O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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— Assim que você acabar de bater a transferência do Santana para a Una, comece a ensinar o Doca a mexer no arquivo.

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Não resisti e perguntei:

— Quem é esse Santana?

Foi Chaves que respondeu:

— É o xerife de sua galeria. Armaram pra ele.

Senhor Waldique levantou a cabeça mas não fez comentário (Santana era o nome do Baiano).

Meu PRIMEIRO DIA NA SEÇÃO DA VIGILÂNCIA SÓ SERVIU PARA EU PERceber que ali era mais tranqüilo e seguro que os pátios. Havia cinco mesas: quatro para os "faxinas" e a do senhor Waldique. Passando pelo portão que separava os pátios da administração, era a primeira sala à direita. Esse portão só ficava aberto totalmente em dias de visitas, caso contrário usava-se a porta instalada no meio dele, que só dava passagem para uma pessoa. Ali sempre havia dois guardas penitenciários; por isso, sem crachá, só era possível passar por ali com autorização da inspeto-ria. Quando o Chaves começou a abrir os arquivos para mostrar como funcionavam, apareceu um interno que mais parecia um funcionário. Alto, loiro, muito bem vestido e com dois chaveiros repletos de chaves. Cumprimentou todos e se dirigiu a mim:

— Meu nome é Flávio, trabalho na enfermaria, o médico está esperando você. — Falou isso e entregou ao senhor Waldique um papel da administração que tinha meu nome e número.

Após passar um visto, disse olhando para mim:

— O médico me pediu para você ir trabalhar lá. Por mim tudo bem, mas você que decide.

A enfermaria e o serviço social ficavam do lado de fora da administração, para ir até lá só o crachá não adiantava, tinha de ter uma autorização da vigilância. Era atraente o convite para trabalhar na enfermaria. Dava para o pátio da entrada da penitenciária, que por sinal era muito bem tratado, com um jardim sempre cuidado por dois internos da confiança da administração. A fachada do prédio e o jardim eram impecáveis, olhando da rua era impossível imaginar seu interior.

Preenchi fichas e fui examinado superficialmente. Depois disso o médico mandou que me sentasse. Ele mesmo me serviu um café e em seguida me convidou para ser seu "faxina". Precisava de uma pessoa

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para trabalhar diretamente com ele, para cuidar de sua agenda, dos arquivos e ajudar o Flávio. Poderia usar seu telefone quando necessário.

Ele só atendia três vezes por semana. Se um interno aparecesse muito doente nesse intervalo, era só encaminhá-lo ao hospital penitenciário.

Aquela era a melhor faxina do sistema. Fiquei muito tentado a aceitaro convite, mas lembrei do conselho que Pira me dera na primeira noite em seu cubículo: "Se aceitar uma faxina e aparecer outra mais atraente, não troque, ficará malvisto ". Fui sincero ao recusar o convite, contei do conselho que havia recebido. Percebi que ele entendeu e não se ofendeu.

Assinou meu retorno e falou:

— Talvez com o tempo apareça uma oportunidade de trazê-lo sem traumas.

Esse começo de frase derrubou de vez meu moral. Fez pensar no tamanho da minha pena. Saí de lá arrasado, disposto a ir direto para o cubículo, mas dei de cara com as moças do serviço social, inclusive a chefe. Acho que minha postura denunciava meu desespero, porque elas me convidaram para um café e perguntaram como eu estava. Não chorei minhas mágoas, nem era necessário. Era só olhar para mim. A chefe da seção não amoleceu.

— Vocês cometem crimes e depois ficam com essas caras de coitados. Isso aqui, como já falei no nosso primeiro encontro, é um inferno. Ainda não recebi sua ficha, assim que recebê-la, farei os cálculos para você ficar sabendo quando começarão seus benefícios (visitar a família no Natal, sair um fim de semana por mês e depois mudar de sistema, ficar num albergue, saindo para trabalhar e voltando para dormir, e, por último, a condicional). Se tudo correr bem, em quatro ou cinco anos começará a usufruir de tudo isso. Trate de encarar a realidade e fortalecer seu moral. Esses recursos impetrados, depois de ter entrado no sistema, nunca vingam, é tudo conversa de advogado. Fique fora de encrenca, que tudo passa. Se precisar de mim venha conversar, mas não vou ficar Passando a mão na sua cabeça.

Que paulada... mas por incrível que pareça uma conversa dessas, Por mais dura que seja, é a mais indicada, não lhe dá falsas esperanças.

Com o tempo que fiquei na enfermaria e depois no serviço social, tinha perdido o horário da água, agora só à noite. Passei pela seção e Pedi ao senhor Waldique para me dispensar, eu estava aborrecido e Cansado, ia comer na cantina e ir para o cubículo. Fiquei na vigilância

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bastante tempo, cerca de dois anos; esse senhor sempre foi legal comigo. Naquele dia, após pedir para me dispensar, ele falou:

— Não se preocupe com o horário, fique algum tempo aqui todo dia e depois faça o que quiser. Só precisarei de você se o Chaves faltar ou em ocasiões de grande número de internos entrando ou sendo transferidos. O médico já me avisou que você preferiu ficar aqui. Gostei da sua atitude, sinal de que soube dar valor a quem estendeu a mão primeiro.

Fui para a cantina e depois de um pequeno lanche fui para o cubículo. Estava começando o segundo lance de escada — um lugar mal iluminado, que virava mais ou menos noventa graus à direita, quando fui abordado por dois internos. (O sistema de comunicação dentro das cadeias é incrível, eles já estavam ali me esperando.) Usavam um gorro de meia que cobria a cabeça até as sobrancelhas, estavam bem encostados na parede, onde a luz escondia mais ainda seus rostos. Disseram que algumas pessoas queriam falar comigo na galeria tal, número tal, e era para acompanhá-los. Falavam tão rápido que não deu para entender qual a galeria. Conduziram-me ao local do encontro. Era o último cubículo de uma galeria, mandaram eu entrar e ficaram na porta do cubículo da frente. Duas pessoas estavam lá, sentados em um colchonete. Os dois usavam gorros, a iluminação era só a que vinha do corredor. Pediram para eu sentar de costas para o corredor, no degrau da porta. Começaram perguntando como eu estava, mas depois foram direto ao assunto sem rodeios:

— Estamos esperando uma grande quantidade de fumo, uns dez quilos. Só que falta uma parte do dinheiro, precisamos de... (disseram a cifra, não me lembro, mas, naquela época, a moeda era cruzeiros). Você dobrará seu capital em uma semana.

Eu estava muito amedrontado, não conseguia e não queria ver suas fisionomias. Eles estavam completamente à vontade, esparramados no colchonete me olhando e esperando minha resposta. Demorei um pouco, tive de me acalmar e pensar o que responder. Quando me recuperei e comecei a falar, fui sincero mas dramatizei um pouco:

— Passei por dois julgamentos que me deixaram completamente duro, tomaram tudo o que eu tinha. Se eu tivesse um pouco de dinheiro não estaria aqui.

Eu estava disposto a não ceder nem um milímetro na minha posição, não emprestaria nem dinheiro para um cafezinho, se quisessem

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acabar comigo, tudo bem, acabava também aquele inferno. Não olhava para eles para que percebessem que não tinha intenção de reconhecê-los Para dedurá-los. Ainda insistiram argumentando que poderiam começar com uma urna encomenda menor, mas eu, com cuidado, respondi:

O dinheiro que o jornal anunciava que eu tenho é pura invenção. Estou completamente sem grampo.

Aí, um deles, o que tinha falado o tempo todo, disse:

Que pena, nós também não temos o dinheiro, vamos perder essa. E não fala pro Pira sobre nossa conversa, ele acha que tudo aqui é dele.

Saí de lá sem escolta, estava tão nervoso que me perdi e acabei no pátio, ao lado da inspetoria. Mesmo que quisesse não encontraria a galeria e o cubículo onde estive. Só vi direito o rosto de um dos que me escoltaram, não nos tornamos amigos, mas me relacionei com ele. Era faxina da vigilância como eu e provavelmente o mentor daquela trama. Seu nome era Luiz, muito magro, um e setenta de altura, cabelos pretos, bigodinho e olhar assustado. Sua mesa ficava em frente à minha.

Depois daquela experiência, resolvi ficar um pouco no pátio da cantina. Precisava me acalmar. Fui lá para o fundo, onde tem o portão de entrada dos mantimentos. Ali é mais tranqüilo para caminhar por causa dos guardas, que estão sempre por lá, de olho nos caminhões que entram e saem. Fiquei andando por muito tempo, só parei porque percebi que Hugo, arrendatário da cantina estava começando a fechá-la. Fui até lá para ver se me vendia um sanduíche e uma Coca-Cola. Ele mandou eu esperar, acabou de abaixar as portas que vinham do teto ao balcão, abriu a porta ao lado e me convidou para entrar. Fez dois mistos quentes que comemos junto com os refrigerantes, sentados em caixotes. Lembro bem dele e da conversa que tivemos. Era um sujeito de 1m 68 de altura, com propensão a engordar. Eu estava curioso, queria saber da cantina, pois só poderia ser um bom negócio com toda aquela gente. No sábado e domingo então, pelo que eu tinha percebido, ele precisava de dois ajudantes. A resposta dele foi a que eu esperava:

— Vendo bem, mas é muito perigoso, muitos querem comprar fiado. Prometem pagar na visita. Se a família não trouxer dinheiro no fim de semana, ele não aparece mais. Às vezes as quantias são pequenas, eu dou o crédito só para não voltarem. Bandido de responsabilidade não da problema, quem vacila são os que não são de nada, assaltantes de pulSeirinhas, relógios, essas coisas simples que transeuntes usam. Esta porta

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já foi arrombada algumas vezes. Depois que o Pira veio para cá, melhorou muito. Porque, se a cadeia estiver bem, ele consegue uma porção de regalias. No Natal passado, as esposas que quiseram dormiram aqui, e no Carnaval ficaram os três dias. Ele mantém a ordem, quando alguém pisa na bola tem de acertar as contas com ele. O pessoal se caga de medo.

Acabamos o lanche e eu, então mais calmo, fui para o meu cubículo

Ainda não tinha falado com Marilena a respeito das visitas íntimas, estava receoso de que ela se assustasse. Era difícil para uma mulher como ela encarar uma situação dessas. Ela teria de trazer uma série de documentos, por exemplo, atestado de saúde, três cartas testemunhando que estava comigo havia mais de seis meses, fotos etc, e seria entrevistada pela chefe do serviço social. No dia seguinte ia pedir todos esses documentos, mas não ia dar detalhes.

Tomei um banho naquele fio de água e depois me sentei no colchonete. Um pouco antes de fecharem a galeria o cozinheiro traria o jantar. Ainda não o conhecia, quem trazia a comida era o Lambreta. Tinha acabado de me esticar, ele apareceu:

— Baiano mandou pedir sabonete, escova de dentes, pasta e cigarros. Se você me arranjar o dinheiro, amanhã eu levo tudo para ele.

Entreguei o dinheiro e achei melhor não falar nada sobre a transferência, que naquela altura já estava pronta.

No dia seguinte às oito da manhã, eu já estava no orelhão, telefonando para Marilena. Contei a conversa com a assistente social, a respeito dos benefícios. Acho que minha voz não estava boa e denunciava meu desespero, porque ela ficou bastante tempo me consolando e pedindo para eu não desanimar. Depois passei a lista de documentos que deveria trazer. Antes de desligar, ela me contou que ela e papai foram os últimos a sair depois da visita. Porque na entrada não receberam o cartão de visitante e a guarda achava que poderiam ter sido roubados e dois internos tentariam fugir, disfarçados de visitas. Ficaram quase duas horas presos na portaria esperando até a última visita sair, depois esperaram novamente os guardas conferirem todos os cartões. Em seguida fui para a vigilância, ainda com a impressão de ter estado no quarto com Marilena, pois enquanto falei com ela me senti ali, ao seu lado, sabia até a posição em que ela deveria estar. Meu Deus, como era difícil olhar em volta e não acordar daquele pesadelo. E, mais ainda, ser um número, não mandar em si mesmo e não ter vontade própria.

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Passei o dia lá, me distraindo com os arquivos. Havia um ao lado da mesa do chefe, estava trancado, mas a chave estava lá. Abri e comecei olhar as fichas. Encontrei a ficha do Pira, era impressionante o número de assaltos à mão armada seguidos de mortes, artigo 157, assaltos a bancos e tráfico, fora os processos durante a fase em que ele esteve na Ilha. Ele me contaria essa história (da guerra na Ilha) um ano depois, em um fim de tarde, em cima do telhado olhando a cidade. Quando estava com a ficha dele na mão, o senhor Waldique, que estava entrando, chamou minha atenção.

— Cuidado, essas fichas são confidenciais. Se algum interno pedir para você olhar e dar informação, diga sempre que não tem acesso, que só mexe com fichas de histórico familiar e localização no prédio. Só mexa nesse fichário se estivermos sozinhos, nem o Chaves está autorizado a usar este arquivo.

Pedi desculpas e ia me afastando, mas ele segurou meu braço e falou abaixando a voz:

— Pode continuar, estão todos distraídos. Perguntei pela ficha do Baiano.

— Está na mesa do diretor, ele será transferido para a Ilha em poucas horas.

No fim do dia fiquei sabendo que ele tinha implorado de joelhos ao diretor para não ir e, além do mais, nem deixaram ele telefonar para sua "protetora".

À noite, em meu cubículo enquanto jantava, logo depois do "confere" e com o Lambreta sentado à minha porta, perguntei o que o Baiano tinha feito.

— Há muita política nas cadeias, você acabou de chegar, não entenderia se eu explicasse. Ele é traficante e tem muitos inimigos. — Em seguida me aconselhou: — O melhor é não falar desse assunto com ninguém.

Um dia depois (creio que era 13 ou 14/10/1982), escrevi: "Acabou de tocar a sirene, são nove da noite, é hora do 'confere'. Os guardas vão às galerias e fazem a chamada, o preso tem de estar de pé na porta. Após conferirem, trancam as galerias e cada um volta a fazer o que quiser. Ontem, duas horas após o 'confere', quatro guardas voltaram e deram uma geral' em todos os cubículos. Parece que estavam desconfiados de que estava havendo jogo de cartas. O cheiro de maconha era forte, mas não deram importância a isso. Depois de revistarem do primeiro ao último cubículo e todos os seus ocupantes, foram embora".

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Nos presídios Água Santa e Edgard Costa, com um cheiro desses o diretor mandava trancar todo mundo até aparecer o responsável pela maconha; me interessei em saber por que não acontecia o mesmo ali O Lambreta respondeu, rindo, que só aconteceria alguma coisa se na "geral" achassem os tóxicos.

— Por causa do cheiro, eles revistaram com mais atenção, como não acharam nada, ficou por isso mesmo.

Hoje é quarta-feira e às 18h 30 percebi que muitos desciam. Em vez de perguntar o que acontecia, desci também e descobri que toda semana, nas quartas, tem cinema. Não tive astral para aquilo e voltei imediatamente para a galeria. Apesar do estado do cubículo, era onde eu me sentia melhor, principalmente se não aparecesse ninguém para conversar, o que nunca acontecia. Só tinha um jeito de me livrar dos papos fora de hora; era fechar a porta. Foi o que fiz naquele dia. Deixei a porta encostada para que ficasse bem claro que eu não estava trancado (até agora segui cem por cento os conselhos do Pira). O pessoal começou a chegar do cinema e uns quinze minutos depois houve o "confere", assim que os guardas trancaram as galerias, também me tranquei.

A semana passou tranqüila, fiquei pouco tempo na vigilância, só o necessário. Andei muito, li jornais e falei com Marilena pelo menos mais uma vez.

No sábado, já pela manhã, me preparei para a visita daquela tarde, pois, fora Marilena e papai, viriam mamãe, May e Luiz Carlos. Pressentia que seria uma visita difícil. E no começo foi, mas depois todos foram se controlando e tudo ficou bem. Mamãe, Marilena e papai estavam no pátio sentados à mesa quando cheguei. Luiz Carlos se atrasara por causa da entrega da televisão e de outras encomendas que eu tinha feito. Assim que chegou, mamãe e ele, que estavam muito emocionados ou chocados com aquilo tudo, começaram a chorar. A força que fiz levantando cedo para tomar sol, ido à barbearia cortar cabelo, pedido à Baiana capricho na camisa e ficado um tempão debaixo do cano, que hoje tinha um pouco mais de água, surtiu efeito. Vendo que eu estava todo arrumado, limpo e até perfumado, mamãe olhou para mim enxugando as lágrimas e disse sorrindo:

— Até parece que você está no Copacabana Palace conosco. —- acrescentou: — Quando pegamos o táxi na porta do Copa e eu dei o endereço daqui, ele nos olhou assustado e quando chegamos disse: Já sei, vão visitar o Doca Street".

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Dali para a frente a visita transcorreu bem. Começamos a falar de alguns negócios que eu tinha deixado pendentes. Tive de assinar alguns papéis e depois todos ficaram muito sérios porque mamãe trazia um recado do Silverinha. Joaquim Guilherme da Silveira Filho, um grande amigo da família, desses que era amigo de toda a vida. Era dono da Fábrica de Tecidos Bangu e um homem muito benquisto no Rio de Janeiro. Foi criado dentro da fábrica e lá fez um grande amigo que cresceu com ele, porque tinham sido irmãos de leite. Esse amigo era banqueiro do jogo do bicho, presidente de um clube de futebol e patrono de uma escola de samba. Pois bem, ele mandaria um emissário visitar o diretor e conversar com alguns internos. Silverinha me mandou um recado: "Fique tranqüilo, vai estar tudo bem". Naquela altura, todas as promessas que faziam eu não levava a sério, fingia que acreditava para não ser desagradável. Fora isso, eu estava contente de ter minha família comigo, além do mais, todos se davam bem com Marilena que era, havia muitos anos, amiga de todos nós, desde a adolescência. A mesa estava cheia de frutas, doces e coisas que eu tinha pedido. Um pouco antes do final da visita, Pira apareceu com Renata, sua esposa. Eles queriam conhecer o resto da família. Mamãe, que já tinha ouvido falar nele, pediu para ele sentar ao seu lado e agradeceu a ajuda que vinha me dando. Ele olhou bem para ela e sorriu:



— O Doca merece, ele é uma pessoa simples, e conhecido como ele é, poderá ajudar muito.

Vi que ela ficou preocupada com o comentário e pisquei para ela, quebrando o mal-estar. Como no domingo anterior, apareceu o Jarra, cumprimentou a todos e entregou as fichas do serviço social à minha mãe e ao meu irmão, pois na próxima visita já teriam de possuir cartão de visitante. Em seguida, Pira sugeriu que começassem a se despedir para não terem de fazer fila na saída. Coitada da minha mãe, os enormes óculos escuros que usava para esconder sua tristeza não ajudavam, estava a todo instante passando um lenço no rosto. Além do mais, devia estar envergonhada. Era uma pessoa conhecida, orgulhosa de sua tradição familiar. Fui abraçado com ela até o corredor e, para não aumentar a emoção, ela apenas continuou andando. Papai se atrasou um pouco com Marilena e Luiz Carlos, e prometeram que no dia seguinte estariam todos de volta. Aproveitei que tinha muita coisa para transportar para o cubículo e não fiquei ali esperando eles desaparecerem. Era muito duro assistir à partida, dava uma sensação de solidão horrível.

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Caminhando cheio de pacotes em direção ao cubículo, passei em frente à inspetoria (escritório onde ficam os guardas) e, como senti que um dos pacotes ia cair, coloquei alguns num banco de madeira em frente à porta, só para pegá-los de volta de maneira mais equilibrada, por que tinha de subir alguns lances de escadas. O inspetor do dia chamou minha atenção:



— Aí não é lugar de vagabundo colocar pacotes.

Pedi desculpas e segui meu caminho. "Vagabundo." Assim é chamado qualquer um que esteja preso no sistema carcerário carioca. Em uma das vezes que meu irmão esteve me visitando, fez a viagem de carro e, ao chegar à penitenciária, tentou estacionar no pátio. O agente penitenciário, além de não permitir, disse:

— Aqui não é lugar de família de vagabundo estacionar.

Os agentes penitenciários trabalham 24 horas por 48 de descanso, agora não lembro se eram seis ou oito por turno. Eles eram encarregados de fiscalizar a carceragem. Cada turno tinha um inspetor e todos obedeciam ao chefe de segurança, um funcionário que estava lá todos os dias. Naquela época era o senhor Manoel Caneta. Não preciso contar o quanto ele era odiado pelos internos.

Uma coisa que nunca vi na Lemos de Brito foi um agente penitenciário sozinho nas galerias.

No dia seguinte, todos voltaram e, depois de umas duas horas, mamãe e Luiz Carlos foram embora para o aeroporto. Assim que eles saíram, chegou o Grande, que foi me visitar várias vezes nos anos em que estive preso. Tinha se mudado para o Rio porque conseguira um bom emprego numa companhia de seguros. Ficou pouco tempo e, quando foi embora, o eterno companheiro, papai, foi junto, para que Marilena e eu tivéssemos alguns momentos a sós. Apreciamos a atitude dele, principalmente por que sabíamos o quanto isso custava para ele, pois, se pudesse, ficaria lá, preso comigo. Ficamos ali, abraçados, aproveitando aquele tempo que nos restava. Aproveitei para falar sobre a visita íntima ou parlatório. No começo ela achou que não tinha entendido direito, mas depois riu, pois só então entendeu por que só ela tivera de trazer o exame médico.

Um pouco antes de tocar a sirene terminando a visita, Pira e Renata vieram sentar-se com a gente, parece até que ele sabia o que estávamos falando, porque, assim que se sentou, avisou que eu ia mudar para um cubículo numa galeria de parlatório. Ia vagar um, o seu ocupante seria

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posto em liberdade. Não era na galeria dele, mas era bem melhor do que aquela em que eu estava. A sirene tocou e Marilena foi embora, ia andando e parando para olhar para trás e dar mais um adeus. É uma sensação estranha que o detento sente ao ver sua namorada partir após a visita. "Será que ela voltará?" Setenta por cento dos internos são abandonados pela esposa, amante ou namorada, e vinte por cento, pela família. Os últimos se sujeitam a lavar, passar roupa e cuidar dos cubículos dos outros. Se quiser correr riscos para sustentar a família e fazê-la voltar, poderá ser apontador de jogo do bicho ou traficante, isso dá um dinheiro, mas... sempre tem o mas, o risco é grande. Se for pego e não conseguir se acertar com o agente penitenciário, vai ter de ir à delegacia para responder por mais um processo e ter a pena aumentada. Quando isso acontece, sair... só em fuga. Aí já estará fazendo parte de uma quadrilha e seguirá esses caminhos.

Segunda-feira, até certo ponto, foi um dia calmo. Assim que cheguei à seção, vi minha televisão e um ventilador, que o Grande me presenteou. Fiquei trabalhando um pouco para esperar o chefe chegar. Enquanto isso, bati a ordem (uma espécie de certificado de propriedade) para eu possuir os dois aparelhos. É importante esse documento, porque ele traz as características dos aparelhos e isso vai para sua ficha, É uma espécie de proteção, caso seu cubículo seja assaltado. Se bem que todos compram e vendem tv, relógios, rádios etc, e nunca ninguém confere coisa alguma. Assim que seu Waldique chegou, levei o documento para ele assinar a liberação. Um interno que estava retirando um isopor profissional, desses que vendedores de refrigerante usam na praia, me perguntou se poderia ajudá-lo comprando o isopor, estava precisando de dinheiro urgente. Olhei para o chefe e perguntei se podia comprar e... qual a utilidade?

— Serve como geladeira e, na cantina, vendem gelo em pedras grandes e moído também. Pode comprar, esse interno está indo para uma prisão-albergue e lá isso não tem utilidade.

Fui com aquilo tudo para o cubículo, estava louco para ligar a tv. Fui ajudado pelo Careca, que era o eletricista oficial da cadeia. Era um sujeito enorme, cabeludo e barbudo e tinha esse apelido porque, numa tentativa de fuga da Ilha, raspou a barba e o cabelo para não ser reconhecido. Era uma criatura muito amável, quando não estava assaltando bancos. Lá, como não havia bancos, era um prazer ter sua companhia. Estivemos juntos o tempo todo em que estive preso. Tanto nas penitenciárias como nos albergues. Parece que morreu num tiroteio com a Polícia,




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