O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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Cheguei cedo em Belo e, conforme o combinado, ela estava no aeroporto me esperando. Fomos direto para o hotel. O trânsito estava horrível, e ela aproveitou para me contar detalhes de sua separação do ex-marido, que assinara havia algum tempo, mas que ainda tinha pendências. Finalmente chegamos ao hotel, entramos no apartamento e só saímos de lá para voltar a São Paulo. Nem passou pela nossa cabeça que nos aeroportos e no avião poderíamos encontrar conhecidos. A vinda de Ângela para São Paulo também não fazia sentido, pois o destino dela era o Rio, mas na hora de marcar as passagens resolvemos que ela viria comigo e só voltaria para casa na tarde seguinte. Deixei-a na casa da Joana, mas no dia seguinte, pouco antes do almoço, fui encontrá-la novamente. Ângela só voltou ao Rio porque Ibrahim a esperava desde o dia anterior. No meio da tarde levei-a ao aeroporto.

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Conversamos sobre os últimos dias, que tinham sido ótimos. Nem parecia que estivemos separados por quase duas semanas. O dia estava feio e tínhamos a informação de que os vôos estavam saindo com grande atraso. Ficamos curtindo a espera no bar. Ela estava linda, parecia feliz, cheia de luz. Sua presença chamava a atenção. Mas aquele instante era só nosso.

Os alto-falantes anunciaram seu vôo. Na despedida, pediu que eu passasse o dia seguinte com ela. Ela se levantou e caminhou sem olhar para trás, e eu fui para o escritório. Resolvi ser prudente, e decidi encontrá-la um dia depois do combinado. Ela ficou furiosa, disse que não precisava mais ir, nem procurá-la mais. Quando tentei explicar, bateu o telefone. Fiz várias ligações depois disso, e a empregada dizia sempre a mesma coisa:

- Ela está na casa do senhor Ibrahim.

No fim do dia, angustiado, liguei para a casa de Ibrahim e me informaram que Ângela deveria chegar só na hora do jantar. Fui chateado para casa, enchi a banheira e fiquei pensando na vida. Na verdade, poderia ter aproveitado a oportunidade e salvado meu casamento. Fiquei pensando sobre essas coisas, e com dois uísques na cabeça cochilei. Não sei quanto tempo depois, acordei com a criada batendo à porta.

- Sua esposa avisou que vai se atrasar, e dona Ângela ligou para o senhor.

Esvaziei um pouco a banheira e repus a água quente. Queria me desligar dos meus pensamentos. Não queria pensar na minha vida dupla. Decidi não retornar a ligação e ver o que aconteceria.

Só voltei a falar com Ângela no dia seguinte, depois do almoço. Fizemos as pazes e nos falamos várias vezes depois disso. No dia seguinte, bem cedo, fui para o aeroporto. Não avisei a ninguém que estava indo para o Rio. A intenção era voltar no fim da tarde. Mas a pista estava fechada, não se enxergava nada. Os aviões só começariam a decolar lá pelas dez. Quando chamaram para o embarque, escutei:

- Oi, Doca, ô bonitão... sou eu, lembra de mim?

Olhei para os lados, para ver quem era. Vi uma mulher sacudindo uma passagem e tentando desesperadamente se aproximar. Demorei a reconhecê-la. Era aquela jornalista que estava de porre, na festa em Copacabana. Estava elegantíssima. Ela se aproximou e me beijou.

- Você está indo para o Rio no próximo avião? Confirmei com a cabeça.

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- Preciso de um favor. Vamos trocar as passagens? Vou no seu lugar, tenho uma reunião muito importante. O meu vôo é o terceiro, já estou com a ficha de embarque.



Será que ela se lembrava da festa?

- Desculpe, eu também tenho um compromisso que não posso adiar. Ela deu um adeusinho sem graça e se afastou.

Ângela e eu passamos o dia no quarto, como sempre, e às sete da noite eu já estava em casa.

Primeiro de maio de 1977. Além de feriado era domingo, dia esperado pelos internos com ansiedade, pois é dia de visitas. As salas de visitas ficavam todas tomadas, até as reservadas para os advogados eram cedidas às famílias dos internos.

Para mim foi um dia especial. Além de papai, apareceram de surpresa mamãe e o Raul — o Rá, como carinhosamente chamo meu filho, que na época tinha doze anos. Estávamos todos comentando o habeas corpus pela revogação de minha prisão preventiva, que seria julgado em poucos dias. No fundo, eu achava que ainda não seria dessa vez, alguma coisa me avisava para não ter esperança.

Na verdade, naquele dia tudo ficou em segundo plano. Eu estava contente, meu filho estava me visitando. Era horrível a culpa que sentia por ter saído de São Paulo com Ângela, sem ao menos dar uma explicação ou um telefonema de adeus. Ao vê-lo na sala de visitas, fiquei aliviado. Nem perguntei se estava indo bem nos estudos. Como deveria estar a cabeça de um adolescente cujo pai havia sido preso por descarregar a arma na amante? Apesar de tudo, ele estava ótimo e demonstrava serenidade.

Normalmente, quando acaba a visita, os internos ficam arrasados. Os familiares vão embora, e fica a realidade. A prisão, os guardas, enfim, a rotina. A maior tristeza e decepção era a dos internos esquecidos pelas famílias. Abandonados, sem receber ajuda externa, eram obrigados a Prestar serviços para os companheiros para arrumar algum dinheiro. Lavavam roupa, limpavam o cubículo no lugar do outro, faziam trabalhos manuais que vendiam nas galerias e para as visitas. Se tinham coragem, Podiam tentar atividades mais rentáveis, como o tráfico ou o jogo do bicho. Conheci internos que, fazendo isso, triplicaram suas penas. Sempre

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acabavam voltando, porque, fora da cadeia, continuavam na profissão, que, sem dúvida, é bem remunerada... Na verdade, o caído não tem saída, muitos deles viram indigentes dentro do sistema prisional.



Por essas e outras o final do domingo era angustiante. Eu era um privilegiado, tinha visitas, faxina e algum dinheiro. Ao voltar para o cubículo, tomava cuidado para não magoar os companheiros. Geralmente enfiava a cara num livro ou aproveitava para escrever.

Naquela tarde, quando cheguei ao cubículo, chorei, chorei muito. A imagem do meu filho me abraçando na hora da partida, um abraço apertado de quem não queria sair... era duro, muito duro. Tinha sido egoísta e irresponsável. Tudo por um amor que sempre soube que não poderia dar certo. Não por culpa da Ângela, por culpa nossa, que queríamos tudo da vida. Queríamos os amores, os prazeres, as bagunças e, tenho certeza, queríamos também uma família.

Hoje, lendo o que escrevi no Água Santa, sei que, quando saí de casa e deixei Adelita, eu estava infeliz. Logo que cheguei àquele presídio, em março de 1977, escrevi: "Será possível amar duas mulheres ao mesmo tempo? Os cinco anos que passei com Adelita foram felizes, felizes mesmo. No começo foi um pouco difícil, mas depois tudo se acertou, acho que ela também me amava".

Ângela era muito inteligente e, apesar dos poucos meses de convivência, ela me conhecia bem, o bastante para saber que ao partir com ela, abandonando tudo, eu estava deixando para trás uma mulher que amava. Quantas vezes, no meio das nossas brigas, ela dizia aos berros:

— Quer voltar pra ela, está com saudades?

Saudades era o que não me faltava, sentado naquele beliche. Eram muitas e de várias épocas da minha vida. Da Cachoeira, por exemplo. Era esse o nome da fazenda dos meus avós maternos, perto da via Anhangüera, antiga Estrada Velha de Campinas. Por mais que meus pais quisessem que eu ficasse em São Paulo, para ir ao jardim-de-infância, ao primário, não conseguiam. Eu sofria de asma, e só passava bem na fazenda.

Duzentos alqueires de paraíso: rios, córregos, roças de café, gado, plantações de algodão e uma fantástica tropa de burros e cavalos. Era lindo, no fim da tarde, ver os carroções chegando com os colonos, com a colheita de café ou algodão. Depois de descarregarem, soltavam os animais para descansar e, assim que eles se livravam dos arreios, deitavam-se para espreguiçar. Era um espetáculo, porque eram muitas carroças, puxadas

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por parelhas de quatro ou seis animais. Os cavalos só serviam para montaria e passavam o dia com os fiscais que percorriam as plantações. Quatro desses fiscais praticamente tomavam conta da fazenda, cada um na sua especialidade. Três eram italianos e o administrador era alemão.

A maior parte dos trabalhadores era italiana. Além de cuidar do algodão e do café, eram meeiros em pequenas roças de milho, feijão e, onde havia brejo, arroz. Seus filhos foram meus primeiros amigos. Zé Migott só saiu da minha casa para casar. Zé e eu passávamos o dia pescando, andando a cavalo ou passeando pelos pomares. No fim da tarde, reuníamos a molecada que voltava da roça para jogar futebol. Apesar de o campo ser ótimo, às vezes jogávamos em um dos terreiros de café, que ficava ao lado da casa-grande, que era como chamavam nossa casa. Isso porque meu avô gostava de assistir às peladas.

Lembrar dessas coisas me deixava com o coração apertado, mas me ajudava a viver naquele mundo da prisão, estranho e perigoso.

Depois daquele domingo, os dias foram de grande expectativa. Só pensava no julgamento do habeas corpus. Tocava o meu dia-a-dia do jeito que dava. Ia às galerias levar as listas de livros para serem escolhidos, mais tarde voltava para entregá-los ou retirá-los. Depois, me distraía consertando as capas e folhas dos livros hospitalizados. No cubículo, tentava escrever alguma coisa.

Tinha organizado meus escritos por data, assunto e importância. Assim seria fácil um dia aproveitar aquilo. Mas sempre misturei todos os assuntos. Adorava recordar e escrever sobre o tempo que passei em Goiás. Quando parava de escrever por algum motivo e recomeçava, já abordava outro assunto, como as caçadas que tinha feito na África Equatorial Francesa e na divisa com o Congo Belga, o tempo em que morei na América do Norte etc. E assim eu ia misturando tudo. Viajava pelo passado e conseguia me afastar daquele inferno e da minha consciência.

Uma manhã, quando estava na "a" entregando alguns livros, ouvi chamarem meu nome. Imediatamente percebi que a voz era conhecida. Cheguei um pouco mais perto das grades para localizar de qual dos cubículos vinha aquela voz.

— Doca, sou eu.

Aproximei-me assim que vi que era o Paulista, meu companheiro de cela em Cabo Frio. Apesar do medo que tinha de chegar perto das grades da "a", fui estender-lhe a mão. Ele estava com um aspecto péssimo.

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— Aqui é pior que o inferno. Por favor, pede para me transferirem para a "b". Só ontem cinco foram transferidos para a Ilha Grande.



Claro que eu não podia fazer nada. Assim mesmo, respondi que ia tentar. Falei e cumpri, pedi ao tenente. Ele riu, e disse que iria olhar a ficha dele. Tempos depois, quando fui transferido para Niterói, o Paulista ainda estava na "a". Transferências eram constantes no Ary Franco. Quem estava na "a" queria ir para a "b", quem estava lá queria ir para a "c", e na "c" todos só pensavam em ser transferidos para o presídio Ed-gard Costa, em Niterói. Falavam maravilhas de lá. Até futebol de salão tinha, e os internos não ficavam trancados.

O dia do julgamento do habeas corpus chegou. Não dormi quase nada, de tanta ansiedade. E tudo por nada, pois à tarde, quando papai e o dr. Arthur me visitaram, informaram que o julgamento tinha sido transferido para o dia seguinte, já que um dos juizes não pôde comparecer.

Dr. Arthur estava visivelmente preocupado com a minha ansiedade. Explicou que tinha poucas chances, porque a imprensa ainda fazia muito estardalhaço. A mesma conversa que tivemos quando ainda estava em Cabo Frio, quando o primeiro habeas corpus foi julgado. Fiquei puto da vida, achei inacreditável a facilidade com que a Justiça podia atrasar as coisas. Enfim, não adiantava nada eu espernear. No dia seguinte, fiquei desolado quando recebi um recado do papai, por intermédio de um funcionário:

— Seu pai telefonou e pediu para avisar que vocês perderam por um voto.

Naquela noite, quando o toque de silêncio já havia tocado e eu estava escrevendo, o Baitola, andando de lá para cá, resolveu se servir de uma caneca de café. Aproximou-se de mim e perguntou se eu queria. Fiz que não com a cabeça. Ele deu um passo para trás e atirou seu café em cima de mim. Acertou o meu peito, sujando a camisa, o lençol e o bloco em que eu escrevia. Assustado, sem descer do beliche, olhei para ele e perguntei:

— Que é isso, ficou louco?

A resposta foi lacônica, seu rosto debochando de mim:

— Escorreguei.

Sem sair de seu lugar, Rando, o xerife, perguntou:

— O Doca ofendeu você?

O que fiz em seguida foi puro reflexo, não tive tempo de raciocinar. Rindo, desci da minha cama e disse algo como:

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- Puxa, sempre tratei você tão bem.

Como se fosse abraçá-lo, segurei o Baitola pelos ombros e dei uma becada forte em seu nariz. Teve início um alvoroço. Os companheiros entraram no meio para separar, e o Baitola, que não se defendeu, começou a gemer alto. A confusão chamou a atenção dos cubículos mais próximos. A sorte foi que, àquela hora, os cubículos estavam trancados e o corredor, vazio. O pessoal do C-2 fez sinais, indicando que não havia funcionários por perto. Quando os ânimos se acalmaram, fui fumar um cigarro no terraço. Havia um guarda andando nas grades acima da minha cabeça. Ele estava tranqüilo, não tinha percebido nada. Rando veio falar comigo, estava preocupado. Achava que a administração ficaria sabendo em pouquíssimo tempo. Cagüetes não faltavam. Aconselhou-me a não dormir. O Baitola não era tão bobo quanto parecia e poderia se vingar, pois estava com o nariz arrebentado e sangrando. Eu não entendia a atitude dele, tratava todos com o maior respeito.

Não sei o que passou na minha cabeça, mas não dei atenção à preocupação do Rando. Deitei, virei de lado e dormi.

Acordei pela manhã com a sirene. Tomamos banho e depois todos tomamos café. Quando Apoio passou com o bule, me avisou que os funcionários já sabiam de tudo.

Logo depois do café, o sargento e mais três guardas entraram na cela.

— Se apresentem os dois que brigaram ontem à noite. Permanecemos imóveis. Ele continuou:

— Vão ficar trancados até os dois se apresentarem.

Ia virando as costas quando me apresentei. O Baitola fez o mesmo. O resto do pessoal foi liberado e o sargento avisou que iria nos levar para a delegacia. O agredido para fazer exame de corpo de delito e o agressor para prestar declarações. O Baitola foi logo dizendo que na verdade não tinha acontecido nada, que éramos bons companheiros.

— Expliquem isso para o delegado.

Fiz exatamente o que não se faz com um sujeito como aquele. Disse que só iria depois de falar com o capitão. O sargento se afastou Um pouco, confabulou com os outros guardas e saiu. Os guardas ficaram andando pela galeria sem nos dar atenção. O Baitola veio me pedir desculpas, alegando que tinha tido um momento de loucura. Eu nem respondi, fiquei sentado olhando um livro que estava no meu colo. Não conseguia ler, estava nervoso e com medo do que estava por vir.

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Cerca de duas horas depois, o sargento veio me buscar e me levou ao escritório do diretor. O trajeto inteiro fiquei atento. Tinha medo de ser agarrado pelos funcionários, empurrado para um camburão e parar numa delegacia.



O capitão estava de pé, me esperando em frente à sua mesa.

— Que pisada o senhor deu, não esperava isso. Espero que o senhor tenha uma boa explicação.

Contei exatamente o que tinha acontecido. Após ouvir atentamente, ficou parado na minha frente algum tempo.

— Na prisão, as coisas não se resolvem assim, é muito perigoso. Tenho certeza de que o senhor Nilson o Baitola recebeu um bom dinheiro para provocá-lo e fazer o senhor ir parar numa delegacia. Tenha cuidado, não caia noutra. Foi um repórter que fez isso, ele precisava de notícias novas a seu respeito.

Nem sei o que passou pela minha cabeça depois de ouvir aquilo. Abaixei a cabeça envergonhado e pedi desculpas. O capitão continuou:

— Você vai perder a faxina e ficar uma semana sem visitas. Durante essa semana não poderá sair do seu cubículo.

Então relaxou a postura.

— Não posso deixar de castigá-lo. O pessoal faria comentários e isso despertaria antipatias. O castigo para o Nilson será igual.

Educadamente, o capitão me dispensou. Acompanhou-me até a porta. Aproveitei e pedi para ser transferido para Niterói, para o presídio Edgard Costa.

— Vou pensar — disse. — Lá realmente é melhor, mais aberto, e todos os internos andam mais à vontade. Mas, em matéria de segurança, para você aqui é melhor, pois todos estão trancados, o que evita muita encrenca. Com todos no pátio é mais complicado.

Saí DA SALA DO CAPITÃO ALIVIADO. FICAR UMA SEMANA SEM VISITAS E perder a faxina era muito melhor que responder a mais um processo e ser escrachado nos jornais como rebelde e bagunceiro até atrás das grades. O Baitola já estava no cubículo quando cheguei. Ofereceu-me uma caneca de café e afastou-se sem dizer nada. Fui para meu beliche, peguei um bloco para tentar escrever. Não queria encrenca e, além do

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mais, nós dois teríamos que passar sete dias juntos sem arredar o pé dali. por isso resolvi não tirar a limpo a história de algum negócio entre ele e alguém da imprensa. Se bem que gostaria de saber quem foi o jornalista que me armou aquela armadilha.

Estava tão cansado que nem pedi que algum companheiro fosse à cantina e pegasse um sanduíche para mim. Ajeitei-me no beliche e dormi pesado. Só acordei com o Rando me sacudindo porque já era hora da chamada e todos tinham de estar de pé e responder. Quando o pessoal da cozinha chegou com o jantar, só me servi de pão, que comi com café.

As coisas se acalmaram e, graças a Deus, as conseqüências haviam sido mínimas. Tinha pela frente sete dias sem sair daquele espaço, e iria aproveitar para ler e escrever. Recebia jornais quase diariamente. Papai trazia e continuou a trazer, mesmo sem poder me ver. Além disso, recebia cartas do Brasil inteiro, que eram lidas pela administração antes que chegassem às minhas mãos, assim como dezenas de livros e bíblias. Tudo, inclusive jornais, era doado à biblioteca.

Sem poder sair do cubículo, tive muitas horas para escrever e pensar, e também para me revoltar. Por sinal, é o que mais a gente faz no cárcere, principalmente quando os pareceres dos magistrados não são o que a gente espera. Não me conformava por não ter derrubado a prisão preventiva. Tinha direito à Lei Fleury, era réu primário, com bons antecedentes, emprego e residência fixa. Achava que estava sendo perseguido. Era incrível ter uma lei que me beneficiava e não conseguir fazer valer o direito a ela.

Descarregava no papel todo o meu rancor: "Confesso que a decepção foi grande, mas caí de pé e minha moral está alta. Sinto que Deus me dá força. Não me derrotarão jamais, não me destruirão. Mesmo sabendo que sou discriminado pelo Judiciário, sou forte e continuarei lutando". Era puro desabafo, foram páginas e mais páginas assim. Não era só contra o Judiciário a minha revolta, era contra o mundo, e principalmente contra mim mesmo. Ainda bem que tinha bastante papel, foram dias de autocrítica. Acho que queria acabar comigo: "Não sei do Que estou reclamando. Com 42 anos de idade... fui me apaixonar. Pior ainda, larguei minha família falando sozinha. Cavei meu próprio poço e “cavoucando, cavoucando, até chegar ao fundo". Quando cansava de escrever, escolhia um dos livros que trazia sempre comigo. Um deles era de Castro Alves. Folheando-o, achei uma poesia que vinha a calhar:

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É meia-noite... e rugindo Passa triste a ventania, Como um verbo de desgraça, Como um grito de agonia Eu digo ao vento, que passa Por meus cabelos fugaz: "Vento frio do deserto, Onde ela está? Longe ou perto?" Mas, como um hálito incerto, Responde-me o eco ao longe: "Oh! Minha amante, onde estás?"

E continuava a escrever, sempre com o mesmo humor... "O que aconteceu? Fui egoísta? Muita loucura? Tudo começou por tesão e virou um amor alucinante e trágico. Até nos maus momentos eu a amava. De repente, quando dei por mim, estava tudo irremediavelmente terminado."

Em meio a esse mar de pensamentos que escrevia do jeito que vinham, lembrei da minha primeira paixão, que me fez parar na África, por saber que não tinha condições financeiras para me casar. Daí passei para o tempo em que vivi em Washington, trabalhando na embaixada da Arábia Saudita. E assim foi aquela semana.

No terceiro ou quarto dia de castigo, recebi do diretor um envelope com um texto sobre "A organização das visitas íntimas nas prisões de alguns estados da América do Norte, Venezuela e México". Ele queria que eu traduzisse o texto, que estava escrito em inglês. Deu-me também um dicionário inglês-português. Comecei a trabalhar imediatamente, e com isso saí um pouco da fossa em que me encontrava.

Alguns dias depois, quando já havia sido liberado, fui procurar o tenente, porque o sargento tinha ameaçado me transferir para a "A". O tenente riu, me tranqüilizou e disse que a tradução era um serviço que eu estava prestando, e que isso já era uma faxina. Por isso, o sargento não podia fazer nada sem a autorização dele ou do diretor. O sargento não me suportava. Babava de ódio quando passava por mim nos corredores. Mas nunca tive certeza se esse ódio era verdadeiro, já que ele se dava bem com papai. Quando eu contava para o velho que tinha problemas com o sargento, ele dizia que era impressão minha.

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-— Filhão, ele é gentilíssimo!

Uma tarde, logo depois da "Hora da Ave-Maria", um funcionário entrou no cubículo com o alvará de soltura do Baitola.

— Senhor Nilson, arrume suas coisas e me acompanhe, que você será libertado imediatamente.

Ele arrumou suas coisas e se despediu de todos, inclusive de mim. Mas voltou e ficou confabulando com o xerife. O funcionário já estava impaciente. Conversa vai, conversa vem, Rando levantou e veio falar comigo:

— Dá pra arrumar vinte conto pro Baitola pagar a condução? Dei o dinheiro com mais algum para o lanche. Baitola me abraçou com lágrimas nos olhos.

Nos dias seguintes, quando passava pela "a" rumo à cantina, um gaiato gritava:

— Doca! Vem me dar uma cabeçada para meu alvará de soltura chegar logo!

Poucos dias depois fui chamado à sala do diretor. Ele me comunicou que eu seria transferido para Niterói, para o Instituto Edgard Costa. Já estava tudo arrumado para a transferência, que ocorreria dentro de quatro ou cinco dias.

Recebi a notícia com alegria. Não era o que eu mais esperava, o habeas corpus, é claro, mas... era sair do Água Santa. E, afinal, todos os comentários sobre o Edgard Costa eram favoráveis.

Já estava levantando para agradecer e me despedir do capitão quando ele me interrompeu:

— Espere, ainda preciso falar com você. Num presídio como o de Niterói, os apenados andam por quase toda parte. Os que não estão na faxina e não têm problemas com a administração podem estar jogando vôlei, futebol, lendo ou fazendo qualquer outra coisa. É um lugar muito mais perigoso do que aqui. Você tem que ficar sempre alerta, não se resolve nada a socos. Por mais que os funcionários revistem os internos e todos os cantos do presídio, não tenha dúvida, há facas fabricadas pelos internos escondidas, que eles chamam de "estoque". Então, cuidado, principalmente porque tem sempre alguém querendo fazer bonito para aparecer. Cuidado com as drogas, isso dá processo e mais cadeia.

Depois disso, me levou até a porta e desejou boa sorte:

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— Uma ou duas vezes por mês, vou lá à noite jogar futebol com o diretor, o capitão Nabuco. Se você estiver em forma, será convidado a jogar com a gente.



DOIS DIAS DEPOIS FUI TRANSFERIDO PARA NITERÓI. TINHA ESPERANça de ver a rua, a paisagem da ponte Rio-Niterói... Mas fiquei na esperança. No camburão só tinha um respiradouro, e era do tipo veneziana. Para ver alguma coisa era tão desconfortável que desisti.

Logo ao chegar fiquei mais animado. O ambiente era outro. Olhando de fora, o prédio antigo parecia um quartel. O cheiro da maresia era forte, sinal de que o mar estava por perto. Não pude olhar a rua e o prédio por muito tempo. Foi só um minuto, e logo fui encaminhado para a seção que recebe os internos. Depois da troca de documentos de praxe, assinaram o recibo que comprovava a minha entrada e fui levado à sala do diretor. Nabuco era um capitão da pm, homem alto, mulato, de maneiras nobres e sorriso largo. Fiquei impressionado com sua educação. De cara, foi logo dizendo que estava a par dos conselhos que o capitão Astério tinha me dado.




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