O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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NO COMEÇO DE SETEMBRO FUI CHAMADO DE VOLTA PARA CABO Frio, para ouvir e contrariar o libelo acusatório. Poucos dias antes, a pedido da promotoria, já tinha sido intimado a comparecer ao Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro, para exames. Fui pela manhã, passei umas horas lá fazendo exames psicotécnicos e sendo entrevistado por psicólogos. Sei lá o que queriam provar... Só voltei no fim da tarde.

Para o libelo acusatório foi diferente. Cheguei três dias antes da data porque tinha de ser instruído pelos advogados. Se bem que era uma coisa relativamente simples: tinha de ouvir as acusações para posteriormente contrariá-las. Depois de dois dias de instruções, fui até o fórum de Cabo Frio para cumprir mais aquela etapa. Havia repórteres de poucos jornais, apenas de O Globo, do Jornal do Brasil e de O Dia. Perguntas? As de sempre.

A promotoria e a defesa estavam se confraternizando. A novidade era que havia um novo juiz, o anterior era substituto, e até a promotoria tinha sido substituída. Os comentários eram de que o novo promotor era fogo. Segundo o dr. Evandro, isso era muito bom. Assim, o ajudante da promotoria contratado pela família da Ângela — o dr. Evaristo de Moraes Filho — teria menos tempo para falar. Esse sim era fogo.

Poucos dias depois voltei a São Paulo e recomecei minha rotina de trabalho e tudo o mais. Até que um dos advogados ligou, informando que o julgamento tinha sido marcado para o dia 17 de outubro.

Aquilo me deixou tão abalado que não conseguia trabalhar nem prestar atenção em nada. Além do mais, os advogados haviam pedido um reajuste de verba que, puta merda, era uma verdadeira paulada. Era tão grande que minha mãe, que estava arcando com as despesas, mudou seu comportamento comigo. Mas foi por pouco tempo, pois não era minha culpa. Ela tinha trocado meus defensores quando eu estava foragido e ainda havia me deixado mal com o primeiro dr. Paulo, de quem gostava muito e era meu amigo.

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Existia, segundo o dr. Evandro, uma batalha nos bastidores, com tramas diabólicas. Como um candidato a prefeito que queria depor contra mim. Ninguém entendia por quê, ele não tinha nada a ver com o processo. Provavelmente era para aparecer na tv. Outro camarada estava visitando os jurados a fim de ganhar simpatia para a acusação. Em compensação, alguns grupos pediam a minha absolvição. Com essa bal-búrdia toda, o dr. Evandro ia alugar uma casa em Cabo Frio, pois queria estar perto do processo e do fórum.



Dr. Evandro me contava tudo isso por telefone e me aconselhava a ir o quanto antes para lá. Havia muita coisa a ser feita e, além do mais, eu acabaria com os boatos de que iria fugir.

Aliás, não faltaram oportunidades. Só não fugi porque não quis. Um amigo pôs à minha disposição 10 mil dólares e o avião dele, com rota segura até o México. Nem pensei no assunto, já tinha feito cagadas demais.

A minha produção nas Marcas Famosas tinha caído um pouco, mais por falta de carros do que por desatenção minha. Falei com a diretoria que ia me afastar por mais ou menos um mês, pelo motivo que todos já sabiam, e comecei a planejar minha estada em Cabo Frio.

Liguei para meus amigos de lá e pedi que arranjassem uma pensão ou um hotel barato onde papai e eu pudéssemos ficar. O dinheiro que minha família estava gastando com os advogados era coisa de gente grande, e eu precisava economizar.

Estava ocupado com esses problemas quando minha cunhada May contou que um primo dela, industrial de Friburgo, tinha uma casa em Cabo Frio, na praia do Peró, e poderia me emprestar. Era só aceitar, arrumar as malas e ir. E foi o que fiz, depois de me despedir da minha família e de Marilena, dos seus filhos e do Rá, meu filho. A despedida foi dolorida. Não tenho certeza, mas acho que, para evitar traumas, a mãe levou meu filho mais moço para fora do país. Quando fui procurá-lo, ele já tinha partido.

Papai e eu chegamos à praia do Peró dois dias depois. Fomos de carro, para não chamar muita atenção. May chegaria dois dias mais tarde, com os donos da casa, o Ludovico e a Mary. Afinal, eu precisava conhecê-los. Não é inacreditável que eu tivesse amigos antes de conhecê-los?

Havia a casa principal e a de hóspedes, com quatro quartos, onde ficamos. A casa era enorme, e o jardim, muito bem-cuidado. No meio da grama, uma bela piscina. Para assegurar a privacidade, havia um muro

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de três metros de altura. A casa ficava a uma quadra da praia, bem em frente ao Hotel do Peró. O hotel serviu como nossa base durante toda temporada. Jantávamos lá e usávamos o telefone. Na casa tínhamos café-da-manhã e almoço.

No primeiro dia, depois de uma boa noite de descanso, fui a Macaé, uma cidade próxima, para me encontrar com o dr. Evandro, que tinha uma propriedade lá. Ele repetiu todas as tramas que estavam armando em Cabo Frio. Contou também que, dentro de alguns dias, estaria se hospedando na casa de um amigo, coincidentemente vizinha da casa onde eu estava, só um pouco mais longe da praia. Dias depois, os jornais disseram que tínhamos alugado casa de frente para o mar.

Quando voltei, May e os donos da casa já estavam lá. Tinham aberto a casa toda, e haviam chamado a empregada para arrumar os quartos. Enfim, estavam preparando a casa para que eu recebesse meus convidados. Parecia até que estavam adivinhando os planos do dr. Evandro. Me puseram tão à vontade que parecia que já os conhecia havia anos. No dia seguinte, após um churrasco na casa, oferecido por eles, voltaram para Friburgo, e May, para São Paulo.

A espera começava. Dr. Evandro chegou para se instalar na casa que tinha arranjado e no mesmo dia tivemos nossa primeira reunião. Preocupado com os planos da promotoria que descobrira — ele tinha uma verdadeira rede de informantes —, expôs alguns de seus planos. O principal era um memorial descritivo que papai deveria entregar a cada jurado. Um memorial é um resumo dos fatos que serão debatidos no julgamento. Precisávamos de mais alguém que ajudasse papai, pois, sozinho, ele não daria conta. Pensei na minha prima Maria Zélia. Telefonei na hora para ela, e ela concordou em ajudar, mas só poderia vir em dois ou três dias.

Nessa reunião estavam o meu amigo Paulinho Badhu, que me ajudara tanto e fazia parte da defesa, e o dr. Ivo Saldanha, amigo e psiquiatra, que havia muito vinha me apoiando. O memorial causou polêmica. A promotoria, segundo o dr. Evandro e Paulinho, quis que fosse proibido pelo juiz.

Quando o documento ficou pronto, fiquei chocado com o conteúdo. Ele expunha a vida privada da Ângela. Percebendo meu mal-estar, o dr. Evandro pediu que eu aguardasse o fim da reunião.

— Precisamos lutar, nossa verdadeira guerra será o seu julgamento. Precisamos lutar com as mesmas armas que eles.

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Pronto... a guerra iria começar. Promotoria e defesa se enfrentariam, seus planos estavam em andamento. Como eu me sentia? Como em um tabuleiro de xadrez, onde dois grandes adversários se enfrentariam. Os jornais já estavam começando a comentar o grande combate que seria travado no tribunal do júri entre o mestre Evandro Lins e seu discípulo Evaristo de Moraes Filho.

Dois dias depois, Maria Zélia chegou e fizemos outra reunião com dr. Evandro. Ela e papai deveriam começar imediatamente a visitar os 21 jurados e entregar a eles o memorial. Deveriam também pedir que entrassem em plenário sem um pré-julgamento.

Estabeleci uma rotina que teria de ser seguida à risca, para que tudo desse certo. Começaríamos cedo, logo após o café. Maria Zélia e papai fariam as visitas, quatro por dia, enquanto Ivo e eu faríamos terapia na praia, andando de buggy nas dunas. Dirigir um buggy nas dunas é muito duro e difícil. Requer muita atenção, caso contrário a pessoa pode se machucar. Fazia isso durante horas e esquecia de tudo, do julgamento, das saudades, de dinheiro etc. Sem dúvida uma grande terapia.

Depois de alguns dias, em uma reunião com dr. Evandro, chegamos à conclusão de que as visitas não eram malvistas pelos jurados. Eles haviam recebido os dois enviados da defesa quase bem. Só uma senhora, a segunda a ser visitada, tinha se recusado a recebê-los. Pelo menos as coisas não iam mal, ainda que papai fizesse aquilo com grande sacrifício, por causa de sua idade avançada. Mas ele era um pai, que saudades dele.

Os dias iam passando e, além da terapia, que durava no mínimo três horas, eu bebia muito. Ninguém, nem mesmo Ivo, tinha coragem de pedir para eu parar. A cada dia a tensão aumentava mais. Como a própria imprensa dizia, o circo estava armado.

Os jornais divulgavam histórias incríveis a meu respeito. Que eu tinha cometido outro crime anteriormente, aliás, outros crimes. Diziam que tinha matado pessoas na África Equatorial Francesa durante as caçadas nos anos 50, que eu fazia parte de uma quadrilha internacional de tráfico de drogas e tinha executado Ângela obedecendo ordens. E assim ia, era uma invencionice sem fim.

No dia 7 de outubro, o repórter Carlos A. Luppi escreveu no jornal Folha de S.Paulo: "Crime passional motivado por ciúme? Ou crime ocasionado por acesso de raiva e perda da razão do companheiro de Ângela, o paulista Raul Fernando do Amaral Doca Street, que vivia às custas da

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vítima? Ou foi um crime cujo autor ainda não apareceu e anda escondido, tendo em Doca um perfeito bancador de seu ato? Um crime por amor, como alega Doca Street, ou um crime provocado por excesso de drogas? Ou ainda foi um crime premeditado nos bastidores do tráfico de entorpecentes e tendo Doca Street como executor da sentença. "Muitas vezes li que tinha matado "por amor". Duvido que haja uma gravação autêntica com essa declaração — que estava em todos os jornais e que nunca fiz.

Na VERDADE, EU ESTAVA CERCADO... ERAM JORNALISTAS POR TODOS OS lados. Nos primeiros dias, podia ir a Cabo Frio fazer compras, ou levar papai e Maria Zélia até o ponto de táxi, para distribuírem os memorandos. Numa das últimas vezes em que estive no centro, a população já havia sido alertada pela imprensa sobre a minha presença. Além de me tornar foco das atenções, quando deixei papai lá, ele foi entrevistado. Os repórteres já sabiam seu nome, a marca do carro e das visitas que os dois tinham feito. Só não conseguiram arrancar deles onde eu estava hospedado.

Mas descobriram isso no mesmo dia, quando seguiram o Ivo até lá. Só não foram atrás de mim porque chegar à praia do Peró era complicado, e eu os despistei. Mas, cinco minutos depois de Ivo pôr sua geringonça — o buggy que ele mesmo havia construído — dentro de casa, já tinha fotógrafo e jornalista trepado no muro.

Fingimos que não havia ninguém... sentamos no terraço, e minutos depois entrei na piscina. Em seguida, fomos para as dunas, onde, evidentemente, os jornalistas não tinham meios de chegar. Mas conseguiram fotografar todo nosso trajeto até a praia.

Daquele dia em diante, todos fingiriam que não havia ninguém nos observando. Eu levava aquilo à risca. Tomava minhas vodcas, deitava na espreguiçadeira, nadava, entrava e saía da casa e usava o buggy. Era como se os repórteres não existissem.

Era tão assediado que, quando os advogados me avisaram que em alguns dias seria entrevistado por uma Rede de Televisão, nem fiquei impressionado.

Aliás, gostaria de rever as fitas dessa entrevista, porque a que foi Para o ar era uma piada. Estava toda cortada, e o que eu havia dito foi completamente

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modificado e emendado. Tinha uma gravação com a mãe da Ângela chorando, e o que ela dizia coincidia com a edição que tinham feito. Que decepção. Pura montagem. Entendo que uma mãe faça qualquer coisa para condenar o assassino da filha, eu faria até pior. Mas por que fizeram uma montagem? A impressão que dava é que queriam uma guerra entre as duas famílias. E por quê? Para ter mais audiência?

Na época, escrevi: "Realmente... nem a família da Ângela nem a imprensa se deram conta do mal que poderão causar aos nossos filhos. Peço a Deus que conscientize esse pessoal para que isso não continue. Afinal, trata-se de um crime passional. Isso acontece todo dia, não é para envolver uma nação inteira. Além do mais, com uma história completamente distorcida".

Preocupado com o rumo que aquela guerra, como dizia o dr. Evandro, ia tomando, escrevi: "Que Deus me perdoe e me ajude a enfrentar estes momentos até o fim, com hombridade e humildade. E que abusem o mínimo possível do nome da Ângela, que ainda está tão viva dentro de mim".

Toda manhã o dr. Evandro mandava me chamar para conversarmos um pouco. Era quando eu ficava sabendo de tudo o que se passava nos bastidores. Ele sabia de tudo. Conversei muito com ele a respeito de poupar a Ângela. O argumento dele era sempre o mesmo:

— A promotoria o acusa de gigolô e traficante, o que é uma mentira deslavada. Terei que mostrar a verdade. Não mostrarei nada que os jornais já não tenham mostrado nos últimos anos.

Os dias iam passando, os memoriais foram entregues. Minha mãe, minha tia Rosaura e minha cunhada chegaram. Dali para a frente a casa estaria sempre cheia. Alguns amigos vieram de São Paulo dar uma força e se hospedaram no hotel do outro lado da rua.

O momento estava chegando... Eu não tinha mais chão, de novo sentia estar fora do meu corpo, olhando tudo sem ter o comando de nada. As coisas iam acontecendo, as reuniões com os advogados eram completamente inúteis para mim, só meu corpo estava presente. Devia conseguir manter uma boa postura, porque nunca reclamavam da minha desatenção.

Dois dias antes do julgamento, assisti à entrevista que dei para a televisão e fiquei completamente enojado com o programa. Decidi não ver mais TV nem ler os jornais. Também parei de beber. Só tomei dois

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goles de uísque puro quando saí de casa para o tribunal, acompanhado pela minha família e por cinco advogados. Precisava daquilo. Tinha passado a manhã me preparando cuidadosamente. Antes de tomar banho e me vestir, fiquei duas horas meditando, fazendo Mind Control. Queria me apresentar impecável. Não iriam me ver derrotado e apavorado como alguns anos antes, quando cheguei algemado à delegacia. Se fosse condenado, manteria a postura. Afinal, tinha de agüentar as conseqüências dos meus atos.



Todos estavam nervosos durante os últimos dias, mas mantiveram as aparências. Ninguém se mostrou angustiado ou nervoso. Além da bebida e dos passeios nas dunas com Ivo, continuei tomando banho de sol e nadando.

Quando a hora chegou... tomei dois goles de uísque e entrei no carro com papai, para encontrarmos o dr. Evandro a pouco mais de um quarteirão dali e de lá irmos juntos para o tribunal. Reproduzo um trecho do Jornal do Brasil do dia seguinte, 18 de outubro: "Apesar de a praia do Peró ser considerado lugar tranqüilo, com poucos moradores, houve tumulto na saída de Doca Street. Cerca de cinqüenta pessoas e de vinte jornalistas se aglomeraram em frente à casa. O carro de Doca Street foi seguido pelos dos jornais até a casa do advogado Evandro Lins e Silva, onde se encontravam seus cinco defensores. As fisionomias dos advogados de defesa e de Doca Street deixaram transparecer que não esperavam tanta gente aguardando na frente do foro: cerca de quinhentas pessoas. As pessoas cercaram o carro e começaram a bater nos vidros. O motorista deu uma volta no quarteirão. Cerca de setenta pessoas correram atrás."

Só conseguimos entrar no fórum depois que a polícia fez um cordão de isolamento. Antes de entrar, enquanto esperava papai, olhei para a rua e vi uma placa que dizia: "doca, cabo frio está com você".

Depois que conseguimos entrar no fórum, os advogados e eu fomos para o recinto reservado para o juiz, os jurados, a promotoria, a defesa e o réu. Examinei rapidamente o lugar. Vi onde estariam os jurados, bem na minha frente, do outro lado. À esquerda ficava o juiz, em uma enorme banca, mais ou menos meio metro acima do chão. Do lado dele, na mesma altura, o promotor e os auxiliares de promotoria contratados Pela família da Ângela. Fiquei sentado na frente dos meus defensores, de costas para eles. Podia ver todo o salão, e se quisesse poderia olhar

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cada rosto, examinar cada olhar. Aproveitei que o juiz ainda não tinha entrado e comecei a observar os 21 candidatos a jurados. Não percebi nenhum me olhando com ódio, mas não perdi muito tempo com eles. Comecei a procurar meus familiares. Como não achei, reparei nas pessoas que se encontravam mais perto de mim. À minha direita, havia um grupo que me pareceu ser da família da Ângela, e bem na frente deles estava um senhor muito bem-posto, cabelo prateado, com óculos de lentes grossas. De vez em quando ele me olhava com ódio. Isso não me incomodava, mas, curioso, virei para trás e perguntei ao dr. Evandro se ele sabia quem era.



— É um grande advogado, professor e doutor, está aqui para comentar o julgamento. Foi contratado pelo Jornal do Brasil.

Logo depois disso, o juiz entrou e todos se levantaram. Ele fez algumas recomendações a todos ali presentes, sentou-se e fez sinal para que me aproximasse. Perguntou se eu estava bem. Respondi que estava, e ele, me olhando nos olhos, mandou que eu contasse em voz baixa o que tinha ocorrido no dia 30 de dezembro de 1976.

Em cinco minutos expus o que havia acontecido. Terminei a narração assim:

— Entrei no carro e andei no máximo dez metros de marcha-a-ré. Resolvi voltar e pedir para ficar, porque a amava muito, mas a discussão continuou, aí eu ajoelhei e segurei suas mãos. Ela as retirou rápido e disse: "Se quiser ficar comigo, vai ter que fazer suruba com homens e mulheres", e me jogou no rosto uma pequena pasta, onde se encontravam documentos e minha arma. A pasta escapou da sua mão e caiu. Ao cair abriu-se e minha arma escorregou. Eu peguei e levantei atirando.

Após a exposição, o juiz mandou que eu voltasse ao meu lugar e me advertiu das conseqüências se minha história não fosse verdadeira. Em seguida, começou o sorteio dos jurados — o conselho de sentença, o júri. Os dois lados, acusação e defesa, estavam muito atentos. Das 21 pessoas da lista, só sete comporiam o corpo de jurados. As duas partes tinham estudado e investigado cansativamente aqueles nomes, e cada uma poderia recusar três jurados. Não sei quanto tempo levou esse ritual, mas no final o júri foi composto por duas mulheres e cinco homens.

Eu estava longe, completamente alheio a tudo aquilo. Estava desiludido... Não iriam julgar uma rixa, uma briga feia que acabara em tragédia. E não tinha nada a ver se eu matara por amor ou se Gabrielle

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tivera participação. A promotoria baseava sua acusação em fatos inexistentes e, por conseguinte, não tinha como provar nada. Por que não eram objetivos? Uma pessoa matou outra por tal motivo. Era isso que tinha de ser julgado e que deveria ser investigado para que se apurasse verdade. O que estava acontecendo? O que queriam todos? Um espetáculo? Vender jornais? Crescer em suas carreiras? O réu era confesso e estava ali... tinha coisa mais simples?



Antes de sair da casa do dr. Evandro naquela manhã, tinha quebrado o jejum de jornais e revistas e lido na revista Veja, com a mesma data do dia do julgamento, uma declaração do dr. Evaristo de Moraes que me dava esperança de ser julgado pelo crime que cometera e não por histórias inventadas. Eis o que declarava a reportagem, cujo título era: "A batalha de Búzios": "Um homem matou uma mulher depois de uma vida em comum de dois ou três meses, num momento de paixão, porque ela não quis mais manter o vínculo".

Depois da escolha dos jurados, a promotoria pediu a leitura dos autos, que demorou horas. Dr. Evandro às vezes reclamava, dizia em voz alta que a promotoria queria cansá-lo. Foram onze horas para a leitura daquelas mais de mil páginas. Não sei se o dr. Evandro estava cansado... eu estava. Além do mais a voz do leitor me deixava sonolento, e eu tinha de me esforçar para não dar uns cochilos.

Os debates iam começar com a acusação. O promotor, Sebastião Fador Sampaio, ocupou a tribuna. Não sei quanto tempo ele falou, mas reproduzo o comentário da revista Veja do dia 24 de outubro de 1979: "O promotor chamou Doca de gigolô que vivia de explorar mulheres (não apresentou nenhuma mulher explorada por Street) e integrante de uma quadrilha internacional de tráfico de entorpecentes que o protege há muito tempo (não apresentou um só fato capaz de comprovar essa afirmação)".

A acusação teve duas horas para falar depois do promotor. Na sua vez, o advogado de Cabo Frio, o dr. Éden T. Mello, só disse coisas que não tinham nada a ver com o processo. O República, um jornal que eu não conhecia, comentou no dia 19: "Parece coisa de radionovela; Evaristo e George Tavares, os dois assistentes de acusação, fazem seguidos sinais mostrando a Éden que já está bom assim, mas ele está mais Preocupado com a platéia: essa classe que veio aqui desmoralizar o júri de Cabo Frio".

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O dr. Evaristo só pôde falar na réplica, depois da defesa do dr. Evandro. Foi objetivo, mas não teve tempo.



Reproduzo alguns trechos da defesa do dr. Evandro, que copiei do seu livro, A defesa tem a palavra: "Tivemos até agora versões de tal modo deturpadas que se tinha a impressão de que não estávamos dentro do processo. "Se apresentou o acusado como um explorador de mulheres, um maquereau. Jurados, onde estamos nós? Isso não é acusação, é maledicência. Onde é que isso se encontra nos autos? Eu desafio que se mostre nesse processo uma linha sequer que indique seja o acusado um traficante de tóxicos, mas mero usuário. Desafio que se mostre qualquer prova dessa acusação" (p. 112).

Em seguida, denunciou o estranho desaparecimento, na delegacia, do diário de Gabrielle Dayer e mostrou cartas de banqueiros e empresários de São Paulo que testemunhavam a meu favor. Ainda em seu livro, na p. 229, demonstra que no período em que vivi com Ângela recebi 260 mil cruzeiros em três cheques documentados nos autos.

Os debates duraram muitas e muitas horas e enveredaram pelo caminho que eu temia, a vida particular de Ângela, que, a bem da verdade, tinha pouco a ver com o crime. Está certo que ela usou seu passado muitas vezes para me humilhar, e o dr. Evandro usava isso, acho eu, para dar um troco às mentiras da acusação. Para terminar, o dr. Evandro argumentou para os jurados que cadeia, no meu caso, não seria solução para nada.

Terminada a acusação, a defesa, a réplica e a tréplica, os jurados se reuniram para a decisão final, depois de mais ou menos 25 horas no tribunal. A decisão dos jurados: aplicar ao acusado a sanção por excesso culposo de legítima defesa. O juiz fixou a pena em dois anos de detenção e concedeu sursis.

Eu estava envergonhado. Sentia que tinha sido covarde, que devia ter impedido que me defendessem remexendo o passado de Ângela. Afinal, eu a amara muito.

Dias depois, já em São Paulo, lia envergonhado e com tristeza uma declaração do Carlos Drummond de Andrade, da qual nunca mais me esqueceria: "Aquela moça continua sendo assassinada todos os dias e de diferentes maneiras".

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O JULGAMENTO TINHA ACABADO. Eu ESTAVA LIVRE. ESTAVA TAMBÉM exausto, confuso e sem saber ou entender o que acontecera. Havia sido praticamente absolvido. Fiquei apreensivo. Estava me aproximando da porta de saída, cercado por três policiais. Por que eles me acompanhavam? Será que corria algum risco? A população estava indignada? Caminhava em direção à saída porque estavam me levando. Estava atordoado, não tinha a menor idéia do que fazer. Havia tanta gente que me distanciei dos policiais. May, Maria Zélia e papai estavam de mãos dadas para permanecerem juntos. Eles se aproximaram e eu agarrei a mão de um deles. Quando conseguimos passar pela porta da sala do tribunal, atravessamos um corredor e atingimos a rua. A luz do dia bateu nos meus olhos e fiquei tonto. Não enxergava direito, só ouvia o barulho das câmaras. Alguns microfones estavam muito próximos do meu rosto. Parei para me dar algum tempo e olhar em volta. Algumas pessoas acenavam para mim, uma moça quase arrancou a manga do meu paletó. Queria me abraçar, mas logo foi afastada. Um pequeno grupo de moças batia palmas. Jornalistas pediram que falasse alguma coisa sobre meu futuro. Respondia a todos a mesma coisa:




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