O caçador de pipas



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O caçador de pipas

Khaled Hosseini

Tradução : Maria Helena Rouanet - Editora Nova Fronteira

Meninos correndo atrás de pipas coloridas. É por meio de cenas como essa que Khaled Hosseini nos mostra em seu livro de estréia, O caçador de pipas, que crianças serão sempre crianças em qualquer parte do mundo. Apesar da narrativa ter como pano de fundo a invasão do Afeganistão pelos russos e seu posterior domínio pelo Talibã, o que nos dá a impressão de que a realidade vivida pelas personagens em Cabul é muito distante da nossa realidade, Hosseini consegue passar aos seus leitores a sensação de que os fatos ocorridos durante a infância de Amir e Hassan poderiam acontecer a qualquer tempo e com qualquer pessoa. Mas não é só da amizade entre dois meninos que o livro trata. O tempo todo a história nos põe em contato com valores e sentimentos diversos: lealdade, confiança, coragem, poder, covardia, egoísmo.

O caçador de pipas é o primeiro romance desse médico afegão que, juntamente com sua família, refugiou-se nos Estados Unidos após a invasão do Afeganistão pelos russos. Não é difícil pensar no livro como uma autobiografia. Amir, o narrador, e Hosseini nasceram na mesma época, tinham uma boa situação financeira quando viviam em seu país e buscaram abrigo na América quando tiveram que fugir do regime comunista. O fato é que, sendo ou não uma autobiografia, a história consegue ser verdadeira e até mesmo emocionar.

Nos primeiros capítulos do livro, o autor impõe um ritmo agradável à narrativa e a leitura chega a ser bem prazerosa. Mas isso não se mantém durante toda a história, principalmente nos capítulos finais, quando é mostrado um Afeganistão destruído por guerras, temos a mesma sensação que tem Amir, o narrador, quando volta à sua pátria após muitos anos longe de casa, parece que estamos entrando em um outro mundo.

Amir, o menino privilegiado, filho de um bem sucedido comerciante, causa inveja aos outros garotos quando chega à escola no Ford Mustang preto de seu pai. Ele, embora tenha tudo o que precisa, não tem tudo o que gostaria de ter. Falta-lhe a mãe, que nem chegou a conhecer, e um pai mais presente. Essa falta faz com que ele se revele uma personagem frágil e carente de confiança. Esses fatos talvez até justificassem sua tendência à covardia, não fosse a comparação inevitável com Hassan, seu empregado.

Hassan teria bons motivos para se mostrar uma personagem tão frágil quanto Amir: pobre, abandonado pela mãe e considerado inferior por ser um hazara, um membro da etnia discriminada no Afeganistão. Apesar disso, Hassan era corajoso e totalmente devotado a Amir.

A história tem início em dezembro de 2001, com Amir já adulto, vivendo nos Estados Unidos. A primeira frase do livro faz uma alusão a um fato ocorrido no inverno de 1975, que teria mudado bruscamente a vida de Amir fazendo-o fugir de seu passado: “Eu me tornei o que sou hoje aos doze anos, em um dia nublado e gélido do inverno de 1975.”

Durante os sete primeiros capítulos, o narrador volta em torno de 28 anos no tempo, na época em que era apenas uma criança afegã, para narrar sua infância em Cabul. Em meio às brincadeiras e travessuras de Hassan e Amir, vamos descobrindo pouco a pouco um Afeganistão bem diferente do que vemos hoje pela TV. O narrador sai de 2001 e volta à década de 70, quando Amir tem por volta de 10 a 12 anos de idade. A narrativa principal se mantém entre os anos de 1973 até 1975, embora não exista uma seqüência clara de acontecimentos. É como se fosse uma grande colcha de retalhos. Os pedacinhos de lembrança vão vindo à mente do jovem Amir e vão sendo costurados uns aos outros. Em certos momentos a narrativa volta ainda mais no tempo para lembrar de cenas como o nascimento de Hassan, ou até mesmo o casamento de Baba, pai de Amir. Embora sem uma ordem cronológica precisa, o leitor, em nenhum momento, sente-se perdido na narrativa. A impressão que se tem é que passamos junto com Amir e Hassan uma preguiçosa tarde de verão. Existem vários momentos divertidos como quando os meninos descobrem que seu grande ídolo do cinema, John Wayne, não falava farsi e não era iraniano. Existem também momentos tensos como aquele em que os garotos são ameaçados por Assef e seus colegas.

A narrativa é toda feita sob a perspectiva de um único personagem, desta maneira não existe uma boa visão da diferença de classes daquela época e o que isso causava nos sentimentos das demais personagens. Como Amir era rico, filho de um pai que, embora acompanhasse algumas tradições, não levava a religião muito a sério, não há no livro uma visão aprofundada dos costumes afegãos.

Embora no princípio a história proporcione uma leitura leve, sem muitas descrições, detalhes ou conflitos psicológicos, a todo momento, o narrador deixa claro que algo ruim está para acontecer, o que dá à trama uma crescente tensão que culmina com a agressão à Amir. A partir desse ponto, a história perde a leveza e fica mais grave. O autor, nos sete primeiros capítulos, vem pouco a pouco trabalhando com a delicada relação de Amir e Hassan e se não fosse desta maneira talvez o que aconteceu naquele dia de inverno de 1975 não tivesse um peso tão grande na narrativa. Hassan e Amir cresceram juntos, mamaram no mesmo peito, eram companheiros inseparáveis e a lealdade de Hassan era surpreendente. Mas mesmo assim Amir não considerava o empregado seu amigo. Na verdade, existe aí um conflito entre o que a religião prega e os sentimentos cultivados desde o berço:
“Nada disso importa. Porque não é fácil superar a história. Tampouco a religião. Afinal de contas, eu era pashtun, e ele, hazara; eu era sunita, e ele, xiita, e nada conseguiria modificar isso. Nada... Mas éramos duas crianças que tinham aprendido a engatinhar juntas, e não havia história, etnia, sociedade ou religião que pudesse alterar isso.”

Na primeira parte da história, a narrativa vai até o ano de 1976. Após isso, há um salto no tempo e vamos encontrar o narrador já com 18 anos, em Março de 1981, fugindo com Baba para os Estados Unidos. Desse ponto em diante tem-se uma narrativa linear, até alguns anos após o casamento de Amir com Soraya, então tem-se um novo salto no tempo até Junho de 2001, quando Amir recebe um telefonema do Paquistão.

A chegada de Amir aos Estados Unidos confere um novo ar à narrativa. Por incrível que pareça, é na América e não no Afeganistão que o leitor tem um contato um pouco maior com a cultura afegã. Esse contato, porém, não é muito estreito, já que o autor não se preocupa em aprofundar as explicações acerca da tradição de seu povo. Isso é coerente, uma vez que o narrador nunca manteve uma proximidade com os costumes de sua terra natal.

Hosseini, por pelo menos duas vezes, usa de um artifício muito interressante para “quebrar” o fluxo da narrativa, num momento importante da história. A primeira interrupção acontece no dia do campeonato de pipas, quando Amir está prestes a presenciar a cena que o acompanharia pelo resto da vida. A segunda é quando Amir, já adulto, volta ao Afeganistão e acaba sendo agredido. Nesses dois momentos o desenvolvimento normal da ação é interrompido para dar lugar às lembranças do narrador. Isso faz com que aumente a atenção do leitor e o seu interesse em saber o que aconteceu.

A narrativa fica tensa e pesada com a volta de Amir ao Afeganistão, anos após sua partida. Nesse momento, é apresentado um país totalmente destruído. Nem mesmo Amir consegue reconhecê-lo. O que acontece a partir desse ponto é uma aceleração da narrativa devido a um aumento cada vez maior da tensão:

“ – Bismillah! Bismillah! – exclamou ele, arregalando os olhos ao me ver. Passou meu braço pelos seus ombros e me levantou no colo. Sempre correndo, me levou para o furgão. Acho que gritei. Vi as suas sandálias golpeando o chão e batendo em seus calcanhares escuros e calejados. Respirar doía. Depois, lá estava eu olhando para o teto do Land Cruiser, deitado no banco de trás, naquele estofamento bege e rasgado, e ouvindo o “bip, bip, bip” indicando que as portas estavam abertas. Ouvi passos apressados em redor do carro. Farid e Sohrab trocando algumas palavras rapidamente. As portas batendo e o barulho do motor sendo ligado. O carro arrancou e senti uma mão pequenina na minha testa. Sohrab soluçava. Farid continuava repetindo ‘Bismillah! Bismillah!’. “



O caçador de pipas consegue manter a narrativa bem próxima à realidade. Não existem grandes reviravoltas, tais como o bandido que se transforma em mocinho no final, ou algo do gênero. O único senão está na maneira como Amir consegue salvar-se nos capítulos finais do livro, mas nada que comprometa a história como um todo. O livro é um grande sucesso de público, pois tem uma linguagem acessível; os fatos acontecem, na sua maioria, em um país do oriente médio, o que parece ser uma tendência nos últimos dois anos, e fala de sentimentos comuns a qualquer pessoa, estando ou não no Afeganistão. Apesar da grande aceitação e de vários comentários favoráveis, certamente, O caçador de pipas não se tornará um clássico, mas, é um livro que merece atenção.




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