O depoimento que rompe 30 anos de silêncio



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Nosso cubículo era sempre o último a ser revistado. Os funcionários desconfiavam da gente porque, como andávamos por todo o prédio, em princípio éramos os transportadores ideais. O cubículo C-2 era mais visado ainda, porque lá estava o pessoal da cozinha e do almoxarifado, recebiam mercadorias em sacos ou em pacotes. De vez em quando alguém rodava por se meter nesse negócio de tráfico. A única seção que não tinha um chefe era a biblioteca. Quando eu ia entregar os livros nas galerias, o funcionário de plantão folheava um por um.

No nosso cubículo, tinha um pessoal que estava sempre junto: Professor, Paulo, Chiquinho, Cabeça e eu. Saíamos pela manhã e, a não ser em caso de extrema necessidade, só voltávamos às cinco da tarde. Na hora do almoço o encontro era na cantina, e durante o dia dávamos um jeito e cada um ia à seção do outro. Procurávamos saber tudo o que se passava, para ficar bem longe das encrencas.

No C-2, que ficava bem em frente ao nosso cubículo, o pessoal dormia no chão, em colchonetes. Tinha mais ou menos vinte pessoas lá. Um deles era um negro bonito, de 1m 80 de altura, uns 25 anos de idade.

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Vou chamá-lo de Apoio. Nas refeições, carregava sozinho uma panela de arroz pelas galerias. Outras panelas do mesmo tamanho eram carregadas por pelo menos duas pessoas. Depois de servir o jantar, já trancado ele treinava capoeira. De vez em quando, dava uns dois passos para trás tomava impulso e dava saltos altíssimos, batendo com força os pés na parede. Era um camarada gentil. Quando queríamos repetir o prato, era o único que voltava e nos atendia. Eu só encontrava com ele no café-da-manhã e à tarde, quando o jantar era servido. Era introvertido, não era de ficar de papo com ninguém. Chiquinho me contou que o artigo dele era o 157, parágrafo 3º, assalto à mão armada seguido de morte. Treinando ou não, estava sempre com um rapazinho branco, com corpo de menino, 1m 65 de altura, mais ou menos. Reparei que Apoio e o menino dormiam em colchonetes vizinhos. E mais, o menino cuidava de tudo para ele. Tenho certeza de que, por mais vontade que alguém tivesse de abordar o garoto — na prisão, garoto é o rapaz que vira "moça" lá dentro —, não teria peito de enfrentar seu "protetor".

Depois de algum tempo observando o comportamento dos dois, conversando com Chiquinho, disse para ele que tinha pena do garoto, por ter que ser mulher do Apoio. Chiquinho debochou e riu:

— Você não percebeu ainda que a esposa é o Apoio?

Um dia, eu estava muito chateado, transtornado mesmo, porque soube que teria de vir a São Paulo, para ser ouvido em um processo sobre um acidente que tive, no final dos anos 60. Depois, iria a Santos, para ser ouvido em processos por rixa que vinham desde os anos 50, no Guarujá. Os dois processos já haviam sido liqüidados. O do Guarujá, na época eu era menor de idade, e o processo já tinha caducado. No caso de São Paulo, eu já tinha, na época, ganhado a causa. O que a promotoria queria era me impedir de fazer uso da Lei Fleury, que me permitiria esperar o julgamento em liberdade. Alegava que eu não era réu primário.

Pedi a meu pai que grudasse no dr. Evandro e não o deixasse em paz enquanto não desse um jeito naquela loucura. Apavorado, larguei a biblioteca aos cuidados do meu ajudante e fui à portaria, só para andar um pouco e ver se tirava a história da minha cabeça.

Vi o tenente — o segundo na hierarquia do presídio, depois do capitão — conversando com uma funcionária que eu nunca tinha visto. Era uma mulata gorda e risonha, de uma simpatia irresistível. Estavam

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perto um do outro quando cheguei. O tenente me viu e fez sinal para que me aproximasse.



- Você conhece a Madrinha? É a encarregada da ala feminina.

Ela apertou minha mão com um sorriso enorme. Com tanta impatia fiquei à vontade e comecei a conversar com eles. Tinha muita curiosidade sobre a ala feminina e fiz várias perguntas. Ela pacientemente respondia a todas. Explicou que as mulheres davam muito mais trabalho que os homens, porque tinham muitos problemas.

Acho que a Madrinha também foi com a minha cara, pois em seguida me levou à ala das mulheres. O tenente estava ocupado e sugeriu que fôssemos sozinhos. Ela me conduziu por um corredor que eu ainda não conhecia e, antes de entrarmos, pediu que não me dirigisse às internas. Andamos pela galeria inteira, ela ia falando com as moças, contando quem eu era, que trabalhava na biblioteca e que mandaria uma lista com os livros e revistas. Parava, aproximava-se de uma ou outra grade para fiscalizar alguma coisa, sempre sorrindo, chamando cada moça de "minha filha". Não achei que o lugar estava à altura das exigências do diretor. Era estranho, parecia encardido. Agradeci a Madrinha, que me levou de volta ao corredor e trancou a grade de ferro. Nos despedimos e fui para o setor de disciplina, que controlava a localização de todos os presos. Conhecia os internos que trabalhavam lá e queria pedir ao funcionário que me dispensasse, pois não estava me sentindo bem. Em frente à mesa dele, vi uma planta do presídio. Em um canto da página havia informações sobre o número de funcionários e de presos. Olhei várias vezes, não acreditava no que estava vendo. Onde estava registrada a quantidade de presos, lia-se: 1800. Perguntei se havia algum engano, mas o funcionário confirmou. Pelo barulho que se ouvia nas galerias, eu já desconfiava que tinha ouvido mal quando o diretor me informara que cuidava de oitocentos presos.

Dali voltei para o cubículo, esperando que meu pai aparecesse e trouxesse notícias. Como não tinha nada para fazer, comecei a ler o que havia escrito no dia anterior. Lembro bem daquele instante, achei tudo muito piegas. Falava de Adelita e de Luis Felipe, meu filho: "Que tristeza, nossa mãe. Como pude abandonar Lipe e Adelita. Deus queira que eles consigam me desculpar. Chove forte, os rapazes que ocupam o beliche perto do terraço vão se molhar. Não existe nada mais triste que este lugar infecto. Com a chuva a tristeza aumenta. E Ângela, onde estará? Rezo

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dia e noite para que esteja num lugar lindo. Meu Deus, o que aconteceu com nosso amor? Vou parar de escrever senão enlouqueço". Depois de ler aquilo, risquei tudo e escrevi: "É, hoje é dia de tristeza mesmo. Está tocando Olhos nos olhos com Maria Bethania, era a nossa música preferida. Tudo agora são lembranças".



Estava angustiado com a viagem que faria, de camburão, até São Paulo e Santos. Escrevi o que me veio à cabeça naquele momento: "Que saudades dos nossos passeios de madrugada na praia dos Gravatás, de mãos dadas, rindo, brincando e nos beijando, beijos intermináveis. Onde está meu amor, meu sol, meu mar, meus sonhos? Sonhos, antes fossem sonhos, pelo menos eu despertava desse pesadelo. Tudo se deteriorou. Muito pó? Muita loucura? Muita... muita... muita...".

Felizmente, no fim da tarde, dr. Lavigne e papai apareceram com duas boas notícias: a primeira era que tinham frustrado a armação para eu ir para São Paulo e Santos; além disso, dr. Evandro tinha encaminhado novo habeas corpus, pleiteando a revogação da minha preventiva. Que alívio! Estava livre do camburão e de interrogatórios sem pé nem cabeça.

O dr. Lavigne foi embora e papai e eu ficamos conversando até tocar a sirene, sinal de que era hora do jantar e da tranca. Tive de largar papai sozinho e sair correndo, porque quinze minutos após a sirene havia um "confere" e o interno tinha de responder alto e mostrar-se para o guarda.

No dia seguinte, amigos e parentes me visitaram: papai; Luiz Carlos, meu irmão, e sua esposa May; e meus amigos Carlos Rangel e Ronaldo Cunha Bueno.

Numa madrugada, quase no fim de abril, a sirene tocou por cerca de quinze minutos. No terraço estavam dois policiais militares com metralhadora no ombro, completamente despreocupados. Voltei para o meu lugar e fiquei esperando. Nem um funcionário apareceu. Ouvi o barulho dos guardas e um berreiro, urros que imagino terem sido de dor, mas não vi nada. A administração, no dia seguinte, estava tranqüila, ninguém fez nenhum comentário. Houve uma ordem escrita, que todos os que tinham faxina assinaram: "É expressamente proibido ir à galeria a".

O Chiquinho, que descobria tudo, me contou o que tinha acontecido. Três internos da "a" serraram as grades do cubículo e conseguiram chegar até a escada, onde foram flagrados tentando serrar as grades da porta de ferro. Os três foram para a solitária.

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A VOLTA DO AEROPORTO DE CAMPINAS PARA SÃO PAULO, DE TÁXI, FOI um passeio. Adelita e eu viemos de mãos dadas, curtindo aquele momento. Afinal o fim de semana tinha sido atribulado. Para variar, eu me sentia aflito. Estava mais que provado que meu relacionamento com Ângela era explosivo. Mas eu também gostava muito da minha mulher. O que eu sentia por Ângela era uma coisa pesada, como um vício. Mas, longe dela, sentia falta do seu corpo, do seu cheiro, do seu jeito de ser e de pensar.



Sua vontade de desafiar era insaciável. Perto dela me sentia envolvido por seu carisma, seus beijos, sua luxúria. Pensava nisso quando chegamos em casa. Paguei ao motorista, chamei o guarda para ajudar com a bagagem e fui para a sala preparar um uísque. Enquanto minha mulher foi ver nosso filho, fiquei ali sentado me perguntando o que queria da vida. O que eu estava procurando? Essas questões me afligiam. O que eu queria, arrebentar tudo? Quando comecei com Ângela, achei que éramos almas gêmeas e queríamos as mesmas coisas, tirar "sarro de tudo e levar a vida... Levar a vida, meu Deus do céu! Eu era um homem casado, tinha dois filhos. Nesses momentos a realidade me atingia em cheio, e eu sentia o abismo, ali, bem perto.

A vida continuava, louca do mesmo jeito. Uma tarde, na casa da Joana, me abri com Ângela, dividi com ela meus conflitos e angústias. Ela ouviu tudo e reclamou por eu nunca ter me aberto daquele jeito antes. Depois, começou a falar de sua vida com Ibrahim, com seus filhos, e dos problemas que tinha com a Justiça. Contou que Ibrahim era uma pessoa maravilhosa e a ajudara muito, mas estava longe de ser um relacionamento definitivo. Ela não o amava e não esperava nada dele. Ao mesmo tempo, eu tinha aparecido e a transformara em uma viajante. Ela vivia na ponte aérea. Não estava reclamando, ela gostava de mim, era o preço. Mas pela primeira vez em muitos anos estava apaixonada e queria viver com alguém. Diziam que eu era uma pessoa difícil. Não se preocupava com isso, pois imaginava as coisas que falavam dela.

Aquela noite cheguei em casa muito confuso. Tinha a certeza de que, em algum momento, teria de tomar uma decisão.

A vida é engraçada, há um momento no qual tudo se acomoda. Comecei a encarar aquela vida de maneira normal, e as coisas caminhavam

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para isso. Se não fossem as drogas, talvez nunca tivesse saído de casa "Talvez"... é estranha essa palavra, pode dizer tanta coisa.



A vida caminhava de maneira também estranha. Às vezes parecia o globo da morte, onde os motociclistas ficam rodando, rodando e rodando.

Minha mulher resolveu, de uma hora para outra, convidar um grupo de cariocas e paulistanos para um fim de semana na fazenda. Ângela e Ibrahim trariam um casal de amigos. Depois, Joana e Pedro, Chiquito e o Grande. No começo da noite, todos se reuniriam em casa e de lá partiríamos.

Chegamos à fazenda tarde e cansados, acomodamos os convidados e fomos todos dormir. Aquele fim de semana, aparentemente, seria chato. Só aparentemente, pois Chiquito estava encantado com Joana, e Grande, de olho na mulher do amigo do Ibrahim, a Gracinha, um amor de pessoa, que era pelo menos vinte anos mais nova que o marido.

O pessoal ficava apreensivo quando Ângela e eu sumíamos. Nunca estávamos no grupo e conseguíamos escapulir sem deixar rastro. Achavam que estávamos folgando demais e poderíamos ser flagrados. Na verdade, ninguém estava preocupado em flagrar ninguém. Era apenas mais um sábado e domingo entre amigos que não tinham nada melhor para fazer e se reuniram na fazenda de um deles. O Ibrahim e seu amigo eram os mais velhos, tinham pelo menos quinze anos a mais que os outros. Formavam uma dupla à parte. Chiquito estava com o caminho livre, pois Joana achou graça na situação e Pedro era uma pessoa estranha, meio alheia a tudo. Tinha problemas por causa de seu passado, parece que esteve preso na Itália, e por isso vivia aqui. Quase não saiu do quarto. O Grande ficou fazendo graça para a mulher do amigo do Ibrahim, e minha mulher tinha ido pôr ordem na casa, porque resolvera convidá-los de última hora e fomos para a fazenda sem avisar.

Olhando para trás, tento entender o porquê das coisas, e fico confuso. O que estávamos fazendo? A situação já andava complicada. Na última vez que estivemos no Rio, os acontecimentos foram estranhos. Era mesmo o globo da morte, girando, girando, e sempre no mesmo lugar?

O fim de semana continuou. Ângela e eu estávamos ligadíssimos, só pensávamos em estar juntos. Saímos várias vezes para caminhar sozinhos. Não sei como não houve nenhuma cena de ciúmes. Fomos tão irresponsáveis que o Grande, na segunda-feira, falou:

- Cara, vocês quase me enlouqueceram. O tempo todo foi por um triz. Uma hora, de madrugada, Ibrahim quase pegou vocês na cozinha.

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É verdade, tínhamos corrido muito risco, mas não aconteceu nada. O fim-de-semana acabou e tudo voltou aos seus lugares. Na verdade, a única conseqüência daquele fim de semana foi que, alguns anos depois, o Grande se casou com a Gracinha..

Na volta, os cariocas dormiram na nossa casa e, no dia seguinte, Ibrahim e o casal voltaram para o Rio. Ângela foi para a casa da Joana. Aquilo já era normal, ninguém estranhou.

Já tinha virado rotina eu passar parte do dia na casa da Joana. As idas para o Rio é que tinham diminuído. Eu estava muito atarefado com as duas concorrências que a Brasilos havia ganhado.

Era comum que eu tivesse a sensação de querer, e também de não querer. Quando estava com Ângela, achava que, custasse o que custasse, queria viver com ela. Quando ela ia embora e eu passava mais tempo com a minha família, tinha certeza de que a minha casa era o meu lugar. Sentia isso mais forte quando desconfiava que Ângela aprontava quando não estávamos juntos

Numa noite, jantando na casa de amigos, resolvi telefonar para Ângela, que tinha chegado no fim da tarde à casa da Joana. Ouvi uma música alta, sinal de que Joana tinha convidados. Apesar das palavras carinhosas, fiquei perturbado. Perturbação que aumentou quando, na volta do jantar, de madrugada, passei em frente ao apartamento de Joana e vi que as luzes estavam acesas. Tive vontade de parar o carro, ir até lá e acabar com a festa. Nessas ocasiões, corroído pelo ciúme, planejava ir levando a vida daquele jeito mesmo, pelo menos até dezembro.

Todo ano, um pouco antes do Natal, íamos para Punta del Leste e só voltávamos trinta ou quarenta dias depois. Tinha esperança de que, longe de Ângela e perto de minha mulher, tudo se resolveria e a vida entraria nos eixos novamente.

Louco da vida e cheio de ciúme, no dia seguinte não fui visitá-la. Passei a manhã no escritório, voltei para casa depois do almoço e não saí mais. No começo da noite apareceu Chiquito. Para ficarmos sossegados fomos para a sala de sinuca. Assim que começamos a jogar ele disse:

— Ângela ligou várias vezes, e agora há pouco telefonou do aeroporto, louca da vida, dizendo que estava cheia de esperar.

Aliviado com a atitude dela, resolvi dar uns dias para que ambos tivéssemos tempo para pensar. Chiquito deu risada da minha decisão.

Voltamos a nos falar 24 horas depois. Liguei à noite, antes de sair do escritório. Tinha passado o dia tentando trabalhar e não pensar na vida.

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Assim que atendeu, ela disse que aquela vida estava nos deixando loucos. Precisávamos decidir o que queríamos.



- Ninguém agüenta viver assim.

Resultado: no dia seguinte fui buscá-la no aeroporto e de lá fomos para a casa da Joana. Os argumentos dela eram justos. Estava cansada de estar sempre na ponte aérea ou escondida na casa da Joana. Poderíamos viver em Búzios ou em Belo, numa casa dela que ela havia acabado de reformar.

Eu queria muito resolver tudo, também estava cansado. Mas tinha um filho de três anos, não podia sair correndo assim, sem olhar para trás. Eu a amava muito... Por isso quis aquela conversa.

Apesar disso, me sentia em queda livre, completamente desorientado. Resolvi que precisava de mais tempo para pôr meus negócios em ordem. A partir daquele mês, minha renda aumentaria. Durante dois anos iria receber, todo mês, uma comissão pela intermediação financeira que tinha acabado de realizar entre dois bancos. Isso me dava tranqüilidade, teria tempo de começar algum outro negócio onde quer que fosse viver. O complicado mesmo era a Brasilos. Um dos meus cunhados era meu sócio, e eu precisava transferir as ações da firma para ele. Apesar de minha cabeça estar um caos, sabia que com esses problemas logo chegaria dezembro e eu iria para Punta. Lá, teria a tranqüilidade para decidir o que realmente queria fazer. Tinha medo do sofrimento que ia causar ao abandonar mulher e filhos, que isso arruinasse minha vida e fosse impossível voltar atrás.

Voltei para casa, depois de ter passado a tarde pensando em sair de lá. Ficava sem cabeça, principalmente porque quando entrava lá reencontrava minha vida. Aquilo tornava tudo muito louco. Eram dois mundos. Estava com um pé em cada um. Para mim, era difícil ser carinhoso com minha mulher, brincar com meu filho. Sentia culpa.

Na época, muita coisa já estava diferente em nossas vidas, inclusive a social. Não saíamos mais com os amigos de antes. Estávamos sempre em programas com Ângela, Ibrahim e o casal de italianos.

Uma tarde, uma amiga de muitos anos foi ao meu escritório. Não quis entrar, preferiu tomar um café no boteco da esquina. Depois de falar de banalidades e de me olhar por alguns segundos, disse:

— Nossa, que saudades, você sumiu. Andam falando que você vai se mandar com a Ângela.

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Não tive outra coisa a fazer senão sorrir. Minha amiga tinha bastante liberdade comigo, para perguntar o que quisesse. Parece que a vejo sentada, no banquinho do balcão, esperando minha resposta. Como não veio, ela disse:



— Vê lá o que você vai fazer.

Depois tomamos o café, conversamos mais um pouco e ela partiu.

Logo ganhou corpo a idéia de uma nova festa em nossa casa. A lista de convidados era enorme. Cardápio, bebidas, garçons, música, já estava tudo arrumado, a data tinha sido marcada e se aproximava. Aquilo trouxe uma movimentação incomum à vida da minha mulher. Adelita tinha tanta coisa para resolver e precisava tanto de ajuda que aquele se tornou um momento de proximidade. Vivia recorrendo a mim para saber o que fazer ou quem convidar, principalmente quando se tratava de amigos do Ibrahim. Era um pessoal mais velho, que mal conhecíamos. Optamos por não convidá-los.

Na mesma época, Ângela passava uma temporada maior aqui, estava praticamente morando na casa da Joana. Talvez tenha ficado preocupada porque eu estava muito junto da minha mulher. Nessa nova temporada, não sei por quê, nos drogamos muito mais. Passamos dias inteiros juntos. Ninguém nos via, nem a dona da casa, pois não saíamos do quarto. Ângela passava por uma fase de grande beleza e sensualidade. Sua pele, seus trejeitos e seu desejo a deixavam no auge. Não conseguíamos nos separar. Quando não estávamos juntos, estávamos ao telefone.

Foi tudo tão louco que comecei a me preocupar com o fim de ano em Punta. Ao contrário do que tinha planejado, comecei a pensar em como faríamos para ela ir também.

Ângela não dava importância aos problemas que tinha com a Justiça. Não tomava conhecimento. Só a vi preocupada uma vez, quando já estávamos vivendo juntos. O advogado havia conseguido adiar uma audiência e ela comentou, rindo:

— Era só o que faltava: eu presa e você solto por aí. Vou ficar doidinha.

Quando falávamos sobre essas coisas, ela ria muito e sempre contava a história dos dias em que esteve presa e fazia permanente no cabelo das companheiras de cela.

Uma tarde, pouco antes da festa, ela falou em tom de brincadeira, mas não muito:

— Você podia ir até sua casa, pegar algumas roupas, e podíamos nos esconder por uns tempos na casa de uma amiga em Manaus. Garanto

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que ninguém vai nos encontrar. Ela manda na cidade, é dona de um jornal importante de lá. Assim, acabamos de uma vez com esse negócio de ter que nos esconder.



Para mim, que não sabia o que faria se resolvesse viver com ela, fugir era uma saída. Mas naquele momento ri e levei na brincadeira. Mudei de assunto, comecei a falar da festa, dos convidados e da animação da minha mulher e do Ibrahim com a entrevista.

De repente, ela se levantou.

- Já que não vamos para Manaus, me leva para o aeroporto, preciso experimentar o vestido que mandei fazer para a festa. Vou arrumar minhas coisas.

Em seguida foi para o quarto. Eu, que estava numa ótima até aquele momento, fui atrás dela e sugeri que partisse no dia seguinte. Ela não aceitou, disse qualquer coisa como:

- Se eu não for, o vestido não ficará pronto.

Fiquei aborrecido com a atitude dela. Saí e fui para o escritório, sem esperá-la. Não sei exatamente o que se passou na minha cabeça, talvez ciúme. Ou talvez, por ambos estarmos muito loucos, estivéssemos mais sensíveis. Meia hora depois, quando a minha cabeça já tinha esfriado e eu procurava me concentrar nos assuntos do escritório, Cida, minha secretária, avisou que Ângela estava me esperando em um táxi.

Fui ao seu encontro. A porta de trás do táxi estava aberta e ela sorriu ao me ver.

- Só vim dar um beijo.

Ela estava linda de jeans, blusa e botinha, sem maquiagem. Chamei a Cida e pedi que acompanhasse o motorista até a copa e servisse um café. Enquanto isso, Ângela e eu ficamos nos beijando, justificando um para o outro nossas atitudes. Parecíamos dois namorados adolescentes. Quando finalmente ela partiu, voltei para a minha sala. Tranquei a porta e fiquei pensando. Nada estava caminhando como eu planejara. Um tempo em Punta para pensar... Estava mais envolvido que nunca, já sabia que tinha de me preparar para largar tudo e ir embora.

Aquela constatação me fez voltar à realidade. Estava louco. Abandonar tudo? Telefonei para Adelita e convidei-a para ir ao cinema. Sempre fomos grandes companheiros, íamos muito ao cinema, sempre passávamos o fim de semana na fazenda sozinhos, curtíamos estar só nós dois. Em época de copa do mundo, assistíamos a todos os jogos do Brasil na cama. Passamos

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temporadas na Argentina, em Punta, em Paris e em vários lugares. Ficamos Paris trinta dias sozinhos, nos bastávamos, não precisávamos de ninguém. Passava esse filme na minha cabeça quando cheguei ao escritório dela e a I esperando na porta. Fomos ao cinema e depois jantamos.



Quando chegamos em casa e estávamos entrando no quarto, o telefone tocou. Quem atendeu foi minha mulher. Era Ângela. Ouvi a conversa pela extensão ao lado da cama. Ângela contava que teria de ir a Belo Horizonte resolver alguns negócios. Um deles dizia respeito ao processo de um caseiro que tinha sido morto no jardim de sua casa, por seu namorado na época.

Acho que ela ficou em Belo quase duas semanas. Durante esse tempo, só estive lá uma vez, logo nos primeiros dias. Não fui outras vezes porque ela realmente tinha muita coisa para resolver, e eu só poderia estar com ela à noite. A ponte em Itabirito estava contratada, mas, como a obra ainda não tinha começado, teria de passar muito tempo sozinho. Mas falávamos por telefone várias vezes por dia. Batíamos longos papos, a ponto de meu sócio na imobiliária, o pão-duro do Caio, exigir que as ligações fossem pagas por mim.

Nesse intervalo, minha vida familiar voltou um pouco à normalidade. Adelita e eu passamos um fim de semana na fazenda, com toda a família dela, fomos a festas, jantares. É verdade que nunca bebi tanto na vida, era caubói o tempo todo. Só não bebia no escritório.

Uma tarde, Ângela telefonou. Estava terminando o que tinha para fazer e sentia saudades. Sugeriu que fosse buscá-la. Passaríamos uma noite e parte do dia no hotel, pois ainda tinha umas coisas para resolver e isso poderia ser feito por telefone.




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