O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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Chegamos e começamos a nos organizar para a viagem que faríamos à praia. Desta vez iríamos levar tudo o que precisávamos para permanecer lá. Roupas de cama e mesa, mantimentos, faqueiro etc. Para transportar essas coisas aluguei uma Kombi com motorista. Estávamos nessa de organizar, quando Francisco telefonou, disse que viria no dia seguinte e gostaria de almoçar com a gente. Depois disso, Ângela telefonou para uma amiga para vir também.

O dia seguinte chegou e o almoço foi trágico.

Ficamos na cama até tarde, pois fomos dormir tarde, excitados que estávamos com a ida a Búzios. Depois de um café-da-manhã reforçado com

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"Viúva", laranjada e tudo o mais, continuamos tomando uns drinques na cama, até a hora de nos prepararmos para esperar as visitas. Quando saído banho, Ângela estava com um vestido superprovocante, com uma abertura até à cintura. Além do mais, estava com uma calcinha minúscula e transparente. Quando se mexia ou andava ficava muito exposta. Pedi que mudasse de roupa, aquela me incomodava. Levei uma bronca tão violenta, que comecei a revidar. Só paramos porque as visitas chegaram. Acho que ao chegarem, ela trocou de roupa, já que mais tarde, numa discussão que tivemos no quarto, reparei que estava com outro vestido.

Bom... eles chegaram e o ambiente entre nós estava péssimo. Francisco e eu ficamos na sala e as duas foram para o quarto. Acho que foi a hora em que trocou de vestido.

Conversamos por muito tempo, até acharmos que elas estavam demorando muito. Pedi licença ao meu amigo e fui até o quarto. Ângela e a amiga conversavam, ela tinha um copo de vodca na mão e seu rosto começava a se transformar. Pelo menos eu vi assim. Falei alguma coisa como: — Vocês vão ficar aí? - Recebi de volta uma enxurrada de desaforos. Revidei e falamos coisas horrorosas um para o outro. Não sei em que tom foi isso, talvez o pessoal da sala tenha ouvido, se é que a amiga foi para lá. Acho que saiu quando começamos a discutir. As acusações continuavam de ambas as partes. Inesperadamente ela falou: "Pára com isso" e tentou me dar um tapa, que passou rente e arranhou meu pescoço. Em seguida me deu outro, que pegou em cheio. Devolvi com um tapa perto da fronte. Ela ficou meio zonza e saiu. Foi para o quarto em frente e se trancou. Mas antes abriu minha gaveta e pegou qualquer coisa.

Peguei uma pequena mala, pus algumas coisas dentro. Estava tão fora de mim, que fazia tudo automaticamente, nem sabia o que enfiava na maleta. Depois fui para o quarto onde ela estava para pegar minha pasta., que tinha a chave do carro e meus documentos. Ela a levara quando abriu a gaveta e só percebi naquele instante.

A essa altura não estava preocupado com as visitas, mas assim mesmo fechei a porta que dava para a sala. Bati à porta e pedi que me desse os documentos e a chave do carro. Ela falou com voz calma:

— Vai para a sala, já vou levar... Assim eles vêem o papelão que está fazendo.

Eu não ia para a sala coisa nenhuma e àquela altura, com a cabeça um pouco mais no lugar e já não agindo no impulso, falei:

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— Me dá a chave do carro, só quero ir embora. Ela berrou:

— Pode descer, entrego lá embaixo, chegarei antes, vou pela janela, até já abri.

Meti o pé na porta uma vez, e na segunda, quando estava quase arrombada, ela destrancou. Entrei, peguei minha pasta e quando ia saindo ela provocou:

— Vai sair por trás, não tem coragem de se mostrar como é?

Não dei ouvidos, abri a porta da copa e ia saindo, mas ela me segurou pelo cinto.

— Que loucura é essa, a gente se ama!

Palavras mágicas, ainda dei um passo para a frente para continuar, mas era só encenação. No segundo puxão, já estávamos nos abraçando. Foi me puxando assim até o quarto. Me deu um beijo carinhoso, passou a mão na fronte e abriu a porta do armário que tinha espelho. Olhou, passou a mão no local e mostrou que sua fronte estava um pouco roxa. Beijei ali e pedi desculpas, ia mostrar o arranhão em meu pescoço, mas só passei a mão. Ela me olhou e riu:

— Machucadura de amor é gostoso.

E saiu, foi até a sala procurar as visitas. Voltou em seguida dizendo que tinham ido embora. Do jeito que estávamos, deitamos e ficamos abraçados. Falamos um pouco na situação constrangedora que tínhamos criado e nos calamos novamente.

Não demorou muito e o telefone tocou, era Francisco preocupado, querendo saber se estávamos bem. Ela riu e disse: "Não podemos estar melhor". E ele respondeu qualquer coisa que a fez rir. Continuou rindo e me olhando. "Estão juntos e vão voltar." O almoço terminou tarde e em paz. Depois que eles saíram, continuamos os preparativos para a pequena mudança. Pequena, mas lotou meu carro, um Maverick quatro portas enorme, e uma Kombi.

No dia seguinte saímos em comboio, mas, como a Kombi estava muito carregada, chegamos muito antes.

Já nos aborrecemos na chegada. Nem metade da reforma estava pronta, fora a bagunça e o abandono. Para nossa sorte a empregada estava lá, e pedimos que fosse buscar o empreiteiro. Enquanto isso, aproveitamos para trocar de roupa, pois fazia muito calor. Eu estava no quarto já de shorfs, pondo algumas coisas no armário, e ouvi Angela

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exaltada reclamar com o pedreiro das janelas, que não estavam colocadas corretamente, e com o eletricista do chuveiro elétrico, que não estava funcionando, pois tinha acabado de tomar banho frio.



Fui até lá e vi que estava só com a parte de baixo do biquíni e uma blusa completamente transparente e aberta por estar mal abotoada. Interrompi a discussão:

- Vá colocar a parte de cima do biquíni que trato disso.

Ela parou o que estava falando, me olhou brava e saiu em direção ao quarto. Se ela saiu brava, eu estava puto com aquele espetáculo.

Perguntei ao empreiteiro se ele achava certo não cumprir o prometido, ele respondeu que tivera problemas com outras obras. Fiquei muito irritado com a resposta. Chamei os outros peões, que tinham aparecido, e comecei a esculhambar com todos eles: desonestos, irresponsáveis, por que estavam ali, até aquela hora, sem fazer nada? Queria que começassem imediatamente. Os caras foram legais, não deram continuidade à discussão. Educadamente pediram que me acalmasse, que tudo estaria bem até o dia seguinte, e o banheiro estaria pronto em poucas horas. Confesso que me surpreenderam com sua educação. Fiquei até meio sem jeito, pois começaram a trabalhar como se nada tivesse acontecido.

Ângela apareceu dizendo que queria ir à pousada, pois estava com fome. Eu já estava mais calmo, deixei os homens trabalhando e saí. Estava chateado, tinha me excedido na bronca. Na verdade, o que tinha me tirado do sério, era a quase nudez de Ângela.

A casa ficava praticamente na areia, olhando para o mar, ficava à direita, quase no fim da praia. Começamos a andar em direção à pousada, que ficava na outra ponta. Ia de cabeça baixa, detestava humilhar as pessoas. Resolvi voltar, reuni-los e pedir desculpas, tinha me excedido. (Não tinha, eles é que não tinham feito a parte deles.) Ângela continuou e eu voltei. Pedi que não se ofendessem comigo e cooperassem, porque logo iríamos construir uma pousada ali.

Ficou tudo bem, voltei para a praia e Ângela estava esperando na areia. Entramos juntos na pousada, passamos pela piscina e chegamos a um lugar com mesas. Nesse trajeto cumprimentamos o dono e depois umas pessoas que estavam por ali. Quando passamos por elas, um rapaz foi muito efusivo ao cumprimentar Ângela. Sentamos longe deles, em outro ambiente. Eles estavam na entrada, perto da praia, e nós no fundo, depois da piscina. Pedimos vodca, uísque e comida. Ficamos falando sobre a reforma e sobre

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A pousada. Na segunda fase, já sabíamos que para a construção caminhar a nosso gosto teríamos de estar presentes. Aproveitei para alertar que andar quase nua no meio dos peões era procurar encrenca. Ela ficou quieta por um momento e quando voltou a falar foi a respeito do camarada que a cumprimentou com tanto entusiasmo.

— Ele foi meu amante, é uma gracinha e na cama é muito melhor que você. Esse sim me punha louca.

Ela queria me atingir e conseguiu, mas agüentei firme. Já tínhamos bebido e eu tinha falado de sua quase nudez no meio dos operários, em má hora. Sugeri que fôssemos embora. fui pagar a conta. Levantei-me chateado, naqueles últimos dez dias não tínhamos feito outra coisa senão brigar. Saí procurando alguém que cobrasse a conta em vez de pedi-la ao garçom, já que me levantando evitaria um bate-boca... mais um. Achei o gerente e pedi que recebesse. Percebi que Ângela entrou na piscina. Demorou um pouco até acharem a conta e quando fui à piscina ela não estava mais lá. Me dirigi à saída e encontrei-a conversando de longe com o rapaz e as pessoas que estavam com ele. Escrevo de longe, porque havia algumas mesas entre eles e nós. Como estava de saída, peguei-a pela mão e fomos andando em direção à areia. Ela estava a toda...

— Vai fazer ceninha porque ele é melhor que você? Acho que vou voltar para o Ibrahim, ele não enchia o meu saco. Sabe quem é aquele homem lindo?

Eu não sabia e ela me contou. Pelo nome eu o localizei, era conhecido em Minas e no Rio. Resolvi ficar quieto porque, se falasse o que sabia, o mundo iria cair. Ela continuou, falando no Ibrahim e dizendo que não agüentava mais.

Quem não agüentou mais fui eu. Assim que chegamos em casa, avisei que ia para o Rio, pôr a cabeça em ordem e descansar, ficar um pouco sozinho.

— Eu não sei você, mas eu estou a seu lado por amor, só que cansei muito de tudo isso.

Peguei a chave e a pasta e entrei no carro do jeito que estava. Ela entrou pelo outro lado e sentou-se.

— Você não vai para Rio coisa nenhuma. Vai ficar aqui comigo, que é o seu lugar. Que história é essa de qualquer briguinha "vou embora"?

Comecei a rir. Ela me olhava e perguntava:

— Do que você está rindo?

Para esfriar os ânimos, contei: um amigo que alugava a casa com meu irmão a uma quadra dali, o Carlinhos, fez nos anos 60 uma viagem

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enorme de São Paulo até Búzios. Naquela época, não existia a ponte Rio-Niterói, e as filas para travessia eram imensas. Quando chegou brigou com a mulher, entrou no carro e voltou para São Paulo. Ela riu e eu continuei.



— Só que eles eram casados havia muito tempo, e nós estamos só começando.

Ela pôs o rosto bem perto do meu...

— Eu quero tomar banho de mar.

Abraçados, caminhamos até a água, já estava escuro e ficamos lá um bom tempo, apesar de a água em Búzios ser fria para o meu gosto. Nadamos, andamos, de vez em quando entrávamos em casa para olhar o mundo de coisas que saía daquela Kombi. Uma das vezes em que entramos, fui ao quarto, queria pó. Não achei e perguntei se ela tinha tirado do lugar.

— Tirei e joguei na privada.

Diminuía luz da sala, pus música e nos sentamos na calçada de pedra em frente à porta. O barulho do mar e a noite escura, iluminada pela luz fraca do poste na esquina, nos embalaram num papo sem conseqüência, só interrompido quando me levantava para servir mais vodca e uísque. Quando mais tarde o movimento aumentou, com a chegada de vizinhos, que também vinham para o réveillon, entramos e trancamos a porta. Já tínhamos dispensado as empregadas e a casa era só nossa. Jantamos uma enorme salada, à luz de velas, e ficamos até tarde deitados no sofá de alvenaria, abraçados sem nos importar com o barulho das outras casas e da rua, a essa altura já em ritmo de festa. Quando fomos para o quarto estávamos bêbados e caindo de sono.

Apesar da noite idílica, pouco depois das nove horas eu já estava de pé. Tomei uma chuveirada e abri a casa. Na cozinha já havia café. Eu estava sozinho na sala lendo o jornal e esperando a empregada acabar de pôr a mesa. Uma mulher que eu nunca tinha visto entrou sala adentro...

— Esta é a casa do Francisco, ele já chegou?

Foi assim, sem dizer bom-dia nem nada. Quase entrou pelo corredor, examinando tudo, curiosa. Era olhar para ela e perceber que queria agredir. Quem seria aquela louca, já perturbada logo de manhã? Como continuei sentado com o jornal na mão, ela fez a pergunta novamente.

— Foi esta a casa que o Francisco comprou?

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Apenas respondi não, e ela insistiu:



- Me disseram que ele comprou esta casa.

Respondi não, ela virou as costas e foi embora. Já sentado lendo e tomando café, perguntei à empregada, que tinha assistido àquela invasão de privacidade, quem era a pessoa. Ela deu o nome e sacudiu a cabeça. Mais tarde, quando Ângela apareceu espreguiçando-se e pedindo café, contei o acontecido e perguntei se ela conhecia a "figura".

- Conheço sim, é recalque, não liga, não é má pessoa.

Tomou um cafezinho e voltou para o quarto. Continuei ali sentado lambiscando e folheando os jornais.

Bateram à porta, que estava aberta, e quando olhei vi a cabeça de um amigo sorrindo.

- Doquinha, que saudades.

Era Geraldinho Dutra, um amigo de quem eu e todos gostavam. Ficou ali um pouco, tomou café e foi andar.

Fui até a porta olhar o tempo, e vi um ônibus enorme e bacanérrimo chegando, estacionou quase em frente de casa. Mais tarde fui olhá-lo, era um verdadeiro apartamento.

Pedi para a empregada deixar pronta uma bandeja com gelo, vodca, laranjada e refrigerantes, e fui até o mar molhar os pés. Encontrei meu vizinho da direita, um paulistano como eu, Luiz Bocalato, armando sua barraca. Voltei para casa e Ângela estava preparando uma vodca com suco de laranja. Pedi que fizesse uma para mim também, e fomos para a praia carregando duas esteiras. Nos estiramos na beira do mar e ficamos tomando sol. A bandeja chegou em seguida. Entramos no mar e quando voltamos Bocalato estava na beira da água. Ao passar por ele, o chamamos para beber conosco. Depois de mais algum tempo chegaram alguns conhecidos, que se uniram a nós. Todos bebemos, e a vodca acabou rapidamente. Ângela levantou-se e foi até em casa mandar vir mais de tudo. Ficamos ali entrando no mar e bebendo. A uma certa altura, todos falavam ao mesmo tempo, contando casos e rindo. Até parecia a praia dos Ossos de outras épocas, sem pousada e com menos casas, mas muito sofisticada e com muitas histórias de pileques homéricos.

Apareceram duas lanchas, uma puxando esquis e outra se preparando para sair para pescar. Bocalato tinha voltado para sua barraca, um dos que estavam ali se despediu porque ia sair na lancha da Pesca. Já tínhamos bebido bastante, e Ângela me puxou para ir com ela

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até o mar. Estávamos entrando e ela tropeçou e caiu. Ri e fui ajudá-la. Ela puxou o braço.



— Posso me levantar sozinha.

Olhei para ela para entender por que não podia ajudar. Percebi que estava de pileque e queria provar que estava no controle da situação. Preocupado, a primeira coisa que fiz foi observar se seu rosto. Estava normal e isso me deixou tranqüilo. Esperei que se levantasse e entramos no mar. Ficamos pouco tempo na água e logo voltamos para nosso lugar. Reparei que a Polaroid estava na bandeja e resolvi brincar um pouco. Só ameaçava, não batia as fotos. Fingi que estava tirando fotos do Bocalato e sua família. Divertia-me com essa brincadeira, quando vi Ângela chamando a alemã vendedora de bolsas que viravam tabuleiro de gamão. Acho que me aproximei delas com o Bocalato e pedi à alemã que tirasse fotos de nós três. Logo após a sessão de fotos, chegaram alguns amigos de Ângela.

Sol, praia e mar, estavam todos animados. Uma moça que tinha acabado de chegar procurava o marido, que tinha estado conosco, mas saiu com a lancha de pescadores. Estava muito quente e Ângela foi andando sozinha para o mar. Fui atrás e, quando a abracei, olhou rindo e falou:

— Convidei a alemã para ir em casa, vamos nos divertir.

Pedi que não fizesse isso, não naquela hora, estava cheio de gente conhecida e eu ia morrer de vergonha. A resposta, veio quando ela já ia saindo do mar:

— Então fica aí, que vou sozinha. Continuei andando a seu lado e pedi:

— Não faça isso, vai ficar esquisito.

Ela não me deu mais atenção, continuou andando em direção a moça e, quando se abaixou para lhe falar mais de perto, se desequilibrou e caiu por cima dela. Fui em seu socorro e a moça saiu apressada. Ajudei Ângela a se levantar e reparei que sangrava na altura do tornozelo. Fiquei muito nervoso, além do mais de repente ela começou a cambalear. Tive de ampará-la até a casa. Ia me xingando, mas não dei importância. Entramos e até chegarmos ao banheiro estava tudo bem. Queria que tomasse banho e fizesse um curativo no tornozelo. Ela foi muito rápida e se desvencilhou de mim, indo até a pia, que era de madeira e enorme, tomava toda a parede. Passou a mão na pia, que àquela altura parecia mais uma

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bancada de tão cheia, e jogou tudo no chão. Pegou um cinzeiro enorme com as duas mãos e o atirou na janela basculante, que tinha acabado de ser colocada, espatifando o cinzeiro e a maior parte dos vidros da janela. Depois avançou contra mim e me deu um tapa no rosto. Não revidei, em vez disso apanhei meu Water Pik, que tinha ido para o chão junto com todo o resto, e o coloquei de volta na pia. Liguei-o na rede elétrica e ele funcionou. Olhei rindo para ela e disse:



- Esse é dos bons, inquebrável.

Abracei-a para ela parar, porque percebi que procurava coisas para atirar em mim. Fiz isso falando para ela se acalmar, que ficaria tudo bem. Com todo o cuidado fui levando-a para o quarto e fiz que se deitasse. Ela se debateu um pouco, queria ir para a praia, mas de repente adormeceu. Naquela posição, ela ficou por duas ou três horas. Sentei-me no chão em frente à porta, que era larga, em duas lâminas, tipo veneziana. Não estava disposto a deixá-la sair naquele estado, para começar tudo novamente. Durante aqueles longos momentos ali sentado, apoiando a cabeça nos braços e olhando o chão, passei em revista toda nossa trajetória juntos. Não porque tentasse entender o que acontecia... os pensamentos é que me vinham. Que destino... por que tínhamos nos encontrado? Foi tudo como pólvora, um rastilho de emoções incontroláveis que acabou nos unindo, mas continuava queimando num caminho sem volta e sem parada. Se vivia atormentado por não estarmos sempre juntos, agora acontecia o contrário. Tirando os momentos em que estávamos a sós nos curtindo, a vida estava insuportável. Me sentia derrotado. Como iríamos consertar aquilo tudo? Em um certo momento percebi que ela estava de pé na minha frente. Demorei a me levantar, tinha ficado naquela posição por muito tempo. Impaciente, saiu para o corredor chamando pela empregada, queria uma refeição. Fui para o banheiro e tomei um banho. Quando voltei para o quarto, ela estava sentada na cama. Enquanto pegava uma camiseta e um shorts, disse que ela tinha dado muito trabalho e quebrado todo o banheiro. Me olhou e falou sem emoção:

- Arrume suas coisas e vá embora, não agüento mais ver sua cara, não sou sua propriedade.

Falei que não queria ir embora, que tinha deixado muita coisa para trás e feito muitos planos.

— Tomar uma decisão assim de cabeça quente é bobagem. Ia continuar, mas ela interrompeu.

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— Vá embora, um dia a gente se encontra e conversa. Não se preocupe com seu dinheiro, é só sacar de nossa conta.

Então, sem saber o que fazer ou para onde ir, avisei que ia para o apartamento no Rio e só no dia seguinte ia para São Paulo. Peguei as poucas coisas que havia trazido, enfiei numa mala e, enquanto eu fazia isso ela se exaltou e passou a me insultar. Tinha demorado de propósito, achei que não me deixaria partir, como no dia anterior. Com tudo pronto, fui para o carro. Ela veio junto, tentei abraçá-la, ela não deixou. Entrei no carro e, como ela continuava na porta, abaixei o vidro e disse:

— Não me deixe ir, eu amo você, não vai ser bom nem para mim nem para você!

Ela não teve reação e eu engatei a marcha a ré e fui em direção à esquina. Parei o carro e fui para a frente da casa novamente, ia tentar convencê-la de que devíamos continuar juntos.

Entrei, passei pela empregada e fui encontrá-la sentada em frente ao banheiro, num banco de alvenaria que cobria toda a extensão do corredor. Olhou-me e não disse nada, eu me encaminhei em sua direção e pedi: "Vamos fazer as pazes". Ela se levantou e foi para o banheiro. Entrei com ela e tentei abraçá-la, mas me rejeitou e voltou a se sentar no mesmo lugar. Fui para junto dela, pus minha pasta ao lado e me ajoelhei em sua frente. Segurei suas mãos e pedi que reconsiderasse, nos amávamos, tínhamos que ficar juntos. "Me abrace, pelo amor de Deus, eu amo você!" Ela me olhou, mas seus olhos não diziam nada.

- Se quiser me dividir com homens e mulheres... - e aí ficou exaltada: - Pode ficar, seu corno! — E bateu a pasta com toda a força em meu rosto.

Apesar da surpresa, por puro reflexo, virei um pouco o rosto. Fui atingido, mas a pasta escapou de sua mão e foi parar na porta do banheiro.

Levantei-me e fui apanhá-la, a pasta estava aberta e minha arma estava no chão. Segurei-a firme e puxei a parte de cima, assustei-me ao ver a cápsula ser remetida para fora, sinal de que esteve sempre pronta para ser acionada. Quando me virei, xingando-a, já estava atirando. Disparei várias vezes de maneira mecânica. Não lembro de ouvir os tiros, estava louco, transtornado.

Olhei assustado para a arma e deixei-a cair aos meus pés, olhando pela última vez Ângela, que desabara ao receber os tiros.

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ASSUMO MINHA CULPA E, ENVERGONHADO, PEÇO A TODOS DE DIREITO que me perdoem.

ÂNGELA.


Bagunceira, guerrilheira nata, não que quisesse combater a hipocresia. não era isso. Jogava limpo, era o que era e fazia o que queria. AChava a sociedade em que vivia horrível, preconceituosa e falsa, por isso, não a respeitava. De uma certa maneira era pura, não se escondia por trás de nada. Nunca a vi querer prejudicar ninguém. Se o fez, foi a si mesma. Por querer se libertar, perdeu seus entes mais queridos. Não a mereci, porque não soube compreendê-la, não estava à altura dela. Ela deve ser lembrada com respeito. Perdoe-me, Ângela.

POR MUITO TEMPO, DEPOIS QUE SAÍ DA PRISÃO, COMENTEI COM AMIGOS, colegas de trabalho e até gente que nunca tinha me visto tudo por que passei e vivi. Muitos chamaram minha atenção. "Puxa! Nunca vi você antes e está me contando todas essas coisas." Também não sei por que fazia isso. Espero que agora eu descanse, me livre e não fale mais nisso.

HOJE EM DIA, QUANDO PENSO EM ÂNGELA E FICO ANGUSTIADO, discuto o assunto com Marilena, mas naquela época, fechado naquele cubículo, com o fio de água caindo e olhando o morro de São Carlos, sentia vontade de morrer. Nesses momentos de profunda solidão, compreendia exatamente o que estava fazendo ali. Aí, tudo voltava à minha cabeça; o dia em que saí de casa, deixando para trás uma mulher que amava, dois filhos, um deles de apenas três anos. Alucinado, virei as costas sem olhar para trás. Meu Deus, como pude? Me perdoe. Era sempre

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com muita dor que me lembrava disso. Ficava muito tempo pensando em Ângela, a paixão que tive por ela, a necessidade que tinha de estar a seu lado. Cometemos tantas loucuras, desobedecemos a tantas regras e tudo acabou de maneira tão trágica.

Foi um banho demorado, acompanhado daquelas lembranças que pareciam não querer me abandonar mais. Então, abri a porta e fui até o cubículo do Lambreta, queria um baseado... ele riu e fomos até o fim do do corredor onde alguns internos estavam queimando fumo. Acendeu um que estava em sua orelha como o lápis de dono de boteco, eu nem tinha reparado.

"19,20 ou 21 10 1982, do jeito que estou não interessa a exatidão da data. A tv está ligada, na novela Dancing Days, programa que assistia na época do primeiro julgamento. A greve dos agentes penitenciários começou. Só os burocratas e a Polícia Militar estão aqui. Os presos estão tranqüilos, aliás nós estamos. No presídio de Bangu foi diferente, houve tentativa de fuga e tiros, muitos tiros. Mas não refletiu aqui, conforme a administração temia. Aqui o pessoal estava consciente de que o negócio é não ter bronca. Esta conscientização é imposta por Pira e seu grupo (Falange Vermelha)."




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