O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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-DESCEMOS PARA O TÉRREO, FOMOS DIRETO AO SERVIÇO SOCIAL, QUE é um apêndice do prédio principal, ao lado da enfermaria e do gabinete dentário. Lá, além dos internos, recém-formadas em psicologia prestavam serviços voluntários. Havia também uma sala de atendimento jurídico com universitárias e advogados do estado, estes últimos funcionários públicos. Com Pira era fácil andar pela administração, todos o conheciam e de uma certa maneira o reverenciavam. Fomos direto para a sala da chefe. Quando entramos:

—Ha! Você veio... não precisava vir escoltado — e olhou para Pira. Aqui tratamos todos com muito apreço e sem distinção.

Pira retrucou rindo:

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— Não liga, não, isso aí é caô (papo furado). A mulher nem olhou para ele e continuou:



— Sou psicóloga, chefe da seção e funcionária de carreira do De-sipe (Departamento Estadual do Serviço Penitenciário), que é um órgão ligado à Vara de Execuções Criminais. — Com isso ela queria dizer que a presença do Pira não a intimidava. — Aqui ninguém dá palpite, nem o diretor.

Eu falei que estava lá porque ela me convidou.

— Tudo bem? — e me estendeu umas fichas para serem preenchidas. Falou-me sobre o parlatório e pediu o nome da minha namorada e das pessoas que viriam me visitar. Elas deveriam trazer fotos para ter carteira de visitante. Dei os nomes e falei de minha estada em delegacias e outros presídios, contei que tinha passado mais de seis meses nessas instituições e já estava providenciando as certidões. Em seguida, mandou que Pira saísse. Sorriu para mim e começou a me instruir sobre a sociedade carcerária. Dizia que não entendia por que um passional estava lá. Havia outras penitenciárias.

— Aqui é só para criminosos muito perigosos. Se bem que outros como você já andaram por aqui. Ande com cuidado, aqui é o verdadeiro inferno, qualquer dúvida venha me procurar.

Confesso que saí de lá pior do que quando entrei. Procurei por Pira, mas não o encontrei. Na saída encontrei um guarda e, quando estava passando por ele...

— Ei! O que você está fazendo aqui? Deixa eu ver sua autorização. — Era um camarada de óculos.

— Que autorização? Fui chamado pelo diretor e pelo Serviço Social.

Ele resmungou que o pessoal não sabia trabalhar.

— Sou Manuel, chefe da segurança, você não devia estar aqui sem uma autorização. E cadê seu crachá?

Como eu não tinha, ele pediu para acompanhá-lo. Andamos mais um pouco e, antes de sair da administração, entramos na seção de vigilância. Passamos por várias mesas ocupadas por internos e chegamos ao funcionário. Sr. Manoel olhou para mim e para o funcionário

— Waldique, este interno está por aqui sem autorização.

Sr. Waldique fez sinal para me sentar e o outro foi embora. Abriu uma gaveta e me entregou um crachá em branco.

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— Com isso você poderá andar por tudo sem autorização. Quer trabalhar comigo? — Ele era gordinho como o outro, mas usava farda igual à dos guardas. Estava sentado e sorria para mim. — Tenho uma vaga de arquivista. Se você quiser, quando se sentir adaptado, daqui alguns dias, poderá começar. Aqui é o coração da penitenciária. Nesses arquivos estão as fichas de todos os internos, contendo seu histórico e sua localização atual. Quer dizer: pavilhão, galeria e número do cubículo.



Respondi que gostaria de tentar. Imediatamente tirou o crachá da minha mão e entregou para o interno ao seu lado

— Chaves, preencha este crachá e entregue para ele. — Depois, olhando para mim: — Vamos à cantina tomar um café? — No caminho para a cantina e durante o café falou sobre o chefe de segurança, o sr. Manuel. — O apelido dele é Manuel Caneta, com ele o jeito é andar na linha, senão vai para o "caderninho".

Voltamos à vigilância para pegar o crachá e o senhor Waldique, ao se despedir, comentou:

— O período da adaptação é muito difícil, fique uma semana andando por aí, preste muita atenção em tudo. Aqui, até um sorriso mal interpretado causa morte.

Voltei para minha galeria sozinho, aquele caminho eu já conhecia. Da entrada, vi no chão, em frente ao meu cubículo, um vaso sanitário, meio saco de cimento e uma colher de pedreiro. Conversando com Baiano estava um cara branco, quase um e oitenta de altura.

— Vim ver se você quer esse vaso, se servir, coloco agora mesmo. Todos me chamam de Português.

Deu o preço do vaso, do serviço e começou imediatamente. A sirene tocou, e todos menos o Português e o Baiano começaram a descer com prato e talher. Uma galeria é um corredor com cem cubículos, cinqüenta de cada lado. No final desse corredor, em vez de uma parede, tem grades de ferro quadriculadas. Naquela hora, cinco e pouco, começava a escurecer. Fiquei preocupado que o pedreiro não conseguisse completar o serviço e fui olhar. Quando perguntei se havia luz suficiente, começou a rir.

— Faço isso tantas vezes que sou capaz de fazer até no escuro. Aqui, quando um interno é posto em liberdade, os vasos são arrancados Para serem vendidos novamente, e geralmente sou eu que faço isso a Pedido dos xerifes.

O Baiano que estava ali escutando se defendeu.

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— Esse aí não fui eu.

O pedreiro explicou que aquele era novo, que o senhor Pira tinha pedido para um guarda comprar. O Baiano estava ali fiscalizando a obra. Fiquei curioso para saber por que ele não foi ao refeitório junto com os outros e perguntei a razão.

— O cozinheiro dos funcionários mora nesta galeria e vem lá pelas oito. Ele traz comida para mim. Você quer também? Se quiser, eu vou lá falar com ele.

Se o preço fosse igual ao almoço do seu Antônio era bom negócio. Então resolvi experimentar. Ele saiu para procurar o cozinheiro. O almoço do Antônio custava dois cruzeiros se a pessoa comesse lá; se mandasse entregar, um pouco mais caro. Essas coisas eram muito baratas e a razão para isso era simples; segundo me informaram tempos depois, era tudo da cozinha da penitenciária.

Eu estava ali assistindo à colocação do vaso, e um interno que morava em frente a mim entrou na galeria. Vinha com um prato na mão e uma expressão preocupada, também mancava um pouco. Veio até mim e disse:

— Me chamo Lambreta, o Baiano ficou retido na inspetoria — falava baixo para o outro não ouvir. — Ele é malvisto por muita gente. Toda hora estão querendo transferi-lo, mas o Baiano tem uma protetora com muita influência.

Mais tarde, depois do "confere" (a chamada antes de trancarem as galerias; é feita olho no olho entre guarda e interno), Lambreta e Baiano vieram me visitar. Não perguntei, mas Baiano se abriu comigo e com Lambreta:

— Se me mandarem para Ilha, vão me "passar o cerol" (matar), tenho muitos inimigos lá.

Deu essa explicação e foi para seu cubículo. Lambreta e eu conversamos por mais algum tempo e depois me tranquei, queria ficar sozinho para pensar um pouco no meu dia. Tinha andado bastante — diretoria, serviço social e vigilância. Caminhar pelos pátios e corredores era assustador. O número de pessoas andando e falando alto, muitos deles com rádios a todo o volume e em estações diferentes transformava aquele ambiente, que já era carregado, em uma Torre de Babel. Fora que a cada momento alguém se aproximava para pedir um cigarro ou algum dinheiro emprestado. Cada vez que isso acontecia eu tinha de fazer um esforço tremendo para não demonstrar todo o medo que sentia.

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Aquilo para mim era o maior sofrimento. "O medo." Tinha de fazer muita força para parecer que estava encarando tudo com naturalidade. Mas logo que passava por um momento desses precisava de mais auto-controle ainda para não demonstrar como realmente me sentia: com vontade de me atirar ao chão chorando e implorando para me tirarem dali. No pátio da cantina tinha a "reunião de Bíblias" — como são chamados os grupos religiosos —, eu tinha prestado atenção em tudo aquilo, estava angustiado e cansado.

Fui até a pequena janela e olhei; segundo informaram, ali era o morro de São Carlos, eu via as pessoas caminhando em um platô que estava bem em frente. Naquele instante, havia umas moças olhando na direção da penitenciária. Eu tinha impressão de ouvir risadas. Naquela hora, depois do "confere" e de trancarem as galerias, tocava a sirene, que a princípio significava "silêncio". Mas na verdade não era proibido conversar, nem ouvir rádio ou assistir à tv. Tudo era permitido, só que bem baixinho. Se o interno tivesse uma lâmpada direcionada para ler, tudo bem, podia fazê-lo. Eu estava ali, no escuro, olhando aquele morro e vendo aquelas moças. Era estranho, já tinha olhado para lá naquelas três primeiras noites de prisão, mas nunca durante o dia. Fiquei ali, olhando e gozando aquele momento de tranqüilidade.

O dia seguinte era sábado e eu estava apreensivo. Tinha feito uma lista grande de pessoas que poderiam me visitar, será que viria alguém?

Acordei lá pelas oito horas e fui à cantina tomar café e comprar jornal. Reparei que os internos estavam se esmerando em deixar os pátios limpos. No pátio da cantina, na área coberta, as mesas estavam sendo decoradas com toalhas e com o nome de seus donos. Esses lugares eram todos do pessoal da Falange Vermelha. O dono da cantina, o senhor Hugo, me avisou que o Pira tinha reservado a penúltima mesa para mim e a toalha que estava lá era emprestada pela cantina. Agradeci e fui até lá. As mesas eram todas iguais, cabiam oito pessoas confortavel-mente. Em cima da minha havia um papel de cartolina com meu nome. Olhei o nome da mesa vizinha, que era a última, era do Pira. Voltei para a cantina e comecei a perguntar ao senhor Hugo o porquê de tantas atenções da parte do Pira.

— Provavelmente ele tem planos para você e, além do mais, o diretor pediu para ele ficar de olho. Você é o interno mais famoso do sistema.

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Aquilo me incomodava. Que planos ele poderia ter para mim? Peguei meu jornal e me afastei. Era melhor não continuar fazendo perguntas.

Como havia muito barulho vindo do pátio 1, fiquei curioso e fui até lá. Estava tendo um jogo de futebol. Assisti um pouco e fui para o final do pátio, onde estavam os aparelhos de ginástica. Um ou dois prisioneiros se exercitavam, o resto estava de calção deitado em toalhas, tomando sol. Eu também estava de shorts e sentei num canto, sem camisa. Depois de uns dez minutos já estava molhado de suor. Apesar de ninguém ter se aproximado, ali não era um lugar tranqüilo. Uma dupla jogava raquetinha (frescobol) bem, mas às vezes a bolinha escapava e passava por perto. A bola de futebol também estava toda hora por ali. Fora uns cinco rádios a toda, em estações diferentes, que pareciam competir para ver qual era o mais potente. Já estava pensando em sair dali, quando um cara, que estava sentado a alguns metros, levantou-se e me convidou para ir à cantina.

— Meu nome é Bóris, convido para um refrigerante.

Era um camarada educado, do tipo muito branco de olho azul. Depois do refrigerante na cantina, ele sugeriu que andássemos em um espaço que ficava entre o galpão com as mesas e o muro que dava para a outra penitenciária. Era uma passagem que eu não tinha percebido, retangular, de mais ou menos oitenta metros por vinte. Começava num portão atrás da administração e ia até a cozinha. Assim que começamos a caminhada, uns guardas apareceram e mandaram a gente se afastar, porque ia entrar um caminhão. Ele entrou, o portão fechou imediatamente após sua passagem e começamos a caminhar novamente. Bóris dizia que era da região das serras, contou que estava preso acusado de ter matado um empresário e era malvisto pela Falange porque achavam que tinha ajudado a Polícia a caçar assaltantes.

— Eu até gostaria de acabar com essa "raça" — dizia ele —, mas não fiz isso. Tenho amigos policiais, mas nunca me meti a vingador. Seu amigo Pira não gosta de mim, a gente se fala, mas ele me olha esquisito.

— Quem falou que ele é meu amigo?

— Todo mundo sabe. Os caras que abordaram você na escada para pedir dinheiro foram levados para a galeria dele e avisados que da próxima vez iam se dar mal.

Eu não acreditava no que estava ouvindo.

— Mas eu o conheci no dia que cheguei.

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— É, mas dentro do sistema e para a imprensa você é muito importante. Dizem que saiu briga entre os diretores para ter você em suas cadeias.

Fiquei boquiaberto e assustadíssimo. Andamos por mais uns quinze minutos e fui para o cubículo ler e tentar tomar banho no fio d’água que saía do cano. Li o jornal, tinha uma reportagem com o motorista de táxi que tinha me conduzido até a penitenciária e outros comentários que àquela altura já eram velhos. Depois comecei a me preparar para as visitas que começariam às treze horas. A água que caía do cano era tão pouca que demorei mais de uma hora para ficar como eu queria. De barba feita, banho tomado e uma camisa branca passada pela Baiana, considerei-me pronto. Abri a porta do cubículo e dei de cara com o Cuca:

— Sua visita está esperando, o Pira está com eles.

Desci correndo as escadas e fui pegar o cartão de autorização de entrada nos pátios. Nos dias de visita era proibido ir aos pátios sem que sua visita já estivesse lá. Os alto-falantes chamavam os internos assim que seus visitantes entrassem nos pátios. Era grande o número de internos antes da inspetoria esperando por suas famílias. Os alto-falantes não paravam de chamá-los. Quando cheguei à mesa encontrei papai, Maria Zélia e Raul, conversando com Pira e sua esposa Renata. Foi um encontro emocionante, meu pai e meu filho me abraçaram durante muito tempo. Eram abraços sentidos com os dois procurando lenços para enxugar as lágrimas que insistiam em cair. Passado o primeiro momento, cumprimentei minha prima, que estava mais controlada, Pira me apresentou sua esposa e passou para sua mesa, que estava lotada de amigos e familiares. Na mesa ao lado se encontrava uma pessoa que estava sempre colado com Pira, mas ainda não tínhamos nos falado. Ele veio até nós com sua esposa nos cumprimentar:

— Meu nome é Jarra, não se preocupem com Doca, a gente está sempre perto dele.

Afastou-se em seguida e finalmente ficamos a sós, eu e minha família. Os três olhavam o prédio com caras assustadas. Ficaram muito impressionados com o estado da galeria que ficava em cima da cozinha. Imagine se eles vissem por dentro. Tinham trazido uma porção de coisas. Frutas, doces, um rádio, cigarros e outras coisas que davam Para carregar. Fui até a cantina buscar refrigerantes, e Raul foi comigo.

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Quando voltamos para a mesa, os três quiseram dar uma volta e conhe cer os pátios. Fomos caminhando devagar, eles olhavam tudo: as era des, os outros pavilhões e galerias, que, como o que tínhamos acabad de deixar, também estavam em petição de miséria. Impressionaram-s também com a quantidade de pessoas aglomeradas em torno de toalha espalhadas pelo chão, em verdadeiros piqueniques, com os odores que vinham das comidas, com as crianças brincando e correndo alegres, não percebendo a tristeza do ambiente. Havia de tudo; gente jovem, mulheres com cestas enormes e, para variar, rádios, muitos rádios, todos corno sempre tocando alto e em estações diferentes. Por onde passávamos chamávamos atenção.



Voltamos para o pátio da cantina e para a mesa. Papai comentava que ali era bem mais tranqüilo. Se bem que o número de curiosos que passavam perto de nossa mesa era impressionante. Um verdadeiro footing. Principalmente moças. Passavam olhando e sorrindo, uma ou outra mais ousada dava adeus.

Tanto papai como Raul agüentaram firme, mas sei que o estado deplorável do prédio e a pobreza da maior parte das famílias ali presentes os assustou. Tive de fazer força para manter uma postura normal. A impressão que eles tinham era igual à minha; de horror e tristeza. O horário de visitas nos fins de semana era das treze às dezessete horas. No final desse período os três já estavam exaustos. Pira tinha me avisado que era melhor os visitantes saírem vinte minutos antes, para não se submeterem à fila. Ou fazer como a família dele, que era a última a sair. Na última opção, tinham de agüentar a guarda reclamando que o horário estava esgotado. Se bem que os guardas só se tornavam mais agressivos em caso de abuso. Apesar do cansaço, pois depois das quatro horas não tínhamos mais o que conversar nem agüentávamos continuar sentados nos bancos, fiquei muito angustiado ao vê-los partir, quinze minutos antes do fim da visita. Fiquei assistindo à saída deles enquanto caminhavam em direção à saída, pois só podíamos acompanhá-los até o enorme portão de ferro, que separava a carceragem da administração e até aquele momento ainda estava aberto. No final do corredor, Raul olhou para trás e acenou para mim. Não consegui me conter e subi para a galeria chorando e engolindo os soluços.

O pessoal das galerias de visita íntima subia com suas esposas e namoradas. Normalmente essas visitas eram feitas só no domingo. As

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amantes chegavam às nove da manhã e saíam dos cubículos vinte minutos antes de terminar a visita. Mas, uma vez por mês, se tudo tivesse corrido bem, sem incidentes sérios, o diretor concedia uma "dormida" (uma noite com a companheira).

Escrevi em 11 10 1982: "Ontem recebi minhas primeiras visitas: papai Maria Zélia e Raul. Passei os dois dias anteriores muito angustiado. Algo terrível me corroeu o tempo todo, mas hoje, quando os vi, me senti bem. Hoje, um dia depois, ainda sinto a grande mágoa de fazê-los passar por tudo isso. Assistir a meu pai e meu filho olharem as galerias da prisão e as janelas das celas não foi mole. Mas hoje (domingo), à uma da tarde, apareceram Marilena e papai. Senti-me confortado com a presença dela. Realmente eu a quero muito. Conversamos, discutimos assuntos seríssimos, namoramos e por alguns instantes, talvez tenha esquecido minha realidade: vida de preso'. Quanto ao resto, é a carceragem, nada fácil de acostumar com ela. Tenho de ter muito tato com todos, pois, como eles dizem, ninguém está aqui por ter sido pego rezando missa', já conheci os mais variados tipos: o pessoal que veio da Ilha Grande, outros do Água Santa etc. Todos com várias passagens por delegacias, presídios e penitenciárias. Os papos são os mais variados, incríveis mesmo. As abordagens para pedir algo são incríveis também; vão de sorrisos e caras angelicais até a intimidação. Os crimes são de todos os tipos, assaltos a mão armada a simples transeuntes ou a bancos e joalherias, tráfico e seqüestro".

A visita de Marilena me reanimou, a alegria de ter seu apoio e sua presença me dava esperança, e, mais que isso, me fazia querer viver. Sentia que, mais que todo o resto, o que mais precisava era de seu amor. Aqueles últimos anos de convivência não tinham só representado amor, loucura e diversão, além disso havia um elo muito forte entre nós. Era o Prazer de estarmos juntos. Enquanto eu tivesse seu amor, apoio e compreensão, estaria apto a lutar, a querer sair dali para continuar minha vida. Não, não tinha esquecido Ângela, como poderia? Os momentos que vivi a seu lado estarão sempre em meu coração e minha mente. Ter acabado com sua vida e causado tanto sofrimento a seus familiares e amigos é uma dor muito maior do que estar preso. A prisão... só me causa medo.

A visita da família me reanimara, é verdade. Além da visita, Marilena me informou que durante a semana chegariam a tv, um colchão de

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viúvo e a bola de futebol que eu tinha prometido para a lep (Liga Esportiva Penitenciária). Fora isso, no fim de semana seguinte, mamãe, Luiz Carlos e May também viriam e trariam boas novidades. Nem perguntei do que se tratava, pois achava que se houvesse novidades que realmente interessavam, o Humberto já teria me avisado.



Estava em plena segunda-feira de manhã, antes do café. Se pudesse, fecharia os olhos e dormiria novamente. Encarar a realidade era tão traumático, que era melhor morrer. Quinze anos. Era muita cadeia. Como 24 horas antes pude pensar em reconstruir minha vida? Acho que naqueles poucos dias que se tinham passado o impacto foi tão grande, que não tinha dado para avaliar minha situação real. Fui atacado por um desespero tão grande naquela primeira segunda-feira de presidiário, que não sabia o que fazer. Estava sentindo algo muito maior do que medo, estava em pânico.

Resolvi levantar na marra e ir até a janela, olhar o morro. Precisava urgentemente me distrair e, além do mais, não tinha visto o morro ainda, a não ser à noite. Olhei e abri a torneira para ver se saía um pouco de água. Correu um fio tênue, entrei embaixo e fiquei olhando para o morro. Naquele platô estavam novamente duas moças. A impressão que tivera uma ou duas noites atrás, de que as duas estavam se comunicando com alguém das galerias, era verdadeira. Elas punham as mãos em concha na boca e berravam alguma coisa, mas não dava para entender. Estava nu, debaixo do fio de água, o calor era tanto que endireitei o corpo para molhar a cabeça e o rosto. Estava fazendo isso quando a água parou de cair. Imediatamente puxei a lata de vinte litros que estava cheia e, com um copo comecei a molhar o resto do meu corpo. Ensaboei e comecei novamente com o copo a me enxaguar. Enquanto fazia esse ritual, raciocinava sobre os conselhos que tinha recebido de Pira, sobre não demonstrar medo.

Resolvi passar na seção da vigilância e pedir para começar a trabalhar imediatamente. Estava pensando nessas coisas, quando o Cuca chegou com o jornal e o café. Trouxe duas novidades. A primeira, o Baiano tinha se desentendido com um interno, um guarda interferiu, ele se desentendeu com o funcionário também e agora estava na solitária. A segunda era que havia um boato de que os guardas penitenciários estavam preparando uma greve e, se isso acontecesse, a Polícia Militar assumiria. Em seguida pegou meu isqueiro, foi até a janela e acendeu

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um baseado. Percebendo o meu pavor, pois fui até a porta com um olhar preocupado, começou a rir:

. Está preocupado com o quê? A essa hora o funcionário está lá embaixo. — Apagou o baseado com uma gotinha de água. — Quer ficar comabagana?

Rejeitei, explicando que tinha receio. Tomei café, lendo o jornal e pensando no pobre Baiano. Eu estava sentado num colchão emprestado, encostado numa parede suja, num cubículo destruído, com uma caneca de café na mão e o jornal aberto. Folheava sem ler, não conseguia me concentrar, parecia que algo pressionava meu peito. De repente, olhei com mais atenção e vi no canto da página de O Globo minha foto com o seguinte cabeçalho: "Doca, um preso comum, é atração no presídio". "Doca Street, o assassino de Ângela Diniz, é mantido como preso comum na penitenciária Lemos de Brito, uma das unidades do complexo da rua Frei Caneca. Ele trabalha como estafeta, não recebe tratamento privilegiado da direção do presídio, mas os próprios companheiros de cárcere lhe dão status, tratam-no com um respeito só dispensado aos presos especiais, como era o ex-policial Mariel Mariscot. Ele é a nova coqueluche da prisão', diz uma funcionária do serviço social da penitenciária. Nos dias de visita aos presos é ele quem atrai as atenções gerais, principalmente das mulheres. As companheiras de outros detentos, as advogadas e as estagiárias de advocacia tentam sempre, mesmo de longe, ver Doca, vestido geralmente de calça jeans e camiseta branca, a fisionomia abatida. Ele está num cubículo comum, o n 21, da galeria 6, primeiro pavilhão, onde falta água e não há luz, a não ser velas que à noite iluminam debilmente a solidão de alguns presos."

A reportagem seguia por mais duas colunas. Deixei o jornal em cima do colchão, joguei o café fora e desci até a cantina para fazer uma refeição decente. Em seguida fui à vigilância conversar com o senhor Waldique sobre começar a "faxina" imediatamente.

— É a coisa mais sensata, assim não fica por aí sem fazer nada. E disse rindo: — O jornal já deu notícia de que você é estafeta. — Pegou o jornal e me entregou. — Senta na mesa junto à porta, vai lendo que depois o Chaves começa a explicar o serviço.

Olhou para o Chaves e disse:




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