamar a atenção da administração, de que misturar facções começaria uma guerra. Ficamos conversando até tarde e teve um momento em que eu já estava doidão e resolvi dar uma opinião sobre alguma coisa, e usei uma frase mais ou menos assim:

— Você que é meio dono da cadeia, por que...

Não tenho a menor idéia do que sugeri, mas nunca esqueci sua reação. Estava sentado na beirada da minha cama, enrolando outro charuto e, ao ouvir o que eu disse, parou e ficou me olhando.

—Você é meu irmãozinho, nosso príncipe e não vou ficar bravo, mas não chama ninguém aqui dentro de dono de cadeia, isso é uma ofensa.

Passou a língua na seda para dar acabamento ao "charuto". Feito isso me entregou e...

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— Acende aí! Eu estava fazendo isso e o General apareceu à porta. Abriu a mão e jogou um "papelote" na cama.

— Essa aí tá brilhando... vem Lâmpada, o Paulo tá chamando. Resposta surpreendente:

— Mais tarde eu vou. Mas olha... não vou comer cu, não. Acordei muito mal, com ressaca moral, daqui a pouco dois iriam morrer. Isso se não estivessem prevenidos e não revidassem, o que pioraria a situação, principalmente se olhar pelo aspecto de que haverá mais mortes, mais danos e até uma revolta.

Faria exatamente como Pira tinha me instruído. Mas o melhor no momento era tomar um banho, olhando o relógio da Central do Brasil. Assim não ficaria tão ansioso esperando o alarme tocar. Eu nunca tinha sentido algo assim, o silêncio era total, pesado. Tive a impressão de que o tempo tinha parado, o mundo não girava... só o silêncio sepulcral era percebido. De repente levei um susto e quase caí. O alarme tocou e não parou mais. Durou uns cinco minutos, com seu gemido agudo. Quando parou, eu já estava vestido e pronto para destravar a tranca da minha porta e sair em direção à vigilância. Ao sair para a galeria, vi Chico Tonelada. Estava sentado à sua porta, só de shorts com as mãos na cabeça. Assim que me viu e percebeu que eu ia descer, me chamou:

— Aonde você vai?

Fui até ele e contei da minha conversa com Pira. Segurou-me:

— Fica aí, espera mais um pouco.

Ele estava muito assustado. Enquanto estive com ele, me contou que na cadeia todos, ou quase todos, sabiam que aqueles dois iriam morrer, só os próprios não conheciam seu destino. Esperei quase uma hora e desci.

O movimento de internos era menor, mas o som de rádios e o barulho estavam de volta. Não perdi tempo, nem olhei para o lado da cantina, onde tinham planejado pegar uma das vítimas, fui direto para a seção. Os internos que encontrei no caminho falavam alto e riam. Encontrei Wal-dique sentado em frente à mesa do Chaves, conversando. Falavam baixo e, quando me viram, fizeram sinal para me aproximar. O chefe disse para eu sentar e ficar calmo, que dois internos tinham morrido.

— Coisas de cadeia.

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A Polícia Militar já tinha entrado e prendido o Preá, que se apresentara à inspetoria e se declarara o autor dos crimes. Alegou que as vítimas o perseguiam e o ameaçaram de morte. Que, apavorado e sem saída, resolveu matá-los. Waldique disse:



— Não acredito nessa história.

Quando ia continuar, o telefone tocou e ele foi para a sala do diretor.

Todos os "faxinas" da vigilância estavam ali. O movimento de policiais militares tinha acabado, esperávamos a sirene chamando para o almoço. Jesus apareceu à porta, sorriu para mim, pôs a mão na altura do coração.

— Está tudo bem.

Convidou para comermos qualquer coisa na cantina. Eu não tinha a menor vontade de acompanhá-lo, mas não titubeei, saí imediatamente e acompanhei-o até lá. No começo não tinha idéia sobre o que falávamos, mas lembro perfeitamente da tranqüilidade e da disposição dele comendo o hambúrguer e tomando Coca-Cola. Nem parecia que ele tinha comandado o "bonde" (grupo que participou do crime) que fizera o serviço ali um pouco antes e que, provavelmente, tinha dado a primeira estocada.

Foi ele quem me contou, tudo, logo após o lanche. Parecia com pena da vítima e aliviado por tudo já ter acabado. Quando abordou o assunto, suas primeiras palavras foram:

— Já passei o diabo no sistema e não pensei que aqui tivéssemos que continuar as "limpezas".

O primeiro a morrer foi apanhado de surpresa em seu cubículo, que ficava na mesma galeria que o do Chaves (ele me confirmou tudo mais tarde).

O "bonde" fez um amigo de confiança da vítima bater em sua porta. Quando ela abriu, foi atacada por uns dez internos e levou mais de oitenta estocadas. Até um interno que não tinha nada a ver com o "bonde" entrou no cubículo da vítima depois de ela já estar deitada, e provavelmente sem vida, e deu-lhe mais algumas estocadas.

O outro foi pego na escada. O número de internos desse "bonde era maior. Convidaram-no a tomar café na cantina e, lá ou a caminho, o mataram com mais de cem estocadas.

Segundo o que o Hugo me contou, depois que Jesus terminou o lanche e saiu, o que aconteceu foi o seguinte: mais ou menos vinte

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internos passaram pela cantina falando alto e rindo. Não pararam apenas passaram por lá. Como ele não percebera nada estranho, a não ser que ninguém mais tinha aparecido, só se deu conta porque um desavisado que ia chegando saiu rápido e apontou para o chão. Só então olhou o outro lado do balcão e encontrou o coitado lá deitado, cheio de sangue.

Não consegui lanchar nem almoçar, aquela manhã me tirou do ar, fiquei completamente desnorteado. Fui para o meu cubículo, queria ficar sozinho. Isso tudo me incomodava. Depois dos crimes, do movimento de policiais militares entrando e saindo, de recolherem os corpos e de todos os chefes de seção se reunirem com o diretor, tudo voltou ao normal, como se nada tivesse acontecido.

Naquela mesma tarde, mamãe e Marilena estiveram me visitando. Quando apareci no salão, elas estavam bem. Só acharam estranho, na hora em que estavam entrando, verem dois cadáveres sendo postos num rabecão. Estranharam também porque, de uma janela que dava para o jardim da entrada, viram Jesus e Lâmpada dando adeusinho. Quando elas se aproximaram, eles disseram:

— Não se preocupem, está tudo bem com o príncipe.

18/4/1983. Revistaram todos e tudo. Muitos colchões foram cortados, armários desmontados. Com um bastão de ferro batiam no solo e nas paredes dos cubículos à procura de "cafofos" com drogas ou armas escondidas. Nunca tinham me revistado, o meu cubículo sim, mas a mim era a primeira vez. Quando há uma "geral", pedem para a gente sair e esperar na galeria em frente à porta. Revistam tudo e você volta para colocar tudo em ordem. Desta vez, após virarem o cubículo de ponta-cabeça, mandaram que eu entrasse e tirasse a roupa e examinaram a bainha do jeans. Podiam perfeitamente fazer isso sem me deixar nu, mas acho que estavam a fim de me humilhar. Não acharam nada, nem comigo nem no cubículo. Não acharam nada na quarta galeria (que foi a única naquela noite a receber a visita dos guardas).

Aquela história de o Pira começar a chamar mamãe de segunda mãe era estranha, ele chegou até a escrever bilhetes para ela, que iam com minhas cartas. Na quinta-feira, quando ela esteve aqui com Marilena e viu os "presuntos" saindo, ele deu um jeito de ir até o salão onde estávamos, para abraçá-la e tranqüilizá-la. Seus esclarecimentos eram a pura verdade. Ele dizia:

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— Ele se dá bem com a massa, não se envolve com nada, gosta de andar sozinho e o esporte que gosta, que é bater aquela bola no muro, ele também faz só.



Também achei estranho ele aparecer em meu cubículo para ter uma conversa séria (que tinha sido interrompida pela "geral"). Fiquei preocupado, custei a dormir naquela noite pensando nisso. Como a vida ali era complicada, tudo tinha de ser analisado. Um sorriso, uma atitude... não dava para deixar passar nada, que coisa mais exaustiva.

No dia seguinte só cheguei à seção um pouco antes das dezessete horas. Bati paredão das sete às oito, com Capetinha assistindo e apanhando as bolas. Mas estava exausto, não tinha dormido direito e, nesse estado de ânimo, acabei por jogar todas as bolas por cima do muro. Depois de telefonar para Marilena, voltei ao cubículo e só saí para ir à seção no fim do expediente. Tinha acabado de sentar-me em meu lugar quando Pira apareceu. Ficou por ali, olhou um mapa que mostrava todos os cubículos e depois me convidou para comer um sanduíche.

Logo que saímos da seção, disse:

— Vamos pegar sanduíches e Coca-Cola, que vou levar você pro telhado; a tarde está fresca e de lá se vê a cidade. — Perguntei se não havia problemas com os guardas. — Ninguém vai ver a gente, os guardas vão estar tomando conta do refeitório, e o guarda da guarita eu conheço.

O telhado era tão velho quanto o prédio, mas estava bem conservado. O que estava mal era o forro, as caixas d'água, os fios soltos ou os que saíam, emendados em antenas. Isso era tudo sujeira e abandono. Agora, lá em cima era bonito, para mim principalmente, que não vi mais nada desde que entrei ali. Só não vimos o sambódromo porque não existia nem o projeto. Sentamo-nos num lugar alto e ficamos olhando e assistindo ao pôr do sol, que parecia todo riscado por causa dos prédios. Fiquei emocionado ao ver a cidade que eu sempre amei. Pira dizia:

— Esta cidade é minha. Eu preciso sair daqui, apesar de que, se eu agüentar mais dois anos, saio dentro da lei. Já estou preso há muitos anos, passei por muita coisa dentro do sistema, a maior parte na Ilha Grande. É um lugar lindo, tenho saudades de lá. Quando a gente chega lá é muito sacrificado para a família. A viagem é longa e a barca desconfortável. Mas, na época em que fui preso de confiança, morava fora do presídio com a minha mulher. Acredite, foi a época mais feliz

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de minha vida. O mar, a horta, nossa casinha de pescador... Eram tempos de linha-dura e todos éramos condenados pela Lei de Segurança Nacional. Foi nessa época que formamos a Falange Vermelha. Com a Falange as rebeliões e as mortes diminuíram, e conseguimos muitas regalias para os internos. Fora que, quando os presos saíam de lá tinham gente para procurar e planos para executar. Isso nos rendia uma porcentagem e auxílios. Mas sempre tem os que não concordavam e começavam a querer organizar outros grupos. Nós tínhamos conversado muito com os políticos que estavam lá, presos como a gente, porque eram contra o atual regime. Assistíamos a suas conversas, seus planos e aprendemos a nos organizar. Os internos que não concordavam conosco se agruparam e quiseram tirar nosso poder. As mortes começaram novamente. Fui para um dormitório repleto e dormia na sexta cama de um beliche. Tínhamos que dormir escoltados por companheiros, com medo de sermos mortos. Por isso escolhi o último andar do beliche. Se bem que o pessoal de lá fabricava lanças, e furar alguém no sexto andar não era difícil. Precisávamos dormir com gente tomando conta, não por causa dos companheiros de dormitório, ali havia uma certa união, era por causa dos "alemão". Tínhamos receio de ter o dormitório invadido. Então decidimos atacar o dormitório dos inimigos. Numa noite escura, achamos que era o momento e atacamos com estoques e lanças. Apesar da vantagem da surpresa, houve muita resistência e muitas mortes. Me acertaram muitas estocadas e acabei num hospital, aqui no Rio de Janeiro. Quando me recuperei vim parar aqui. Até pouco tempo atrás, a Falange Vermelha comandava a Ilha Grande. Depois começaram com as transferências malucas e está tudo desse jeito. Hoje em dia já existe a Falange Jacaré e o Terceiro Comando. Aqui mesmo tem uma porção deles. Acho que alguma coisa muito séria está para acontecer.



Fiquei o tempo todo quieto, ouvindo aquele homem contar uma parte da sua vida. Não abri a boca, não interrompi nem uma vez. Acho que durou um bom tempo essa narrativa, uns quarenta minutos, mais ou menos. Sabia que tudo o que tinha acontecido ultimamente tinha o dedo dele, e sabia também que ele estava certo numa coisa: não se devem misturar quadrilhas.

Começamos a voltar e, antes de entrar no forro do telhado, perguntei o que ele queria falar comigo desde a noite anterior.

— Preciso pensar mais um pouco, amanhã a gente se fala.

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Descemos e fomos em direção à nossa galeria. Para fazer isso, tínhamos de passar em frente à inspetoria, e como aparecemos vindos do pátio 3, o inspetor ficou olhando desconfiado. Provavelmente ele tinha inspecionado aquele pátio e não tinha encontrado ninguém, e agora não entendia bem o que estava acontecendo. A inspetoria dava para os orelhões e para uma das portas do refeitório. Para demonstrar despreocupação, Pira parou nos orelhões, pegou um telefone e ligou para a mulher dele. Eu segui em frente e subi a escada que ficava a uns quinze metros de lá.

19/4/1983. Preocupado com a conversa que iria ter com Pira, saí cedo da galeria e fui para a vigilância. Cheguei tão cedo que tive de ficar sentado à porta esperando o Chaves chegar. Tinha dormido bem, apesar do pressentimento de que Pira iria me pedir alguma coisa muito séria, pois ele estava me cercando há dias. Seria dinheiro? Era pouco provável, ele conhecia a minha situação.

O Chaves chegou rindo e brincando, como sempre, e abriu a porta. Eu já estava entrando, mas parei porque ouvi vozes no corredor. Olhei naquela direção e vi uns cinqüenta policiais militares, mais uns quinze agentes penitenciários entrando no auditório. Não falavam alto, eu ouvia mais o barulho de seus passos.

Peguei umas fichas que estavam em cima do arquivo e, conversando com Chaves, fui arquivando. Estávamos intrigados com aquele monte de policiais e guardas no auditório. O Chaves era engraçadíssimo:

— Nossa, quanto homem fardado, será que vieram fazer visita íntima com a gente?

Não sei se o diretor ouviu, mas, quando percebemos, ele estava na porta. Éramos quatro na seção naquele momento, seu Waldique devia estar no auditório junto com os outros. Magro, antipático, barba clara e óculos, o diretor nos ordenou impaciente:

— Saiam daqui, vão fazer outra coisa.

Os pátios estavam cheios. A não ser os "faxinas" que estavam nas seções, ninguém sabia da reunião que estava acontecendo no auditório. Os pátios 1 e 3 estavam ocupados com jogos de futebol, o primeiro com futebol de salão e o terceiro com futebol de campo. Naquela época do ano o clima era mais agradável e dava perfeitamente para ficar no cubículo sem o ventilador.

Resolvi ir para o cubículo e ler uma revista que Marilena trouxera, a Time, que tinha um artigo que me interessava: "Cocaine folly". Eu já tinha

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passado os olhos, mas, como tinha preguiça de ler em inglês (pois tinha de me concentrar muito e assim mesmo perdia uns trinta por cento), fui deixando para depois. O artigo era sobre a liberação dos tóxicos. Eu sempre fui a favor da liberação, pois no mínimo acabariam as quadrilhas ligadas às drogas. Morreria gente por isso, mas só, não de tiros por dívidas com o tráfico nem de balas perdidas pela guerra por pontos nos morros e favelas.



Tinha acabado de ler o artigo e folheava a revista, quando Pira chegou. Sentou-se na cadeira, ficou olhando para os pés, até começar a falar. Dizia que a situação estava incontrolável. Que haveria fugas e mortes. Que, talvez, tivesse de fugir, apesar de seu plano de sair em dois anos por término da pena. Mas, se fosse necessário...

— Será que sua mãe me esconderia por uns tempos? Ela não correria risco. Eu garanto. Além do mais, lá ninguém me conhece.

Pira realmente me pegou de surpresa e demorei um pouco para me recuperar. Expliquei que a única pessoa que poderia convencer mamãe a escondê-lo era o meu amigo "banqueiro". Ela não faria nada sem falar com ele.

Pira ficou pensando um pouco e disse se levantando:

— É melhor eu pensar um pouco mais, ele é capaz de se aborrecer por eu pedir isso à sua mãe. (Nunca mais tocamos naquele assunto.)

Depois da sua visita, resolvi ir à cantina do Antônio. Queria comer um bife acebolado com arroz e feijão. As cantinas estavam proibidas, mas nunca pararam de funcionar. O Capeta apareceu e eu pedi que fosse em meu lugar encomendar e trazer a comida. Ele achou melhor eu pedir sanduíches da cantina do Hugo.

— O ambiente está sinistro, está cheio de polícia conversando com o diretor.

Desci com Capeta, convidei-o para um lanche, mas ele não aceitou, tinha de voltar para a cozinha dos funcionários. Tinha ido me procurar porque precisava de alguns cruzeiros para resolver uma "parada" que o estava preocupando (uma pequena dívida de jogo).

Fiz um lanche rápido e fui me arrumar para voltar à seção, papai talvez aparecesse. Já estava na escada, quando notei que o pessoal estava subindo e avisando que ninguém podia sair das galerias porque ia começar uma "geral". Voltei, pus um shorts e fiquei esperando.

Depois de alguns minutos o diretor apareceu com o chefe de segurança e uns quinze policiais militares. Quando chegaram ao meu cubículo, eu saí e entrou um policial alto e gordo. Antes de entrar, disse:

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— Com licença.



Não agia como os outros que tiravam as coisas e jogavam no chão. Levantou meu colchão com cuidado, passou a mão em volta, examinou tudo o que eu tinha e pôs tudo no lugar. Tirou o espelho enorme que Jesus tinha me dado e me chamou para ajudar a colocá-lo de volta. Examinou minha Tv e o rádio, e puxou a cortina, olhou e passou a mão atrás do vaso sanitário, depois chegou no meu armarinho com espelho, que Lâmpada me arranjara. O espelho ficava na pequena porta e lá ficavam o copo, escova de dentes etc. Ele bateu com o dedo indicador no fundo e fez um barulho oco. Olhou para mim e disse:

— Vem aqui. — Me aproximei e... — Aqui tem um "cafofo", vou ter de tirar a parte de trás.

Tirando tudo de dentro, empurrou o fundo com o dedo e depois puxou. Realmente tinha um fundo falso, só que felizmente estava vazio. Soltei um suspiro demonstrando toda minha tensão. Ele riu e perguntou onde eu tinha arranjado aquilo.

— Comprei de um corretor, nem me lembro mais. — E acrescentei: — Nossa! Que susto.

O guarda riu e me aconselhou a examinar bem o que comprava na cadeia. Continuando a rir do meu susto, se retirou desejando boa tarde. É difícil esquecer um camarada educado, que tem de fazer um trabalho desses.

Naquela tarde o pátio ficou cheio de tudo, novamente. Estoques, fumo, baralhos e até papelotes, pois, na hora que fizeram aquela "geral", cortaram a água; não adiantava jogar o pó na privada ou no boi e tentar puxar a água. Na nossa galeria não encontraram nada, mas nas outras pegaram uns caras de bobeira com fumo e pó. Ouvi dizer que apanharam bastante para contar como tinham arranjado aquilo. Não tive provas disso, só comprovei que catorze internos foram parar nas "surdas" e, dias depois, alguns deles foram transferidos, pois tudo ficou registrado na vigilância. Mas, naquela mesma noite, na quarta galeria, depois que a "geral" acabou e a Polícia Militar foi embora, havia de tudo, como sempre, fumo e pó à vontade, e ninguém parecia preocupado.



20/4/1983. A vida estava difícil, pois havia muita desconfiança por parte dos internos com a nova administração e com o pessoal que o ex-diretor tinha deixado vir da Ilha. A intranqüilidade era constante. Não conseguia me concentrar para analisar os novos acontecimentos dessa situação.

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24/4/1983. Depois de uma semana tumultuada, com várias "gerais" e boatos de fuga em massa, todos andavam prestando muita atenção em tudo para não entrar em uma gelada, estando no lugar errado na hora errada.

Alguns internos que tinham chegado da Ilha, há mais ou menos um mês, exerciam uma liderança muito forte entre o pessoal jovem. Andavam sempre em grupo e o líder tinha aparência de adolescente. Pelo que pude reparar, impunha respeito e tinha idéias próprias. Apesar de termos trocado algumas palavras, ainda não sabia seu nome.

Na mesma época chegou o Professor, um grande amigo do Pira. Mulato, 1m 80 de altura, pouco cabelo, óculos e uma postura diferente de todos. Era calmo, educado, falava baixo, um verdadeiro cavalheiro. Foi morar em frente ao meu cubículo. Era cuidadoso com sua aparência, mas descuidado com o cubículo. Não tomava conhecimento das baratas e insetos que incomodavam tanto a gente. Dizia brincando que em último caso serviam até de alimento. Tirando a cama e alguns livros, não tinha mais nada.

No pouco tempo que esteve lá fizemos boa amizade. Ele gostava de recitar poesia para as moças durante a visita, então me pedia para traduzir algumas músicas dos Beatles, dos Rollings Stones e de outros sucessos. Não era casado e não tinha namorada, era o único morador da galeria naquela situação. Pira dizia que ele era muito exigente. Sua pena era grande e sua ficha criminal maior ainda. Tinha assaltado muitos bancos e, nesses "trabalhos", algumas pessoas tinham morrido. Esteve muitos anos na Ilha. A impressão que dava é que era o contrapeso, pois, sendo mais velho, olhava a jovem liderança com certo ar de superioridade e os desprezava. Postura diferente da do Pira, que era de preocupação.



26/4/1983. No domingo, às quatro da tarde, descemos para encontrar papai, como sempre. No final da visita, Marilena chamou minha atenção:

— Não acha que está tudo muito quieto e o pátio quase vazio?

Expliquei que no auditório tinha apresentação de teatro dos internos e outras coisas como declamações e preparação para o Dia do Trabalho, que estava próximo, e algumas famílias já estavam se retirando para evitar filas na portaria.

É... Marilena tinha razão, algo estranho se passava. Depois do "confere" naquela noite, o alarme tocou, longo e intermitente. Alguns internos

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estavam faltando, só na nossa galeria faltavam três, inclusive o Professor. Todos os internos estavam com cara de santo, ninguém sabia de nada.



No momento que Marilena achou que estava tudo muito quieto, houve um apagão e o auditório ficou às escuras. Em seguida, tudo voltou ao normal. (Marilena, papai e eu não percebemos porque estávamos no pátio e lá ainda havia sol.) Aquilo foi apenas para confundir os guardas, para eles pensarem que era algum defeito.

Após a visita, fomos todos para o auditório, onde estavam passando um filme. O que sei é que em um certo momento apagou tudo, a penitenciária inteira. Houve assovios, gargalhadas, piadinhas e muita movimentação da guarda e da administração. Quando tudo voltou ao normal e as luzes se acenderam, procurei por Pira, olhei por todos os cantos e não o encontrei. Os guardas estavam agitados, interromperam a programação e todos nós fomos para as galerias. Encontrei Pira vendo TV. Nem parei, pois estava ansioso para pôr meu cubículo em ordem; tinha descido às pressas com Marilena. Não tive tempo de arrumar nada quando o alarme tocou. Toque de fuga.

A fuga ocorrera durante o apagão na penitenciária, quando todos estávamos no auditório, depois que as visitas foram embora. Enquanto tomavam providências para trazer a luz de volta e a atenção dos guardas estava voltada para isso, alguns internos escaparam por baixo do palco. Quando a luz voltou e tudo parecia sob controle, fizeram a gente subir para as galerias.

Eu tive uma sensação estranha e, até certo ponto, espantosa. Estava muito envolvido com aquilo tudo e principalmente com alguns daqueles fugitivos. Senti-me exultante, como todos os internos, com o sucesso da fuga. Mimo, Jesus, Professor, Eduardinho e o Marinheiro estavam entre os vários que tinham partido.

Os jornais dos dias seguintes noticiaram a fuga e comentavam sobre o apagão e sobre o espanto das autoridades, que tinham acabado de tapar todos os buracos embaixo da penitenciária e lacrado com cimento todos os bueiros da região. Segundo o Jornal do Brasil, os fugitivos usaram um bueiro que ficava ao lado da portaria daquele complexo penitenciário, que desde a tarde esteve encoberto por uma Kombi. Também, segundo o jornal, a fuga começou por um buraco feito na parede do auditório. O jornal trazia também a foto de Mimo com o título "Uma vocação de bon vivanf, escreveram que tinha tido sucesso como jogador

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de futebol, tinha atuado em clubes mineiros, cariocas, franceses e americanos. Tinha fugido três vezes do Instituto Penal Cândido Mendes (Ilha Grande) e sempre negara pertencer à Falange Vermelha.

Realmente eu nunca o vi com Xane, Pira, Jarra, Jesus, Lâmpada e os outros. Era mais fácil encontrá-lo na capela conversando com o padre.

O jornal também deu destaque à Lemos de Brito: "É considerado como o presídio de população carcerária mais perigosa, depois da Ilha Grande. Ele concentra o maior volume de presos de alta periculosidade, mas, apesar disso, cerca de quarenta detentos vivem em cubículos individuais, sem tranca nas portas, e, durante o dia, andam em completa liberdade entre os guardas". Acrescentaram ainda que: "Ontem.. 564 internos eram vigiados por apenas nove guardas". (Essa reportagem saiu em 25/4/1983.) O jornal se enganou ao informar que só quarenta presos tinham cubículos individuais. Nas penitenciárias, todos os cubículos são individuais; se não fossem, a instituição não poderia ser definida como tal.

Obs.: Mimo foi morto pouco tempo depois. Segundo comentavam, na porta da sua casa. Tocaram a campainha, ele atendeu e foi fuzilado pela Polícia. Eduardinho perdeu uma perna por causa de um tiro que levou em um assalto na Bahia. Em 1985, quando eu já estava albergado, encontrei o Professor em um posto de gasolina. Parei para abastecer e ele, que morava em uma pensão ao lado do posto, ao me ver de sua janela, veio me abraçar. Batemos um papo curto, pois era dia e ele não podia ficar se expondo. Depois disso nunca mais ouvi falar nele. Segundo me informaram, na mesma época (1985), Jesus tinha morrido em um assalto a banco, trocando tiros com a Polícia. Nunca tive confirmação desse fato.

Daquele momento em diante, o relacionamento entre internos e guardas ficou traumático. O ambiente ficou carregadíssimo. As mulheres dos internos começaram a reclamar de abuso ao serem revistadas nos dias de visita íntima. É claro que houve reação imediata. Os guardas encontraram na inspetoria um aviso: se continuassem com aquilo, um deles ia acordar com a "boca cheia de formiga". Ninguém tinha espaço, nem nós, nem os guardas. Todos andávamos em grupos, sendo que os guardas cumpriam seus turnos, sempre preparados para sair rapidamente da carceragem, caso fosse necessário. Eles eram minoria, não teriam a menor chance.

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Apesar do ambiente, houve uma "dormida" e a festa de primeiro de maio com "Jupirão" e tudo, conforme a promessa do diretor.

2/5/1983. Nesta madrugada sumiu o Lâmpada, ninguém notou, ele pegou sua lâmpada maravilhosa, esfregou e pediu:

— Guardas sejam bons comigo, abram o portão para eu sair.

Quem resiste ao poder de uma lâmpada maravilhosa?

3/5/1983. Como sempre, a primeira coisa que fiz hoje foi telefonar para Marilena. Também, como sempre, falei com ela de olhos fechados, me transportando por instantes para nosso quarto. Esses telefonemas eram cedo, antes das sete. Eu conseguia sentir exatamente o ambiente e quando Manon (uma poodle miniatura) latia, eu captava sua alegria e seus pulos, tinha certeza de que ela sabia que Marilena falava comigo. Aqueles eram momentos sagrados, não começava meu dia sem aquilo.

Terminado o telefonema, fui para a vigilância e arquivei a ficha do Lâmpada, que estava em cima do arquivo e continha informações sobre sua fuga. Anotaram: um telefonema anônimo alertara que o interno conhecido como Lâmpada tinha se evadido, que tinham visto ele descer de uma Kombi do Desipe de madrugada. Eu arquivei essa ficha, apesar de achar que se alguma autoridade lesse ia dar um rolo danado. Eu não tinha nada a ver com isso, meu trabalho era pôr a ficha no lugar e foi o que eu fiz. Só que não foi exatamente daquele jeito que descobriram.

Como descobriram: na troca da guarda pela manhã, nada havia de anormal no relatório deixado pela guarda que acabara de sair. Só à tarde, quando o advogado do Lâmpada veio visitá-lo, é que deram pela sua falta, pois ele não foi encontrado. O seu advogado não entendeu nada. O alarme tocou, houve o "confere" e só então constataram seu desaparecimento.

Para surpresa geral, o alarme também tocou na penitenciária vizinha, na Milton Dias Moreira; lá também tinha desaparecido um interno.

Os jornais só ficaram sabendo desses fatos dez dias depois. Pelo menos eu só encontrei notícia dos desaparecimentos no dia 13 de maio, numa reportagem do Jornal do Brasil. Narrava os fatos e contava que Lâmpada, para festejar seu retorno ao morro da Cachoeirinha, tinha comprado 50 mil cruzeiros em balas e doces para distribuir entre a criançada.

5/5/1983. Não entendendo a razão de um desaparecimento tão espetacular não ter saído nos jornais, resolvi dar mais uma olhada na

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ficha. Não a encontrei e fiquei tão preocupado que nem perguntei nada ao Chaves, pois no dia anterior, na hora em que arquivei, não havia ninguém na sala. Preferi então ficar quieto, era melhor ninguém saber que eu tinha lido a ficha. Aquela história estava cheirando a encrenca. Era voz corrente na galeria que o Lâmpada tinha saído vestido de guarda e tinha gastado 600 mil cruzeiros.

O mais estranho é que, aparentemente, tudo estava normal. Eu tinha batido paredão logo cedo, depois telefonei para Marilena e agora de tarde recebi a visita de dr. Humberto. Ele tinha algumas notícias sobre o meu recurso e parecia entusiasmado. Puxa! Se acontecesse de eu ir para a rua e sair daquele inferno... É, mas eu nunca acreditei e não queria ter falsas esperanças.

6/5/1983. Acordei cedo e, em vez de ir bater paredão, fiquei acompanhando a limpeza do meu cubículo. Já faz dois dias que o alarme não toca e não há "geral". Um grupo está reivindicando visita à família no Dia das Mães. Sei lá... oitenta por cento da penitenciária acha que tem direito. O serviço social está repleto de pedidos para encaminhar ao juiz da Vara de Execuções Criminais. A luta para sair é sempre incansável, muitos tentam, pouquíssimos conseguem. Com isso na cabeça, de bloco e caneta na mão, sem escrever nada, ia assistindo ao Capeta limpar o cubículo. No final, após ficar sozinho, escrevi estas poucas linhas: "Peço que Deus me conserve tranqüilo, que os sonhos não me abandonem, que eu possa olhar o mundo novamente. Não quero sentir de novo que eu não participo mais dele".

Maio começou com os ânimos agitados, o novo diretor Tinha pegado uma batata pelando na mão. Mal tomou posse e mataram dois internos. Para aumentar a tensão, o pessoal da Falange Vermelha estava indo embora sem alvará (fugindo).

Próximo domingo é Dia das Mães e 52 internos irão visitar suas famílias. Quantos voltarão? Por mais que o novo chefe de segurança seja um homem de experiência, não poderá prever quantos estariam dispostos a retornar. A lei entre os internos é clara: bandido que é bandido não volta. Parece que o novo diretor não pensa assim:

— Tem de voltar e pronto.

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No meio de toda essa confusão, uma coisa boa: o diretor concedeu uma "dormida" no próximo sábado.



Alguns dias atrás, com tudo contribuindo para deixar a administração preocupada, houve um fato que quebrou a tensão, apesar da violência. Aconteceu uma briga incrível: a Bianca (há sessenta dias transferida para o Instituto Ferreira Neto) passou uns dias aqui, voltou porque tinha de fazer um tratamento no hospital. Como era apenas uma estadia de dois ou três dias, ocupou o cubículo que lhe pertencia antes de ser transferida. Ela e minha lavadeira (a Baiana) se desentenderam, ninguém soube por quê... e quebraram um pau que, segundo me contaram, foi coisa de cinema. Durou mais de quinze minutos, ninguém tinha coragem de apartar. As duas quase se mataram no meio de griti-nhos, xingamentos, mão na cintura e rebolados, davam pernadas, socos, e golpes de capoeira. Ambas são perigosas e acabaram se machucando muito, tiveram de baixar no hospital. Uma delas com a marca do ferro de passar nas costas.

Bianca tinha muitas especialidades como criminosa. Era assaltante para qualquer ocasião, como ela mesma dizia, mas o que gostava mesmo era de arrastar os "bofes" para um "boa noite, Cinderela". Estivemos juntos na penitenciária Lemos de Brito, no Rio de Janeiro, e na Ferreira Neto, em Niterói. Em 1987, um pouco antes de eu vir para São Paulo na condicional, me contaram que tinha sido solta e morta em seguida. Seu amante, um rapaz bem-apessoado, assaltante de bancos, que tinha dispensado a visita da namorada por causa dela, também morreu na saída de um forró na periferia.



9/5/1983. A "dormida" que o diretor concedeu transcorreu normal, foram 29 horas de namoro e companheirismo. Apesar de o clima continuar pesado, e de eu pressentir que algo iria acontecer, Marilena e eu nos conservamos tranqüilos. (Mesmo com dois incidentes que mexeram muito com minha cabeça.)

Nos dias que se seguiram houve problemas, mas foi só na administração. O diretor não se conformava que a maior parte dos internos que saiu no Dia das Mães tinha se apresentado no Desipe em vez de no presídio. E os que não se apresentaram lá, no Desipe, caíram no mundo. O diretor tentou castigar os que se apresentaram ao Desipe, mas não conseguiu, porque, como não foi caracterizada a fuga, o juiz acabou mandando todos para a penitenciária Ferreira Neto, em Niterói.

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Acho que foi nessa época que Pira conseguiu com o diretor a ordem para construir uma piscina.



Os internos das galerias de visita íntima estavam reunidos para achar um jeito de as crianças ficarem no pátio, enquanto eles ficavam com as esposas nos cubículos. Precisavam ter algum tempo de tranqüilidade. Eu, que assistia a essa reunião, falei brincando:

— Podemos construir uma piscina, arranjo o material.

Pira imediatamente achou que era possível, se fosse uma piscina do chão para cima. É claro que não iam deixar a gente fazer um buraco. Bom, Pira conseguiu a autorização, e eu, o material. Telefonei para o meu amigo "bicheiro" e pedi que me fizesse mais esse favor. Ele gargalhava ao ouvir o meu pedido. Dois dias depois, recebemos o material para uma piscina de quatro metros quadrados por mais ou menos oitenta centímetros de altura. Eram tijolos, sacos de cimento, ladrilhos, areia e material impermeabilizante. Esse tanque ficou pronto em tempo recorde. O número de pessoas trabalhando era incrível, só paravam para ir dormir (mão-de-obra tinha à vontade). Foi construído no pátio 1, atrás da quadra de futebol de salão. E lá tive um momento de descontração que só o Cuca seria capaz de proporcionar.

Numa tarde ensolarada e com a "piscina" já na fase de acabamento, Pira, Cuca, Capetinha e eu assistíamos aos arremates. O Cuca, muito moleque, acendeu um baseado. O pátio 1 estava cheio e ninguém deu atenção para aquele fato. Mas um guarda mais atento percebeu e veio em direção ao Cuca, que, avisado, se distanciou um pouco. Para acender o baseado, ele tinha usado um cigarro, que continuava em sua mão. Abordado pelo guarda, que já não estava mais sozinho, pois tinha chamado um companheiro, Cuca mostrou o cigarro. Para que ele não tivesse tempo de nada os guardas o levaram para a inspetoria, queriam revistá-lo. Capetinha e eu ficamos preocupados, Pira continuou fiscalizando a obra; aparentemente estava tudo normal, o futebol não parou, nem o trabalho do pessoal na piscina. Depois de uns vinte minutos o Cuca apareceu no fundo da quadra caminhando em nossa direção. Vinha andando devagar, prestando atenção no jogo de futebol. Quando chegou perto abriu um sorriso e enfiou a mão na boca, tirando a dentadura e o baseado, que estava escondido entre o céu da boca e o "aparelho de mastigá”, como ele costumava dizer.



12/5/1983. Não era só no conjunto penitenciário de Frei Caneca que as coisas não andavam bem. O ambiente estava pesado em todo

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o sistema. No presídio Esmeraldino Bandeira, em Bangu, tinha acontecido uma rebelião com conseqüências seríssimas. As administrações conseguiram esconder os fatos por uns dias, mas nós ficamos sabendo durante os acontecimentos. A impressão que dava é que era tudo muito bem orquestrado. Eu estava lá havia quase oito meses, a diferença de ambiente, entre a época que cheguei e a que estava vivendo, era enorme. Eu achava e acho que as transferências feitas a esmo, misturando as falanges, tinham posto fogo no paiol.

Além disso, os guardas estavam se dando mal com os novos administradores, não falavam a mesma língua. Coisas fora do comum aconteciam: o diretor de Bangu foi agredido por um guarda e, mais estranho ainda, é que ele pertencia ao efetivo da Lemos de Brito. O que será que o guarda foi fazer lá? Não acredito que tenha ido até Bangu só para agredir um administrador.

Para descontrair, continuava batendo paredão até a exaustão. Era um jeito de descarregar a tensão e de ficar em forma. Era necessário saúde e muita atenção em todos os acontecimentos.

Lia muito e estava sempre com um livro na mão. Toda semana Marilena me trazia um ou dois livros, é bem verdade que grande parte eram best-sellers, mas assim mesmo era ótimo, me transportava para outros lugares.



14/5/1983. Nesta madrugada a administração foi ativa, deu vários "carrinhos". Um deles no Marinheiro, que tinha sido capturado e estava na "surda". (Eu não sabia que ele estava lá, como também não sabia que tinha sido capturado no túnel.) Com ele, foram mais dez de outras galerias, foi também um da nossa.

Lá pelas três da manhã, ouvi barulho e saí para a galeria. Queria saber o que estava acontecendo. Levaram o morador do cubículo 6. Só o conhecia de vista, era um dos conselheiros de Pira. Camarada quieto, sempre na retranca. Segundo Tonelada, que também assistia a sua saída, se ele fosse para a Ilha, correria risco de morte.

Como não conseguia dormir e ainda era alta madrugada depois que os guardas levaram o morador do cubículo 6, resolvi escrever para Marilena, que, ao sair no domingo, tinha ido para Campos do Jordão, para a casa de Ana Maria e Bené, nossos amigos do coração. Marilena merecia aquela semana de descanso, pois havia tempos não fazia outra coisa senão trabalhar e vir me ver. Toda sexta-feira saía de São Paulo no

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fim do trabalho e vinha para o Rio. Nem sempre vinha de avião (por razões óbvias) e aí o sacrifício era ainda maior. Uma vez foi furtada no metrô, a caminho da rodoviária. Foi engraçado. Ao perceber que tinham lhe batido a carteira, voltou e procurou no balcão de achados e perdidos da estação, pois tinha ficado sem os documentos, inclusive a credencial de visita da penitenciária. Achou sua carteira e, para seu espanto, com mais dinheiro do que quando fora surrupiada.

Ao chegar à vigilância na manhã seguinte, percebi que Marinheiro e todos os que foram transferidos de madrugada tiveram o mesmo destino, Ilha Grande.

Era preocupante... pelo menos um, o que tinha saído da minha galeria, corria risco de morte. E se ele morresse lá, alguém morreria aqui. Será que a nova administração não percebia que pelo menos inicialmente era melhor voltar atrás e deixar cada facção em um instituto? A não ser que isso fosse um plano de extermínio. Deixá-los todos misturados para que eles se liquidassem. Tive vontade de falar com Pira sobre essa hipótese, era melhor todos se aliarem por uns tempos, do que fazer o jogo da nova administração. Como isso era hipótese e eu nunca tinha me metido nos rolos deles, fiquei bem quieto no meu canto.

Tinha outra coisa que agora tinha piorado: a mendicância. Os caras que estavam chegando não tinham nada, os cubículos estavam destruídos, e era voz corrente que o governo que tinha saído deixara dívidas e, por conseguinte, verba... "nem pensar". Parece que a situação era caótica, os jornais já tinham farejado falta de comida nos presídios e algumas notícias já tinham aparecido.

Analisar tudo aquilo, pensar a respeito, me deixa assustado. Tinha vivido muita coisa em minha vida, mas aquilo que eu assistia agora era outra coisa. A partir do momento em que começaram as transferências e mesclavam as falanges, eu estava vivendo numa fábrica de transformar seres humanos em animais. Ali, a coisa era mais embaixo. A meu ver manipulavam para a desordem. Nunca entendi quem eram os beneficiários.

Ficava preocupado quando lia o que eu escrevia em momentos de desespero. Achava que estava me tornando uma pessoa pior. Havia muito já não tinha boa opinião a meu respeito e agora, vivendo ali... Em meados de maio escrevi: "Quanto pode agüentar um ser humano? O clima aqui está quente, as facções não se entendem. Procuro ficar por fora de tudo, nem ouvir os boatos. Prefiro estar sempre sozinho e não me

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interessar por nada, pois não há nada aqui que desperte meu interesse. A administração não me incomoda, pois procuro ficar invisível. Não ligo se há mortes, fugas e sei lá o quê. Quero sair desse humor horrível. Sabe de uma coisa? Que se foda o mundo que não estou nem aí".



Quando lia isso novamente ficava mal, pois achava que só estava preocupado comigo mesmo. Apesar de saber que aquela situação requereria uma centena de Madres Teresas de Calcutá.

Tinha de tomar mais conta de mim, andava muito irritado. O ambiente carregado tinha me atingido e eu estava perdendo o controle. Uma reação que tive me assustou e me deixou de ressaca.

Na última visita íntima, Marilena entrou chorando. Ela me trazia uma mala de roupas de cama e algumas frutas. Na revista, o guarda virou a mala e jogou tudo no chão e ela teve de catar tudo. Além disso, ele ficou falando para ela andar logo. Quando ela apareceu fui ao seu encontro e, vendo seu estado, perguntei o que havia. Ela acabou de contar, quando ele apareceu no começo da carceragem. Ela o apontou. Minha sorte foi que eu o conhecia e era meu camarada. Já tinha saído para fazer compras para mim e, às vezes, ia até a vigilância só para bater papo comigo. Quando ela o apontou, parti para cima dele. Não com insultos, mas falando sério e com meu rosto muito perto do dele.

— Você está procurando encrenca tratando minha mulher de qualquer jeito? Acha que por eu estar aqui não vou tomar providências?

Quando ele percebeu que Marilena era minha mulher...

— Desculpe, eu não olhei o nome no documento, não sabia que era sua esposa. — E, olhando para mim: — Não fica chateado. Amanhã conversamos.

Eu parei e fiquei olhando para ele, Marilena me puxou e tomamos o rumo da escada que levava à galeria. Esse guarda só conhecia os internos que trabalhavam na vigilância, era o motorista do camburão que levava e trazia os internos que iam ao fórum. Ele tinha de recolher e devolvê-los na seção, daí nosso relacionamento. Naquele dia ele estava na revista substituindo um colega.

Fora isso, no dia seguinte, quando descemos para o pátio para encontrar meu pai, havia três grandalhões sentados à minha mesa, zoando e incomodando papai. O sangue subiu e eu os tirei de lá segurando os dois pelos cotovelos (também tive sorte), o terceiro personagem levantou-se e sentou-se na mesa ao lado (que era do Pira).

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— Ei! Você não está me reconhecendo? Sou cunhado do Pira.



Ainda reclamei que eles deviam ter bagunçado a mesa do cunhado e não a minha, que estava ocupada pelo meu pai. Os outros dois, que já tinham se desvencilhado das minhas mãos, me olhavam feio. Um guarda se aproximou, olhou e continuou seu caminho. Quando Pira chegou, veio sentar ao lado do papai, que estava chateado com a minha reação. Abraçou-me e explicou que estávamos vivendo momentos difíceis.

Pois é... fiquei péssimo ao ler as anotações desses dois acontecimentos que tinham ocorrido na última "dormida". Não podia agir assim, era burrice e loucura. Confesso que tive medo, muito medo. Dali em diante me policiei o tempo todo. Não podia relaxar, tinha de ficar de olho nos outros, em mim e em tudo, até no barulho e nos sons. Eles diziam muita coisa... silêncio total, por exemplo, era tragédia na certa.



18/5/1983. A vida dessa turma vale pouco e eles não tomam o menor cuidado. Muitos dos que não voltaram da visita à família no Dia das Mães já morreram. Só do Complexo Penitenciário Frei Caneca, o Desipe autorizou uma centena de internos a visitar suas mães. Dos que não voltaram, onze presos, os jornais já informaram e as famílias identificaram seus corpos. Desses, nove morreram trocando tiros com a Polícia em assaltos a bancos e carros-fortes. Eu não conhecia nenhum. Mas outros dois que saíram um pouco antes por término de pena, eu conhecia e bem. Um foi posto em liberdade no começo do mês, foi baleado em sua casa e morreu na hora. Mas o mais incrível é que atiraram também em sua mãe, que faleceu hoje. O outro, o Tonho Maluco, voltou para o morro de origem e nem teve tempo de reivindicar seu antigo comando, foi emboscado na chegada.

21/5/1983. Hoje, Pira me contou como morreu o Roso, aquele de quem mataram a mãe também. Ele era visitado normalmente pela mulher, que tocava seus negócios no morro onde viviam. O que ele não sabia é de seu amante, que, agora, era dono de sua mulher e de seus negócios. Depois de três dias de sua chegada, a mulher e o amante o esperaram sentados num sofá e, quando ele entrou em casa, levou seis tiros. Os outros membros da quadrilha resolveram festejar e, durante essa farra, deram-lhe mais sessenta tiros, sendo que alguns atingiram sua mãe, que faleceu alguns dias depois.

Como já contei, essas anotações eram entregues a Marilena em forma de carta. Nesse dia anotei mais um fato e, depois, escrevi o que estava sentindo.

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O fato: o Lâmpada "dançou" (foi preso), foi a Polícia ou a família armou? Já escrevi anteriormente sobre a família do Lâmpada. Eles pagavam para ele sair e, quando ele "limpava" o morro, armavam para ele ser preso. Achavam ele muito louco e perigoso e, antes que tivesse idéias, davam um jeito de ele voltar para o cárcere.

Continuando: estou preocupado, não estou agüentando a barra.

Escrevi para Marilena: "Amor, me ajuda, onde é que vim me meter, esses caras aprontam paca. Marilena querida, seja sempre a minha Mar, para eu poder mergulhar em sua vida. Agora sei o que é viver no limo, vivendo e olhando a vida por seu intermédio. Não fique triste com esse humor, já fazia tempo que não desabafava... nem comigo mesmo. Amor, liga para o Raul, quero saber dele, e peça para mamãe ligar para o Luis Felipe, preciso de notícias. Minha cabeça está a mil, não consigo pensar. Escrevendo me sinto perto de você. Sabe o que é, amor? Estou com medo. Medo de ficar aqui muito tempo.

"Socorro! Sabe o que mais me apavora? É pensar que, quando sair daqui, não existirá mais nada para mim. Deixa eu ser piegas, amor. Eu adoro você. Ainda teremos um colchão com um lençol do tamanho do céu para deitar e rolar e nunca deixar de brincar. Brincar, é disso que preciso. Um beijo".

.24/5/1983. Inadimplência... essa é a palavra mais lida em jornais e revistas, e a mais ouvida em qualquer noticiário de rádio e TV. Aqui no Rio, Leonel Brizola encontrou o estado em situação de falência. Isso se refletiu diretamente no sistema penitenciário. Falta dinheiro para tudo, inclusive para comida. Segundo ouço pelos corredores da administração, temos comida para mais dez dias. Bom... não quero nem pensar no que pode acontecer se faltar comida nas prisões.

Quanto ao resto... nem sei como analisar. De uns tempos para cá diariamente acontecem mortes e fugas em todos os setores do sistema.

Hoje, aqui do lado, na Milton Dias Moreira, logo nas primeiras horas encontraram um interno morto com uma centena de estocadas. Não houve "robôs". Ninguém se apresentou como autor do crime. Na Ilha houve fuga em massa. A Polícia e os caçadores de fugitivos estão nos pântanos, matas e praias tentando recapturá-los. É uma situação complicada,

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a mata fechada, os fugitivos acuados por policiais, caçadores de presos e cachorros, que viram verdadeiras feras.

Segundo os jornais, cerca de dez presos tiveram sucesso na fuga e conseguiram chegar à cidade, que ficou em pânico. No Jornal do Brasil há uma foto grande de uma passeata em Angra dos Reis protestando contra a falta de segurança, a constante fuga de presos e a concessão de passes livres a presos de alta periculosidade.



26/5/1983. Há dois boatos, o primeiro é que fugiram 32 do Água Santa. (Os jornais matutinos não comentaram nada.) O segundo é que virão de lá vinte internos. Segundo o mapa da vigilância, aqui só dois cubículos estão vagos, o que quer dizer que "carrinhos" vão ocorrer.

28/5/1983 (sábado). Marilena esteve aqui ontem, fora de horário e de dia de visita (dr. Pedro não me tirou a regalia de receber visitas da família, a qualquer dia da semana). Se estava ótima ontem, hoje chegou diferente, tensa e irritada com papai. Problemas paralelos aos da prisão não eram novidades para mim. Meu pai era um aposentado, morando de favor na casa de minha prima e amiga do coração Maria Zélia. Ele queria ficar perto de mim, e com isso não voltava para seu apartamento em São Paulo. Minha mulher, uma corretora de imóveis, enfrentava a crise que se abatia no país. Papai e mamãe, separados há quarenta anos e agora se encontrando constantemente por minha causa, viviam às turras. Um achava que o outro não tinha feito o bastante por mim. Isso tudo mexia com a cabeça de todos, e não era raro as posições se inverterem nos dias de visita. Ao invés de ser consolado, tinha de consolar e, às vezes, até interferir e resolver problemas. Ainda tinha a fila, que deixava Marilena cansada e a maior parte das vezes irritada com a demora e com os papos inacreditáveis que era obrigada a ouvir.

Nessas horas baixava em mim uma calma espantosa. Marilena dizia que era porque, vivendo recluso, eu estava protegido de problemas como concorrência no trabalho, contas para pagar etc.

— Para cada correspondência que recebo de você, todos os dias, vem outro tanto que são contas e compromissos de tudo que é tipo.

Aquele sábado, especialmente, ela não estava bem, e quando ela e papai partiram, bicudos um com o outro, fiquei preocupado. Mas, no dia seguinte, teria cinco horas sozinho com ela e provavelmente descobriria o que estava por trás daquela zanga.

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29/5/1983. O domingo esteve ótimo, dentro das devidas proporções, é claro. Nem tocamos em assunto de família, só namoramos. Quando ela partiu, no fim da tarde, estava de braço dado com papai e os dois nem se lembravam do dia anterior.

Tudo tinha sido postergado em minha vida, é o que eu pensava enquanto olhava através da tempestade que caía, empurrada pelo vento, molhando meu rosto e respingando em meu corpo nu. A tarde estava muito quente, passei a tranca interna na pesada porta, tirei a roupa e fui apreciar o aguaceiro que caía. Na vista constante de meu observatório ficava o relógio da Central do Brasil. Eram seis da tarde e a tempestade continuava cada vez mais forte. Adorava aquilo, sempre gostei das tempestades. Mas, naquele exato momento, olhava sem perceber. O tempo tinha parado, o mundo girava, mas não para mim. Quando eu começaria a viver novamente? Quando iria subir numa encosta para apreciar o Sol, o mar, a Lua e as estrelas?

Saí da janela, me enxuguei, peguei meu bloco e anotei aquele momento. Fiz isso com o pouco de claridade que ainda restava. Não quis acender a luz, preferi deitar e ficar quieto. Sempre que sentia essa vontade de viver e de olhar a natureza, a vida, os filhos e a família era assaltado por pensamentos que me tiravam esse direito. Búzios, Ângela, seus filhos... como eu ia enfrentar minha consciência quando retornasse à vida novamente?

"Fiquei louco por ela. E senti nitidamente que ambos tínhamos atingido o desamparo total. Perdi o sono, o apetite e me senti tão só, que até minha família (mulher e filhos) viraram estorvos para mim. Elaborei um intrincado nó de compromissos falsos, para desorientar minha mulher. Perdi de vista os amigos e passei por cima dos convencionalismos para encontrar-me com ela" (Mis putas tristes, Gabriel Garcia Márquez).



3/6/1983. Os boatos de fuga de Água Santa e Ilha Grande se tornaram realidade. Segundo os jornais, um detento do Água Santa comandou uma fuga com 29 presos que tinham vindo da Ilha. Informava ainda que estes últimos eram de facções contrárias à Falange Vermelha. Cavaram um buraco no cubículo A-25, que ficava em cima da manilha do esgoto e saíram junto ao muro na rua Violeta, no bairro de Engenho de Dentro. Essa fuga ocorreu no dia 26 de maio. Anteontem, um novo plano de fuga foi descoberto, agora o buraco era no cubículo A-2. Os presos do A-4 e A-6 iriam junto. Esse grupo também faz parte dos oponentes

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da Falange Vermelha. Parece que embaixo do Instituto Penal Ary Franco só existem tubulações. O jornal noticiava também uma tentativa de fuga no presídio Esmeraldino Bandeira, em Bangu.

Na mesma folha, em letras garrafais: Fugitivos invadem casas na Ilha Grande e um morre. "Os moradores da Ilha Grande voltaram a viver em clima de tensão e medo. Um tiroteio entre quatro dos onze presos — que desde o dia 26 estão foragidos do Instituto Penal Cândido Mendes Ilha Grande — e empregados de um casarão colonial.., na praia de Iguaçu, resultou na morte de um detento e no ferimento grave em um dos caseiros. Uma comissão de moradores etc. etc." Segundo a mesma reportagem, os fugitivos estavam procurando a lancha do proprietário da casa.



4/6/1983. Jornal do Brasil, p. 12, primeiro caderno: "Condenação de Doca Street pode ser anulada pelo STF". Isso foi um sonho de uma noite de verão. Quando mostrei isso ao Pira ele riu.

— E você acredita nisso?

Obs.: Tudo o que foi tentado em Brasília me foi negado. Só consegui sentir que tinha chances de algum sucesso depois da reforma do sistema penitenciário. Enquanto isso, o negócio era se conformar e puxar uma cadeia (tentando ficar vivo).

Mas, como a esperança é a última que morre, telefonei para dr. Evandro e perguntei quais eram as minhas chances. Resposta:

— Ah, meu filho, isso depende do humor dos ministros.

9/6/1983. O ambiente está tão carregado que não consigo me concentrar para escrever. Sinto medo, pois até para andar por aqui está difícil. Eu mantenho a pose de despreocupado, bato paredão, só ponho camisa e jeans para ir à seção, e a porta do meu cubículo está sempre aberta. É difícil andar de calção e peito nu pelos pátios como todos fazemos. Não me acostumo, apesar do calor carioca. Mas essa é a melhor postura, pois o pessoal que anda vestido é constantemente abordado pelos guardas, que os leva à inspetoria para serem revistados.

Hoje o agito começou cedo aí do lado na Milton Dias Moreira, mais dois sumiram. O lado de cá de nossa parte está tudo bem, mas os guardas estão agitados. Há pouco, no fim da tarde, a Polícia Militar ajudou os guardas do instituto vizinho a dar uma "geral", e se assustaram com o que acharam: três revólveres e uma granada. Provavelmente vão usar o mesmo método aqui uma hora dessas. Entram de repente e revistam tudo.

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O Dia dos Namorados está próximo, vai ter "dormida". Já percebi que toda vez que temos uma regalia dessas acontece alguma coisa, para me deixar aflito. Houve uma catástrofe em São Paulo: inundações fora de época e neblina estão transtornando a vida de meus conterrâneos. Aflige a eles e a mim, que fico achando que Marilena não vai conseguir chegar.



Para não ficar pensando nisso, li os dois jornais que Hugo me traz todos os dias, de cabo a rabo. Aí, fiquei preocupado com as minhas economias. Os jornais só falam em inflação, desindexação, indexação, pacote e aumento dos combustíveis.

"Amor, que bom sentir aflição e ficar torcendo para que não falte no nosso dia. Não esperava mais sentir essas emoções. Se Deus existe, eu agradeço por me mandar você. Por eu ter o privilégio de passar pela vida e encontrá-la tão intimamente. De abraçar, beijar e amar você com tudo. É ótimo estar a seu lado e perceber a vida. Só de imaginar que você vem, minha estrutura é abalada. Estará aqui e eu não vou perder um segundo. Vamos ficar completamente à vontade, para que juntos possamos tirar tudo um do outro e da vida. Sugar juntos esse elixir às vezes tão amargo. Beijão."

Marilena veio antes de São Paulo e, lá pelas duas horas da tarde, chegou para me visitar. Depois de algum tempo de papo e de olho no olho, para investigar como estávamos realmente, começamos a perceber uma movimentação esquisita, vozes vindas do jardim, da portaria e da rua. Havia também ronco de motores e freadas. Em seguida, apareceu o chefe de segurança acompanhado do da vigilância. Havia outros internos ali recebendo visitas, mandaram todos embora, só Marilena e eu fomos contemplados e pudemos ficar no gabinete dentário, porque o Waldique deu um pouco mais de tempo para a gente se despedir. Estava agitado, me avisou que o quarteirão estava todo cercado por tropas de choque da Polícia Militar. Marilena continuou calma, porque expliquei que os internos que tinham vindo do Água Santa (vinte) não queriam ficar e provavelmente isso estava causando alguma apreensão. Ia continuar a falar alguma coisa para que ela se distraísse e se conservasse calma, quando o diretor entrou e mandou que eu me despedisse rapidamente e fosse para meu cubículo. Marilena foi embora e eu subi. Houve um "confere" e em seguida foram até o cubículo do Pira. Mandaram ele arrumar suas coisas, pois estava sendo transferido. Ele e o Peróska.

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Ninguém sabia para onde eles iam, nem os agentes. Um pouco antes de partir Pira pediu para falar comigo. Levaram-me até ele, que me olhou nos olhos por um longo tempo, depois me estendeu a mão e falou em tom normal, sem medo que ouvissem o que dizia:

— Até logo, amigo, não espere nada dessa administração, só fazem traição.

Mais tarde, lá pelas vinte horas, os guardas voltaram e levaram o Jarra. Só então destrancaram a galeria. Diziam muitas coisas do Jarra, que ele era perverso e que por trás de sua enorme simpatia existia um homem cruel e perigoso. Acho que não, nunca vi ele se meter em nada. Todas as vezes que se aproximou de mim e dos meus (e foram muitas), foi para ajudar. Ele vivia indo à minha mesa durante as visitas conversar com papai, sempre esteve por perto nas galerias, nos pátios e em meu cubículo. Era o olheiro, confidente e amigo inseparável de Pira. É claro que ele não era santo, senão ele não estaria ali nem pertenceria à Falange Vermelha.

Quanto ao Pira e sua advertência contra a administração, ele tinha toda razão, o diretor, em sua primeira reunião com os internos (à qual, aliás, eu não fui), prometera que não transferiria ninguém de surpresa e sem avisar à família.



15/6/1983. Nos dias que se seguiram, procurei me inteirar de quantos da Falange Vermelha tinham restado. Cheguei à conclusão de que eram poucos, mas ainda impunham respeito. Xane, quieto como sempre, tinha ficado; Zé Cigano também, era um dos que tinham restado e tentava pôr ordem na casa. Com suas roupas de couro, cordões e pulseiras de ouro, andava desafiadoramente, cercado por um pessoal que eu não conhecia bem. Ele tinha uma reação engraçada quando me via: começava a rir e balançar a cabeça e vinha me abraçar. Isso já tinha acontecido comigo antes, muito tempo atrás, quando fui trabalhar com Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, dono do Banco Mercantil de São Paulo. Ele costumava andar pelo banco inteiro sempre atento a tudo e, quando coincidia de me encontrar, ria e dava palmadas nas minhas costas.

Voltando à Falange Vermelha, o estrago tinha sido grande, porque a maior parte do pessoal já tinha fugido, alguns até morrido e agora, com essa transferência... eu pelo menos estava me sentindo perdido. Nessas horas o melhor era me tornar invisível. Aparentemente tudo tinha virado de pernas para o ar. A piscina estava vazia, a lep (liga esportiva da

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qual eu era presidente) teve seus armários arrombados e os materiais esportivos, como uniformes, raquetes, bolas de futebol etc, estavam pelos pátios. Eu, na verdade, nem me dei conta disso, pois nunca me interessei em saber onde ficavam esses armários e nem tinha participado da organização dos torneios. Na verdade, eu só tinha uma função: arranjar o material para a liga se manter ativa.



A cadeia estava perigosa para todos, o ambiente era de desconfiança, o ar estava pesado e havia cheiro de morte. E agora?

O Jornal do Brasil de uns quinze dias atrás (15 de maio), tinha feito uma reportagem de uma página com o título: Na cadeia, grupos brigam por poder E dinheiro. Trazia a foto de dois oponentes da Falange Vermelha, vestindo camiseta do Água Santa (esses caras agora estão aqui e são meus vizinhos, entraram no lugar de Pira e Jarra). Contavam como os tóxicos entravam nas cadeias (duas maneiras: sem custo, com pedágios pagos por traficantes como Chico e Nézão, e com custo, quando era trazido por um "avião"). Outras modalidades de entrada de dinheiro apareciam na reportagem. Tais como jogo do bicho e cun-ca, que consiste em formar trincas e seqüências na mão, quem formar primeiro bate. Segundo o jornal, um preso pode perder até 100 mil cruzeiros numa tarde. Nove jogam e, para sentarem-se à mesa, pagam como nos cassinos. Outro jogo era o bolo dos quatro pontos, que consiste em jogar nos quatro últimos páreos do Jockey Clube; para ganhar é preciso acertar nos quatro vencedores. Na Lemos de Brito, havia vários cubículos cassinos. Eu procurava não passar perto deles. Algumas vezes, quando tive que procurar Pira, porque precisava dele, entrei num deles e a convite ficava por ali "cafungando" (cheirando pó) e puxando fumo. Detestava essas ocasiões, porém, se eu estava na chuva tinha de me molhar. Mas nunca me sentei para jogar, embora insistissem. A reportagem informava que esses "negócios" geravam 30 milhões de cruzeiros por mês. Citavam meu nome como um dos que pagavam pedágio, o que não era verdade, pelo menos não com aqueles custos. Como já contei, meu isopor estava sempre cheio de refrigerantes e, na galeria, se serviam sem cerimônia, emprestei dinheiro para o Pira e Jesus comprarem televisões iguais a minha e não aceitei o retorno. Mas não tinha nada a ver com fornecer tóxico de graça para as falanges venderem e se sustentarem. A reportagem comentava sobre a Falange Jacaré, mas a informação estava tão por fora que nem vou comentar.

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Bom, até aquele momento, tirando o dia seguinte à minha chegada, quando fui escoltado a um cubículo, para ser convidado a me associar na compra de alguns quilos de maconha para triplicar meu capital, ninguém mais tinha me abordado. O negócio era ficar calmo e entregar o destino a Deus. Naquela época eu vivia procurando saber onde ele se encontrava.



16/6/1983. Se a Polícia Militar cercou o conjunto penitenciário da Frei Caneca a pedido do diretor porque ele estava com medo de uma reação do Pira, na hora que soubesse que estava levando um "carrinho", é porque não conhecia nada a respeito dele e dos poucos que o cercavam, como o Jarra e o Xane. Não sabia e não procurou saber. Pira não fazia nada sem pensar muito e sem planejar os mínimos detalhes. Sabia muito bem que não iriam buscá-lo sozinhos. Ele não reagiria nunca, como de fato não o fez. Saiu carregando algumas poucas coisas. Na hora de sair, foi de novo falar comigo e deixou em meu poder as coisas de valor que possuía: televisão, rádio e outras coisas que agora não lembro. Junto, me entregou os registros de posse da tv e do rádio. Saiu andando devagar e se despedindo com a cabeça dos companheiros. Agora, na quarta galeria, depois de fugas e "carrinhos", só dois estavam lá há mais tempo que eu: o Chico Tonelada e Nézão. Quando registrei esses fatos, naquela noite o Jarra já tinha saído. Nézão, Tonelada e eu ficamos conversando sobre tudo o que estava acontecendo e achávamos que tinham cercado o prédio porque a ordem era invadir se houvesse reação, e matar Pira e Jarra.

Fiquei muito chateado, Pira podia ser o que fosse, do jeito dele, mas tinha me ajudado e eu o estimava. Estará sempre na lista dos amigos que tive.



18/6/1983. Domingo, durante o parlatório, eu estava muito tenso com os últimos acontecimentos. Ontem, durante a visita, contei tudo o que tinha acontecido. Marilena e papai tinham estranhado a falta de Pira e sua mulher na mesa ao lado. Depois, pedi que procurassem Humberto para ver se conseguia me transferir para a penitenciária Ferreira Neto, em Niterói. Afinal, ele já tinha me oferecido essa opção há algum tempo.

Agora estava em meu cubículo, deitado ao lado de Marilena, conversando e conjeturando sobre o futuro próximo naquele instituto penal. Outros grupos comandavam, gente mais nova e barulhenta. Eram simpáticos comigo, eu não entendia por quê, mas era melhor que ser

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olhado com antipatia e rancor. Se bem que um sorriso e um abraço lá, como já escrevi antes, podiam vir acompanhados de cem estocadas.



Estávamos ali deitados falando sobre essas coisas e bateram de leve na porta. Paramos de falar e ficamos prestando atenção, pois a batida foi tão leve que não tínhamos certeza se realmente havia alguém. Depois de alguns instantes bateram novamente. Desconfiado, abri um pouco a portinhola, que se encontra à altura de um homem de pé, nas portas do cubículo. Vi uma das visitantes que conhecia de vista e perguntei se precisava de alguma coisa. Não falou nada, estendeu a mão e me entregou um papel, como se fosse um anel com uma folha dobrada no seu interior. Agradeci e fechei a portinhola, encostando o ouvido na porta para perceber se ela estava só. Então olhei o pequeno embrulho com atenção. Estava escrito: Doca Estrite — 4 do primeiro 36 (queria dizer primeiro pavilhão, quarta galeria, no cubículo 36). Marilena já estava de pé ao meu lado, aflita, queria saber o que era aquilo. Tirei com cuidado o papel envolto ali, abri e vi que era uma carta do Pira. Tudo em letra de forma. Esta carta encontra-se comigo.

Amigo e companheiro doca:



Comigo tudo bem e famílhia também.

Esses acontecimentos são rotina:

porém eu, Pira, fui ou saí daí injustamente.

Amigo, gosto de você, te considero.

Um conselho de amigo irmão: aceite uma proposta que você me falou de ir para niterói.

as coisas aí vão tomar rumos muito diferentes, muitas coisas ruins viram pela frente.

são coisas que não posso falar.

Amigo, para sua tranqüilidade procure suas conviniências e melhor CONDIÇÃO DE PAGAR SUA PENA TRANQÜILO.

Aguardo uma resposta.



Tem uma linha direta daí da quarta para ca onde estou d. 9.

Lembrança a esposa:

Abraço, Pira

domingo


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