O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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"O esforço que Marilena fez para não faltar neste fim de semana foi espantoso. Saiu de São Paulo na sexta-feira, cedo, de ônibus, e para chegar à rodoviária foi de metrô. Que bom, pudemos curtir nossa intimidade, esquecer do mundo e de tudo em volta.

"Marilena e eu já sabíamos que, se ela pudesse, teríamos um tempo só para nós, pelo menos uma vez por semana. Era um pontinho de nada, um meio degrau, para diante de uma condenação de quinze anos. De novo, quando tocou a sirene, Marilena se emocionou, mas eu, mais uma vez, agüentei firme, não derramei uma lágrima. Apenas abracei-a muito e lhe entreguei uma carta para sua filha Cláudia que aniversariava.

"Descemos e lá estava papai novamente com um piquenique."

No sábado, um dia antes, depois de revistada pelas agentes penitenciárias, ela recebera a credencial de visitante companheira, com fotografia e tudo.

Conforme eu tinha pedido, recebi o Código Penal. Papai achou esquisito o meu interesse. Mas, depois de eu explicar que queria estudar

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com profundidade o artigo 121 (crime de morte) e a minha sentença, ele entendeu e ficou preocupado. Eu continuei expondo meu ponto de vista para que ele e Marilena pudessem me ajudar.



— Em conversas que tive com Pira, com Waldique e com a chefe do serviço social, verifiquei que os presos têm alguns direitos. Exemplo: se o interno tiver família, residência fixa, trabalhar na prisão, tiver bom comportamento e for primário, depois de cumprir um sexto da pena, começa a ter direito de visitar a família no Natal. Com um terço, a trabalhar fora, voltando à noite para dormir. O próprio sistema encaminha ao juiz essas informações e, segundo consta, o interno só tem de fazer uma petição. E se nessa época, o pai, a mãe e a esposa forem visitar o juiz para pedir que atenda à petição, em noventa e nove por cento das vezes, ele concede os benefícios.

Bom... depois dessa explanação, os dois começaram a fazer contas. Era meio desanimador, só começaria a reivindicar esses benefícios depois de dois anos e meio.

Naquele domingo, depois do "confere", deitei para ver TV. Como queria ficar sozinho, fechei a porta e passei a tranca. Acabei de fazer isso, bateram com força na porta. Antes de abrir, olhei pela portinhola, para ver do que se tratava. Eram seis guardas mandando eu abrir a porta, sair e esperar do lado de fora. Reviraram tudo, fizeram uma desordem danada e passaram para outro cubículo. Revistaram a galeria inteira e foram embora sem encontrar nada.

Os dias que se seguiram foram terríveis, o calor era tanto que as paredes suavam, à noite não acendia a luz para não esquentar o ambiente. O ideal era deitar, só com o ventilador ligado e mais nada, inclusive televisão, ficar bem quieto e não se mexer em hipótese alguma. Passado algum tempo assim, o corpo esfriava e a gente se sentia melhor. Infelizmente, nos primeiros dias de calor intenso, eu, inexperiente, fiquei entrando no chuveiro e indo para a frente do ventilador. Refrescava, é verdade. Mas me valeu uma sinusite fortíssima, que me maltratou muito.

Já estávamos no último domingo de novembro, o calor não dava sossego e a sinusite também não. Marilena e eu fomos para o pátio às quatro horas e papai ainda não tinha chegado. Apareceu cinco minutos depois com seu irmão mais velho e sua sobrinha Maria Zélia, que hospedava os dois, papai e Marilena. Uma santa, essa minha prima.

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O pátio já tinha avisos sobre a festa de Natal, que seria realizada no domingo anterior ao dia 24 de dezembro. Os nomes de Elba Ramalho e Elke Maravilha estavam em destaque, para alegria dos marmanjos.

Quanto ao que se referia às crianças, eu estava sossegado, tinha informações de que minha amiga, dona da loja de departamentos, estava providenciando alguns presentes para serem distribuídos durante a festa.

Meu tio estava impressionado com o estado do prédio. Olhava para aquilo tudo com tristeza. Tinha trabalhado a vida toda no governo, era um burocrata competente, ligado à indústria e comércio do país no exterior. Ele falou pouco, mas fez um comentário que era bem o seu estilo:

— Que bagunça extraordinária.

Segunda-feira, 291182. Fui chamado ao serviço social para receber as coisas que minha amiga mandou da sua loja em São Paulo. Três bicicletas, duas televisões e outros brinquedos a que na época não dei importância e não anotei. A chegada desses presentes causou certo rebuliço e preocupação. O serviço social pôs tudo numa sala e ficou como depositário. Mas, como os internos que trabalhavam lá contaram que havia doações de bicicletas e televisões para serem sorteadas na festa, em pouco tempo todos ficaram sabendo e comentando. Os comentários eram incríveis, mas não eram fora de propósito, como pude constatar depois, quando conheci melhor o sistema. Eles diziam que ia sumir tudo. Quando Pira foi olhar os presentes, encontrou alguns agentes penitenciários tentando abrir uma das caixas para ver um dos aparelhos de tv. Ele achou que eles não podiam estar mexendo em presentes que tinham sido doados para a lep. Aquilo causou a maior discussão porque os guardas retrucaram que tudo ali era meu e estavam só olhando. Para encurtar a novela: fiz uma doação por escrito para a lep e os presentes saíram do serviço social e ficaram expostos no auditório para que todos pudessem ver.

Para completar o dia, o material esportivo que pedi para meu amigo "banqueiro" também chegou. Dava para fazer seis times de futebol de salão. Vieram seis jogos de camisa, redes para as traves, alguns pares de tênis e duas bolas de futebol. Tudo novo. O meu cartaz com os líderes estava alto.

Tenho de escrever líderes, porque naqueles últimos dias tinham vindo da Ilha alguns dos internos mais conhecidos da massa carcerária e, pelo que eu entendi, todos eram chefões. Andam todos juntos,

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inclusive Pira, que conseguiu fazer uma movimentação de cubículos e colocar parte deles na quarta galeria. É verdade que ele se destaca, mas o ambiente estava diferente.

Algum tempo atrás, escrevi que encontrei Pira preocupado. Na época, eu ainda não tinha mudado de galeria. Ele só tinha me dito que as coisas estavam complicadas e que às vezes ficavam muito difíceis. Eu não podia avaliar a razão de suas preocupações, tinha pouco tempo de sistema. Percebia que ele tinha muita força com o diretor. Na última semana, segundo comentários, conseguiu a transferência de um agente penitenciário para outro instituto. Tudo isso era comentado à boca pequena, aos sussurros.

Numa tarde em que Pira esteve no meu cubículo e estivemos conversando sobre a festa e sobre o torneio de futebol que ele estava pensando promover, comentei sobre o pessoal que tinha acabado de chegar da Ilha. Percebi que, embora fossem seus companheiros de longa data e pertencessem à Falange Vermelha, ele estava preocupado com a presença deles. Ele desviou o assunto, mas falou sobre a Ilha, do quanto ela era linda e que tinha sido feliz lá, na época em que foi preso de confiança e morava extramuros. Bom... essa é uma outra história.

Naquela tarde durante o papo me contou estes fatos: havia algum tempo, um dirigente quis fechar a Lemos de Brito. Parece que foi o dr. Patrício, na época em que assumiu a casa. (Estou escrevendo o que ouvi e anotei naquela tarde.)

Segundo Pira, o dirigente achava que o lugar era um caldeirão prestes a explodir, pois não tinha a menor segurança. Havia muitas brigas de quadrilha, muita gente jurada de morte etc; além do mais, o prédio estava em péssimo estado. Foi nessa época que Pira se comprometeu a acabar com as brigas de quadrilhas e com as mortes, e assumiu o compromisso de, junto com os internos, reformar o prédio. Em contrapartida, ele obteve parlatório de no mínimo quatro horas e "dormidas" se tudo andasse bem. Também, segundo Pira, havia dois anos não ocorriam problemas sérios na Lemos de Brito, tais como mortes e rebeliões.

Mas agora dois fatos o preocupavam, a mudança de governo que ocorreria em poucos dias (e com toda a certeza o dr. Patrício seria substituído), e a chegada do pessoal da Ilha, que de certa maneira o enfraquecia, porque acabava com seu poder absoluto.

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(Obs.: Numa das revisões que fiz em meus relatos, em 1661987, escrevi: Pira era o dono da cadeia. O diretor inteligentemente não fazia nada sem consultá-lo. Enquanto dr. Patrício esteve na direção daquela penitenciária e Pira de olho nos internos, esteve tudo razoavelmente bem, o prédio tinha passado por algumas reformas e não tinha havido mortes. Mas, com a chegada do pessoal da Ilha, e com a mudança de administração do Desipe (Departamento do Sistema Penitenciário), logo após a troca de governo, as coisas começaram a mudar. Uma delas foi a troca do diretor daquela casa.



(Não vai aqui nenhuma crítica.)

Os dias iam passando e quanto mais eu compreendia o quanto era complexa a sociedade a que agora eu pertencia, mais desesperado ficava. No fim da primeira quinzena de dezembro, lá pelo dia 11, eu escrevia estas coisas: "Ando por aí feito um zumbi. Não consigo entender nada, pareço um pintassilgo novo de gaiola. Não há absolutamente nada, dentro da lei, que eu possa fazer para sair daqui. Há momentos em que chego a pensar que o mundo desabou na minha cabeça... aliás, desabou mesmo. O pior é que estou infernizando a vida de todo mundo, de Marilena, papai, Raul, mamãe, May, Luiz Carlos e de quem mais aparecer para me visitar. Não estou conseguindo me controlar, pois todo meu controle eu gasto aqui dentro. É tudo estranho e, além do mais, perigosíssimo. Sei lá, não acredito mais em recurso nenhum, esses tribunais superiores não vão me deixar sair daqui. Por que deixariam? Eu não cometi um crime? Não fui idiota o bastante para fazer isso? Minha luta nem começou. Vai ser aqui, dentro do sistema, desse jeito moroso que desanima qualquer um".

"Amanhã (sábado), não terei Marilena. Sua filha mais velha, Adriana, está chegando dos Estados Unidos."

Era um momento terrível para mim. Depois do impacto da chegada, o impacto de começar a entender o emaranhado daquilo tudo. A delegacia, Água Santa, Edgard Costa e os cinco anos de espera por dois julgamentos não tinham posto meus pés no chão. Todo este tempo eu estive, sei lá... voando perdido. Só agora eu enxergava, e tudo estava claro. Tinha caído num grande poço, com paredes que eram puro limo.

Em poucos dias fiquei conhecendo e fiz camaradagem com alguns dos que tinham acabado de chegar: Jesus, Lâmpada, Mimo (educado, inteligente, gostava de conversar com o padre e... muito perigoso), Paulo e outros.

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Quando esse pessoal chegou, eu já tinha adquirido o costume de bater paredão no pátio 3, que dava para o morro de São Carlos. Era um dos dois campos de futebol e eu ia para lá na hora do almoço, porque podia jogar sozinho.

A extensão que eu podia percorrer era enorme, ia batendo e rebatendo a bola com toda a força, andando para a direita e depois voltando, o que dava na ida e na volta mais de 130 metros. Jogava até a exaustão, só parava quando, já sem controle nos pulsos, começava a mandar muitas bolinhas de tênis por cima do muro. As raquetes de madeira que Marilena me trouxera eram as melhores e muito vistosas. Alguns internos ficaram tão encantados com aquele esporte, que tive de doar as raquetes para a lep e pedir à Marilena que trouxesse outras.

Jesus, que fez amizade comigo, também adorou bater paredão, então começamos a fazer isso em dupla.

Todos os internos que já se achavam com direito de visitar a família no Natal, fizeram requerimento. Muitos já tinham recebido a informação de que estava tudo o.k. E a grande parte teve o pedido negado. Nos dias seguintes viria visitar a vigilância uma promotora da Vara de Execuções, para atender e entrevistar internos que estavam em dúvida se já tinham esse direito. Quem quisesse falar com ela teria de pôr seu nome em uma lista. O encarregado da lista era eu. Uma das pessoas que foram se inscrever foi Chico Tonelada, que também mantinha ótimo relacionamento comigo. Se inscreveu e saímos para andar um pouco. Como já escrevi antes, ele era educado e agradável.

Segundo ele, nunca tinha usado tóxicos, seu interesse era estritamente comercial. Fazia grandes transações e, até ser preso, nunca tinha tido contato com a Polícia. Era muito engraçado ouvi-lo contar esta história: ele estava em seu apartamento (não tenho certeza se era na Viera Souto), um por andar, luxuosíssimo. Começou a ouvir sirenes de tudo que era lado e, curioso, foi à janela ver o que se passava. Verificou que o quarteirão estava cercado pela Polícia. A campainha tocou e ele foi atender. Nunca esperou que aquele barulho todo fosse por sua causa. Abriu a porta e foi empurrado para o meio da sala por vários policiais de metralhadora em punho.

— Imagine o susto que levei... logo eu, que nunca segurei uma arma em toda minha vida.

Ele achava que tinha sido dedurado, porque trabalhava sozinho.

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Houve muito estardalhaço pelos jornais, a pena dele era grande e já tinham confiscado vários bens que possuía, inclusive o apartamento. Segundo comentavam, ele pagava pedágio em "mercadoria" para a Falange deixá-lo em paz.

Eu nunca sofri esse tipo de pressão. Uma vez emprestei dinheiro para Pira comprar uma televisão igual à minha. Uma semana depois, quando me disse que me pagaria dentro de alguns dias, eu dispensei o pagamento, alegando que era em agradecimento pela sua ajuda. Uns tempos depois, Jesus fez exatamente a mesma coisa: pediu dinheiro para comprar aparelho de televisão, e também recebeu o mesmo tratamento. É verdade que pouco tempo depois, quando me mudei para a quarta galeria, esse pessoal que estava todo lá entrava em meu cubículo e se servia do meu isopor, que sempre estava cheio de refrigerantes, comiam meus doces e frutas, sem fazer a menor cerimônia. Também era verdade que ninguém chegava perto de mim, e tudo o que eles recebiam, como comida caseira, bolos, pó e fumo, me ofereciam. Esses últimos, eu aceitava mais por respeito a eles do que por vontade de usar. Não tenho vergonha de dizer que tinha medo de ofendê-los. Como também não me envergonho de dizer que tinha amizade por Pira e Jesus, apesar dos crimes muitas vezes hediondos que cometeram e contaram sem remorsos, porque fazia parte de suas vidas. Quando morreram tempos depois, senti suas mortes. Os dois morreram pela vida que escolheram levar. Outro que me dava com ele e mataram foi o Gordo, mas foi em outra penitenciária e dois anos depois.

Com esse negócio de bater paredão, tentar jogar futebol e andar muito, melhorei um pouco meu ânimo e muito meu estado físico. Escrevo tentar jogar, porque já estava com 48 anos e mal via a bola. Quarenta e oito anos... eu tinha acabado de completá-los.

121282. Os jornais de hoje noticiam que a Polícia descobriu um túnel na Ilha e que tentaram uma fuga em massa, comandada por Jesus. Como é possível? Ele bate paredão comigo todo dia.

Hoje, o cardeal Dom Eugênio Salles esteve aqui e rezou uma missa no auditório. Fez um sermão bonito e desejou feliz Natal a todos os internos e a suas famílias. Falou de paz, de amor e de devoção. Todos ficaram muito atentos a suas palavras.

Domingo será a festa, distribuirão presentes. As bicicletas e tvs serão sorteadas. Fizeram rifa, venderam números, um rolo de que eu nem quis saber e muito menos averiguar. As galerias foram liberadas aos

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visitantes e familiares. Bom... Marilena já conhece. Será que mamãe e Raul virão? Se vierem e quiserem visitar a minha galeria e cubículo, tudo bem... não há nada mais de que eu possa me envergonhar.



Essa semana foi incrível, consertaram e pintaram toda a fachada do prédio. Inclusive a portaria da rua. Reformaram a quarta galeria, enfeitaram-na toda, arranjaram até uma árvore de Natal de bom tamanho. Pintaram as escadas, ha! Os muros e guaritas também foram pintados. Batendo o olho de repente, o prédio estava no capricho.

Fui caminhar no pátio 3 e acompanhar o pessoal pintando o muro. Tinha descido para bater paredão, mas, como o muro estava impedido, fiquei andando. Vi Pira no canto da quadra, gesticulando bravo com um dos pintores, que amarrava na ponta de uma corda uma lata de tinta vazia. Como estava caminhando naquela direção, me aproximei. Ele gesticulava dando ordens, mas no duro estava se divertindo. A lata subia, ia até a rua e voltava com tinta a ser misturada do lado de cá. Eram duas turmas de pintores, os mais velhos e de confiança pintavam lá fora. De cada quatro ou cinco vezes que a lata ia e voltava, uma vinha com uma garrafa de cachaça. Isso deixava Pira preocupado. Não que o cara da guarita percebesse, acho até que ele não estava querendo olhar para aquele lado, entretido com as meninas do morro (aquele que eu via, do meu primeiro cubículo na sexta galeria). O que preocupava era se dois ou três de porre fizessem arruaça, puxando briga de faca na mão e... essas coisas. Enquanto eu conversava com ele, chegaram Xane, Jesus e Paulo. Que ficaram ali e tomaram conta de tudo até o fim. É bem provável que a bebida fosse deles, afinal, lá dentro, tudo se negociava.

Fora esse trabalho todo, a semana passou bem. Alguns internos angustiados esperando sair no Natal. Outros, angustiados porque bandido que é bandido sai e não volta. Voltando se dará mal, poderá até morrer. Havia angústia para todos os gostos.

Sexta-feira, no fim da tarde, Humberto veio me visitar; trazia notícias, segundo ele, boas. Um dos desembargadores tinha reconhecido irregularidades no corpo de jurados. Eu já estava tão cheio de conversa que nem me entusiasmei. Ainda por cima me irritei porque ele trazia uma revista Manchete com a entrevista do papai. Eu tinha gostado do papai na entrevista, mas não da entrevista. Achei fora de hora, queria que deixassem minha família e aquele assunto quietos. Além disso, na época tive a impressão de que a entrevista foi feita só para faturarem

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mais algum. (Talvez eu estivesse enganado.) O fim do ano me deixava triste e tenso, eram datas que não festejava, acho que aquela visita não foi em boa hora.



O sábado e domingo sem Marilena foi esquisito, fiquei o tempo todo com a impressão de que ela ia chegar a qualquer momento. No domingo, Maria Zélia veio com papai e lá pelas quatro horas apareceu o Grande.

A semana estava agitada. O prédio, pelo menos de fachada, estava com boa aparência. Como faltavam alguns detalhes, havia gente se movimentando para todos os lados. O Careca tratando da parte elétrica do auditório, porque durante a missa a voz do cardeal sumiu. Os pintores dando mais um retoque aqui e ali.

No meio da semana, a promotora da Vara de Execuções apareceu para ouvir e tentar ajudar alguns internos que não tinham conseguido autorização para visitar a família, injustamente ou por falta de algum documento, porque talvez não tivessem feito o requerimento corretamente. Em princípio ela estava lá para esclarecer e ajudar. Eu sabia que ela estaria lá e não fui à seção de propósito. Logo depois do almoço mandou me chamar. Eu não entendia por quê, já que não tinha direito a nada. Fui até lá e fiquei quieto na minha mesa. O último nome da lista era o do Chico Tonelada. Ele ficou sentado comigo esperando a vez. Num certo momento, só nós três ficamos na sala. Até o Waldique já tinha ido embora. Ela olhou para mim...

— E o senhor, não quer visitar a família?

Respondi que ainda não tinha direito. Aí, olhando para o Chico:

— E o senhor, qual é o problema?

Chico explicou que já tinha cumprido tempo necessário e seu requerimento tinha sido negado. Ela perguntou pelo nome completo (já estava com a ficha dele na mão).

— O senhor é aquele Tonelada, traficante, não é mesmo? Não posso ajudá-lo, o senhor causa muitos danos à sociedade, aos menores de idade e até às crianças. Se depender de mim, vai cumprir a pena inteira sem privilégios.

Ele se levantou, se despediu dela e saiu sem olhar para trás. Depois de fechar a seção fui deixar a chave na inspetoria, e o Chico estava lá me esperando.

— Você viu? Aquela mulher me odeia... fiquei tão desnorteado, tive que sair de lá correndo.

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21121982. Domingo, hoje foi a festa de Natal dos filhos dos internos. Foi um dia ótimo, estiveram aqui, além de Marilena e papai, Cláudia, Adriana e Raul. Apesar de ter muita gente, estávamos tranqüilos, porque todos foram ao auditório assistir aos shows e aos sorteios. Só mais tarde, quando acabou a distribuição de brinquedos, bagunçou tudo. Como sempre, o momento crítico foi a despedida, principalmente quando Raul me abraçou e chorou. Doía pensar nos meus filhos. Luis Felipe mal me conhecia, e o mais velho, para estar comigo, tinha de ir à penitenciária.



Eu tinha decidido não assistir ao show nem acompanhar os sorteios e distribuição de brinquedos. Os internos queriam me homenagear por causa das doações, então preferi não participar.

Descobri mais tarde que o pessoal da Falange tinha tido muita sorte nos sorteios. Das três bicicletas, eles ganharam duas, e das duas televisões, uma também saiu para um da turma.

No dia seguinte, quando fui bater paredão, eles estavam lá no pátio 3 tomando sol. Mãozão, Jesus, Cuca, Paulo, Peróska, que acabara de chegar do Água Santa, e Admílson, também recém-chegado, mas esse veio da Ilha. Falavam a respeito do pessoal que iria sair no Natal. Alguns eram assaltantes de responsabilidade e não poderiam voltar, mas, como suas penas estavam se extinguindo, deveriam se apresentar numa prisão aberta, para esperar lá o complemento de suas penas. Ao se apresentarem em outras unidades teriam de argumentar que era impossível voltar, porque correriam grandes riscos. O juiz já estava acostumado com esse tipo de coisa. Ouvi aquela conversa, mas não acreditei muito, que estavam falando só sobre aquilo. Estavam todos com cara de santo e, quando acontecia isso, geralmente era alguma armação.

24121982. Até às onze horas, os que foram aprovados pela Vara de Execuções poderiam sair, acompanhados de um parente. Mas, uma hora antes de começarem a sair, deu o maior rebuliço. A Vara de Execuções tinha autorizado só vinte saídas, mas não sei que jeito os internos deram, porque o diretor recebeu 106 nomes. Tudo direitinho, com timbre do Desipe, assinatura do juiz etc.

O diretor só descobriu o que acontecia porque cagüetaram.

Tudo começou com a lista do diretor, que tem direito a autorizar a saída natalina para alguns internos de sua confiança. O juiz, naquele ano, vetou a maioria dos nomes indicados pelos diretores. Aí ouve a

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confusão, e o pessoal armou outra lista. Era tão perfeita, que no primeiro momento não conseguiam saber qual era a original. Conseguiram contornar os problemas e os que realmente tinham autorização saíram com um pouco de atraso. O pessoal que estava na lista do diretor ficou desapontado, mas obteve dele a promessa de que iria pessoalmente falar com o juiz, para que todos saíssem no Ano-Novo, na próxima semana. 25121982. Duas horas da manhã. Termino de escrever os fatos daquela semana e como sempre termino com um recado para Marilena.



"Amor, eu amo muito você, demais mesmo, você é o sol de minha existência. Veio para iluminar os meus dias e tranqüilizar minhas noites. Você, meu amor, é a bênção que Deus me mandou.

"Em tempo: desculpe se estou piegas, mas é assim que me sinto."

O primeiro Natal enjaulado. Era exatamente assim que me sentia naquela madrugada do dia 25. Andava pelo cubículo e repetia: "Eu não estou sozinho, tenho minha família e um dia sairei deste inferno". Andava dois passos, do chuveiro até a porta e voltava novamente, repetindo a mesma manobra e a mesma frase uma centena de vezes.

Ao meio-dia, já estava pronto para receber as visitas que só começariam a chegar uma hora depois. O dia estava horrível, não ouvia um motor de avião passando. Mamãe e Marilena estavam vindo pela ponte aérea e o tempo fechado daquele jeito me afligia.



29121982. Nestes dias, logo após o Natal, que antecediam o próximo ano, eu estava achando os internos muito quietos. Talvez fosse apenas impressão. Tudo me preocupava, não queria que nada acontecesse naquele fim de ano que pudesse atrapalhar os dois dias e as duas noites que Marilena passaria comigo. Apesar da lista falsa, Pira conseguiu do diretor a "dormida" de fim de ano.

O ano tinha acabado, e 1983 só poderia ser melhor. Logo nos primeiros dias, papai iria fazer uma visita ao juiz na Vara de Execuções Criminais. Tinha sido orientado por dr. Evandro, porque o juiz que tinha assumido recentemente era o mesmo do primeiro julgamento. Papai não iria pedir nada, era apenas uma visita.




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