O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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No dia seguinte fui cedo para a vigilância, queria saber como estava o ambiente. Passei o dia lá, atento aos movimentos do senhor Waldi-que e do Manoel Caneta. Se eles estivessem calmos o dia todo, era sinal de que não havia crise. Aproveitei para escrever para o Jucá, diretor da Fontoura, Valdemar, comprador da Rhodia, Fábio, comprador da empreiteira Tenenge, Fernando Ferreira, um dos sócios da Bombril, e Gas-tão Augusto de Bueno Vidigal, vice-presidente do Banco Mercantil de São Paulo. Com todos eu mantinha negócios e escrevia para não perder contato e agradecer o apoio que me deram nos últimos cinco anos.

Lá pelas seis horas, fui à cantina no cubículo do Antônio. Enquanto eu comia, ele contou que estava preso pela morte da atriz Luz del Fuego (a primeira mulher que se apresentou nua no teatro brasileiro. Segundo ele, quem a matou foi o irmão, pescador como ele, que mantinha um relacionamento com ela. Ele tinha assumido a culpa para proteger o caçula da família. Esteve preso na Ilha Grande, bastante tempo. Um dia, um interno o ameaçou de morte, por motivos que ele não explicou. Com medo, Antônio armou uma tocaia e o matou, aumentando em muito sua pena. Já estava preso havia dezenove anos. Tinha tentado

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Duas fugas da Ilha, as duas sem sucesso. Contou também que nos últimos dois anos vinha namorando uma moça que arrumou por correspondência (pelo menos vinte por cento das namoradas dos internos eram arrumadas desse jeito), e se davam tão bem, que já tinha pedido ao diretor autorização para se casarem.

OUTRO que falava muito sobre a Ilha era o Lambreta, dizia que fugir de lá era praticamente impossível. O presídio ficava bem no centro da ilha, que era enorme. Para chegar ao pequeno vilarejo e arranjar um barco ou uma lancha, era preciso atravessar matas e pântanos, cheios de insetos e cobras. Machucavam-se muito nessas travessias e eram facilmente alcançados pelos cachorros rastreadores dos caçadores de fugitivos. Se conseguissem chegar a uma pequena comunidade, qualquer pescador entregava um barco, porque tinham muito medo. Na vez que tentou fugir se deu mal, apanhou muito enquanto voltava acorrentado.

O mais estranho era que todos que falaram comigo sobre a Ilha, achavam-na linda e falavam dela com uma certa nostalgia.

Uns dias depois, o emissário do meu amigo "banqueiro" (do jogo do bicho) esteve lá. Só estive com ele depois de ele já ter se comunicado com Pira e com outros internos, eu ainda não o conhecia. Era agente penitenciário, lotado na penitenciária vizinha. Estava lá só para me visitar e falar com algumas pessoas. Aproveitei para saber se a greve estava dando resultado, me preocupava com o fim de semana, havia boatos de que, se a greve continuasse, as visitas poderiam ser suspensas. Como resposta obtive uma risadinha e...

— Fique sossegado vai estar tudo bem. São só boatos, coisas que alguns internos espalham para tumultuar. — Antes de sair deixou o telefone do escritório e da casa do "banqueiro". — Se precisar, pode ligar, a você ele atenderá.

Encontrei com Pira quando ele ia subindo para sua galeria. A escada para a quarta galeria era a primeira, a uns quarenta metros do portão que separava os pátios da administração, pouco antes da inspetoria, e era clara e sem cantos escuros. Ele tinha recebido comida do refeitório do diretor e quis dividir comigo. Então subi também. Aquele lugar era mesmo diferenciado. Limpo, tranqüilo, até os rádios e tvs não estavam a toda e em alguns cubículos havia vasos com flores. Assim que chegamos na galeria paramos no cubículo 1, que pertencia ao General. A conversa estava animada, queimavam fumo tranqüilamente. É verdade

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que o Cuca estava sentado no primeiro degrau da escada um lance abaixo e um lance antes estava o Mãozão, que só fiquei conhecendo algum tempo depois. Se agentes penitenciários começassem a subir, o pessoal da galeria saberia na hora. Ali, além do General, fiquei conhecendo o Marinheiro (acho que só o vi uma vez fora da galeria) e Magro, que não morava na galeria, estava ali só tratando de algum assunto. Havia algumas pessoas com ele, mas estavam esperando no corredor. Falamos com todos e fomos para o cubículo do Pira.

Enquanto comíamos, ele ia me falando sobre a lep, que presidia:

— Em janeiro vence meu mandato e você será o próximo presidente, mas não se assuste, não terá que administrar nada, isso eu faço. Gostaria que você se comunicasse com alguns amigos para pedir donativos. Bolas, redes para as traves, jogos de camisas, para fazermos seis times e montarmos um campeonato. Daqui a alguns dias, no Natal, tente arranjar brinquedos para a festa dos filhos dos internos.

Depois dessa saraivada que me deixou sem fome, mas com que concordei, falei pela primeira vez. Disse que eu não saberia por onde começar. Ele não se perturbou com isso e me passou uma pasta, que, tenho certeza, já estava lá me esperando.

— Dê uma olhada nisso.

Na pasta havia cartas muito bem escritas, verdadeiras obras-primas, com espaços vazios a serem preenchidos com os nomes das entidades contatadas e com o material ou materiais que iríamos pedir. Encantado e aliviado, brinquei:

— Quem foi o 171 que fez essas cartas?

Dizendo que no sistema havia muitos com capacidade de fazer cartas para várias utilidades, Pira emendou:

— Podíamos mandar uma dessas para o "banqueiro". Tenho certeza de que ele mandará material esportivo para nosso campeonato de futebol. Pode ser material usado, camisas, calções, bolas de futebol de salão e de campo, que o time dele não esteja mais usando.

Topei na hora, apesar de não acreditar que viesse alguma coisa. Depois, o máximo que poderia acontecer era não ser atendido. Após o almoço, Pira me acompanhou até o orelhão para evitar que eu ficasse na fila. Liguei para o escritório do "banqueiro", me identifiquei com a secretária e pedi o endereço. No dia seguinte, mandamos uma carta muito

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Bem escrita com timbre da lep e assinada por mim. A única coisa diferente foi a mensagem que escrevi no final da página, de próprio punho, pedindo de desculpas por incomodá-lo e agradecendo antecipadamente.



Assim que cheguei à vigilância, para expedir a carta que deveria ser lida pelo Waldique, ele me informou que na Ilha tinham matado o Baiano e me mostrou o Jornal do Brasil com a reportagem, que mantenho em meu arquivo até hoje: "pm mata preso na Ilha Grande. Prevista e até comunicada a parentes e autoridades, a morte do presidiárioManoel Santana, de 31 anos, quinta-feira, na Ilha Grande, foi o estopim de uma tentativa de fuga em massa do presídio, ontem à tarde. A revolta foi contornada por soldados da 4ª Companhia da Polícia Militar, que mataram um interno e balearam outros dois. Manoel foi morto com 42 estocadas, desferidas por seu cúmplice no assassinato de um industrial, em 1976. Na semana passada, ao saber que seria transferido da penitenciária Lemos de Brito para a Ilha Grande, ele telefonou para sua madrinha e disse: Eles me apanharam e vão me matar na ilha. Por favor, madrinha, cuide da minha filha ". A reportagem continuava contando que ele tinha apanhado muito e no telefonema advertia a madrinha de que tinha chegado a hora "do ajuste final". Mais adiante: "Manoel chegou a se arrastar aos pés do diretor da Lemos de Brito implorando que não o transferisse ". E: "A morte de Manoel causou revolta no presídio Cândido Mendes Ilha Grande Ontem, por volta de meio-dia, armados de estoques, os presos tentaram uma fuga em massa, sendo necessária a intervenção da Polícia Militar. Os dois internos que galgaram o muro em primeiro lugar foram encontrados no mato, feridos os dois e foram transferidos para o hospital Santa Lúcia, em Angra dos Reis. Outro interno foi encontrado morto. Até a noite de ontem, a polícia procurava nos matagais e proximidades do presídio muitos internos foragidos. A 83ª DP, em Angra dos Reis, negou que no presídio houvesse qualquer Problema, a não ser a morte de um interno com 42 estocadas".

Após ler a carta para o "banqueiro" e esperar que eu lesse a reportagem, Waldique me aconselhou a ficar no cubículo:

— Com esses pms por aí, os internos ficam inquietos e essa notícia— é capaz de haver alguma reação diferente. — E depois, comentando a Carta pedindo material esportivo: — Que bom, a lep está sempre precisando de ajuda e esses torneios são muito úteis, enquanto disputam Campeonatos, não pensam em besteiras.

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Atendendo ao conselho do chefe saí rumo à minha galeria. Quando passei pela primeira escada, a que levava à galeria de Pira, reparei que toda vez que passava por ali havia um camarada sentado no último degrau do primeiro lance. Estava sempre com quatro ou cinco internos parados a sua volta. Era um sujeito baixo, parecido com Mao Tse Tung, os olhos pequenos sempre atentos a qualquer movimento. Qualquer pessoa vinda da administração ou que estivesse transitando entre os pátios e os pavilhões, estaria sendo observada. Passei por ali todos aqueles dias e não o vi, ele era quase invisível. Chamavam-no de Xane.

Depois de passar pela primeira escada e pela inspetoria, cheguei ao segundo pavilhão e subi para o meu cubículo. Em todo o trajeto vi grupinhos comentando a morte do Baiano e a tentativa de fuga da Ilha. Aquela notícia deixara o ambiente pesado novamente.

Por motivos de segurança, naquela noite a Polícia Militar deu uma batida em todos os cubículos. Depois trancaram todo mundo. No dia seguinte, quando acordei, as portas já estavam destrancadas, mas as galerias permaneciam fechadas. Só os faxinas encarregados da limpeza dos pátios tinham descido. Os internos comentavam que só abririam as galerias depois de limparem os pátios, pois quando começaram a "geral" (revista em todos os cubículos) no dia anterior, os internos atiraram pela janela estoques, maconha e tudo o que podia comprometê-los. Segundo boatos, até uma garrucha estava no meio de um dos pátios.

Quando liberaram as galerias, já era tarde, dez horas, mais ou menos. Depois do café na cantina e de receber do Hugo os jornais que me trazia todos os dias, fui para a vigilância. Na mesa do Chaves havia umas dez fichas de internos que seriam transferidos para várias unidades do sistema. Dei uma olhada nas fichas e não achei ninguém que eu já tivesse conhecido. Ajudei a fazer a documentação de transferência e quando ficou tudo pronto, reparei que Waldique as trancou na gaveta. Olhando muito sério nos avisou:

— Não comentem essas transferências com ninguém, porque, apesar de terem destino certo, a data não está prevista.

Depois do almoço, quando estava no cubículo me preparando para descer e assistir a uma pelada (anunciada no dia anterior e muito esperada, porque seria entre duas galerias), o Cuca apareceu com uma revista Manchete.

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—- O Pira mandou para você, tem uma reportagem do seu pai. Está esperando você na lep, para uma reunião antes do jogo. É para você vir comigo.



Eu tinha de ir com ele mesmo, não tinha idéia de onde era a lep. Encontramos o Pira saindo de uma porta, embaixo da escada que ia dar em sua galeria. Era incrível, eu já estava na penitenciária havia mais ou menos vinte dias e nunca tinha reparado naquela porta. Era grande tinha duas lâminas. Por ali se entrava numa marcenaria e estofaria. Entramos e fomos falar com o interno que era o chefe daquela seção. O Alfredo era um sujeito baixinho, estava sentado em uma banqueta em frente a uma prancha com vários projeta? de sofás, poltronas e cadeiras. Trabalhando com ele naquela sala, que devia ter uns quarenta metros quadrados ou mais, pois ocupava quase todo o térreo do primeiro pavilhão, estavam uns vinte internos ocupados em fabricar os desenhos que estavam sobre a prancha. Eram sofás e poltronas enormes. Não perguntei, mas deveriam ir para algumas repartições públicas. Pira me apresentou o mestre Alfredo. Baixinho, moreno, bigodinho, olhar inteligente e sério, vestindo um jaleco cinza. Fiquei olhando um interno encaixar partes do esqueleto de um sofá de dimensões enormes, enquanto os dois foram para um canto conversar. A conversa demorou uns dez minutos e, para não atrapalhar os marceneiros e estofadores, fiquei olhando pela janela que dava para o pátio 1. O pessoal estava batendo bola. Deduzi que esperavam por Pira, porque ouvi um dos jogadores reclamando que as camisas não chegavam. Olhei para os dois, que continuavam a conversar, e vi que Alfredo gesticulava, abrindo os braços. Finalmente a conversa terminou e os dois se despediram.

Antes de ir para o pátio, entramos numa porta que eu também não tinha percebido, era um quarto que pertencia à lep, pegamos dois jogos de camisas em péssimo estado e entramos no campo de futebol de salão. Fomos direto para o centro e, antes de distribuir as camisas, fui apresentado ao Xane (o observador da escada, aquele parecido com Mao Tse Tung), que estava acompanhado do Jarra e do Magro. Para meu espanto, Pira e Xane pediram aos jogadores que se aproximassem e depois de um rápido intróito me apresentaram como futuro presidente da lep. Alguns protestaram alegando que eu tinha acabado de chegar à Penitenciária, e outros me deram tapinhas nas costas. Em seguida, distribuíram as camisas e o jogo começou. Pira, Xane e eu fomos para uma

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sala ao lado do almoxarifado, o Jarra ficou assistindo ao jogo, o Magro que não parecia estar interessado em nada daquilo, foi para sua galeria



A sala era grande e cheia de mesas (ao contrário da estofaria, essa sala dava para o pátio da cantina). Além de servir para reuniões da lep também era usada pelas turmas religiosas, que eram várias. Sentamo-nos em volta de uma das mesas, e começamos a planejar um campeonato de futebol de salão e a falar sobre o Natal dos filhos dos internos, que era festejado sempre um domingo antes do dia 24 de dezembro.

Pira tinha arranjado um show com Elba Ramalho e com Elke Maravilha, ambas já tinham confirmado. Xane olhou para mim, como quem indaga: "E você vai fazer o quê?". Era impressionante a força de seu olhar. Não era agressivo, mas impunha respeito. Como eu não estava preparado para aquilo e até duas horas atrás não tinha idéia de que eles tinham todos aqueles planos, achei melhor falar a verdade:

— Não sei, vou pensar e depois falo com vocês.

Na verdade, enquanto eles falavam a respeito dos shows, estive pensando nas cartas que Pira me mostrara. Podia modificar um pouco e mandar para uma amiga que tinha herdado uma das maiores lojas de departamentos de São Paulo. Pensaria em mais alguns nomes. Tinha esperança de que não me deixariam na mão. A reunião estava encerrada, Xane levantou-se, me olhou de um jeito que não dava para perceber se ele sorria ou se estava apenas me estudando.

— Quando estiver sabendo o que vai providenciar para a festa de nossas crianças, me procure. Estou no terceiro pavilhão, peça para o Cuca levar você lá.

Levantou-se e saiu andando devagarzinho, batendo com as palmas das mãos nas mesas. Tinha no máximo 1m e 62 de altura, usava jeans, camiseta e uma jaqueta também jeans. Aquilo tudo na mesma tarde era muito para mim. Estava louco para ir para a galeria ler a reportagem do papai e desligar tudo. Mas ainda não chegara a hora. Pira levantou a cabeça.

— Vamos até seu cubículo, quero ver sua TV. Careca me disse que o controle remoto não funcionou.

Fomos caminhando devagar, ele ia olhando tudo e todos. Quando chegamos à sexta galeria e liguei a tv, estranhamente ninguém apareceu, nem o Lambreta. Pira ficou encantado com ela e disse que nunca vira uma daquelas. Eu também não conhecia aquele modelo, o controle remoto

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era com fio. Careca e eu tínhamos ligado o fio de maneira errada. pira, então, tirou o fio de um lugar, pôs noutro e começou a funcionar.



Trocou um pouco os canais e desligou. Tirou o controle, enrolou no fio e colocou no colchonete. Como estávamos sozinhos, aproveitei e comentei a morte do Baiano. Ele me olhou demoradamente...

Ele não valia nada e esse tal de Lambreta é outro. Vê se não fica andando com ele por aí... é malvisto. Avisei o dr. Patrício para não pôr você aqui, mas não tinha outro lugar. Daqui a uns dias você sai dessa galeria.

A sirene tocou, ele se levantou e foi embora. Mas antes recomendou:

— Não use o controle, o pessoal dessa galeria é muito caído, vai pôr "olho grande".

Assim que saiu, escondi o controle.

Só li a reportagem do papai umas cinco ou seis horas depois, quando me tranquei, exausto. Transcrevo uma frase da entrevista do meu pai, de 22 10 1982, cujo título era: "Luiz Gustavo Street diz que não está sozinho em seu sofrimento. E faz um desabafo comovente: Eu queria estar na prisão com meu filho".

AQUELE FIM DE SEMANA, NO SÁBADO, RECEBI PAPAI, MARILENA E minha cunhada May. Transcorreu tudo bem. Uma hora antes de começar a visita estendi a toalha, superlimpa, lavada e passada pela Baiana, que da cantina me observava. Quando passei pela cantina, para voltar ao cubículo, ela me abordou:

— Eu já lavo e passo essa toalha; se você quiser, nos dias de visitas, Posso estendê-la também.

Daquele dia em diante, não me preocupei mais com a toalha. Com a surpresa da visita da May, a tarde ficou quase alegre, ela e Marilena eram e são grandes amigas, e a minha amizade com ela vinha de longa data, muito antes de ela se tornar minha cunhada. No domingo ela saiu às quinze horas porque ia almoçar com amigos. Papai saiu com ela para Marilena e eu termos alguns momentos só para nós. Assim que eles saíram, começamos a conversar animadamente, porque ela já tinha entregado os documentos para começar com as visitas íntimas. Ela quis ver do pátio onde ficava o cubículo em que eu estava morando e onde

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ficava o próximo que eu ia ocupar. Mostrei apenas a janela do atual, do próximo eu não tinha idéia. Fomos caminhando até o pátio 3, que era praticamente embaixo do morro de São Carlos; olhamos para cima e mostrei minha janela. Se dos outros pátios se via que o prédio estava depauperado, dali se percebia que era a parte mais abandonada.

Quando parei de apontar a janela e voltei-me para ela, percebi sua tristeza, algumas lágrimas escorriam pelo seu rosto. Não nos importando com as pessoas que se encontravam lá, nos abraçamos longamente. Um abraço sentido e profundo, que nos tirou de lá por uma fração de segundos. Mas as vozes e os rádios nos trouxeram de volta. Retornamos para a mesa de mãos dadas e ficamos abraçados falando baixo até o término da visita.

Mais tarde no cubículo jantei a comida que a família do Lambreta trouxe: carne, polenta, arroz, repolho e pimentão. Quem fez aquela comida tão simples entendia da coisa, que comida gostosa. Como sobremesa, comemos metade de um melão que papai e Marilena trouxeram. Depois tentei ver TV, queria assistir a Dallas, mas fiquei com sono, me tranquei e tentei dormir. Demorei muito para conseguir. Lembrava de Marilena naquela tarde, seus olhos cheios de lágrimas, sua enorme coragem por me namorar e viver tudo aquilo, mais a visita íntima, a que pelos meus cálculos eu teria direito em trinta dias. Bem... Marilena, por minha causa, já vinha enfrentando problemas seríssimos com a sua família. Até deserdada ela foi.

Finalmente adormeci. Acordei algumas horas depois, assustado, em pé, no meio do cubículo. Custei a achar o interruptor de luz, alguma coisa se mexia na janela. Quando encontrei o interruptor, a luz não acendeu. Como já estava bem acordado, lembrei das velas e acendi uma. De fato algo se mexia na janela. Achei que era um papel que tinha caído ali e fazia barulho por causa do vento. Aproximei-me e levantei a vela para iluminar mais e levei o maior susto quando dei com os olhos da ratazana. Ela também se assustou e saiu. Não posso imaginar como ela conseguiu chegar lá, afinal era o terceiro andar. Só ouvi o barulho do seu movimento. Fui até a porta, puxei a tranca e abri, olhei no corredor e não enxerguei nada, o prédio estava sem luz. Mas o barulho da tranca e a luz da vela chamou a atenção de um camarada que morava no começo da galeria que também estava com uma vela na mão, só que a dele tinha castiçal.

— Que foi, Doca, está assustado?

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Expliquei o que tinha visto, ele se aproximou rindo.

. Ela deve ter sentido cheiro de comida, essas ratazanas são perigosíssimas, vamos até lá ver se foi embora mesmo.

Pediu licença para entrar em meu cubículo e foi direto ao vaso sanitário, depois iluminamos a janela e vasculhamos todo o local.

Fique tranqüilo, aqui não tem nada. Meu nome é Tonho, cubículo 5- Já destruí um cubículo para me defender de uma dessas.

Um metro e setenta de altura, cinqüenta anos, branco, com aspecto de uma pessoa bem cuidada. Estava de pijama e chinelo.

Quer tomar um café em meu cubículo? Minha garrafa térmica está cheia. Eu estava lendo quando ouvi barulho na galeria. Aceitei e disse que ia pegar cigarros.

— Não se preocupe, eu tenho tudo lá.

O cubículo era limpo, tinha uma cama original do tempo da construção. De ferro, grudada na parede como num trem noturno. Podia levantá-la e deixá-la na paralela, aumentando o espaço. Havia ainda duas cadeiras, uma delas com uma pequena pilha de livros e revistas, vaso sanitário e chuveiro elétrico. De um canto, em cima de livros, ele retirou a garrafa térmica com café, servindo-me num copo. Conversamos enquanto fumávamos. Ele me apontou um rádio:

— Acompanhei seus dois julgamentos. Curioso, perguntei o que fazia antes de ser preso.

— Sou contador, mas nunca exerci. Era muito bom em copiar assinaturas e documentos.

Mantive contato com ele até sair da galeria, pois ele raramente saía de lá. Encontrei-o novamente, dois anos e meio depois, quando fui transferido para uma penitenciária em Niterói, após uma rebelião, na quarta galeria, com algumas mortes.

A segunda-feira foi normal, às onze horas recebi o advogado, dr. João, que trabalhava com dr. Humberto. Queria saber como eu estava e avisar que dr. Evandro e dr. Humberto viriam me visitar. À tarde, começou um boato que deixou o ambiente carregado: rebelião na Ilha Grande, com muitas mortes.

De noite assisti a todos os jornais das redes de tvs e não houve comentários. Assistindo ao noticiário em minha porta: Lambreta, sentado, e Pincel (assaltante e ótimo eletricista), acompanhado de Capoeira. Os três, com penas pesadas, eram ex-prisioneiros da Ilha e estavam interessados

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nos noticiários. Nenhum deles, se posto em liberdade, tinha condições de largar essa vida. Nós quatro, enquanto estive na galeria estivemos muito próximos e eles me ajudaram muito. Gostava deles. Uma tarde eu estava matando baratas com um desses sprays inseticidas e Pincel chamou minha atenção:

— Não mata todas, elas comem os percevejos.

À tarde, quando estive na vigilância, chegou outro colchão que papai me mandou. Para recebê-lo tive de ir ao serviço social assinar a nota, já que tinha vindo direto da loja.

Quando cheguei ao cubículo com o colchão de "viúvo", que tomava boa parte daquele espaço e tinha dado um trabalhão para ir até lá, encontrei uma carta da Adriana (filha de Marilena). Que carta carinhosa, me deixou tão emocionado, que custei a me recuperar das saudades que sentia de Marilena e seus filhos.

Depois de arrumar o colchão em cima de dois colchonetes, com embalagem e tudo para não sujá-lo, deitei e estava começando a relaxar, quando ouvi a voz de Pira:

— Que colchão bonito.

Levantei para falar com ele e reparei que estava com um olhar estranho, parecia muito preocupado. Perguntei se estava tudo bem. Quando começou a explicar que as coisas no sistema estavam complicando, a sirene tocou e ele se despediu.




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