O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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Se segui-los, estará bem aqui. Neste presídio não há celas, são vários dormitórios, seis, e o seu fica no térreo, depois da quadra de futebol de salão. Há um muro que separa esse dormitório do resto do presídio. Só poderá sair de lá daqui a sete dias, a não ser que seja chamado pela administração, e nesse caso deverá ser escoltado por um funcionário. Depois do sétimo dia, se tudo estiver bem, você será liberado para o convívio. No seu dormitório ficam os faxinas e os elementos que consideramos de responsabilidade. Muitos dos internos têm tvs. Querendo, peça para trazerem uma para você.

Um funcionário me levou ao dormitório. No trajeto, passei pelo pátio que servia como quadra de futebol. Todos ali estavam de calção e, pelo menos naquele momento, não faziam nada. Vi o muro que o capitão tinha mencionado, e depois outro pátio, bem menor, que acabava em um monte de pedras. Ali estavam estendidos alguns internos, tomando banho de sol. O funcionário que me acompanhava olhou para eles:

— E aí, pessoal, a praia está boa?

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Todos riram, e nós continuamos andando até a entrada do dormitório. Um interno encerava o chão, que estava impecável, parecia um espelho. Tudo ali era perfeito e cheirava bem. O local era enorme, não contei quantos beliches havia, mas tinha no mínimo trinta. Fui apresentado ao interno que encerava aquilo tudo.

— Conheça o xerife, o Português. Se quiser se dar bem com ele, não suje o dormitório. Ele lhe mostrará tudo, inclusive seu beliche.

Assim foi. O Português mostrou um quarto com dois beliches, que ele ocupava com seus dois ajudantes. Depois caminhamos até o fim do dormitório, onde havia uma arcada que levava a uma sala retangular pequena, com cinco beliches e um janelão que dava para o pátio. Seus dois ajudantes estavam limpando o lugar. Depois das apresentações, fomos até o beliche que eu ocuparia. Era perto da janela, e eu ficaria na parte de cima. O Português comentou:

— Foi o capitão que escolheu esse lugar para você. Nunca vi ele fazer isso.

Depois verificamos se o lugar estava limpo e arrumado.

— Vou deixar você com meus ajudantes. Se quiser, poderão arrumar sua cama todos os dias. Também podem lavar e passar sua roupa. Eles bem que precisam de uma ajuda.

Antes de se afastar, mandou que me acompanhassem até os chuveiros. Fez mais uma observação:

— Os três chuveiros podem ser usados das oito da manhã às cinco da tarde. O uso dos vasos sanitários e das pias é livre.

Os dois ajudantes não perderam tempo. Enquanto eu tomava um bom banho num dos chuveiros, arrumaram a minha cama. De um deles me lembro bem: era baixo, magro, tinha cabelos pretos e bigodinho. Chamava-se Mário. Era um cara triste, falava pouco, mas fazia o seu serviço muito bem. Minhas poucas roupas estavam sempre limpas e bem passadas.

Nas horas seguintes, conheci quase todos do dormitório, principalmente os que prestavam algum serviço. Um eletricista me vendeu um pequeno abajur feito por ele. Era de arame grosso, muito engenhoso. Instalou de um jeito que iluminava exatamente o meu colo, o que era Perfeito para ler um livro ou um jornal. Me diverti enquanto o cara trabalhava, parecia um alfaiate tirando medidas.

— Deita aí. Onde você põe o livro? Um pouquinho mais pra cá está bom?

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Na primeira noite, logo que as luzes se apagaram, dei uma volta por todo o local, passei pelo banheiro e voltei para o meu lugar. Reparei nas tvs de alguns internos, instaladas de maneira a não serem atingidas pelos pés ou pela cabeça do vizinho. Reparei também que não era proibido colocar toalhas ou cortinas nos beliches, para ter alguma privacidade. Outra coisa que chamou a minha atenção foi o barulho de chutes e de palmas, que vinha da quadra de futebol. Então subi ao meu beliche. Embriagado pelo barulho do jogo, adormeci. Nem usei meu novo abajur.

Os primeiros sete dias foram difíceis. Não podia sair do dormitório nem receber visitas. Mas podia mandar recados, e pedi que avisassem meu pai para trazer uma TV.

Só tinha permissão para sair do dormitório para as refeições, que eram servidas no fundo do pátio, numa área entre o dormitório e o muro, onde terminava aquela parte do presídio. O Edgard Costa foi o único lugar em que me servi da comida da casa. Era boa, não tinha do que reclamar. Pensando bem, nove anos depois também achei uma comida bem razoável em um outro presídio-albergue de Niterói. Nessa época, saía pela manhã para trabalhar e retornava à noite. Hoje em dia, é uma prisão para mulheres.

Na minha primeira semana, saí do dormitório duas vezes, as duas para ir até o serviço social. Na primeira, falei sobre o tempo que tinha passado no Água Santa. Na segunda, fiz alguns testes. Fiquei bastante tempo conversando, e acho que surpreendi a psicóloga. Ela pediu que eu desenhasse uma bola. Fiquei fazendo hora com o lápis e o papel na minha frente, sem rabiscar nada. Eram duas moças que aplicavam os testes. Como o desenho não saía, uma delas resolveu me incentivar:

— Desenhe a casa onde você foi mais feliz.

Fechei os olhos, comecei a lembrar da casa da fazenda Cachoeira e desenhei a fachada da casa. Eram quarenta metros de frente, com colunas, uma escadaria que subia mais ou menos três metros. Ao chegar ao terraço, que percorria toda a frente da casa, viam-se oito janelões, quatro de cada lado da porta de entrada. Meu avô chamava o terraço de Pretório.

Entreguei a uma das moças o desenho, que por incrível que pareça reproduzia bem a fachada da casa. O interno que trabalhava com elas comentou:

— É melhor ele não ver o desenho da minha casa.

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O resto da semana, eu li e escrevi. Comecei com Água Santa: "Finalmente consegui sair do Ary Franco. Quantas grades... que falta de calor humano, não consigo descrever aquele horror. Enfim estou fora de lá; ainda não estou no convívio, mas já sinto a diferença... não! Não quero mais escrever sobre aquele inferno. O diretor do Água Santa insistia que lá eu estava mais seguro. Pode ser, mas prefiro correr algum risco por aqui. E a galeria a... aquele cheiro... nunca quis escrever sobre ela... não vai ser agora. Tudo porque, para ser feliz, joguei todas as fichas, mas o destino tinha um straight flush".



Pela primeira vez escrevi sobre o começo do meu romance com Ângela. Escrevi também sobre a época que cheguei dos Estados Unidos, em 1961 e fui morar com a Glorinha Mariano, que conhecia de toda a vida. Tempo bom. Trabalhava numa agência da Volkswagen, a Marcas Famosas, recém-inaugurada. E assim continuei a escrever, sem me fixar em nenhum assunto. Precisava preencher meu tempo.

As MOÇAS DO SERVIÇO SOCIAL PEDIRAM AO CAPITÃO NABUCO QUE me liberasse para o convívio. Mas tive de passar os sete dias de praxe no dormitório, sem receber visitas. Sem nada para fazer, comecei a pensar nos assuntos sobre os quais pretendia escrever. Li o que escrevi no Água Santa, estava tudo sem pé nem cabeça. Começava a enumerar os assuntos, mas, assim que começava a escrever sobre o primeiro — que não podia deixar de ser a Cachoeira —, perdia o fio da meada e divagava. Refletia a respeito da minha vida e escrevia: "Levanto às seis da manhã, almoço às onze e janto às quatro. Leio e tento escrever. Tento, tento e não sai nada. Atualmente, nem pieguices".

Estava apreensivo porque tinham me avisado que em alguns dias iria a Cabo Frio para um sumário. Na época não sabia direito do que se tratava, mas o nome certo é "sumário de culpa". Estava tão distante de tudo que, no dia em que o dr. Arthur me explicou o que era, apenas fiquei chateado por ter de voltar ao fórum de Cabo Frio. Quando ele Partiu, continuei na mesma, sem entender nada.

Alguns dias mais tarde, já no convívio, recebi a visita de papai, que me explicou o que era o tal sumário: era uma audiência para ouvir as testemunhas de acusação. Aquilo me deixava nervoso. Ter de

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voltar lá, de camburão e algemado, era muito para mim. Não queria falar no assunto.



Como era dia de semana, papai não pôde ver o pátio, perceber como era diferente o ambiente dos dois presídios. Sentia que ele estava diferente mas, por mais que eu perguntasse, não se abria comigo. Aproveitei para pedir novamente uma tv, três bolas de futebol de salão, um tênis forte e um chuveiro. O Português tinha me dito que o diretor autorizaria, já que seria para o benefício de todos. Papai anotou tudo e continuou com aquela cara de mistério, de quem estava querendo contar algo. Só entendi o porquê quando ele foi embora e passei pela secretaria. Um funcionário me chamou:

— Seu pai deixou essa caixa para você, preciso abrir para revistar. Chamou um funcionário e abriu o pacote. Era uma tv em cores de 21 polegadas. O agente, que era um cara legal, me alertou:

— Quando tocar a sirene de recolher, deixa que eu levo a tv para você. Não recomendo que você passeie com esse aparelho pelo pátio, no meio dos internos. Tem muito olho grande.

O estranho mesmo foi quando entrei no dormitório e fui abordado pelo interno que me vendeu o abajur. Assim que me viu, falou:

— Se você quiser instalo a TV perto da janela.

Na verdade, nem liguei muito, já estava me acostumando com aquele tipo de comunicação instantânea entre os internos.

A tv foi instalada em frente à janela, de um jeito que podia ser vista dos cinco beliches do "Recanto do Luxo", que era como chamavam aquele espaço no fim do dormitório. Não mexi uma palha. Assim que o aparelho chegou, ele foi cuidadosamente desempacotado, e cavaletes e andaimes usados na reforma do prédio apareceram num passe de mágica, servindo de pedestal para que o aparelho ficasse na altura certa.

O "Recanto do Luxo" passou a ser o lugar mais freqüentado pelos internos. À noite o pessoal se espalhava pelo chão. O Português e seus ajudantes tinham cadeiras, eu escolhia os programas, mas, quando não estava interessado, podiam usar do jeito que quisessem. Mesmo durante o dia, o aparelho estava sempre ligado.

Quando fui liberado para o convívio, o capitão Nabuco mandou me chamar. Queria que eu aceitasse uma faxina. Contei que alguns internos queriam organizar um torneio de futebol, e eu tinha encontrado no grêmio seis uniformes e redes bem conservadas. Contei que adorava jogar e, se ele deixasse, eu cuidaria do torneio.

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— Até encomendei três bolas — eu disse entusiasmado.

O capitão gostou da idéia e chamou as moças do serviço social para comunicar a decisão. Pediu para elas darem a notícia no jornal do presídio.

Logo que cheguei ao Água Santa, o diretor falava de uma "sociedade carcerária", mas não podia compreender exatamente o que queria dizer. No Edgard Costa, comecei a entender do que se tratava. Lá havia um grêmio que promovia atividades esportivas, jogos de xadrez, damas e dominó. Havia também um jornal e uma barbearia, tudo administrado pelos internos. O serviço social só dava apoio.

Aos poucos fui conhecendo alguns internos. Andava por todos os cantos do presídio que os internos podiam freqüentar. O que mais fiz foi tomar banho de sol na "praia". Estendia a toalha e ficava lá, pensando em Ângela, na liberdade perdida. Às vezes, o sol batia no meu rosto e eu, de olhos fechados, via toda a minha vida passar como um filme.

Era muito deprimente abrir os olhos e constatar a dura realidade da prisão. Talvez fosse por essa razão que tão poucos internos curtiam a praia. A maior parte ficava andando do beliche para a cantina e vice-versa. Alguns faziam ginástica, outros ficavam em grupinhos tagarelando, e logo aparecia um funcionário para dispersá-los. O capitão não gostava de grupinhos.

Acostumei-me a sempre carregar comigo papel e lápis. Muitas vezes, desesperado, começava a escrever tudo o que passava pela minha cabeça: "Continuo sem disposição para escrever, não sei o que está passando comigo. Dentro de alguns dias irei a Cabo Frio... Aqui vou indo bem, nada de novo para escrever. A vida de sempre, vida de preso, onde com a graça de Deus não tenho problemas".

Embora o Edgard Costa fosse pequeno, o efetivo de funcionários e policiais militares era grande. O capitão Nabuco aparecia nos pátios e dormitórios de surpresa: se alguém pisasse na bola, era transferência na certa. Tudo fazia de lá um lugar tranqüilo. Ele dizia: "Este lugar, perto do resto, é um paraíso".

Eram poucos os internos com quem eu me relacionava. Todos eram da faxina ou diretores do grêmio, ou faziam alguma atividade esportiva. Como no Água Santa, evitava ter muitos contatos. Fiquei sabendo de internos que não saíam de seus dormitórios. Nilo, um senhor negro que era o mais velho do presídio, me contou que esses internos tinham medo de ser mortos, ou porque tinham muitos inimigos ou porque eram cagüetes.

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Eu me dava bem com o Nilo. Conversávamos muito, ele tinha muitas histórias. Todos o temiam, mas eu gostava dele. Era um preto enorme, de andar lento, de malandro de antigamente. Não sei por que me chamava de "Estilete". Ele não podia ir para outros presídios, pois o pegariam na certa. Nunca perguntei, mas parece que tinha dado cabo de muita gente.



Conheci também o Nilson — que tinha muito cartaz com o diretor, já que o conhecia desde a época em que estiveram na Marinha -— o Americano e o Irmão, que não largava a Bíblia. Ele havia matado a mulher, a destrinchado e enterrado, tudo debaixo de uma mangueira. A polícia descobriu o crime porque encontrou o pé direito dela, que ele, distraído, não enterrara. Andava também com o Professor, que estivera no Água Santa comigo, o Neuze, de quem o pessoal não gostava, porque era homem de confiança do capitão, o Mário e o Zuir, ajudantes do Português, e Nilo e Domingos, o marceneiro e o eletricista. Tinha também o sr. João, que não era interno, mas arrendava a cantina do presídio.

As COISAS QUE TINHA PEDIDO PARA PAPAI CHEGARAM. O CHUVEIRO elétrico não fez tanto sucesso quanto as bolas, já que estas eram para todos, e o chuveiro só para o nosso dormitório. Foi instalado tão rápido que em menos de uma hora fui convidado a experimentá-lo. Estava com tantas saudades de tomar um banho quente que imediatamente abri a torneira. Fiquei maravilhado. Comecei a lavar a cabeça e sentir a água morna caindo pelo meu corpo. Abri os olhos e vi o Domingos, que falava para os companheiros:

— Fui eu que instalei, depois dele sou eu!

Quando estava acabando de tomar banho, ouvi uma voz que conhecia bem...

— Então, tomando um banho, príncipe?

Dei de cara com o Professor, que tinha acabado de chegar, contando as novidades:

— Consegui sair do Ary Franco porque devo ser posto em liberdade em poucos meses. O grande escândalo da galeria não é mais a sua cabeçada no Baitola. A história de agora é a surra que o garoto do Apoio deu nele. Agora estão em cubículos diferentes. Ninguém ousa olhar para o moleque, com medo do Apoio.

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Nos dias seguintes, ajudei o pessoal do grêmio na organização do campeonato. Eram seis times, todos jogariam entre si, e no final o campeão levaria a taça, ofertada pelo capitão. Depois a taça ficaria exposta na sala do diretor. Era de metal, não poderia ficar no grêmio.

Houve muita confusão para formar os times, já que os que jogavam bem eram conhecidos. Para não haver briga, os nomes dos participantes foram postos em um pequeno saco e cada capitão sorteou os jogadores, na frente de quase todos os internos. Tive sorte: os três jogadores mais cobiçados ficaram comigo. Um deles, o Tião, havia sido profissional de um time de Campos. Era um mulato de 1m 90, a cara do Paulinho da Viola. Putz, como esse cara jogava! Os outros disseram que tinha marmelada, mas logo pararam de reclamar. Ficou decidido que o campeonato começaria em quinze dias, assim teríamos tempo de treinar.

Nesse meio tempo, recebi uma notícia que me deixou arrasado. A alemã Gabrielle Dayer tinha desaparecido depois de despencar de umas pedras na praia da Ferradurinha. Seu corpo ainda não tinha sido encontrado, e as buscas continuavam. A notícia se espalhou rapidamente entre os internos.

A história me incomodava, pois os jornais e todo mundo achava que a alemã era o pivô do crime. Não era verdade, ela era apenas um personagem que havia gerado a discussão que terminou em tragédia. Lembro perfeitamente daquela manhã na praia dos Ossos. A moça era bonitinha, mas nada de extraordinário. Ângela estava alcoolizada e não foi discreta na abordagem, me deixando constrangido no meio dos nossos amigos. Para que não fizessem perguntas que eu não queria responder, passei dois dias no dormitório, assistindo à TV, lendo e escrevendo.

"É verdade, sofro em saber que em oito meses arruinei toda a minha vida, e não foi só isso... meu Deus, como pude... e os filhos da Ângela, que será deles? É só sofrimento. Consegui, me dou parabéns, de uma só vez desgracei duas famílias, a minha e a da Ângela. Aliás, três, imagino como está a família da Adelita. Ângela, meu amor, me perdoe, que saudades... Como poderei esquecer nossos momentos tão mágicos, nosso passeio a pé, de madrugada, em Petrópolis. Linda, sorrindo para mim, só com o vison em cima do corpo. Onde você está? Eu sei, presa na minha mente. Não agüento esta angústia e esta dor. Deus... Deus... Preciso parar. Pensar nisso não leva a nada."

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Rasguei muitas páginas assim. Na época, só não acabei com minha vida por causa dos meus filhos, para não causar mais sofrimento.

Uma noite, Nilson apareceu nas grades da janela. Ele ficava à disposição do diretor até este sair, por isso era sempre o último a entrar no dormitório. Assim, não estranhei e me aproximei para saber do que se tratava. Era um recado do diretor:

— Pega suas coisas e vem jogar futebol.

O grupo reunia funcionários e internos, e jogava bem. Eu estava completamente fora de forma. Apesar disso, corri, dei alguns chutes e, por que não dizer, me distraí bastante. Depois dessa primeira vez, pelo menos uma vez por semana jogava junto com eles. Naquela primeira noite esportiva, o diretor teve uma longa conversa comigo. Queria que eu voltasse ao convívio.

— Não adianta você ficar deitado no beliche, querendo se esconder da vida. Levanta a cabeça, você vai ter que enfrentar muita coisa. Seja forte, um dia tudo isso vai ficar para trás.

Alguns dias depois, avisaram-me que em breve iria a Cabo Frio para o sumário de culpa. Além disso, recebi um recado de meu pai dizendo que o habeas corpus tinha sido encaminhado e poderia ser julgado a qualquer momento, dessa vez, no Rio de Janeiro. Soube disso no intervalo de um treino de futebol. Estava tão cansado, e prestando atenção nas instruções do Tião, nosso jogador principal e treinador, que nem dei importância ao que Nilson me dizia. Só caiu a ficha quando ele riu e comentou:

— Aí, menino, não ligue para nada, o destino que resolva os problemas...

Disse isso com tanta alegria e sinceridade que até perdi a concentração e dei uma paradinha na quadra. Juntei todas as minhas forças e voltei para o treino. Às vezes, no desespero, sempre pedia a Deus que me ajudasse. E acredito que fui atendido, podendo jogar futebol nessa época. Sempre que entrava no campo, virava criança.

A tarde, papai foi me visitar, junto com o dr. Evandro. Queria que eu ficasse tranqüilo na audiência em Cabo Frio.

— Ouça as testemunhas de acusação com atenção e calma, não se preocupe se estão falando a verdade ou se é alguma mentira. Estaremos lá, e muito atentos.

Quando acabou de dar as instruções, o dr. Evandro se despediu, e falei para papai:

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-— O Evandro está meio misterioso, o que será que está acontecendo?

O velho me tranqüilizou, dizendo que estava tudo bem e que Evandro estava com muita esperança no habeas corpus.

Voltei tenso para o pátio. Tinha de esperar o dia seguinte e voltar a Cabo Frio, olhar para a cara daquele juiz, que fazia questão de deixar claro que não ia com a minha cara. Isso me estressava. Passei o dia amedrontado, andando de um lado para o outro, tomando vários cafés. Dormi mal, e às seis e meia da manhã estava pronto, barba feita, banho tomado, calça e camisa em ordem. Só saí às dez horas, de camburão e com escolta da pm. Antes fui revistado e algemado, mas não me puseram trancado atrás, no sufoco. Fui no banco de trás, no meio de dois dos quatro policiais que me acompanhavam. Ao nos afastarmos do presídio, tiraram as algemas.

— Quando chegarmos ao fórum, temos de colocá-las novamente. Como a audiência seria só à uma da tarde, paramos no meio do caminho para um lanche. Os quatro estavam tranqüilos. Sabiam que eu não daria trabalho e me deixaram à vontade. Cheguei ao fórum algemado, e logo a audiência começou. O juiz não tomou conhecimento da minha presença. Eu não estava nem aí, mas, quando as testemunhas de acusação começaram a mentir fiquei preocupado, quem teria orquestrado aquelas calúnias? Eu era réu confesso, não precisavam de artifícios para me condenar.

Mas nem tudo foram rosas para a acusação. Uma empregada trazida por uma amiga de Ângela para depor contra mim acabou se enrolando toda e contou que tinha depositado, a meu pedido, 79 mil cruzeiros na conta de Ângela. Depois da audiência, ela continuou me ajudando, pois comentou em voz alta:

— Que pena, estraguei tudo.

Para variar, tanto na chegada como na saída da audiência havia uma multidão de jornalistas. Já estava me acostumando com o assédio da imprensa. Como já conhecia alguns jornalistas, parei e declarei que estava proibido pelo juiz de dar entrevistas. Naquela altura, quem estava mentindo era eu.

A volta foi tranqüila. Quando tivemos certeza de que nenhum jornalista nos seguia, paramos para almoçar. Aquela etapa estava vencida. Agora era torcer para o habeas corpus.

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Logo depois do almoço, entramos no camburão e partimos rumo ao presídio. Um pouco antes de chegarmos, fui algemado e alertado de que, entrando no Edgard Costa, aquela camaradagem ficaria para trás. Nem mesmo nos despediríamos, eles me devolveriam e pegariam o recibo acusando o meu retorno.



— Vamos nos despedir agora... boa sorte.

Desde que havia saído de Búzios, no fim de 1976, até chegar ao Edgard Costa, em abril de 1977, nunca analisara com tranqüilidade tudo o que tinha acontecido. Minha vida, meu casamento, meus dois filhos, Ângela e toda aquela tragédia. Foi no Edgard Costa que comecei a pôr a cabeça um pouco mais no lugar, a analisar os últimos anos da minha vida.

Pelo pouco que tinha escrito, ficava claro que era feliz e amava minha mulher e meu filho. Tinha paixão por Ângela, por sua beleza, seu corpo, sua inteligência e sua loucura. Quando resolvemos morar juntos, foi uma decisão conjunta, ela nunca exigiu nada. Adelita, percebendo que algo estava errado, propôs que fizéssemos uma viagem. Convenci minha mulher de que estava tudo bem. Achei que não era necessário, porque em breve iríamos para Punta del Este e passaríamos quarenta dias, como fazíamos todos os anos. Por que Ângela e eu resolvemos antecipar tudo? Estávamos tão loucos que achamos que aquela era a hora? Ou cheiramos tanto que tudo escapou do controle?

Queria virar essas páginas mas não conseguia. Quando recomeçava a escrever, o que saía mostrava que estava com pena de mim mesmo. Tinha vergonha disso.

Os jornais continuavam comentando o desaparecimento de Gabrielle. Evitava falar sobre o assunto com os internos. Eu entrava na quadra para jogar futebol, ou ia para a "praia" e ficava de olho fechado.

Aquela foi uma época difícil, muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Era época do regime militar, do presidente Geisel. O Judiciário entrou em recesso por discordar das atitudes do novo governo. Assim, meu habeas corpus, que seria julgado naqueles dias, teve de esperar o fim da queda-de-braço. Notícias assim me deprimiam. Outra coisa que me abalou foi um recado que recebi do dr. Evandro, de que minha ex-esposa deporia contra mim. Tinha de concordar que Adelita tinha suas razões,

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Mas achava que, por termos um filho, ela não faria aquilo, porque só complicaria a cabeça do menino.



O que ajudava a me distrair era o campeonato de futebol. Tinha perdido a estréia do meu time quando estava a caminho de Cabo Frio. Estreou bonito, ganhou não lembro de quanto, mas foi de goleada. Na segunda partida joguei uns quinze minutos. Entrei quando o jogo já estava ganho, me passaram uma bola de frente para o gol, enchi o pé e... um moreninho que batia no meu queixo calçou a bola. Chutei tudo, o pé e todo o resto. A dor foi horrível. Aí o clima esquentou e saí atrás dele.

— Não corre não, seu filho-da-puta, vou pegar você.

O subtenente, que era o juiz da partida, apitou acusando a falta, mas continuei correndo atrás do agressor. Achei que ia alcançá-lo, mas ouvi a voz de um funcionário, braço direito do capitão Nabuco:

— Cuidado, Doca, pára com isso.

Soou um alarme dentro de mim e parei imediatamente. Fiquei sentado no chão, com muita dor, massageando meu tornozelo.

Quanto à história do "moreninho que batia no meu ombro", era incrível, mas isso era verdade para metade da cadeia. Certa vez estava com alguns internos batendo papo e tomando refrigerante na cantina. Distraídos, assistíamos à pelada. Um dos guardas estava do nosso lado quando, de repente, dois dos jogadores começaram a se desentender. O guarda imediatamente entrou em ação. Soou o apito e foi para o meio do campo. Todos os jogadores se dispersaram e, como ele não estava prestando atenção, não conseguiu identificar os dois briguentos. Só tinha um jeito: castigar os dez. Sozinho no meio do campo, o funcionário olhou para nós, riu e deixou por isso mesmo.

Com o futebol, acabei entrando em forma. Além de treinar e jogar durante o dia, se tivesse jogo à noite eu estava lá. A noite, os funcionários jogavam com alguns internos. Na hora em que escolhiam os jogadores de cada time, eu era sempre um dos primeiros. Só nos campeonatos é que era reserva.

Assim eu ia levando aquela espera interminável. Era julho de 1977. Num domingo de madrugada, fui acordado pelo Nilson, que estava do lado de fora e me chamava em voz baixa. Demorei para entender o que acontecia, mas acabei descendo do beliche e caminhei até a janela. Com ele estavam dois internos e três meninas de programa, todos bêbados.

— Elas querem conhecer você.

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Uma delas se aproximou da janela:

— Me dá um beijo. Quer que eu tire a blusa?

E ria. Nilson pôs o dedo indicador na frente da boca. Estávamos fazendo muito barulho. Imediatamente fiquei preocupado com o Português. Se ele acordasse, iria cagüetar na certa. Sorri para as meninas, fiz sinal para irem embora e voltei para meu lugar. Os participantes da farra eram os meus vizinhos no "Recanto do Luxo". No dia seguinte, fiquei sabendo que o Professor também tinha estado na gandaia. Ele só não apareceu na janela porque tinha ficado no serviço social com uma moça.

Pela manhã, fomos todos surpreendidos: o dormitório foi invadido por funcionários e policiais militares. Mandaram os internos ficarem de pé em frente aos beliches e revistaram tudo. Levaram escoltados o Nilson, o Professor e os meus outros dois vizinhos. Graças ao Nilson, ninguém foi transferido. Mas eles foram mandados para outros dormitórios e ficaram recolhidos por trinta dias, além de perderem a faxina.

O diretor me chamou para perguntar se era verdade que Nilson havia entrado no presídio com mulheres. Respondi que dormira a noite toda, e ele deu uma risadinha e me dispensou.

Nesses dias, conversava muito com o Americano. Tinha esse apelido porque sua especialidade era dar golpes em turistas. Era um cara de 1m 80 de altura, com uma cara superconfiável. Gostava de escolher suas vítimas no aeroporto, de preferência casais mais velhos. Ele sabia que eu me achava perseguido pelo juiz da comarca de Cabo Frio. Estávamos falando sobre os presos que haviam sido indultados no Natal do ano anterior. Ele era um deles e, como os outros, fora prejudicado pela burocracia. Lembrou-se de uma notícia que ouvira de madrugada:

— Você viu o que aconteceu com o juiz de Cabo Frio?

Ele me contou o que tinha escutado pelo rádio: o juiz tinha atropelado e matado uma pessoa perto de Arraial do Cabo. Imediatamente pedi licença e fui até a cantina. Falei para o sr. João, arrendatário da cantina, me trazer o jornal O Fluminense nos dias seguintes. Queria saber se tinham aberto um inquérito.

O sr. João era um homem bom, embora convivesse com criminosos havia muito tempo. Era policial aposentado, e acho que era informante do diretor. Quando contei por que queria o jornal, ele, que não era de falar muito, chamou minha atenção:

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— Não seja burro de querer enfrentar esse juiz, que você se fode de vez.

Entendia a preocupação dele. Eu não queria enfrentar o juiz, a intenção era saber mais do acidente e contar para o dr. Evandro. Folheando os jornais, encontrei uma reportagem que me interessava. Era a respeito do diário encontrado no quarto de Gabrielle. O conteúdo da última página confirmava as declarações que fiz quando interrogado no fórum de Cabo Frio.

Um ou dois dias depois, papai me deixou um bilhete do dr. Evandro, informando que Adelita escrevera uma carta se solidarizando comigo. Se precisassem, estaria à disposição para ser testemunha de defesa. Quando li o bilhete, dei um pulo. Levantei os braços como se tivesse marcado um gol e soltei um urro. Alguns internos se aproximaram, perguntando se era notícia de algum alvará de soltura.

Aquela seria uma semana muito importante para o campeonato de futebol, dois times tinham sido eliminados, e no fim de semana seria conhecido o campeão. Um dos times que disputariam a final era o meu. A sexta-feira chegou, e joguei boa parte da partida. Foi um jogo duro, e deu empate, com decisão por pênaltis. Meu time foi o campeão, e logo após o jogo o capitão Nabuco entregou a taça. Tião era o capitão dentro do campo, mas no registro do grêmio o capitão era eu. Tive que receber o prêmio, junto com algumas vaias dos inconformados, que achavam que eu tinha trapaceado no sorteio da formação dos times. Depois da entrega da taça, para surpresa de todos, apareceu um funcionário, que cochichou alguma coisa no ouvido do diretor. Antes de sair da quadra, ele pegou o microfone.

— Os internos que foram indultados no Natal podem arrumar suas coisas e ir para a secretaria. Os alvarás de soltura estão em cima da minha mesa.

Era 7 de julho de 1977, o indulto fora concedido no Natal do ano anterior... Só me despedi do Americano. Pedi licença a um funcionário e o acompanhei até a porta.

No fim de semana recebi a visita de vários amigos. No sábado vieram lide Lacerda Soares, Ricardo Amaral e Guto Vidigal. A impressão que dava é que tinham marcado um encontro. No domingo vieram Raul, Ana Maria Souza Dantas, mamãe e, como não podia deixar de ser, Papai. Mamãe comentou que dr. Evandro tinha contratado um advogado

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de Cabo Frio que, embora não fosse criminalista, era um dos nomes mais proeminentes da cidade. O nome dele era Waldemar, dr. Waldemar. Todos o consideravam um homem honrado e íntegro, seu apoio era importantíssimo. Ela estava animada.

Continuamos jogando conversa fora por umas duas horas. Então chegou o final da visita, todos foram embora e eu caí na real. As visitas de familiares e amigos fazem um bem enorme, mas a despedida e a volta à realidade, esquecida durante aquelas horas, me deixavam muito mal... tão mal que eu entrava em depressão profunda. Só horas depois conseguia me recuperar.

Os dias passavam, e eu estava cada vez mais tenso, esperando o resultado do habeas corpus. Uma tarde, pouco antes do jantar, recebi a visita do dr. Evandro. Ele vinha de Cabo Frio e estava sozinho. Veio me contar que eu ainda não tinha sido beneficiado pelo habeas corpus, por conta de um processo de uma rixa em Santos, nos anos 50. Realmente tinha brigado num bar no fim da Enseada, no Guarujá. A briga havia sido feia. Um rapaz da nossa mesa tinha levado um tiro na cabeça e morrera. Abriram um processo, mas, além de não ter participado da confusão, eu era menor e nem havia sido intimado para testemunhar. Os documentos que provavam isso já faziam parte do processo, e o dr. Evandro tinha ido a Cabo Frio justamente para juntar as provas. Ele estava muito animado. Como ainda não tinha data marcada para os desembargadores do Supremo do Rio de Janeiro se reunirem, resolvi continuar pensando em vôlei e futebol. Não queria, como nas vezes anteriores, ter esperança e depois ficar dias deitado no beliche, sem nenhum ânimo.

Para me distrair, continuava a escrever, tentando organizar as idéias, mas não conseguia. Começava com a África, e logo desviava a atenção para a tv. Quando voltava, já era sobre minha infância. Dava uma parada para pensar e, quando recomeçava, punha no papel a primeira puxada de fumo. Passei uns dez dias assim. Uma tarde, estava começando um jogo de vôlei quando reparei num interno que trabalhava na enfermaria e fazia sinais para mim. Queria que eu parasse o jogo para falar com ele, e eu só o conhecia de vista. "O que será que esse chato quer?", pensei. Paramos o jogo e fui ver o que ele queria.

— Doca, ouvi no rádio que em algumas horas você será solto. Seu alvará já está com o oficial de Justiça.

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Esperava aquela notícia de uma hora para outra. Já tinha perdido dois recursos e achava que poderia perder aquele também. Na verdade, lá no fundo, eu tinha esperança. Ao receber a notícia, me senti mal e caí no chão. Fui parar na enfermaria. Como me recuperei rápido, fui para meu beliche e fiquei esperando me chamarem. Reuni alguns internos, inclusive o Português, e doei a televisão para o dormitório. As roupas de cama, os travesseiros e as toalhas, dei para o Mário, que era quem cuidava de tudo isso.

Lá pelas nove horas, o diretor veio me avisar que tinha chegado a hora.

QUANDO O DIRETOR CHEGOU, EU ESTAVA SENTADO NO BELICHE, fingindo que assistia à TV. Não queria demonstrar nervosismo, mas, ao sentir que a hora havia chegado, senti medo. Não sei explicar... acho que tinha medo, ou então vergonha. Talvez meus amigos me rejeitassem. Onde eu iria trabalhar? Tudo isso passava pela minha cabeça enquanto o capitão sorria e fazia um sinal para que eu o acompanhasse.

— Deixa suas coisas aí. Ainda temos algum tempo, vamos até o pátio caminhar um pouco.

Passamos entre os beliches, em direção à saída, e ele ia cumprimentando e brincando com alguns internos. Ao ver o Português, o capitão disse:

— Não vou com a cara daquele cagüeta.

Não andamos pelo pátio como ele tinha sugerido. Sentamos numa pequena arquibancada que dava para a quadra de esportes. Ele olhou bem nos meus olhos:

— Provavelmente dentro de uns dois anos será seu julgamento. Acho que você será condenado, porque há muita pressão por parte da imprensa. Se isso acontecer, você irá para uma prisão que não terá nada a ver com isso aqui. São lugares perigosos, cheios de armadilhas. Esses lugares têm muitos presos e poucos agentes penitenciários para vigiá-los. Numa penitenciária, um sorriso mal interpretado pode ter conseqüências muito sérias. Todo cuidado é pouco. Há um batalhão de jornalistas lá fora. Providenciei alguns policiais militares para escoltá-lo até o carro de seus advogados.

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Ficamos ali sentados sem dizer nada, olhando para nossos pés. Alguns internos foram autorizados a me acompanhar até a secretaria. Nilson tinha dado um jeito e era um deles. Estavam à minha espera no portão que dividia os dois pátios. O diretor, vendo-os, sorriu. Estendeu a mão e desejou boa sorte. Nilson carregou a pouca bagagem que eu tinha e, junto com os outros, caminhou comigo aqueles poucos metros que faltavam para a minha liberdade. Pouco antes da secretaria, nos despedimos. O diretor estava me esperando com o oficial de Justiça. Não sei exatamente o que aconteceu, se assinei alguma coisa ou se apenas peguei aquele tão esperado habeas corpus e saí.



Lembro da cara emocionada do meu pai e do dr. Arthur Lavigne, mas não tenho certeza se o dr. Ilídio e o dr. Técio também estavam lá. Quando finalmente cheguei à rua, fui atingido por centenas de flashes e perguntas que vinham de todos os lados. Não dava para identificar ninguém. Os flashes me cegavam, só ouvia o pipocar das lâmpadas. Seguindo os conselhos de papai, caminhei com minha escolta sorrindo para todos que estavam ali, entrei rapidamente num táxi que nos esperava e parti imediatamente rumo à casa dos meus tios, em Santa Tereza, no Rio de Janeiro. No caminho, conversamos pouco. Olhava tudo o que estava à minha volta, mas não sei se via alguma coisa ou se apenas curtia a liberdade.

QUINZE DIAS DEPOIS, ÂNGELA E IBRAHIM CHEGARAM E SE HOSPEDARAM conosco. Vinte e quatro horas depois seria a festa. A semana tinha sido agitadíssima. Como sempre, alguma coisa atrasa e deixa a dona da festa a mil. Mas quando os dois chegaram estava tudo pronto, e passamos o dia seguinte numa boa.

Quer dizer, acho. Sempre gostei de receber os amigos ou de ser recebido por eles, só que desta vez vinha muita gente em casa. Quando isso acontecia, só tinha um jeito de a festa ser boa e pegar fogo. Era todo mundo ficar de pileque, para descontrair o ambiente. Por isso falei para os garçons não pararem de passar as bandejas com bebidas.

Nas semanas que antecederam a festa, Ângela e eu nos encontramos poucas vezes. Ela esteve ocupada com problemas familiares e por alguma razão não pude ir ao seu encontro. Falamos muito por telefone, e nem mesmo

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distância imposta por nossas obrigações nos fez parar de falar, planejar vivermos juntos. Conversamos muito sobre a dificuldade que teríamos com Ibrahim e com minha mulher. As razões eram claras: ambos gostávamos de nossos parceiros e um era amigo do parceiro do outro.



Uma semana antes da festa, Ângela esteve alguns dias em São Paulo, hospedada com Joana. Avançamos muito nos planos de viver juntos definitivamente. Não tinha jeito, no momento certo escaparíamos sem aviso, na moita, da maneira mais feia. Era mais fácil para nós agir covardemente, sem olhar para trás. Nunca nos drogamos tanto como naqueles dias. Acho que era onde íamos buscar coragem.

A organização da festa havia sido perfeita. Pouco antes de os convidados chegarem, andando pela casa, constatei quanto a casa era boa para uma festa daquelas. A iluminação, tanto dentro como fora, estava exata. As flores, o bar, a mesa, os garçons...

Fui para o jardim e caminhei até onde acabava o gramado e começava uma rampa que descia para a garagem. Olhando de lá o meu coração apertou. A casa estava linda e, muito mais que isso, eu gostava dela... muito, muito mesmo. Estava olhando aquilo tudo quando Ângela apareceu no terraço. Linda, a meia-luz, ela vinha caminhando em minha direção, mostrando toda sua sensualidade. Seu andar era felino. Aquela aparição, no exato momento em que constatava que amava a casa e tudo o que ela representava — que ela era o meu canto, com minha mulher e meu filho —, misturou toda a minha cabeça. Arrastei Ângela para trás de uma árvore e comecei a beijá-la delicadamente. Com o vestido que ela usava, seria fácil fazer amor com ela ali mesmo. A excitação que sentia era muito forte, seu cheiro de fêmea sempre causava aquela sensação. Puxei-a pela mão e caminhamos até o terraço. Ninguém estava por ali. Enfiei a mão no bolso e, falando que precisávamos nos acalmar, abri um farnel que tinha recebido naquela tarde. Molhei o dedo na língua e enfiei no papel, encostei em sua narina, esperei ela aspirar e passar meu dedo em sua gengiva, segurando seu punho. Repeti o movimento e fiz o mesmo. Ela ria.

— É assim que vamos nos acalmar?

Olhei de relance para a sala, e o garçom apareceu avisando que os Primeiros convidados estavam entrando. Cheguei ao hall puxando Ângela Pela mão. Minha mulher estava lá, sorrindo para um fotógrafo amigo, o riroseli, que trabalhava junto com a colunista Alik Kostakis, minha amiga do coração. Ele sempre era o primeiro a chegar, fotografava as pessoas

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que interessavam e ia para outra festa. Acho que aproveitou e fotografou Ângela e minha mulher, que estava muito elegante. O Ibrahim chegou. Não sei se veio direto do aeroporto naquela tarde, ou se já estava lá. Lembro da reportagem e da parafernália toda, holofotes, câmeras etc.

Duas horas depois, a casa estava cheia. Tinha gente saindo pelo ladrão, cariocas e paulistas se misturavam. Gente da velha guarda, um pessoal mais jovem e a nossa turma. Só parou de chegar gente à uma hora da manhã. Daí em diante, o pessoal mais velho, que havia chegado mais cedo e já tinha jantado, foi saindo.

Ângela e eu tínhamos combinado de ficarmos comportados, e só trocávamos olhares. Controlava o assédio da rapaziada... caíram matando. A bem da verdade, eles tinham toda a razão, ela estava um arraso.

Ibrahim, muito experiente, escolheu começar a entrevista no momento em que a festa estava no auge, com convidados nas salas, no jardim e em pequenos grupos, conversando em volta da piscina. Tudo isso, e mais a música a toda, fazia daquele o momento certo. Acho que a entrevista apareceu duas semanas depois no Fantástico. Minha mulher, muito inteligente, soube responder sem peruagem e sem cair nas armadilhas que os cronistas armam, mesmo quando são grandes amigos dos entrevistados.

Depois da entrevista, a festa continuou alegre. Não precisava ficar preocupado com a vizinhança. Estávamos em 1976, e naquela região do Morumbi havia pouquíssimas casas. O dia já estava raiando quando os últimos convidados se despediram.

A festa tinha chegado ao fim e nós quatro também. Depois daquilo tudo estávamos acabados. Não me lembro de termos ficado bebendo depois, para comentar a festa e a entrevista. No começo da noite, quando estávamos no jardim, Ângela e eu tínhamos combinado de dar um jeito de nos encontrar depois da festa. Mas nada aconteceu. Só a vi novamente no dia seguinte, lá pelas duas da tarde. Ela e Ibrahim fizeram uma pequena refeição e voltaram para o Rio.

Depois daquele fim de semana, nossos encontros continuaram aqui e lá, como antes. Só que avançamos no nosso plano de viver juntos. Foi um momento muito difícil, vivíamos brigando. Apesar de eu estar feliz com os períodos que ela conseguia passar aqui, sentia muito ciúme. Joana recebia muito, e as noites lá eram agitadas. Uma vez a discussão esquentou, e Ângela voltou para o Rio. Mas no fim da tarde seguinte estava de volta, e eu fui esperá-la no aeroporto.

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Não era só por causa do meu ciúme que brigávamos. Quando ela cismava que eu tinha feito amor com minha mulher, era um inferno. Um dia, levando-a de volta para a casa da Joana, ela disse mais uma vez que tinha de decidir. Que a vida que levávamos era muito sacrificada, que tínhamos de parar com a ponte aérea.

- O que estamos esperando? Vamos passar a vida planejando?

Ela passou três dias aqui, e eu mal fui para o escritório. Estivemos juntos o tempo todo. Voltamos a falar sobre o assunto numa tarde que passamos na casa do Francisco. Chegamos a combinar que eu sairia de casa dali a poucos dias, apenas com algumas malas, numa hora que não chamasse atenção. Só de escrever sobre isso minha boca seca. Na verdade, eu também achava que a vida que levávamos era impossível. Mas não tinha coragem de executar nossos planos. Naquela tarde, na casa do Francisco, não tinha certeza de poder fazer o que estávamos combinando.

Depois de alguns dias, telefonei para o Rio e avisei que não poderia tomar nenhuma atitude. Meus sogros estavam passando uma temporada na Europa, e eu tinha receio de que minha mulher se sentisse muito só. Ângela ficou furiosa, me xingou, disse que eu era covarde e que não a procurasse nunca mais. Não atendeu ao único telefonema que dei para explicar e fazê-la compreender minha situação.

Daí em diante, procurei não pensar mais no assunto. Enfiei a cara no trabalho. Tinha muita coisa a fazer, pois vivia deixando tudo para depois.

Ficamos rompidos uns quinze dias, e durante esse tempo encerrava o expediente na quinta e ia para a fazenda com minha mulher. Se antes eu já bebia, naquela época exagerei. Tomava caubóis o dia todo, tanto durante a semana como na fazenda. O importante era pensar unicamente nos negócios e na família. É impressionante o efeito da bebida num momento de dor. Eu bebia muito e não ficava de porre. Levava a vida normalmente e- quando estava na fazenda, jogava cartas, nadava e andava a cavalo. Foram dias difíceis, em que procurava mostrar normalidade, mas sentia muita saudade de Ângela.

Com a família ou trabalhando, eu estava bem, mas nos momentos em que ficava sozinho sofria muito. Perguntei-me muitas vezes como tinha entrado numa fria daquelas. Não era um adolescente inexperiente. Cansei de Pensar: "Sou um babaca. Esse pensamento me dava força para não Procurá-la mais. Se conseguisse esquecê-la, tudo ia ficar bem. Mas muitas Vezes tive vontade de ligar para ela só para ouvir sua voz e desligar em

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seguida. Outras vezes, me imaginava chegando em seu apartamento de repente, só com a roupa do corpo, e não sair mais de lá. Uma tarde, minha secretária Cida me avisou:

- Ligação do Rio para o senhor. Dona Ângela.

Atendi imediatamente, nem tive tempo de pensar nos planos de esquecê-la. O começo da conversa foi difícil, apesar de me esforçar para não parecer ansioso. Fui carinhoso, como se nada tivesse acontecido.

- Puxa, pensei que eu fosse mais que um caso para você. Acreditei quando falou que me amava e não podia viver sem mim.

Ri, e disse que ela sabia muito bem a verdade, só que eu achava que o momento não era oportuno. Sua voz parecia normal, apesar de ter ficado muda por um instante, quando eu disse que "o momento não era oportuno". Mas logo se recuperou, se desculpou por ter desligado o telefone na minha cara e perguntou se eu iria vê-la ou se preferia que ela viesse para a casa da Joana.

Duas horas depois eu estava no aeroporto esperando por ela. Antes, fui até o Bexiga comprar pó, pois o meu pequeno estoque estava no fim. Se fosse só para mim, daria para mais um ou dois dias. Mas, quando Ângela e eu passávamos o dia juntos, curtindo no quarto, exagerávamos.

Cada ponte aérea que chegava, esperava ela aparecer, via-a descendo a escada do avião. Devo ter dado alguma bobeada, porque de repente ela estava ao meu lado, sorrindo e me entregando sua pequena bagagem. Ficamos uns cinco minutos no carro, nos olhando, nos abraçando e nos beijando. Passamos a tarde juntos, sem tocar em assunto algum que pudesse comprometer aquela lua-de-mel.

Nos dois dias seguintes, antes de ela voltar para o Rio, passamos duas ou três horas na casa do Francisco, nos fins de tarde. Só então tocamos novamente no assunto, pois contávamos com o apoio e a ajuda dele. Ficou combinado que ela iria para o Rio e, quando voltasse a São Paulo, num momento que fosse oportuno, ela e Francisco iriam comigo até a porta de casa, para me ajudar com as malas. Faríamos isso com meu carro, e em seguida partiríamos para o Rio. Dali para a frente é que pensaríamos no futuro. Eu sabia que desta vez ia embora e pressentia que a vida nova tinha pouca chance de dar certo. Tinha certeza de que era um caminho sem volta. Dando certo ou não, a vida nunca mais seria a mesma. Voltar para a minha mulher e meu filho, depois daquilo tudo, seria impossível. Como sempre acontecia na minha vida, depois de bater o martelo numa decisão, por mais difícil que fosse, ficava tranqüilo.

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NA CHEGADA A SANTA TEREZA, DEI COM OUTRO ENXAME DE JORNAlistas. Pedi que papai me esperasse com meus tios e me deixasse sozinho com os repórteres. Fiquei um bom tempo com eles. Respondi a todas as perguntas de bate-pronto. Não importava se devia ou não respondê-las, se iam ou não me prejudicar no julgamento. Que se danasse, queria era ficar livre daquilo. Depois de algum tempo, pedi que me desculpassem e me despedi, prometendo que no dia seguinte atenderia a todos novamente. Perguntava a mim mesmo o que estava acontecendo. A imprensa havia enlouquecido? Ou, amordaçada pela censura, seu melhor assunto era eu? Não olhei para trás e subi as escadas da casa. Os meus tios me acolheram como sempre, com muito carinho, ainda que já tivesse dado muito trabalho a eles, quando era jovem e ia passar temporadas lá. Enquanto papai telefonava para São Paulo e tomava algumas providências, sentei junto a eles e, entre alguns uísques, conversamos um pouco. Eram duas pessoas que eu amava e respeitava. Tia Vera perguntou:



— E agora, o que vai ser, sua vida vai continuar sendo uma aventura?

A pergunta não era agressiva, tia Vera era muito amiga. Minha resposta foi idiota, e ela chamou minha atenção imediatamente. Eu disse:

— Sempre pedi a Deus que me protegesse... Ela me interrompeu:

— Deus não tem nada a ver com isso. Não misture as coisas, assuma responsabilidade pelo que você faz.

Olhei para aquela mulher amada por todos que a conheciam. Fiquei ao seu lado, abraçando-a com todo o carinho. E comecei a responder sua pergunta novamente:

— Não sei, tia querida, não tenho a menor idéia. Ainda vou ter que pensar sobre isso.

A campainha tocou e a empregada veio perguntar se eu ainda iria precisar do táxi. Com a confusão da chegada, ninguém tinha pago ao motorista, que era dali mesmo, de Santa Tereza. Já estava chamando papai para pagar e dispensar o táxi quando tive um estalo. Estava preocupado com o dia seguinte. Teria de ir para o aeroporto e embarcar para São Paulo. A imprensa, na certa, estaria me cercando desde cedo. Disse

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para papai não se preocupar, eu falaria com o motorista. Dei uma olhada para conferir se não havia ninguém da imprensa e saí.

Combinei com o motorista uma viagem para São Paulo, às quatro da manhã. Assim ele descansaria um pouco. Dei-lhe dinheiro para que enchesse o tanque, pois não queria parar para abastecer. Quando entrei e contei a novidade, todos ficaram meio surpresos, mas logo me entenderam. Naquela madrugada, voltei para São Paulo, sem problemas nem perseguições da imprensa. Antes, comi e descansei um pouco, junto com tia Vera e tio Tito, que ficaram comigo até enquanto eu cochilava. Minha tia faleceu pouco tempo depois, parece que adivinhara que não nos veríamos de novo.

A viagem foi tranqüila, e às dez da manhã eu já estava na casa da minha mãe, no Morumbi. Entrei rapidamente, antes que alguém percebesse minha chegada. Meu pai continuou no táxi. Minha mãe, que me esperava na sala de visitas, me abraçou e me beijou muito. Seu carinho me fez chorar. Com isso relaxei e fui descansar.

Acordei só no dia seguinte, numa boa, sem sustos. A casa era grande e eu tinha total privacidade. Fiquei rolando na cama, pensando na vida um bom tempo. A primeira coisa que faria seria ver os meus filhos. O Raul, o mais velho, provavelmente já estaria em casa, esperando eu acordar. Com o Luis Felipe era mais complicado. Eu já tinha problemas com o meu sogro, que não queria deixar minha mãe ver o neto.

E tinha de trabalhar o mais rápido possível. Estava quase sem dinheiro. Minha empresa estava nas mãos de outros, e havia perdido a renda que vinha de meus negócios de compra e venda de dinheiro, que também não teve continuidade. Estava no mato sem cachorro.

Levantei, fiz a barba, tomei banho e pedi para servirem o café-da-manhã no quarto da minha mãe. O café veio junto com a informação de que a casa estava cercada pela imprensa. Não me preocupei, falei para minha mãe que iria atendê-los para que fossem embora, pois só estavam fazendo o trabalho deles. Ela achou que a idéia era razoável. Acabei meu café e fui ao encontro da imprensa, que me esperava na frente da casa.

Fui imediatamente cercado pelos repórteres e comecei a responder a suas perguntas. Todas muito difíceis naquele momento da minha vida. Mas estava dando conta do recado. A uma certa altura, alguém perguntou por que eu havia trocado de advogado. Aí me ferrei... Dei uma resposta cretina, mas fiz sem querer:

— Porque galo em galinheiro alheio é galinha.

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Queria apenas dizer que o primeiro advogado, o ilustre professor doutor Paulo José da Costa Jr., que também era meu amigo, não era do Rio. A entrevista continuou, sem que eu percebesse a gafe.



Depois de algum tempo, consegui me desvencilhar das perguntas dos jornalistas e voltei para casa. Passei o dia quieto, sem sair. Recebi visitas de amigos e parentes, e o convite para trabalhar numa corretora de valores. À noite, mais alguns amigos apareceram. Só meu amigo e irmão, Chiquito, filho do meu padrasto, não apareceu. Ele não se dava bem com seu pai, mas nos falamos várias vezes por telefone. Quando fui dormir, estava tudo calmo, e meu padrasto e amigo Luiz Cunha Bueno, mamãe e eu nos recolhemos em paz. No dia seguinte, dona Leonor — Dono —, que tomava conta da casa e tinha criado minha mãe, meu irmão e, por último, eu, entrou no meu quarto às dez da manhã, sentou na minha cama e disse:

— Dormiu bem? Depois vá até o quarto da sua mãe, que deu um fuzuê danado você chamar um tal de doutor Paulo de galinha.

— Dono, eu só quis dizer que ele não era do Rio.

— É, mas ele falou para sua mãe que quer uma retratação pública. Nem tomei café direito, e fui logo falar com minha mãe. Ela estava calma, dizia que somente um jornal tinha publicado aquela frase infeliz. E continuou:

— Também não era para o Paulo ficar tão ofendido. Telefonei para o José Carlos Dias e ele acompanhará você ao fórum para fazer a bendita retratação.

Alguns dias depois, no fórum da praça João Mendes, me desculpei publicamente, perante testemunhas e toda a imprensa. Dr. Paulo e eu saímos do fórum abraçados, e tenho certeza de que nenhum de nós ficou ressentido. Nos dias seguintes, os jornais ainda comentaram, mas logo esqueceram o assunto.

Esperei uns dias para começar a sair de casa, queria que a poeira abaixasse um pouco. Como não abaixou, resolvi tocar a vida pra frente assim mesmo. Fui aos bancos ver como andavam as minhas contas, visitei a Brasilos, que estava com nova diretoria. Precisava transferir minhas ações para o novo proprietário, um empreiteiro argentino que já conhecia de vista. Um camarada legal, que viria a ser meu cliente pouco tempo depois, quando comecei a vender carros na Marcas Famosas, concessionária da Volkswagen.

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Resolvi que tinha de levar o dia-a-dia como se nada houvesse acontecido. Se me olhassem, que olhassem. Precisava recomeçar a vida rapidamente, porque não sabia quanto tempo teria de liberdade.

Ao contrário do que esperava, era bem recebido nos lugares aonde ia. Os amigos que tinha feito nos últimos anos, quer dizer, depois de ter chegado dos Estados Unidos, me acolhiam muito bem. Os amigos da infância mantiveram distância. É claro que Chiquito era um caso à parte, a gente sempre foi muito unido. Deixei passar uns dias e telefonei para Adelíta, mas me avisaram que ela e nosso filho estavam na Flórida, em Fort Lauderdale. Deram seu endereço e telefone. Não estranhei a notícia, porque lembrei que tinha dado autorização para meu filho sair do país.

Depois disso fiquei uns tempos meio perdido. Saía com Chiquito, ia à casa de umas primas de quem eu gostava muito. Num feriado prolongado fui para a fazenda delas em Goiás. Foram uns quinze ou vinte dias difíceis. Parecia que eu estava derrapando. Queria trabalhar, mas tinha o feriadão. Telefonei para alguns amigos empresários que estavam para chegar de viagem. Aquilo me incomodava, eu precisava de dinheiro. A bolsa da minha mãe estava e sempre esteve aberta para mim, mas não era dinheiro que eu queria... O que eu queria? Precisava desmanchar a imagem de playboy e gigolô? Talvez fosse isso. Pelo menos uma coisa boa aconteceria nos dias seguintes: meu filho mais velho, o Raul, chegaria da viagem que tinha feito com um grupo de meninos do colégio.

Sozinho, me sentia sozinho, apesar de nunca ter sido tão assediado por meninas, mulheres e senhoras. O que a imprensa é capaz de fazer... Minha mãe dizia que eu vivia em motéis. Aquilo não me satisfazia. Ao contrário, me deprimia. Chegava em casa e escrevia que não prestava, que deveria ter vergonha de estar saindo e me divertindo. Quando escrevia coisas mórbidas, amassava tudo, punha num cinzeiro enorme que tinha no meu quarto e botava fogo.

Finalmente as férias acabaram. Reencontrei Raulzinho e fui conversar com meu amigo Guto Vidigal. Ele me convidou para trabalhar em sua corretora de valores e eu aceitei, até porque já dominava o negócio. Ali eu estava em casa. Guto me conhecia bem, já tinha trabalhado para ele. Negócios de compra e venda de dinheiro são muito rápidos e, bem trabalhados, ganha-se bem. Mas eu não tinha coragem de ligar para os homens de negócios e para grandes empresas, me sentia constrangido... Os jornais continuavam falando de mim.

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Além do mais, mamãe havia combinado com o Salomão Schwartzman uma entrevista, que foi feita no jardim da nossa casa e tinha acabado de sair nas bancas. Achei a entrevista fora de hora e, sei lá, que merda, ela atrapalhou minha cabeça de vez. Não tinha peito para fazer meu trabalho. Depois de alguns dias telefonei para um amigo e investidor, que, além de jogar na bolsa, era um dos maiores empresários no ramo de automóveis. Eu já tinha trabalhado com ele no começo da década de 1960. Era o Valdomiro Gouveia Ferrão, conhecido como Miro. Conversamos sobre os velhos tempos e, depois de alguns minutos, passamos a falar sobre investimentos. Eu ia falando com ele e pensava: "Não tenho coragem de falar com os empresários... fico constrangido. Mas trabalhar numa loja de automóveis é outro caso. Só vou ter que atender os clientes". Interrompi nossa conversa sobre investimentos e contei a ele minhas dificuldades. Pedi que me aceitasse como vendedor em sua loja, nas bocas da alameda Barão de Limeira. A resposta dele foi a que eu queria:

— Pode começar agora mesmo.

TERMINEI A CONVERSA COM MIRO E FUI CONTAR A MINHA DECISÃO para o Guto. Não precisava fazer cerimônia com ele. Éramos amigos e, no fundo, ele não precisava dos meus serviços.

Fazia pouco tempo que estava fora da prisão. Meu balanço nesse curto período: tinha quebrado a cara em entrevistas idiotas, havia pedido desculpas publicamente ao dr. Paulo, tentara arrumar trabalho numa corretora de valores e, agora, ia vender carros na boca. Fora a minha vida sexual, que, em vez de me dar prazer, confundia ainda mais minha cabeça.

No dia 15 de agosto de 1977, escrevi: "A decepção de ver que no mundo aqui fora, apesar da liberdade de que gozam, os cidadãos vivem em uma selva tão grande ou maior que nas prisões".

Na verdade, estava decepcionado. Tinha ansiado tanto pela minha liberdade "e, agora que estou livre, me encontro perdido e desorientado".

No meio de tudo isso, recebi um telefonema da Celita, prima e amiga de muitos anos. Ela sugeriu que fosse tomar um café em sua casa e conhecesse um amigo, o padre Dario. Achei uma ótima idéia, assim Poderia vê-la. O encontro foi marcado para dois dias depois.

Conversei um bom tempo com o padre Dario. Ele ouviu pacientemente todas as loucuras que estavam embaralhadas na minha mente.

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Quando conseguiu falar, transmitiu uma mensagem de paz, amor e compreensão. Lembro bem de suas palavras: "O mais bonito da vida é o ser humano. Devemos dar e receber amor para sermos felizes". Até hoje reflito sobre essas palavras.



Comecei a trabalhar na Miro Automóveis. No primeiro dia, um funcionário — que tinha trabalhado comigo anos antes —, o Nando jogou no bicho o número da chapa do meu carro: 0610. Deu na cabeça. Daquele dia em diante, todos os dias, joguei naquele número.

Ia tocando a minha vida, da loja para casa, de casa para a loja.

Nos fins de semana ia para a chácara da minha cunhada em Jaboticabal. Bebi muito naquela época. Era angustiante esperar que a Justiça marcasse a data do julgamento. Como não procurava os amigos para não constrangê-los, meu melhor companheiro era o uísque. Sabia que beber não resolveria os problemas. Em novembro, escrevi: "Logo após a saída da prisão, que suportei pelos remédios que tomava, tive momentos de alegria. Fui rodeado por novos amigos, que até hoje não sei se eram amigos ou faziam média. Sei que eles sumiram. Substituí remédios e amigos por álcool e, por algum tempo, deu certo".

"Mas agora resolvi parar com as falsas soluções e senti o grande peso da saudade, da solidão e do arrependimento. Tenho esperança de que com o passar do tempo consiga viver em paz novamente e que possa fazer alguma coisa útil pelos outros. Espero que não tenha vindo ao mundo só por vir e para terminar com a vida da Ângela, que tanto amei e ainda amo. Creio que só agora, sem álcool e sem remédios, estou conseguindo me encontrar. É muito duro, espero que Deus me ajude."

Andava irritado por ser alvo de curiosidade e por não ter notícias dos advogados. Enfim, achava tudo um saco. O que fazia? Explodia em cima de alguém. Eduardo Armando era sócio do Miro, me disse algo de que não gostei... saí pelas tampas com ele. Era meu amigo de muitos anos, sorriu e deixou por isso mesmo. Depois, pedi desculpas umas vinte vezes durante o dia. Quando me comportava assim, ficava arrasado.

Um ano depois, eu escreveria: "Por que essa vontade de cagar na cabeça de todo mundo? Qual é a grande revolta? A injustiça de ter nascido para viver um drama tão pesado? Não compreender que o homem possa viver para destruir e ser destruído? Merda... como se corrige a morte, o assassínio, a pobreza e a podridão? Sou fraco ou forte? Nasci à imagem de Deus? A natureza, a mulher, os prazeres, a mesa farta e, apesar de tudo, a vida".

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Para melhorar minha cabeça, entrei numa espécie de curso de auto-ajuda, muito em moda na época. Eram ensinamentos de controle de mente, ou Mind Control, como eram chamados. Foi um ótimo curso, e me ajudou muito. Fazíamos testes para treinar o que aprendíamos, nesses testes minha parceira era uma moça que eu não conhecia, embora conhecesse seus amigos. Era uma mulher bonita, loira de olhos azuis, uns dez anos mais moça que eu. Ficamos muito amigos e, quando o curso acabou, começamos a sair com freqüência. Fizemos uma viagem bonita pelas praias, que começou no Guarujá e acabou em Itacuruçá, na restinga da Marambaia. Foram dias lindos, que me fizeram bem. Só que me sentia culpado por me distrair, passear, dar risada... isso tudo me incomodava. Logo depois da viagem cada um seguiu o seu destino.



Dezembro chegou, e com ele as festas. Todos sentiam aquele ambiente, o corre-corre das compras de Natal, a cidade enfeitada... e meu coração apertado. Passei as festas em família, quieto no meu canto. Um pouco antes do dia 24, minha mãe foi para a praia. Fui para Jaboticabal com minha cunhada, meu irmão e seu casal de filhos. Foram comigo Raulzinho e uma amiga, Marilena, com seus três filhos.

Quando 1978 começou, meti a cara no trabalho. Sossego, eu não tinha. Sempre havia jornalistas rondando. A loja do Miro era grande, compravam e vendiam vários carros, todos os dias. Era uma loja aberta, entrava e saía quem quisesse. Então era fácil me fotografarem trabalhando. Eu não dava entrevistas, e isso devia irritar o pessoal, porque as manchetes eram sempre pejorativas.

Eu ia levando, conseguia vender e punha algum dinheiro no bolso. Apesar disso, não estava contente. Trabalhar por trabalhar era pouco. Uma noite, o Jean Louis de Lacerda Soares, que era um empresário amigo meu, e testemunha de defesa no meu processo, foi me fazer uma visita. Nossas mães eram amigas íntimas. Ele era dono da Marcas Famosas, onde eu já tinha trabalhado. Quando estávamos nos despedindo, disse a Jean Louis que gostaria de sair da boca e voltar a trabalhar com ele. A resposta foi a mesma que a do Miro, quase um ano antes:

— Pode começar amanhã.

Duas coisas aconteceram antes de eu sair do Miro. As duas me ajudaram. A primeira foi no dia seguinte, quando cheguei à loja e encontrei o Salomão. Ele queria outra entrevista. Estava preparado, tinha um gravador e, como sempre, estava acompanhado pelo fotógrafo japonês.

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Dei a entrevista na hora. Ele era sério, a entrevista só poderia ajudar. A segunda e mais incrível foi a que mais me ajudou. Eu continuava a jogar no número da chapa do meu carro, mas, como pretendia mudar de emprego dias depois, quando o apontador do jogo do bicho veio me entregar o papelzinho que comprovava a aposta, paguei uma semana de jogo que estava atrasada e avisei para ele não jogar mais. Fui ao escritório do Miro, no segundo andar, contar a ele a minha decisão de sair da firma e agradecer por ele ter me dado, num momento tão importante, aquela oportunidade. Combinamos que trabalharia mais alguns dias, para esperar um vendedor que estava de férias. No dia seguinte, no começo da tarde, estava sentado no pára-lama de um dos carros quando vi o Miro quase despencando da escada do escritório. Ele ria e gritava:

— Você ganhou, Doca, você ganhou. Deu o número inteirinho, pode comprar o carro que queria tanto!

Eu gelei. Contei que havia suspendido a ordem do jogo diário. Miro pôs a mão na cabeça e disse:

— Jogo é assim mesmo. No dia que você não joga, dá na cabeça.

E ficou me consolando. Eu estava no café, no fundo da loja, quando apareceu o Careca, o apontador. Vinha rindo, a distância entre nós era de cerca de cinqüenta metros. Quando me viu, balançou a cabeça. Avisei ao Miro:

— Mesmo ele sendo mais velho, se vier me gozar, vai levar uns tapas... Careca era pequeno, e chegou com o andar rápido e as mãos para trás.

— Bem, sabe o que aconteceu? Eu joguei para você. Você ganhou 25 milhões de cruzeiros.

POUCOS DIAS DEPOIS DE RECEBER O DINHEIRO, QUE DAVA PARA COMprar um fusca zero, com aquela sensação de sortudo com que a gente fica quando acerta no jogo, me despedi do Miro, do seu sócio e dos meus colegas. No dia seguinte, comecei a trabalhar na Marcas Famosas. Minha função era procurar empresas que tivessem uma frota de mais de cem veículos.

Nos três primeiros meses, trabalhei como um louco. O meu lema era produção: me obrigava a fazer de três a cinco visitas por dia, o que nunca dava menos de dezoito visitas por semana. A primeira visita

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que fiz foi à Rhodia, cujo presidente era amigo de mamãe. Daquele dia em diante, passei a faturar no mínimo vinte carros por mês só lá, todos no sistema de leasing. A segunda foi à Brasilos, minha ex-firma. O novo proprietário comprou cinco kombis. Ao fim de noventa dias tinha vendido ainda para a Tenenge, a CBPO, a Fontoura White, a Cobrasma e a Bombril. Negócios pequenos, e com amigos, fiz muitos. Depois dessa arrancada, comecei a administrar os clientes que tinha conquistado. Em vez de visitar dezoito firmas por semana, passava o dia no telefone. Nem sei quantos telefonemas dava por dia. Vender frotas não é só vender. Tem a entrega, o licenciamento, o seguro e as merdas que acontecem no meio do caminho. Assim, passei fácil pelo ano de 1978. Trabalhei muito, e os resultados apareceram. Em dezembro, na época do Natal, a empresa deu uma festa em que distribuiu presentes para os empregados. No final do evento, recebi o troféu de melhor funcionário do ano.

Quanto à vida pessoal... andava como sempre. Tentei um relacionamento mais sério com Marilena, minha atual esposa, mas ela não agüentou toda a galinhagem que me cercava e que eu, por alguma razão, não conseguia rejeitar.

Até hoje não consigo entender o que se passava na cabeça das pessoas naquela época. A imprensa metia o pau em mim e eu era tratado como uma pessoa muito especial. Ficava assustado quando me pediam autógrafos. Isso aconteceu várias vezes. Numa delas, no viaduto do Chá, fiquei tão revoltado que disse a uma senhora que pedia um autógrafo para a filha:

— Os jornais dizem que sou um gigolô e traficante, é esse o ídolo da sua filha?

A senhora se afastou, reclamando que eu era orgulhoso.

Já nem ligava mais para os jornalistas, levava a minha vida. Eles queriam me fotografar... que fotografassem à vontade. Entrevistas eu não dava. Graças a Deus, a diretoria da Marcas Famosas e a maior parte dos meus colegas se davam bem comigo e me ajudavam a levar aquela situação.

E eu continuava tendo todo o apoio da família. Minha ex-mulher e meu filho tinham voltado. Ele me visitava uma vez por semana, e meu relacionamento com a sua mãe era o de bons amigos.

No réveillon, apesar de ter alguns convites para a passagem do ano, havia resolvido ficar sozinho. Eram quase dez da noite, estava no meu quarto vendo TV quando o telefone tocou. Era Marilena, me convidando para passar com ela a virada do ano. Fui, e daquela data em diante ela

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nunca mais saiu da minha vida. Nós já éramos amigos de longa data. Eu a tinha conhecido no começo da década de 1950, quando fui passar uns dias no apartamento do Guarujá. Ela era amiga da minha irmã de criação — Zildinha, filha do meu padrasto. Como freqüentávamos o mesmo grupo e o mesmo clube, vivíamos nos esbarrando. Além do mais, meu filho mais velho era amigo dos filhos dela.



Depois disso, meu cotidiano mudou bastante. Trabalhava o dia todo correndo atrás dos compradores das empresas e em seguida ia para a casa dela. Foi um bom tempo aquele. Marilena tinha duas filhas e um filho: Adriana, então com dezesseis anos; Claudia, com catorze, e Zé, com doze. O apartamento dela parecia um clube. A porta nunca estava trancada, os jovens entravam e saíam à vontade. Inclusive meu filho, que havia muito se considerava de casa. A convivência com eles me ajudou bastante, eu não pensava só em coisas tristes. Tinha encontrado um caminho para levantar o meu moral e ter esperança novamente. De vez em quando tinha uma recaída, porque o assédio continuava e nessas ocasiões Marilena dava um tempo em nosso relacionamento. Mas logo voltávamos às boas.

Meu trabalho também ia bem, aumentara em muito a minha clientela. Apesar de tudo, eu tinha momentos de depressão, principalmente quando sentia que a data do julgamento estava se aproximando. Isso fazia tudo voltar novamente. A imprensa aos poucos ia aumentando a pressão. Eles não sabiam a data, e tampouco eu, mas pressentíamos que a hora estava chegando.

Naquela época, raramente escrevia. Mas em 15 de agosto de 1979 registrei a minha tensão: "A espera continua, é duro demais. Toda vez que me sinto próximo do julgamento tenho medo. Aliás, nem sei se é medo, talvez seja angústia. Nestes últimos dias não tenho conseguido me controlar. As recordações estão de volta, o remorso e a solidão também. Mais uma vez pergunto: onde está o ombro de Deus para eu chorar, pedir desculpas e me afogar na imensidão de seu amor? O que faz do ser humano o que ele é? Bom, mau, rico, pobre, trabalhador... todos temos nossos caminhos, e não está em nosso poder delineá-los. Não quero arranjar desculpas, nem pôr a culpa no destino, mas tenho pensado muito... o que será que vim fazer aqui?".

Uma semana depois, eu prosseguia: "Nada é normal na minha cabeça, não consigo me concentrar em nada, tudo me enche o saco. Levei um ano para fechar um negócio de 72 consorciados com os funcionários

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da Arno, e agora estou me lixando. Ruim, muito ruim e nada faço a respeito. Tenho certeza de que vou melhorar, mas está demorando. Hoje levantei duas vezes para ir trabalhar, ir ao banco e fazer outras coisas. Acabei voltando para a cama e agora definitivamente não vou a parte alguma. Meus bons momentos são com meus filhos, Marilena e seus filhos. A ela devo tudo o que me restou, ela representa quase tudo — mãe, mulher, amiga e esperança. Provavelmente não mereço o esforço que ela tem feito para me ajudar. A cada momento sinto que nada mais me interessa. Tenho pavor disso, tenho que reagir".



"Leio o que acabo de escrever e acho tudo ridículo, me sinto covarde. Covarde por não ter atirado em mim quando atirei na Ângela, covarde por não estar sendo forte para enfrentar a vida, covarde por estar choramingando, enfim, um nojo. Não quero que me vejam assim, por isso meu melhor refúgio é meu quarto, onde passei boa parte do tempo depois que saí da cadeia. Quando apareço, faço questão de estar impecável. Vou ganhar esta batalha, custe o que custar... Quanta confusão, quero ganhar a batalha, quero fugir da verdade, quero ter uma nova vida... não quero nada. Puta que pariu... que tudo vá para o inferno... quero ter paz!"

Iavia chegado a hora, eu tinha que me decidir. Sozinho no meu escritório, desliguei o telefone. Ângela e Francisco estavam vindo me buscar, para pegar minhas coisas. Ao pensar nisso, não me sentia pronto, nem tinha nada pronto. Quando caiu a ficha, fui atingido em cheio pela realidade, pelo abismo para onde estava caminhando. Comecei a chorar, engoli o choro e peguei o telefone. Liguei para minha mulher. Precisava que ela não fosse Para casa enquanto eu estivesse lá. Mas, antes de completar a ligação, desliguei e abri a gaveta da minha escrivaninha. Peguei o pó e me servi várias vezes. Depois fui até o arquivo buscar a garrafa de uísque e tomei um um grande gole direto do gargalo. Tudo à minha volta se mexia, me sentia mal. Caminhei até a janela para ver se estavam chegando e tinha a impressão de estar subindo uma ladeira. Angustiado e desesperado, voltei ao telefone. Tinha que me concentrar e continuar com aquilo, embora no fundo do meu Peito eu soubesse que era abominável. Novamente fui até o telefone e então completei- a ligação. Consegui manter uma conversação normal e convidei Adelita para ir ao cinema. Marcamos de nos encontrar num cinema:

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— Dentro de meia hora na porta do Majestic, na rua Augusta. Francisco e Ângela demoraram um pouco, o que para mim foi uma eternidade.

Finalmente chegamos em casa e, enquanto eles esperavam na rua bem em frente ao portão principal, eu arrumava minhas coisas. Nenhum dos empregados se preocupou em me ver mais cedo, pois costumava fazer isso.

Acho que demorei mais do que esperava. De repente, minha mulher se materializou na minha frente. Assim que me viu, e viu as malas, e como já tinha se encontrado com Francisco e Ângela no meu carro, na porta de casa, percebeu tudo. Foi uma cena horrível. Não tenho coragem de contar como foi. O sofrimento e o desespero foram imensos... Espero que Deus me perdoe. Sempre que me lembro daqueles momentos sofro muito, nem dá para explicar o que sinto.

Finalmente, enrolei minhas coisas em alguns lençóis, já que Adelita não me deixou sair com as malas. Fui em direção ao carro e parti, sem olhar para trás. Nem olhei para minha mãe, que encontrei na saída, pois minha mulher a tinha chamado durante a discussão para que impedisse aquela loucura. Joguei todas as fichas naquela história e, para ter a certeza de que não sentiria remorso, me droguei antes de entrar em casa e logo depois que saí.

Durante o trajeto até a casa da Joana, falamos de coisas corriqueiras. Não comentávamos o que estava acontecendo. Ao entrarmos no apartamento, Joana estava no telefone com Ibrahim. Não lembro como ela descartou o Ibrahim, só sei que comentou que ele estava furioso e recomendou que tivéssemos cuidado. Não tomamos conhecimento do conselho. Naquele momento só estávamos preocupados com a montanha de roupa que saía dos lençóis. Enchemos três malas grandes que Francisco emprestou e mais duas malas de mão de Joana. Quando Pedro chegou em casa e viu toda aquela bagunça, junto com os telefonemas do Ibrahim que não paravam, ele disse:

— Vocês estão apaixonados mesmo, mas fizeram uma grande loucura, que vai dar em cagada. Gostamos muito de vocês... Vou abrir uma Moet & Chandon.

A essa altura, Francisco já havia partido. O champanhe e as drogas ajudaram a relaxar e a esconder a angústia que insistia em me atacar. A madrugada começou e, cansados, fomos dormir. Por incrível que pareça, conseguimos. Era a primeira noite de nossa união definitiva. Dormimos abraçados e mantivemos esse costume até o fim. Mesmo quando quebrávamos o pau. No dia seguinte acordamos com preguiça e ficamos por ali mesmo. Tomamos café-da-manhã e voltamos para a cama, e só saímos quando Joana avisou que o almoço estava servido. Depois do almoço, liguei para o

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escritório e falei com meu sócio, o Caio, e com Chiquito, que estavam muito irritados, pois tinham acabado de saber da minha separação. Expliquei-me com os dois e pedi que continuassem os negócios. Dentro de alguns dias, com a cabeça mais tranqüila, definiríamos como as coisas ficariam. Enquanto Ângela falava com a empregada no Rio de Janeiro e pedia para ela arrumar tudo, que chegaríamos em um ou dois dias. A empregada avisou que Ibrahim tinha deixado um recado: para ela não procurá-lo nunca mais.

Ângela ficou preocupada. Ele podia tentar fazer alguma campanha contra nós. Ligou então para a mãe. Ela já sabia, pois o Ibrahim tinha ligado. Ângela então pediu à mãe que contasse aos filhos, para que não ficassem sabendo pelos jornais. Ficamos de visitá-los em mais ou menos trinta dias.

Resolvemos passar o dia com Joana e só sair de lá ao anoitecer. Em algum momento, no fim da tarde, Francisco apareceu. Trazia notícias de muita fofoca a nosso respeito. Como isso já era esperado, não tomamos conhecimento. Antes que ele saísse, ficou combinado que iria ao Rio almoçar conosco, em mais ou menos uma semana.

Só às onze da noite começamos a beber e a usar droga. Estávamos tranqüilos e resolvemos ir para um hotel e continuar festejando sozinhos. Nos despedimos dos amigos, enfiamos nossa bagagem no carro e fomos para o Hotel Jaraguá.

Finalmente estávamos sozinhos: rindo, brincando, bebendo... embriagados pela bebida, pela droga e pelo nosso amor. Ângela, muito alta, adormeceu por algumas horas. Eu estava ligado e continuei bebendo. Então a realidade explodiu na minha cabeça. Pensei na minha ex-mulher e no meu filho. Vi os acontecimentos da tarde anterior como se fossem um filme... e chorei. Não queria me emocionar e, para me defender, droguei-me e tomei alguns caubóis. Como não adiantou nada, fui para o banheiro e fiquei lá, quieto, sentado no vaso sanitário, segurando o queixo com as mãos e olhando para os pés. Se a bebida e a droga não tinham surtido efeito no quarto, fizeram pouco depois, no banheiro. Muito louco, fui deitar e abraçar o meu amor.

No dia seguinte, depois do almoço, pegamos a via Dutra, rumo ao Rio de Janeiro. Fizemos a viagem como se estivéssemos passeando, sem Pressa. Como o dia estava lindo, sugeri pararmos no Clube dos 500. Estava echado, e continuamos o passeio até o restaurante Paturi.

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