O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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pouco tempo depois de conseguir sua condicional. Não tive a confirmação desse fato, mas se isso aconteceu foi uma pena, pois ele era um ótimo profissional e poderia ter refeito sua vida em qualquer grande construtora. Ajudou-me a levar as coisas e instalou a televisão. Como antena me vendeu uma geringonça com um fio que passava pela minha janela ia para o teto e enroscava numa das antenas ali instaladas, pertencente a outro interno. Só estive no teto uma vez com Pira. Quando vi as antenas e os fios "chupins", achei que pareciam teias de aranhas. Depois de tudo instalado, a experiência foi perfeita, parecia um cinema, só o controle remoto não funcionou. Era uma TV de catorze polegadas, e era a única colorida naquela galeria. Não podia me queixar de falta de companhia... depois disso, à minha porta, no horário do jornal e das novelas, sempre havia quatro ou cinco internos em caixotes, banquinhos e cadeiras. O Lambreta sentava-se no degrau da porta e não deixava ninguém passar, eu tinha medo de que os guardas aparecessem e o pessoal, para livrar a cara, jogasse as baganas no meu cubículo. Eu nunca teria pensado numa coisa dessas, mas tinha o Lambreta para ensinar as manhas. Aprendi muito com ele no pouco tempo em que fiquei naquela galeria. Depois que me mudei, quase não o encontrava, ele, como o Baiano, não eram bem-vistos pelos companheiros e, com medo de serem mortos, quase não saíam de suas galerias. Nos anos que passei lá, tive na mão fichas de internos que nunca encontrei. Muitos não saíam das galerias.



Pira não era o único chefão, mas só ele andava por todas as dependências, só com o Cuca e o Jarra. Era discreto, misterioso, aparecia de repente, se pudesse passar despercebido, tenho certeza de que seria sua opção. Os outros andavam em número bem maior, sempre rindo muito e falando alto. Bom, eu já tinha rádio, TV, toalhas, roupas de cama e um isopor que, depois de adquirido, sempre esteve com gelo, água e refrigerantes.

Depois da tv instalada e testada, fui acertar o serviço com o Careca, que não queria em hipótese alguma receber por seus serviços. Resolvemos então que tomaríamos refrigerantes na cantina e compraríamos alguma coisa de que ele gostasse. E assim foi, tomamos Coca-Cola e ele comprou pacotes de bolacha, biscoitos e uma caixa de Bis. Depois, voltei ao cubículo. Queria ficar um pouco quieto e escrever para Marilena-Mas não consegui. Tinha acabado de me esticar no colchonete, quando o ajudante do Hugo chegou com as encomendas. Mais tarde, quando estava

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começando a descansar novamente, fui chamado para ir à sala das visitas, meu advogado estava esperando.



Durante a semana era permitido receber visitas programadas, e às quartas-feiras também, neste caso, para qualquer interno. Tanto as visitas programadas como as das quartas-feiras eram em uma sala enorme, fora do prédio da administração, entre a enfermaria e o serviço social. essa sala tinha quarenta metros quadrados, era revestida com cacos de ladrilho e, como os pátios, rodeada por bancos de cimento armado recoberto do mesmo material, acompanhando o chão. Aquele espaço eu freqüentava duas ou três vezes por semana, porque meu pai vinha sempre me ver. Estava sempre vazia, mesmo nas quartas-feiras era raro algum interno estar lá recebendo visitas.

O advogado que estava me esperando me surpreendeu, era o Paulo Badhu, que tinha vindo ao fórum do Rio e aproveitou para me visitar. Acho que foi a última vez que estive com ele, meu querido e bom amigo que, junto com Ivo, me tirou da delegacia de Cabo Frio, como num passe de mágica, e me levou para o hospital. Grande Paulinho. Fico emocionado ao me lembrar dele e do Ivo, pessoal de coragem e raciocínio rápido. A visita foi curta, era fim da tarde, e um agente penitenciário veio avisar que ia tocar a sirene encerrando o expediente. Finalmente fui para a galeria e para o cubículo. Escrevi uma carta e vi tv até tarde.

-EU ANDAVA AFLITO POR VÁRIAS RAZÕES: PRIMEIRO PORQUE DESDE cedo o ambiente estava esquisito, as rádios e as tvs anunciavam duas fugas em Bangu. Aí começou o boato de que ficaríamos na tranca. Outro boato mal começava e se tornava realidade: greve dos agentes Penitenciários.

Com isso tudo acontecendo, a guarda, que já estava trabalhando havia 24 horas, teve de dobrar, ninguém apareceu para substituí-los. Encontrei com Pira no corredor entre os dois pátios. Alertou-me que o chefe de segurança tinha interditado os pátios para esportes e, se tinha feito isso, o próximo passo seria trancar todos, até a Polícia Militar assumir.

Ele estava a caminho do escritório do diretor, para pedir que não trancasse e liberasse os pátios para os internos continuarem calmos. Ficamosna tranca até três horas. Antes disso, o pessoal que foi ao refeitório teve

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de sair em fila, uma galeria de cada vez, acompanhado de perto pela Polícia Militar, que tinha assumido e andava por todas as dependências da penitenciária. Era impressionante o silêncio. A Lemos de Brito parecia um túmulo. Sinal de perigo. Até eu, que era novato, percebi.

Às três horas da tarde, quando liberaram todos e os pátios também, aos poucos tudo voltou ao normal... Digamos, quase tudo. A Polícia Militar estava em número bem maior que a dos guardas penitenciários. Não estavam armados, mas tinham uma postura diferente. Por mais que os internos detestassem os agentes penitenciários, eram só três turmas que se revezavam. Depois de algum tempo todos se conheciam, nos chamavam pelo nome e vice-versa. Então, aquele pessoal fardado militarmente e em maior número "deixava vagabundo bolado".

Fui para o pátio da cantina, fiz um lanche e subi, queria escrever para Marilena e contar da greve dos guardas e os últimos acontecimentos. Era escrevendo para ela que me sentia melhor. Parecia que ficava mais perto de todos, até de nossa cachorrinha, a Manon, uma poodle preta. Sempre pedia para passar a mão na cabeça dela por mim. (Hoje, 24 5 2004, sentado em frente ao computador, tentando me concentrar, leio o começo daquela carta e acho engraçado.)

"Marilena amor,

Para variar, não tenho nada para escrever, pois a vida aqui é monótona e, quando fica excitante, o melhor a fazer é rezar para voltar à monotonia."

Continuei escrevendo e narrando os últimos acontecimentos. Aproveitei para pedir que guardasse todas as cartas com histórias do dia-a-dia. Esse tipo de carta era entregue a Marilena durante as visitas, pois tanto as missivas que iam como as que chegavam eram censuradas. As que só falavam de amor e pedidos (os mais variáveis) eram remetidas pelo correio. (Todas essas cartas e tudo o que escrevi, desde 1977, estão em meu poder.)

Depois de escrever, fiquei muito tempo conversando com Lambreta, que já era o dono do degrau do meu cubículo. Ele não incomodava, era mais educado que a maioria e, como expliquei antes, sabia tudo do sistema e seus conselhos eram preciosos. Naquele fim de tarde conversamos sobre os presídios Água Santa e Edgard Costa e como era diferente o comportamento dos internos. O primeiro tinha dois objetivos: castigo para os que tinham cometido faltas graves no sistema prisional e ser um local para os internos aguardarem o julgamento.

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No presídio Edgard Costa, onde tranca nem existia, o interno que pisava na bola ia para a solitária. A maioria estava lá cumprindo penas curtas de no máximo cinco anos. Havia exceções, eu por exemplo esperava a Justiça decidir se aguardava o julgamento preso ou em liberdade e o Nilo, que estava ali no "seguro". Nos dois presídios, todos tomavam cuidado para não arranjar encrenca.

Já onde estávamos, havia internos com 120 anos de cadeia. Um crime a mais ou a menos não fazia a menor diferença. Alguns, quando uviam as novas sentenças, riam na cara do juiz. O próprio Lambreta, ue estava preso havia muito tempo, ainda tinha processos a responder, porque tinha fugido duas vezes e cometido novos crimes.

Agora eu estava ali, olhando o Lambreta e me perguntando como tinha conseguido aquela façanha. Toda vez que me sentia assim, lembrava de Ângela e ficava tão acabrunhado que precisava ficar só. Aproveitei que a água estava chegando e pedi licença, ia me refrescar um pouco.

Fui BUSCAR O PACOTE E PERGUNTEI AO PORTEIRO SE O PORTADOR "TINHA deixado alguma mensagem.

— Deixou sim, senhor, vai telefonar mais tarde.

Voltei para o apartamento e o abri imediatamente. Depois daquela cabeleireira, eu queria relaxar. Até hoje penso nela. O que será que ela viu? Para mim, ela teve uma premonição.

Chamei Ângela para me fazer companhia e experimentar aquelas mercadorias". Lembro tão bem daquele momento, estava muito quente e ela apareceu nua. Sentou-se no chão, perto de uma mesa baixa que ficava em frente ao sofá. Sentei ao seu lado e, de farra, resolvemos que experimentaríamos as duas mercadorias. Brincando e rindo, fizemos isso, começamos a nos beijar e a brincar de pôr pó um no outro e depois cheirar. Estávamos nessa quando o telefone tocou. Era Marisa, que queria saber se o jantar podia ser naquela noite, pois na seguinte o namorado já tinha compromisso. Como o objetivo das duas era apresentar os novos companheiros, concordamos em recebê-los. Ângela ria a riso solto por causa da interrupção de nosso idílio. Mas não tinha outro jeito, a "onda" já tinha sido cortada. De todo jeito, estávamos à vontade e fomos tomar banho juntos. Tínhamos de ir logo, pois sua amiga estava chegando.

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Marisa chegou rindo, brincando, puxando o namorado pela mão como se fosse um troféu. Eles estavam juntos havia pouco tempo e ela tinha orgulho dele. Era um homem do Norte, tímido, discreto e achava engraçado o jeito que Marisa conduzia as coisas. Não sei se era uma timidez calculada porque ele era muito irônico e dizia coisas incríveis.

Acredito que já eram os últimos dias de novembro de 1976, em plena ditadura militar. Marisa queria saber tudo de nossas vidas, achava incrível que, amiga de Ângela como era, só tinha sabido de nós havia alguns dias pelos jornais. Ficamos conversando e tomando aperitivos por um bom tempo e nos divertimos muito com as tiradas do convidado. Lá pela meia-noite ele sentiu sono e só então pensamos em jantar. Fomos a uma pizzaria e, no final, quando pedimos a conta, ele estava dormindo. Até nisso ele era simpático, a posição em que estava era muito engraçada. O cotovelo apoiado na pizza que estava em sua frente e a mão segurando o queixo.

Depois daquele dia, só estive com Marisa novamente no presídio Ary Franco, em Água Santa, quando foi me entrevistar. Não me agrediu, foi gentil e fez seu trabalho de maneira limpa, embora tenha perdido a amiga.

No dia seguinte, cedo, Francisco telefonou avisando que não viria e transferiu a visita para a próxima semana. Ângela tinha convidado uma amiga de infância, a Núria, para lhe fazer companhia e, como gostava muito da moça, telefonou confirmando o almoço e avisando que viesse com uma maleta para irmos a Búzios, pois queria que ela conhecesse a casa. Enquanto ela falava com a amiga, fui até o banco confirmar o recebimento da primeira remessa da minha comissão. Quando voltei, Ângela estava de biquíni, pronta para irmos almoçar e tomar banho de piscina na casa do ex-namorado que tinha deixado a encomenda na véspera. Não gostei de ela ter aceitado o convite sem me consultar. Eu achava chato, por ele ser "ex". Ângela não me deixou falar.

— Aceitei porque é muito meu amigo e é um amor, você vai gostar dele. E esse negócio de "ex", eu e você temos aos montes. Se for assim, não saímos mais de casa.

Eu não quis discutir, para mim estava tudo bem, tinha me convencido, mas queria que soubesse o que eu estava sentindo.

— Cuidado, você anda abusando de falar nos seus "ex", eu não vivo falando do meu passado.

Ela pôs o rosto bem perto do meu.

— Fala sim, outro dia até me chamou pelo apelido de sua ex-mulher. Percebi que aquele bate-boca não ia acabar bem e mudei de assunto.

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— E sua prima, não vamos esperá-la?

Respondeu que não fazia cerimônia com a moça, que ela almoçaria e esperaria a gente.

Muitas vezes discutíamos e ficávamos zangados, nessas ocasiões sempre prestava atenção em seus olhos e, por mais alterada que ela tivesse, nunca percebi ódio. Via sarcasmo, deboche, mas nunca rancor, me tranqüilizava, pois depois de algum tempo esquecíamos tudo. A casa ficava na Barra, um bairro muito lindo, de frente para o canal, com píer para as lanchas da casa e dos amigos. Fomos recebidos com grande alegria por todos, o que demonstrava que eram muito amigos de Ângela. Ela nunca tinha me falado deles, aquele grupo era surpresa total para mim. Não havia cariocas lá. Eram paulistas do interior, gente do Norte e de outros lugares, todos vivendo no Rio. Uma casa belíssima, enorme, com empregados uniformizados, servindo comida e bebida o tempo todo. Da piscina se via o canal, a avenida, os prédios de frente para o mar e a praia. Ângela esteve enturmadíssima o tempo todo, eu fiquei meio de escanteio. Fiz cerimônia com aquele pessoal, ela era íntima, mas eu não conhecia ninguém. Comi, bebi e nadei bastante, durante umas duas horas, depois procurei Ângela para irmos embora, ainda teríamos de ir até Búzios. Não sei quantas pessoas tinha ali, mas eram muitas, e a maioria foi nos acompanhar até o carro. Nunca vi gente tão educada e alegre, estavam todos de bem com a vida. Na volta, vínhamos cantando e brincando de contar o que mais tínhamos vontade de fazer ainda naquele dia. Cada um tinha de falar sua vontade. Eu fui o primeiro e disse que queria tomar banho de chuveiro com ela assim que chegássemos, dentro de alguns minutos. Ela estava linda e eu a desejava. O carro tinha bancos separados, mas mesmo assim ela chegou bem perto:

— Pára o carro, eu quero você agora.

Ela estava "voando", eu adorava quando ficava louquíssima assim e acompanhava sua loucura, era impossível não fazer isso. Só que não dava Para satisfazê-la, ainda estava muito claro e o trânsito estava pesado. Fomos até o apartamento com ela grudada em mim. De repente disse:

— Já sei! Esta noite vamos fazer amor com minha amiga, ela é uma gracinha.

Eu não tinha restrições a esse tipo de programa, e muito menos com a moça que eu ainda nem conhecia. Muito pelo contrário, achava aquilo excitante, gosstoso. Preocupava-me que outras pessoas de nosso círculo ficassem sabendo.

Eu amava Ângela com toda a força do meu coração, e, se queríamos construir

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alguma coisa, isso na certa seria um complicador. Ângela era transparente i fazia o que tinha vontade e quem não gostasse que se danasse. Muitas vezes, discuti esse assunto com ela, invejava sua coragem. Ela ria.

— O que você acha, que temos boa fama?

Aquela proposta não me surpreendeu, quando ela convidou a prima, eu já tinha percebido. Tirei os olhos do trânsito por um segundo e comentei que estava tudo bem.

— Quem você pensa que estava enganando quando a convidou? Chegamos ao apartamento e a moça estava a nossa espera, não reclamou de ter almoçado sozinha. Era uma gracinha de pessoa e tinha um bom corpo, mas estava longe de ser bonita. Quando chegamos e viu Ângela, seu rosto se iluminou. Que fascínio as amigas tinham por ela.

Nós tínhamos acabado de sair da piscina e não perdemos tempo, fomos tomar banho para em seguida viajar. Além do mais, ainda tinha o desejo que manifestei no carro. Entramos no banheiro e deixamos a porta aberta. Enquanto eu fazia a barba, olhava Ângela pelo espelho enrolando um fumo. Assim que acendemos, abrimos o chuveiro e ela chamou a moça. Ela respondeu que já viria, mas não veio. Só entrou no banheiro bem depois de sairmos, para se arrumar, pois quando chegamos estava cochilando.

Descansei um pouco e pegamos a estrada. Estava vazia, do jeito que eu gostava. Viajar assim era agradável, um passeio.

Ninguém nos esperava quando chegamos. Fizemos de propósito, não avisamos a moça que trabalhava lá. A casa estava em ordem. Lambiscamos algumas coisas que trouxemos e depois preparei drinques. A prima ficou na Coca-Cola, estava tomando um remédio e não quis álcool. Enquanto elas arrumavam as camas, as roupas nos armários e colocavam a casa em ordem, eu fui instalar o som. Apanhei um pouco, mas, depois de algum tempo, consegui colocar uma música. Contente, peguei meu copo e saí dançando com ele pelo corredor. A música estava alta para aquela hora, porém não me preocupava, era segunda ou terça-feira e não havia ninguém na vizinhança. Encontrei Ângela e tirei-a para dançar. Saímos dançando e brincando, a Núria ouviu a música e veio para o corredor. Foi puxada para dançar conosco e acabou no meio de nós dois, de costas para mim. Estávamos loucos de excitação. Ângela fez ela se virar e me beijar, fomos para o quarto e transamos.

Mais uma vez Ângela ficou quase o tempo todo olhando. Depois continuamos deitados, aconchegados, conversando. A música parou e

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ficamos discutindo quem ia colocar outra fita, quando ouvi baterem na janela. Ficamos preocupados e quietos. Bateram novamente.

- Doca, você está aí?

Reconheci na hora a voz do Zé Hugo. Respondi que ia abrir a porta, estava acabando de me enxugar. É claro que demoramos um pouco, porque estávamos nus.

Finalmente abri a porta. Zé estava com sua mulher, tinham vindo buscar o que lhes pertenciam e ver se tínhamos chegado. Viram luz e ouviram música e por isso bateram à porta. Como ninguém respondeu, bateram na janela. Entraram, olharam a sala que estava um pouco modificada, quando

Ângela chegou com a Núria. Fizemos as apresentações e Zé, rindo, disse:

- Quietinhos no quarto, eu quase derrubei a porta e ninguém ouviu... estavam fazendo suruba, é?

Rimos daquela idéia maluca, e comecei a servir bebidas aos recém-chegados. Embalamos num papo bem ao estilo de Búzios de antigamente, sem hora para terminar. Zé Hugo era muito jeitoso e, como falei em reforma, começou a fazer um desenho de como ele achava que a casa deveria ficar. Nós gostamos tanto de suas idéias, que resolvemos começar imediatamente. Eram pequenas modificações no banheiro e nos quartos, se começássemos logo tudo estaria pronto no réveilon, e era nossa intenção passar a data lá. Nem falei do projeto de fazer uma pousada. Já tinha imaginado como seria a transformação, e, provavelmente, o próprio Zé Hugo faria o esboço. Eles ficaram com a gente até de madrugada. Depois que saíram fomos dormir os três juntos.

No dia seguinte, fui procurar um velho amigo que tinha uma pizzaria na Armação. Talvez ele pudesse me indicar as pessoas certas para fazer a primeira reforma. Seu restaurante ficava de frente para o mar, num lugar privilegiado. Demorei lá, pois tínhamos sido grandes amigos e ficamos conversando. Quando voltei, Maria Alice e Zé já estavam em casa. Ele preparava panelas, molhos e todos os apetrechos para fazer o almoço. Mais tarde chegaram pedreiros, pintores e um empreiteiro, indicados pelo próprio Zé Hugo.

Aí quase que a tarde foi estragada. Ângela resolveu zanzar quase nua pela casa para dar ordens às empregadas, enquanto eu mostrava o banheiro e os quartos aos peões. Tive de parar tudo e pedir que pusesse um biquíni, pois ela estava apenas com a parte de cima do baby-doí Fiquei tão Puto, que ela obedeceu sem criar problemas.

Fomos para o Rio dois dias depois, para deixar a casa livre para as reformas. Ficou combinado que tudo seria entregue em quinze dias. Esses

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Os dois dias foram ótimos. A Núria voltou antes de ônibus, pois tinha afazeres. Foram dias tranqüilos, visitamos várias praias e andamos a pé doidões pelas areias, de madrugada.



Já no Rio as coisas não andaram bem, foi uma semana tensa e desagradável. No primeiro dia tratamos de pôr nossa vida burocrática em ordem. Abrimos uma conta conjunta e fomos a uma joalheria transformar um cordão de ouro que Chiquinho Scarpa tinha me presenteado em quatro pulseiras para Ângela. Mais tarde, depois do almoço, mandei a empregada depositar dinheiro na nossa nova conta. Não pude fazer na hora, pois tinha esquecido o talão de cheques.

A tarde ficamos em casa, ela no quarto de hóspedes fazendo ligações para Belo Horizonte, uma delas para falar com seu advogado. Como a maior parte das ligações era para amigas e eu estava sozinho em nosso quarto, pedi que viesse me fazer companhia. Ela não quis, estava na cama, com os pés embaixo do bumbum, conferindo uma porção de papéis. Abaixei para beijá-la e ela rejeitou virando o rosto.

— Estou pondo estes papéis em ordem e vou entregar tudo para você tomar conta.

Eu não queria tomar conta de nada e disse isso à ela. Olhou-me de maneira estranha e jogou todos os papéis no chão.

— Então também não quero mais olhar, pago a outro para tomar conta. Achei que aquela conversa estava tomando um rumo estranho e voltei para o quarto tentando entender o que tinha acontecido.

Tenho a impressão de que houve dois momentos em nosso relacionamento: antes e depois desse incidente. Naquele momento alguma coisa mudou. De repente parecia que estávamos juntos havia muito tempo. Como a pousada ainda era só um projeto, o nosso dia-a-dia era para ser em ritmo de lua-de-mel, e essa mudança fez a diferença. Não estava preparado para ter uma vida de rotina de uma hora para outra. Passar o dia trabalhando e voltar para casa à noite. Naquele momento acho que um alarme tocou dentro de mim. Foi tênue, quase imperceptível esse sentimento. Percebi sem perceber e acho que algo mudou em mim também. Bom... isso são conjecturas atuais de quem tenta entender o que aconteceu.

Antes de voltar para o quarto, passei pela geladeira da copa, peguei uma garrafa pequena de "Viúva", misturei com laranjada e fui arranjar alguma coisa para me distrair. Abri a gaveta do criado-mudo e vi minha pequena pasta guardada de maneira diferente. Eu sempre a deixava de modo que,

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Ao abrir a gaveta, pudesse abri-la em seguida. Do jeito que estava era impossível, eu teria de tirá-la para abri-la. Como achei esquisito, peguei a pasta e, antes de colocar de volta da maneira correta, resolvi olhar a arma, afinal já a tinha encontrado com bala na agulha uma vez

Puxei a parte de cima e novamente levei um susto. Tinha bala na agulha. Numa pistola automática, quando se puxa a parte de cima para arrumá-la, a bala que vem do pente expulsa a bala que es na agulha, a não ser que se faça o movimento bem devagar, só para olhar o cano. Mas não foi o que fiz. Eu puxei normalmente, a bala pulou fora e entrou outra no lugar. Quer dizer... TINHA BALA NA AGULHA. Fiquei tão assustado, que não sabia o que fazer e muito menos o que pensar.

As portas dos quartos estavam abertas. ChameiÂngela, ela disse que não podia. Insisti, dizendo que precisava dela. Minutos depois ela apareceu, sua postura era outra, ela estava bem. Ia começar a dizer qualquer coisa, mas quando viu a arma sentou-se ao meu lado. Contei o que tinha constatado e ela se mostrou espantada. Queria saber a mesma coisa que eu.

- Como é que essa bala foi parar aí?

Ela entendia de armas, já me contara que tinha uma em sua casa "em Belo. Tirei o pente da arma, coloquei as balas de volta nele, recoloquei o pente e acionei a trava, tudo na frente dela. Por alguns minutos ficamos conjecturando como aquilo podia ter acontecido. Não acreditávamos que uma das empregadas pudesse ter mexido em minha pasta e depois na arma. O zelador também não podia ser, apesar de ter a chave do apartamento, ele era de total confiança. Depois de mais alguns minutos desistimos de descobrir o que tinha acontecido e pusemos a pasta de um jeito que ficaríamos sabendo se fosse aberta novamente.

O telefone tocou, era uma amiga convidando para irmos almoçar no dia seguinte. Aceitamos o convite, que, na verdade, era para passar o dia. Deveríamos chegar cedo para tomar banho de piscina e almoçar na cobertura. A amiga era casada com um ex-namorado de Ângela. Moravam numa cobertura, em um prédio de propriedade dele, de frente para o mar, na esquina do Country Club. Baita prédio, com um número enorme de andares. O camarada era um mineiro super boa gente, tinha sido colega de meu irmão, e fizemos amizade imediatamente. O apartamento era espaçoso, muito confortável e decorado sem afetação. A mulher era muito bonita e íntima de Ângela. Apesar de tudo isso e muito mais, o dia foi chato. Ângela bebeu e resolveu implicar comigo. Depois ficou muito tempo




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