O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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O Carnaval chegou, e Marilena e eu fomos para Jaboticabal, como no ano anterior. Mais ou menos uma semana depois, o dr. Evandro me avisou que o recurso não tinha surtido efeito e eu precisava ir ao Rio conhecer o dr. Humberto Telles, meu novo defensor.

A reunião com os dois me deixou tranqüilo. Tinha simpatizado com o jeito do dr. Humberto, senti que faria tudo ao seu alcance para minha defesa. No mesmo dia, ele, o dr. Evandro e o dr. Waldemar Machado, um advogado de Cabo Frio, entraram com um agravo contra a decisão da Suprema Corte. Isso atrasaria um pouco mais o julgamento. Não era o que eu queria, mas eles achavam importante ganhar tempo.

O dr. Waldemar Nogueira Machado era um ícone de honradez, um dos mais ilustres cidadãos de Cabo Frio. Quando aceitou cooperar com a minha defesa, em 1979, senti um alívio na consciência. Se ele aceitara convite do dr. Evandro, era porque eu merecia ser defendido.

Estava tudo certo, só não tínhamos falado em dinheiro. Na verdade eu não precisava me preocupar com isso. Se não tivesse dinheiro

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para a defesa e não conseguisse um advogado, já tinha decidido: iria entrar com uma petição no tribunal de Cabo Frio para obter um defensor público. Além do mais, tinha o Paulinho Badhu, que na certa teria alguma idéia.



Depois de algum tempo fui novamente ao Rio, só que desta vez ao escritório do dr. Humberto. Conversamos muito, fizemos as contas e acertamos tudo por uma quantia que dava para pagar, mas não à vista é claro. Assinei várias notas promissórias e voltei para São Paulo. Ficou combinado que nos falaríamos por telefone, para diminuir os custos com a ponte aérea.

O tempo ia passando, as vendas estavam devagar, o Brasil também. Não me acertei com os novos diretores de vendas. Eles não entendiam nada daquilo. Minha produção não caiu, mas meu relacionamento com eles era difícil.

Em 6 de outubro, finalmente, a data do julgamento foi confirmada para 5 de novembro. Queria tanto que marcassem logo a data para acabar com a expectativa, e quando isso aconteceu fiquei angustiado e com medo. O dr. Humberto dizia que tínhamos cinqüenta por cento de chance de repetir o resultado do primeiro julgamento. Eu me sentia culpado, mas não queria nem pensar o contrário. Entendia a luta da família da Ângela e a revolta das feministas. Achava justo pagar por meu crime, mas tinha muito medo.

Fazia planos para o futuro. Se continuasse em liberdade gostaria de ir trabalhar em alguma fazenda em Goiás ou em Mato Grosso. Tinha amigos e parentes com propriedades nesses estados, não seria difícil arranjar isso. O problema seria a Marilena, que não ia querer se separar dos filhos. Eu também tinha esse problema, e também não ia abrir mão dela. Mas isso eram planos para depois da batalha. De uma coisa eu tinha certeza: se fosse condenado, teria direito a recurso e esperaria o resultado em liberdade. Eu não iria fugir. Se fosse preso, paciência. Pelo menos teria a certeza de que um dia tudo estaria acabado. O que eu não sabia era que não é fácil sair com vida de uma penitenciária.

Aqueles últimos meses tinham sido difíceis. A espera era penosa e me deixava nervoso. Os negócios não iam tão bem quanto eu esperava, e mamãe estava pagando as notas promissórias praticamente sozinha. Ela, com dinheiro, era incrível, só não fazia milagre. Algumas vezes atrasamos o pagamento das promissórias, mas o dr. Humbertoera

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cavalheiro, soube esperar. Tinha características diferentes do dr. Evandro. Gostava de agitar a imprensa, e isso me deixava apreensivo. Minha mãe achava que eu não devia me intrometer, ele devia saber o que estava fazendo. Tinha de concordar. Além do mais, que se danasse, iria ser julgado pela segunda vez. Querem fazer reportagem, que façam, é tudo por dinheiro mesmo. O que não é por dinheiro é pela carreira. Respeitava as feministas e a família Diniz, o resto era resto. Tinha perdido o respeito pela maior parte dos seres-humanos. Sou pecador... e os outros? Calúnia não é algo errado?

A uma certa altura achei que devia me afastar por uns tempos da empresa. Tinha receio de fazer alguma grosseria com os dirigentes ou colegas. Não me afastei, é claro. Trabalhei até o último instante, pois precisava desesperadamente de dinheiro. Andava nervoso, mas acho que eles compreenderam e tiveram paciência comigo. Marilena também foi paciente. Entendeu a situação, sabia quanto eu precisava dela. Mulher corajosa, tinha de amá-la. Não fazia a menor idéia de qual seria seu futuro comigo.

A minha angústia era um verdadeiro sinal de alerta. Uma manhã me senti estranho e não sei por que telefonei para o Paulo Badhu, em Cabo Frio. Depois de ligar para vários lugares encontrei-o no fórum. Ele estava lá porque soube que o novo ajudante da acusação tinha conversado com o juiz e estava reunido com o promotor. Até aí tudo bem, era normal, mas uma coisa o incomodava.

— Doca, estou preocupado porque o corpo de jurados é muito estranho. Quase todos moram na cidade há menos de três anos.

Preocupado, liguei para o dr. Humberto. Percebi que, como o Paulo ele tinha achado estranho. Isso aconteceu no dia 8 de outubro e o julgamento seria em 5 de novembro. Como aquilo não saía da minha cabeça, telefonei para o dr. Evandro. Ele já estava a par e disse que não havia o que fazer. O corpo de jurados só mudaria em meados do ano seguinte.

Para não ficar pensando em coisas que eu não podia mudar, decidi que o jeito era trabalhar. Não consegui. Não tinha ânimo de ligar para os clientes e participar de concorrências.

Alguns dias depois, comecei a me preparar para voltar a Cabo Frio para mais um julgamento. Meu amigo Ludovico, mais uma vez, emprestara sua casa na praia do Peró. Ia para lá de carro, com papai e Glória, cozinheira de Marilena.

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Um dia antes da minha partida, após me despedir de todos na Marcas Famosas, fui para a casa de Marilena. Queria passar o dia com ela e as crianças. Apesar de toda a tensão, aquela foi uma tarde feliz. Marilena, seus filhos, Rá e eu. Depois fiz uma sesta e dormi por algumas horas. Como continuei no quarto, todos foram para lá e se aboletaram na cama, que virou sala de visitas. Foram instantes de extrema felicidade para mim. Senti todo o carinho, amor e amizade deles. Só nos separamos lá pela meia-noite, quando resolvi descansar um pouco para depois seguir viagem.



Paramos para comer qualquer coisa e acabamos bebendo muito.

Como o lugar também oferecia quartos para alugar, passamos a noite lá. Pedimos bebida no quarto e continuamos nossa festa. Não falamos no futuro nem fizemos planos para os dias seguintes. Tínhamos combinado que só pensaríamos nessas coisas depois de passar algum tempo juntos.

Naquela noite ela bebeu muito e ficou completamente embriagada. Seu rosto parecia uma uva-passa, todo deformado. Eu também tinha bebido muito, e fui até o espelho me olhar. Mal conseguia ficar de pé. Quando dei com meu rosto me senti mal. Tive um momento de arrependimento que me deixou perturbado. Lavei o rosto e voltei para o quarto. Ângela estava furiosa, porque àquela hora não havia serviço de quarto.

- Tinha vontade de arrancar esse telefone da parede.

Com muito jeito consegui acalmá-la, rindo, brincando e fingindo arrancar e jogar o aparelho contra a parede. Como estávamos, arrumar confusão seria um péssimo negócio. Principalmente se a polícia aparecesse.

Dormimos até tarde, comemos no quarto, pagamos a conta e entramos na estrada novamente, só parando em seu apartamento em Copacabana.

Quando chegamos, estávamos animados e alegres. Tive que arrumar lugar para pôr as minhas coisas. Ela ria muito e dizia que teria de alugar outro apartamento só para guardar meu enxoval, tal era a quantidade de roupa que eu tinha conseguido trazer.

Ficamos mais ou menos uma semana sem sair de casa. Não procuramos ninguém. Amigas de Ângela telefonaram e elas festejaram, mas só por telefone-Tomávamos Veuve Clicquot (a "viúva") com laranja pela manhã e, depois

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ela bebia vodca e eu, uísque. Foi uma lua-de-mel regadíssima. Perdemos completamente a noção do tempo. Ela falou com a mãe uma ou duas vezes. Eu não procurei ninguém, nem o Chiquito. Aquele não era o momento de olhar para trás. Estava satisfeito por estar vivendo com a mulher que amava e por não sofrer a angústia de estar longe dela. Mas não podia pensar ou falar em nada que me fizesse lembrar da minha ex-mulher e dos meus filhos.



Numa madrugada, com fome e sem nada no apartamento para comer, fomos a uma choperia na avenida Atlântica, acho que ficava no Posto 5. O lugar estava quase vazio, mas assim mesmo pegamos uma mesa no fundo. Fizemos o pedido e pela primeira vez falamos no nosso futuro. Ela ia telefonar para Belo para saber de uma casa que tinha mandado reformar e, se não estivesse alugada, ela sempre estaria lá como refúgio. Também queria ir até Búzios, procurar uma casa para passarmos algum tempo e ver se nos ajeitávamos. Eu, por minha vez, precisava de apenas um dia na cidade, para checar se o banco tinha depositado a primeira parcela da minha comissão.

Estávamos assim, divagando e esperando, quando começou uma movimentação atrás de mim. Vozes e gargalhadas. Eram quatro moças que falavam ao mesmo tempo entre si e com o garçom, que aparentemente era conhecido delas. Até mudei de cadeira, porque a mesa era redonda e, como não estava sentado colado à Angela, não entendia mais o que ela dizia. Era divertido vê-las conversando, alegres e despreocupadas. Usavam roupas extravagantes, mas não inadequadas. Afinal, era verão, e o lugar dava de frente para o mar, em plena Copacabana. Estava claro que eram meninas de programa em fim de noite, apenas se divertindo. Depois que começaram a falar mais baixo, Angela e eu retomamos nossa conversa.

Fazia muito tempo que eu tinha planos de morar em Búzios e explorar uma pousada. Se a gente gostasse de lá e encontrasse uma boa oportunidade, seria um bom começo. Ângela pensava diferente. Achava que deveríamos curtir bastante e, se um dia aparecesse um negócio muito bom, poderíamos pensar no assunto. Não deveríamos correr atrás de negócios, deixaríamos isso para o destino. Estávamos abraçados, falando baixinho sobre essas coisas, quando percebemos que uma das moças estava em pé na nossa frente. Ela queria um cigarro, e apontei para um maço que estava na mesa. Ela pegou, agradeceu e disse:

— Você está muito bem acompanhado.

Sorri para ela e convidei-a para sentar com a gente. Era alta, muito branca, olhos pretos, cabelos curtos da mesma cor. Sua roupa também era

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preta. Fiquei preocupado com o convite que fiz, não pelo fato em si, mas porque ali era a avenida Atlântica, Posto 5, caminho para a casa do Ibrahim. Aliás, caminho para a casa de muitos conhecidos. Mas, enfim, estávamos dentro do restaurante e não na calçada.

Nosso jantar chegou, a moça ficou sentada tomando um drinque e conversando. Algum tempo depois, as amigas se levantaram para sair, e uma se aproximou para saber se ela ia ficar mais um pouco. Ela respondeu que dependia de nós; se quiséssemos, poderia ficar. Dissemos que sim. No primeiro momento houve certo constrangimento, porque ela queria saber se estávamos dispostos a pagar o que ela pretendia e para onde iríamos depois. A pergunta era pertinente, afinal, era o negócio dela. Acertamos tudo com a condição de que não tivesse pressa. Queríamos acabar o jantar e o vinho que tomávamos.

De lá fomos para casa, para pegar dinheiro e reforçar a "animação". Só eu subi. Em seguida fomos para um motel e passamos a noite. A moça gostou tanto da gente que nem aumentou a taxa. Na verdade, Ângela não tinha interesse nela. Ficou o tempo todo nos atiçando, queria assistir mais que qualquer outra coisa. Em compensação, a moça ficou louca por ela. Ficamos o dia todo lá, só saímos às sete da noite. A suíte que alugamos ficava em cima do mar, com uma piscina no terraço e outra no quarto. O dia estava lindo, o sol batia em nossos corpos, nos excitando e deixando o ambiente muito sensual. Num momento qualquer, a moça fez um comentário que nunca esqueci:

— Você só está fazendo esse programa porque gosta muito da sua mulher e faz tudo o que ela quer.

Ângela, que estava na piscina e escutou, veio ao meu encontro, me abraçou e beijou muito.

— Eu também adoro ele, e essas coisas não passam de brincadeira. Aquele programa nos animou, e no dia seguinte bem cedo fomos para Cabo Frio e nos hospedamos no Hotel Malibu. Ficamos dois ou três dias praticamente sem sair, pois choveu o tempo todo. Sem ter muito o que fazer, bebemos bastante. Fiquei muito impressionado com a aparência do rosto de Ângela na madrugada, quando estávamos completamente embriagados. Seu comportamento também mudara, e uma hora ela quis sair pelada do hotel, rumo à praia. Estava tão alto quanto ela, mas não tinha a menor intenção de tomar chuva na praia, de madrugada. Percebi que não conseguiria convencê-la, e comecei a abraçá-la e beijá-la. Consegui trazê-la de volta para a cama. Ela ria e se divertia. Perguntou:

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— Você acreditou mesmo que eu ia sair?



No dia seguinte tentamos ir até Búzios, mas encontramos tanta lama que desistimos. A noite, continuou a chover, então resolvemos voltar para o Rio. Quando parei para abastecer, na hora de pagar, dei por falta da minha pasta. Na mesma hora lembrei que a havia esquecido embaixo da cama. Era uma pasta pequena, menor que uma bolsa, e estava sempre comigo. Guardava documentos, algum dinheiro e meu revólver. Essa pasta estava sempre ao meu alcance, ou na mesa-de-cabeceira ou debaixo da cama. Comecei a usá-la e a carregar uma arma no final dos anos 60, quando trabalhava no Banco Finasa de Investimentos. Naquela época, quem fechava os negócios também liqüidava a operação. Estava sempre com dinheiro. Voltamos para pegar a pasta e retornamos para o Rio.

Na estrada, Ângela começou a falar de uma viagem de navio que tinha feito com um camarada que eu conhecia. Disse que, além de rico, bonito e influente, ele era bom de cama. Mas, quando chegaram à Europa, ela se encheu dele e voltou. Ouvi aquilo sem abrir a boca. Já conhecia a história, contada pela outra parte. Não entrei no mérito da questão, se era verdade ou não. Mas fiquei muito bravo. Parei o carro, tirei-a lá de dentro, arrastei-a até a frente do farol e então pedi que me poupasse, que não me contasse seus casos anteriores. Antes de retornar para dentro do carro, segurei os ombros dela com firmeza e perguntei se ela havia entendido. Ela me abraçou e sussurrou que me amava. Entrou no carro, abriu a bolsa, pegou o papel-manteiga com o que restava de pó e ameaçou jogar fora.

— Não quero mais isso, só serve para atrapalhar.

Segurei sua mão e a impedi. O prejuízo seria grande, já que no dia seguinte teria de comprar tudo de novo. Continuamos a viagem só de mãos dadas, sem nos falar. Houve um momento em que começou a rir e me beijou.

— Já imaginou amanhã, quando percebesse que tinha jogado tudo fora? Quando entramos na avenida Rio Branco o carro quebrou. Chegamos ao apartamento de táxi, e o carro, de guincho.

No dia seguinte, com a ajuda da telefonista, falei com um corretor de Cabo Frio. Pedi que procurasse algumas casas em Búzios. Estaríamos lá mais ou menos em uma semana.

O dia estava ensolarado. O carro tinha tido uma pane boba e já estava na garagem. Tudo nos convidava para ir à praia, depois do café-da-manhã, andar um pouco. Acho que essa foi a primeira vez que saímos durante o dia. Chegamos à uma da tarde e resolvemos estender nossas toalhas

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em frente ao Country Club. Nossa chegada foi uma festa. Ângela conhecia muitos dos que estavam ali, e todos se levantaram para nos cumprimentar. Foi uma tarde agradável, típica do verão carioca. Depois, almoçamos num restaurante ali perto.

Chegamos em casa quando o sol estava se pondo. Precisei deitar. Não me sentia bem, estava com arrepios. Ficamos em casa aquela noite. Tratei de descansar para ficar logo em forma. Na manhã seguinte já estava bem, e o dia continuava lindo. Fomos almoçar com um amigo de Ângela no Marimbas, um clube no final da avenida Atlântica, no Posto 6. Ficamos com alguns amigos dela, conversando e bebendo, olhando a piscina e a praia. A localização do clube é privilegiada, de frente para a praia de Copacabana. De lá se vêem toda a praia e toda a avenida Atlântica.

Eu tinha parentes na cidade, mas não os procurei, porque não havia tido tempo nem vontade. Mas ali, olhando a piscina, vi um rapaz que só poderia ser filho de minha prima Maria Zélia. Eu o reconheci porque era a cara do pai. Fui falar com ele, e realmente era o filho da minha prima. Apresentei-o para Ângela e para os outros, e aproveitei para mandar abraços para toda a família. Sabia que deviam estar querendo saber de mim e que dariam notícias minhas para os familiares de São Paulo.

A noite, senti arrepios novamente. Não dei bola, e fizemos nosso programa preferido: ficamos no quarto bebendo e namorando. Pela manhã, Chiquito telefonou e contou os últimos bochichos: meu sogro tinha mandado queimar tudo o que o lembrava de mim e tinha proibido que mencionassem o meu nome. Conversamos um pouco sobre meus negócios, e pedi a Chiquito que preparasse uma procuração para que ele pudesse assinar por mim.

Acho que era fim de semana, porque depois da conversa séria e chata convidei-o para passar alguns dias conosco. A resposta dele foi ótima:

- Puxa, até que enfim. Daqui a cinco horas estou aí.

Arranjamos tudo para a chegada dele, até uma amiga de Ângela para fazer companhia. Combinamos um jantar na noite seguinte com algumas das pessoas que estiveram na praia conosco. Seria em um restaurante da moda, em Ipanema.

Chiquito se atrasou e chegaria só no dia seguinte. Assim, fomos novamente à praia e estendemos nossas toalhas no Posto 12, onde não havia ninguém da nossa turma. Depois fomos almoçar num restaurante na rua Bartolomeu Mitre e encontramos montes de conhecidos. Inclusive uma amiga de infância minha, a Xinha, que acabara de casar. Senti arrepios

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novamente e, apesar de o almoço estar divertido, voltamos para casa. Além disso, o Chiquito devia estar chegando.



Quando entramos no apartamento, Chiquito já estava sentado na sala com um copo de uísque na mão. Ainda que se conhecessem havia pouco tempo, Ângela e ele se davam bem. Ela abriu a mala dele e procurou um shorts, uma camiseta e o obrigou a "acariocar-se". Estava alegre por estar com meu irmão e amigo. Mas tive de deixar os dois conversando. Não me sentia bem e fui descansar um pouco.

Não sei quanto tempo dormi, mas, quando acordei, Ângela, uma amiga e Chiquito estavam prontos. Só esperavam por mim. Continuava com arrepios, e falei para a Ângela que gostaria que ficássemos em casa. Chiquito e sua amiga iriam sozinhos, afinal, a amiga fazia parte do grupo que nos esperava. A reação dela me surpreendeu. Não foi nada de mais, mas me desapontou. Sugeriu que eu descansasse mais um pouco e, se não melhorasse, ela os acompanharia, pois não estava com vontade de ficar em casa. Nem descansei. Tomei um banho bem quente, duas aspirinas e acompanhei o ritual com uma "carreirinha". Fiquei ligadão. Se eles estavam embalados, eu os tinha alcançado. O jantar foi ótimo, alegre, uma tremenda bagunça. Estavam algumas pessoas da praia e um casal que era amigo do Ibrahim e que estivera duas vezes na fazenda comigo, Leopoldo e Mari. Os arrepios ameaçaram me incomodar, mas bebi mais, comi bem e fui cheirar no banheiro algumas vezes.

O jantar continuou noite adentro. A certa altura, ninguém mais estava em seus lugares, e os amigos do Ibrahim vieram sentar ao meu lado. Queriam saber tudo da minha nova vida. Quando dei por mim, só restava nossa mesa, e todos resolveram ir embora. Mas ficou combinado que, se o dia continuasse bonito, nos encontraríamos na praia.

Assim que chegamos ao apartamento, Chiquito se trancou com a nova namorada no quarto de hóspedes. Ângela trouxe um uísque para mim e uma vodca para ela. Ela riu muito da pressa do Chiquito em enfiar-se no quarto com a moça.

A noite tinha sido divertida, e eu tinha agüentado bem a madrugada. Mas tinha ficado chateado porque Ângela não havia dado importância ao meu mal-estar. Devo ter apagado. Quando acordei, estava com uma bandeja enorme do meu lado, com um baita café-da-manhã, acompanhado de um scquot geladinho, para reanimar. Talvez eu estivesse muito sensível naquele momento da minha vida e esperasse demais de Ângela, porque reparei que

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ela nem lembrou do meu mal-estar. Em compensação, tinha preparado ela mesma aquela bandeja e me encheu de beijinhos. Mais tarde, nós quatro fomos para a praia. O dia estava lindo e alegre. Para ficar à vontade e combater os arrepios, que continuavam, tinha usado o mesmo método da noite anterior: um bom banho, duas aspirinas e um pouco de "alegria".

Boa parte do pessoal do jantar apareceu e, depois de algum tempo tomando sol, alguém sugeriu que fôssemos ao Country Club. Assim que chegamos à piscina do clube, Chiquito viu um pessoal jogando gamão. Pediu um tabuleiro e disse que ia me ensinar a jogar.

Não mexemos as pedras nem os dados, só ficamos conversando sobre nós. Ele disse que não tinha tido um minuto sequer para batermos um papo.

— Pô! Esse pessoal não pára. Que gente agitada. A menina é um tesão, mas não parou de falar um minuto.

Na verdade, ele queria saber como eu estava e tudo o que tinha acontecido desde a minha saída de casa, da empresa e de São Paulo. Percebi que Ângela se aproximava e fiz um sinal para Chiquito esperar. Ela chegou, sentou-se na minha cadeira e, me abraçando, perguntou se eu gostaria de ir a Petrópolis mais tarde. Se topasse, iríamos lá pela meia-noite, com o Leopoldo e a mulher dele. Convidamos Chiquito e insistimos para que ele fosse com a gente, mas ele já tinha se programado para voltar naquela tarde.

Quando Ângela se afastou, retomamos a nossa conversa e perguntei sobre meu cunhado e meu outro sócio, o Caio.

— Parece que seu cunhado andou procurando o Caio, para saber a respeito de umas notas promissórias. Quanto ao resto, depois que você veio para cá, ficou tudo como estava. Se você não voltar as duas empresas vão fechar as portas.

Conversamos sobre coisas sem importância, e ele quis saber se eu estava feliz, como era a vida no Rio e quais os planos para o futuro. Falei a verdade: estávamos só curtindo. Ele me olhou nos olhos por um longo tempo.

— Você está meio travado. Se precisar, vai passar uns dias comigo em São Paulo.

Depois do almoço passamos em casa para pegar as coisas do Chiquito e fomos com ele até o aeroporto. Na volta, parei numa farmácia para comprar aspirina e um termômetro. Quando Ângela me abraçava no elevador, achou que eu estava muito quente e, assim que entramos no apartamento, pôs o termômetro na minha boca. Enquanto ela abria o chuveiro para um de nossos programas preferidos, tomarmos banho juntos, vi

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Que estava com 39 graus de febre. Não me preocupei, nos dois últimos dias tinha tomado muito sol e, com esse negócio de ar-condicionado no carro e o quarto, achei que era apenas um resfriado. Tomei aspirinas e, durante o banho, combinamos ir para Petrópolis só na noite seguinte. Depois, entrei na cama sozinho e fiquei esperando a febre baixar. Ângela foi para o quarto onde Chiquito tinha ficado e telefonou para a empregada do Ibrahim.



Depois de meia hora, fui surpreendido pela campainha. Era a empregada do Ibrahim. Trazia um gravador. Eu quis saber do que se tratava e o que aquele gravador estava fazendo ali. Ângela ria, ao mesmo tempo que dava uma gorjeta enorme para a moça. Continuou olhando para mim, rindo e pondo a fita no gravador.

— Eu sempre soube tudo o que ele falava. Já dei um dinheirão para essa empregada. Pensa que não sei da loira? Muito esperto, ele só falava com ela do jornal, pois desconfiava que a empregada me passava informações.

Já sabíamos que ele tinha telefonado para a mãe de Ângela e agora íamos ouvir a conversa. A gravação era mais ou menos assim: "Esse homem só se dá com mulher rica. Sua filha vai ficar sem um centavo, ele se uniu a ela de olho no dinheiro".

Confesso que não fazia idéia de que Ângela tivesse tanto dinheiro, e por isso não levei a sério a fita. O Ibrahim, a mãe e quem mais quisesse podiam acreditar naquilo, não fazia a menor diferença. Mas Ângela ficou muito brava, ligou para a mãe e pediu que não atendesse mais seu ex-companheiro. Depois ligou para alguns amigos jornalistas, para dizer que o Ibrahim era mau-caráter e estava tentando desmoralizar a gente. Pediu para publicarem que estávamos felizes e íamos viver em Búzios. Ela estava tão brava que nem ouviu meus argumentos. Era melhor deixar quieto e não dar notícias. Na verdade, eu estava preocupado com os arrepios. Apesar de a febre ter baixado com a aspirina, tinha a impressão de que os arrepios haviam aumentado. Depois da praia não tinha bebido nem usado nada. Tinha de me alimentar bem. Ângela estava com a mania de usar um serviço de entregas que tinha aparecido na época. Liguei para lá, escolhi o restaurante e pedi um jantar para dois, que mandei trazerem para casa.

FINALMENTE, A POUCO MAIS DE DUAS SEMANAS DO JULGAMENTO, cheguei a Cabo Frio. Fui de carro, com papai e Glória, e durante a viagem

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, para relaxar, enchi a cara de uísque. Não pude ir direto para lá, tive de passar no escritório do dr. Humberto, no Rio, pois ele tinha reunido a imprensa para uma coletiva. Foi tudo bem, respondi a tudo o que perguntaram e saí correndo. Ainda tinha de buscar Maria Zélia, estava muito cansado e não queria guiar à noite.

Chegamos todos bem no Peró. Antes de tirar as coisas do carro, fomos ao hotel do outro lado da rua para jantar. Lá era também nosso centro telefônico, porque telefone era a única coisa que a casa do meu amigo não tinha — ainda bem! Só falava com quem eu queria e quando eu ligava. Se bem que mamãe, que chegaria dez dias depois, e Marilena sabiam o número do hotel. Desde a época do primeiro julgamento tínhamos um bom relacionamento com Hebe e Eduardo, os proprietários do hotel.

Depois de mais ou menos setecentos quilômetros de estrada e uma entrevista com um monte de jornalistas no centro do Rio, estava exausto. Não queria pensar no dia seguinte. Estava irritado e com raiva do dr. Humberto, que contra a minha vontade tinha marcado uma entrevista com a Rede de Televisão. Seria no fim da tarde e, segundo ele, era para me ajudar. Que merda... quando o pesadelo ia acabar?

Como o dia amanheceu feio, fui com a Glória fazer compras na cidade. Queria aproveitar que os habitantes ainda não sabiam da minha presença. Depois procurei o dr. Waldemar Machado, que me recebeu cerimonioso como sempre. Alertou-me sobre dois fatos que o preocupavam: o corpo de jurados e as feministas.

Em seguida, fui à casa do psiquiatra Ivo, meu amigo. Não o encontrei, o que foi uma pena. Queria que ele estivesse presente na entrevista com a Rede de Televisão.

O pessoal da TV apareceu no fim da tarde. Eram tantos aparelhos e técnicos que nos assustaram. A entrevista foi uma barra. Fizeram perguntas incríveis, mas respondi a todas. Quando assisti ao programa alguns dias depois, percebi que pegaram frases daqui e respostas dali, de maneira que mudava o sentido do que eu havia dito. Quer dizer, uma montagem.

Uma das perguntas que respondi com raiva foi:

— O que você achou do carnaval montado no seu primeiro julgamento?

A resposta saiu de bate-pronto:

— Ué, foram vocês que promoveram.

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A pergunta e a resposta não foram para o ar. Só apareceram perguntas que me complicariam, montadas com cenas da mãe da Ângela chorando e dizendo que queria justiça. É claro que ela tinha razão. Eu no lugar dela faria o mesmo. O que mais uma vez eu não entendia era que montaram um tremendo aparato para a gravação e a apresentaram toda cortada, algo que deveriam ter vergonha de fazer. Não era mais fácil pegar antigas entrevistas e montá-las no estúdio? Após a entrevista, o dr. Humberto apareceu,«acompanhado de sua esposa. Eu estava de mau humor e sem a menor paciência de conversar com eles, depois de tudo que ele tinha me arranjado.



Não tive tempo de reclamar, porque em seguida chegou o dr. Evandro, trazendo uma montanha de livros. Ele tomou a palavra, dirigindo-se principalmente a papai e Maria Zélia:

— Desta vez, em vez do memorial descritivo, vocês entregarão aos jurados o último livro que escrevi, que contém o primeiro julgamento inteiro.

Depois de explicar como deveriam proceder, o dr. Evandro aceitou mais alguns drinques e foi embora. O dr. Humberto continuou em casa, tomamos muitos drinques a mais. Ele contou algumas histórias de júris dos quais tinha participado. Foi muito espirituoso e rimos muito. Foram momentos agradáveis, e uma ótima oportunidade para conhecê-lo melhor.

Eu estava completamente exausto. Precisava de um dia de sol, andar na praia, muitas vodcas, banhos de piscina e muitos telefonemas para Marilena. Fiz tudo isso no meu terceiro dia na cidade, e comecei a me sentir melhor. Afinal, em dezoito dias seria julgado novamente e precisava estar descansado. É... mas nem tudo é perfeito. No começo da noite, Paulinho Badhu veio me visitar. Estivera com o juiz e o promotor, e a conversa tinha caminhado para uma tentativa de acordo. Se conseguíssemos isso, eu seria condenado apenas a seis anos, e ele achava bom negócio. Não gostei da idéia, a palavra condenado era proibida. Não que eu quisesse sair impune, nada disso. Eu tinha medo. No dia seguinte, telefonei para os advogados e expus os planos do Paulinho. Ambos acharam que era bobagem — o tempo provaria o contrário.

A espera continuava, mas agora era o contrário: a data se aproximava rapidamente. Papai e minha prima estavam entregando os livros e eu fazia o que podia para não pensar em nada. Não era fácil. O Ivo chegou com equipes da Bandeirantes e da Record. Que fazer... dei as entrevistas.

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Como é que poderia negar algo para um amigo como o Ivo? Devo muitos favores a ele e ao Paulinho. Mas que foi um pé no saco, foi.

Quanto mais perto estávamos do julgamento, mais espaço eu ocupava nos jornais e mais repórteres havia em frente da casa e em cima do muro. Os jornais anunciavam que um grupo de mulheres de Cabo Frio iria se juntar a um movimento do Rio e de Belo Horizonte, e todos se concentrariam na porta do tribunal, no dia do julgamento. O jornal O Globo informava também que eu estava na mesma casa na praia do Peró com minha família e com uma nova mulher, cujo nome eu escondia. Puro veneno. Por que será que mentiam? Estavam fartos de conhecer todos os que faziam parte da minha comitiva. Era a mesma do julgamento anterior, e sabiam muito bem que a mulher que estava lá e que visitava os jurados com meu pai era Maria Zélia — minha prima.

Os periódicos informavam também que um novo advogado, ajudante da promotoria, iria visitar os jurados para distribuir um memorial. Engraçado... esse mesmo advogado, na véspera do primeiro julgamento, criticou esse tipo de procedimento. Argumentara que estava em "desuso". Outra notícia estranha trazia declarações que, segundo diziam, eu havia dado a uma rede de TV alemã e que não correspondiam à verdade. Segundo o jornal, eu declarara aos alemães que o "que vai ser julgado amanhã será minha honra". Onde será que o Jornal do Brasil foi buscar isso? Gostaria de ver a gravação. Por que mentiam tanto? Na mesma página, outra notícia fora de propósito: "Condenação o levará direto para a prisão". E essa informação, quem deu? No mínimo, um ignorante na matéria. Eu tinha direito, se condenado, a entrar com recurso para anular o julgamento. Até que o recurso fosse julgado, eu estaria em liberdade.

Nos dias anteriores ao julgamento, fui tão assediado, dei tantas entrevistas, que andava meio zonzo. Um ou dois dias antes de ir para o tribunal, estava descansando no meu quarto quando escrevi meia dúzia de linhas: "Estou a poucas horas do segundo julgamento. Não consigo fechar os olhos e descansar. Vejo holofotes eflashes, sinto como se continuassem a me entrevistar. Daqui a dois dias e uma hora, começa o julgamento. Que Deus me perdoe e me ajude".

Depois disso, fui para o bar. Precisava de algo forte. Estava muito nervoso, não conseguiria dormir. Servi uma boa dose de uísque e sentei-me numa poltrona, ao lado de um monte de jornais e revistas. Já tinha lido o que estava em cima. Remexi um pouco e achei uma revista antiga.

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Comecei a folhear e dei com uma notícia que já tinha me chamado a atenção. Um crime de rua, no qual um cidadão matou o outro, praticamente sem motivo. Foi resolvido em 56 dias, com absolvição. Segundo a notícia, o réu — um pintor cuja obra admiro, por sinal — teve o apoio de um figurão das forças armadas. Preparei mais uma dose.

3 DE NOVEMBRO DE 1981 — HAVIA CHEGADO O DIA. APÓS UMA NOITE agitada, em que mal consegui dormir, fui o primeiro a levantar. A casa estava cheia. Minha mãe, tia Rosaura e minha cunhada May tinham vindo de São Paulo, e aparentemente todos dormiam. Fui pedir para o motorista comprar os jornais, mas não foi necessário. Quando cheguei à copa ele já estava lendo um e havia outros em cima da mesa. Peguei o primeiro, me servi de café e comecei a ler: "De trás dos muros altos da casa em que se encontra, na rua dos Badejos, um homem sairá hoje rumo ao fórum de Cabo Frio. Seu nome: Raul Fernando do Amaral Street, o Doca. A partir das treze horas, ele começará a ser julgado pela segunda vez, pelo assassinato de Ângela Diniz, há cinco anos, na praia dos Ossos, em Búzios. Às vésperas do seu 36º aniversário, a cidade não parou como no julgamento anterior. Num clima de aparente indiferença, a calma é quebrada apenas pela chegada dos grupos feministas e de carros de reportagem. O duelo entre acusação e defesa já não é tão badalado como foi em 1979, motivado pela presença do mestre Evandro Lins e Silva, na defesa de Doca, e de seu discípulo, Evaristo de Moraes Filho, na acusação". Trazia uma foto da Ângela e outra minha. Eram fotos pequenas, a da casa era maior. Ver nossas fotos me fez rezar. Já não acreditava em nada e, depois de anos rezando sem nada sentir, rezei com fé, como se estivesse falando com ela. Pedi perdão e chorei. Senti uma dor profunda e triste. Um sentimento de perda, de culpa, um desespero insuportável.

Fui para o banheiro, tomar banho e fazer a barba. Chorei baixinho o tempo todo. Não queria que meus pais ouvissem, aumentaria ainda mais o sofrimento deles. Se os meus estavam sofrendo, como estariam a mãe e os filhos dela? Enfiei minha cara na água morna do chuveiro até sentir que meus olhos não denunciariam que tinha chorado. Depois fiz uma refeição leve, entrei no carro com meu pai e fui para o tribunal. O resto da família iria depois.

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A uma quadra do fórum, os grupos feministas estavam em plena ação. Sacudiam faixas e estandartes, dava para ouvir o alarido. Dei a volta para entrar pelos fundos, como da outra vez. A excitação daquela multidão de jornalistas era tanta que quase desisti e dei outra volta. Só não fiz isso porque, se arrancasse novamente, atropelaria pelo menos uns dez. Esperei que se acalmassem um pouco para destravar as portas e descer. Não havia seguranças, apesar de o delegado ter declarado o contrário aos jornais. Quando achei que todos estavam mais calmos, desci e fui ajudar meu pai. Não consegui. Fui cercado e agarrado. O tumulto era tão grande que eles também não conseguiam fazer seu trabalho. Depois de muitas cotoveladas e empurrões, cheguei à porta dos fundos do tribunal. Ali havia seguranças, que até aquele momento tinham sido simples espectadores. Só me ajudaram quando cheguei e entrei. Olhei para trás, procurando papai. Ele estava a uns dez metros de distância, eu o vi por cima das cabeças dos jornalistas. Não sei como ele conseguiu, mas logo estava em frente à entrada, junto de mim.

Fui encaminhado pelos seguranças até a sala do júri, onde me mostraram a minha cadeira. Da primeira vez tinha ficado à direita do juiz, agora estava à esquerda. No resto, a visão era a mesma: a sala do tribunal, como da outra vez, estava cheia, abarrotada. Alguns investigadores conhecidos se aproximaram e me apresentaram o delegado, o dr. Eduardo Laranjeira.

Cumprimentamo-nos e eles se afastaram. Em seguida, o dr. Humberto chegou, nervoso, e assoprou no meu ouvido:

— Está tudo arrumado contra nós.

Imediatamente lembrei do Paulinho, que, sabiamente, queria um acordo. Olhei para o Paulinho para analisar sua fisionomia e achei que estava tranqüilo. Tentei me aproximar para lhe perguntar sobre o que o dr. Humberto me dissera, mas o juiz entrou e voltei para o meu lugar.

Depois de dar algumas ordens, começou o julgamento. O sorteio dos jurados foi complicado. Houve muito bate-boca entre acusação e defesa. Não tenho certeza, mas acho que o dr. Humberto chegou a sugerir uma nova data para o julgamento, por achar estranhos os 21 jurados. Se fez isso, foi só para criar um clima, chamar atenção e mostrar seu inconformismo com aquele grupo.

Concluída essa etapa, o juiz me chamou e mandou que eu contasse o que tinha acontecido. Como da outra vez, narrei os acontecimentos.

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Quando terminei, ao contrário do outro juiz, ele me inquiriu por mais trinta minutos. Depois ordenou que voltasse para o meu lugar. A leitura do processo durou oito horas. Como não havia dormido quase nada, e a voz do meirinho tinha sempre o mesmo tom, para não cair no sono interrompi várias vezes, alegando que precisava ir ao banheiro. Além do mais, os holofotes das câmaras de tv estavam incomodando muito. Batiam bem no meu rosto e me deixaram completamente ensopado de suor. O dr. Humberto fez que parassem a leitura e exigiu que as lâmpadas mudassem de posição. Houve algum tipo de conversa com os operadores de TV, e o juiz ordenou meia hora de recesso.

Terminada a leitura, a acusação teve a palavra. Parecia que eu estava assistindo à reprise de uma novela. Foi tudo igual, até as acusações sem prova, as calúnias. Para não dizer que não houve nada diferente, aconteceu um bate-boca entre o promotor e o advogado contratado para ajudá-lo. O promotor negou-lhe a vez, e o assistente só falou na última meia hora. Na defesa, o dr. Humberto e Paulinho argumentaram com maestria, derrubando as mentiras e chamando a atenção dos jurados para o fato de que cadeia não redime, só avilta e degrada.

Após as réplicas e tréplicas, os jurados se reuniram na sala secreta. Quando voltaram, algumas horas depois, a decisão era: culpado, cinco votos a dois. O juiz leu a sentença: quinze anos de prisão. Doeu olhar para meu pai e vê-lo chorar, enxugando o rosto com o lenço aberto, fingindo que limpava o suor da testa. De resto, encarei com naturalidade, sabia o crime que tinha cometido, só não me conformava com as calúnias. Por que não usaram só a verdade? Também achava que deveríamos ter seguido o conselho do Paulinho e ter feito o acordo. Dr. Técio Lins, que estava ao meu lado na hora da sentença, me avisou que caberia um recurso e que eu ia esperá-lo em liberdade. Todos começaram a sair do tribunal. Me preparava para me aproximar do meu pai, quando apareceu o delegado:

— O senhor me acompanhe.

Tinha uma escolta de mais de vinte policiais militares, e no princípio pensei que ele queria me proteger para que não passasse por tudo o que tinha passado vinte horas antes. Mas estranhei quando me enfiaram na parte de trás do camburão e informaram que o meu destino era a delegacia.

Eu estava preso, não tinha sido como Técio imaginara. Agora só me restava resignar-me e enfrentar a dura realidade. Quando chegamos à delegacia,

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os repórteres que nos acompanharam durante todo o trajeto já estavam lá, e comentavam que minha prisão era irregular. Vi que era um prédio recém-inaugurado, apesar de não ter permanecido mais que trinta segundos na calçada. Fui empurrado para os fundos da delegacia, onde ficava a carceragem. O carcereiro, pelo visto, já me esperava e não perdeu tempo:



— Tire a roupa e ponha seus pertences em cima desta mesa. Fiquei só de cueca enquanto ele revistava os bolsos da minha calça e relacionava meus pertences. Em seguida, devolveu minha calça, e fomos para um corredor que dava para as celas. Eram cinco, todas cheias. A última estava ocupada por duas moças, uma delas loira, quase uma criança. O carcereiro fez o trabalho dele sem me constranger. Conversou comigo o tempo todo e, quando nos dirigíamos para as celas, explicou que a delegacia estava hiperlotada. Se permitissem, ele me colocaria com as moças. Quando chegamos à cela delas, paramos e ficamos conversando. A loirinha pegou a minha mão, pôs em seus seios e disse, rindo:

— Já estou ficando louca aqui. O carcereiro balançou a cabeça.

— Essa aí não tem jeito.

E foi me levando de volta para o seu escritório. Deixou-me lá e foi ao cartório, ver se eu já podia ser fichado. Fiquei esperando mais de uma hora. Um dos presos me chamou para pedir um cigarro e dizer que achava que eu ia ficar naquela cela. A cela era menor que a da antiga delegacia. Tinha seis beliches de alvenaria, três de cada lado. Dei o cigarro, conversei um pouco e voltei. Fiquei no corredor, não queria ficar sozinho. Ali pelo menos ouvia a algazarra dos detentos. Quando o carcereiro voltou, pediu que o acompanhasse e devolveu meus pertences:

— Você é sortudo. O juiz mandou soltá-lo e teve a maior discussão com o delegado.

Peguei minhas coisas, vesti a camisa, que me devolveram naquela hora, e fiquei esperando o delegado me chamar. Como ele demorava, fui até a cela das moças. A loirinha tirou a blusa e me abraçou através das grades:

— Não estou agüentando, me abraça um pouco. Vou ficar bem encostada em você.

Apesar da situação, fiquei tão excitado que quase topei. Mas o delegado ou o carcereiro poderiam chegar, então saí rápido dali. Deixei com ela e com os presos o maço de cigarros e todo o dinheiro que tinha comigo. Ao voltar para o corredor, dei com o carcereiro, que entrava

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Com minha cunhada e com papai. Estavam indignados por eu ainda star lá, mesmo depois da ordem de soltura. Mas nada acontecia, e eles foram embora, deixando dinheiro, um maço de cigarros e o carro com motorista à minha espera.



Enquanto eu aguardava, pedi que me comprassem refrigerantes e sanduíches, que dividi com os presos. No final do dia, o delegado mandou me soltar. Os policiais me acompanhavam até a saída, mas quis me despedir do delegado. Fiquei pelo menos cinco minutos esperando que ele me atendesse. Demorou para levantar a cabeça e me olhar. A sala estava cheia, e eu disse:

— Fiz questão de me despedir do senhor, porque quero que saiba que saio sem ressentimentos. Sei que estava cumprindo seu dever, como sei também que enganos acontecem.

Estendi a mão e ele a apertou. Avisou que eu deveria ir para o fórum, porque o juiz queria ver se estava tudo bem comigo.

No fórum, quando me viu, a secretária do juiz sorriu e imediatamente me introduziu na sala do juiz. Ele estava sem a toga, e parecia amistoso.

— Queria saber se o senhor foi maltratado ou se houve algum tipo de violência nessas horas que passou na delegacia.

Respondi que achava que o delegado tinha entendido mal e cometera um engano, mas nem ele nem ninguém havia me maltratado. Saí e me despedi dele e da secretária, que me acompanhou até a porta. Ela fez um comentário mais ou menos assim:

— Achei a sentença muito pesada.

Aquela etapa estava terminada. Queria ir para a casa no Peró, encontrar minha família e tomar um banho acompanhado por um uísque duplo. Ao chegar em casa encontrei minha família em pé de guerra. Estavam superestressados, exaustos, e discutiam por bobagens. Fiz meu drinque e fugi para a casa de hóspedes. Abri o chuveiro quente e sentei no chão, como um buda que pensasse sei lá no quê. Só estendia a mão Para pegar o copo e dar mais um gole, que descia queimando. Saí dali quando o aquecedor da casa não deu conta e a água esfriou. Fui direto Para a cama. No dia seguinte, como da outra vez, enfiei minhas coisas no carro e fui com minha prima para o Rio, deixando minha família e seu estresse para trás. No final da viagem, o motor fundiu, mas consegui um guincho e assim cheguei à rua Sá Ferreira, em Copacabana.

Resolvi passar dois dias lá e pedi à Maria Zélia que convidasse

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l VIAGEM DE VOLTA TINHA SIDO COMPLICADA, MAS ACABOU BEM. Eu

estava em Copacabana, na cobertura da minha prima, tomando chuveiradas no terraço e me deitando na espreguiçadeira, esperando o sol secar meu corpo, para depois começar tudo de novo. Aguardava Mari-lena, me sentia seguro naquele lugar, já que a imprensa não o conhecia. Descansaria dois dias e voltaria de avião para São Paulo, onde pretendia recomeçar a trabalhar imediatamente. Não acreditava que o recurso impetrado me livraria da cadeia. Além do mais, outro julgamento enlouqueceria todo mundo. Precisava trabalhar muito para aumentar minha conta bancária. A prisão já é um inferno, sem grana, então, era melhor morrer.

Jornais e revistas só leria algumas horas antes de ir para o aeroporto, não atenderia telefonemas, nem dos familiares. A única coisa que me interessava era não pensar em nada sério. Marilena chegou, e passamos três dias naquele apartamento. Foram três dias de chuveirão, espreguiçadeira, cerveja geladíssima e amor.

No terceiro dia, três horas antes de mim, Marilena foi para o aeroporto. Fiquei lendo jornais e revistas. Atendi o telefonema do dr. Evandro, que me informava estar voltando para o caso e que ele e Humberto já tinham pedido a anulação do julgamento, baseados em irregularidades no corpo de jurados.

As notícias nos jornais e revistas eram as mais variadas. Tinha para todos os gostos. Ao ler, eu ficava triste e descrente de uma grande parte dos jornalistas nacionais. Usavam da calúnia com um descaramento incrível. A verdade não tinha a menor importância. O que era aquilo? Preguiça? É mais fácil digitar uma mentira que perder tempo investigando para saber a verdade? Lendo uma reportagem na revista Veja de 11 11 1981, assinada por Marcos Sá Corrêa e Artur Xexéo, encontrei um comentário sobre a diferença de atitude das pessoas do primeiro para o segundo julgamento: "É irônico que Doca tenha conquistado tanta antipatia precisamente nos únicos dois anos da vida em que foi um cidadão com emprego, salário, hábitos moderados e até um certo cuidado com a própria imagem".

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Se quisessem escrever a verdade, teriam procurado o Ministério do Trabalho para verificar se existia uma carteira de trabalho com meu nome. Se isso desse muito trabalho, poderiam ter telefonado para um dos empresários que escreveram cartas em minha defesa e perguntado em que se baseavam, se tinham feito negócios e trabalhado comigo. Já que não fizeram isso, vou enumerar empresas nas quais trabalhei com carteira assinada: Metalúrgica Matarazzo, Real Transportes Aéreos, no aeroporto de Congonhas", e Diário Popular. Em 1960, de volta dos Estados Unidos, onde estive vivendo completamente dentro da lei (tinha green cará), e só voltei antes do que pretendia porque convocaram todos os imigrantes até 26 anos de idade para o Exército. Voltei, já que, se tivesse de vestir uma farda, seria pelo Brasil. Ao chegar, trabalhei por alguns meses na Concessionária Marcas Famosas e depois, com um amigo, montei a Docars — uma revendendora de carros usados. Em 1964, a convite do dr. Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, fui para o Banco Mercantil de São Paulo e só saí de lá em 1972. Depois dessa época, já casado novamente, montei com um ex-diretor da Finasa, Caio Figueiredo, uma imobiliária na rua Mário Ferraz, onde funcionou também a Brasilos, empresa de construção de pilastras de apoio a pontes, viadutos e prédios.

Se havia reportagens comentando o julgamento, era para torná-lo mais excitante e vender mais, usando de calúnias. Alguns juristas e jornalistas escreveram artigos, mostrando inconformismo com as situações criadas naquele segundo julgamento. Fritz Utzeri, no Jornal do Brasil do dia 7 11 1981, escreveu um artigo intitulado "Quem perdeu foi a Justiça", no qual comenta que eu tinha sido condenado a quinze anos e quase fui linchado, em um ambiente completamente diferente do primeiro julgamento, em que quase fui carregado em triunfo: "Quinta-feira à tarde, em Cabo Frio, bastava conversar com qualquer morador da cidade que conhecesse os membros do júri para saber, imediatamente) que Doca seria condenado. Vários jurados — entre os quais, o mais notório era o pastor protestante Isaac Costa Moreira — já haviam manifestado, em conversas na cidade, uma série de opiniões sobre Doca, a maioria desfavoráveis. Uma afirmativa do advogado assistente do mistério Público antes do início do julgamento dá o que pensar: ele atribuiu à imprensa um papel importante na criação de clima favorável à condenação de Doca. Ora, o papel da imprensa é informar e não criar clima".

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O jornalista Paulo Francis também escreveu num artigo: "Acho que Doca Street foi linchado neste segundo julgamento. Feministas não têm que fazer passeata pedindo condenação de ninguém. A Justiça tem que ser baseada nas leis e não em rancores. O senhor Doca Street tem direito a um julgamento baseado na evidência e não prejulgado pela imprensa e opinião pública, manipuladas pelas feministas".



Nunca me manifestei contra as feministas, não existe uma notícia a esse respeito. É preciso esclarecer que, no primeiro julgamento houve aplauso e cartazes a meu favor, porque o tiro da imprensa saiu pela culatra.

Escreveram, fotografaram e falaram tanto que saí do ostracismo.

EU NUNCA MANIPULEI NINGUÉM. NUNCA ME REVOLTEI CONTRA A VERDADE.

Bom, tinha de voltar a São Paulo, meu carro estava com o motor fundido, vendi-o a um mecânico e fui para o aeroporto. Consegui um vôo que já estava na pista; um funcionário da companhia me levou até o avião. Enquanto a aeromoça fechava a porta e outros funcionários tiravam a escada, virei para procurar um lugar. Ouvi uma gritaria e muitos gestos:

— Doca, vem sentar com a gente.

Houve silêncio e eu tinha certeza que todos me olhavam.

— Vem pra cá, estou com saudades. — Tudo isso aos berros. Eram três amigos: Aparício Basílio da Silva, Ana Cecília Americano e Miriam Gallotti. Que bom que os encontrei, a viagem passou rápido, falamos e rimos muito por quarenta minutos. Nem tive tempo de ficar preocupado com a opinião das pessoas.

VCHEGANDO A SÃO PAULO FUI DIRETO PARA A CASA DA MARILENA.

Queria mais um dia longe de tudo, inclusive da família. Precisava pensar no meu emprego. E foi o que fiz. No dia seguinte, cedo, comecei a procurar a clientela. Só que fazia isso sem consultar o gerente. Passei a vender, contatar as companhias de leasing e levar eu mesmo os pedidos para a fábrica. Tudo com a anuência do diretor de vendas, que, em uma reunião para discutir minha nova maneira de agir (que desagradava à gerência), resolveu tudo em poucas palavras:

— Doca, faça como achar melhor, eu só quero que você venda.

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Com aquela resolução, a Marcas Famosas só tinha de fazer a revido de entrega e entregar os veículos. Quanto a isso eu estava tranqüilo, oficina funcionava como um relógio. Ali só tinha bons profissionais.



O Globo anunciava minha volta às vendas de carros. Contava que tinham tentado me entrevistar e eu os maltratara, chamando o gerente para botá-los para fora. Pior é que foi verdade. Andava irritado, sentia que não escaparia da prisão. Trabalhava muito e ia para casa da Mari-lena. Minha mãe tinha vendido a casa do Morumbi e alugado uma, no jardim Europa. Isso facilitou muito a minha vida, fiquei mais próximo da Marilena e do meu trabalho.

Agora só tinha uma coisa a fazer: continuar a tocar a vida e esperar. Às vezes, na angústia e na insônia da madrugada, tentando escrever alguma coisa, me lembrava do presídio Edgard Costa, do que pensava e da esperança que tinha: "Se ficar um ano solto, vou ficar bem feliz". Já tinham se passado cinco anos e agora a espera era outra: ou teria outro julgamento ou iria para a penitenciária por quinze anos.

Que sufoco... que espera infernal, as coisas que eu escrevia não faziam o menor sentido, irritado, uma noite pus fogo em tudo.

Dias depois, almoçando com meu pai e minhas tias, contei que tinha feito uma grande fogueira com tudo o que tinha escrito depois do último julgamento e tinha me assustado com a quantidade de papel que usara em tão pouco tempo. Minhas tias me censuraram:

— Se você pretende um dia escrever alguma coisa, jogar fora o que escreve de madrugada não ajudará.

Depois disso guardei quase tudo.

Não conseguia mais trabalhar com o novo gerente da Marcas Famosas. Tinha recebido o convite de um pessoal de Porto Alegre para organizar uma equipe de vendedores frotistas. Quem fez o contato foi o diretor de vendas do grupo, que já me conhecia. Não dei resposta na hora, fiquei de pensar, afinal estava esperando o resultado de um recurso que poderia me tirar do ar a qualquer momento.

Não pensei muito. Na manhã seguinte, pedi demissão padronizar e fui vender frotas para a Igapó Veículos. Os clientes não queriam saber qual a empresa que eu representava, já que as vendas aos frotistas só Podiam ser faturadas diretamente pela Volkswagen. Vendi tanto naquele início que nem tive tempo de organizar uma equipe.

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Veio o Carnaval e, como sempre, passei com a Marilena em Jaboticabal, na chácara com a May e o Luiz Carlos. Precisava descansar, não era só a espera do julgamento que me angustiava. Raul tinha repetido de ano e parado de estudar. Eu me sentia culpado por sua desatenção e insegurança. Na volta do Carnaval, procurei meu amigo Gastão e arranjei um emprego para o Raul no Banco Mercantil, mas, para mantê-lo, ele teria de voltar aos estudos. Eu o surpreendi exigindo que pagasse sua matrícula. Se mantivesse o emprego e estudasse, no fim do primeiro ano teria seu dinheiro de volta. Ficou bravo, esperneou, mas cumpriu o trato.



Em 22 de maio de 1982, no aniversário dele, eu lhe dei um Passat velho, mas em bom estado.

Em 28 de junho escrevi: "Três da tarde. Há tempos não escrevo, não tenho vontade e não há novidades. Meus negócios vão bem, apesar de muitas revendas estarem desesperadas e fazendo loucuras para vender. Estamos em plena Copa do Mundo. Alguns jogos assisto com a Marilena, outros, como são realizados no horário comercial, na empresa. Quanto ao recurso... sem novidades. Se não há novidades na Justiça, há novidades no meu coração. Amo Marilena, amo muito. É algo que guardo só para mim, como se fosse proibido, no meu caso, amar de novo. Não esqueci Ângela, nunca a esquecerei, como poderia? Quando penso nela (e isso é constante) tudo dói.



1 7 1982. Amanhã o Brasil joga com a Argentina.

5 7 1982. Brasil desclassificado. O melhor futebol do mundo deixou o povão com o grito de alegria entalado no peito. Não foi desta vez... O tri... isso ficou para outra ocasião.

Por que será que não acredito num resultado favorável se as razões do recurso são verdadeiras? Está provado que três membros daquele júri não deveriam estar lá. Um deles, o pastor Isaac, não tem domicílio em Cabo Frio. Duas outras moças não poderiam fazer parte porque estavam envolvidas com os fatos. Mesmo assim, não sentia firmeza. Será que é porque alguns amigos me aconselharam a esperar a decisão do Supremo fora do Brasil? Eu não faria isso nunca. Precisava ficar perto da minha família e de Marilena.

A Igapó Veículos (a empresa dos gaúchos) ficava no bairro do Pari, era fora de mão para mim. Um amigo me apresentou o dono de uma concessionária ao lado da minha casa, em Pinheiros. Além do mais, quando fui conhecer o proprietário, percebemos que já nos conhecíamos havia muito tempo.

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Agradeci aos gaúchos por ter passado aquela temporada com eles e me mudei para a Iguatemy S. A. Veículos e Peças, pequena e bem estruturada. Plínio Calil e seu sócio Ernesto Colombo sabiam tudo de automóveis. No pouco tempo que fiquei lá, vendemos muito. Sucesso total.

Uma tarde, no começo de outubro de 1982, eu estava na minha sala conversando com o Pérsio, filho de Plínio. Estávamos apenas jogando conversa fora. A secretária me passou um telefonema do Rio, era Humberto Telles. Eu deveria ir para lá. O recurso seria julgado em 48 horas. Sugeriu que eu ficasse hospedado na casa da Maria Zélia (era um endereço que ninguém conhecia), deveria esperar o resultado lá. Gelei, ele me pegou completamente desprevenido. Eu andava envolvido com meu trabalho naqueles dois últimos meses, não tive tempo de pensar em mais nada.

Demorei um pouco para pôr minha cabeça em ordem. A primeira coisa era sair logo dali, antes que o pessoal da imprensa aparecesse. Despedi-me de todos, pedindo que ninguém informasse meu paradeiro. Para todos os efeitos, estava visitando clientes. Foi triste sair de lá sem aquela certeza de estar de volta em alguns dias. Telefonei para Marilena contando as notícias. Perguntei se queria ir para o Rio comigo esperar o resultado. Tinha de ser na mesma hora, não queria dar tempo de me acharem. Ela topou e já começou a se arrumar, porque avisei que em duas horas passaria lá de carro. Depois, liguei para meu pai e tivemos a maior discussão. Foi difícil convencê-lo a não ir também. Dei esses telefonemas de casa, com minha mãe e meu padrasto sentados na minha cama acompanhando tudo. Eles entendiam a pressa, mas também foram pegos de surpresa e permaneciam quietos. Por mais que eu dissesse que dentro de alguns dias estaria de volta, eles tinham o mesmo pressentimento que eu.

Ainda faltava tomar uma providência: ligar para Maria Zélia no Rio, pedir para ela avisar ao zelador que eu iria chegar e ninguém poderia saber da minha presença lá.

Estava tudo pronto para que, se necessário..., quer dizer, se o resultado fosse adverso. Estaria no Rio, onde era pouco provável me procurarem, isso me daria alguns dias para estudar a situação e encontrar a maneira menos traumática de me entregar. Não queria ser preso e ter a imagem explorada. Mais uma vez.

Tinha acabado de fazer as malas, os dois continuavam sentados na miinha cama, lado a lado, de mãos dadas. Olhavam para os pés, meu padrasto

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fazia desenhos no carpete com o bico do sapato. Eu precisava ficar sozinho, na última hora tinha tomado muitas decisões. Agora precisava agir, entrar no carro e partir. Mas antes precisava de um tempo só para mim, meia hora pelo menos. A casa da minha mãe tinha dois andares. Nós estávamos na parte de cima. Deixei os dois ali e fui para o banheiro. Enchi a banheira com água bem quente, depois desci, fui ao bar, tomei um caubói e subi com outro. Queria pensar, como naqueles últimos anos tinha feito tantas vezes. Pensar... tentar entender tudo o que tinha acontecido. Como tinha sido possível? Eu era louco por ela. Nós só queríamos aproveitar a vida juntos, enlouquecer juntos. Às vezes procurava na minha cabeça os nossos planos. Não os achava. A longo prazo não tínhamos. Se nos amávamos tanto por que brigávamos? Eu não estava preparado para ela? Eu tinha lido em algum lugar — vidas vazias.



Não sei quanto tempo durou aquele banho ao uísque, mas não foi muito. Não lavou minha alma, nem o meu passado. Ao sair da banheira me enxuguei e penteei o cabelo sem olhar no espelho. Não queria ver minha imagem, não naquele instante. Fui para o quarto e encontrei os dois sentados na mesma posição. Quando acabei de me vestir, minha mãe me deu um beijo e correu para o seu quarto. Luiz me deu um abraço e eu desci. A emoção era forte, apesar de termos brigado muito a vida toda, éramos bons amigos. Nunca mais o vi, ele faleceu pouco tempo depois. Tenho dele a última imagem: quando cheguei no último degrau da escada e olhei, acenou chorando. Fui novamente até o bar e tomei mais uma. Eu precisava.

Parei na garagem da Marilena e subi. Dessa vez não houve despedidas, ninguém estava em casa. Não quis perder tempo, ajudei com a mala, entramos no carro e seguimos para o Rio. Fomos devagar, conversando. Como se nada extraordinário estivesse acontecendo.

NO DIA SEGUINTE, ELA LIGOU PARA UM CASAL QUE VIVIA EMPetrópolis,, avisando que íamos chegar e nos hospedar com eles.

Às nove da noite estávamos embaixo do apartamento dos nossos amigos e em seguida... Petrópolis, cidade de onde viera a família de meu pai, o único que nasceu em São Paulo. A estrada estava um breu, o casal, assustado com a velocidade que eu dirigia, recomendava o tempo todo que tomasse cuidado.

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Chegando lá, fomos direto para o mesmo restaurante em que tínhamos estado meses atrás. Desta vez não pude curtir tanto aquele lugar agradável, com um ambiente que parecia nos transportar a Paris. Os arrepios não me largavam. Comportei-me heroicamente, não deixando que ninguém percebesse.



Depois do jantar nos despedimos de nossos amigos e fomos para casa do casal que nos hospedaria. Não me lembro do nome deles, mas eram pessoas finas, educadas, nos receberam superbem, em uma casa norme. Tinham aparência de intelectuais, eram um pouco mais velhos e demonstravam alegria em nos receber. Era tarde e não me recordo de ter subido a imensa escada que levava à parte superior da casa, para levar nossa bagagem. Estava começando a me sentir muito mal. Não deixei que percebessem, apesar de não fazer cerimônia com eles, pois eram tão educados que era impossível não ficar à vontade. Fomos para uma sala com lareira beber alguma coisa e conversar. Apesar da hora, estavam acesos. Ela era alta e magra, se movia com muita classe, apesar de estar de pilequinho. Ele também era alto e magro, tinha pinta de intelectual rico. Se estava de pileque não demonstrava. Estava tudo pronto para uma noite gostosa, mas de repente fiquei tão mal que eles perceberam. Sentia frio, muito frio. Foram buscar cobertores, chá e chamaram o pronto-socorro. Fomos os quatro para o quarto que tinham reservado para a gente. Deitei numa cama enorme, de roupa e tudo. Ângela achou meu pijama e começou a tirar minha camisa e calça para me deixar mais à vontade. O dono da casa retirou-se, mas sua mulher ficou e começou a ajudar. Fiquei meio constrangido e olhei para Ângela; como ela sorriu, eu relaxei. Depois de me trocarem e agasalharem com cobertores, me senti melhor e pedi um uísque com aspirinas. Quando essa mistura começou a fazer efeito e eu quis me livrar dos cobertores, o pessoal do pronto-socorro chegou. Dois médicos e um estudante. Fui examinado demoradamente, e disseram que eu estava com um resfriado tão forte que afetara um pulmão. Receitaram antibiótico e mais um monte de remédios e recomendaram uma massagem nas minhas costas. Não era bem uma massagem, eram uns tapinhas com as mãos um pouco fechadas. O dono da casa deve ter ido buscar os remédios, pois ficamos só nós três no quarto, aliás, na cama. Ângela na beira e a amiga, encostada na cabeceira com as Pernas esticadas. Eu me sentia melhor e continuava bebendo. Olhei para Ângela, ela deu uma risadinha e se aproximou como uma gata me dando beijinhos, fazendo cafuné e perguntando baixinho se eu estava melhor.

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A amiga, que olhava aquela cena a pouquíssima distância, pediu que eu virasse de bruços, tirou os cobertores e montou em minhas costas começando a massageá-las. Ângela começou a rir sem parar, porque ela se esfregava muito mais que massageava. Eu me divertia com a situação, que não podia ser mais cômica. Pouco tempo depois o marido chegou com os remédios, mas ela só parou porque tive de virar e me sentar, para poder segurar o copo e tomar aquela batelada de cápsulas de todas as cores.

Com os uísques, as aspirinas e aquele monte de remédios, adormeci Acordei horas depois, enjoado, com Ângela dormindo abraçada comigo. Quase não tive tempo de me desvencilhar dela e chegar ao banheiro para pôr para fora tudo o que tinha ingerido. Ângela veio me ajudar, depois abriu o chuveiro, que por sinal era ótimo, e me enfiou na água bem quente. Poucos minutos depois estava na cama novamente, limpo e me sentindo melhor. Dormimos até tarde e, como acordei bem, saímos para passear. Fomos até o Hotel das Flores, onde já tínhamos estado, passamos pelo Palácio Imperial e pela casa que foi de meu avô, que hoje em dia é uma escola. Entramos em algumas lojas e depois fomos a um bar famoso esperar Leopoldo e Mari. O lugar era enorme e estava repleto de gente tomando caipirinha e comendo acepipes. O prédio era antigo e enorme, muito bonito. Tomei algumas caipirinhas e comi os aperitivos que puseram na mesa. Estava me sentindo bem, sem arrepios ou enjôos. Ângela cumprimentou um casal e cochichou em meu ouvido que tinha sido amante do rapaz. Começou a falar que ele era riquíssimo, mas foi interrompida por mim, que segurei forte em seu pulso e pedi que parasse. Antes que começássemos uma discussão, o casal levantou e veio falar conosco; só disseram alô e partiram. Para esquecermos de vez aquele incidente, dei-lhe um beijo e comprei a rosa que um menino oferecia. Mari e Leopoldo chegaram, tomamos mais algumas caipirinhas e fomos almoçar com nossos anfitriões.

Nós já estávamos vivendo juntos há quase um mês. De uma certa forma eu não tinha nada de que reclamar, estávamos sempre juntos e eu adorava sua companhia, seu corpo, suas loucuras. Mas não me sentia completamente feliz, não sentia uma entrega total da nossa parte. Não sentia firmeza. Tinha a impressão de que podia acontecer algo de uma hora para outra. Não era pelas discussões que tínhamos, quem vivia grudado como nós quebrava o pau de vez em quando. Alguma coisa me incomodava. E o que me deixava mais apreensivo é que eu achava que ela sentia a mesma coisa.

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De Petrópolis fomos quase que direto para Búzios. Só passamos em casa para pegar algumas roupas e o nome e endereço de uma pousada que alguém tinha indicado, a Pousada dos Gravatás. Chegamos, dormimos, e no dia seguinte fomos para a praia dos Ossos, que eu conhecia bem; já tive uma casa lá perto, em um condomínio e nunca a usei, porque vendi quando ficou pronta.

Na praia dos Ossos fui procurar meus amigos, Zé Hugo e sua mulher Maria Alice Celidonio. Provavelmente saberiam de alguma casa boa que estivesse à venda, para visitarmos. Encontrei-os e eles nos convidaram para almoçar um peixe que estavam preparando. No fim da tarde, voltamos para nossa pousada e, como estávamos bem dispostos, abrimos uma garrafa de vodca que trouxemos de nosso estoque e pedimos gelo e água tônica. A partir daí, fizemos o que mais gostávamos: beber, "mandar" e namorar. Lá pelas dez horas resolvemos jantar em um lugar qualquer e, quando estávamos saindo da pousada, demos de cara com o casal Celidonio, que teve a mesma idéia e veio nos buscar. Estavam com uma mulher que eu conhecia de vista, mas era amiga de Ângela. Como fazia tempo que eu não ia a Búzios, pedi ao Zé que nos levasse a um restaurante na praia da Armação; estava com saudades de ir lá à noite. Se bem que estava completamente diferente do tempo em que freqüentávamos aquelas praias, lá pelos anos 1960.

A mudança, na minha opinião, tinha sido para pior, eu tinha conhecido o lugar só com casas de pescadores e de algumas poucas pessoas que tinham descoberto aquele paraíso. Um deles, meu irmão Luiz Carlos, alugou uma casa na Armação por muitos anos e era a casa em que eu ficava. Agora, em 1976, havia um boom imobiliário e era exatamente por isso que eu pensava em ter uma pousada lá. O lugar só ia crescer, e se um dia nos cansássemos de lá, seguramente teria sido um bom investimento.

Nós procurávamos uma casa e tínhamos batido na porta certa, Porque, durante o jantar, o dono da casa, Celidonio ofereceu a casa deles, já estavam lá havia muitos anos e gostariam de vendê-la. Eles não tinham idéia de que queríamos fazer uma pousada e eu tinha certeza de que Ângela naquele instante nem pensava no assunto. Ela se entusiasmou, pois aquele local, naquela época, era o melhor da cidade. Na mesma noite voltamos para casa, e nos dias que se seguiram passamos grande parte do tempo lá. Gostamos da casa, na minha visão dava perfeitamente para fazer uma Pequena pousada no terreno, pois ele era comprido e se estendia até o alto do morro que ficava na parte de trás. Chegamos numa segunda-feira e

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voltamos na sexta, com o negócio praticamente fechado. Ângela compraria a casa e iríamos morar lá. Ela iria providenciar dinheiro vindo de Belo para dar o sinal, e se toda documentação estivesse em ordem em pouco tempo ela seria proprietária daquela casa.



Chegamos ao Rio e no dia seguinte viemos para São Paulo porque assim que entramos em casa, recebemos um telefonema de Chiquito avisando que meu desquite estava pronto e eu deveria assiná-lo em dois dias. Telefonei para Francisco, queria saber se ele me hospedaria por dois ou três dias. Era a primeira vez que Ângela e eu ficaríamos separados. Quando acabei de falar com Francisco, Ângela, que estava ouvindo, me olhava com uma cara marota: — Já imaginou com que cara eu vou ficar se você tiver uma recaída e ficar por lá com sua ex? Eu vou junto. Não vou ficar aqui pensando nessas coisas.

Coincidentemente, o meu advogado e o de minha ex-mulher eram sócios, o que facilitou muito as coisas. Foram duas reuniões com os advogados e nas duas vezes minha ex-mulher esteve presente. Tive de ser durão, já que ela estava muito magoada e queria umas tantas coisas que não cabiam. Tive ímpetos de colocá-la no colo e abraçá-la. Naquele dia senti saudades da correria em que vivia antes de sair de casa. Eu era feliz e não sabia.

Na segunda reunião a separação foi assinada. Quis falar com Adelita, mas, assim que ela assinou os papéis, deu as costas para todos e partiu. Quando saí do escritório dos advogados, na avenida São Luiz, fui a pé até uma loja na avenida São João comprar material de limpeza para minha arma. Fui com Chiquito, que veio encontrar-se comigo para contar as novidades. Fora ele e os envolvidos no desquite, ninguém sabia de minha presença em São Paulo.

De lá, voltei para a casa de Francisco. Encontrei Ângela no corredor da parte de cima da casa, de baby-doll transparente. Quando me viu deu um sorriso e fez sinal para acompanhá-la. Entrou no quarto de Francisco, que estava sentado na cama, olhando uma porção de papéis. Havia também uma bandeja com bebidas e gelo. Fiquei louco da vida. A casa tinha muitos empregados e ela com aqueles trajes tão impróprios, zanzando de um quarto para o outro. Chamei-a de volta ao corredor, acompanhei-a até o quarto em que estávamos e pedi que se vestisse. Ela me olhou com ódio, disse um monte de palavrões e desaforos. Não tive dúvidas, tranquei a porta do quarto, arrastei-a até o armário e exigi que se trocasse e pedisse desculpas. O rosto dela estava desfigurado pelo ódio. Olhou em volta para ver se tinha algo que pudesse usar para me atacar, mas desistiu. Dizia que eu não era dono dela, que se vestia como achasse melhor, que eu era um chato

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queria mandar nela. Achei que ela ia se descontrolar de vez. Segurei-a, ordenei que se deitasse e pedi que se acalmasse, pois não estávamos em nossa casa. Pedi que não continuasse brigando comigo porque a amava. Ela parou de esbravejar, mas seu olhar continuava furioso. Fui soltando-a aos poucos e, quando tive certeza de que ela não ia continuar se debatendo, deixei-a deitada e me afastei, saindo do quarto em seguida. Francisco não estava mais em seu quarto, então desci para procurá-lo. Encontrei-o na sala falando com o garçom.



Ficamos tomando drinques e conversando por muito tempo. Um pouco antes do jantar, quando eu estava sozinho na sala, porque ele se retirou para ir até o quarto, Ângela apareceu, sentou-se ao meu lado e me surpreendeu ao dizer que, como até aquela data só tínhamos rodado de um lado para o outro e não tínhamos tido uma lua-de-mel, enquanto eu batia papo, ela tinha feito reservas no Hotel Tropical, em Manaus. Não podíamos perder tempo, pois as reservas com avião e tudo eram para dali a dois dias, com embarque no Galeão. Tinha escolhido um vôo mais longo, que parava algum tempo em Brasília. Eu continuei durão, ia responder que mais tarde conversaríamos a respeito, mas ela fez sinal avisando que nosso anfitrião retornava. Mudei de assunto e avisei que no dia seguinte iria ao médico, que me conhecia desde minha adolescência. Queria saber por que tinha tido febre e arrepios alguns dias atrás, no Rio e depois em Petrópolis. Jantamos em paz, ela estava alegre e linda. Mais tarde, no quarto, depois de já estarmos na cama, tivemos uma conversa séria. Abraçado com ela e olhando bem de perto seus olhos, podia enxergar sua alma, falei do amor que sentia por ela, do ciúme e do sofrimento que me causava andando quase nua pela casa de nosso amigo. Queria muito viver aquele amor, formar uma família, ter um filho. Sei lá... não queria acabar nosso amor louco, nada disso. Queria viver o amor dos sonhos, a entrega total. Sabia que o ciúme era horrível, mas pedia, por nosso amor, que mudasse de atitude.

Ângela me olhou com tanto carinho e ternura, que eu não tive certeza se era só amor ou se era amor e pena. Seu olhar tão profundo e seu abraço com seu corpo fervendo me fazia viajar. Contive o ímpeto de invadi-la e me Perder. Continuei olhando-a seriamente. Ela sabia o que estava acontecendo, também enlouquecia, mas falou pausadamente que me amava, que queria as mesmas coisas. Que há muito tinha uma vida sem amarras, sem sentido e queria ser feliz. Se eu quisesse, ela pararia de beber. (Não era o que eu queria, não beber não tinha nada a ver com andar quase nua na frente dos outros. Mas não disse isso a ela para não interrompê-la.) Terminou falando

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mais ou menos assim: — Você é diferente de todos que conheci, é puro, sei que me ama, adoro você. — Depois disso mergulhamos um no outro sabendo que a felicidade era aquele instante, e não podíamos perdê-lo. Dormimos juntos na mesma cama, apesar de o quarto ter duas.



No dia seguinte fui ao consultório do professor Edmundo Vasconcelos que, além de ser meu amigo e de minha mãe, era um dos melhores amigos do meu ex-sogro. Contei sobre os calafrios, os remédios que eu tinha tomado. Contei dos uísques, aspirinas e tóxicos. Examinou-me demoradamente e o resultado era uma pneumonia no pulmão esquerdo, curada.

— Você teve tudo isso de pé e farreando, mas está em ótima forma. Depois da consulta, conversamos por algum tempo, contei sobre estar apaixonado de maneira descontrolada, meus ataques de remorso por ter abandonado minha família e os ciúmes que sentia. Ele escutou atentamente e quando me levantei para partir foi comigo até a porta.

— Não posso dizer que tenho saudades das vezes em que me apaixonei; tive sorte, tinha outra paixão: a medicina.

Enquanto estive no consultório médico, Ângela, por telefone, preparou nossa viagem. Quando chegamos ao Rio, as malas estavam feitas, e o vôo e o hotel, confirmados. Dormimos e fomos para o Galeão. Estávamos lá esperando nosso vôo, tomando um cafezinho, quando um amigo do Ibrahim se aproximou. Um escritor que eu tinha conhecido em um dos almoços que o Ibrahim deu. Chegou rindo e disse mais ou menos isto:

— Fizeram muito bem de aprontar com o Ibrahim. Assim ele aprende que não é o tal. — Fiquei muito puto com aquele camarada, eu gostava do Ibrahim. Tive vontade de dizer umas boas para aquele panaca. Mas respeitei o escritor que ele era, disse apenas que Ibrahim era um bom sujeito e o que aconteceu tinha sido uma fatalidade, coisas do destino. Felizmente chamaram nosso vôo, e ele não fazia parte dele.

Ficamos em Manaus cinco ou seis dias. Passeamos de iate no rio Negro, visitamos o Teatro Municipal, nos hospedamos em um hotel lindo e moderno na beira do rio. Mas, na verdade, não foi uma estadia legal. Bebemos muito, uma noite tivemos uma briga feia e tudo escapou de controle. Chegamos a pedir outro quarto para não nos olharmos. Alguma coisa aborreceu Ângela. Talvez o fato de ter ficado decepcionada por não ter encontrado uma amiga de quem gostava muito e da qual viera falando o tempo inteiro, durante a viagem, a tenha estressado. Eu conhecia a moça, se a tivéssemos encontrado, provavelmente teríamos nos divertido muito,

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ela era boa gente e mandava no lugar. Mas isso não aconteceu porque bobeamos, devíamos ter telefonado antes para nos certificar de que ela estaria na cidade.



Em uma tarde estávamos nadando nus, bem à vontade, na piscina enorme do hotel, que estava praticamente vazio. O calor sufocante nos levara a beber muita vodca com laranjada e bastante gelo. Abraçados, como nos encontrávamos, me surpreendeu vê-la sair da piscina dizendo que ia fazer pipi. Andou até o biquíni, vestiu-o e entrou no toalete. Quando voltou para água, rindo e brincando, veio me abraçar. Eu não tinha achado graça no passeio nu e perguntei porque tinha ido nua andando se podia ter nadado até o traje de banho.

- Pára de implicar comigo, não tem ninguém aqui.

Ela sabia que havia algumas pessoas e o garçom estava chegando com mais bebidas. Não levei a discussão adiante, e passamos o resto da tarde e da noite bem. Essa viagem foi esquisita. O ambiente ficou pesado quase o tempo todo.

Retornamos de Manaus e, no mesmo dia, começamos a nos preparar para voltar a Búzios. Ângela estava com preguiça de ir ao cabeleireiro, que ficava no térreo do prédio vizinho. Enquanto eu fazia as reservas e tomava outras providências, chamou a moça que costumava atendê-la e ficou no banheiro, arrumando o cabelo. Como eu já tinha resolvido tudo, inclusive conversado com Chiquito, resolvi limpar minha arma.

Havia tempo que não fazia isso e, apesar de ela estar protegida na pequena pasta, me preocupava por causa da maresia. Comecei a limpar, tirando o pente e as balas que se encontravam nela. Quando puxei a parte de cima, para olhar o cano, levei um susto, havia uma bala na agulha. Não havia a menor possibilidade de ela estar lá, eu era meticuloso demais, quando colocava o pente na arma, não puxava a parte de cima para armá-la. Fiquei muito preocupado, tinha certeza de que alguém mexera nela. Até aquele momento eu estava relaxado, tinha posto uma toalha na cama para não sujá-la e estava ali, distraído com a limpeza.

Fui chamar Ângela, queria falar com ela em particular. Ela estava no telefone e, quando pedi que viesse falar comigo, levei uma bronca.

- Não vê que estou falando com um amigo? Pensa que estou sempre a sua disposição?

Arranquei o telefone de sua mão, mas não desliguei.

- Preciso falar com você, é importante.

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Devolvi o telefone e fui para a sala esperá-la, Se estava assustado com a arma, fiquei mais ainda com a atitude de Ângela. Aquela era uma postura de quem estava de saco cheio. Tomei um caubói e depois me sentei e fiquei esperando e divagando. O que tinha acontecido, algo tinha mudado depois que saí de São Paulo. Retornei de meus devaneios, Ângela continuava firme em sua conversa ao telefone. Eu sentia o ambiente, ela estava brava e não iria desligar tão cedo. Esperei uns quinze minutos para esfriarmos a cabeça e voltei ao banheiro.

Quando apareci na porta, a cabeleireira começou a gritar, seus olhos pareciam que iam saltar das órbitas. Largou a escova e o secador e, encostada na parede, cobria o rosto com as mãos. Não parou de gritar apavorada até eu sair da porta. Não entendi o que estava acontecendo, eu não estava fazendo nada, apenas apareci novamente. Ângela também não entendeu e tentou acalmar a moça, mas ela parecia tomada por um espírito. Demorou para voltar ao normal. Como saí de lá, e voltei para o quarto, não lembro se ela acabou o que estava fazendo ou foi embora e mandou alguém acabar o trabalho.

Estava tudo calmo novamente, só faltava acertarmos nossos ponteiros. Antes de falar da arma, perguntei a razão de seu mau humor. Ela disse que estava pedindo a um ex-namorado que comprasse pó e fumo e trouxesse para a gente, que acertaríamos nossa parte na entrega. Achou que eu tinha interrompido por ciúmes. Preocupado, perguntei quanto ia custar, porque não queria pagar em cheque, mesmo sendo a uma pessoa conhecida.

Em seguida, continuei reclamando de que ela tinha demorado para desligar só de pirraça. Ela ria, também se achava pirracenta.

- Francisco ligou exatamente na hora em que pus o telefone no gancho. Ele tem de vir ao Rio amanhã e queria saber se poderia almoçar conosco. Depois ainda liguei para uma amiga jornalista, a Marisa Raja Gabaglia, e a convidei para jantar, depois de amanhã.

Ela continuava rindo e dizia que, se tinha sido pirraça, tinha sido só um pouquinho.

Em seguida mostrei-lhe a arma e a bala na agulha. Expliquei como eu procedia com armas e perguntei como era possível a bala ter ido parar na agulha.

— E como é que vou saber, nunca cheguei perto daquela pasta.

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