O conto do marchador



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O CONTO DO MARCHADOR

TIQUE-TIQUE

Texto de Haroldo F. R. Junqueira

Publicado na Revista ‘O Cavalo Marchador’


Ano III – No. 38 – Novembro de 1990

O discurso é muito antigo: desde que Simon de Atenas, que viveu no Século VI A.C., escreveu o primeiro tratado de equitação, clama-se por um novo cavalo.


O cavalo de galope desequilibrado não serve mais. Nunca serviu. Nós, que fazemos parte da ‘Junqueirada’, sempre o repudiamos, pois o cavalo que nos servia para as caminhadas era o mesmo das caçadas, o mesmo da lida com o gado. Não podíamos nos dar ao luxo de ter um animal para cada coisa; por isso, selecionamos o Mangalarga para ser um cavalo completo, cômodo, ágil e resistente.
Como dizia um de nossos ancestrais: “ – Cavalos, tenho muitos; mas bunda, só tenho uma.”
O objetivo da caçada é o trabalho da cachorrada; a ‘pega’ é conseqüência. Só na década de 20 é que vieram os americanos – Fox Hunter, antes, caçava-se com os nacionais. Tanto os Mineiros, como nós os Paulistas, que éramos e somos filhos, netos e bisnetos dos Mineiros, caçamos do mesmo modo, e até hoje, de vez em quando, promovemos uma caçada em conjunto.
Amor pelos cavalos, apego à terra e paixão pelas caçadas, como todo Junqueira: assim era o ‘Capitão Chico’ - Francisco Marcolino Diniz Junqueira. Não foi por sua influência que houve cruzamentos no Mangalarga, e sim de seu filho ‘Coronel Chico Orlando’ – Francisco Orlando Diniz Junqueira, e seu genro, José Frausino Junqueira Netto.
Grandes produtores de café, eles mantinham, ligações com a Capital do estado – São Paulo. E, influenciados pelo Jockey Club e Sociedade Hípica, então iniciantes, resolveram cruzar o Mangalarga com as mais diversas raças: Árabe, Puro Sangue Inglês, etc...

Mas chegaram à conclusão que, se melhorava o galope, o cavalo perdia o andamento, que era a principal característica do Mangalarga. Assim, eles eliminavam os machos, castrando-os e vendendo para a Força Pública do Estado, conforme os registros até hoje em poder desta corporação. Quanto às fêmeas, eram cobertas por jumentos, para uso posterior feito dos burros, no transporte do café, que na época era todo em carroções.


José Frausino Junqueira Netto tinha vendido sua parte na Fazenda Campo Lindo (em Cruzília-MG) para sua irmã Genoveva Corina, avó dos atuais detentores da fazenda, e se mudado para Orlândia (SP). Tendo deixado a Marca ‘J.B.’ com sua irmã, e como a Marca ‘J.F.’ era usada em Minas pela Fazenda do Favacho, e em São Paulo pelos descendentes de João Francisco Diniz Junqueira (Fazenda das Melancias) e por João Francisco Junqueira Franco (‘João da Onça’), resolveu homenagear sua mulher – Genoveva Clara, usando a Marca ‘53’, que era o número dela no colégio.
Criterioso na sua seleção, mantinha um registro particular de todos os seus cavalos, desde que se mudou para São Paulo, em 1888, o que foi seguido por seus descendentes. Por isso, os atuais detentores da Marca ‘53’ têm registros de seus animais há mais de 100 anos. Tornou-se assim a Tropa ‘53’ famosa por seus andamentos marchados, sendo desde seus princípios severamente selecionados por José Frausino, depois por seu filho – Renato Junqueira Netto, que davam mais valor ao andamento e aos aprumos, do que à beleza.
Quanto ao dissídio de 1934, é difícil de entender, já que não houve dissídio algum, somente um forte sentimento nacionalista, não só no Brasil, como em toda América Latina.
Após um ‘raid’ entre Buenos Aires e Nova York, feito por um suíço radicado na Argentina em dois cavalos crioulos (Mancha e Gato), começaram a proliferar, nas Américas, as sociedades de criação das mais diversas raças nacionais.
Um grupo de entusiastas de São Paulo e Minas Gerais resolveu fundar, em 1934, a Associação dos Criadores do Cavalo Mangalarga, cujo primeiro presidente foi Renato Junqueira Netto.
Começaram assim os primeiros registros da Raça, mas no decorrer de alguns anos apareceram alguns animais de sangue exótico. Vários criadores protestaram e tomou vulto a idéia do fechamento do livro de registros para evitar a entrada de sangue estranho no seio do Mangalarga.
Formaram-se duas correntes: uma liderada por Renato Junqueira Netto, que era pelo fechamento do livro; e outra liderada por Gabriel Jorge Franco, que achava prematuro o fechamento do livro.
Após tumultuada Assembléia Geral da Associação do Mangalarga, em 1940, ficou decidido o fechamento imediato do livro de registros.
Como as comunicações eram precárias naquela época, ficaram de fora da Associação vários criadores de Minas Gerais, exceto as Fazendas Campo Lindo, Favacho e Traituba, porque Renato Junqueira Netto por elas se responsabilizou, indo a elas mais tarde, para levar a comissão registradora.
Zelosos criadores que tinham ficado de fora da Associação, não podendo mostrar seus produtos nas exposições oficiais, resolveram em 1948, fundar uma Associação que os agregasse.
Não havendo discordância quanto aos andamentos, como erroneamente pregam algumas pessoas, principalmente os defensores do ‘tique-tique’.
Prova disto é que a Assembléia realizada no Hotel Glória em Caxambu, para a fundação da nova Associação, foi presidida por José Bráulio Junqueira de Andrade (Fazenda Campo Lindo), tendo ainda como sócios fundadores, entre outros, os senhores José Bento Junqueira de Andrade (Fazenda dos Lobos), Geraldo Junqueira de Andrade (Fazenda do Favacho), e todos eles que continuaram criando o Paulista, que nada mais era que o nosso cavalo.
Como já existia uma Associação de Criadores de Cavalo da Raça Mangalarga, com sede em São Paulo, a nova agremiação para se diferenciar da já existente, passou a ser denominada Associação dos Criadores do Cavalo Manchador da Raça Mangalarga, com sede em Belo Horizonte. Daí a denominação pelas quais, até hoje, são conhecidas por todos. ‘Paulista’ para os registrados em São Paulo; ‘Mineiro’ para os registrados em Belo Horozinte (embora se tratasse do mesmo animal).
Da década de 60 para cá, com a entrada de um novo diretor do ‘Stud Book’, é que o ‘Paulista’ se prostituiu, seguindo suas orientações e premiações, para tranformá-lo num cavalo de porte maior e que servisse para hipismo. Conseguiu transformá-lo num animal sem andamento (que era sua maior característica) e sem nenhuma funcionalidade. Hoje, nada mais é que um cavalo que só serve para exposições, sendo repudiado nas lides das fazendas.
Estamos de acordo com o Dr. Geber Moreira, quando ele escreve que:
“ – Foram três quinqüênios de balbúrdia total em que alguns técnicos da Associação eram, ao mesmo tempo, registradores de animais, mediadores de negócios e juízes em pistas de Exposições; construíram o caos em que a raça hoje se encontra, infiltrando-a de exemplares que nada têm a ver com o Mangalarga Marchador e que são mantidos em evidência à custa de um ‘marketing’ caríssimo e de conivências suspeitíssimas que não hesitam em fazer ‘campeões da raça’ trotões desqualificados até para fins de registro genealógico.
Acrescento também os arrastadores de perna, batedores de paleta, os perninhas duras, tique-taque, descendentes de éguas de corrocinha que bastava serem oriundas do Sul de Minas, para serem aceitas como de boa origem.
Apoiamos a Associação, quando da retomada da bandeira da marcha, mas não podemos para sarar da doença, morrer do remédio.
Não podemos ver como Campeões de Marcha arrastadores de perna, batedores de paleta que, com seus aleijões, se arrastam nas pistas, mais parecendo cobra ‘mal matada’.”
Hoje o grande culpado é o diagonal. “Juízes” pouco afeitos ao cavalo, quando julgam, dizem: “ – É cômodo, macio, mas é diagonal”. Diagonal é o bom cavalo de sela, lateral anda o camelo, e o tríplice apoio constante é natural dos animais de tiro, que têm que se apoiar melhor para a tração.
Os grande da raça foram diagonais COM MOMENTOS DE TRÍPLICE APOIO: Sincero, Rádio, Bellini, V-8, Sargento, Botafogo, Lanceiro, Apolo, Candidato, Gesso, Radical, etc...
O cavalo nasceu para as caçadas, para as grandes caminhadas; não podia, e não pode hoje, ter um galope desequilibrado.
O andamento é genético. O Mangalarga Marchador marcha em diagonal, com momentos de tríplice apoio, pois não descende nem do camelo, nem da égua da carrocinha.
Achei oportuno esse meu depoimento, parte dele ouvido de meu pai – Renato Junqueira Netto, e alguns acontecimentos mais recentes presenciados por mim, porque vários criadores novos, desconhecendo a história e ouvindo, e lendo as mais fantasiosas lendas e casos, formam uma idéia completamente errada do Cavalo Marchador.
Fazenda Pintangueiras

Outubro de 1990



Haroldo F. R. Junqueira Netto é criador em Barretos(SP), titular do sufixo ‘53’





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