O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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CHEGAMOS BEM, A VIAGEM FOI TRANQÜILA E SEM INCIDENTES. Maria Zélia nos cedeu um quarto que tinha uma característica diferente: a varanda dava para dois morros, Pavão e Pavãozinho. Uma das subidas para esses morros ficava exatamente na rua Sá Ferreira. Ficamos lá por cinco dias. Apesar de nada termos combinado, não tocamos em assuntos ligados ao processo, mesmo depois do resultado adverso.



5 10 1982. jornal do Brasil-, por Mariléia Miranda: "Tribunal rejeita recurso e Doca vai para a prisão. A decisão foi unânime: Raul Fernando do Amaral Street, o Doca Street, cumprirá quinze anos de cadeia pelo assassínio. Doca Street se apresentará ainda esta semana. A justiça provou que matadores de mulher e grã-finos de São Paulo também vão para cadeia. — afirmou o assistente de acusação".

O que é que os grã-finos de São Paulo tinham a ver com isso? Que mágoa... ódio de grã-fino? Eu pensei... bom, é melhor isso que traficante, ou será que todo traficante é grã-fino e gigolô? O que o pessoal de São Paulo tem a ver com o crime que cometi? Não dava para apenas noticiar o fato? O restante da reportagem foi normal. Comentava os argumentos da defesa e da acusação e os ataques que o assistente da promotoria fez a meu respeito, que, aliás, acabavam comigo, mas ele os tinha feito e era justo que publicassem.



6 10 1982. O Estado de S. Paulo: "Condenado não se apresenta à Prisão..." Tinha me preparado para aquilo, de ter de me apresentar, mas é claro que não estava pronto; estava, sim, morrendo de medo. Quem não estaria?

Marilena e eu procurávamos manter a calma, enquanto Humberto acertava as coisas com o juiz da Vara de Execuções Criminais do Rio de Janeiro. Discutíamos as reportagens, assistíamos a televisão e escondíamos um do outro nossas aflições. A Polícia de São Paulo tinha cercado o

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apartamento dela, e agora de uma hora para a outra estaria me despedindo para me apresentar.



Estava difícil controlar minha angústia, não tinha conseguido dormir à noite. Estávamos tomando café-da-manhã quando Marilena me mostrou uma reportagem feita pelo Jornal do Brasil um dia antes com Plínio Calil, dono da empresa em que trabalhava. Entre outras coisas, Plínio afirmava: "Ele vai se apresentar. Conheço Doca desde 1957. " e, no final da entrevista: "Calil está satisfeito com o desempenho de seu funcionário, responsável, segundo garantiu, por cinqüenta por cento do faturamento da revendedora".

Lá pelas cinco da tarde, Humberto telefonou:

— Assim que escurecer, irei buscá-lo de táxi. Você vai se apresentar à penitenciária Lemos de Brito, na rua Frei Caneca, no centro do Rio. — Maria Zélia e Marilena não sabiam o que fazer, ficavam andando de um lado para o outro. Por incrível que pareça, consegui aparentar calma. Pus uma camisa limpa, jeans e um blazer azul-marinho. Já vestido, arrumei, em uma mala de mão, meia dúzia de camisas brancas e mais um jeans, dois sabonetes, escova de dentes e uma toalha de rosto. Meu coração estava completamente disparado, mas me segurei, Maria Zélia e Marilena falavam sem parar, mas eu só via as bocas se mexendo, não ouvia um som. Eu sorria e balançava a cabeça para cima e para baixo, aparentando concordância, mas até o chão me faltava.

Tinha a nítida impressão de que tudo crescia e diminuía ao meu redor. Mala de mão, portas, cama, tudo se mexia. Não sei como pude agüentar. Não me lembro de me despedir de Marilena e da minha prima. Só lembro de estar no táxi com Humberto e chegar ao portão da penitenciária. O que me trouxe de volta à realidade foi a atitude dos guardas quando desci do carro, já dentro da penitenciária, logo após a portaria. Quando dei por mim, estava cercado por pessoas que empunhavam revólveres e escopetas. Enquanto Humberto, que provavelmente não entendeu a razão daquela atitude, se explicava, eu enfrentava aquela duríssima realidade. Fiz um esforço tremendo para me concentrar, manter a calma e ficar com a mente atenta. As explicações não duraram muito tempo, logo apareceu um funcionário que nos levou até a sala do diretor.

O caminho era escuro, cheio de grades e portas de ferro. Até hoje sonho com o barulho das chaves e das portas se fechando às minhas costas.

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Depois de caminhar um pouco e subir uma escada, chegamos à sala do diretor. Ele estava de pé, ao lado de sua mesa, que tomava um pedaço da sala, que por sua vez era grande também. Ele sorriu para Humberto e o tratou como um velho amigo. Depois se dirigiu a mim, também com um sorriso, mas diferente. Tinha qualquer coisa de compaixão em sua atitude. Estendeu a mão:

Meu nome é Patrício Gomes de Sá. Puxa! Que coisa, uma pessoa como você, aqui.

Conversamos um pouco e ele me convidou a ir até sua mesa. Pegou uns papéis, que, logo reconheci, eram do Água Santa e do Edgard Costa.

— É... tirando aquela cabeçada que você deu num interno do Água Santa, sua ficha é perfeita. Aqui é diferente, não tente resolver as coisas da sua maneira, é muito perigoso.

Fez uma preleção sobre a sociedade carcerária e depois, pondo a mão em meu ombro, me olhou nos olhos e disse:

— Qualquer coisa que você precise, me procure. Lendo sua ficha, verifiquei que seu pai ia visitá-lo no Água Santa sem dia nem horário específicos. Darei ordem para que ele possa fazer o mesmo aqui.

Depois pediu que eu me despedisse do Humberto e me entregou a dois funcionários, que me levaram até o almoxarifado. Deviam ser oito e pouco da noite. De novo corredores escuros e portas de ferro foram abertas e fechadas às minhas costas. Num certo momento, comecei a ouvir a algazarra dos pavilhões. Tínhamos chegado a um portão de ferro, com mais ou menos três metros de altura por cinco de largura. No meio tinha uma porta que dava passagem para uma pessoa só. Ao ultrapassá-la, comecei a ouvir todo tipo de barulho: vozes, risadas, rádios, TVs etc. Andamos mais um pouco e paramos em frente a uma porta de madeira trancada com chave comum, com a placa Almoxarifado. Era uma sala grande, com muitas prateleiras cheias de pacotes beges amarrados com barbante da mesma cor. O funcionário, atrás do balcão, pediu minha maleta. Entreguei e, poucos minutos depois, recebi de volta camisas, jeans, material de limpeza, dois lençóis e um cobertor, tudo do próprio presídio. Pediram, então, para que eu tirasse a roupa e examinaram tudo minuciosamente, me devolvendo em seguida. Um dos guardas, que estava com a minha carteira, perguntou se eu tinha mais alguma coisa. Após responder negativamente, a recebi de volta, acompanhada da recomendação:

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— Cuidado, esse pouco que tem aí, aqui é muito. Meu nome é Jair. Para suas coisas não ficarem aqui, sábado, após a visita, venha falar comigo e entrego tudo para sua família.

Confesso que não estava entendendo nada do que ele falava, eu estava tão preocupado por parar numa daquelas galerias, que aquilo seria meu mundo, que ele podia falar o que quisesse. Meu nervosismo só não extrapolava porque segurava tudo na cabeça. Não tinha outro jeito de agüentar tamanho medo.

O funcionário me entregou um cartão com meu nome, um número e meu novo endereço: Pavilhão 2, sexta galeria, cubículo 21. Explicou que cada galeria tinha cem cubículos, cinqüenta de cada lado. Em seguida, trancou tudo e pediu que o acompanhasse. Fomos até o escritório onde ficavam os guardas que estariam de serviço naquela noite. Fui apresentado e eles me olharam com risinhos. Olhei para o chão e esperei, fazendo um tremendo esforço para aparentar tranqüilidade. O senhor Jair mandou que um deles me acompanhasse até o cubículo.

O Pavilhão 2 ficava nos fundos e a segunda galeria, no terceiro andar (na verdade, como estava a dois lances de escada do segundo, representava um quarto andar). A cada lance, a escada ficava mais escura e suja. Quando chegamos e entramos na galeria, ela estava com o portão de grades aberto, tive a impressão de que muitos dos internos já dormiam, porque a algazarra já não era tão grande. Os internos que nos viram pararam de falar e olhavam com curiosidade. Fomos caminhando até o cubículo 21, e percebi que alguns deles me saudavam:

— Oi, Doca!

O guarda apontou para um lugar:

— Aí, este é o seu cubículo.

Não entrou; do parapeito passou a mão por dentro procurando um plugue. Como não encontrou, mandou o cara que estava mais próximo chamar o xerife.

— Sou eu mesmo, pode falar.

O guarda pediu que ele me ajudasse e arrumasse uma lâmpada. A resposta veio rápida:

— Esse e a maior parte dos cubículos dessa galeria não tem luz. Mas deixa, tenho velas, arranjei um colchonete emprestado. Pelo jeito vocês não forneceram.

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O guarda nem tomou conhecimento do que ele falou e foi embora. As velas chegaram e o colchonete também. Em poucos minutos o lugar estava sendo iluminado e varrido. Segundo os internos, que se aproximaram e puxaram conversa, todos os cubículos estavam em péssimo estado. O xerife interrompeu o papo e me pediu para entrar (ele queria me mostrar o lugar).

Eu estava abobalhado, se ele não me chamasse ficaria ali, na porta, olhando sem ver e escutando histórias sem entender. Três por três, um buraco no chão para as necessidades — o boi —, um cano que, tendo água, era o chuveiro, e uma janela de dois palmos por dois. Ele levantou a vela para eu olhar melhor. As paredes, que provavelmente deveriam ser amareladas, estavam de várias cores. Havia pequenos buracos de pregos nas paredes; no teto havia dois fios ligados a um bocal sem lâmpada. Pequenas tiras de tinta penduradas eram o que tinha restado da última pintura, que, por conta da pouca claridade e do balanço da luz da vela, fazia sombras que, olhando de relance, pareciam pequenos morcegos.

Estava tudo destruído, era melhor não continuar olhando. O Baiano me instruiu sobre o horário da água e aconselhou a ter uma lata de bom tamanho sempre cheia. Baiano estendeu o colchonete para mim e disse:

— Descanse um pouco. Se quiser, feche a porta, passe o ferrolho por dentro (era uma porta pesada com uma pequena janela com por-tinhola no meio), mas se preferir vou buscar café e sentar no degrau da sua porta, para conversar um pouco e fumar um dos seus cigarros.

Estendi um lençol, enrolei o jeans que eles tinham me dado para servir de travesseiro e deitei. Ele voltou logo com o café e com o caixote, que serviu de mesa. Pôs um cinzeiro em cima e pegou um cigarro. Começamos a conversar, ele disse que o chamavam de Baiano e estava preso por assalto à mão armada. Já tinha estado na Ilha Grande... percebi que repentinamente interrompeu o que falava. Quando recomeçou, falou olhando para o corredor:

— Acho que o Pira quer falar com você.

Levantei um pouco o corpo e me apoiei nos cotovelos. Um interno se aproximou e falou para o Baiano que eu devia acompanhá-lo. Eu não entendia por que alguém da administração queria falar comigo naquela hora. Perguntei para meu companheiro, que já estava de pé, quem era o senhor Pira e qual era o setor dele.

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— Ele é interno, não discuta e vai ver o que ele quer. — Pela atitude preocupada do Baiano, me levantei e fui ver quem estava na porta. — Esse aí é o Cuca, ele vai acompanhar você.

O camarada olhou para mim e sorriu. Era moreno, magro, 1m 76 e tinha cabelos lisos. Usava uma camisa e um calção desbotados e sandálias de dedo.

— Vâmo, moço, daqui a pouco eles tranca a galeria.

Passei novamente por escadas escuras e entrei na quarta galeria. Era completamente iluminada, toda pintada de branco, o chão encerado, não tinha um cisco. Caminhamos até a metade da galeria. Ninguém prestou atenção nem me saudou. Quando chegamos ao cubículo do Pira, alguns internos que estavam lá conversando se retiraram. Fiquei impressionado, o cubículo era todo branco, tinha uma cama do lado esquerdo da porta, duas cadeiras em frente e uma cortina branca de banheiro, que separava a privada e o chuveiro elétrico do resto do ambiente. Havia também prateleiras brancas a mais ou menos dois metros do chão. Ele estava sentado na cama, assistindo à tv. Do meio do teto, caía um mosquiteiro branco que tomava toda a extensão da cama. Eu estava absolutamente surpreso com tudo aquilo, nem conseguia enxergá-lo direito.

Assim que me viu, abriu o cortinado. Ficou de pé e mandou que me sentasse. Uma figura impressionante, negro da minha altura — 1m 86 —, com um olhar profundo, como se estivesse o tempo todo lendo meus pensamentos. Eu estava me dirigindo para uma das cadeiras quando ele apontou para a cama. Sentei de costas para a porta, com ele na outra ponta.

— Quer um café? — Como aceitei, mandou o Cuca ir buscar no cubículo de alguém. — Então, é muito ruim a sua galeria? Estive lá hoje vendo se dá para ajeitar pelo menos uma privada. Se você quiser, eu mando o Português, que é pedreiro, procurá-lo. Ele sempre tem uma privada para vender. Aqui a lei é a Falange Vermelha, nos dois últimos anos não houve mortes nesta penitenciária. Nossos inimigos não vêm pra cá, vão para outros presídios. Fique tranqüilo e fora de encrenca, que vai cumprir sua pena sossegado. Não vai atrás da conversa do Patrício (diretor), aquilo tudo é falsidade.

Eu só ouvia, não abria a boca, mesmo porque estava preocupado tentando compreender a situação. Em seguida, explicou que aquela era uma cadeia "aberta", quer dizer, os cubículos nunca eram trancados.

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— Só tranca quem tem medo, e essa é uma demonstração que não aconselho. Eu só me tranco para dormir. Vão lhe oferecer uma "faxina", aceite e, se outro funcionário oferecer um outro lugar que você goste mais, não troque, não é bonito isso.

Eu continuava mudo e ele continuou:

— A que horas quer acordar amanhã? — Como não respondi, porque achei que tinha entendido mal, ele perguntou de novo, meio irritado. — Às oito está bom?

Concordei e...

— Vou mandar levar café no seu cubículo, aproveite e combine o preço para ter isso todo dia. Se preferir, pode tomar café na cantina. Daqui a cinco minutos vão trancar as galerias. — Apontou para o Cuca. Leva ele de volta.

Quando cheguei à minha galeria, um guarda estava na "porta de grades", esperando tocar a sirene para trancar. Pelo movimento das escadas, percebi que andar pelas outras galerias era permitido. Voltar para aquela galeria era um alívio, apesar da escuridão e da pobreza do lugar. Eu estava preocupado, quem era aquele camarada?

Que coisa mais estranha, aquilo tudo tinha me intimidado. Quando cheguei ao meu cubículo, Baiano continuava sentado à minha porta. Tinha arranjado uma lata de vinte litros cheia de água e me avisou que no dia seguinte ia tentar desentupir o cano, apontando para um ponto na altura da janela. Se eu andasse rápido, podia tomar banho no chuveiro dele, que era elétrico.

— Anda logo, em dez minutos fecham a água.

Aceitei o convite e fui para o cubículo dele. Fiquei no chuveiro até que a água começou a diminuir. Foi um bom banho, mas não tirei o olho dele e fiquei de ouvidos bem abertos. Na verdade, eu estava muito assustado e me sentia completamente indefeso. Depois do banho, de volta ao meu cubículo, fui até a janela dar uma olhada. Não consegui, uma barata voadora enorme bateu na minha testa. Só compreendi o que tinha acontecido depois que Baiano a matou e disse rindo:

— Não liga, é uma voadora, tem muitas por aqui.

Deitei no colchonete e ele sentou no degrau da minha porta. Eu estava irritado, não tinha entendido a minha visita ao Pira. Perguntei para o Baiano quem era e o que ele poderia querer comigo.

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— É um dos chefes da Falange Vermelha, veio da Ilha Grande há uns dois anos, após uma rebelião entre facções que tinha causado inúmeras mortes. É temido e respeitado até pela administração. — Depois pegando mais um cigarro, continuou. — Ele não gosta de mim, sempre agi sozinho e isso não é bem-visto. Mas não nego, depois que ele chegou acabaram as brigas e as confusões.

Ao terminar a explicação, levantou-se e se despediu espreguiçan-do. Pela primeira vez, reparei que ele tinha uma perna dura e caminhava mancando.

Levantei-me, fechei a porta e passei o ferrolho. Deitei e deixei duas velas acesas achando que elas pudessem me proteger de ratos e baratas. Dormi profundamente, só acordei com as batidas na minha porta. Abri e dei de cara com um camarada que trazia uma caneca de café, um pão com manteiga e o jornal O Globo.

— Meu nome é Baiana, o senhor Pira falou que tem notícia do senhor aí. Ele já leu, pode ficar com o jornal. O senhor tem roupa para lavar? Se quiser, eu lavo para o senhor.

Entreguei minhas roupas do dia anterior e "ela" foi embora requebrando. Mulato, altura mediana, cabelo de índio até os ombros, trinta anos, meio gordo e sempre sorridente. Tomei café lendo o jornal, depois tentei abrir a torneira do cano e, para meu espanto, saiu um fio de água. Como não parou de escorrer, e estava limpa, molhei o rosto, os cabelos e escovei os dentes. Depois, já vestido, peguei o jornal para ler novamente a notícia. "Doca apresenta-se na Frei Caneca para cumprir seus quinze anos de prisão." E continuava contando que às 19h 10 cheguei com meu advogado, Humberto Telles. Informaram também o pavilhão e a galeria em que eu estava.

Depois de ler tudo, resolvi andar pela penitenciária, seguindo o conselho do Pira. Desci as escadas e no segundo lance fui abordado por quatro internos. Só um falou:

— Doca, empresta dinheiro para tomar um refrigerante? — Respondi que não tinha. — Não leva a mal, mas a gente estamos com sede.

Falei que estava tudo bem, que eu entendia. Algumas pessoas passavam por nós e eu percebi que eles desistiram de continuar conversando comigo, então segui meu caminho. A escada era longa e escura, mas cheguei ao térreo. Saí atrás do escritório da inspetoria. Caminhei um pouco, alguns metros apenas, e dei com duas filas. Eram internos esperando

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sua vez nos telefones públicos. Dois orelhões estavam ali, bem na minha frente. Imediatamente entrei na fila. Os presos, assim que me viram começaram a me cumprimentar, alguns até me cederam seus lugares. Quando chegou minha vez, fiz duas ligações: uma a cobrar para Marilena (que devia estar trabalhando, porque ninguém atendeu) e outra para Maria Zélia.



. Ué! De onde você está falando?

Depois de contar sobre os orelhões e de matar algumas de suas curiosidades, pedi que mandasse um colchão, dois travesseiros, lençóis, rádio e TV.

— Não quer mais nada, não? — Ela perguntou rindo.

— Não preciso de mais nada. Diga para Marilena pegar o dinheiro na minha conta e comprar tudo.

Conversamos mais um pouco e desliguei.

Eram três pátios, num prédio construído como se fosse uma ferradura, com dois pátios externos e um interno. O primeiro, logo à direita de quem vinha da administração e ao lado da sala de teatro e cinema, era grande e ladeava os pavilhões da frente. Tinha um campo de futebol de salão. Depois do campo, num dos cantos, havia um lugar reservado ao pessoal que gostava de malhar, com duas barras para ginástica e alguns pesos. Esse pátio era todo ladeado por bancos de concreto. Sentei-me ali e olhei o prédio. A arquitetura era boa, o prédio estava em péssimo estado.

Nunca tinha visto mato e parasita crescer em paredes. Aquelas estavam tão sujas, ao relento e sem pintura havia tanto tempo, que tinham nascido os dois. Das janelas, de vez em quando, caía alguma coisa, que só não acertava na cabeça de alguém porque em volta do prédio, como uma saia, havia um telhado de zinco. Este primeiro pátio dava num muro de mais ou menos cinco metros. Do lado de lá era o hospital penitenciário

Depois do prédio do outro lado, estava o segundo pátio, bem menor e com outro campo de futebol de salão. O terceiro e último pátio era onde ficava a cantina. Era um pátio com um galpão de alvenaria, com umas vinte mesas e bancos de concreto. Depois desse pátio, que também tinha um muro de cinco metros, tinha outra penitenciária.

Esse último pátio ficava entre a administração e o refeitório, bem no meio da ferradura. Como aí estava a cantina e já tinha tocado a sirene da hora do almoço, fiz um lanche conversando com o cantineiro. Comprei chocolates, biscoitos e cigarros e tentei voltar para o meu cubículo.

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Mas me perdi e fui dar em outra galeria. Foi ótimo ter me enganado, porque fui parar numa galeria onde um interno transformou um cubículo em cantina. De lá, saía um cheiro delicioso de filé. Vi que tinha alguns internos esperando com talheres e pratos na mão. Aproximei-me curioso. Tinha um baixinho, gordinho, fritando alguns bifes e falando sem parar. Quando cheguei, aqueles que esperavam me acenaram e abriram espaço. O cozinheiro baixinho ao me ver pegou um prato, pôs um bife pequeno com salada de tomate, arroz e feijão e disse:

— Doca, hoje é por conta da casa, experimenta, vê se lá fora tem melhor.

Me pegou pelo braço, me fez entrar e sentar num banquinho. Realmente estava bom. Dava até para repetir e depois ainda fui contemplado com goiabada e queijo catupiri.

— Meu nome é Antônio, não adianta procurar outra cantina, a minha comida é a melhor.

Na saída, pedi para me ajudarem a chegar ao meu cubículo e fui naquela direção fumando um cigarro e carregando os biscoitos e chocolates que havia comprado.

Quando entrei na galeria, vi o Cuca me esperando sentado na minha porta. Entregou um cadeado com duas chaves.

— O Pira mandou isso emprestado, não deixa mais seu cubículo aberto. — Ofereci um cigarro e convidei-o a entrar, mas ele balançou a cabeça e continuou: — O dr. Patrício está chamando, é melhor você ir logo.

Pra não me perder, ele foi comigo até a administração e apontou a escada que dava na sala do diretor. Bati à porta e uma moça do serviço social, que estava saindo, me fez entrar e aproveitou para me convidar a ir no dia seguinte até sua seção. Agradeci o convite e entrei. Dei de cara com Humberto, que tinha vindo ver se estava tudo bem comigo. Batemos um papo de dez minutos e ele foi embora. Eu ia saindo junto, mas o dr. Patrício pediu que eu permanecesse.

— Então, esteve na cantina do Antônio? — Fiquei espantado, afinal eu calculava que tinha mais de 650 internos lá. — Sabe que esse tipo de atividade é proibida aqui? A gente fecha os olhos, afinal esse pessoal tem de ganhar alguma coisa. Muitos deles têm família.

Depois me mostrou minha ficha, com os dados do Água Santa e do Edgard Costa. A minha permanência nas duas instituições dava quase

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seis meses. Eu não estava entendendo nada. E daí, qual seria a importância de tudo aquilo? Fiquei quieto esperando. Ele continuou:



.— Você tem namorada, não é verdade? Todo interno com mais de seis meses de prisão e que tenha companheira há mais de seis meses também, tem direito à visita íntima.

Aí fiquei interessadíssimo. Ele explicou que precisava de um documento da delegacia de Cabo Frio comprovando os quase três meses que estive preso lá e duas declarações que atestavam que Marilena e eu estávamos juntos havia mais de seis meses. Imediatamente, comecei a pensar em telefonar para Paulinho Badhu em Cabo Frio.

Dr. Patrício tocou uma campainha e apareceu um interno, loiro alto, com uma cara meio abobalhada.

— Zé, manda o Pira entrar. Esse aí, o Zé do Lago, cometeu um crime pavoroso, um dia destes eu conto.

Pira entrou e foi logo sentando. Já estava a par do assunto, e o diretor o orientou a procurar um cubículo em uma das galerias que tinha visita íntima ou parlatório, para que eu pudesse me mudar o quanto antes. Pira sugeriu a quarta galeria, que era a dele. Dr. Patrício não gostou da idéia, disse que ia pegar mal, que deveria esperar alguns meses para eu ir para aquela galeria. Em seguida, Pira me acompanhou até o serviço social. Ele queria ir comigo,porque achava que a encarregada do setor ia encrencar com a rapidez com que o Patrício e ele estavam querendo fazer as coisas para me beneficiar com o parlatório.




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