O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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1983 ESTAVA COMEÇANDO E, FORA A TURMA QUE TINHA SAÍDO PARa visitar a família no fim do ano e não tinha retornado, naquele final de 1982 e começo de 1983 nada de anormal se passara. Pelo menos, que eu tivesse percebido. Escrevo dessa forma porque aquele pessoal não parava de tramar, e eu procurava me manter distante dessas conversas, queria ficar longe das tramas. Isso estava ficando cada vez mais difícil, estavam começando a ter confiança em mim e a me contar algumas coisas.



No Natal Marilena não pôde ficar comigo. Ficou com os filhos e familiares, mas a virada de ano passamos juntos. Houve festejos nas galerias. Nunca assisti a nada parecido. À meia-noite, deu a louca nos presos, começaram a atirar garrafas e tudo o mais que não lhes servia nos pátios. Ficaram meia hora ou mais jogando coisas pelas grades das janelas. O barulho que as garrafas cheias de água faziam quando explodiam no solo era incrível. Nós não acreditávamos no que ouvíamos e assistíamos. O cheiro de fumo era tanto, que brinquei com Marilena que o bairro (Estácio) iria ficar doidão. No dia seguinte cedo, quando fui à cantina buscar café e pão, o espanto foi maior: três pátios forrados de garrafas estilhaçadas.

Perguntei para o Hugo:

— E agora? As visitas começarão a chegar à uma hora. Ele riu.

— Todo ano é assim, daqui a pouco eles descem e limpam tudo. 311983. Olho meu cubículo em desordem, está do mesmo jeito que deixamos ontem, depois da "dormida" de fim de ano. Marilena entrou dia 31 às dezessete horas e sairia dia primeiro junto com os visitantes. Mas, quando já estávamos no pátio com papai, esperando a sirene tocar para começar as despedidas, os alto-falantes anunciaram que o diretor tinha concedido mais uma noite e os casais que tinham direito, se quisessem, poderiam retornar aos cubículos. Marilena foi a primeira a perceber o que estava acontecendo e me cutucou.

— Você ouviu?

Só na segunda chamada é que tive certeza de que ela estava certa. Olhei-a para saber se ela podia e como sua resposta foi "é claro, meu amor", comecei a aplaudir como todos os que tinham esse benefício. Procurei Pira, queria cumprimentá-lo, ele sabia usar sua liderança. Depois de alguns minutos ele apareceu, sério, não querendo que ninguém o festejasse para não parecer mais importante que o diretor.

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Ainda não pus ordem no cubículo, porque assim dá para sentir a presença de Marilena. Nunca pensei que pudesse existir alguém que me desse tamanho apoio. Fico constrangido em pedir a ela que venha passar essas datas comigo, mas a solidão aqui é tão grande que esmolamos apoio e carinho.



Comecei a arrumar o lugar e a instalar a cortina que Marilena trouxe para a porta. Era importante uma cortina ali, assim não precisávamos fechar a porta, tendo um pouco mais de ventilação, já que o calor era de quarenta graus, e ao mesmo tempo não perdíamos totalmente a privacidade. (Ficar com a porta trancada ou simplesmente fechada o tempo todo não pegava bem.)

411983. Fui um dos primeiros a chegar ao orelhão, falei com mamãe e com Marilena, faço isso todos os dias, preciso desses papos familiares para não pirar.

Por aqui tudo calmo e espero que continue assim.

Na vigilância estamos tendo bastante trabalho, arrumando a documentação de internos que saíram e se apresentaram em outro instituto. Eram muitos, e alguns não tinham sido aceitos pelos diretores. Os que voltaram tinham de ser transferidos. Seriam chamados de "vacilões", maltratados e provavelmente corriam risco de se machucar.

511983. Antes de terminar o expediente, Waldique me deu um documento para ler. Era o primeiro boletim do ano na parte de elogios a internos, e havia um para mim. Já tomei nota da data e do número, na época certa irá me ajudar a sair.

Um pouco antes do fim do ano, num fim de tarde, fui à cantina do Antônio comer um filé. Tinha batido bola com Jesus e precisava repor forças. Riscamos uma quadra de tênis no pátio 3 e jogamos como se faz na praia, só que a rede era uma faixa no chão com quatro tijolos empilhados para termos uma noção de altura.

Enquanto Antônio fazia o filé eu ia explicando como era o jogo, ele escutava cozinhando e preparando uma salada de tomate e cebola. Ouviu tudo e comentou que ficava contente em ver que eu tinha arranjado um esporte para descarregar os "nervos". Eu estava sentado em sua cama, ele pôs um banquinho na minha frente e colocou a comida em cima.

— Hoje é no capricho e por conta da casa. — Não concordei, é claro, mas ele continuou... — Não posso cobrar do meu padrinho de casamento.

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Em seguida, sentando ao meu lado com uma cara muito compenetrada, me mostrou um papel da Vara de Execuções. Era uma autorização para ele se casar. O casamento seria dentro de dois dias. Os padrinhos escolhidos eram a chefe do serviço social e eu. Como não sabia o que dizer, continuei comendo olhando para ele. Depois de um certo tempo, recuperado do susto...



— Que honra, é muita consideração me convidar.

711983. Hoje foi o casamento do Antônio, com noiva de véu, grinalda e tudo. Na última hora, em vez da chefe do serviço social, que não pôde aparecer, entrou em seu lugar a mulher do Cara de Gato, que era seu amigo desde os tempos da Ilha. Antônio já está preso há dezenove anos e pelo que diz deverá sair de uma hora para outra. Assim que for posto em liberdade, levará a mulher para viver com ele na região onde nasceu e cometeu o crime que o levou à prisão.

O casamento foi às onze horas, agora é meio-dia e pouco, acabo de sair do banho, pois o calor está infernal. Voltei logo para o cubículo porque quero ler novamente os jornais de hoje e com muita atenção. Há uma reportagem sobre a reforma penitenciária que o ministro da Justiça, Abiáckel, está tentando fazer. Segundo ele, os presos que cumprem muita pena não devem ficar junto de condenados primários, e os presos que trabalham terão salários, e cada dia de trabalho valerá por dois.

Li os jornais com toda a atenção e fui para a vigilância ajudar a preparar os documentos do pessoal que saiu no fim do ano e iria ser transferido hoje para Bangu. Naquele conjunto penitenciário, uma das prisões é albergue e é para lá que eles vão.

Como tem gente saindo, tem gente entrando. Exatamente quando eu chegava à seção, entrou um camarada que matou um diplomata numa festinha a dois e, depois, escreveu com sangue várias mensagens nas paredes do apartamento. (Estou apenas relatando o fato, longe de mim julgar seu procedimento.)

Os internos estão comentando que a direção vai começar a endurecer. Dizem que, depois da chegada do pessoal da Ilha, todos com penas enormes, tem havido abusos e alguns deles desacataram um agente penitenciário. Bem que Pira tinha razão quando começou a se preocupar.

Também tinha ouvido falar a respeito de estarem preparando uma fuga e fora isso havia boatos de transferências em massa para acabar com esse negócio de liderança da Falange Vermelha. Aquele começo

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de ano estava agitado, na última semana deram batidas nos cubículos de manhã e à tarde. Procuravam armas, revólveres, segundo os boatos.

Uma manhã, quando cheguei à vigilância, havia montes de fichas a serem arquivadas. Todas já tinham sido preenchidas durante a noite, quando fizeram na surdina as transferências que achavam necessárias. Segundo fiquei sabendo, no meio do pessoal que tinha vindo da Ilha, com Jesus, Lâmpada etc, havia gente de outras facções. Estes é que retornaram na calada da noite. Isso devia ser verdade porque Jesus e os outros que eu conhecia permaneceram na casa.

Depois das últimas transferências, o clima ficou quase calmo. Se bem que foram dezoito e chegaram vinte, uma semana depois.

Os boatos de fuga continuavam. Pira, Jesus, Lâmpada e Xane, este último como sempre sentado na escada da primeira galeria olhando tudo, e os outros impondo o bom andamento das coisas.

Eu pelo menos estava achando o ambiente calmo. Precisava ficar sempre atento para não estar no lugar errado na hora errada.

O Mimo, o Filho do Polícia e o Paulistão não andavam com ninguém, estavam sempre sozinhos. Este último caminhava pela penitenciária inteira sempre com a mesma roupa, uma calça de agasalho marrom, tênis sem meia e camiseta. Eu sabia que eles se reuniam com os outros, porque os três estavam tramando uma fuga e o plano de cada um era discutido por todo o grupo, apesar de a palavra final ser do Xane, o estrategista. Eu não conseguia ficar sem algum tipo de informação porque Jesus e Pira, que estavam sempre comigo, deixavam escapar alguma coisa. Principalmente depois que arrumaram para eu me mudar para o primeiro pavilhão, da quarta galeria. Um cubículo que reformei no capricho, ele reluzia de limpo e era como a galeria, todo branco. Ganhei de Jesus um espelho que media um metro quadrado, com moldura de madeira. Lá tinha água o dia inteiro. Tomando banho e olhando pela janela, avistava ao longe o relógio da Central do Brasil e baixando a vista enxergava o hospital penitenciário. Ficava a seis cubículos do Pira e a quatro do Chico Tonelada.

Quando Waldique me avisou que o diretor tinha autorizado a transferência de cubículos, chamou minha atenção preocupado:

— É a melhor galeria, mas é a mais perigosa. Se a Polícia Militar invadir, é lá que eles vão em primeiro lugar.

Um ou dois dias antes da mudança de cubículo tive uma surpresa desagradável da qual não pude escapar. Depois do "confere" trancaram

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a galeria como de costume. Eu estava assistindo à TV e bateram à porta; com preguiça de olhar, mandei entrar. Era o Cara de Gato (a mulher dele tinha sido madrinha de casamento do Antônio junto comigo). Um rapaz negro de boa aparência e sempre sorridente. Ele dizia:

— Estou tão chateado, estão querendo me transferir e se isso acontecer vou morrer.

Igual... cópia perfeita da história do Baiano, aquele que foi transferido para a Ilha e lá o mataram. Contou a história sentado em uma cadeira que comprara de um corretor. Ele trazia três latas de guaraná na mão.

— Vamos tomá-las geladas — e perguntou se podia usar o isopor para conservar a temperatura enquanto conversávamos. — Eu sou traficante, traficava lá fora e agora faço isso aqui. É por isso que estou encrencado. Não precisa se preocupar, não vim vender nada.

Enfiou a mão no bolso, tirou um envelope de pó e o colocou em cima do joelho. De outro bolso, tirou um espelho e com uma colher pequena de plástico começou a servir uma "carreirinha". Eu não sabia o que pensar nem o que fazer. Só pensava que, se dessem um flagra na gente, não sairia da cadeia tão cedo. O certo era relaxar e gozar, mas não consegui. Aquele pó não vinha em boa hora, mas agüentei firme e o acompanhei. Não sei a que horas acabou a visita. Ele só saiu uma ou duas horas depois, porque o Bigode foi buscá-lo e de braços abertos dizia olhando para ele:

— Ô negão, você me abandonou? Bendito Bigode, que levou o cara embora.

Tive várias situações semelhantes a essa, em que não tinha condições de recusar um presente considerado tão precioso. Para mim, cocaína na prisão era a pior das coisas, não sei como eles conseguiam usá-la sem poder fazer o que desse na cabeça.

Depois que eles se foram não consegui dormir. Fiquei elétrico e não tinha para onde ir. Com a graça de Deus, naquela noite, quando abri o chuveiro elétrico, a água desceu forte.

Obs.: Cara de Gato foi transferido pouco tempo depois para a penitenciária Milton Dias Moreira, que ficava do outro lado do muro. Foi executado com 45 estocadas, dez dias depois de sua chegada.

Nessa época, pela primeira vez ouvia falar em Segundo Comando ou Falange Jacaré. Foi exatamente quando comecei a arquivar as fichas dos que tinham sido transferidos que Chaves, que estava a meu lado, examinando as fotos ali pregadas, comentou:

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— Deus queira que esse pessoal do Segundo Comando não volte mais, senão vai haver encrenca.



Já estou instalado na quarta galeria. Vim para cá pela manhã trazendo a última coisa que ainda não tinha vindo, meu colchão de viúvo. Na noite anterior jantei no cubículo do seu Antônio e combinamos que ele continuaria a trazer meu jantar. Ele estava furioso, seu cubículo tinha sido arrombado. Tinham roubado um relógio de estimação e um cordão folheado a ouro. Contou-me que outro preso tinha sido assaltado por dois encapuzados na escada. Deixaram-no de cueca, tiraram-lhe os sapatos e a calça jeans. Antônio ficou tão chateado que ia pedir para o diretor transferi-lo para uma penitenciária em Niterói. Ele me dizia:

— Nós não temos nada a ver com esses assaltantes e traficantes. Eu matei por rixa e o senhor é passional.

Achava que ele tinha toda a razão e daquele dia em diante comecei a me informar sobre a penitenciária Ferreira Neto, em Niterói.

Na quarta galeria não havia problemas desse tipo. Quem não era de lá só ia convidado, primeiro porque todos tinham medo e, segundo, se fossem apanhados lá sem uma razão específica teriam de conversar com Pira.

Meu cubículo era muito popular, sempre tinha refrigerante e água gelada, e nunca neguei nada a ninguém, apesar dos abusos. Quando acabava... acabou. Tinha outro isopor menor para não me faltar líquido, pois o calor era bravo. Eu só parei de dar cigarros quando andava pelos pátios, porque seria impossível caminhar se eles percebessem que atenderia a todos, haveria gente que pediria para vender depois. Na galeria era diferente. Todos lá tinham mais dinheiro que eu, só que eram folgados, esqueciam de comprar refrigerante ou então ficavam doidões e tomavam todo o estoque rapidamente.

Houve um ladrão de automóveis que não conheci, mas ficou famoso pela fortuna que tinha conseguido acumular e, segundo contavam, andava pelos pátios o tempo todo enfiando as mãos nos bolsos, tirando cigarros e entregando a quem pedisse.

Mas, enfim, estava no primeiro pavilhão, quarta galeria, cubículo 46. Não tinha pedido para ir, também não acreditava que simpatizavam tanto comigo que me queriam por perto. O que será que eles queriam de mim? Pira sabia que eu estava duro. Tinha me aberto com ele, o dinheiro que eu tinha dava para não me faltar nada enquanto preso. Ao sair

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provavelmente teria de trabalhar no dia seguinte. Agora... arranjar doações, falar com o meu amigo "banqueiro" etc, isso eu tirava de letra.

19/1/1983. Humberto esteve aqui hoje no começo da tarde, amável como sempre, perguntando se eu precisava de alguma coisa e se eu queria ser transferido para Niterói. Ele tinha consultado o Desipe e conseguiria a transferência de imediato. Apesar de achar que a penitenciária de Niterói era bem mais calma e adequada, abdiquei da oferta. Quanto ao recurso, provavelmente teríamos notícia depois de 15 de março. Ele sempre foi uma pessoa tão legal e humana, que não queria desagradá-lo dizendo que eu não acreditava que iriam anular o segundo julgamento. Depois, não agüentaria tudo de novo. No fundo, achava que se eu agüentasse pagar essa dívida me sentiria um pouco melhor.

Ao escrever meus relatos, procurava não comentar o desespero e a tristeza que sentia ao lembrar de Ângela, sua beleza, sua inteligência e seu desrespeito a regras hipócritas.

Aquela era a tarde... saiu dr. Humberto, chegou o ministro Evandro Lins. Com a simplicidade de sempre, disse que tinha vindo apenas fazer uma visita. A presença dele me fez bem, ficou uns trinta minutos comigo, falamos de tudo, ele me contou casos que me fizeram rir. Falamos muito para aquele pouco espaço de tempo e não tocamos no assunto de advocacia criminal. Para não escrever que não tocamos em nada que lembrasse alguma coisa, me contou que papai costumava ir uma ou duas tardes por semana conversar com ele.

As visitas dos advogados me fizeram bem, me distraíram. Eu estava mal desde aquela manhã, quando li o Jornal do Brasil, na p. 12 do Caderno B: "E Búzios saiu às ruas. Turistas e moradores foram para as ruas no último fim de semana em Búzios comemorar a abertura da temporada de verão...", e assim por diante.

Fiquei horas nessa manhã olhando essa manchete. Não que me do-esse não estar gozando a beleza do lugar e de suas praias. Não era isso que me entristecia. Não tentarei explicar um sentimento desses. Para quê? Vai morrer comigo mesmo. E depois eu tinha que tocar para frente.

O mais estranho, é que na tarde anterior eu tinha entrado em alfa, em um instante de prazerosa solidão em meu cubículo. Pensava em todos que de uma maneira ou de outra participavam de minha vida. Tudo começou com o telegrama de Cláudia (filha de Marilena), contando que tinha entrado na USP. Fui tão longe, Luis Felipe, meu filho caçula, correndo

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pela grama, que coisa, já tinha nove anos, a outra filha de Marilena, Adriana casada, Raul, o filho amigão, Zé Maria, na Votorantim. De repente, quando dei por mim, percebi que estive viajando, que tinha estado com os que amo. Estive tão próximo deles, que fiquei triste, aquilo poderia ter durado mais um pouco.



Meu devaneio foi interrompido pelo começo do jogo da seleção gaúcha contra a seleção do povo. Mas não consegui prestar atenção.

Acredito que todo preso ou hospitalizado tenha uma sensação de medo. Medo de um dia sumir todo mundo, porque todos se cansaram e porque a vida lá fora não parou e tudo continuou sem você.

Hoje foi feriado, dia de são Sebastião, Marilena e papai vieram me ver, com a graça de Deus.

Paulistão fugiu, ninguém imaginava como, mas ele tinha ido embora. Aparentemente a administração não se mostrou preocupada. A fuga é um direito do preso. Se ele não depredar o prédio e não agredir ninguém, não aumentará sua pena. Se bem que, no caso do Paulistão, isso não tinha a menor importância, a pena dele era de 520 anos. Assim mesmo ele saiu numa boa.

Depois dessa fuga, que tinha virado tabu, pois a massa comentava sobre ela, mas o pessoal da Falange e da administração não tocava no assunto, havia revista geral pelo menos uma vez por dia. Muitas vezes faziam isso ao abrir a galeria às seis horas da manhã e voltavam à noite logo após o "confere". Trancavam a galeria, davam um tempo e voltavam.

Pela manhã era para tentar pegar restos de alguém ou alguns que tinham se "embalado" e, descuidados, tivessem deixado resquícios de droga pelo chão ou em cima da cama. Baralho também dava um rolo danado.

Eles abriam a galeria antes do toque da sirene, batiam com os cassetetes nas portas, para acordar os internos e faziam uma revista minuciosa. Geralmente revistavam três ou quatro cubículos, pois os outros, se tinham algumas coisas, se livravam delas, atirando-as pelas janelas ou escondendo tudo em cafofos (buracos, fundos falsos).

A noite, quando voltavam depois do "confere" e tentavam abrir a galeria de mansinho, era para pegar o pessoal jogando ou usando tóxico. Homossexualismo também não era permitido e, se pegassem, os dois iam para a solitária. Normalmente não eram tão rigorosos e deixavam todo mundo em paz. Mas, depois daquela fuga...

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Paulistão saiu por um túnel, a partir do auditório. Jesus me contou que ele saiu durante a seção de cinema. Contou também que, debaixo daquele conjunto penitenciário, o solo era um verdadeiro queijo suíço, de tantos buracos. Eles abriam, a direção tapava, mas onde tinha sido cavado um buraco, era sempre fácil abri-lo novamente.



O ambiente estava ficando cada vez mais carregado, havia qualquer coisa estranha se passando. Evitava o cubículo do Pira quando o pessoal estava reunido. Um dia, ia passando por lá com Chico Tonelada, em direção ao meu cubículo, e Lâmpada me chamou, Tonelada me olhou...

— Chi! Cara, eles te chamaram.

Estavam enrolando um fumo que era um verdadeiro "Havana", e não pude sair fora, tive de ficar por ali. Além do Lâmpada e do Pira, estavam: Marinheiro, Nézão, Jarra, Jesus e General. Não precisava me preocupar com os agentes, já tinha visto Cuca e Mãozão sentados em lances diferentes da escada. Me deram um banquinho e sentei encostado à porta, do lado de fora. Estavam só jogando conversa fora. Eu detestava ficar assim num grupo daquela qualidade, tinha medo. Lâmpada, por exemplo, era matador temido, frio, ruim, em qualquer conflito sério era ele o encarregado da matança. Diziam que a família dele era dona de um ponto no morro onde viviam. Se esse ponto estivesse muito ameaçado, faziam de tudo para ele fugir da prisão, mas, depois que ele limpava a área, ficavam tão desesperados, que davam um jeito de ele voltar para a cadeia. Jesus, que se dava tanto comigo, era uma moça para se tratar, mas perigosíssimo, assaltava bancos e, segundo ele mesmo, na hora do trabalho, quem cruzasse a frente dele levava chumbo. Os companheiros contavam rindo essa história e ele confirmava que, se cercado pela polícia, tremia de medo, é verdade, tremia literalmente de medo e para se conter puxava o gatilho aos berros.

Daquele grupo todos se davam muito comigo, me chamavam de príncipe e tudo mais. Mas um deles me olhava de maneira estranha, o Marinheiro. Acho que ele me achava arrogante. Uns tempos depois, quando tomava café com ele, me olhou de frente e perguntou se eu já tinha apanhado de verdade:

— Nunca ninguém quis te sentar a mão na cara de verdade?

Era um pernambucano, magérrimo, 1m 80 de altura, com um bigodinho sempre muito bem aparado, raramente o vi fora de seu cubículo. Aquela pergunta respondi sorrindo:

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— Não, meu amigo, com a graça de Deus nunca quiseram me bater. Com Nézão não me preocupava, sua família estava envolvida com jogo do bicho, cumpria pena pesada, foi quem o enviado do meu amigo "banqueiro" procurou em primeiro lugar. Pira, Jarra e General eram meus vizinhos na visita, não me fariam mal a não ser que fosse necessário. Felizmente aquela reunião terminou logo, Cuca chegou e falou qualquer coisa no ouvido de Pira, e todos se levantaram e foram para outra galeria encontrar Xane.



29/1/1983. Marilena e May me visitaram quinta-feira na parte da tarde, ficamos bastante tempo juntos. Adorei, fazia tempo que não estávamos assim, só nós. Hoje virão também Luiz Carlos e mamãe. Depois de amanhã terei Marilena a partir de onze horas. O que seria de mim se não fosse minha família?

Uma ocasião, um senhor me abordou quando estava saindo da cozinha dos funcionários, eu tinha ido visitar o Antônio, meu ex-vizinho de frente. O senhor me dizia que era de São Paulo e precisava de dinheiro para mandar a mulher vir de ônibus visitá-lo. Convidei-o a ir até a cantina e pedi ao Hugo que lhe desse o dinheiro. Assim que o senhor se afastou, o cantineiro comentou:

— Deixa de ser otário, ele vai pagar o traficante. Esse cara deve para todo mundo.

Em seguida contou que ele era de Campos, estado do Rio, tinha algum dinheiro quando foi preso, mas ficou duro porque tinha muitos processos de estelionato, sua pena era grande e com tempo a família o abandonou. Para viver ele dava pequenos golpes nos otários recém-chegados. Em vez de ficar chateado fiquei com pena do camarada. A porcentagem de abandonados no sistema penitenciário é enorme. Depois disso sempre que me encontrava me pedia alguma coisa, um cigarro, um pacote de bolacha da cantina, coisas pequenas, eu sempre atendi, mas nunca conversamos sobre alguma coisa.



22/1/1983. Hoje perdi meus óculos de ler. Fiquei quase louco, sem eles eu não sou nada, pois o que mais faço é ler. Leio tudo que é best-seller, não me ajuda na pouca instrução que tenho, mas me distrai e me tira daqui enquanto leio.

Fiquei tão desesperado que fui pedir ao inspetor que anunciasse a perda pelo alto-falante. Como ninguém apareceu, voltei para o meu cubículo. Quando passei por Nézão...

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— Você esqueceu sua bicicleta (óculos) em cima do tanque do meu cubículo.



Pela manhã eu tinha ido ver um tanque de lavar roupa que tinha instalado. Achei a coisa tão extraordinária que fui lá olhar e esqueci a "bicicleta". Apesar de estar sempre com Nézão, nunca falamos sobre nossos crimes. Ele estava constantemente enrolando um fumo. Fumava-os como se fossem cigarros. Acho que corria sérios riscos lá dentro, pois nunca saía da galeria. Era o único que não descia para esperar a mulher no domingo às onze horas, para visita íntima. Ela subia sozinha três lances de escadas cheia de pacotes.




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