O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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Encontro07.10.2019
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— Pô, eu sou colega, tenho de levar esse artista para fazer um show, e estamos atrasados. Ei, você, volte para o carro!

O policial ao meu lado ficou parado, e o responsável levantou os braços e disse:

— Deixa eles passarem, é colega.

Subi no carro e, mais ou menos meia hora depois pedi para parar num bar na beira da estrada. O chefe parou, olhou para trás e falou:

— Que susto, hein!?

Disse que era melhor eu ficar no carro e ele me traria o que eu quisesse. Pedi uma garrafa de pinga, minha cabeça estava um caos.

Paramos em Poços para descansar, e ele me disse que estávamos indo para um lugar chamado Águas Quentes ou Caldas Quentes, agora não lembro. Somente nós dois: ele achava que procurariam o carro em que estávamos, com três passageiros, e por isso trocaríamos de carro também. Concordei com tudo, mas antes de partirmos exigi ler os jornais do dia e dos dias anteriores.

Tinha ficado preocupado com o que Laudse dissera da imagem que a imprensa estava fazendo de mim. Quando conversamos pelo telefone, mostrou-se indignado, pois, segundo ele, os jornais estavam me transformando no mais repugnante dos mortais. Já tinha lido e assistido a alguma coisa pela TV, mas me sentia tão horrível com o crime que tinha cometido que não tinha ligado para as notícias.

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Na verdade, queria me entregar. Só estava fugindo porque precisava descansar, precisava de amigos para me ajudar a pôr a cabeça no lugar e, principalmente, precisava de um advogado para me apresentar da maneira certa. A princípio, nem pensava na minha defesa: que a Justiça decidisse por quanto tempo e como deveria pagar pelo crime que tinha cometido. Só resolvi me defender porque a imprensa e a promotoria haviam criado um Doca que absolutamente não existia. Já estava com a vida arruinada, mas não podia deixar meus filhos e minha família passarem mais vergonha ainda por minha causa.



Depois de ler os jornais, decidi que tinha de me defender, e o quanto antes. Estava pronto para a próxima etapa.

Partimos rumo a Águas ou Caldas Quentes apenas três horas depois: pois, enquanto eu lia os jornais, enxuguei a garrafa de cachaça. Ficamos dois dias na cidade, que na época não era um lugar sofisticado, como é hoje em dia. Chegamos no começo da madrugada e alugamos um quarto com umas cinco camas, uma pia e banheiro ao lado, como numa pensão de antigamente.

Não sei quanto tempo descansamos, mas lá pelas nove horas estávamos tomando café-da-manhã. O refeitório era enorme, lembrava um pouco os refeitórios dos colégios onde eu tinha estudado. O café era maravilhoso, tinha uma variedade enorme de frutas, pães de todos os tipos, sucos etc. O hotel não estava cheio, o que nos deixou mais tranqüilos. Depois do café, fomos fazer uma exploração, e fiquei abismado com o tamanho do lugar e com as fontes: fonte que borbulhava, fonte com água quente, outro lugar com lama para passar no corpo, piscina, lago e campo de futebol. Depois nos sentamos ao lado de uma espécie de coreto, perto da sede. Sugeri que pedíssemos uma bebida, uma caipirinha. O "chefe" ficou desconfortável. Sugeriu que deixasse para mais tarde, achava que eu deveria experimentar todas as fontes, a lama e a piscina, ele ficaria de olho em tudo. Enquanto estávamos nesse papo o lugar foi enchendo. Era começo de janeiro, férias, os turistas estavam chegando.

Segui exatamente o conselho do "chefe" e passei por todos os banhos. Quando fui para a piscina, lá estava ele conversando com algumas pessoas. Discretamente fez sinal para eu não me aproximar. Nadei um pouco, tomei um refrigerante e fui para o quarto. Tinha abandonado o meu disfarce, achávamos que talvez a polícia já estivesse desconfiada daquele roqueiro. Mas não tirava por nada os óculos escuros.

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Logo que entrei no quarto, meu anjo da guarda também chegou. Disse que tinha lido alguns jornais e que as notícias continuavam ruins, mas, de resto, no hotel não corríamos perigo, pelo menos por enquanto. Depois do almoço, caminhamos um pouco e paramos no campo de futebol para assistir a um jogo que ia começar. Como eu estava de shorts, uma pessoa que estava organizando os times fez sinal para eu ir jogar. Olhei para o "chefe" e ele disse:



— Vou acabar de ler os jornais, se você quiser, vá jogar.

Parei depois de quinze minutos. Estava exausto, fui tomar banho e deitar um pouco. Horas depois, saímos para jantar. O salão dessa vez estava quase lotado, mas havia uma mesa de canto e ficamos com ela. O "chefe" me aconselhou a não olhar para ninguém. Jantamos tranqüilos, tomamos café e saímos para fumar no coreto. Estávamos ali fumando quando um casal se aproximou. Meu companheiro foi logo me avisando:

— Não fale nada.

O casal sentou-se e puxou conversa. Conversa vai, conversa vem, de repente...

— O que vocês fazem?

— Nós somos da polícia, só vamos passar aqui esta noite, e vocês? A resposta foi um espanto:

— Trabalho no jornal O Estado de S. Paulo, minha mulher e eu estamos aqui de férias, chegamos hoje. — E continuou: — Ela acha que o senhor é a cara do Doca Street.

Nem eu nem o "chefe" mostramos espanto. Dei risada e disse:

— É mesmo?

A mulher se manifestou pela primeira vez:

— Por que óculos escuros à noite?

Respondi rindo:

— Enxergo mal.

O marido interferiu, dizendo:

— Imagine se ele estaria aqui, esse já deve estar no exterior. Aparentemente todos concordamos, mas a mulher continuava me olhando esquisito. Acho que isso incomodou o marido. Ele se levantou, disse que estava com sono e pegou a mulher pela mão. Deu boa-noite e se retirou para seus aposentos.

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Às SEIS E MEIA DA MANHÃ ENTRAMOS NO REFEITÓRIO E ESCOLHEmos uma mesa qualquer. Não havia vivalma no salão, e o garçom trouxe aquele café maravilhoso. Mal tínhamos começado a comer quando entraram dois senhores. Deram bom-dia e sentaram-se à mesa ao lado. De novo, conversa vai, conversa vem, começaram a contar que eram policiais, que haviam parado só para tomar café, pois estavam com fome. Como não tínhamos perguntado nada, só balançamos a cabeça como quem diz: "Interessante". Nem olhei para eles. Meu companheiro ainda continuou a conversar alguns minutos com os dois, mas com a graça de Deus eles terminaram o café rapidamente, se despediram e foram embora. O "chefe" avisou:



— Vamos ver se eles vão embora mesmo, aí pagamos a conta e também vamos.

Foi o que fizemos. Eu não precisava me preocupar com dinheiro, já que, antes de sair de São Paulo, ficou combinado que o "chefe" pagaria tudo e, quando terminasse aquela correria, ele apresentaria a conta para a minha família.

Cerca de oito meses depois, quando eu tinha conseguido um habeas corpus e estava trabalhando numa loja de automóveis, um daqueles policiais me visitou. Contou que não dera voz de prisão naquela manhã no refeitório porque não tinha acreditado que fosse eu, mas quase voltou para me prender e, se tivesse feito isso, teria tido uma promoção.

Saímos da estância e seguimos para Mococa. No caminho, o "chefe" explicou que sentia que a situação estava ficando perigosa, já deveriam até ter uma descrição dele como meu guarda-costas. Seu plano era me largar num hotel em Mococa, para onde chamaria seu ajudante e depois iria até Poços de Caldas, para ver a família e telefonar para o dr. Paulo e o dr. Mulayert, a fim de saber o que fazer. Eu não deveria sair do quarto do hotel em hipótese alguma. Não precisava me preocupar, porque o dono do hotel era de confiança e eu só estaria sozinho no quarto. O ajudante estaria hospedado no mesmo hotel e a cada duas horas deveria vir para cuidar do que fosse necessário: comida, bebida etc.

O hotel ficava no centro, e quando chegamos ele desceu para acertar as coisas. Cerca de vinte minutos depois veio me buscar. Trazia na

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mão um chapéu, que coloquei imediatamente. Saí do carro, entrei na recepção, no elevador e depois no quarto, sem encontrar nenhum empregado ou hóspede.



Era um bom quarto com banheiro. O "chefe" saiu e voltou minutos depois, com revistas, jornais, água e uma garrafa de pinga.

— Não faça barulho, fique calmo, daqui a duas horas meu ajudante estará aqui, para ver como você está. Até logo.

Fechou a porta e eu fiquei ali, a sós com aquelas quatro paredes, sem nada para fazer e sem ninguém com quem conversar. Solidão? Era muito mais que isso.

Comecei a ler as revistas. Em uma eu estava na capa, as outras duas tinham chamadas das quais não quero nem me lembrar. Não quis olhar os jornais. O que senti ao ler as reportagens a meu respeito e ver fotos de Ângela em várias idades, e sem vida, no chão...? Não adianta querer explicar. Solidão? Angústia? Tristeza? Não, só dor, muita dor. É horrível ver-se como criminoso e olhar seu retrato estampado na capa de uma revista.

Naquelas duas horas, o mundo desabou na minha cabeça. Só Judas deve ter sentido o que senti. Aliás, eu me sentia o próprio. Ainda bem que eu tinha a pinga, era só entornar. Não fiquei bêbado de cair, acho que isso não acontece com quem está em choque. Passei dois dias no quarto, bebi e chorei muito, olhava as revistas que traziam as fotos de Ângela e sentia saudades.

AS FESTAS NA CASA DO FRANCISCO, NA RUA CAMPO VERDE, ERAM MUITO divertidas. A casa não era só bonita e grande, era também alegre, com ambientes amplos e acolhedores. Embaixo, onde ele recebia os amigos e aconteciam as festas, ficava a sala principal, voltada para a piscina, que além de vestiários tinha um bar muito simpático, ao lado de um imenso gramado, com árvores e plantas muito bem cuidadas. Em noites de festa essa parte da casa ficava toda iluminada, o que completava a alegria do ambiente. Chico, como era conhecido, recebia no mínimo duas vezes por mês.

O grupo principal era sempre o mesmo, o que deixava o ambiente descontraído, pois a maioria já se conhecia. O restante eram artistas, pessoas de outras cidades, gente que Chico, por alguma razão, queria homenagear.

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Os comes e bebes eram ótimos e não paravam de chegar pelas mãos dos antigos empregados da casa, que conheciam a maior parte dos convidados.



A música estava sempre na altura certa e não parava nunca, ainda que na época não existissem DJs. Todo mundo brincava, dançava, bebia muito. Logo na entrada da casa, do lado esquerdo, havia uma sala onde, às vezes, rolava um jogo de pôquer.

Foi numa noite dessas que minha mulher Adelita me chamou.

- Quero que você conheça minha amiga Ângela Diniz.

Já a conhecia de vista e das colunas sociais. Era a famosa "Pantera de Minas". Mas mesmo assim fiquei fascinado com sua beleza. Logo após as apresentações ficamos a sós, fomos dançar e depois continuamos a conversar. Quando o jantar foi servido e os convidados se dirigiram à mesa, continuamos conversando e bebendo. A maior parte das pessoas estava comendo, e por isso ninguém dançava. O nosso papo rolava fácil, parecia que éramos íntimos. Percebi uma hora que ela dava um risinho malandro e perguntei do que se tratava.

- Estou louca para puxar um baseado, vamos até o banheiro? Respondi que podíamos ir para o jardim, mas ela insistiu:

- Prefiro o banheiro.

Ficamos lá queimando fumo, rindo e conversando por tanto tempo que de vez em quando alguém abria a porta e perguntava se íamos passar a noite lá.

A festa era para um pessoal do Rio, que viera assistir a um torneio de pólo. No fim da noite, na despedida, Adelita e eu convidamos os cariocas para almoçarem em nossa casa no dia seguinte. Minha mulher gostava muito de Ângela e queria recepcioná-la.

Durante o almoço ela sentou-se ao meu lado, como manda a etiqueta. Estavam todos descontraídos, e todos comeram e beberam muito. Num momento qualquer, durante o almoço ou mais tarde, passeando pelo jardim, trocamos telefones e combinamos que eu iria ao Rio para almoçarmos juntos. Esse encontro seria no apartamento dela, pois, apesar de ela viver com Ibrahim Sued, cada um tinha o seu canto.

Só fui reencontrá-la dois meses depois. Nesse intervalo falamos por telefone várias vezes por semana, de quando em quando, até algumas vezes por dia. Ela ligava para meu escritório ou eu para o apartamento dela.

Não sei por que atrasei tanto nosso encontro. Eu tinha uma empresa que construía silos, pilastras para pontes, caixas-d água etc, a Brasilos. Era

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fácil arranjar uma viagem, com o pretexto de participar de uma concorrência ou visitar uma obra. Tinha também uma imobiliária, que funcionava na mesma casa que a Brasilos, e eu poderia estar tratando de negócios com algum carioca de mudança para cá. A casa era grande, cabiam perfeitamente as duas empresas. Ficava em Cidade Jardim, na rua Mario Ferraz.



Apesar dessas facilidades o encontro demorou para acontecer. Acho que tinha medo da grande atração que sentia por ela. Sua beleza, o sorriso maroto, o passado de escândalos, as complicações com a Justiça por uso de drogas. Tinha lido que ela havia sido presa por posse de drogas, mas não lembro se era maconha ou cocaína, ou as duas. Em outra ocasião, li sobre um crime mal explicado em sua casa em Belo Horizonte, quando um empregado havia sido baleado e morto. Também não me lembro bem do fato, mas dias depois do crime seu amante, um empreiteiro de Minas, revelou a verdade e assumiu ter atirado na vítima.

Ângela era bem-nascida, freqüentava a alta roda de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo. Já fazia alguns anos que estava separada de um empreiteiro muito rico, com quem teve dois filhos e uma filha. Sua separação tinha sido traumática, e algum tempo depois o ex-marido a processou por raptar a filha e fugir para o Rio.

Por incrível que pareça, a vida maluca de Ângela era adrenalina para mim.

Na verdade, amava minha mulher e não tinha motivo para me arriscar numa aventura.

Num fim de tarde, depois de conversar muito tempo com Ângela, marcamos um encontro para o dia seguinte. Com o endereço no bolso, peguei um avião da ponte aérea e lá pelo meio da manhã estava tocando a campainha do apartamento dela, na rua Anita Garibaldi, em Copacabana.

A empregada que atendeu a porta perguntou:

— O senhor é seu Doca? Senta um pouquinho, vou acordar a madame, ela chegou de madrugada.

Sentei-me num sofá e fiquei ali, olhando as minhas mãos. Comecei a pensar em ir embora, já que aparentemente ela não iria aparecer tão cedo. Quando estava disposto a partir e me levantei, dei com ela parada no corredor, sorrindo com aquela cara malandra que mexia tanto comigo. Veio sentar-se ao meu lado e explicou que chegava sempre de madrugada porque não gostava de acordar na casa do Ibrahim. Pegou a minha mão e foi me puxando até o quarto. Usava só a parte de cima de um baby-doll

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minúsculo e completamente transparente. Entramos num quarto grande com uma cama enorme. No meio da cama tinha duas bandejas com um baita café-da-manhã, parecia serviço de quarto de hotel cinco estrelas. Acompanhando isso tudo, duas meias garrafas de Veuve Clicquot, enterradas num balde de gelo.



- Senta aí e me faz companhia.

Tirei os sapatos e sentei-me à frente dela, do outro lado das bandejas. Apesar de praticamente nua, estava completamente à vontade. Não sei quanto tempo levou para acabarmos com tudo o que havia nas bandejas. De vez em quando parávamos para carícias e beijos. Aquilo continuou num crescendo e fomos ficando tão loucos que mal tivemos tempo de devolver as bandejas para o carrinho que estava ao lado da cama. Dali em diante, começamos a tomar champanhe com laranjada e nos amamos tanto, e com tanta intensidade, que perdi completamente a noção de tudo. Nunca tinha me sentido tão à vontade com uma mulher. Só dei por mim um pouco antes das oito da noite, quando resolvi que tinha de voltar para casa. Antes de sair, combinamos que o próximo encontro seria em São Paulo.

Cheguei em casa às dez da noite, mais ou menos. Foi tudo normal, minha mulher não era de controlar ninguém, mas eu estava assustado. Gostava da minha mulher, gostava muito.

Sei lá o que tinha acontecido, eu tinha perdido o controle, não foi só uma transa, como eu havia planejado. Tinha me envolvido emocionalmente. Com 42 anos, algumas paixões, três casamentos, dois filhos... não era para estar de quatro daquele jeito.

Só voltei a me encontrar com Ângela duas semanas depois. Nesse tempo, apesar de falar com ela todos os dias, consegui relaxar. A minha vida familiar estava tranqüila, a dela também, seria como eu tinha previsto - apenas aquilo que na época chamavam de "amizade colorida". Muitas vezes, durante esse tempo sem vê-la, pensei que era uma sorte ela não ter vindo imediatamente se encontrar comigo... babaca como eu era com mulher, ia estragar meu casamento. Na verdade, eu tinha razão para ficar receoso. Todas as vezes que me envolvia seriamente com uma mulher, era pura paixão. Quando acabava eu sofria e jurava nunca mais me apaixonar. O pior de tudo é que eu era daqueles que achava que a vida sem uma grande paixão não valia a pena, e continuava garimpando até encontrar outra. Paixão? Perigo? Tem coisa melhor?

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Lembro de comentar com Caio Figueiredo, meu sócio na imobiliária que ocupava a mesma casa que a empreiteira:



— Deus queira que ela não me dê bola, assim eu não quebro a cara. Numa manhã, minha secretária me avisou:

- Dona Ângela ligou e deixou o telefone. Está num hotel na Brigadeiro Luiz Antônio.

Liguei imediatamente. Ela estava estressada e disse que, para relaxar, tinha vindo passar o dia comigo.

EU PRECISAVA SAIR DAQUELE QUARTO, E ESTAVA DECIDIDO A ISSO quando meus anjos da guarda entraram para avisar que em dois dias eu daria uma entrevista para a revista Manchete. O jornalista seria o Salomão Schwartzman. Ele viria de avião, e eu iria encontrá-lo próximo a um campo de pouso abandonado, ali perto. Disseram isso e me entregaram uma carta do dr. Paulo, recomendando que eu não deixasse de ir à entrevista, e que estivesse sóbrio e contasse a verdade. Estar sóbrio e contar a verdade era fácil, impossível era ficar esperando naquele quarto mais dois dias.

Não pedi para me tirarem dali, exigi. Do contrário, sairia de qualquer jeito e que se danassem, podiam até me entregar para a polícia. O delegado de Cabo Frio dissera aos jornais e às revistas que eu tinha fama de bravo, mas que na delegacia teria de me comportar. Numa reportagem, um dos presos dizia que, lá, playboy machão se dava mal. Havia também declarações do coronel Erasmo Dias, naquele tempo secretário de Segurança do estado de São Paulo. Os jornais contavam que a polícia estivera em Cravinhos, na fazenda de lide e Jean Louis Lacerda Soares, dois amigos meus, e tinham revistado a fazenda inteira, até embaixo das camas.

Diante disso tudo, para mim dava no mesmo apresentar-me ao Salomão para narrar minha versão dos fatos ou entregar-me à delegacia de Mococa. Por isso, se não me tirassem do hotel, eu sairia de qualquer maneira.

Meus anjos da guarda estavam fartos de saber que meu estado era cada vez pior, até porque em dois dias assistiram à progressão do meu desespero e, preocupados, já tinham arrumado um pesqueiro ali perto

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para me instalar. Estava tudo pronto, era só partir. O lugar seria só nosso, não haveria outros pescadores.



Chegamos ao pesqueiro tarde da noite, porque tive de esperar o momento certo para sair do hotel. Fazia vários dias que a minha cara estava estampada nos jornais e nas revistas, e eu seria facilmente reconhecido. Nos dias que passei ali, ninguém tinha me visto, fora os dois que cuidavam de mim.

O pesqueiro não tinha nenhum luxo, era uma área fechada com cerca de arame que não devia ter mais de quinhentos metros quadrados. No meio havia uma construção com sala, banheiro e dois quartos com beliches, tudo muito simples. Talvez tivesse uma cozinha, mas não me lembro.

Evidentemente havia o rio. À espera da entrevista, passei o dia pescando e bebendo. Lembro perfeitamente que estava ansioso, porque o Salomão provavelmente mexeria em feridas recém-abertas. À noite, fui olhar o que eu tinha na mala, dei com a peruca e os óculos escuros. Fiz a barba e separei uma camisa limpa. Foi impossível dormir nesse dia, e foi mais duro ainda porque eu tinha parado de beber à tarde.

Quando amanheceu, saímos para o encontro, seguindo as instruções que havíamos recebido. Depois de viajar por uns quarenta minutos, chegamos a um campo de pouso abandonado.

Dia de sol, eu podia olhar tudo em volta, não havia ninguém. O lugar onde eu estava era de alvenaria, com meio metro de altura, três de comprimento e um de largura. O telhado ficava apoiado em dois postes de madeira, a uma distância de dois metros e meio um do outro, mais ou menos.

Não esperamos muito, cerca de quinze minutos, um pouco mais talvez. Sei que estava calmo. Em breve contaria a um jornalista importante a minha versão dos fatos de Búzios. Ouvimos o ronco do motor de um carro.

Meus dois companheiros se afastaram e Salomão se aproximou e me cumprimentou. A entrevista aconteceu ali mesmo, e não na fazenda de um amigo, como alguns órgãos da imprensa insinuaram na época. O fotógrafo japonês se manteve à distância e, como era um dia ensolarado, não havia flashes para chamar a minha atenção — por isso quase não me lembro dele.

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Comecei pedindo que a entrevista fosse curta e me defendendo da acusação de vagabundo e gigolô. Eu era empresário e tinha trabalhado a vida toda. Devo ter falado um pouco sobre os lugares em que trabalhei, e em seguida contei sobre o que ocorreu no dia 30 de dezembro de 1976. Pouco conversamos sobre outros assuntos, e eu estava o tempo todo tranqüilo.



Só havia concordado com aquele encontro para poder esclarecer e desmentir o que os jornais e as revistas publicavam, que eu era "gigolô". Não estava nem aí para o resto. Seguramente publicavam o que lhes vinha à cabeça, sem pesquisar o meu passado. Escreviam que eu nunca tinha trabalhado e que sempre explorara mulheres. Se realmente quisessem saber a verdade, seria fácil. Na época eu era empresário e, antes disso, tinha passado oito anos trabalhando no Banco Mercantil de São Paulo.

Tinha conseguido meu primeiro emprego em 1950, quando ainda era menino e queria parar de estudar. Foi na Metalúrgica Matarazzo, que era presidida pelo saudoso amigo Ciccilo Matarazzo, que me empregou atendendo a um pedido de sua mulher Yolanda. Hoje, ainda gozando de ótima saúde, Gianandrea Matarazzo não me deixa mentir, pois na época era diretor de lá.

Salomão foi muito profissional, não ultrapassou os limites em nenhum momento. Quando se deu por satisfeito, nos despedimos, ele partiu e eu também. Me sentia mais leve. Um repórter finalmente iria divulgar o que tinha acontecido.

Depois de preso, dei várias entrevistas para Veja, Cruzeiro e para a própria Manchete, para estações de rádio e TV, e para jornais de todo o país e de fora também. Às vezes me perguntava por que insistiam tanto em me entrevistar, já que, quando a entrevista saía, o texto não tinha nada a ver com o que eu havia dito, noventa por cento era inventado. Não era mais fácil inventar tudo de uma vez?

De volta ao pesqueiro, passei o resto do dia descansando. Me incomodava não saber os próximos passos.

ESTAVA DEITADO NO BELICHE DO PESQUEIRO, CONVERSANDO COM umas moças que o ajudante do "chefe" havia trazido, justamente explicando

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para uma delas por que não queria nada a não ser papo. Foi quando ouvimos uma buzina insistente. O "chefe" ficou alerta, apagou as luzes, mandou todos ficarem em silêncio e saiu para ver o que se passava. Demorou um pouco e, quando voltou, chegou dizendo:



— Seu irmão está aí. Vai falar com ele, enquanto arrumamos suas coisas. Você vai para São Paulo.

Luiz Carlos me contou os novos planos... eu iria para uma clínica por uns dias e depois me apresentaria às autoridades, de acordo com o combinado com o secretário de Segurança. Estava me despedindo dos anjos da guarda e das moças, quando meu irmão me surpreendeu:

— Dois repórteres me abordaram na estrada e não consegui me desvencilhar deles. Acho que você deve atendê-los, um deles se chama Odilon.




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