O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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— Vou trabalhar e tocar a vida pra frente.

Aproveitei um momento de hesitação dos jornalistas, corri e entrei no carro onde minha família me esperava. Que alívio... precisava sair dali, estava muito cansado e angustiado. Queria ficar só, beber alguma coisa forte e não pensar em mais nada. Deu um desespero tão grande que no dia seguinte bem cedo pedi à Maria Zélia que fosse embora comigo para o Rio. Queria ficar descansando um dia na casa dela e depois seguiria para São Paulo.

Só comecei a me dar conta de mim mesmo dias depois, refugiado na casa da Marilena, gozando do seu carinho e amor, e da amizade dos seus filhos e do Raul. Precisava retomar meu dia-a-dia e não olhar mais para trás. Muito menos pensar no julgamento, embora isso fosse Praticamente impossível, porque os jornais continuaram com o assunto por mais algumas semanas. Tinham material de sobra. Entrevistaram os jurados, comentavam a atitude da população de Cabo Frio e o inconformismo da promotoria, que, um dia depois do julgamento, entrou com recurso para anulá-lo. A maioria dos jornais criticava a estratégia da "legítima defesa da honra", mas elogiava a perícia do dr. Evandro.

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Não queria saber de nada daquilo. Quarenta e oito horas depois de chegar a São Paulo, comecei a trabalhar. No primeiro dia, saindo de casa, parei no sinal ao lado de um ônibus. Ouvi que me chamavam, olhei e vi dois rapazes fazendo sinal e berrando:

— É isso aí... fez muito bem.

Aquilo mexeu tanto comigo que resolvi voltar para casa. Fui sentar no terraço para dar tempo de pôr as idéias em ordem. Será que estava louco? A casa ficava na parte mais alta do Jardim Everest, em frente ao Jockey. Como ainda era cedo, me distraí vendo os cavalos treinar enquanto passavam pela curva da Vila Hípica. Fiquei ali quase uma hora, pensando na vida e tentando compreender o que estava acontecendo. Logo desisti, não ia entender mesmo... Fui para a Marcas Famosas e retomei os contatos com meus clientes. A sala de vendas não era muito grande. Tinha uma mesa redonda e vários telefones. Era bagunçada mesmo, e aquilo até me animou. Não perdi tempo e comecei a telefonar para minha clientela. Já estava pegando ritmo quando vieram me avisar que do outro lado da avenida haviam montado tripés com câmaras fotográficas.

Esse assédio não durou muito tempo. Um mês depois eu estava levando a vida normalmente. Chamava atenção por onde passava, mas não tinha jeito, eu tinha de sair. Tinha que fazer visitas, dar telefonemas, almoçar com os compradores das grandes empresas. Fora isso, ia ao cinema, ao teatro etc. Uma vez convidei o gerente de compras da Rhodia, Valdemar Ramos, para almoçar no Hotel Mofarrej. Em frente à nossa mesa, estava aquele senhor elegante que me olhara feio durante o julgamento. Ainda me olhava esquisito, e eu não sabia por quê. Também não imaginava que atuaria como auxiliar de promotoria um ano e pouco depois, em um novo julgamento. Não dei bola. Queria olhar? Tudo bem... eu tinha mais o que fazer. Alguns dias depois, ele deu uma entrevista em que disse que eu estava me divertindo com amigos em um restaurante caríssimo, que isso era um absurdo. Será que ele esqueceu que eu estava livre? E não pensou que eu poderia estar falando de negócios?

Já estava acostumado a ataques desse gênero. Mas depois do julgamento começou um movimento encabeçado pelas feministas. Isso eu entendia, e achava que elas tinham todo o direito de ficar indignadas. Eu estava triste e envergonhado, porque admirava muitas delas — profissionais liberais, artistas, intelectuais etc. —, e elas tinham horror àquele nome: Doca Street.

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Que bom que eu tinha o apoio da minha família e da Marilena. Elas seguraram a minha barra. Marilena e eu passamos o Natal e o réveillon em Jaboticabal, na chácara de May e Luiz Carlos.

No começo de janeiro, anotei: "Hoje pus em ordem toda a minha papelada, onde está escrito tudo por que passei, e que comecei a escrever no Ary Franco — Água Santa, no Rio de Janeiro. Muitos fatos ou a maior parte deles estão incompletos. Tenho de achar um tempo para continuar o que comecei. Não sei se valerá a pena publicar isso quando for possível. Outro dia, falando com Jean Louis, ele me dizia que me ajudaria na hora certa, pois tinha amigos editores. Até que seria engraçado, esse pessoal é ligado ao Grupo Folha, do Otávio Frias. Deve ser alguma piada do Jean Louis, o La Tulip. Nesses primeiros dias do ano já aconteceram algumas coisas: o gerente de vendas da MF foi despedido, e com ele foram mais alguns".

A vida continuava, Marilena e eu também. As vendas não iam de vento em popa, mas iam. Marilena e eu voltamos a Jaboticabal para passar o Carnaval. Foram dias alegres, nos desligamos de tudo. Estavam lá convidados de May e Luiz Carlos, familiares da minha cunhada com seus filhos, que, junto com Churchill e Cecília, meus sobrinhos, formavam um grupo alegre, que gostava de esportes. Jogamos tênis, vôlei, nadamos. Fora os almoços e jantares, que eram muito divertidos. Foi a primeira vez que relaxei, ri e brinquei naqueles anos. Não tive tempo de ficar pensando na vida. Quando acabou a festa e todos foram para São Paulo, Marilena e eu ficamos mais alguns dias.

Na época já estávamos muito unidos. No ano e pouco que estávamos juntos, conversamos muito. Muitas vezes abri o coração para contar a minha história e pôr para fora toda a dor e sofrimento. Ela ouvia com paciência, nunca deu um palpite. Graças a seu amor, seu carinho e ao ambiente da sua casa, estava conseguindo caminhar, embora não soubesse onde ia parar. Já tinha passado por um julgamento, e tudo indicava que haveria outro. Aqueles poucos dias juntos, só para nós, valeram muito. Não mexi no passado e não me queixei... Foram dias de amor e passeios de mãos dadas. A situação requeria senso de realidade. Fazer planos era impossível, poderia aparecer uma encruzilhada num estalar de dedos. Acho que o futuro era tão incerto que nem queríamos pensar a respeito.

Logo depois, entrei com tudo no trabalho. Comecei a visitar novas firmas, mesmo sabendo que não devia, pois minha carteira de clientes era grande e já dava muito trabalho. Mas precisava encher o meu tempo.

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Não queria ouvir ou ler os noticiários, que sempre reservavam alguma coisa para mim. As feministas estavam cada vez mais agressivas e, quando eu falava com o dr. Evandro, não percebia entusiasmo na voz dele. Meu irmão insistia para eu ir a um pai-de-santo famoso. Assim eu enfrentava aquela imensa pressão. Ia escrevendo os acontecimentos devagar. Escrevia algumas linhas por semana quando acordava de madrugada, uma página ou pouco mais. Fazia isso apenas na casa da minha mãe, onde eu dormia de segunda a quinta, mas só chegava depois da meia-noite, quando voltava da casa de Marilena. De quinta a domingo eu ficava com ela.

Na época, escrevi: "Já é março de 80, até agora tudo calmo, apesar dos dois recursos que estão em andamento no Supremo Tribunal do Rio de Janeiro. Um para anular o julgamento e outro para mantê-lo".

". Me vejo num mundo que não entendo e considero apenas suportável. Não sei se é a sociedade em que vivemos ou é o conjunto de tudo que me deixa completamente desorientado. De tudo, o que me deprime sempre é o fato de ter matado Ângela. Não há retorno, não posso fazer com que ela viva novamente. E agora? Estou num beco sem saída. Talvez até tenha várias saídas... quais então? O ideal seria, em primeiro lugar, não ter pena de mim mesmo; em segundo, ter bastante dinheiro para não ter que me preocupar com ele.

"Os desembargadores deverão julgar se valerá ou não o julgamento. Quer dizer, é o julgamento do julgamento. Espero e toco a vida. Está tudo razoavelmente bem. Evidentemente se for analisar o dia-a-dia e a falta de perspectiva não dá para ficar às gargalhadas. Eis a razão do desespero (é claro que isso não é o principal).

". Não posso escrever que estou desanimado. Deus tem me ajudado, mas as coisas andam bem esquisitas: greve dos metalúrgicos, reféns americanos no Irã, grandes broncas em San Salvador, fuzilaram o bispo que no ano passado estava indicado para o prêmio Nobel da Paz. Custo de vida no Brasil subindo, subindo... parece um balão. Chega, estou com o saco na Lua."

Às VEZES FICAVA NA FOSSA E ESCREVIA SÓ POR ESCREVER, IA PONDO no papel tudo o que passava pela minha cabeça. A noite, quando voltava da casa de Marilena e ficava sozinho no meu quarto, o sono fugia e as

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recordações, mágoas e problemas cresciam. Era hora de ler e escrever. Não era raro fazer os dois ao mesmo tempo, pois às vezes lia coisas que me lembravam fatos recentes ou passagens da minha vida. Ler era uma maneira de escapar da minha realidade. Pressentia que teria de enfrentar um segundo julgamento. Ao mesmo tempo, os dias não passavam. Precisava saber o que seria decidido sobre o julgamento para nortear minha vida. O dr. Evandro, por sua vez, trabalhava para atrasar essa decisão, por razões que eu- não entendia. Acho que tinha o mesmo pressentimento que eu e queria me dar mais algum tempo. Talvez fosse algo puramente técnico, algo burocrático que estivesse emperrando tudo. A aflição martelava minha cabeça nas madrugadas. Quando o dia amanhecia e chegava a hora de trabalhar, estava exausto. Todos tinham de bater ponto, até os vendedores externos, às oito da manhã. Muitas vezes batia o ponto e voltava para casa. Achava aquilo uma boa estratégia. Punha o meu sono em dia e não ficava com aquela cara na sala de vendas. Se precisasse telefonar, tinha dois telefones na cabeceira.



Em julho de 1980, escrevia sobre o que acontecia pelo mundo. Havia tomado posse o presidente João Figueiredo, substituindo o general Geisel. Tinha simpatia pelo Figueiredo, que assinou a Lei da Anistia, que permitia o retorno dos exilados políticos.

O papa também tinha visitado o Brasil e falado de amor entre os homens. A respeito disso escrevi: "Mas que amor podem sentir os que passam fome? Não conheço política e não sei quais os meios para que o abismo entre o muito rico e o muito pobre diminua. O que entendo e tenho lido sobre a história do homem é que esse problema existe há milênios".

Quando terminava de ler o que escrevia, me imaginava em praça pública, falando essas coisas para defender meu ponto de vista, para lutar por alguma causa. Como seria a reação das pessoas? Afinal, era um gigolô e traficante" que tinha descarregado a arma na amante. Ficava Pensando se algum dia poderia emitir alguma opinião sobre política ou qualquer outra coisa. Dez dias depois voltei a escrever, mas parecia que era o mesmo assunto e a mesma página: "Apesar de tudo sei que ainda sou capaz de sonhar, acho que estou apenas assustado, com medo, triste em olhar para trás e rever minha vida. Tenho que olhar é para a frente, Marilena, Rá, Luis Felipe... saudades, que estarão fazendo a essa hora? Hoje li de um só golpe o livro do dr. Evandro, A defesa tem a palavra.

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As recordações me deixaram meio assim. Sei que vencerei este estado de espírito. Seja lá o que for... é passado".

O dr. Evandro me pediu que falasse com Samuel Wainer, para ele escrever algumas palavras sobre seu livro. Algum tempo depois saiu um texto do Samuel na Folha de S.Paulo, com o título "O último artigo". Samuel faleceu dias depois de conversarmos por telefone. Nesse texto, ele dizia: "O telefonema foi curto e educado: Aqui é Doca Street, como vai? Lembra de mim? Encontramo-nos um dia na casa do Jean Louis. Claro que eu me lembrava. A voz de Doca era a de alguém que envelheceu muito nesses poucos anos. E soava triste, deprimida, mas com um toque ainda razoável de autoconfiança. Falo-lhe em nome do professor Evandro Lins e Silva. Ele foi meu defensor. É grande amigo seu, não é? Desculpe incomodá-lo, é que Evandro acaba de publicar mais um livro. O seu título é A defesa tem a palavra, e o subtítulo é O caso Doca Street e algumas lembranças. Ele lhe pede algumas palavras sobre o livro. É claro que a introdução de Doca seria dispensável. Tudo que Evandro conta e escreve é sempre atraente. Mas, no caso Doca, é especialmente emocionante. Pelo trecho da carta que transcrevo a seguir, embora resumida, espero sintetizar o depoimento do dr. Evandro — que recomendo aos que sabem que a vida se renova a cada dia. A carta é assinada por uma mulher de Recife, Maria do Carmo Barreto Lins. Não tem parentesco com Evandro e parece resumir a média do pensamento feminino sobre o doloroso caso passional de Doca: na realidade a vítima começara a morrer desde que se tornara Pantera. O resultado do júri foi bom. Para Raul não haverá prisão maior do que a que tem no pensamento. Ele não se libertará nunca de si mesmo. Se o tempo retrocedesse com a forma de sofrer agora adquirida pelo gesto que não pôde deter, creio que não faria o mesmo. Ele não se julga herói: é antes um anti-herói, curtido por sofrimento de sonho destruído".

Pantera, eu a amei muito, havia sido muito mais que uma paixão louca. Não há defensor que me redima perante mim. Se não fossem meus filhos, poderiam me malhar em praça pública como Judas, me chamar de gigolô, traficante e muito mais. E daí? Só que tenho filhos, e luto para não transformarem mentiras em verdades.

Curtia minha fossa na solidão do meu quarto. Pegava o que eu havia escrito no Água Santa e no Edgard Costa e ficava horas olhando aquilo tudo. Às vezes virava as páginas e tentava organizar por época o que iria escrever. Uma espécie de minha cronologia.

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Em setembro, escrevi: "Há um ano atrás, nessa mesma noite e nessa mesma hora — duas da manhã —, eu também estava acordado, pois faltavam oito dias para o julgamento. A casa onde eu estava tinha sido sitiada por jornalistas. Agora faltam seis dias para os desembargadores decidirem se o julgamento valeu ou se passarei por tudo de novo. É uma sensação estranha, não sei exatamente o que sinto. Talvez medo, não sei. Se tiver que passar por outro julgamento, e algo me diz que vou, terei que ter muita força e coragem. Há uma pressão muito grande por parte das feministas por outro julgamento e, se houver, pressionarão para eu ser condenado. No primeiro havia uma expectativa muito grande, porque na arena se enfrentariam Evandro e Evaristo de Moraes, mestre e discípulo. Se houver mais um, acho que vou entrar pelo cano, não tenho dinheiro para contratar advogados, e há as feministas".



A resposta veio uma semana depois: "Não me surpreendeu a decisão de três desembargadores de anularem o julgamento, não sei por quê, mas eu pressentia. Vai começar tudo de novo. Estou calmo, afinal, como diria meu avô Raul: Do chão não passa. Mas a família está em estado de choque, sem saber o que fazer. Estão achando um pé no saco, com toda a razão. Papai não, ele é um santo e está sempre do meu lado. Raulzinho está meio perdido, me preocupo com ele, mas é forte e deve superar essa barra tão pesada. Depois da decisão dos desembargadores, a palavra mais usada por aqui é machista. A impressão que se dá é que se algum homem cometer um crime passional neste país, seja agora ou daqui a vinte anos, a culpa será minha ou do júri de Cabo Frio. Concordo com o movimento feminista, não tem sentido a mulher apanhar ou ser assassinada e seus algozes não serem castigados à altura dos seus crimes. Mas eu não sou culpado, a legislação que é. Está certo, me peguem para bode expiatório, concordo. Mas por que não cobram da Câmara e do Senado leis mais apropriadas?".

ERA UMA SENSAÇÃO NOVA E, APESAR DE TER ME PREPARADO PARA ela, me surpreendi. Afinal, a esperança é a última que morre. A minha tinha morrido: um novo julgamento estava a caminho. O dr. Evandro iria entrar com um novo recurso para tentar derrubar a decisão dos desembargadores, mas acho que nem ele acreditava nessa tentativa. Havia

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pedido que eu fosse visitá-lo, queria conversar sobre o novo julgamento De antemão, me avisou que não poderia me defender novamente, já que tinha prometido à sua família que o julgamento de 1979 havia sido o último da sua carreira. Confesso que, para mim, aquilo era a mesma coisa que ser condenado antecipadamente.



Naquela madrugada, desanimado, imaginando passar por tudo de novo, escrevi: "Dia 3, sexta-feira, vou ao Rio encontrar dr. Evandro. Meu irmão mais velho estará comigo. Não há pavios a queimar nem sorte a ser lançada. Não vou ficar pensando nisso, alguma solução há de aparecer. O pior é que mesmo que outro advogado apareça, não tenho como pagá-lo". Um grande poço se abria e tudo indicava que eu cairia dentro. E depois? Conseguiria sair? Graças a Deus, a noite acabou. Não queria pensar em mais nada, também não queria mais escrever.

Fui para a Marcas Famosas e comecei a trabalhar. Fiquei telefonando para clientes até tarde, e só saí de lá quando o pessoal da limpeza avisou que precisava limpar a sala onde eu estava. Foi aí que me dei conta do horário. A notícia do novo julgamento tinha me abalado de tal forma que saí da empresa pensando em ir direto para a casa de Marilena, mas, quando dei por mim, estava na porta da minha casa. Resolvi entrar, sei lá para fazer o quê. Desci e, quando estava me aproximando da porta da entrada, apareceram não sei de onde três camaradas. Um com uma câmara, outro com um gravador e o terceiro com uma espécie de cruz com três lâmpadas que, ao acenderem, me assustaram. Tinham uma lista de perguntas, mas só conseguiram me filmar, pois não abri a boca. Quando desligaram tudo eu me aproximei e disse educadamente que só daria entrevistas na tv ao vivo, e assim mesmo se estivesse me vendo na tela. É, havia começado tudo de novo.

No dia seguinte, às dez em ponto, Luiz Carlos e eu estávamos na sala de espera do escritório do dr. Evandro. Após alguns minutos de espera, fomos recebidos por ele e toda sua equipe: dr. Arthur Lavigne, dr. Ilídio Moura e dr. Técio Lins e Silva. Veio um cafezinho e depois de um breve papo entramos no assunto que era o motivo da visita.

Dr. Evandro começou contando que já estava pronto o recurso extraordinário que impetraria dentro de alguns dias no Supremo Tribunal Federal, solicitando que fosse anulada a decisão da 2ª Câmara Criminal do Tribunal que tinha anulado o júri de Cabo Frio. Explicou, em seguida, que na maioria das vezes o Supremo acompanha as decisões

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das câmaras criminais e que deveríamos estar preparados para outro julgamento. Continuou olhando para nós dois.



Como já disse, Doca, não poderei atuar em outro júri popular. Mas os meninos estão aí... estão atolados de compromissos, mas quem sabe vocês chegam a um acordo?

Ficamos conversando por umas duas horas para ver se dava para os "meninos" me defenderem, mas eu não tinha condições de contratá-los. Era um trabalho caro, envolvia muita despesa com investigações, olheiros etc, e um deles teria de se mudar para Cabo Frio trinta dias antes, como fizera dr. Evandro. Era muito importante estar atento às tramas da acusação. Tudo isso, somado, era mais do que eu podia gastar. Aliás, naquela altura eu não podia gastar nada. Ganhava bem, tinha sucesso no meu trabalho, e isso era tudo. Perguntei como deveria proceder para ter um defensor público. Dr. Evandro, que só ouvia, entrou na conversa:

— Não, isso é loucura. Dê alguns dias, vou conversar com um advogado amigo meu. Ele é muito competente e vem acompanhando o seu caso com grande interesse, é uma pessoa da minha confiança.

Na volta, durante o vôo, meu irmão e eu ríamos ao pensar nas manchetes se eu tivesse um defensor público: "ex-playboy... etc". Mas o risco de isso acontecer era mínimo. Pelo menos dois criminalistas de São Paulo haviam se oferecido para me defender, quase de graça. Mas eu confiava no dr. Evandro, se ele tinha carta na manga, era essa que eu ia usar.

Quanto ao segundo julgamento, não havia nada que eu pudesse fazer, não adiantava me debater ou ficar angustiado, nem coisa nenhuma. Só tinha de ficar calmo e esperar os acontecimentos. Para isso, o melhor era meter a cara no trabalho. Levava o meu dia sem prestar atenção nos noticiários e sem olhar para trás. Pelo menos durante o dia, no trabalho, e depois, na casa de Marilena. Às vezes me preocupava com a promotoria. E se a descobrissem? Não era difícil, a gente não se escondia. íamos ao teatro, ao cinema, jantávamos na casa de amigos e o que desse na telha. Conseguia ir vivendo, aguardava os acontecimentos, bebia... quer dizer, até entrar no meu quarto de madrugada, depois de Sair da casa de Marilena. Já no caminho, a realidade ia me atacando. Quando chegava em casa já era outro, era aquele que estava esperando Segundo julgamento e não tinha dinheiro para contratar um defensor. Sempre me lembro que escovava os dentes sem olhar no espelho. Acho que era para não me perguntar: "Por quê? Como?".

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Já nem pegava meu caderno para escrever coisas a esmo, não adiantava mais, era sempre a mesma fossa. Quando ficava muito desesperado, para não escrever lamúrias, escrevia sobre os acontecimentos do país, que passava por um momento político ruim. Achava que o presidente Figueiredo e seus ministros não falavam a mesma língua Pelo menos era o que os jornais comentavam. Abandonava rápido esses comentários. Afinal, se o Brasil tinha problemas, o que eu podia dizer? Se abrisse a boca... "Ex-playboy duro matou a amante e agora quer salvar o Brasil." E assim voltava à fossa.

Na véspera de Natal escrevi: "Enfim, 81 está aí. Novo julgamento à vista. Jornalistas querendo faturar. Feministas de pedras nas mãos. Um novo advogado para ajudar na promotoria. Os jornais não estão dando o mesmo destaque que dão para mim aos crimes cometidos este ano. Maridos mineiros que mataram suas mulheres, pintor famoso que, passeando na rua a pé, levou um encontrão, puxou o revólver e matou o distraído — tudo isso para os jornais são coisas da vida. Preciso organizar o que quero escrever".

O fim de ano mexia muito comigo. Que fazer? Ora, escrever, pôr para fora. Desejo-paixão-amor, é verdade, eu sentia tudo isso e muito mais. "Onde estão os sonhos de ver o mundo juntos? Não... não viajando, isso também, é claro. Me refiro aos nossos passeios nas areias de Gravataí para ver o sol nascer, olhar as ondas estourando e chegando de mansinho aos nossos pés. Linda, rindo, dando pulinhos para trás. Onde estão as estrelas que olhávamos entrelaçados, com os cantos dos olhos para não parar de beijar? Onde foi tudo isso? Viraram ménages, ciúmes... brigas, por quê? Não era isso que queríamos. Drogas... será que foi isso? Não gosto de pôr a culpa em suposições. Querendo ou não, drogados tivemos momentos felizes até quando ela fazia cenas de ciúmes. Em sua loucura começava... — Está com saudades dela? De seus filhos? Quer voltar para ela? Vá... vá, burguesinho. —-Até assim era bom, acabávamos na cama abraçados como uma só pessoa."

ERA FIM DE ANO, MAS AS FESTAS NÃO TINHAM SENTIDO. ALIÁS, A BEM da verdade, sempre achei o Natal uma festa do comércio, uma ótima data para vender. A passagem do ano, que sempre encarei como um dia igual a outro qualquer, agora me deixava esquisito.

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Nos primeiros dias de 1981, começaram a sair algumas notícias sobre o novo julgamento. Do jeito que escreviam, davam o fato como certo. Já havia lido algumas declarações do novo auxiliar da promotoria. Pelas fotos dos jornais, vi que era aquele senhor que durante o julgamento me olhara feio. No Jornal do Brasil ele declarava que ajudaria a acusação como profissional. Não era o que eu achava, pois me lembrava de seu olhar de ódio. O tempo ia passando, o novo julgamento não tinha data marcada, eu ia tocando a vida e as vendas, apesar dos problemas por que passava a empresa e a indústria automobilística, que segundo os jornais dispensaria operários.



Crise é o que não faltava nos noticiários, que se ocupavam também da posse do presidente Reagan, nos Estados Unidos. Fora isso, alardeavam o golpe dado por um corretor de dinheiro, o famoso "caso Tieppo". Os prejuízos foram de milhões, e muitos amigos meus entraram nessa.

Marilena e eu continuávamos firmes e o resto da família também, apesar de o Raul ter sido reprovado e de o Lipe estar no exterior. Não reclamei nem dei bronca no Rá. Afinal, me sentia culpado por isso e por muito mais. Como estariam os filhos da Ângela? E a mãe dela? Quando meus pensamentos tomavam esse rumo, era uma barra tão violenta que o jeito era encher a cara. Largava tudo e ia para meu quarto com uma garrafa de vodca e algumas de coca-cola.




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