O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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— Amanhã a gente se fala.

No dia seguinte tomei café e fui para o cubículo dele. Mas naquela altura eu já sabia das mortes de quatro detentos em Bangu. O Hugo da cantina me contara. Pira estava calmo, disse apenas que as coisas estavam melhorando. Perguntei se podia fazer alguma coisa e obtive como resposta:

— Pode sim, fique quieto em seu canto.

Não perdi a pose e falei sobre futebol, sobre o tempo e, quando vi Xane aparecer na entrada da galeria, me despedi e fui para a vigilância. Lá ninguém falava de fugas, mortes em Bangu etc, estavam todos preenchendo requerimento para ir passar o Natal com a família. Chaves me estendeu um requerimento e perguntou se ia tentar, afinal não custava nada. Eu sabia que não tinha direito, o serviço social já tinha me avisado que só podia reivindicar visita à família depois de ter cumprido um sexto da pena. Pedi para ficar com aquela cópia para mostrar ao Humberto.

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Estava estudando o requerimento, quando entraram dois internos e um agente carcerário para retirar trinta saídas "extramuros". Por algumas horas, iriam cantar para o governador Chagas Freitas. Parece que era aniversário dele.

Acabaram de sair e entrou uma figura incrível. Era um senhor muito simpático e alegre. A entrada dele no recinto deu um clima diferente, todos o cumprimentaram com muita consideração e alegria.

— Oi! Como vão todos? E o senhor, seu Doca, está gostando do nosso hotel, alguma reclamação?

Eu costumava encontrar com ele em seus passeios pelo pátio, como ele costumava dizer. Estava sempre de shorts, camiseta e tamancos, barba muito bem escanhoada, com aparência de quem acabara de sair do banho. Depois de falar com o senhor Waldique e pegar um requerimento de saída natalina, se despediu de todos e saiu. Ele era conhecido como Chico Tonelada e morava no cubículo 50, na quarta galeria. Tinha esse apelido por ter sido preso em seu apartamento no Leblon com uma tonelada de cocaína.

Saí da vigilância às onze horas e só retornei um pouco antes de acabar o expediente. Todos lá pareciam estar se divertindo muito, até o senhor Waldique tinha um risinho sarcástico. Como havia umas fichas em cima do arquivo, comecei a arquivá-las. O Chaves se aproximou com mais algumas na mão, pôs em cima do arquivo e assoprou em voz baixa:

— Um dos que foram cantar para o governador não retornou. Chaves era do Piauí, branco, 1m 65 de altura, muito boa gente. Eu andava desconfiado de que ele era homossexual e naquele momento tive certeza. Sua risada e os trejeitos o denunciaram.

Com o tempo constatei que, na cadeia, quase todos os homossexuais do sistema eram amigados. E o Chaves não era exceção. Quando saía da vigilância, ia para sua galeria e não saía mais. Tomava conta de seu cubículo como se fosse uma dona de casa. Lavava, passava, deixava arrumado e ia buscar comida para seu companheiro. A administração não tomava conhecimento desse comportamento, afinal essa gente geralmente não perturbava. O grande problema era quando um dos parceiros obtinha liberdade. O que ficava geralmente enlouquecia. Houve casos de o diretor autorizar a visita, o que é irregular, pois a Lei de Execução Penal não permite que ex-detentos retornem para visitar quem quer que seja. Mas nesses casos abria exceção.

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Bom... o caso do interno que não retornou depois da apresentação para o governador não teve muita repercussão nos jornais. Só os internos se divertiram com a história.

O dia seguinte foi ponto facultativo, a vigilância não abriu e eu fiquei parte da manhã pensando e registrando uma história que Lambreta me contara na noite anterior. Era sobre sua volta ao presídio da Ilha Grande depois da tentativa de fuga.

"Nesta madrugada, conversando com Lambreta mais uma vez sobre a Ilha, tive o testemunho da brutalidade da vida naquela prisão. As fugas, as caçadas aos fugitivos, os castigos e a sobrevivência, deixariam Papillon com inveja.

"Ao tentar fugir, Lambreta foi preso e arrastado de volta acorrentado e apanhando. Foi direto para a solitária, que era cavada na areia, a três metros de profundidade. A entrada era por cima, como num poço. Havia três portas, sendo que a segunda era de ferro. As paredes e o chão eram cimentados, com cimento misturado com areia. Com aquela mistura salgada, não dava para o camarada deitar ou sentar por muito tempo. Para guardar os cigarros que os companheiros mandavam, enrolava-os um a um em jornal, que só os conservava secos por uns dez minutos. A comida era o fim do rancho do dia, portanto uma única refeição. Segundo o Lambreta, era servida por uma bicha recalcada que, antes de entregá-la, escarrava no prato e ria. Também, segundo ele, saiu tão doente da solitária, que foi transferido para o hospital penitenciário; depois veio para Lemos de Brito, onde permanecia."

No fim do dia, fui avisado que meus advogados me aguardavam. Desci e o inspetor me acompanhou até eles, não era seu serviço, mas como era ponto facultativo me fez essa gentileza.

Humberto e João me esperavam. Antes de entrarmos em qualquer assunto, mostrei a eles o requerimento natalino. Humberto balançou a cabeça e me devolveu, dizendo que aquilo para mim não valia nada, que só o recurso podia me ajudar. Eu já estava farto de saber aquilo, mas, quando se está lá, o desespero é tanto que se faz perguntas absurdas. Os meus visitantes sabiam disso e foram pacientes. Voltamos a falar do recurso e aí fiquei mais frustrado ainda, pois seria julgado só em março, depois das férias forenses. E assim mesmo tinha de passar pelo desembargador, relator, para ver se tinha direito de ir a Brasília. Fiquei

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tão desanimado e de mau humor que larguei os dois ali e voltei para o meu cubículo. Eu sabia que não adiantava nada ser mal-educado, eles não tinham culpa. No dia seguinte, envergonhado, telefonei para Humberto e pedi desculpas. Começo de pena é o pior momento de todos os piores momentos, tudo está muito longe, a tudo falta muito. Uma tarde, conversei com o padre Bruno Trombeta da pastoral, que era uma pessoa que procurava ajudar a todos, e me aconselhou:



— Não se iluda, isso o fará sofrer muito. Faça as contas e espere para reivindicar seus direitos na hora certa.

Num desses dias que estava com o saco muito cheio, desci para caminhar um pouco, lá no fundo do pátio da cantina, perto do portão de entrada de mercadoria. Mas não tive sorte, um crente se aproximou para tentar me convencer a participar das reuniões de sua igreja, uma das várias que existiam lá. Por mais que eu explicasse que não tinha interesse, ele continuava com sua ladainha. Para me livrar dele tive que lhe dar um esporro e sair avisando para que não tentasse me acompanhar. Quando cheguei na cantina puto da vida, o Hugo, que acompanhava tudo de lá, ria:

— Essa turma é fogo, não liga, afinal amanhã é sábado. Seu pai e sua esposa estarão aqui.

Um pouco antes da visita estava tenso, em pé, perto da inspetoria, esperando Marilena e papai aparecerem. Foi assim naquele dia e seria sempre até o fim, uma sensação de que ninguém iria aparecer.

Os visitantes tinham de fazer duas filas, uma para os marmanjos e outra para as damas, por causa da revista nas mulheres, que eram feitas pela Polícia feminina.

Marilena apareceu e fiquei aliviado. Ela ainda teria de trazer seu cartão até a inspetoria. Vinha carregada de pacotes com frutas e outras coisas que não tinha na cantina. Chamaram meu nome pelo alto-falante e só aí pude ir ao seu encontro. Estava tirando os pacotes de sua mão e papai apareceu, também trazia alguns pacotes. Fomos para a mesa e só então pude abraçá-los. No começo a visita estava meio tensa, também pudera, eu aqui esperando ansioso e eles cheios de pacotes numa fila quilométrica. Mas, depois de alguns minutos, com as emoções estabilizadas, ficamos bem. Papai ficou muito triste olhando aquele prédio em péssimas condições. Marilena e eu, que não fazíamos a menor cerimônia com ele, começamos a falar sobre o parlatório. Depois fomos até a

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cantina comprar uma Coca-Cola e mostrei a Marilena um interno, com seios e cabelos compridos, que só não usava saia, mas estava de sapato de saltinho. Ela não acreditava no que via. Realmente ele era uma moça bonita. Tive de chamar a atenção de Marilena porque ela não tirava os olhos dele. Durante a semana ele não aparecia nos pátios. Já o conhecia. Ele esteve na vigilância à procura de informação sobre visita à família no Natal. Aliás, as outras bichas que conhecia, a Baiana, que lavava e passava minha roupa, e a Bianca, também não andavam pelos pátios. Mas era fácil encontrá-las pelas galerias.



Ao voltarmos para a mesa encontramos papai conversando com Pira e sua mulher. A visita deles à minha mesa seria uma constância, pelo menos uma vez durante o sábado ou no domingo, eles apareciam.

Já estou aqui há um mês, o tempo passou devagar e lendo o que escrevi acho que muita coisa aconteceu. Bom, eu não vou mandar fazer bolo nem acender uma velinha.

O que constato mesmo é a dureza de encarar a realidade de estar aqui, a insegurança que este túmulo de vivos me dá, pois o pessoal está sempre armando alguma, e a esperança é que não estejam fazendo isso com a gente. Na verdade, quem está aqui nunca está sossegado, tem de andar o tempo todo vigiando tudo, desconfiando de tudo, é de enlouquecer qualquer um. Principalmente eles, os profissionais do crime, já que aqui tem de tudo (pó, jogos, jogo de bicho, fumo etc.) e só um ou dois se beneficiam do lucro desses negócios.

O dia em que fui procurar Xane, por exemplo: tinha ficado combinado que o procuraria quando já tivesse idéias sobre quem procurar para angariar presentes para a festa de Natal das crianças. Pois bem, o Cuca e eu estivemos em mais de cinco cubículos para achá-lo. Ninguém sabia exatamente onde ele se encontrava e em todos os cubículos que estivemos havia dois ou três internos na porta. Quando perguntávamos por ele, um dos que estava de guarda entrava no cubículo e saía dizendo:

— Ele estava aqui cochilando, agorinha mesmo, e foi para o cubículo número tal. — Finalmente o encontramos deitado num colchonete, que era a única coisa que tinha lá. Na porta, é claro, havia três internos conversando. A conversa foi rápida, eu já tinha conversado com Pira, que achava mais fácil falar com as pessoas por telefone, mas as filas iam atrapalhar. Ele foi claro comigo:

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— Se o Xane mandar, toda vez que você quiser o Cuca vai junto e não terá fila.

Outra coisa que chamou minha atenção foi a postura do Xane. Entrei sozinho no cubículo, ele continuou deitado de lado com o cotovelo dobrado e a mão segurando a cabeça. Ouviu o que eu tinha a dizer e falou:

— Os orelhões estão liberados para você, mas só quando o assunto for de interesse dos internos.

Só trinta dias haviam se passado e eu já tinha visto tudo isso.



Segunda-feira: ao acordar, olho o cubículo, que agora Tinha um colchão de viúvo, um isopor profissional, que servia também de criado-mudo, e um ventilador. E, claro, não posso esquecer do vaso sanitário. Para me lembrar que era o primeiro dia da semana, empilhados em cima do isopor estavam alguns livros, revistas, uma lata de bolachas e, um pouco mais acima, na parede em frente, dependurada num prego, uma sacola que comprara no pátio, feita de rede, com mexericas e maçãs. Fiquei olhando aquelas coisas que me faziam lembrar de Marilena, abraçada comigo, andando pelo pátio e depois sentados na mesa tão grudados que parecíamos um só. O calor de seu corpo, seus beijos envergonhados pela presença do papai. Bom... agora não passavam de lembranças. Sabia que, além de estar olhando para aquela moradia destruída, ia abrir a porta e enfrentar mais um dia de penitenciária, seu alvoroço, seu humor inquieto e perigoso. Tudo em branco e preto como num filme antigo. É verdade, sempre que lembro da Lemos de Brito, é em branco e preto, despedaçada, com pedaços de paredes querendo cair e escadas escuras (que iam para aquele pavilhão), com degraus incompletos.

Levantei, vesti camiseta, calça jeans e desci. Passei pela vigilância, bati uma autorização para ir à enfermaria e fiquei esperando o chefe chegar para assiná-la. Às dez horas já estava com outra autorização, a do médico, para ir ao hospital penitenciário, que ficava ao lado, fazer exame de sangue e tirar raio X dos pulmões. Isso daria continuidade ao pedido de visita íntima que estava fazendo. Éramos quatro para fazer esses exames, esperamos meia hora por uma escolta e seguimos em frente. Infelizmente não era preciso ir até a rua para entrar no prédio ao

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lado. Acho que passamos por um portão que dava direto no hospital. Lembro-me da escolta, mas não de mudarmos de prédio passando pela rua (não esqueceria isso).



Depois de passar pela inspetoria do hospital, para identificação, e de pegar uma senha (em uma fila em que havia presos de outras unidades, como do Esmeraldino Bandeira e do Água Santa, todos muito excitados, porque ali estavam também umas vinte presas que vinham de Bangu, do presídio Talavera Bruce), fomos levados para um pátio, para esperarmos ser atendidos. As presas foram para um cubículo no segundo andar, em que as janelas com grades davam para o pátio onde estávamos. Enquanto esperavam ficaram conversando com a rapaziada. Uma delas me chamou e jogou um papel dobrado.

— Meu endereço para você escrever.

Um agente penitenciário viu e mandou escondê-lo, senão teria de tirá-lo de mim.

O mais incrível foi ver o pessoal do Presídio Esmeraldino Bandeira, que tinha conseguido entrar com papelotes de cocaína (conhecidos como "balinhas"), vendendo-os para os internos do Água Santa. E mais louco ainda era ver as presas também comprando. Pagavam e recebiam por uma teresa de náilon, muito fina, quase imperceptível.

Finalmente chegou minha vez e fiz os dois exames. Na saída tínhamos de passar novamente pela inspetoria para carimbarem nossa volta, com horário etc. Quando estava passando pela catraca, o mesmo agente que tinha mandado esconder o bilhete me entregou mais um. Ele ria.

— Essa morena tem uma falha nos dentes da frente.

Eu sabia de quem ele estava falando, ela sorrira para mim na fila. Não era feia, provavelmente só muito pobre e maltratada. Estava guardando o bilhete no bolso, quando alguém segurou meu punho. Fazia isso e dizia em voz alta...

— Revistem ele e fechem tudo, ninguém entra nem sai.

Olhei assustado e vi o inspetor. Um minuto depois, cercados por alguns guardas, fomos encaminhados de volta para o pátio, onde estivemos anteriormente. Ouvíamos o berreiro das mulheres no segundo andar, e tudo ficou muito confuso. Puseram a gente encostado na parede e nos revistaram minuciosamente. Tivemos de tirar os sapatos e abaixar as calças e as cuecas. Os internos que estavam em pleno exame foram revistados lá mesmo. Uma hora depois, os que foram pegos com balinhas

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foram encaminhados para a delegacia. Nós quatro, da Lemos de Brito, voltamos sem problemas.

Na hora em que o inspetor me segurou e começou berrar "revista ele", eu quase morri de medo. Já tinha ouvido histórias de internos que, na hora do aperto, tinham enfiado a cocaína no bolso de outro.

Voltei e fui direto para a cantina do Antônio, estava morrendo de fome, não tinha nada no estômago por causa dos exames, fora o susto, que me deixou tremendo até aquela hora. Comia arroz, feijão, bife e salada de tomate, pensando no Humberto, que deveria providenciar os documentos que provavam minha permanência na delegacia de Cabo Frio e nos outros dois presídios. De posse dos exames e desses documentos, eu só teria de mudar de galeria. Aí, estaria pronto para o parlatório.

Depois do almoço subi e me deitei um pouco, respirei fundo e procurei ficar bem relaxado, para pôr em prática o que aprendi no Mind Control. Ainda não tinha me recuperado do susto no pátio do hospital. Respirei fundo várias vezes até me sentir bem relaxado. Procurei pensar no apartamento de Marilena e lembrei de cada canto. Depois, fiz o mesmo na casa de minha mãe, pensei na minha cama e imaginei mamãe entrando no quarto para me ver. Adormeci mas não profundamente, porque lá onde eu estava de verdade era meio complicado. Acordei com Lambreta batendo em minha porta, era hora dos noticiários, ele curtia sentar e ficar assistindo.

Mais ou menos dois dias depois: "5/11/1982, são seis horas da manhã, sem sono começo a escrever sobre o dia de ontem. Foi diferente por vários motivos, um deles foi o calor que, segundo os noticiários, passou de 39 graus. Aqui acho que chegou aos 42 graus".

Depois, lá pelas três horas, quando eu estava na vigilância, completamente molhado de suor, o telefone do Waldique tocou. Ele falava me olhando, escreveu algumas coisas num pedaço de papel e desligou. Em seguida me mandou à sala do diretor, dizendo:

— Dr. Humberto está lá com ele.

Assim que entrei na sala, vi que meu advogado tinha um envelope amarelo na mão, adivinhei que eram os documentos que estava esperando.

O diretor era sempre muito gentil, tomei café, fumei, batemos papo. A uma certa altura ele comentou:

— É incrível o seu poder de adaptação.

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Depois mandou chamar a chefe do serviço social para entregar-lhe os documentos que tinham acabado de chegar. Ela demorou um pouco e quando apareceu e recebeu todos aqueles papéis, comentou com cara fechada:



— Esse interno se mexe com muita desenvoltura dentro do sistema. Dr. Patrício me olhou, fez sinal para não me manifestar e pediu a ela que se empenhasse para tudo estar em ordem em quinze dias. Depois de conferir os documentos, constatou que, realmente, com os dias que estava lá, mais o tempo que eu tinha passado nas duas outras unidades do sistema em 1977, estava apto à visita íntima. Pôs tudo de volta no envelope e saiu. O diretor comentou:

— Ela não está acostumada que eu me meta nesses assuntos. Você já mudou de cubículo?

Como isso não tinha acontecido... pedi a colaboração dele. Fez que sim com a cabeça, levantou-se e estendeu-me a mão. Tinha encerrado a entrevista. Despedi-me dele e de Humberto e saí.

Fui direto para a mesa do Waldique, queria saber o que ele escrevia enquanto falava no telefone com o diretor. Quando ele me viu vasculhando sua mesa com o olhar, perguntou:

— Está procurando isso?

Ele tinha anotado apenas "procurar cubículo em galeria de parlatório". Contente com o resultado daquele dia, fui para minha mesa escrever algumas cartas.

Para o Raul eu escrevia sempre. Apesar de sua pouca idade, me abria com ele. Mas Cláudia, Adriana e Zé eram diferentes, não queria enchê-los com meus problemas. Mas aproveitaria que o dia tinha caminhado razoavelmente, meu moral estava bom, eu saberia achar as palavras certas. Afinal, Claudia e Adriana já tinham me escrito cartas muito carinhosas. Comecei a escrever e parei. Algo me incomodava e logo descobri o que era. Tinha achado a chefe do serviço social esquisita, talvez não tenha gostado de ter recebido os documentos da mão do diretor.

Consegui um passe com o chefe e fui até o serviço social fazer política de boa vizinhança. Como eu estava certo! Se não tivesse ido, os documentos teriam sido engavetados. Segundo Waldique, que conhecia todos os trâmites, a única coisa que as moças tinham de fazer era encaminhar aqueles documentos para a seção de disciplina, que, por sua vez, daria a autorização para a vigilância providenciar minha mudança de galeria.

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Tive sorte, quando cheguei ao serviço social encontrei o Pira, que, discretamente, me apontou para uma caixa cheia de papéis. Reconheci entre eles o envelope amarelo. Não tinha a menor idéia de como fazer para pedir que me ajudassem, então fiz o mais simples: expliquei que meu cubículo estava inabitável e sugeri que me deixassem ser o portador dos documentos até a disciplina. Afinal era só uma mudança de galeria. Ela balançou a cabeça e...



— Antes que o diretor me cobre... toma, leva isso de uma vez. Pira aproveitou e saiu também. Assim que ultrapassamos a portaria, comentei aliviado que a primeira fase fora vencida e Pira respondeu:

— É, essa mulher não vai muito com sua cara e com a minha então... ela prefere ver o diabo.

A noite, depois do jornal, desci para comer alguma coisa numa das cantinas. Já estava terminando quando um interno sentou-se ao meu lado. Abriu o jogo de cara:

— Vão tentar atrapalhar sua mudança, seus documentos estão junto com outros que só vão andar na semana que vem.

Agradeci e não falei que já tinha providenciado tudo. Voltei para o cubículo e comecei novamente a escrever as cartas que tinha interrompido.

Confesso que, apesar de ter entregue a documentação pessoalmente, a conversa daquele interno tinha me assustado. No pouco tempo de convivência naquele ambiente, já tinha assistido a tanta sacanagem que não dava para ter certeza de nada. Se os funcionários fossem unidos, podiam muito bem me sacanear.

No dia seguinte fui cedo para a vigilância, fui o primeiro a chegar, tive de ficar esperando o Chaves, era ele que abria a seção todo dia. Apareceu rindo e...

— Ai! Passei uma noite maravilhosa.

Adorava dar essas desbundadas de vez em quando. Ajudei a limpar a sala e a pôr as fichas usadas no dia anterior de volta aos arquivos. Os outros três chegaram e ficamos batendo papo até o chefe chegar. Dos outros três só conhecia melhor o Luiz. Contou-me várias vezes que conhecia a Lemos de Brito desde menino, quando ia visitar o pai. Foi criado na vagabundagem e acredito que tinha mais tempo de cadeia que de liberdade. Era completamente louco, traficava o tempo todo e, apesar do medo que sentia, corria riscos enormes. Às vezes, o pessoal ia buscarbalinhas" na seção. Segundo ele, lá era o lugar mais seguro.

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Waldique chegou, foi direto para sua mesa como de costume, sem falar com ninguém (não era mau humor ou falta de educação, ele já conversara com o chefe de segurança e com o inspetor do dia), abriu a gaveta e me entregou a transferência de cubículo.

— Vá tratar disso, acho que este cubículo está melhor que o atual.

Já tinha falado com Marilena de manhã, quis ligar novamente mas a fila era muito grande. Fui à inspetoria para saber se eles sabiam do paradeiro do Português, como ninguém sabia de nada, deixei recado no seu cubículo para me procurar, porque tinha uma reforma para ele fazer. Eu nem tinha visto a nova moradia, mas imaginava o estado em que deveria estar. Tinha de andar rápido, a qualquer momento poderia aparecer outro para ocupar o meu lugar. É verdade que era pouco provável, já que o Waldique era o encarregado dessas coisas.

Meu novo endereço: Terceiro Pavilhão, primeira galeria, cubículo 7.

Quando cheguei à galeria, ela estava quase vazia. Fui procurar o xerife para mostrar a transferência e saber se estava tudo bem. Já estivera com ele na vigilância, que era a seção onde todo interno tinha de fazer contato se precisasse se movimentar pelas dependências não carcerárias, tais como: enfermaria, gabinete dentário (que só tinha dentista uma vez por semana, porque a aparelhagem, ou não existia ou tinha sumido num passe de mágica), hospital, disciplina, etc.

Ele estava fazendo café e me ofereceu. Aceitei por curiosidade, pois achei interessante seu fogareiro. Um tijolo, um fio ligado à rede elétrica (que naquela galeria funcionava) com uma resistência na ponta, que, posta numa lata com água, a fervia em poucos segundos. Tomamos o café, fumamos batendo papo e fomos olhar o cubículo 7. À primeira vista, estava tão ruim como o outro, mas, olhando melhor, vi que tinha uma pia no canto, embaixo da janela. Fui até lá e abri a bica. Correu água do cano onde instalaria um chuveiro; a mesma coisa, não em abundância, mas saía. A cama (original), estava em bom estado. Eu pensava... é só pintar, colocar um chuveiro elétrico e uma cortina de banheiro... quando ouvi a voz do Português atrás de mim. Ele falava para o xerife que em duas horas pintaria tudo. Diante disso, pedi um orçamento em que constasse a colocação de chuveiro e vaso sanitário. Tudo branco, menos o cano do chuveiro e as barras das janelas. Isso, queria pintado de azul. Tinta não era problema, um funcionário compraria, e chuveiro, a mesma coisa... então, era só começar. Ele estava




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