O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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Naqueles dias os jornais falavam muito no novo governo (Leonel Brizola), em seus planos de modificar o sistema penitenciário, seguindo mais ou menos a linha do ministro da Justiça. Escreviam muito sobre Darcy Ribeiro, um intelectual muito querido no Rio e vice-governador. Nézão era um ardente brizolista, fumava seus charutaços e fazia discursos inflamados. Geralmente seus ouvintes eram o Chico Tonelada, o Cuca e eu. Os planos do governo eram ótimos, tinha saído nos jornais fotografia do dr. Darcy contando das Fábricas de Escolas e etc. O discurso de Nézão foi tão inflamado, e o "fumacê" tão forte, que até escrevi uma carta ao governador, que evidentemente não mandei mas guardei.

"Prezado governador,

"Em entrevista ao Jornal do Brasil de 3/01 o senhor vice-governador Darcy Ribeiro fez uma explanação sobre as Fábricas de Escolas. É um excelente plano, principalmente se for executado, não vai aí nenhum desafio ou dúvida de minha parte. Será isso sim um prazer saber que finalmente alguém se interessa realmente pelo povo, etc. etc. etc."

Depois de receber a visita de Antônio, que veio me trazer o jantar, comecei a assistir ao programa São Paulo Canta. Sinto saudades de minha terra apesar de reclamar tanto dela. Do seu governo, de sua explosão demográfica e da poluição.

Dos catorze aos 22 anos conheci São Paulo de dia e de noite, a cidade não parava nunca, nem eu. Já aos dezesseis anos, com a altura que tenho hoje (1m 86) conhecia e freqüentava cabarés como: Maravilhoso, O Lido, Dancing Avenida. Adorava a vida noturna, os cabarés mencionados tinham orquestras estupendas com crooners fantásticos, Isaura Garcia, Ângela Maria, Orlando Silva e Silvio Caldas. É... faz tempo.

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Hoje pela primeira vez fui eu quem preparou a visita de dois internos ao fórum. Isso acontece pelo menos duas vezes por semana, mas é o Chaves quem prepara esse expediente. Como ele não apareceu, tive de ajudar o sr. Waldique.



Na vigilância, querendo ou não, a gente fica sabendo de tudo o que se passa na cadeia. Toda a vida do interno tem de ir para a ficha, e quem registra isso somos nós. Moradia, visita íntima, castigo, solitária (surda), comportamento, elogio, ida ao juiz, consultório médico, visitas etc. Tudo na vida do preso, do começo ao fim, tem de estar arquivado na vigilância. Os problemas são os mais incríveis. Outro dia um interno pediu para mudar de cubículo e de pavilhão. O "garoto" dele estava enchendo o saco, e ele não agüentava mais...

— Não quero mais ver a cara dele — disse isso de pé, no meio da seção, indignado.

Nas penitenciárias do Rio, a administração é tolerante com esse tipo de relacionamento, principalmente quando ele já vem há algum tempo. Separar um casal desses sem apurar bem os fatos pode causar um problema sério.

À tarde, quando voltei para a galeria, vendo que Pira estava sozinho, parei em sua porta e comentei que tinha sido eu o encarregado de preparar a saída para o fórum de dois internos. Para fazer isso tinha mexido no arquivo e olhado sua ficha. Conferindo as datas, vi que ele tinha começado cedo no tráfico. Batemos um papo a respeito daquela época. Contou que nunca se conformou com a pobreza em que vivia, que a falta de perspectiva o desanimava e, quando começou, também era o início da repressão e a Polícia Civil, Militar e o Exército trabalhavam em conjunto, o que tornava tudo muito perigoso, principalmente nas fronteiras. Naquele momento estava relaxado, tranqüilo, era raro encontrá-lo assim. Continuando a conversa, me contou o estratagema que dois traficantes usaram para embarcar o pó que tinham comprado na Bolívia em um avião.

— Os rapazes mandaram antes uma moça com um bebê de dois anos, que segundo eles era doente terminal. Foram para lá dois dias mais tarde. Depois de uma semana, quando o bebê morreu, abriram-no pelas costas, limpando seu interior e o enchendo com muitos quilos de cocaína. A mãe e o bebê regressaram de avião, só que ele veio num caixão no compartimento de carga.

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Pira foi o encarregado de completar a negociação com o pessoal do morro. Tinha sido apenas o intermediário, quando recebeu a mercadoria, ela estava embalada e pronta para comercialização.

7/2/1983. Estou assistindo a Dallas, Marilena esteve aqui hoje, como aliás vem acontecendo todo domingo. Ela acompanha todos os acontecimentos da penitenciária, pois, como já escrevi anteriormente, entrego a ela tudo o que anoto. A semana passada foi difícil, houve muitas transferências e é claro entrou outro tanto, e os que entraram, vieram da Ilha. O ambiente ficou carregadíssimo, há muita tensão no ar. O pessoal que não é bem-visto pela massa, como o Bóris, está apavorado. Os que se sentem assim têm uma saída, pedir seguro de vida. Nesse caso a pessoa vai para um pavilhão especial. Ficará junto com presos como ex-policiais, informantes etc. A pessoa que apela para isso está assinando uma confissão de culpa perante a massa. Ou dedurou, ou prestou algum serviço indecente para a administração. Se algum dia a administração cismar e mandá-lo de volta para o convívio, mesmo em outro instituto, estará marcado.

Sentindo todo esse clima escrevi: "Estou ilhado, completamente ilhado. É um mundo que dificilmente poderá ser explicado. Tenho de conviver com ele. É um sistema com leis muito especiais e rígidas. Aqui tudo é estranho, muito estranho. Preciso ficar sempre atento, é horrível. O mundo será diferente depois disto. Espero não carregar mais cicatrizes em meu coração".

É verdade que, fora a fuga de Paulistão, nada tinha acontecido. O que realmente me deixava apreensivo era o clima. Pira tinha mudado de postura, não queria saber de muito papo. Até estranhei quando mamãe esteve aqui com Luiz Carlos e ele sentou-se ao lado dela, chamando-a de segunda mãe. Ficou abraçado com ela muito tempo, dizendo que eu era um homem de sorte por ter uma mãe como ela. Aliás, naquele domingo aconteceu de tudo. O Luiz Carlos me pregou um baita susto, mas tornou aquele fim de domingo menos triste. Na saída enfiou no meu bolso quatro minigarrafas de uísque JB. Perguntei imediatamente como ele tinha feito para passar pela guarda e a resposta foi surpreendente:

— Depois da primeira vez nunca mais me revistaram.

Fiz ele jurar que nunca mais faria isso, pois eu podia ir parar na "surda". Ele continuou:

— Quer que eu leve embora? — Morri de rir, é claro.

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Depois do "confere", como Pira fazia muitas vezes, apareceu para me dar um pedaço de bolo de chocolate que Renata trazia toda semana. Quando lhe mostrei as quatro garrafas, a reação dele foi a mesma que a minha...



— Como é que isso entrou? — Mas continuou sorrindo. — Logo depois que bebermos isso, vou moer as garrafmhas e jogar no ralo.

Foi até o cubículo do General e voltou com dois "papelotes" e presenteou-me um. Em vinte minutos acabamos com as bebidas e os papelotes, e encorajado com os incentivos perguntei se não achava que o ambiente andava tenso. Ele respondeu meio a contragosto, mais ou menos assim:

— O Patrício tem deixado qualquer um entrar aqui.

Dias depois, ouvindo conversas aqui e ali, tive certeza de que os últimos que chegaram da Ilha eram de outras facções.



9/2/1983. Acaba de cair uma tempestade linda, raios, trovoadas, vento e chuva para valer, fiquei olhando pela janela até o tempo melhorar. Sempre achei bonitas as tempestades. Voltei-me porque percebi mexerem na cortina da porta, era o Cuca. Então comentei com ele a beleza das tempestades. Ele sorriu e:

— Neguinho dos morro não acha, as encosta cai tudo. — E sorrindo continuou: — Se prepara, fugiram mais uns, Mimo e o Filho do Polícia estava com eles, o alarme vai tocá...

Não teve tempo de acabar a frase e a sirene já estava disparando.

Ficamos trancados até o dia seguinte, só nos liberaram depois de revistarem todos os cubículos.

Comentava-se que o Manoel Caneta tinha posto guardas nos pátios para ficar olhando o que caía das janelas. Acho que caiu tanto estoque, fumo, pó, baralho etc. de tantas janelas ao mesmo tempo, que nada puderam fazer a não ser recolher tudo e jogar fora.

Ao sermos liberados começamos a descer e deparamos com inscrições feitas nas paredes, durante aquela madrugada. Abaixo a mordomia. Fuja, covarde.

Só os guardas podiam ter feito aquilo, pois todos os internos estavam trancados. Aquilo caiu como uma bomba, o pessoal da Falange ficou muito revoltado. A cadeia ficou quieta, parecia um túmulo.

Segundo comentários, Pira tinha organizado várias fugas, mas ele mesmo nunca fugiu. Parece que essa era a razão das inscrições nas paredes.

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Como era véspera de Carnaval e Pira tinha arranjado com o diretor para as companheiras, esposas e namoradas passarem aqueles dias com a gente, a coisa ficou por isso mesmo. Assisti a Pira pondo panos quentes ao conversar com Jesus. Achava que só deveriam conversar a respeito depois do Carnaval e de cabeça fria.



10/2/1983. Ontem no fim da tarde papai esteve aqui, me trouxe um colchão novo, porque na última vez que revistaram meu cubículo rasgaram o antigo. Cecília, minha sobrinha, veio com ele. Trouxe montes de recortes de jornais com notícias sobre ela. Estava linda e radiante com seu sucesso, sua beleza e todos os seus sonhos. Levantou o meu astral, me diverti com ela. Depois que eles foram embora, fui avisado de que a "dormida" do Carnaval tinha sido confirmada e as mulheres poderiam entrar a partir das 14h 30 do dia seguinte. Fui imediatamente para o orelhão telefonar para Marilena para confirmar. Depois disso, como não podia deixar de ser, fiquei apreensivo. Será que daria tudo certo? Teria teto no aeroporto? Os aviões sairiam no horário?

Quando cheguei à galeria estavam encerando o chão, o meu cupincha que lavava meu cubículo toda semana estava me esperando, mas, antes de começar a limpeza, foi comigo buscar o colchão. Tivemos muito trabalho para adaptá-lo porque era um pouco maior que o outro. Foi uma porta velha que o Alfredo (estofador) me arranjou e adaptou para mim, que quebrou o galho. Diminuiu um pouco o espaço, mas ficou ótimo.



14/2/1983. Marilena estava dormindo tranqüila, seu rosto estava sereno. Já estávamos juntos havia mais de 56 horas. Depois de uma ducha, deitei a seu lado e comecei a pensar naqueles dias. Ficamos quase o tempo todo isolados. Marilena não quis sair do cubículo para andar na galeria. A única vez que tivemos companhia, foi quando Pira e Renata foram nos visitar. Levaram frutas, bolos e ficaram lá com a gente no máximo trinta minutos. Sem ter o que fazer, peguei lápis e papel e comecei a anotar minhas impressões, como fazia sempre. Quando terminei, escrevi mais umas linhas só para ela: "Mar, sei lá o que aconteceria comigo se você não existisse. O relacionamento que temos é tudo de que preciso, o resto não interessa. Neste instante você descansa a meu lado e eu sinto que com você sempre por perto vencerei as etapas que virão. Um beijão."

Era para ela ver só em São Paulo, quando fosse ler e guardar meus garranchos. Mas, depois que nos despedimos e voltei para arrumar o cubículo, encontrei uma carta debaixo do travesseiro.

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18/2/1983. Tumulto, fuga e baita confusão. A Polícia Militar invadiu a penitenciária armada até os dentes. Tudo porque uma fuga foi detectada enquanto ainda havia vinte presos no buraco. Estes, quando foram tirados, apanharam muito antes de ir para a "surda". Muitos assistiram aos companheiros sendo surrados, e aí houve começo de tumulto. Foi quando a PM invadiu. Na verdade, a única coisa que fizeram foi nos trancar e revirar nossos cubículos. Revirar mesmo. Não sei como não rasgaram meu colchão de novo. Estavam nervosos, imagino que tivessem medo e qualquer movimento mal entendido feito de uma das partes podia virar tragédia.

Depois de revistarem toda a penitenciária, abriram as galerias e os cubículos para que tudo voltasse à normalidade. Mas, infelizmente, as notícias que chegaram da Ilha davam conta de duas mortes de internos, e o ambiente ficou pesado de novo.

De uma coisa tenho certeza, não vou morrer de infarto do coração, me conservei calmo o tempo inteiro. É verdade que não fui pego de surpresa, Pira na noite anterior me prevenira, e na hora que o tempo começou a querer esquentar eu estava na galeria. Se a fuga tivesse dado certo e ninguém fosse surpreendido no buraco, não teria tido a invasão da PM. Ia tocar o alarme, a revista geral seria feita pelos próprios agentes penitenciários e a vida ia continuar, com mal-estar entre agentes e internos. Agora com esses boatos da Ilha, a prisão ficou silenciosa novamente.

Mercedão e Zé Cigano tinham chegado da Ilha já havia algum tempo, mas só vim conhecê-los melhor nos últimos dias, porque Zé Cigano se mudou para nossa galeria. Naquela manhã estavam agitados. Faziam uma reunião em frente à porta de Pira. Vendo aquele movimento resolvi ir para a vigilância.

Mas quando passei pelo grupo Zé Cigano me abraçou...

— Vem tomar café comigo. — Tinha um fumo na mão e os olhos muito vermelhos. Parei ali com ele abraçado ao meu pescoço, como se estivesse me dando uma gravata. —Vejo você sempre calmo e tranqüilo, admiro seu estilo, viver aqui não é fácil. Toma o café e fuma esse comigo, que já estou cheio de falar com esses cabeças-duras.

Ele era mais ou menos do meu tamanho, muito claro, de olho azul. Sempre doidão. Não tirava a jaqueta curta de couro de cobra, aberta no peito e direto sobre a pele. Usava bota também do mesmo material

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até o tornozelo. Era famoso porque assaltou um acampamento cigano e levou uma fortuna em ouro. Perdi uns cinco minutos para sair daquela situação, e finalmente fui em direção à vigilância. Sabia por que discutiam e não queria que ninguém soubesse disso.

A situação era a seguinte: eram duas opiniões na Falange Vermelha, a do grupo do Pira, que queria paz, e a dos que tinham acabado de chegar, que queriam eliminar o pessoal da outra facção, que veio da Ilha e de outros lugares.

Aqueles dias estavam agitados, em qualquer lugar que eu fosse estava acontecendo algo. Encontrei a seção no maior rebuliço, os internos estavam quase festejando os últimos acontecimentos na seção de segurança, até o Waldique estava com uma cara marota.

O chefe de segurança, Manoel Caneta, mandou buscar na surda dois internos para ele interrogar, o Pará e o Pele, justamente os dois que mais apanharam.

Ninguém soube a razão que fez Pele perder a cabeça, só ficamos sabendo que ele jogou a máquina de escrever na janela e deu um soco na cara do Caneta.

Por incrível que pareça, aquele acontecimento aliviou a tensão.

Enfim, amanhã é dia de visitas, e domingo Marilena estará aqui novamente. Vou me concentrar nisso, não há nada que eu possa fazer... o destino que decida. Eu estava em um lugar de doidos e não adiantava nada eu ficar preocupado.

1/3/1983. Aniversário de Marilena. Logo que as galerias Foram abertas, desci correndo as escadas. Queria ser um dos primeiros a ligar, geralmente as filas eram enormes nos orelhões. Achei estranho, olhei da escada e não havia ninguém nos orelhões. Aproximei-me e constatei que estavam todos quebrados. Não era defeito, tinham sido atacados por vândalos. Estavam arrebentados. Os orelhões ficavam bem em frente à inspetoria. O inspetor do dia estava parado na entrada, olhando. Passei por ele em direção à cantina. Como ele sorriu, perguntei se tinha idéia do que tinha acontecido.

— Não sei, entrei agora, mas já chamei a companhia telefônica. Daqui a pouco chegam outros aparelhos.

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Não era a primeira vez que isso acontecia, e toda vez os internos ficavam revoltados. Se estávamos trancados nas galerias, os únicos que poderiam ter feito aquilo eram os guardas. Era engraçado: havia turmas de guardas que, em seus turnos, sempre estavam bem (as turmas eram de oito ou seis agentes), mas havia turmas que eram odiadas e era sempre no turno delas que apareciam as encrencas.

Continuei meu caminho rumo à cantina para tomar café e pedir a Hugo que passasse um telegrama para Marilena. Normalmente, ele saía lá pelas dez horas para ir a bancos e fazer compras. Como eu telefonava toda manhã e exatamente naquela, em especial, tinha falhado, ela ia ficar preocupada. Então pedi para passar um telegrama e telefonar.



3/3/1983. Logo cedo um amigo do Pira veio me procurar. Ia ser posto em liberdade em poucas horas. Duas coisas o preocupavam: a primeira é que estava preso havia dezessete anos e não sabia para onde ir. A segunda era grave: se fosse para o morro de origem, onde tinha sido chefe, iria correr sérios riscos, pois tinha estuprado um menino que era bonitinho na época e, naquele momento, era o todo-poderoso do local. Precisava de um lugar seguro para se organizar e depois tentar tomar o morro de volta.

— Será que o seu amigo "banqueiro" pode me arranjar um emprego?

Não pude mentir numa situação dessas e prometer fazer algo que não faria. Para variar, usei a verdade, que conhecia pouco o "banqueiro", só por telefone e correspondências.

E ele foi para a rua completamente despreparado. Depois de dezessete anos, acho que o camarada não sabe nem andar fora daqui. Muitos saíam assim: término de pena e rua. Com Zezinho, que era um cabra macho, 1m 70 de altura, provavelmente descendente de índios, o resultado de ser jogado na rua foi trágico. Por falta de opção foi para o morro procurar seus familiares, que por sinal tinham deixado de visitá-lo e nem se lembravam mais dele. Estava bem na penitenciária, porque Pira gostava dele pelos velhos tempos de Ilha e permitia que traficasse ou anotasse o jogo do bicho, para que tivesse um mínimo de coisas, como sabonete, pasta e escova de dentes, um tênis, essas coisas. Bom... chegou ao morro e quando se apresentou à família foi recebido com alegria. A notícia da sua chegada se espalhou rapidamente e ele e seus familiares receberam a visita dos atuais chefes. Fizeram

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festa... depois de tanto tempo ele tinha aparecido, isso precisava ser comemorado com "um bom retorno". A um certo momento da festa, levou vários tiros e facadas, e terminou encontrado dias depois num matagal. Ninguém reclamou seu corpo. Pira, quando me deu essa notícia, comentou que o ex-chefe que volta geralmente é morto pelos que estão no poder.



4/3/1983. Apesar de ser dia de semana papai esteve aqui, trazendo notícias do dr. Evandro e de Fernando Ferreira, naquele tempo um dos sócios e presidente da Bombril. Fernando conhecia bem uma pessoa da Suprema Corte, e os dois, dr. Evandro e ele, iriam tentar fazer contato, pois os tribunais estavam saindo do recesso e provavelmente o meu recurso seria finalmente julgado. Amigos como Fernando são raros. Seu esforço naquela época não deu resultado, mas, quando cheguei a São Paulo, anos depois, o procurei. Se me dei bem logo nos primeiros dias em alguns negócios, foi porque sua mão esteve estendida.

9/3/1983. Estava lendo sobre a posse do novo governador, Leonel Brizola, nos próximos dias, dia 15 de março para ser exato. Havia grande expectativa com relação ao novo governo. Falava-se em mudanças e na melhoria do sistema penitenciário. Mas, na verdade, o que mais preocupava as falanges (que dominavam as penitenciárias e presídios) eram as mudanças no Desipe. Provavelmente, todos os diretores de instituições seriam substituídos.

Estava lendo uma reportagem sobre o novo secretariado, quando fui chamado à sala do diretor. Ele não tinha boas notícias, meu amigo e padrasto, Luiz da Cunha Bueno, tinha acabado de falecer. Dr. Patrício empurrou o telefone para mim e pude falar com minha família. Tentaria com o juiz da Vara de Execução minha ida até São Paulo, sob escolta. O senhor Waldique se ofereceu para me acompanhar, Mas tudo deu em nada, porque Luiz não era meu pai. Fiquei muito triste com sua morte, sempre me lembrarei dele, eu tinha onze anos quando ele e mamãe começaram a viver juntos. Foi quando conheci Chiquito, seu filho e meu melhor amigo.



11/3/1983. Hoje o dia começou "bem"... Não posso negar que esse pessoal às vezes, além de me surpreender, me diverte.

Dois sofás enormes do Desipe, que estiveram sendo reformados na estofaria, ficaram prontos ontem e deveriam sair hoje pela manhã. Quatro internos carregavam o primeiro sofá. A dificuldade para colocá-lo

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no caminhão foi tão grande para aqueles quatro homens, que o guarda desconfiou e resolveu olhar com mais atenção. Esperto, mandou que o depositassem no chão e fossem buscar o outro. Enquanto faziam isso, o agente sentou com toda a força no sofá e, para seu espanto, ouviu um gemido. Quando os quatro internos chegaram com o outro sofá, os outros agentes já estavam no pátio esperando e o alarme disparou. Para encurtar a história: havia um interno em cada sofá. Os quatro que carregavam eram os mesmos que fizeram as reformas. Eles e Alfredo foram parar na surda. A seção de estofaria ficou parada daí em diante, pois só o mestre Alfredo sabia tocá-la.



15/3/1983. O alarme tocou, um toque longo e intermitente: quer dizer fuga. Eu estava no chuveiro, tinha acabado de me levantar. Olhei através das grades da janela e vi internos no telhado do hospital. Era de lá o alarme. Mas depois de algum tempo percebemos que, apesar de a confusão ser ao lado, no hospital penitenciário, o alarme de cá tinha tocado também. Continuei acompanhando da minha janela os internos no teto do hospital, tentando se esconder. Pelo que ficamos sabendo, a tentativa não teve sucesso. Era dia da posse dos novos governadores. Como foi ponto facultativo, eles acharam que a guarda estaria desatenta.

Passei o dia praticamente sem sair do cubículo. Resolvi ficar por ali porque o clima estava esquisito desde o dia anterior. Um interno estava desaparecido. Um guarda da portaria resolveu limpar sua arma e, descuidado, deixou a arma disparar e morreu. Quanto ao interno, ninguém sabia se tinha fugido ou se estava morto, com o corpo escondido em algum canto. Pira, por conta própria, tinha fiscalizado as caixas d'água. Era estranho o desaparecimento, porque esse preso era um senhor que todos respeitavam, estava preso havia muito tempo, era de confiança e trabalhava na portaria.

Com esse clima preferi ficar assistindo pela TV à posse do Brizola. A população tinha grandes esperanças em seu governo. O país, segundo os jornais, estava mal, se não exportássemos não sairíamos da crise. As únicas empresas que estavam tendo lucro eram as multinacionais, e Brizola prometera que traria algumas para o estado. Outro assunto que merecia a atenção dos jornais era a cpi do Serviço Nacional de Informações (sni), que não ia nem para a frente nem para trás.

Eu tinha interesse em tudo o que se passava no país, tinha medo de me sentir por fora. Mas, naquela manhã, minha preocupação era com

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meu estado de espírito. Nada me animava, a não ser, é claro, a presença de Marilena e da família. Ela e papai faziam tudo o que era possível para amenizar meu sofrimento. Mas tinha dias que eu sentia tanto remorso e tanta dor, que não conseguia fechar os olhos. Via as fotos de Ângela sem vida, no chão, fotos que vi nos jornais na época em que estava fugido. Não discutia isso com ninguém, quando Marilena perguntava o que estava me perturbando, punha a culpa na Justiça, tão demorada. Só muito tempo depois falei sobre isso com Marilena. Quando digo assuntos não discutidos, são os do momento em que atirei na Ângela, porque do resto falei até demais, a ponto de amigos, conhecidos e até gente que nunca tinha visto me aconselhar a esquecer os tempos de cadeia. Outra coisa que me preocupava naquele momento era o ambiente entre internos e agentes penitenciários.



23/3/1983. Hoje assumiu o novo diretor do Desipe, indicado pelo secretário da Justiça. Depois da posse, convidou alguns jornalistas para visitar a penitenciária aqui do lado, a Milton Dias Moreira. Ficaram horrorizados com as "surdas", com a pobreza da população carcerária, com o estado do prédio e, por conseguinte, dos cubículos.

Acredito que a prisão, apesar de necessária, não recupera. A não ser que mude a visão dos administradores. Não sou ninguém para estar dando palpite, mas vivi lá e acho que vale a pena obrigar os internos a aprenderem uma profissão. Deveriam investir nisso, tinha de ser prioridade, em benefício da própria sociedade. Não adianta nada apenas prender, principalmente nos casos das penas longas. O cara sai, não tem mais família e as únicas pessoas que restaram são as que conheceu no cárcere. A Vara de Execuções do Rio até que faz sua parte, dentro do possível, pois nunca tem verbas. Tive oportunidade de ver, na época de albergado e depois na condicional, que o pessoal que atendia os apenados eram dedicados, mas as condições eram muito precárias. O discurso tem de sair do palanque para a população ter um pouco mais de tranqüilidade. Estou escrevendo em 2004 e, daquela época para cá, percebo que as coisas pioraram e muito.




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