O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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trancada com a amiga em um dos quartos. O amigo tinha coisas para fazer pelo prédio, e eu fiquei sozinho na piscina. Um pouco antes do almoço, ele apareceu e elas também. Aí foi agradável, mas durou pouco. Todos bebemos e comemos bastante.



Foi um almoço demorado e, como o dono da casa descansava depois do almoço, nos ofereceu um quarto para que pudéssemos descansar também, assim mais tarde estaríamos juntos um pouco mais. Eu quis ir embora mas Ângela e os dois insistiram e eu fui para o quarto. Minha intenção não era dormir, iria esperar um pouco e sair à francesa. Se Ângela quisesse ficar descansando, tudo bem. Como não me deitei e sentei numa poltrona, ela me chamou para ficar perto dela. Caminhei para a cama, mas, antes de deitar, perguntei se não achava que tinha me deixado muito tempo sozinho enquanto ficava trancada com a amiga. A reação de Ângela foi violenta.

- Você é um chato, chama minha atenção o tempo todo. Fico trancada com quem quiser. O que você queria, se enfiar na cama com a gente? Só estávamos conversando.

Respondi que não, que só não queria ficar mais de duas horas sozinho na piscina. Eu tinha me sentado na cama, pois, apesar de brava, falava baixo. Comecei a me levantar para sair, mas ela me agarrou.

- Fica aqui comigo.

Desvencilhei-me dela e voltei para a piscina. Aí dei sorte. O "ex" estava lá sentado olhando para cima, com o olhar perdido não sei onde. Me sentei ali com ele e vi que tomava alguma coisa, então comecei a procurar o garçom para pedir algo forte, mas o que meus olhos encontraram foi Ângela vindo dos quartos. Quando viu que eu estava com ele, desapareceu novamente. Uma hora depois, me sentindo melhor, embalado por uns bloody-marys e pelo papo alegre do meu companheiro, resolvi ir um minuto até o quarto pegar um pouco de pó na sacola de Ângela. Fui pensando que provavelmente não tinha sobrado nada, pois as duas tinham ficado trancadas muito tempo. Estava enganado, o pequeno papelote estava intacto e Ângela dormia. Se ela estivesse acordada, na certa teria lhe dado um beijo para ficar tudo bem novamente.

Voltei para a piscina e só saí de lá quase na hora do jantar. Conversamos muito, sobre vários assuntos, inclusive sobre nossas mulheres. Ele disse que Ângela era uma mulher muito atraente, mas muito difícil, e a dele (tinham o mesmo nome), era mais complicada ainda. Ele gostava muito dela, porém tinha de ter muita paciência.

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Voltamos para casa e cada um foi para seu lado, ela para o quarto de hóspedes e eu para o nosso quarto. Telefonei para o Chiquito e contei tudo o que estava acontecendo, me queixei da vida para valer. Ele ouviu tudo.



- Que pena que não estejam se dando bem, vocês se gostam tanto. Largue tudo e venha morar uns tempos comigo.

Fiquei pensando naquela conversa por algum tempo. Sentia-me derrotado, amava Ângela e não estava conseguindo me relacionar bem com ela. Achava que acabar tudo era a pior solução, estávamos vivendo juntos há pouco tempo e, afinal, a fase de adaptação era sempre difícil. Pensar em ficar sem ela me deixava muito angustiado. Fui procurá-la e, quando me viu na porta, levantou e veio me abraçar. Estávamos do jeito que tínhamos chegado, de shorts e biquíni. Levei-a para nosso quarto e fizemos as pazes. Só muito tempo depois, debaixo do chuveiro, conversamos sobre nossas dificuldades. A água escorria em seu rosto e ela sorria enquanto falava:

- Desde quando viver junto foi fácil? Ainda mais duas pessoas como nós...

Hoje em dia sei que ela tinha razão.

Saiu do banho antes de mim, e quando cheguei no quarto o papel manteiga estava aberto em cima da cama e uma garrafa de "Viúva" estava enfiada numa caçamba de gelo. Ficamos da cama para o chuveiro e do chuveiro para cama até acabar o estoque de bebida e de pó, quando então fizemos uma refeição e dormimos durante muito tempo. Cortinas bem fechadas e telefone desligado. A empregada já estava acostumada, não vinha e não deixava nos perturbarem. Acredito que esse nosso embalo tenha durado umas 36 horas.

Acordamos de vez um pouco antes do telefonema da mãe de Ângela, querendo confirmar se íamos passar o Natal lá.

Depois de falar com sua mãe, insistiu para que eu ligasse para a minha. Não atendi sua sugestão. Não o fiz porque, quando estive em São Paulo, para assinar o desquite, procurei por ela, que disse que só me receberia sozinho, não queria conhecer nenhuma mulher ou namorada minha, nunca mais. Diante disso, não fui visitá-la e nunca mais a procurei. Quando retonava para São Paulo era para falar com papai ou Chiquito. Aliás, os dois viviam telefonando.

Antes do Natal estivemos mais uma vez em Búzios, chegamos no fim da tarde e voltamos na noite seguinte. Queríamos ver se tinham começado a reforma, estávamos preocupados com nosso quarto e com o banheiro.

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No dia seguinte, de manhã, fomos à praia das Focas, que tinha uma linda piscina natural. A praia tem pouca areia, é quase tudo pedra, mas é muito pitoresca. Poderíamos ficar à vontade, durante a semana não aparecia ninguém por ali. Ângela não gostou, achou desconfortável, então voltamos para a praia dos Ossos, em frente de nossa casa, que era próxima de uma ótima pousada. A praia era só nossa e de um ou outro caiçara que passava em seu barco de pesca. Entramos várias vezes no mar, tomamos banho nus e, para variar, depois de várias vodcas, Ângela ia saindo do mar com o biquíni na mão. Tive que interferir, pois íamos viver lá e, por mais vazia que a praia estivesse, não dava para dar bandeira, pois havia os habitantes. Ela ria de minha preocupação.



- Você acha que vão me achar feia, é por isso que não quer que me vejam?

Continuamos ali curtindo o sol, tomando vodca com laranjada e comendo um queijinho. Uma moça que vendia bolsas apareceu, não sei de onde. Perguntou se podia mostrá-las. Eram de tecido e, se as abrisse de vez, viravam um tabuleiro de gamão. A moça era estrangeira, provavelmente alemã, não era linda, mas tinha um corpo que chamava a atenção em seu minúsculo biquíni. Com seu sotaque e sua simpatia vendeu-nos uma bolsa. Como nós não sabíamos jogar, pedimos que fizesse uma demonstração enquanto nos acompanhava numa bebida. Ficou conversando algum tempo, nada além de quinze minutos. Contou que estava passando uma grande temporada em Búzios e para se sustentar vendia bolsas e bijuterias pelas praias. Quando se despediu, apontamos para nossa casa e a convidamos para aparecer quando estivesse por perto. Ela se afastou e Ângela perguntou:

- Você acha ela gostosa?

Depois esquecemos o assunto, pusemos a bolsa aberta no gamão numa mesinha de canto, mais como enfeite do que para jogar. Almoçamos tarde na pizzaria de meu amigo e, em seguida, fomos conversar com os pedreiros, que nos esperavam para receber o dinheiro do material que ja tinham comprado e atravancava o corredor. Na noite anterior tínhamos praticamente acampado, pois, além do material espalhado, já tinham mexido nos quartos e no banheiro. O papo foi curto e ficou acertado que a casa estaria pronta logo após o Natal, no dia 27, para ser exato.

Durante a viagem de volta, falamos o tempo todo na continuação da reforma, ou melhor, na transformação da casa em pousada. Achamos que inicialmente, dava para manter o corredor, que ficaria com cinco quartos

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Onde desse para ver o mar por cima de nosso telhado, construiríamos nosso canto. Angela estava ótima; quando não bebia ou bebia e cheirava, que era o caso naquele dia, ela ficava firme, mas quando só bebia, que era o que mais gostava de fazer, perdia completamente o prumo e seu rosto parecia se desmanchar. Enfim... naquele dia ela estava magnífica, objetiva em nossos planos. Naquela viagem, além dos planos que estavam brotando e do carinho que sentíamos por aquele projeto, estávamos felizes. Fiz a viagem toda dirigindo com uma só mão, pois ela estava grudada em mim, apesar dos bancos separados.

Faltavam alguns dias para o Natal e nossa casa na praia estava em reforma. Tínhamos tempo para telefonar para os amigos, a família, ir a bancos e até andar a pé e olhar vitrinas. Em uma tarde ela foi ao dentista e, como eu quis ir junto, ela, sarcástica, comentou:

— Ele é bonito, mas não se preocupe, é apenas meu dentista. Não me incomodei e fui também. Queria fazer uma limpeza nos dentes, que estavam com um pouco de tártaro pelo excesso de cigarros que fumava na época. Para provar que não era ciúme, fiquei aguardando na sala de espera enquanto ela era atendida. Podia até estar provando isso, mas a verdade é que sentia ciúme mesmo. Aliás, esse era um sentimento mútuo.

Nessa ocasião saímos duas vezes, uma para visitar uma amiga, que tinha feito cinema e no momento estava casada com um nobre europeu que morava no Rio; noutra, fomos a um jantar de um pessoal mais velho, que nós dois conhecíamos, em que encontrei até amigos de meus pais.

Quando ela marcou o primeiro encontro, eu sugeri que fosse sozinha, pois era à tarde e eu não tinha vontade nenhuma de conhecer um nobre europeu, mas ela insistiu tanto, que cedi.

- Imagine, ela é uma gracinha e vai ficar louca por você.

Moravam num apartamento em Ipanema de frente para o mar, a decoração era bonita, mas era mais apropriada à Europa. A amiga era realmente atraente, bem branca, cabelos pretos iguais aos olhos, sorriso largo, uma simpatia. Ele era um senhor sisudo de 1m 80 de altura, careca e usava monóculo.

Logo que chegamos, percorremos todas as dependências do apartamento e paramos um pouco no escritório dela, que tinha pôsteres e fotos de filmes de que tinha participado. Depois fomos para a sala olhar

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a vista magnífica e tomar alguma coisa. Havia chá com torradas, sucos e bebidas a escolher.



Ficamos os quatro batendo papo por alguns minutos, até a amiga convidar Ângela para ir ao quarto de vestir, ver um vestido recém-comprado. Ficamos os dois fazendo cerimônia um com o outro, pois não tínhamos nada em comum. Falamos do Rio, da Europa, da decoração. Eles tinham boas peças, e ele, pacientemente, explicou o histórico de cada uma. Tive tempo de tomar alguns uísques. Depois de umas duas horas pedi a ele que fosse chamá-las e comentei que estávamos ali abandonados fazia tempo. Ele foi meio a contragosto e voltou dizendo que estavam trancadas experimentando roupas e viriam em seguida. Eu fiquei muito puto, não fiz nenhuma cena nem má-criação, porque aquele senhor era um cavalheiro. Mas minha postura mudou, não conseguia mais conversar. Enfiei a cara na revista que estava numa cesta de metal e esperei. Apareceram exatamente na hora em que eu tinha decidido ir embora. Chegaram ótimas, alegres, foram ao bar e fizeram uma bebida, depois sentaram-se conosco. Não manifestei alegria ou desagrado, mas não abri a boca, fiquei só ouvindo. Com o tempo meu silêncio chamou atenção, e Ângela, que estava do meu lado e já me conhecia, alegou que era tarde e íamos embora. A amiga veio sentar-se ao meu lado e insistiu para comermos uma pizza. Concordei e fomos a pé até a pizzaria. Comi uma de mussarela, tomei um bom vinho e não tomei conhecimento dos três nem do que diziam. O ambiente ficou constrangedor e, logo após o senhor pagar a conta, estendi a mão aos dois me despedindo e entrei no carro. Ângela ainda ficou por alguns minutos dando beijinhos e agradecendo. Mas, ao entrar no carro, mesmo antes de a porta bater, ela descarregou toda sua raiva. Disse que eu era um desmancha-prazeres, que tinha estragado tudo e não sabia por que estava comigo. Seguramente não era por causa de cama, ela tinha tido namorados muito melhores, que não desfaziam dos amigos dela. Estacionei o carro a menos de dez metros do prédio onde vivíamos, segurei-a com força, obrigando-a a me olhar...

— Deixei minha família, meus negócios e meus amigos, e daqui a alguns dias vou conhecer sua família. Não estou no meu ambiente, estou no seu. Você está começando a me maltratar, não entendo por quê, pois espero muito de nossa relação.

Talvez tenha falado mais, acho que sim. Na verdade estava arrasado, triste, sem saber o que fazer. Finalmente a soltei, mas antes, olhando seus olhos, disse que a amava. Ela ficou por alguns minutos de cabeça baixa e,

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sem mudar de posição, contou que quiseram me chamar para ficar com elas, mas acharam que o marido da amiga ia estranhar. Continuei dizendo que a amava e sentia ciúme, e não suportava saber que ela preferia as amigas. Ela riu, disse que eu era bobo, que não tinha nada disso, que gostava de mim, que naquela tarde as coisas não tinham saído como ela tinha imaginado. Lembro perfeitamente o que respondi.

- Amo você, não podemos passar a vida assim.

Subimos sem nos olhar. Tinha a impressão de que tudo o que tinha dito não fazia muito sentido para ela.

Hoje em dia chego à conclusão de que me apaixonei por uma pessoa anos-luz à minha frente, ela era uma mulher do mundo, e eu, um provinciano. Acho que era sincera, só que me avaliou mal. Naquela noite aconteceu o que vinha acontecendo sempre, fomos para o chuveiro, e lá sempre fazíamos as pazes.

No dia seguinte, na primeira hora, a mãe da Núria que tinha sido nossa convidada em Búzios telefonou aflita. Queria saber se tinha acontecido alguma coisa durante o tempo em que ela esteve conosco.

- Ela voltou tão esquisita que tivemos de interná-la no Instituto Pineu. Era estranho que isso tenha acontecido, não me lembro dela entrando no ônibus ou coisa parecida, mas, enquanto esteve conosco, estava feliz da vida. À tarde fomos visitá-la, depois de uma grande polêmica na entrada, pois não era dia de visita. Finalmente conseguimos vê-la em um momento em que todos os internos foram para o pátio, e ela, como ainda estava sob efeito de remédios, permanecia no dormitório. O local era enorme e tinha mais de cem camas, mas só ela estava lá. Usava roupas normais, nos recebeu sentada e conversou normalmente; notamos que sua voz estava estranha e deduzimos que eram os remédios. Ficou nos olhando e segurando nossas mãos, enquanto dizia que sairia logo e não sabia como tinha chegado lá. Na saída entregamos uma roupa que Ângela levara e deixamos algum dinheiro para ela dar gorjetas e ter um atendimento melhor. Olhando aquele prédio de fora fiquei impressionado com seu tamanho e arquitetura. Era uma construção antiga, singela, muito bonita. Pena que estava maltratado, mas isso no Brasil é normal em prédios públicos. Acho que o bairro é a Urca, um dos lugares mais bonitos da cidade. Ângela saiu de lá muito angustiada, queria bem àquela moça.

A manhã passou e à tarde ela foi ao cabeleireiro, já que à noite iríamos a uma festa onde encontraríamos os conhecidos de sempre. Provavelmente até o Ibrahim estaria lá.

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Ele não estava, causamos um pouco de zunzum, porque tinha

Ele não estava, causamos um pouco de zunzum, porque tinha um pessoal mais velho, amigos de minha mãe. Um deles, Joaquim Guilherme da Silveira Filho, o Silverinha, como era conhecido, infelizmente já falecido, me chamou para um papo, me deu uma bronca e conselhos.

— Falo com sua mãe quase todo dia e ela está preocupada com você.

Não fiquei chateado porque era um amigo de toda a vida e gostava dele. Depois de uma certa hora, o pessoal começou a se retirar, e fomos convidados por uma senhora, também conhecida de minha mãe, para uma última taça em seu apartamento. Eu estava embalado e sem sono; o apartamento era antigo, situado no morro da Viúva e tinha uma das vistas mais bonitas do Rio.

Assim que chegamos, ela abriu um champanhe e depois de uma taça foi com Ângela apartamento adentro alegando ir retocar a pintura. Olhei para Ângela e ela fez sinal para eu esperar um minuto. Só apareceu duas horas depois, lá pelas quatro. Eu já tinha tomado a segunda garrafa de champanhe e tinha esgotado o estoque de pó, tendo apenas a vista como companhia. Estava louco, e louco de raiva também. Quando elas apareceram, como se nada tivesse acontecido, me comportei bem, mas quando entramos no elevador empurrei Ângela, que caiu de joelhos. Só aí percebi seu estado, apesar da pouca luz do antigo elevador. Ela estava embriagada, com aquela cara toda desmanchada que me horrorizava. O elevador estava parado, estava tão descontrolado que esqueci de apertar o botão do térreo. Seu cabelo estava em ordem e sua roupa também. Lançou-me um olhar de escárnio e um sorriso desafiador. Tentou se levantar, mas empurrei-a de volta ao chão. No térreo arrastei-a para fora do elevador até a enorme porta de ferro. O porteiro abriu e olhou assustado, levantei-a pelas axilas e a carreguei até o carro. Ela ficou quieta, não reagiu rindo nem nada. Abri a porta e a enfiei lá dentro, ela me olhava não sei se com rancor ou assustada. Quando entrei, esmurrei o pára-brisa de raiva, chorava, pois queria tê-la esmurrado. Todo o controle que mantive, enquanto estive no apartamento, sumiu. Nem sei como consegui chegar em casa, com os pensamentos embaralhados como estavam.

A paixão por ela, minha ex-mulher, meus filhos, Chiquito dizendo "vem morar aqui", minha mãe, tudo rodava. Percebi que minha mão sangrava e Angela a beijava e dizia qualquer coisa como "tenho uma explicação". Levei-a para nosso quarto, coloquei-a na cama e fiquei quieto no meu canto. Como não conseguia pôr a cabeça no lugar, levantei-me, enchi um copo

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com uísque e tomei. Tinha de pôr meus nervos em ordem para dormir e ver como seria a vida. Em princípio iríamos a Belo encontrar a família de Ângela. Deitei-me, virei de lado, tudo girou e se apagou.



Não sei quantas horas dormi, mas quando acordei estava sozinho. Procurei minha agenda e liguei para o Chiquito, precisava falar com alguém da minha tribo. Acho que a extensão da sala ou do quarto de hóspedes denunciou que eu estava fazendo uma ligação, porque Angela entrou imediatamente. Era incrível, ela estava ótima e nova em folha, só com a parte de cima do baby-doí A única lembrança da madrugada eram seus joelhos, que estavam ralados.

Sentou-se ao meu lado e me deu um beijo. Depois olhou minhas mãos e perguntou para quem eu estava ligando, porque com sua entrada repentina fiquei com o telefone na mão sem fazer nada com ele. Apesar de ter olhado minhas mãos e não ter perguntado o que tinha acontecido, a impressão que dava é que ela que não se lembrava de tudo o que tinha acontecido de madrugada. Disse-me que estava arrumando a mala e levaria pouquíssimas roupas, pois não ficaríamos em Belo Horizonte mais que 48 horas, e me aconselhou a fazer o mesmo. Não dei muita bola para todo aquele papo, estava cansado e de saco cheio. Para não dizer que não tive reação, a única coisa que providenciei foi uma refeição reforçada. Ela mesma trouxe a bandeja para mim, com uma garrafinha de "Viúva" e uma pequena jarra de laranjada. Demorei para terminar a refeição, Ângela andava pelo apartamento excitada, tinha escondido o pó tão bem que não lembrava onde o tinha posto. Não era para levar que ela estava procurando. Ela sabia que eu não a deixaria entrar no avião com aquilo. Avisei que estava no meio dos biquínis, eu estava junto quando ela colocou ali. Achou que o lugar era bom e deixou lá mesmo.

Eu precisava falar com ela, estava só esperando o momento certo. Ela estava bem, não queria estragar tudo e começar a brigar. Mas precisava falar o que sentia. Em uma das vezes em que entrou no quarto, para ver se eu estava me aprontando, pedi que se sentasse ao meu lado. E comecei:

— Se eu estivesse com nossa Polaroid na madrugada passada e a fotografasse no elevador, você ficaria triste de ver seu estado lamentável. Quando exagera na bebida, me deixa horas sozinho em lugares estranhos para mim. Sei que não combinamos levar uma vida careta nem ficar grudados um no outro. Se quer ficar sozinha com suas amigas pelo menos me avisa. Estou assustado com o rumo que as coisas estão tomando.

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Ela ficou parada me olhando muito séria e me disse que tinha em relação a nós os mesmos planos que eu: morar em Búzios, ficarmos grudados um no outro, sim, e que eu procurasse compreendê-la e tivesse mais paciência com ela. Falou novamente de sua casa em Belo Horizonte, dizendo que se eu quisesse ficaríamos lá por uns tempos, longe do burburinho do Rio e São Paulo. Aquilo me desagradou de vez, não queria me esconder em Belo, queria viver em paz curtindo a mulher que amava. Resolvi encerrar o assunto e ver como ficariam as coisas



Mais tarde telefonei a papai e Chiquito para desejar feliz Natal antecipadamente. Pedi para os dois ligarem para o Raul e dizer que logo viria passar uma temporada comigo em Búzios. Bati um papo maior com Chiquito, queria saber dos amigos, dos negócios e de tudo o que estava acontecendo em São Paulo. Ele riu...

— Você está mesmo é com saudades. Olha... algumas pessoas estão comentando que seu caso aí está acabando. Você já sabe, em minha casa tem um quarto para você.

Falei que não era nada disso, que estávamos em fase de adaptação.

No dia seguinte chegamos a Belo Horizonte, lá pelo meio-dia, ficamos no Hotel Del Rey. Resolvemos procurar os familiares e amigos dela só depois de curtimos o hotel como fazíamos anteriormente. Aquele banho e amor, muito amor. Só não tínhamos a Polaroid.

Essas primeiras horas foram ótimas, quase deixamos para o dia seguinte nossa aparição. O resto da estada foi quase agradável. Apesar de a família e os amigos de Ângela estarem perfeitos em todos os sentidos, houve momentos de estresse.

A primeira pessoa que visitamos foi sua mãe, estivemos em sua butique no fim da tarde. Seus filhos também estavam lá e, depois de um papo e de visitar a loja, levamos as crianças para tomar chá em uma confeitaria.

A noite fomos à casa de sua irmã, onde se encontravam todos os familiares e alguns amigos. Esteve o tempo todo perto da gente um grande amigo de Ângela, um cronista social de quem ela gostava muito. Depois das apresentações e dos aperitivos, saímos para jantar. Aliás, é bem provável que tenhamos jantado e saído. Fomos a um lugar com música, repleto de gente. Tudo correu bem, apesar de Ângela ter bebido um pouco além da conta. Não sei se eles perceberam, acho que não, pois todos bebemos e comemos bastante. Mas eu, que detestava ver seu rosto quando se excedia na vodca, ao chegarmos ao hotel provoquei uma discussão, pois sugeri que se olhasse no espelho para ver como ficava deformada quando alcoolizada.

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Eu estava chateado, não queria estar ali. Não por causa da família dela, eles eram legais. Mas os últimos dias tinham me cansado. Percebi isso quando pedi para que ela se olhasse no espelho, fiz de propósito, queria que percebesse meu desagrado. Na verdade não me aborrecia que bebesse, eu também bebia; mas quem ama não desrespeita o parceiro sumindo e falando coisas que machucam. Batemos boca e ela deve ter notado que alguma coisa mudara em mim, porque me abraçou muito e disse que estávamos cansados.

— Estamos tão ansiosos para curtir, desde que saímos de São Paulo, que ainda não tivemos tempo de fato para nós.

Acho que foi mais ou menos isso o que falou, naquele início de madrugada. Depois prometemos um ao outro que só discutiríamos coisas sérias sóbrios, porque, segundo ela, quando eu bebia, cheirava e discutia parecia um "diabinho".

No dia seguinte houve almoço de Natal com distribuição de presentes. Estivemos tão confraternizados, que sua mãe me parabenizou pela alegria e felicidade que Ângela demonstrava. Ela estava realmente linda, elegantíssima, embora, como sempre, vestida com simplicidade. Era uma família bonita aquela, sua irmã, seus filhos, sua mãe e seu cunhado. E me chamou a atenção o mais importante, Ângela era querida por eles. O almoço acabou tarde, me sentei cansado numa poltrona, encostei a cabeça e dormi. Acordei meio sem graça na hora das despedidas. Voltamos para o hotel e no dia seguinte retornamos cedo. Durante a última noite no hotel e na viagem de volta, só falávamos em Búzios, na reforma e em como ficaria a segunda etapa. Era importante essa parte para mim, que em pouco mais de dois anos ficaria sem renda. A situação era confortável, a renda era muito boa e provavelmente até o final do prazo eu teria economizado uma boa parte.




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