O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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acabando de pintar dois cubículos e só começaria em dois dias. Na segunda-feira.



Agora, eu iria começar o mais difícil, a mudança. Tinha de começar imediatamente. À noite, na hora do "confere", tinha de estar lá, de pé, respondendo "presente".

Foi complicado, apesar de contar com a ajuda do Lambreta. O colchão era enorme e a privada deu tanto trabalho para tirar que quase desisti dela. Depositamos tudo no corredor da galeria e eu mesmo lavei o cubículo.

Pedi emprestado para o xerife uma escova de bom tamanho, um balde e uma vassoura de piaçava. Depois de uma hora de muita esfregação, o lugar estava quase limpo. Pus todos os meus pertences para dentro, inclusive o colchão, que era um palmo mais largo que a cama. Adaptei uma tábua, que Alfredo, chefe da estofaria, me arranjara depois de ir comigo até o cubículo e estudar o problema. A tábua só foi parar lá porque o inspetor, que devia alguns favores ao Alfredo, fechou os olhos quando ela passou. A privada ficou num canto e o isopor como antes, servindo de criado-mudo. O Careca apareceu e ligou a antena da minha TV na antena do vizinho e me prometeu uma lâmpada de cabeceira já instalada. Olhando de fora, não estava muito diferente do outro cubículo.

Depois de comer alguma coisa numa das cantinas, voltei para descansar e ver tv. Adormeci e acordei com o vizinho da frente me chamando, ia começar o "confere". Parado na porta depois de responder o "confere", fiquei olhando e estudando meus novos companheiros. Todos, pelo menos à primeira vista, me pareciam bem, e ninguém ficou me olhando com curiosidade. Para manter o lugar numa das duas galerias do parlatório, o interno tinha que conservar o cubículo sempre limpo e ajudar a manter a higiene. Isso era fiscalizado pelos próprios companheiros. Enquanto o "confere" continuava, o vizinho da frente comentava que a direção estava pensando em acabar com as cantinas, que eram quatro ou cinco. E o pessoal estava achando que o responsável era o senhor Hugo, que não queria concorrência.

O "confere" acabou e o senhor que falava isso se aproximou:

— Meu nome é Antônio, sou o cozinheiro do refeitório dos funcionários, já mandei comida para o senhor algumas vezes. Vou jantar daqui a pouco, quer me fazer companhia?

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Já tinha comido, mas aceitei, queria combinar com ele minhas refeições dali para frente. Além disso, não ia fazer uma desfeita, o homem estava sendo gentil. Era um roceiro da região de Campos, moreno, forte com uma postura muito séria. Descobri com o tempo que era temido por todos. Era desses camaradas que todos tratam com respeito. Tinha matado um vizinho por disputa de terras. Comi um pouco da sua comida, assisti à TV, conversamos sobre mandar pintar a galeria. Depois combinamos que me traria jantar todas as tardes. A cozinha e o refeitório dos funcionários ficava no primeiro andar, perto do escritório do diretor. Depois desse dia, muitas vezes na hora do almoço, ia lá visitá-lo e comer alguma coisa; ele fazia doces e bolos muito gostosos. A cozinha era muito bem montada e ele a conservava brilhando. Era muito exigente com seus ajudantes. Mas, apesar disso, o ambiente ali era alegre e eu gostava de ir lá.



Domingo à noite, estou há algum tempo trancado no meu cubículo, não acostumo com a partida da família. Quando toca a sirene terminando as visitas, todos já estão cansados, pois foram cinco horas de pátio em bancos de concreto, fora a fila para entrar. Repleta de gente reclamando, cheia de pacotes, com odores de todos os tipos de comida. Eu também fico cansado, mas quando os vejo de costas sempre sinto falta de ar.

Ontem de manhã fui andar e tomar sol, depois fui assistir à Baiana estender a toalha, queria pedir para pôr alguns pesos nas pontas porque ventava muito. Mas não foi necessário recomendar, ela já tinha prendido a toalha. Convidei-a para uma Coca-Cola e depois fui para o cubículo. Ainda não tinha água quente porque a reforma começaria na segunda-feira, às 7 da manhã. Antes de começar a me arrumar, juntei as duas páginas que tinha escrito e dobrei-as para entregar a Marilena.

Olhando aquelas folhas dobradas, comecei a pensar nela, na sua ternura e em todo o esforço que fazia vindo de São Paulo toda sexta-feira, para passar aquelas horas comigo. Peguei meu bloco e escrevi...

"Amor,


que bom que você está chegando, como preciso de você, do seu amor e do carinho que me dá. Você é minha força e a razão de eu querer lutar. Quero que saiba que a amo e que só agora compreendo o que é amor. Você

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me fez ver a vida de uma maneira diferente. Hoje sei o que é verdadeiramente amar e o quanto tudo isso é profundo. Estou passando um mau bocado, mas você reduz muito meu sofrimento.

Um beijo, bem beijão, beijão mesmo, com aquele carinho. D."

Dobrei mais aquela página com as outras e entrei debaixo do cano com a água aberta no máximo. Apesar disso, a água não era muita. O Português já tinha me avisado que o cano estava meio entupido, mas ele daria um jeito. Quando fiquei pronto e desci, papai e Raul já estavam me esperando. Meu filho estava ótimo, tinha engordado um pouco. Quando me viu me abraçou muito, demonstrando toda a amizade e amor que nos unia. Em seguida chegou Marilena e fomos para a mesa. Estava de mãos dadas com minha mulher e meu filho, com papai na minha frente, quando senti alguém fazer cócegas na minha nuca, olhei e vi o Caco (Luiz Carlos), com mamãe logo atrás, escondida para me surpreender. As horas passaram rápidas, mamãe e Caco voltariam para São Paulo pelas praias, pela rodovia Rio—Santos. Um pouco antes de terminar a visita, Pira veio conversar a respeito da festa de Natal dos filhos dos presos. Contou dos shows e da campanha para angariar brinquedos que estávamos promovendo.

— O Doca já contou que ele será o próximo presidente da lep?

Como não tinha contado... expliquei do que se tratava. Em seguida tocou a sirene para horror do meu irmão, que desde criança detestava esse tipo de som. Despediu-se e saiu apressado para não ouvir a segunda, que tocaria novamente em cinco minutos. Saí da mesa abraçado com minha mãe, que desta vez agüentou e não chorou. Depois de me despedir de todos, esperei que eles desaparecessem. Amanhã teria mais, só que seriam apenas Marilena, papai e Raul.

Agora estou aqui, depois da visita de hoje (domingo), que foi ótima com Raul contando o esforço que estava fazendo, trabalhando e estudando. Tive meus momentos com Marilena, enquanto ele e papai foram à cantina e demoraram um pouco.

Agora, trancado, sem querer olhar a galeria e enfrentar minha realidade, fico imaginando os dois (Marilena e Raul) no ônibus. Depois, entendendo que não adianta ficar sofrendo, acendi a luz e comecei a Pensar na reforma que ia começar no dia seguinte. Comecei a rir ao lembrar da sexta-feira passada, quando no fim da tarde o diretor mandou

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me chamar para entregar um estudo sobre visita íntima que estava em inglês. Era para eu traduzir (o mesmo estudo que o capitão Astério tinha me dado para traduzir no Água Santa). Mas eu ria por causa do susto que ele levou quando contei que era o Português que ia reformar minha nova moradia. Ele disse:

— Não deixe ele sozinho nem um minuto, ele vai roubar tudo, é cleptomaníaco.

Como sempre, ele era educado e me levou até a porta. Era fim de tarde e um dos internos que trabalhava ali cumprimentou-o. Era chamado de João do Lago. Patrício já tinha falado dele e, ao vê-lo, fechou a porta e me puxou de volta.

— Esse aí, com cara de bonzinho, seduziu um menino de oito anos com balas e chocolates. Levou-o a um lago, estuprou-o e matou-o. Agora virou "Bíblia", reza e fala em Deus o dia todo.

Estava divagando sobre essas coisas quando bateram à porta, o "confere" ia começar. Ao abri-la, dei de cara com seu Antônio, que estendeu meu prato, só que naquela noite era com comida vinda da casa dele, feita por sua mulher. Ele tinha esquentado e estava pronta para comer.

Fiz alguns amigos na prisão, muitos deles como seu Antônio, completamente desinteressados, apenas queriam ser amigos. O "confere" acabou e fui ao seu cubículo agradecer e levar um pedaço de bolo. Tinha acabado a semana, no dia seguinte só pensaria na reforma. E claro... ficaria de olho no Português.

Às duas da tarde a reforma estava pronta, só o chuveiro não fora colocado, porque o entupimento vinha do vizinho, que já estava avisado; no dia seguinte seria visitado pelo Português. Sua chave ficaria com o xerife. De resto estava pintado, vaso sanitário instalado, pia funcionando e o cano com mais água. Que era pouca para o chuveiro elétrico, que só foi colocado dois dias depois, após ser sanado o problema do vizinho. Novamente eu mesmo fiz a faxina. Comecei ajudando o Português com o entulho, depois lavei e esfreguei até ficar exausto.

Meu cubículo estava pronto, até cortina para separar lavatório, chuveiro e vaso sanitário tinha. Continuava preso e sem nada, mas agora tinha quarto para dormir e água para tomar banho.

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Fui para a seção só para dar uma olhada, já que era fim do expediente. Além do mais, queria comprar gelo e alguns refrigerantes. Passei antes na cantina e encontrei Hugo chateado. Ele me confidenciou:

— Os donos de cantina acham que eu armei para eles. Isso é um absurdo, eles são meus maiores clientes.

Contei que estava tudo na mesma, e as cantinas estavam funcionando. Ele continuou:

— É, mas está sumindo muita carne e, se continuar assim, vão ter de tomar alguma providência.

Eu ri e ele também. Quando cheguei à seção eles já estavam fechando, e o senhor Waldique indo embora. Foi só o tempo de eu agradecer pela colaboração.

Pira apareceu, vinha da sala do diretor, trazia um pacote na mão, dava para perceber que era um prato.

— Vamos experimentar esse frango lá na galeria, que eu preciso falar com você.

A tarde estava muito clara e com a galeria encerada, tudo brilhava. Comemos o frango e conversamos sobre muitas coisas, inclusive sobre o meu amigo "banqueiro". Fui eu que toquei no assunto, estava achando que já tinha passado um bom tempo e, se o material esportivo tivesse de vir, deveria estar chegando. Estávamos no fundo da galeria onde tinha um sofá de bom tamanho.

Atrás, terminando a galeria, havia grades grossas do chão ao teto. Nas outras galerias, onde o fundo também tinha grades, os internos sentavam-se com as pernas para fora, porque podiam olhar parte da cidade ou do morro, dependendo do pavilhão.

Pira tranqüilizou-me:

—Você não entende essas coisas... se ele mandou uma pessoa aqui, para falar comigo e com algumas outras pessoas, inclusive da administração e prometeu a sua família que ia ajudar, é porque vai. Além disso, ele costuma ajudar as ligas esportivas de outras unidades. Mas chamei você por outra razão... vou pedir uma "dormida" ao diretor para esse fim de semana e pedirei, em caráter excepcional, "dormida" para cinco internos que estão com a documentação quase pronta. E o primeiro nome da lista é o seu. Vou pôr você nessa parada.

Aconselhou a pedir para o médico um atestado de saúde extra, Para substituir os exames que ainda não estavam prontos.

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— Faça isso rápido.



Fiquei muito excitado com as novidades e fui para minha galeria com aquilo na cabeça. Será que o médico daria o exame? E Marilena... se assustará, sentirá medo? Ficaria horrorizada com as galerias e com o cubículo? E o chuveiro, estará instalado? Era uma enxurrada de questionamentos angustiantes que eu só conseguiria resolver no dia seguinte.

Para me distrair, liguei a televisão. Não adiantou muito, não conseguia prestar atenção. Seu Antônio chegou com o jantar depois do "confere". Como sempre, ele chegava mais tarde. Eu até preferia, não gostava de jantar cedo. Entregou o mesmo frango que eu tinha comido com Pira. Guardei um pedaço para comer mais tarde e fui visitar o xerife, provavelmente ele ainda não tinha jantado. Passei pelo Português, que era vizinho dele, e entrei sem cerimônia no cubículo ao lado.

Ele enrolava um baseado e não se surpreendeu com minha presença. Com a cabeça mostrou a ponta da cama para eu sentar. Quando acabou de passar a língua na seda e terminou o que estava fazendo perguntou:

— O que você tem aí?

— Frango, que seu Antônio acabou de trazer, quer para você? — respondi.

— Deixa aí, depois devolvo o prato.

Acendeu o baseado e me passou imediatamente, fazendo força para segurar a fumaça que tinha puxado. Expliquei que não tinha ido lá para isso, mas estendi a mão e aceitei, talvez me sentisse menos ansioso. Todos o chamavam de Bigode, era branco, sempre com barba por fazer, com um bigode enorme. Cabelo liso, caído para a frente e olhar debochado. Não gostavam dele, era matador profissional e diziam que tinha exterminado uma família na região dos lagos. Eu não tinha nada a ver com aquilo, ele me tratava bem e era só o que interessava.

Depois de dar algumas tragadas, agradeci e voltei para o meu cubículo. Tranquei-me e comecei a assistir Odorico Paraguaçu, que naquele momento queria trazer a ONU para Sucupira. Acho que fiquei tão relaxado que adormeci e acordei à uma e 45 da manhã. O filme que estava passando eu já tinha visto. Desliguei a tv e comecei a pensar no Raul, na última carta que me escreveu, tão carinhosa. Foi engraçado porque eu recebi a carta de manhã e ele esteve comigo à tarde. Aí, meu pensamento retornou àquela tarde com Pira me comunicando sua decisão de tentar incluir meu nome e o de Marilena na próxima "dormida". Foi o mesmo

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que ligar uma pilha em mim. Evidentemente, dormi pouco aquela noite, além do mais, lá pelas quatro horas, agentes penitenciários estiveram na galeria. Transferiram um interno para outra unidade. Isso acontecia às vezes. Geralmente, quando a administração desconfiava que o interno corria risco de vida.

Novamente fui o primeiro a chegar à seção. Assim que o senhor Wal-dique chegou, pude ir à enfermaria. Consegui do médico a liberação dos atestados de saúde. Por escrito, é claro. Era um documento encaminhado ao serviço social, atestando minha saúde perfeita e me autorizando a freqüentar o parlatório, enquanto os exames não chegassem. À tarde, eu mesmo levei, protocolado, o atestado para as moças do serviço social.

Agora era só esperar e ver se daria tudo certo. Não poderiam alegar que eu estava sendo privilegiado, já que havia mais quatro na mesma situação.

Telefonei para Marilena para contar todas essas novidades e, mais tarde, como fazia todo dia, anotei: "Acho que conseguirei essa dormida tão surpreendente, mas fica no acho, vamos ver como me saio. De resto tudo é rotina, rotina de prisão".

Alguns dias depois: "Nesses dois últimos dias, passei bastante tempo no cubículo, quero deixá-lo com jeito de quarto. Enquanto arrumo, limpo e me certifico de que está tudo em ordem, ouço pelo corredor da galeria corretores (assim são chamados os vendedores) oferecendo coisas para vender. Relógios, camisas, toalhas de rendas feitas por internos, rádios e outras coisas que eles conseguem em consignação. É incrível, sai um corretor, entra outro oferecendo mais ou menos a mesma coisa. Na outra galeria isso não aconteceu, acho que lá o pessoal é muito pobre. Agora há pouco, como quase todas as portas estavam fechadas, um passou berrando suas ofertas".

Era verdade, eu também achava a mesma coisa que o diretor, eu tinha um grande poder de adaptação. Também... eu não tinha opção, ou encarava e vivia aquela vida ou enlouquecia. Mas meus momentos de desespero eram constantes. A cada minuto de adaptação e luta para vencer e fazer o tempo passar, tinha três de revolta e dor. Revolta, porque aquele Doca de cinco anos atrás tinha mudado muito. Os valores eram outros. O que sobrou foi a dor. Dor de lembrar o sofrimento que causei a minha ex-mulher, dor por Ângela, que era uma mulher linda, livre e inteligente. E o pior de tudo, o inexplicável, o inconcebível... matar. Eu tinha

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muito tempo para pensar em tudo isso. Não adiantava tentar esquecer. Não dava para passar uma borracha e apagar tudo. Muitas vezes, quando pensava em Marilena, em reconstruir minha vida, me sentia estranho envergonhado. Será que tinha direito de pensar nessas coisas? Então, encarava a prisão como uma etapa. Não sei explicar; não me revoltava estar preso, disso eu tinha vergonha. A revolta era comigo mesmo, por não ter sido adulto o bastante. Afinal, aos 42 anos de idade, já devia ter vivido o suficiente para ter evitado aquele acúmulo de desatinos.



Assim, me adaptar era tudo o que eu podia fazer. Estava preso. Estava pagando por querer mais da vida e das emoções. Agora... como se define um preso? Um número dentro da sociedade carcerária, um nada. Uma pessoa que perdeu a cidadania. No meu caso, por um longo período.

Depois de muita luta e aflições, consegui que Marilena viesse passar o sábado e o domingo comigo. O tão esperado parlatório. Houve momentos difíceis, quase que deu zebra. Tinham me informado que a chefe do serviço social estava furiosa. Na visão dela, eu só teria direito a visita íntima depois de cumprir seis meses da pena. Nada a fazia compreender que isso já tinha acontecido.

Sábado, à uma hora da tarde, eu estava pronto. Banho tomado, barbeado e tudo o mais. Como Marilena e papai se atrasaram, a minha expectativa era muito grande. Mil coisas se passavam em meus pensamentos. Será que ela perdeu o avião? E se na hora H ela sentir medo e for embora?

Mas ela e papai chegaram e passamos uma tarde normal. Às vezes Marilena cochichava...

— Estou morrendo de vergonha de seu pai.

Às quatro e meia, os alto-falantes anunciaram a decisão do diretor de conceder a "dormida" naquele sábado. Os casais que tivessem autorização poderiam ir se dirigindo para suas galerias. Teriam de voltar ao pátio no dia seguinte até quatro e meia. Despedimo-nos de papai e subimos com nossos pacotes.

Marilena subiu as escadas prestando atenção em tudo, nas paredes imundas e nos degraus de que faltavam pedaços. Quando chegamos à galeria, é claro que ela sofreu o impacto de encontrar um corredor enorme, com cem cubículos, cinqüenta de cada lado. Não eram todos que estavam sendo ocupados naquela tarde. Alguns casais subiram mais tarde, quando a visita terminou. Os internos que não recebiam suas

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companheiras, tinham de chegar, entrar em seus cubículos e não ficar pelo corredor, se saíssem era para ir ao pátio. Alguns casais levavam os filhos pequenos ou recém-nascidos, ficavam com a porta aberta e deixavam as crianças no corredor. Eu sabia de tudo isso porque já tinham me instruído a como me comportar no parlatório. Ali a lei era respeito absoluto. Os casais com crianças se ajudavam e se revezavam estrategicamente para que o outro tivesse alguns momentos de tranqüilidade. Muitas vezes se visitavam, porque as esposas eram amigas e se reuniam para fazer as refeições juntas. Naquele sábado, poucos foram os moradores da primeira galeria, no terceiro pavilhão, que subiram, porque a maior parte não sabia da "dormida" ou não teve tempo de avisar. Deixa eu explicar: os que tinham direito a visita íntima recebiam sua companheira todo domingo, das onze da manhã às quatro e meia da tarde. As dormidas eram exceção.

Assim que entramos no cubículo, Marilena esperou eu passar a tranca (um ferrolho igual ao de uma carabina, só que enorme), e começou a examinar o lugar, olhou tudo e depois veio me abraçar e dizer que me amava e não interessava onde estávamos, que para ela estava tudo bem. Eu estive apreensivo, esperando uma reação de medo da parte dela, mas com aquela atitude relaxei. É claro que ela não conseguiu esconder sua tristeza por ver minha moradia, mas foi um minuto. Daquele minuto em diante esquecemos do mundo; rimos, brincamos, nos amamos e assistimos à tv. Aquele minúsculo cubículo de penitenciária virou para mim "um mundinho de carinho e amor".

Meu isopor estava cheio de gelo e refrigerantes, e Marilena trouxera sanduíches. No domingo de manhã, fui à cantina e voltei com uma garrafa térmica cheia de café. Como o pão estava quentinho (tinha acabado de chegar), levei um pouco também.

Namoramos, conversamos e fizemos planos até às quatro horas, quando a sirene tocou a primeira vez, avisando que dentro de meia hora todos deveriam estar no pátio. Aquele foi o momento triste daquelas 24 horas. Marilena chorou, me abraçou com muito carinho, me olhou e sorriu com tristeza.

Como papai chegaria às quatro, abandonamos o cubículo imediatamente e fomos para o pátio ao seu encontro. Ele estava sentado à mesa com dois pacotes da Confeitaria Colombo, um de empadinhas e outro de coxinhas. Devoramos aquilo em poucos minutos. O dia estava muito

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claro e quente. As telhas daquele galpão eram de amianto, o que aumentava muito o calor. Para piorar, o volume de visitantes era enorme e não dava para sairmos dali. Lembro-me de papai dizer que, no verão, o clima do Rio era obsceno.

Duro mesmo foi assistir à partida. Marilena e eu ficamos abraçados até o último instante. Cinco minutos depois estávamos (nós, os internos) em nosso túmulo novamente. Era exatamente assim que me sentia. Enterrado vivo.

No dia seguinte, um pouco antes do almoço, fui chamado ao serviço social. Queriam me informar que tinham recebido meus exames e estava tudo bem. Oportunamente, quando Marilena estivesse na cidade durante a semana, devia vir visitá-las. Elas foram tão legais, que parecia mentira que tinham feito oposição à "dormida". Perguntaram tanto se esteve tudo bem, que contei que me sentia enterrado vivo toda vez que as visitas iam embora. A chefe, que era mais experiente e estava no sistema havia bastante tempo, "cascuda" (mais velha) como diriam os internos, aconselhou-me:

— Você tem de encarar isso como se estivesse doente e internado em um hospital. Um dia, quando perceber, estará curado.

Com toda a documentação em ordem, Marilena começaria a visita aos domingos, a partir das onze horas.

Agora era lutar pelos outros direitos. Eu já tinha percebido que, com a Vara de Execuções Criminais, o apenado tinha de estar sempre atento, reivindicando seus direitos, com requerimentos e pedidos ao juiz. As leis de Execuções Penais eram mais conhecidas por alguns internos do que pelos próprios advogados. Telefonei para Marilena e pedi que me trouxesse um Código Penal. Ela estranhou...

— O que você vai fazer com isso?

— Estudá-lo, meu amor.

Telefonei para meu pai que sempre queria saber tudo, mas ele tinha vindo me trazer um rádio novo, o outro tinha quebrado na mudança. Eu estava muito excitado. Isso aconteceu várias vezes comigo, sempre que conseguia marcar um ponto no sistema. (É incrível estar preso. Não dá para descrever exatamente a angústia que sentia e a alegria de cada conquista.)

Fui para a seção esperar papai chegar. Atravessei a porta e dei com ele sentado conversando com Waldique. Os dois se encontraram na entrada e o chefe o convidou para tomar café. A dedicação de meu pai era

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tamanha, que conquistava todo mundo. Ele não podia ficar muito tempo porque tinha hora marcada com Evandro, me entregou o rádio, me abraçou, agradeceu muito ao Waldique e foi embora.



O calor daquela semana foi terrível. Se novembro estava assim, não queria pensar no resto do verão. Todos se arrastavam pelos pátios e galerias, internos e guardas; ligar o ventilador ajudava pouco, o vento que produzia era morno. Assim mesmo, os pátios estavam cheios e havia futebol nas duas quadras. Como o material esportivo que pedi ao "banqueiro" ainda não tinha chegado, as bolas que usavam tinham sido doadas por mim. Quando eu chegava aos orelhões pela manhã, não precisava mais do Cuca, passava na frente de todos. Alguns faziam piadinhas do tipo "esse cara banca a prisão inteira". Disfarçadamente procurava localizar de onde vinha, não que eu quisesse revidar, isso nunca. Mas, se eu o descobrisse, poderia tomar cuidado quando aquele indivíduo estivesse por perto.

22/11/1982. Anotações: "O fim de semana chegou e no domingo (ontem), Marilena esteve aqui a partir das onze horas, com a documentação em ordem. Foi das primeiras a entrar, porque Renata, a esposa do Pira, que chegava em cima da hora e ia para o primeiro lugar da fila, tirou Marilena de onde estava e a carregou com ela. Nenhuma das mulheres da fila reclamou, dona Renata fez e pronto.




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