O anatomista



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que pude estabelecer.

O anatomista, de pé frente ao estrado, fez um longo e deliberado silêncio, procurando suscitar a maior atenção dos membros da comissão.

Concedei-me o favor de observar aqueles autômatos - disse, apontando em direção à janela, através da qual podia ver-se claramente a Torre do Relógio, e naquele preciso

instante, como se fosse premeditado, começaram a soar as badaladas -, olhai o movimento daqueles homens de bronze - insistiu, e não apenas

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conseguiu incitar o interesse dos Doutores, mas isso pareceu ter acontecido pela mera vontade do expositor -, olhai aqueles homens que batem nos sinos e observai,



também, o relógio que flanqueiam, pois é disso que quero falar-vos: do movimento. Começarei dizendo que aquela máquina precisa, pontual, não difere em absoluto do

princípio que governa o movimento do corpo de cada um de nós.

Como aqueles autômatos, estamos feitos de matéria e essa matéria responde a uma forma. E, do mesmo modo que eles, a matéria está animada por alguma forma de kinesis

que imprime o movimento. Eis um ponto limite entre a anatomia e a filosofia, pois pareceria que a pergunta por aquilo que governa o movimento do

corpo implica,

de fato, uma resposta metafísica. - Sabido é que a alma governa os movimentos ; do corpo, não nos dizeis nada de novo... Pois me estais obrigando

a adiantar-me. Direi apenas que lamento ter que contradizer-vos, porém, a meu juízo, nada da alma intervém nessa mecânica, assim como nenhuma alma governa

o movimento daqueles autômatos do relógio. Mas suplico que me deixeis continuar na ordem que tinha previsto. Antes de dar-vos o meu ponto de vista sobre a

alma, quero expor-vos um achado feito por mim e que, afortunadamente, ninguém pôs em questão. Falo do meu descobrimento sobre a circulação pulmonar. Descrevi

de que maneira o sangue, comprimido nas concavidades do coração quando este se dilata, busca uma saída para um lugar maior e passa,

com força, da concavidade

direita para a veia arterial e da concavidade esquerda para a artéria maior. Quando, após a dilatação, o coração torna a contrair-se sobre si,


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entra sangue novo da veia cava na cavidade direita, e da veia esquerda na cavidade esquerda. A entrada dos

quatro canais existem pequenas carnes que só permitem entrada

de sangue pelas duas últimas e saída apenas pelas primeiras.


PARTE SEGUNDA Dos fluidos cinéticos

Muito bem, deixai-me expor como se movem as partes do corpo e vereis como o governo da kinesis muscular não depende em absoluto da alma, mas do próprio corpo. Permiti-me

que vos apresente uns minúsculos corpúsculos que habitam no sangue e que chamei de "fluidos cinéticos".1 Esses fluidos, que se movem a grandes velocidades, passam

do sangue que vem do cérebro aos nervos que se ligam à musculatura. Os músculos só conhecem duas formas de movimento: a contração e a dilatação. E para que um músculo

se estire, deve haver um oposto que se contraia, e ambos, em diferentes proporções, devem ter recebido esse fluido proveniente do cérebro. Não estou falando de nenhuma

causa metafísica, posto que esses fluidos cinéticos, como já disse, são feitos de substância. E é precisamente essa substância o que enche ou esvazia os músculos,

circulando dentro deles e passando de uns a outros, dilatando-os e contraindo-os. Devo dizer-vos, contudo, que o que acabo de descrever é apenas o princípio da kinesis;

mas tenho ainda

nota. Os fluidos cinéticos que Mateo Colombo descreve são surpreendentemente análogos ao que Descartes chamará "espíritos animais" no Tratado das paixões. Não seria

de estranhar que o filósofo francês houvesse se inspirado em Mateo Colombo.

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que ilustrar-vos como se constituem os nervos, que são os que dirigem essa mecânica de modo a que se dê de forma ordenada e não caótica. A exposição a seguir será,

também, minha defesa ante o que foi declarado por uma das testemunhas de Vossa Excelência - disse, dirigindo-se ao reitor -, em cujo depoimento sou acusado de fazer-me

acompanhar, Deus me livre e guarde, por bestas demoníacas.

PARTE TERCEIRA - Das bestas demoníacas

O anatomista caminhou até a sua cadeira e retornou ao estrado com uma saca ao ombro.

Esta é a saca que o caçador viu - disse, levantando-a em direção à comissão -; efetivamente, não constitui segredo para ninguém que todas as manhãs

vou ao bosque

vizinho à chácara para recolher peças de animais, que depois secciono e disseco afim de examiná-las. Mas não quero distrair-vos do que estava expondo. Permiti-me

que ilustre o que acabo de explicar-vos sobre o movimento - disse, e imediatamente pôs-se a desatar o nó da saca. Nesse momento, o caçador que havia apresentado

o testemunho, e que permanecia sentado na sala junto às demais testemunhas, levantou-se e,

em tom nervoso, pediu permissão para se retirar, coisa que naturalmente

lhe foi negada. Os Doutores olhavam

para o anatomista não sem uma certa evidente preocupação em relação ao que iria extrair da saca. Produziu-se na sala um murmúrio crescente. Mateo Colombo

meteu a mão até o fundo do costal e, quando retirou seu conteúdo e o exibiu, o murmúrio

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converteu-se num alarido generalizado, enquanto o caçador irrompia em gritos de pânico:



- Aí tendes o demônio, é um dos que eu vi! À fogueira! Levai-o à fogueira!

O anatomista segurava pelas patas uma besta realmente horrorosa. Era uma espécie de lobo que mostrava um par de caninos imensos por trás dos belfos franzidos. Em

lugar de pêlos, tinha penas vermelhas por toda a cabeça, o que lhe dava uma aparência

flamígera, e o resto do corpo era recoberto de escamas douradas. No lombo apresentava

duas barbatanas semelhantes às de peixe. Público, testemunhas e até juízes estavam a ponto de fugir a toda pressa quando viram a besta, no momento em que o anatomista

se dispunha a colocá-la no chão, abrir um par de asas imensas e soltar uns rugidos de leão.

Mateo Colombo esteve a um triz de ser linchado ali mesmo, salvando-se porque ninguém se atreveu a aproximar-se dele, por medo de ser atacado pela besta.

Nada deveis temer. Esta é a besta que a testemunha confundiu com um demônio. Podeis comprovar que é pura matéria inerte - disse, exibindo-a para a comissão, cujos

membros haviam dado um precavido salto.

- Nada pode fazer por conta própria, porque é pura substância inanimada. Eu mesmo o fabriquei. Olhai. É tão só um lobo embalsamado, do qual tirei as peles e, no

lugar

deixado pelos pêlos, nos poros, inseri penas de galo e escamas de peixes pintadas. Quanto às asas e barbatanas, estão costuradas



com linha e agulha.

- Todos vimos como se mexia por própria conta e todos ouvimos o rugido.

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Pois disso trata, precisamente, a minha exposição. Se me permitis, explicar-vos-ei, usando esta besta artificial, como se produz o movimento. Ninguém pensaria



que aqueles autômatos que batem a hora no sino do relógio são bestas do demônio. Esta tampouco é. O

princípio que governa seus movimentos é o mesmo que rege o daqueles -

disse, apontando outra vez para a janela, e acrescentou: - Olhai.

O anatomista segurou o animal pelo lombo e, erguendo-o nos braços, manipulou uma coisa que sobressaía da sua barriga. Recolocou-o no chão e, outra vez, a sala converteu-se

numa balbúrdia. A besta tinha começado a andar de cá para acolá, agitando enlouquecidamente as asas e emitindo uns rugidos terroríficos.

Não temeis. Nada vos fará.

- Detende agora mesmo essa besta do demônio! Detende-a!

Ouvindo a ordem, o anatomista pegou seu animal pelo pescoço, mexeu outra vez na barriga e

o bicho ficou quieto e duro como um cadáver. Mantendo-o preso pelas patas,

Mateo Colombo continuou sua explicação:

Veis que a kinesis não depende em absoluto da alma. Esta besta artificial caminha, emite sons e bate asas, de forma semelhante a um animal verdadeiro. Este animal

que, obviamente, não existe na natureza, é, entretanto, uma boa, embora rudimentária, imitação do princípio que governa o movimento, inclusive em cada um dos nossos

corpos. O propósito com que o fabriquei é exclusivamente provar a verdade das minhas teorias.

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PARTE QUARTA Dos autômatos

Explicar-vos-ei agora como funciona o meu animal. Como acabo de expor, os nervos agem sobre os músculos dando-lhes movimento - naquele instante, o anatomista exibiu,

na barriga da besta, uma pequena manivela de bronze oculta entre as escamas, puxou-a, e então a barriga foi aberta por meio de uma tampa

com dobradiças. - Nossos

nervos são constituídos por um par de elementos: as peles exteriores e a medula interior. As primeiras atuam como uma capa ou forro em relação à segunda. A contração

muscular é simplesmente a retração dos nervos. É igual a quando puxamos a extremidade de uma corda, e o que está unido à extremidade contrária se movimenta. Assim

movem-se os músculos. Nosso corpo abriga inumeráveis nervos, que dirigem os mais sutis movimentos. Eu reproduzi modestamente esse princípio

com apenas vinte "nervos

artificiais", construídos com fios encapados em forros de tripa, para obter vinte movimentos diferentes. O princípio não difere em absoluto da maquinaria de um

relógio - disse, exibindo ao tribunal a cavidade aberta no ventre do autômato -; aqui podeis ver a mola de espiral que se retrai sobre si mesma e que, quando se

libera, transmite movimento a todas as partes móveis através das cordas de que vos falei. É verdade que se trata de uma precária imitação, mas ilustra

com bastante

aproximação o que tento explicar. Construí mais de dez autômatos seguindo os princípios que pude observar no comportamento dos corpos vivos e nas formas interiores

dos corpos mortos.

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- Escutai como o anatomista se erige em Deus e pretende agir como o Criador - excitou-se o reitor, dando um pulo na cadeira e apontando o dedo para



o acusado.

Vossa Excelência está equivocada - disse mansamente Mateo Colombo. - Nós, anatomistas, apenas interpretamos a Obra e, à medida que conseguimos iluminar o que antes

eram sombras, não fazemos outra coisa senão adorar o Criador. A ciência, como eu a concebo, é o meio para entender e então adorar a Sua criação. Minhas modestíssimas

máquinas não passam de burdos arremedos em comparação com a Obra do Altíssimo, e não têm outro propósito senão tornar

compreensível, ao menos, uma breve parte

da Criação.

- Palavras. Puras palavras - interrompeu o reitor. - Escutastes com vossos próprios ouvidos o reconhecimento que o acusado acaba de fazer - e, sorrindo

com a metade

da boca, Alessandro de Legnano prosseguiu. - O anatomista acaba de admitir que para fabricar seus espantalhos serviu-se da observação de cadáveres. Não é preciso

lembrar-vos que uma Bula

Ide Bonifácio VII, que ainda não se modificou, proíbe a dissecação de cadáveres - disse o reitor,

com a convicção de que suas palavras eram incontestáveis. Agradeço

a Vossa Excelência por finalmente convir comigo em que meu animal não é nenhuma besta demoníaca, como sustentava até há pouco, e sim um inofensivo espantalho. É

o que eu queria demonstrar-vos. De modo que o acusador acaba de invalidar por própria conta as palavras da testemunha. O reitor, vermelho de ira, dessa vez não pôde

articular nenhuma objeção e limitou-se a olhar para a

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sua testemunha com ódio feroz, como se esta fosse responsável por suas recentes palavras.

No que diz respeito à Bula que Vossa Excelência menciona, permito-me corrigir-vos; nela não se lê que "fica proibida a dissecação de cadáveres", como dizeis, e sim

"fica proibida a obtenção de cadáveres para dissecação", coisa bem diferente. Recordo-vos o motivo pelo qual, sabiamente, Bonifácio VIII vedou tais práticas, não

de dissecação, insisto, mas de como eram obtidos os mortos. E Vossa Excelência não ignora que tudo começou, precisamente, na Universidade que vós agora presidis

e, mais exatamente, na cátedra de anatomia que me cabe reger. Na época de que data a bula, a cátedra de anatomia era dirigida por Marco Antônio

della Torre e, por

certo, lembrareis dos estragos que ocasionou. Quem há de esquecer, pergunto-vos, das crônicas da época? Marco Antônio professava um ateísmo sem limites. É verdade

que praticava a dissecação de cadáveres humanos sem se deter em considerações morais, delitos ou qualquer espécie de atropelos. E é verdade que ele mesmo instigava

seus aprendizes a obter cadáveres como quer que fosse. Não apenas os compravam de algozes e coveiros, mas roubavam-nos dos necrotérios dos hospitais e até os retiravam,

ainda quentes, das forcas da praça. Também foi dito que os tiravam dos túmulos e que eram escolhidos ainda em pé, como se fossem cordeiros para serem assados. Mas

bem sabeis que não é o meu caso. Sabeis com que zelo impeço meus alunos de praticarem dissecações e que os cadáveres que utilizo para tal fim provêm somente da

morgue. Por outro lado, tampouco ignorais que, antes de cortar um defunto, disseco dezenas de peças de

animais.

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E como vós mesmos podeis comprovar, minha "besta do demônio" nada tem de humano.

PARTE QUINTA Dos corpos vivos e dos mortos

Até aqui descrevi de que modo funciona o corpo e, como havereis de convir, nada diferencia essa mecânica do princípio elementar que governa aqueles autômatos que

veis sobre a Torre do Relógio. E digo-vos: em nada intervém a alma no movimento do corpo.

- Porventura insinuais que a kinesis não é um atributo da alma?

Não insinuo, afirmo categoricamente. A kinesis não é governada pela alma. Esse erro surge da simples observação dos cadáveres. Observando um cadáver, acredita-se

erroneamente que a causa da morte é apenas a ausência da alma, e no entanto eu vos digo que o calor e o movimento dependem unicamente do corpo. Basta como exemplo

observar aquela besta - disse, olhando fixamente para o reitor, e de imediato apontou para o fundo da sala, onde um gato entretinha-se esquartejando uma barata

-, seus precisos movimentos, certamente muito mais precisos que os nossos, para comprovar que a alma em nada intervém na kinesis, a menos que queirais conceder

uma alma àquele animal - disse, apontando para o gato, mas sem deixar de olhar para o reitor.

Este, furioso, não conseguiu dizer nada em contraposição. E vendo que ninguém apresentava objeções ou, ao menos, ninguém chegava a articular seus reparos numa

frase mais ou menos clara, o anatomista prosseguiu:

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A alma se ausenta quando se dá a morte, e como efeito exclusivo da corrupção dos órgãos que movem



o corpo. De modo que o corpo não morre por falta de alma mas pela

corrupção de alguns ou de todos os órgãos. Deixai, agora que expus alguns dos aspectos do

funcionamento do corpo, que vos fale da alma que o habita.

PARTE SEXTA Das paixões da alma e das ações do corpo


E já que vos falei do corpo, permiti-me que continue me referindo a ele para dele deduzir a alma. Já vos disse que a kinesis não é uma função da alma, mas exclusivamente

do corpo. Seguindo a linha que estabeleci, me atreverei a ir mais longe afirmando que, para deduzir a alma do corpo, devemos diferenciar o que concerne ao movimento

do que lhe é alheio. Se concordais comigo em que a alma nada tem com as coisas físicas mas somente

com as metafísicas, deveis então me conceder que o movimento,

a kinesis, é uma entidade da física que diz respeito apenas aos objetos materiais. Essa kinesis é o que governa as ações do nosso corpo. E, para diferenciar as coisas

do corpo das da alma, direi que se opusermos as ações do corpo às coisas imateriais da alma, iremos deduzir, então, as paixões. E defino as paixões como todas as

volições que não têm qualquer relação com o corpo, que são geradas e se acabam na própria alma, sem que o corpo intervenha. Isto é, que se dão de maneira passiva

na alma e não ativa no corpo. Que não surgem de nenhum órgão e não produzem a ação de qualquer outro órgão, mas surgem da alma e só produzem modificação na própria

alma. Faço essa distinção entre ações e paixões,

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entendidas ambas em seu sentido puro, porque também existem paixões que têm sua origem na alma mas comprometem o movimento do corpo. Todavia, é preciso



distinguir entre essas paixões e as ações porque, embora elas produzam determinados movimentos no corpo, tais movimentos não têm um só fim que não resida na alma;

por exemplo, quando a alma precisa manifestar o seu amor a Deus mediante a prece. Veis como o corpo é, nesse caso, um simples meio para a manifestação da alma, e

o fim dessa ação reside apenas na alma. Do mesmo modo, porém inversamente, existem ações do corpo que dele surgem e para ele fazem tender o seu fim, mas nas quais,

entre o surgimento e o fim, interpõe-se a alma para evitá-lo. É o caso das ações pecaminosas a cuja conclusão a alma se opõe. Por exemplo, quando os órgãos sexuais

foram estimulados e a alma precisa intervir para impedir os pecados da carne. Ou, igualmente, quando se fez uma promessa de jejum e os órgãos digestivos reclamam

alimentos, a alma intervém para evitar a tentação de comer.


PARTE SÉTIMA Do amor e do pecado

Para exemplificar o que digo, nada ilustrará melhor minha exposição do que o que concerne ao amor. Erroneamente, pensa-se que são as paixões que nos conduzem ao

pecado da carne. A tentação que desemboca nesse pecado nada tem a ver

com as paixões e sim, precisamente, com as ações, posto que é um pecado cuja origem está

no corpo. Temos então que diferenciar o amor, que é um puro atributo da alma, do impulso sexual.

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O amor é uma paixão, pois que tem a sua origem e o seu fim na própria alma, enquanto o impulso sexual tem



uma localização corporal evidente, tanto em sua origem como

em seu fim. Havereis de convir comigo que o amor mais puro é aquele que professamos a Deus.

PARTE OITAVA Da anatomia das mulheres e da moral dos homens

E agora que já disse o que penso acerca da mecânica do corpo e, em linhas gerais, falei-vos sobre a alma, dexai-me explicar uma das premissas que guiou minha pena

em De ré anatômica, que constitui a conclusão de muitos anos de estudos. Certa vez disse: "Se a ciência da moral estuda o proceder dos homens, a anatomia haverá

de reservar para si o estudo do proceder das mulheres". Deixai-me, para explicar-vos esta frase, citar o grande Aristóteles no que diz respeito à procriação. Ele

afirma, em sua Metafísica, que a união dos sexos torna possível a reprodução da seguinte maneira: o sêmen do homem é o que dá ao ser em formação a identidade, a

essência e a idéia, enquanto a mulher fornece unicamente a matéria do futuro ser, ou seja, o corpo. Ê diz o grande Aristóteles que o sêmen não é um fluido material,

e sim inteiramente metafísico. Como ensinou Mestre Aristóteles, o esperma do homem é a essência, é a potencialidade essencial que transmite a virtualidade formal

do futuro ser. O homem leva no sêmen a anima, a forma, a identidade, que faz da coisa matéria viva. O homem, enfim, é quem dá alma à coisa. O sêmen tem o movimento

que o progenitor lhe imprime, é a execução de uma idéia que corresponde à forma do pai, sem que isso

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implique transmissão de matéria por parte do homem. Em condições ideais, o futuro ser tenderá à identidade completa

com o pai: "O sêmen é um organon que

possui movimento em ato." ' "O sêmen não é uma parte do objeto em formação", assim como nenhuma partícula de substância passa do marceneiro ao objeto que ele

elabora para se unir à madeira, nenhuma partícula de sêmen pode intervir na composição do embrião - da mesma maneira que a música não é o instrumento, nem o instrumento

é a música. Não obstante, a música é idêntica à idéia prévia do autor.

PARTE NONA Da inexistência da alma nas mulheres


O que desejo dizer-vos é que, se levarmos esse conceito do grande Aristóteles ao seu extremo lógico, veremos que não há razão para supor a existência de alma nas

mulheres.

Este comentário do anatomista provocou um murmúrio geral na sala. Podiam ver-se assentimentos cá e lá, e mesmo algum gesto involuntário de aprovação entre os membros

da comissão de Doutores.

- Anátema! - gritou o reitor, ficando em pé. -

Quem além do próprio Satã poderia pronunciar

essas palavras... - ia continuar falando, mas nesse

instante descobriu que nenhuma idéia acorria em seu

auxílio. Jamais teria pensado que iria precisar

assumir uma defesa das mulheres. A rigor, não tinha uma

única opinião favorável em relação ao sexo oposto.

O reitor abominava as mulheres.

nota. Aristóteles, Metafísica, VII, 9, 1034b.

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Mateo Colombo não ignorava isso. De modo que aproveitou o longo silêncio que o reitor mantinha para encará-lo, impaciente por conhecer sua opinião a respeito das

palavras que

acabava de pronunciar. - Estais ofendendo o Sagrado Nome da Virgem - foi o que de mais incontestável lhe ocorreu.

Permiti-me recordar-vos que o milagre está vedado ao homem. A Imaculada Concepção é um milagre de Deus operado em Maria. Mas porventura pretendeis que todas as mulheres

concebam como Maria? Vossa Excelência não ignora que Nossa Senhora é única, assim como o é o Filho de Deus. E se o Filho de Deus teve um corpo nesta Terra, tal corpo

foi Maria quem lho deu. Sabeis que não falo do milagre operado em Maria. Mas vejam o exemplo de Eva. Por acaso ofereceríeis a Eva a mesma devoção que professais

a Nossa Senhora? Vossa Excelência tampouco ignora que Deus castigou em Eva todas as suas filhas, por todas as gerações, e que, mesmo depois deMaria, elas parem

com dor. Não podeis confundir a Santa exceção com a culposa regra nascida do pecado original. E digo, como Gregório Magno: "O que devemos entender por mulher senão

a vontade da carne?".

PARTE DÉCIMA Do obscuro proceder feminino


Tudo o que vos disse sobre a alma concerne unicamente aos homens, e não às mulheres. Este é o motivo pelo qual vos digo que, se pretendemos compreender o obscuro

proceder feminino pelo caminho da moral, não chegaremos a resultado algum, pois que nelas não existe alma. E por isso vos digo, também,

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que o único caminho que nos conduz à compreensão do comportamento das mulheres há de ser o da anatomia. E não tenho dúvidas quanto a isso, eis que, como resultado

de minhas extensas

investigações, pude aceder ao descobrimento de um órgão existente na anatomia feminina que cumpre funções análogas à da alma nos homens, que podem facilmente ser

confundidas com o que chamei paixões. Quero dizer-vos que tais paixões não existem nas mulheres, e sim apenas ações que têm sua origem e seu fim no próprio corpo.

As volições que governam o proceder feminino não surgem em nenhuma outra parte além do corpo; mais precisamente, no órgão que mencionei. Alguns metafísicos, e também

alguns anatomistas, tentaram descobrir em que parte do corpo podia albergar-se a alma. Eu vos digo que a alma não tem residência no corpo, deriva ao redor deste

como o faria um anjo. No que concerne às mulheres, se quereis reservar também para elas uma coisa semelhante à alma masculina, devereis, em conseqüência, situá-la

dentro do corpo, tal como se encarna um demônio. E vos digo que esse demônio tem sua morada dentro do corpo, exatamente no órgão sobre o qual, agora mesmo, haverei


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2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
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2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
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